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A Igreja de São João de Alporão em Santarém

João Aníbal Henriques, 21.01.22
 

por João Aníbal Henriques

No final do Século XII, quando Portugal vivia ainda no ímpeto massacrante da sua afirmação nacional, a região do Ribatejo e a Cidade de Santarém foram peça-chave na definição conclusiva das fronteiras e na capacidade de consolidação do País recém-nascido.

No seu esforço para crescer, as zonas da raia assumiram especial importância, não só porque estrategicamente eram pontos vulneráveis a possíveis ataques, como também porque eram zonas de transição que impunham um controle defensivo arreigado e funcionavam como cadinho para o permanente esforço de crescimento territorial.

Santarém, com a sua História antiga e uma tradição assente na capacidade permanente de readaptação política, social e cultural, foi sempre estrategicamente essencial para a formulação dos equilíbrios que permitiram impor Portugal como nação incontestável na Europa de então.

De especial importância, até porque a sua situação junto ao Rio Tejo lhe dava um estatuto de redobrado relevo no contexto dos núcleos urbanos de Portugal, Santarém estruturou-se urbanisticamente a partir das vicissitudes da sua História política, ganhando desde sempre a capacidade de adaptabilidade necessária para cumprir com sucesso esse desiderato.

 

 

A Igreja de São João de Alporão é disso exemplo paradigmático.

Com uma História longa e quase milenar, foi-se construindo e reconstruindo ao sabor das vicissitudes diversas que a foram afectando. A sua espacialidade, muito condicionada pela posição estratégica que assume na entrada do perímetro amuralhado da cidade, foi determinante na concepção dos variados modelos defensivos da capital escalabitana, dela dependendo as estruturas militares que existiam à sua volta e que foram desaparecendo ao longo dos séculos.

Modelo híbrido em termos arquitectónicos, porque representa de forma evidente uma posição de charneira entre o românico e o gótico, pertenceu nas suas origens à Ordem de São João do Hospital, na senda das suas funções de reconquista do território Cristão.

O seu pórtico de entrada, assente em arcaria de origem românica, confere-lhe o peso da vetustez da sua longa História. Mas a rosácea, encabeçando a transição para o goticismo iluminado, confere-lhe uma certa singeleza que em contraste nos remete para os desafios mais inquietantes daquele período da História de Portugal.

 

 

Havendo provavelmente alguma explicação para este tão vincado carácter duplo do monumento escalabitano, o certo é que o abandono da estrutura original românica e o assumir das orientações góticas na redefinição do seu desenho, dota esta igreja de uma aura quase mística no contexto da arquitectura religiosa de então. Obras inacabadas na sua versão inicial, ou eventualmente um qualquer acidente e/ou cataclismo que tenha obrigado à sua recuperação, o certo é que São João do Alporão se define a partir desta duplicidade estética que afecta de forma indelével a cenografia estética da Cidade de Santarém.

Antes de se transformar no notável Museu de Arqueologia que agora é, a Igreja de São João de Alporão foi adaptada a armazém de mercadorias e posteriormente a teatro, depois da extinção das ordens religiosas ter implicado a sua venda em hasta pública a particulares.

Classificada como Monumento Nacional desde 1910, a Igreja de São João de Alporão nunca perdeu o seu valor simbólico na estruturação religiosa do Ribatejo, tendo ajudado a redefinir a linha de pensamento de índole Cristã quando toda a região recuperou em definitivo a estabilidade política necessária para esse efeito.

A Igreja de Nossa Senhora da Graça em Santarém

João Aníbal Henriques, 20.01.22

 

 

por João Aníbal Henriques

 

Magnificamente implantada no coração da Cidade de Santarém, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, comummente designada como Igreja de Santo Agostinho, é um dos mais importantes e impactantes monumentos religiosos do Ribatejo.

O edifício, originalmente construído no Século XIV, é um dos mais belos exemplares da arquitectura gótica em Portugal. Com as suas três naves, iluminadas de forma sublime por um conjunto de janelas em ogiva, apela de forma profunda à concepção mais iluminada de Deus, aqui entendido na inteira perfeição que os raios de luz projectam no espaço.

Na fachada principal, num misto de harmonia e profundidade cénica, o gótico flamejante relembra a audácia expressa igualmente em Santa Maria da Batalha, num cruzamento que sublinha a arcaria da porta com a enorme rosácea duplamente significante no estabelecimento de uma relação profunda com quem vê o monumento a partir da rua mas, sobretudo, para quem dele frui interiormente.

 

 

O espaço onde o edifício foi construído, simbolicamente relevante no contexto da geometria urbana da Cidade de Santarém, pertencia ao primeiro Conde de Ourém, D. João Afonso Telo de Meneses, e a sua mulher D. Guiomar de Vilalobos, que o doaram aos padres mendicantes de Santo Agostinho. Desta maneira, também com um cunho simbólico de relevo, se estabelece a relação entre a fina-flor da aristocracia escalabitana e a deambulante pregação dos frades que aqui se estabeleceram, multiplicando de forma exponencial o apelo à iluminação celestial e estabelecendo uma verdadeira escada de acesso ao céu.

Nesse prisma, é de primordial interesse a interpretação escatológica que deriva do monumento, assente na primeira concepção de um espaço que pretende salvar quem a ele acorre em busca de um laivo de esperança e discernimento…

A Igreja de Nossa Senhora da Graça, nesta vertente de eixo religioso do coração Ribatejano, evoca assim a função mais hermética da Igreja Católica Romana, que assume o apostolado como um desígnio sagrado e, dessa maneira, procura em permanência as estratégias mais céleres para alcançar o sucesso no cumprimento desse desiderato.

Caldeirão alquímico no sentido mais lato da forma que dele emerge, o espaço deste templo organiza-se à semelhança de um portal, orientando o fiel no seu caminho – sempre pessoal e em adoração a Deus – para o céu.

 

 

Aproveitada como panteão privativo da família Telo de Meneses, estando ali sepultados em túmulo duplo o casal de fundadores, a Igreja da Graça é ainda espaço de repouso eterno para Pedro Álvares Cabral, o assumido achador do Brasil.

Pela sua forma, pujança e qualidade histórica e artística, mas também pelo profundo simbolismo que carrega, a Igreja de Santa Maria da Graça, em Santarém, é motivo de grande interesse para todos os que se aventurem na árdua tarefa de conhecer e compreender Portugal.

João Brandão - de Midões ao Limoeiro

João Aníbal Henriques, 20.01.22

 

 

por João Aníbal Henriques

Nos escolhos do tempo, perdidos nos interstícios que vão marcando as sucessivas eras, escondem-se histórias que certamente foram fadadas pelo destino. Insensíveis aos seus protagonistas e aos anseios que dão forma aqueles que as viveram, parecem ser vida com vida própria desenovelando um fio emaranhado que junta sem cerimónia os sonhos, as necessidades do dia-a-dia e os devaneios dos seus protagonistas.

Foi isso que aconteceu com o mítico João Brandão, o denominado “Terror das Beiras”, que em meados do Século XIX se transformou numa das mais extraordinárias lendas do provinciano Português. Em plena guerra civil, quando irmãos se viraram contra irmãos, João Victor da Silva Brandão nasceu em Midões, actual Concelho de Tábua, em março de 1825. Filho de Manuel Rodrigues Brandão, serralheiro de origens humildes, João Brandão depressa deu mostras de grande apetência pela vida pública e pelos interesses dos seus concidadãos.

Profundamente liberal nas suas convicções, marcadas pelo clima de guerrilha permanente em que nas Beiras se viveram as conturbações da guerra, Brandão precisou de ajuda para abrir os seus horizontes de vida e para almejar a influência política com a qual sempre sonhara. Sonhador, sempre enlevado pela ideia do belo, apaixonou-se por D. Ana Eugénia de Jesus Correia Nobre, filha dilecta de uma das muitas famílias aristocráticas que habitavam naquele recanto idílico de Portugal e portadora de um nível de riqueza que contrastava de forma evidente com os parcos recursos da família Brandão.

O seu padrinho político, D. Roque Ribeiro de Abranches Castello Branco, futuro Visconde de Midões, foi presença e desígnio permanente na sua vida, tendo-lhe legado de forma muito evidente o seu fervoroso apoio à causa liberal e aos tempos novos que eles acreditavam terem chegado a Portugal. Esta figura tutelar, que ajudará o jovem João Brandão a comunicar de forma próxima com os principais inspiradores do poder lisboeta, surge em linha com o enorme apoio que o seu pai, Manuel Brandão, dá à causa liberal durante o tempo da Guerra Civil. Com o regresso do Rei Dom Miguel depois da assinatura da Carta Constitucional, a Família Brandão pega em armas contra o absolutismo e dirige nas beiras um enorme movimento de contestação ao absolutismo professado pelo monarca.

Na espiral de violência em que cresceu, João Brandão pôs e dispôs das suas convicções não olhando a meios para garantir o cumprimento dos seus fins. E, se na liberalidade que se instalou em Portugal, tudo parecia acertar-se para fazer dele um dos maiores do reino, a incerteza dos muitos infortúnios que determinaram a criação de uma fama de bandido da qual não mais se conseguiu livrar.

Alvo de um processo movido contra si por muitos daqueles que com ele tinham trilhado os caminhos da vida, até porque no Portugal de então as voltas e reviravoltas políticas determinaram um regime caótico no qual o terror e o medo dominavam o dia-a-dia, João Brandão acabou preso, julgado e condenado pelo crime terrível do assassínio do Padre Portugal.

Sempre clamando pela sua inocência, Brandão esteve preso no Limoeiro, em Lisboa, de onde foi enviado para Angola, já em 1870, como desterrado, e onde morreu uma década mais tarde.

Figura polémica no seu tempo, João Brandão tornou-se uma figura problemática para a História. Porque, para além do ânimo arreigado que sempre demonstrou, e que o envolveu na aura lendária que o acompanha até hoje, foi também um homem de valores e de princípios que colocou à frente daqueles que são os valores basilares da sociedade de então.

João Brandão, o Bandido das Beiras, é santo para uns e bandido para outros. E hoje, 142 anos depois da sua morte, não é ainda possível clarificar de forma definitiva os reais contornos da sua vida política, nem a importância que ele efectivamente teve na sua área geográfica de influência.

 

 

A Ermida de São Miguel em Évora

João Aníbal Henriques, 19.10.21

 

 

por João Aníbal Henriques

São Miguel é o forte e sempre leal defensor dos oprimidos. É ele quem determina o desfecho das grandes lutas interiores, derrotando o mal e promovendo a ascenção dos pecadores em direcção ao céu. Guardião primordial do Trono Celeste, São Miguel é aquele que mais se aproxima do esplendor do Pai, mantendo a liderança dos anjos fiéis e garantido a vitória final contra o mal.

 

 



 

Em Évora, junto ao denominado Páteo de São Miguel, existe uma singela capela que esconde um preciso e ímpar segredo. A Ermida de São Miguel, fundada originalmente no Século XII logo depois da tomada da cidade aos Mouros, apresenta actualmente um traço arquitectonicamente pouco interessante, mercê de várias adaptações e transformações sofridas ao longo dos Séculos, mas guarda consigo a História extraordinária da mítica devoção do primeiro Rei Português ao mais forte de todos os Arcanjos.

Diz a lenda que quando Dom Afonso Henriques se preparava para resgatar a cidade de Santarém à mourama, apareceu no céu aos soldados lusos o braço armado de São Miguel e uma asa. Em virtude desse sinal, o monarca teria decidido ali mesmo criar uma Ordem Militar de Cavalaria que honrasse esse testemunho e que motivasse o exército Português a erguer a sua força através da Fé.

A Ordem Militar de São Miguel da ALA (ou da ASA), cresce assim na sombra da formação mítica da nacionalidade, emprestando-lhe uma aura de misticismo e de intervenção celeste que explica muito do fervor que os pequenos grupos de soldados lusitanos detinham quando empreendiam (e quase sempre venciam) as muitas pelejas que foram necessárias para criar o Estado Independente de Portugal.

Depois da Conquista de Évora, em 1165, Dom Afonso Henriques entrega o velho castelo (provavelmente não mais do que uma pequena fortificação precária situada numa das zonas mais altas da cidade) à Ordem Militar de São Bento de Calatrava, conferindo-lhe igualmente o dever de zelar pela reformulação da estrutura defensiva de Évora e, concomitantemente, pela construção de um templo dedicado ao Arcanjo São Miguel.

A construção, originalmente marcada pela singeleza que sempre surge associada a momentos de grande crise e alvoroço político, manteve o estilo chão tradicional daquela zona do Alentejo e foi-se reformatando aos gostos das várias épocas que se sucederam.

A abside manuelina, que a reconstrução seiscentista deixou intacta, é um dos poucos motivos de interesse formal do edifício, que se estende à escultura Joanina do arcanjo padroeiro.

Classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1939, a Ermida de São Miguel passa actualmente despercebida ao visitante mais distraído. Não só pela simplicidade com que se impõe no seio da monumentalidade extraordinária da cidade, como também pela sua integração no espaço de animação ali concretizado pela Fundação Eugénio de Almeida.

O segredo que guarda, e que poucos eborenses conhecem é, no entanto, muito maior do que a própria cidade, a região ou mesmo Portugal… porque encerra em si próprio o ensejo maior de um alicerce espiritual que deu forma à devoção e que permitiu consagrar o novo País numa Europa convulsa e avessa a esses feitos.

São Miguel Arcanjo, expoente máximo da devoção, encerra a força e a determinação necessárias para que se cumpra Portugal.É nele que reside a esperança e a Fé que Agostinho e outros congéneres colocaram na recupação do esplendor Nacional.

A Ponte Velha de Cheleiros (Mafra)

João Aníbal Henriques, 19.10.21

 

 

por João Aníbal Henriques

O profundo vale de Cheleiros, no actual Concelho de Mafra, surge marcado pelo profundo bucolismo e por um apelo à ruralidade ancestral da região. O rio, calcorreando lentamente os antigos quintais, serviu sempre de manancial do qual depende a sobrevivência daquelas gentes. E lá no meio, usufruindo de uma privilegiada posição de cenário numa paisagem que não deixa ninguém indiferente, a singela ponte velha transmite um carácter de vetustez que potencia os ecos antigos dos passos por ali dados pelos nossos avós.

 

 

Ninguém conhece com exactidão as origens da Ponte Velha de Cheleiros. A tradição popular, provavelmente assente nas muitas histórias que proliferam plenas de encanto, apontam para uma origem romana deste monumento.

E provavelmente terão razão. Até porque, no que à envolvente diz respeito, toda a região está repleta de vestígios da presença romana. E, nesse contexto, natural seria que a rede viária fosse essencial para facilitar o trânsito entre as várias comunidades e, dessa maneira, para sustentar o fluxo comercial que era determinante para o sucesso nesses tempos.

 

 

A ligação entre Mafra e Sintra, ambos pólos de reconhecida influência na estrutura económica romana, determinam a necessidade imperiosa de se transpor o Vale de Cheleiros e a ribeira que o divide a meio. A ponte, com a sua estrutura alicerçada em grandes silhares de excelente emparelhamento, aponta para essa origem construtiva, apesar de muito do seu aspecto actual resultar de sucessivas renovações e adaptações que lhe foram impostas ao longo dos séculos.

Assim, o arco de volta perfeita com provável origem romana, terá sido complementado já durante a Idade Média, pela estrutura actual, na qual, porventura devido à evolução técnica no uso da pedra, foi adossado um tabuleiro em cavalete, com dupla rampa ascendente, sinais evidentes de um trabalho marcadamente medieval.

A reforçar esta teoria, que linearmente nos remete para o dealbar da própria nacionalidade, está o facto de Cheleiros ter recebido Carta Foral emitida por Dom Sancho I em 1195. Esse facto, comprovativo da importância ancestral do povoado, foi certamente determinante para o reforço monumental da localidade, facto que fica plasmado na magnífica Igreja Matriz, provavelmente contemporânea destes factos e na existência de sinais relevantes da existência de uma antiga estrutura amuralhada que defendia as comunidades de ataques inimigos que por ali pudessem passar.

 

 

Mais tarde, já no Século XVI, o Rei Dom Manuel confirma o Foral de Cheleiros, reforçando os vínculos criados no Século XII. E já no Século XVIII, quando em Mafra se constrói o magnífico palácio-convento, Cheleiros terá reforçado a sua importância estratégica por ser canal essencial de passagem para essa nova centralidade.

Classificada como imóvel de interesse público desde 1982, altura em que foi novamente intervencionada e recuperada, a Ponte Velha de Cheleiros é hoje um símbolo incontornável da região, assumindo-se como testemunho histórico de primeira importância para percebermos como se processaram as dinâmicas políticas e sociais nesta região durante os inícios da medievalidade.

É uma visita obrigatória para quem quer conhecer Portugal. 

Villa Romana de Rio Maior – uma pérola com 2000 anos no coração do Ribatejo

João Aníbal Henriques, 20.08.21
 

por João Aníbal Henriques

Ainda não se conhecem os meandros da história que está por detrás da Villa Romana de Rio Maior. Mas há dois mil anos atrás, este era certamente um dos mais importantes núcleos da romanidade ibérica. Os vestígios encontrados até agora, e o excepcional projecto de musealização desenvolvido pela Câmara Municipal de Rio Maior, trazem essa importância para o quotidiano actual, porque este sítio arqueológico, ainda só parcialmente escavado e estudado é já de si uma âncora extraordinária para o turismo nacional e merece uma visita demorada para o usufruto pleno de toda a riqueza do lugar.

 
 

 

Quando Francisco Pereira de Sousa, ainda no Século XIX, anunciou a descoberta de um conjunto singelo de vestígios romanos na então vila de Rio Maior, estava muito longe de imaginar a importância e o impacto que aquele sítio arqueológico haveria de desvendar ao longo dos séculos seguintes.

De facto, e apesar de somente na década de 80 do século passado a Câmara Municipal ter dado início ao processo de escavação arqueológica e de estudo mais aprofundado do espaço, possivelmente motivada pela proximidade ao cemitério e aos vestígios que nesse espaço estavam a ser profusamente encontrados, o certo é que a Villa Romana de Rio Maior rapidamente desvendou a sua importância enquanto repositório maior de informação sobre a vida no actual Ribatejo durante o período da romanização.

 


 

Com uma datação provável (embora ainda provisória) dos primeiros séculos do primeiro milénio d.C., a Villa Romana de Rio Maior faria parte de uma estrutura agrícola de grandes dimensões que abarcaria um perímetro que ultrapassa largamente a parte agora musealizada.

Os vestígios aqui encontrados, dos quais os mais marcantes é a conhecida e emblemática Ninfa, apontam para a existência de um espaço cerimonial e simbolicamente relacionado com os cultos aquíferos e, por extensão, para a ritualística maior da fertilidade. Para aí apontam os muitos vestígios de mosaicos magníficos que atapetavam todo o espaço senhorial, e que estão bem visíveis através da estrutura de visitação agora inaugurada, e sobretudo a extensão cumulativa de significados que estende a simbólica deste espaço até à cristianização do lugar.

A já mencionada proximidade do cemitério municipal é, aliás, tradutora maior desta realidade, uma vez que mantém incólume o carácter sagrado do espaço através dos milénios que decorreram desde a sua construção.

 

 

Aspecto essencial na abordagem ao espaço é a presença já dentro dos muros do cemitério dos restos da torre que terá pertencido à primitiva Igreja Matriz de Rio Maior. Com dedicação a Nossa Senhora da Conceição, a divindade de cariz feminino que dá continuidade aos cultos à fertilidade no seio do panteão romano, este templo seria provavelmente o centro do espaço sagrado da antiga exploração agrícola do Baixo-Império dado não ter sido encontrado até agora o espaço consagrado que certamente teria servido os moradores do local. Destruída pelo terramoto de 1755, a antiga igreja Paleocristã seria datada do Século XII, dado existirem referências documentais a ela no inventário dos bens da Colegiada de Santa Maria da Alcáçova de Santarém.

A continuidade crono-espacial desta ritualística, em linha com o carácter fecundo das crenças tradicionais e dos cultos desenvolvidos nesta região, denota assim a ligação perene das gentes que ali habitaram à terra em que viveram. Interdependentes, até porque a fertilidade do espaço terá sido a razão maior que explica a prosperidade e a riqueza do local, a produção agrícola que envolveria o palácio senhorial agora musealizado seria de tal forma marcante que se estenderia em termos de impacto às principais cidades romanas existentes na periferia.

 

 

Com a sua localização estratégica num espaço central que é quase equidistante a Leiria, Santarém e Lisboa, Rio Maior seria fulcro abastecedor de todas estas cidades, concentrando ali as estruturas que permitiam o movimento e a prosperidade comercial de toda a região.

A qualidade dos materiais arqueológicos encontrados, todos eles denotando e comprovando este pressuposto, reforça a convicção de que ao longo dos últimos dois mil anos, Rio Maior foi sempre pólo aglutinador de vontade e, por isso, centro nevrálgico de desenvolvimento em Portugal.

Com a recente intervenção no local, e com a criação do edifício que permite uma visitação e o usufruto de todo o espólio ali encontrado, a Câmara Municipal de Rio Maior literalmente devolve à população uma das maiores riquezas da cidade, ajudando cada munícipe a conhecer e compreender melhor as suas origens e a identidade da sua terra.

 

 

 Classificada como Sítio de Interesse Público através da Portaria nº 22 de 2014 (publicada no Diário da República nº 7 de 10 de Janeiro desse mesmo ano) esta Villa Romana é, em termos turísticos, um novo museu que transforma também Rio Maior num espaço de visita obrigatória para quem viaja pela região, oferecendo com a pujança e a riqueza deste seu novo espaço motivos acrescidos de interesse para quem quiser vir conhecer outros monumentos e pontos de interesse da cidade e do território municipal.

Tradicional e conservador, o povo de Rio Maior foi sempre capaz de crescer e de se adaptar às mudanças impostas pela evolução e pelo progresso mantendo bem firmes as pontes com o passado que determina as suas origens e os alicerces da sua identidade. Com a redescoberta deste Villa Romana, fica definitivamente comprovada a existência de uma linha muito consistente que em termos culturais estabelece uma relação de significância profunda entre o presente e o passo.

 

 

Até porque só assim, com os pés bem assentes na terra e com a consciência plena das nossas origens, podemos aspirar a um futuro próspero e empreendedor, inabalável pelas vicissitudes que o destino nos imporá.

Está de parabéns a Câmara Municipal de Rio Maior e todas as suas gentes. 

 

Câmara Municipal de Cascais devolve o Parque Natural aos Cascalenses – Novo Trilho da Ribeira das Vinhas

João Aníbal Henriques, 01.08.21

 

 

 

 

A Ribeira das Vinhas, com uma extensão de cerca de 9 kms entre a foz e a nascente, é uma das vias históricas mais importantes de Cascais. Durante muitos séculos, era por ali que chegavam à vila os produtos hortícolas produzidos no sopé da Serra de Sintra, bem como o leite que abastecia a população local. Com a recuperação do antigo trilho saloio, a Câmara Municipal de Cascais cumpre o desígnio ancestral de fazer chegar o Parque Natural de Sintra-Cascais à vila, devolvendo aos Cascalenses a possibilidade de viverem de forma plena e integral a excelência deste seu território…

por João Aníbal Henriques

A edilidade Cascalense chama-lhe a “revolução verde”, dando mote a um vasto conjunto de intervenções de requalificação ambiental que alteram radicalmente a paisagem municipal. Os parques urbanos, cruzados com a renaturalização de muitos cantos e recantos que acumulavam lixo e entulho há muitas décadas, juntam-se a um conjunto de projectos estruturantes desenvolvidos ao longo das principais ribeiras do concelho que, atravessando longitudinalmente o espaço municipal, minimizam os efeitos da diferenciação que existe entre o troço situado a Norte da A5 e aquele que acompanha a linha de costa.

 

 

No último fim-de-semana, cumprindo o programa de iniciativas previstas para o actual mandato autárquico, foi inaugurada a segunda fase do trilho saloio da Ribeiras das Vinhas. Com início simbolicamente colocado no pontão situado na Praia dos Pescadores, no coração da Vila de Cascais, o trilho prolonga-se ao longo de cerca de 8 kms até à Quinta do Pisão, já em plano parque natural, num circuito deslumbrante em termos paisagísticos mas pensado e delineado de forma a assegurar conforto e segurança a todos os que por ali desejem passar.

Com esta iniciativa, que permite calcorrear a pé, de bicicleta ou a cavalo uma das mais bonitas paisagens de Cascais, a Câmara Municipal recupera um dos caminhos mais antigos de Cascais.

 

 

De facto, desde tempos imemoriais que o trilho da Ribeira das Vinhas servia de via principal de acesso à vila. Era por ali, acompanhando o curso da água, que chegavam a Cascais os principais mantimentos hortícolas produzidos na zona saloia ao concelho. E era também pelo mesmo caminho que as lavadeiras carregavam a roupa suja dos cascalenses que era lavada e devolvida aos seus legítimos proprietários utilizando burros que faziam o trajecto sempre carregados.

Ao longo desta via, marcando a paisagem com o picotado branco da pedra calcária, moinhos e azenhas multiplicavam-se, utilizando sobretudo a força da água para a sua actividade alquímica de transmutar os cereais no pão que igualmente alimentava Cascais.

 

 

No que à coesão territorial diz respeito, o novo trilho agora inaugurado prova que é possível ultrapassar os muitos obstáculos artificiais que a urbanidade desregrada impôs a Cascais, gerando um desequilíbrio acentuado entre as várias comunidades que habitam neste espaço. O canal da A5, bem como a via-rápida designada como Terceira Circular, que até agora dividiam o território municipal em duas partes, são literalmente apagadas deste trajecto, oferecendo aos Cascalenses uma ponte natural que lhes abre as portas directamente para o melhor da excelência ambiental existente no espaço municipal.

A recuperação deste caminho, que altera o paradigma urbanístico em vigora há muitos anos e que coloca o parque natural dentro do casco urbano da vila, religa Cascais às suas origens, fomentando a criação de laços perenes entre a sua população e o território e consolidando a Identidade Local. Com uma força quase religiosa, porque recria laços de união que recuperam a génese do sentir municipal, este projecto é assumidamente o mais importante contributo para a qualidade de vida dos Cascalenses desenvolvido nos últimos anos.

 

 

Há um antes e um depois desta inauguração e Cascais revolucionou a sua paisagem com este excelente projecto. E os parabéns, na pessoa do Presidente da Câmara Municipal de Cascais, concentram-se igualmente na Vereadora Joana Pinto Balsemão que efectivamente lidera uma obra grandiosa que vai transformar radicalmente o futuro de muitas das próximas gerações de Cascalenses.

 

 

 

 

 

 

 

Fortaleza de Nossa Senhora da Luz em Cascais

João Aníbal Henriques, 21.06.21
A Fortaleza de Nossa Senhora da Luz e a Torre de Santo António, em Cascais, reabriram ao público no passado dia 13 de Junho para visitação. O monumento, porventura o mais antigo e importante marco da História de Cascais, está na posse do Estado central encontrando-se fechado desde meados da década de 80 do século passado e num estado galopante de degradação. Com esta abertura simbólica ao público, a Câmara Municipal de Cascais permitiu que um grupo de Cascalenses pudesse conhecer e visitar o espaço, através de uma animação histórica protagonizada pela arqueóloga Vera Cardoso. 


Anastasia Raykova apresenta a curta-metragem ELA em antestreia em Cascais

João Aníbal Henriques, 21.06.21
A realizadora russa Anastasia Raykova apresentou em Cascais a sua mais recente curta-metragem. O filme ELA, com Paulo Rocha e Anastasia Everall como protagonistas, foi gravado durante o Verão de 2020 na paisagem magnífica do Guincho. Nesta antestreia a realizadora sublinhou a excelência de Cascais enquanto cenário cinematográfico, agradecendo à Câmara Municipal o apoio concedido e que tornou possível a gravação do filme.