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A Ermida de Nossa Senhora da Cabeça em Évora

João Aníbal Henriques, 17.06.22
 

por João Aníbal Henriques

Existem espaços que se impõem na paisagem. Na maior parte das vezes é a vetustez magnífica da sua fachada ou a opulência da sua decoração que determinam essa capacidade de adaptar a envolvência à sua própria personalidade.

Nas vilas e cidades históricas portuguesas, quase sempre resultantes de um vínculo de índole religiosa que foi determinante no seu nascimento e na sua consolidação no seio da comunidade humana que as habitou, são os espaços sagrados que, através do impacto que têm na construção identitária da localidade, assumem este papel de cadinho maior a partir do qual se organiza tudo o resto.

 

 

Mas não é nada disto que acontece no final da Rua Mendo Estevães, em pleno centro história da mítica Cidade de Évora. O templo, enganosamente intitulado como “ermida”, ou seja, apontando para uma origem num ermo remoto e dado principalmente à interioridade meditativa humilde e despojada, é um espaço de aspecto robusto e solidamente construído dentro do velho casco urbano.

No entanto, nem a monumentalidade da sua construção, nem também o facto de recuperar a sacralidade ancestral que já noutras eras prosperava naquele local, foram suficientes para o impor na paisagem, antes passando quase despercebido perante quem por ali deambula ao sabor dos calores tórridos das tardes estivais.

 

 

A Ermida de Nossa Senhora da Cabeça foi consagrada em 1681 e, nessa altura, conheceu um período de aparente grande pujança e prosperidade. A robustez monumental da sua galilé, reforçada por eventuais estruturas de apoio das quais subsistem vestígios nas pedras velhas que suportam o seu terraço, foi mais tarde complementada com um magnífico painel de azulejos dedicado ao Coroamento da Virgem, que complementa os painéis azulejares da autoria de António de Oliveira Bernardes que decoram o seu interior.

A inovação a Nossa Senhora da Cabeça, de origem espanhola, está profundamente arreigada na piedade popular. Como é comum neste tipo de situações, um ingénuo pastor que calcorreava os ermos da Serra Morena, na Andaluzia, terá ouvido nos desérticos montes por onde andava com o seu rebanho, o som de uma campainha que o parecia chamar. Seguindo esse ruído, entrou numa gruta situada na cabeça de um morro no fundo da qual estava uma formosíssima imagem de Nossa Senhora profusamente iluminada. Ajoelhando-se, o pastor questionou a figura sobre a razão de ser de tal milagre. E Nossa Senhora, com uma voz suave e envolvente definida pela sua geração sagrada, pediu-lhe que contasse nas redondezas a natureza deste milagre, construindo no local uma ermida em sua memória onde todos pudessem ir rezar.

 

 

Na ermida eborense, lançando sobre a envolvente duas sombras cruas, a representação do Sol e da Lua reforçam a sua significação milenar, acentuando a dicotomia entre as sombras e a luz e comprovando a sua origem ancestral. Embora não se sabia exactamente a data de fundação da ermida, e assumindo-se que a consagração já mencionada é somente um dos momentos da sua mais longa existência, pressupõe-se que a sua origem se perca na sacralidade ancestral associada aos cultos longínquos que foram professados naquele mesmo espaço.

E a apontar nesse sentido estão os vários materiais reutilizados na actual construção, comprovando que outros edifícios (ou diferentes formulações do mesmo) terão co-existido naquele lugar ao longo dos séculos.

 

 

Discreta na sua implantação urbana, a Ermida de Nossa Senhora da Cabeça é um magnífico exemplo da arquitectura sagrada de Portugal, mostrando que as principais devoções, quase todas resultados directo da evolução do pensamento e da Fé nas comunidades que as professaram, são superiores aos séculos, Às épocas e às eras, impondo-se no imaginário popular como alicerce principal da sua religiosidade.

E, se por fora parece mera capela perdida no seio da multiplicidade de tempos semelhantes que profusamente enxameiam as ruas de Évora, por dentro a qualidade da sua decoração demonstra bem que era espaço de primeira importância para as gentes do local.

Nossa Senhora da Rocha em Linda-a-Pastora

João Aníbal Henriques, 02.05.22

por João Aníbal Henriques

Por detrás das lendas, muitas vezes escondendo sub-repticiamente os laivos maiores da identidade de um local, estão factos da História que marcam de forma efectiva o sentimento de cidadania e promovem a coesão que é determinante para que as comunidades se imponham equilibradas e saudáveis a bem de todos os que dela fazem parte integrante.

É o que acontece em Linda-a-Pastora, no Concelho de Oeiras, onde a memória colectiva define a Senhora da Rocha como plataforma potenciadora daquele agregado populacional, unido sempre em torno da loca (ou gruta) onde o sagrado e o profano se cruzam a partir de uma devoção sentida à imagem maior da Virgem Maria no seu orago associado aos mistérios da conceição.

 

 

Reza a lenda que em 1822, num mítico dia 28 de Maio, um grupo de crianças locais deambulava pelos campos junto à Ribeira do Jamor em busca de coelhos que lhes fugiam através dos matos que enchiam este local. Um dos animais, despertando a cobiça dos fedelhos, terá ousadamente entrado numa lura de difícil acesso e os rapazes, acicatados pelo desejo de o caçar, entraram atrás dele, desviando os arbustos e os silvados.

Para sua grande surpresa, porque rapidamente se viram envolvidos pelo negrume da escuridão, perceberam que estavam dentro de uma gruta desconhecida e que à sua volta, num registo de terror que lhes potenciava o medo, um grande conjunto de ossadas humanas os contemplava da lonjura das suas vidas ancestrais.

Incrédulos com o achado, e interpretando os ossos que viam como uma alucinação, resolveram trazer alguns para a luz do dia e levaram-nos para as suas casas contando a sua aventura aos aldeãos. Como ninguém acreditou neles, organizou-se então uma nova visita ao espaço com a presença dos adultos que viviam nesse lugar e, para grande surpresa de todos, não só confirmaram o relato das crianças como também encontraram, singelamente perdida no meio das ossadas, uma pequeníssima imagem de Nossa Senhora feita em barro, que imediatamente interpretaram como um sinal da presença divina naquele lugar especial.

 

 

Ajoelhando-se à sua frente em profunda devoção, os fiéis que encontraram a imagem da Virgem Maria deparam-se com novo mistério. Repentinamente, sem que ninguém desse conta disso, a imagem desaparece da sua vista, como se tivesse fugido deles e desaparecesse de forma inesperada. Alvoroçados, procurando perceber o que aconteceu, os devotos acabam por encontrar a imagem pousada numa oliveira situada junto à porta da velha gruta oeirense, interpretando este sinal como sendo a Providência Divina a comunicar com eles.

O sucesso desta história, com ecos insuspeitos que se estenderam até à capital, levaram o Rei Dom João VI a interessar-se pelo acontecido. Procurando controlar o fervor popular e ao mesmo tempo tentando recentrar o potencial da devoção na Sé de Lisboa, o monarca manda transferir a imagem para a capital. Temendo a sublevação popular, são enviadas tropas para acompanhar o processo mas a população, provavelmente condicionada pela presença sagrada que emanava da imagem, manteve a compostura e acompanhou o andar ao longo de todo o percurso.

 

 

Precisamente 71 anos depois da aparição da imagem, agora no mesmo dia 28 de Maio, mas do ano de 1893, conclui-se enfim a obra de construção de uma capela no local onde outrora estava a oliveira onde a imagem reapareceu. Com a presença da Rainha Dona Amélia, que promoveu uma devoção que havia marcado anteriormente os Reis Dom Miguel, Dom Pedro V e Dom Luís I, a consagração do espaço acontece com toda a pompa e circunstância marcando o regresso da singela imagem de barro a terras de Oeiras.

A devoção simbólica a Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, é um dos mais importantes apoios da portugalidade. Transversal a todo o território, a todas as eras da História e a todas as classes sociais e culturais de Portugal, esta ligação perene entre os portugueses e este dogma tardio da Igreja Católica é verdadeiramente ancestral, provavelmente antecedendo historicamente o próprio nascimento real da Mãe de Jesus Cristo.

Os cultos ancestrais da portugalidade, eivados de um apelo permanente à natureza e ao mito da Deusa-Mãe adaptaram-se escatologicamente à ideia do desejado, mito que promove o apelo imaginário a um quadro de futuro que mitiga as maleitas do presente e transfere divinamente para a Mãe Primordial o ónus do acompanhamento e protecção pela qual sempre se ansiou em Portugal.

 

 

Maria, a Virgem Santíssima que alquimicamente transmuta a matéria, conjugando os sonhos da comunidade com as oportunidades que o real vai oferecendo, é devoção profundamente entranhada na Portugalidade. É ela quem determina a construção da escada que salvificamente transporta os seres viventes até ao Céu, sendo por isso mesmo a grande padroeira das causas maiores que se prendem com as angústias determinadas pela existência.

A Senhora da Conceição, que na gruta da Rocha, junto à Ribeira do Jamor, foi sempre a guardiã dos restos humanos dos muitos que por ali viveram as suas vidas ao longo dos séculos, oferece uma réstea de luz para iluminar a escuridão que esta nossa existência fugaz sempre acarreta. Do fundo da caverna, espaço privilegiado para a introspecção e para o pensamento, a Mãe Celeste prepara o neófito para o regresso à luz do Sol e à terra. Até porque é lá dentro, naquele útero primordial onde a vida se estabelece, que o espírito se prepara para o desafio enorme que representa o seu regresso à terra.

 

 

Em Linda-a-Pastora, envolvida pelo carácter idílico de um espaço onde naturalmente a água do Jamor e o verde da floresta original se conjugavam para criar um cenário úbere e pleno de fertilidade, é nesta ponte que se faz entre as crenças e a Fé da comunidade e os desafios próprios do quotidiano e da vida, que se estebelecem os laços essenciais de um espírito de cidadania participada, coerente e significante.

Nossa Senhora da Rocha foi, desde a sua origem, fenómeno de Fé. Movimentou as gentes dos arredores e foi pedra angular na criação da matriz identitária de Linda-a-Pastora e do Município de Oeiras.

O Solar dos Falcões em Cascais

João Aníbal Henriques, 10.03.22

 

por João Aníbal Henriques

Marcada pelo ritmo austero da sua fachada, o Solar dos Falcões, situado no coração do núcleo urbano consolidado de Cascais, é um dos mais importantes e significantes edifícios da vila. Tendo sobrevivido ao grande terramoto de 1755, quando os danos que sofreu não impediram que tenha passado a ser utilizado como substituto da igreja paroquial que, ali mesmo ao lado, havia sido bastante danificada pelo cataclismo, é um dos mais antigos edifícios de Cascais, carregando consigo informações essenciais para compreendermos como era a vila antes das grandes transformações ocorridas a partir de 1870 quando Dom Luís I escolheu este local como estância de veraneio.

De salientar, até porque é bem demonstrativo desta importância, o papel que teve Manuel Rodrigues de Lima, o arrematando da hasta pública que vendeu esta casa e a capela anexa em 1864, na concretização desse projecto de trazer a corte para a vila. Esse seu proprietário, num acto inusitado de entrega ao bem comum, constrói no terreno do velho solar um magnífico teatro dedicado a Gil Vicente que, na magnificência do seu projecto, contrasta de forma evidente com a simplicidade chã que caracterizava Cascais naquela época. E, despertando nos seus contemporâneos a estranheza por tão grandiosa obra num espaço tão desinteressante, depressa se percebe que a mesma fazia já parte de um plano maior engendrado pelas mais importantes e influentes personalidades da vila, das quais faziam parte o dito Manuel Rodrigues de Lima mas também João de Freitas Reis e, principalmente, Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, que com um espírito muito empreendedor foram dotando a vila dos equipamentos necessários para que ela pudesse vir a ser escolhida pelo monarca como destino para o final das suas férias de Verão.

 

 

O Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré, em conjunto com o que resta do seu antigo jardim, apresentam a formulação urbanística que definiu o nascimento e crescimento do casco antigo da Vila de Cascais. A simplicidade dos volumes, contrastando de forma evidente com a riqueza da sua decoração interior, é demonstrativa da influência que teve a arquitectura popular tradicional da região saloia naquilo que foi a consolidação da vila enquanto cerne de afirmação do poder municipal.

O provável instituidor da capela e possível construtor do solar, terá sido Bernardino Falcão Pereira e sua mulher Antónia Felícia Gameiro Feyo que, algures ainda no Século XVII, assumiram este espaço como morada para a família e como jazigo privado.  Foram eles quem, depois de um processo de instalação no território municipal muito marcado ainda pela exploração dos recursos primários da vila, deram origem a uma linhagem familiar que foi determinante na recriação do Cascais da Corte cujas repercussões se sentiram até à actualidade. Pedro Falcão, o saudoso autor da mítica obra “Cascais Menino” era um dos orgulhosos descendentes destes primeiros Falcões, fazendo eco deste legado nas suas obras e nos vários momentos que determinam a sua profusa vida de cascalense.

 

 

Em termos artísticos o Solar dos Falcões possui um importante conjunto azulejar que, com data de 1729, foi pintado pelo Mestre António de Oliveira Bernardes e centra-se numa pintura figurativa de Nossa Senhora da Nazaré a ressuscitar um homem. Os símbolos marianos, que enchem a Capela-Mor, acompanham várias figuras infantis com ligação directa às litanias de Maria, compondo um quadro que complementa de forma evidente a abordagem mariana existente no vizinho Convento de Nossa Senhora da Piedade e o dogmatismo católico que caracteriza a abordagem pragmática expressa de forma visual na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção situada ali mesmo ao lado.

Em termos históricos, e para além da forma como o conjunto monumental evoluiu ao longo da sua longa existência, importa sublinhar a provável utilização desta casa para a assinatura da chamada “Convenção de Sintra”, na qual o General Francês Junot assina a sua rendição perante as tropas inglesas que na mesma altura estavam aquarteladas no edifício dos Condes da Guarda, actuais Paços do Concelho. Importante é ainda, entre 1741 e 1753, a breve ocupação do imóvel por padres da Ordem de São Francisco de Paula que pretendiam utilizar a casa para ali instalar o seu convento em Cascais, e do qual desistiram depois de se aperceberem da existência de condicionantes à posse plena da propriedade.

 

 

Estando a capela classificada desde 1978 como Imóvel de Interesse Público, e o solar como de Interesse Municipal desde 2009, o conjunto composto pelos dois monumentos faz parte integrante da matriz identitária de Cascais e recupera os valores mais importantes da génese de índole rural desta vila piscatória.

Integrada no quarteirão onde o Teatro Gil Vicente impera visualmente, dando o mote para que se perceba como evoluiu historicamente a vila desde meados do Século XIX até à actualidade, o Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré serão porventura as mais abrangentes peças do património cascalense.

O Milagre Salgado de Nossa Senhora da Anunciada em Setúbal

João Aníbal Henriques, 04.03.22
 

por João Aníbal Henriques

Com uma História única que resulta de um conjunto extraordinário de acasos, a Cidade de Setúbal mistura as suas origens com a lenda, recriando um cenário onde o sonho e a realidade dão origem a uma palete de cores que condiciona a realidade e promove uma forma alternativa de ser, de estar e de viver a cidade.

A Igreja de Nossa Senhora da Anunciada é um exemplo paradigmático desta realidade e, traduzindo de forma muito eficaz a génese histórica de Setúbal, funciona aqui como uma espécie de máquina do tempo que nos permite regredir ao longo de muitas gerações para podermos perceber quais foram e como foram as várias eras que definiriam a cidade que hoje encontramos.

Quando a freguesia da Anunciada foi criada, em pleno Século XVI, já a igreja existia e era de tal forma velha e impactante que foi imediatamente transformada em Igreja Matriz. A sua importância no caso antigo da cidade, provavelmente porque as suas origens sagradas deverão ser anteriores à própria cristianização daquele território, foi determinante na forma como urbanisticamente se construíram as casas, as ruas e se definiriam os equilíbrios sociais entre Setúbal e as suas gentes.

Em termos arquitectónicos, a Igreja de Nossa Senhora da Anunciada, com novo orago depois da reconstrução que sofreu em virtude dos estragos provocados pelo grande terramoto de 1755 e a partir daí consagrada à devoção do Sagrado Coração de Jesus, apresenta hoje traços neoclássicos, com decoração barroca, que escondem a sua origem primitiva.

Quando, ainda no Século XIII, uma imagem de Nossa Senhora apareceu a uma pobre mulher que por ali circulava, pedindo-lhe que fosse constituída uma confraria em seu nome, e que a partir dela se instalasse naquele lugar um hospital para apoiar os mais necessitados, já Setúbal possuía mais de 1000 anos de uma História pujante. Pelo mesmo desde a ocupação romana, quando naquela zona se instalaram várias fábricas de salga e conserva de peixe que era exportado para a Península Itálica.

A lenda de Nossa Senhora da Anunciada de Setúbal tem, também ela, alguma coisa de estranho. É que, ao contrário do que acontece com outras aparições congéneres, principalmente aquelas que se prendem com a alimentação das populações que morriam à fome e que geralmente se consagram a Nossa Senhora da Conceição, a história que se esconde por detrás desta lenda prende-se com o fogo e com o poder dissuasor de Nossa Senhora relativamente ao elemento destruir que ele representa.

Enquanto circulava pela praia à cata de lenha para a sua fogueira, a pobre velha que dá corpo à lenda terá trazido um feixe de madeiras que deitou imediatamente para a sua fogueira. Mas, poara seu grande espanto, um pequenbo toro de madeira dos que ela tinha apanhado junto do rio, saltava teimosamente para fora do fogo de cada vez que ela teimava em pô-lo lá dentro. E a velha alertada por tão estranho acontecimento, terá olhado com atenção para o madeiro e percebido que era uma pequeníssima imagem da Virgem Maria que dessa forma parecia comunicar com ela.

Fácil se torna perceber, desta maneira, que tal acontecimento causou alvoroço na cidade. E a imagem de Nossa Senhora, anunciada pela velha a toda a gente como milagre maior que lhe aconteceu, acabou por gerar uma devoção que rapidamente se alastrou pelas gentes de Setúbal, potenciando a criação da confraria e, mais tarde, a construção da igreja e do seu vetusto hospital.

 

 

Nas imediações desta igreja, como se de um farol se tratasse, a vida seguia o seu rumo ligada às artes do mar e à exploração do sal que era riqueza maior naquele Portugal.

O sal de Setúbal, pedra angular da criação e desenvolvimento da cidade, era assim sustento e vida que dali se espalhava por todo o império romano, num movimento porventura milagroso do qual derivava uma forma alternativa de ser e de estar.

Provavelmente por esse motivo, quando a Ordem de Santiago se instalou em Alcácer-do-Sal e em Palmela, Setúbal conheceu o seu grande impulso populacional, para ali sendo enviados os recursos que permitiam aproveitar condignamente e rentabilizar a imensa riqueza que lhe era fornecida pelo Rio Sado.

Nossa Senhora Anunciada era, enfim, o motor a partir do qual se organizavam todos os importantes pilares definidores da vida na cidade e onde os mais necessitados encontravam o amparo de que precisavam nos momentos de maior aflição.

Olhando para a História e para a lenda que a acompanha, fácil se torna perceber o papel determinante que o dito milagre tem na formatação identitária de Setúbal. E, também, a importância que este espaço sagrado teve, tem e terá sempre na determinação daquilo que é a identidade arreigada desta velhíssima capital do sal.

Como disse Jesus: “Vós sois o sal da terra”. E em Setúbal, este sal que é vida, foi anunciado divinamente neste local!

A Igreja de Santa Maria da Graça em Setúbal

João Aníbal Henriques, 24.02.22
 

por João Aníbal Henriques

A cidade de Setúbal, com a sua origem provavelmente pré-histórica, tem uma relação directa e permanente com o Rio Sado. O alimento das suas gentes, bem como a prodigalidade dos seus engenhos, ofereciam condições extraordinárias de vida aos primeiros assentamentos humanos que escolheram este local para viver. Por esse motivo, e também porque o bem-estar geral providenciado pela abundância de recursos não trazia grandes exigências a quem ali morava, o burgo foi crescendo ao sabor das necessidades quotidianas, sem grande ensejo de uma pujança que de nada servia nem acrescentava absolutamente nada ao esforço permanente de angariação de sustento que determinava as leis da vida.

A invocação a Nossa Senhora das Graças, provavelmente de origem muito mais recente, é ela própria tradutora desta ligação milenar que determina a intercessão da Virgem Maria no dia-a-dia dos habitantes. Na sua faceta de defensora dos seus filhos humanos, a Senhora das Graças é a personificação adaptada da Imaculada Conceição de Maria, a Nossa Senhora da Conceição que é simultaneamente Protectora e Rainha de Portugal. Concebida sem pecado, a futura Mãe de Deus – e por extensão mãe divina de todos os homens – faz parte da matriz identitária da grande maioria das cidades portuguesas, carregando consigo um laivo de Fé que é transversal e que, até em última instância, justifica a independência política e o sucesso tantas vezes alcançado por Portugal.

 

 

No caso de Setúbal, em particular, a actual Igreja de Santa Maria da Graça é o resultado da reconstrução concretizada no Século XVI com traço do Arquitecto António Rodrigues. A magnanimidade do projecto, assente na força telúrica emprestada à sua fachada maneirista pelas duas enormes torres sineiras, é demonstrativa da pujança que tinha a sociedade sadina durante esse período áureo dos descobrimentos portugueses, nos quais o porto de Setúbal, bem como a linha de navegabilidade que o Sado definia e que era essencial para a ligação aos mananciais agrícolas daquela zona do Alentejo (veja-se p.e. a História da Herdade da Palma em Alcácer do Sal), acabavam por ser determinantes na capacidade de produzir e de comercializar que eram essenciais para suportar estruturalmente a estrutura dinâmica das próprias descobertas.

Digna de uma nota especial, não só pelo impacto que tem neste projecto, mas também porque simbolicamente ajuda a perceber essa situação verdadeiramente extraordinária no contexto do que foi Setúbal durante esse período virtuoso da História de Portugal, é a intervenção de Mestre José Rodrigues Ramalho na criação da Capela-Mor da igreja, em talha dourada, que em 1697 foi acrescentada ao templo original.

 

 

Nas suas origens documentalmente mais antigas, até porque provavelmente existirão pré-existências neste espaço que permitirão estender a sacralidade do lugar a mais alguns séculos, a igreja original que antecedeu estruturalmente a actual terá sido sagrada no dia de Nossa Senhora da Assunção no ano de 1245.

Em plena Idade Média, terá sido a Igreja de Santa Maria da Graça a definir o perímetro urbanístico da cidade, dela dependendo o surgimento dos primeiros bairros que estenderão a ocupação urbana até ao local onde actualmente se encontra a Praça Bocage, a Poente deste núcleo inicial.

Magnífica no seu enquadramento simbólico, e eminentemente tradutora da significação mais profunda da Cidade de Setúbal no contexto nacional, a Igreja de Santa Maria da Graça é hoje um testemunho muito importante que nos permite compreender melhor a interacção existente entre os recursos disponíveis para uma determinada comunidade humana e a consolidação da sua estruturação identitária a partir de uma concepção do sagrado que lhe define os contornos mais profundos.

As sombras impostas à sua volta pela altura determinada pelas suas torres, ainda hoje significa para os setubalenses a cobertura provida pelo manto de Nossa Senhora enquanto padroeira maior da cidade e de Portugal.  

 

O Edifício dos SMAS de Cascais

João Aníbal Henriques, 17.02.22

 

por João Aníbal Henriques

Actualmente devoluto, depois de em 2012 os serviços das Águas de Cascais terem mudado a sua sede para a Aldeia de Juso, o edifício dos SMAS, situado na Avenida do Ultramar, mesmo no coração da Vila de Cascais, é um dos mais interessantes exemplos da forma como a arquitectura e o urbanismo acompanharam o pujante desenvolvimento do concelho ao longo de toda a primeira metade do Século XX.

 

 

A escolha do arquitecto que o projectou denota igualmente a forma intencional como a expressão urbana de Cascais foi adaptada para incorporar os valores que o Estado havia definido como essenciais para a definição do novo Portugal. Joaquim Ferreira (1911-1966), um dos mais eminentes membros das Belas Artes, defendia uma cisão programática com as perspectivas arquitectónicas vigentes, criticando a visão paradigmática da denominada “Casas Portuguesa” e assumindo-se frontalmente contrário àquilo que ele pragmaticamente chama o “Português Suave”.

E se em termos formais tudo é novo na obra de Joaquim Ferreira, em linha com o modernismo que transversalmente alterou a praxis das cidades portuguesas em meados do século passado, o edifício dos SMAS de Cascais apresenta inovações igualmente ao nível das técnicas e dos materiais utilizados, recriando um palco de linearidade futurista onde a experimentação acabou por se transformar numa espécie de escola com resultados que se espraiam até à actualidade.

 

 

O projecto original deste edifício, assente na eminente funcionalidade programática para o qual ele foi pensado, repercute a linearidade da abordagem que Joaquim Ferreira já havia intentado no projecto do carismático edifício do Cinema São José, junto à Ribeira das Vinhas, que veio substituir as instalações novecentistas da antiga fábrica de conservas de Cascais.

O anteprojecto do edifício, datado de 1961, havia sido previamente aprovado pelo Secretário de Estado das Obras Públicas e foi inaugurado, com pompa e muita circunstância, em 1965, de forma integrada no importante programa comemorativo do 600º aniversário da autonomia de Cascais. A partir dessa altura, com o alto patrocínio das mais altas entidades estatais, torna-se o símbolo funcional de um Cascais assente na visão progressista e moderna que há-de marcar o cunho do município durante mais de quarenta anos.

 

 

Depois deste edifício, quase todas as obras públicas concretizadas em Cascais seguiram este exemplo de maturação desta linha arquitectónica despojada de revivalismos, reformatando a imagem da vila e dotando-a de renovadas condições para assumir o carácter cosmopolita muito marcante que tornou possível uma onda de progresso ímpar afectando de forma positiva e linear quase todas as áreas do território municipal.

Os homens de Cascais que governaram a terra nesta época eram gente empreendedora, com uma capacidade de visão estratégica extraordinária e uma abertura de espírito sagaz que lhes permitiu alcançar um grau de sucesso nunca antes visto no concelho. E o Edifício dos SMAS, respondendo arquitectonicamente a esse desafio, serviu como comprovativo dessa situação perante a sociedade e a generalidade dos portugueses.

A Igreja dos Navegantes em Cascais

João Aníbal Henriques, 02.02.22
 

por João Aníbal Henriques

Marcante na paisagem cénica de Cascais, com os seus altivos torreões a imporem-se na paisagem sobre o caso antigo da vila, a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes (também designada como de São Pedro Gonçalves Telmo ou de Nossa Senhora dos Prazeres) é um dos mais enigmáticos segredos de Cascais.

Nada se sabendo de certo sobre a sua origem, presume-se que a Igreja dos Navegantes tenha sido construída algures no Século XVI por iniciativa dos homens do mar de Cascais. Isto mesmo é alegado por eles quando, nessa mesma altura, através dos seus representantes legais, apelam directamente a Roma e ao Papa queixando-se dos abusos que sofriam por parte da Igreja local.

 

 

Diziam eles que as multas de que eram alvo, e que derivavam das faltas às presenças obrigatórias nas Missas e ao trabalho que faziam ao Domingo, se deviam à necessidade efectiva de angariarem o seu sustento. E que, em contrapartida, haviam construído a suas custas dois conventos, um no Estoril e outro em Cascais, um hospício e duas igrejas (a de Nossa Senhora dos Prazeres e a da Ressurreição de Cristo que caiu com o Terramoto de 1755).

Terá sido este contacto, aliás, o que motivou o Papa Paulo V a conceder a autorização para se pescar aos Domingos e nos dias santos, na perspectiva de que os lucros auferidos nessas ocasiões se destinavam exclusivamente à construção das igrejas e a consolidar o processo de canonização de Frei Pedro Gonçalves Telmo, futuro padroeiro dos pescadores de Cascais.

A única certeza que existe é que a igreja sofreu uma intervenção que visou a sua reconstrução em 1729, conforme o atesta a data dos seus painéis de azulejos, estando ainda in completa em 1755 quando o terramoto novamente lhe abalou os alicerces.

 

 

Em termos estéticos, a Igreja dos Navegantes  que agora temos,  que resultou do segundo processo reconstrutivo iniciado em finais do Século XVIII, e que só foi concluído em 1942 quando foram colocados os dois torreões, situa-se na transição entre o período maneirista e proto-barroco, apresentando como ponto de sublinhado interesse a sua rara planta oitravada que Raquel Henriques da Silva, a grande especialista nesta matéria, considera que “exemplifica o gosto de inovação formal característico daquele período”.

O facto de ter ficado inacabada, sem os detalhes decorativos e estéticos característicos do barroco cascalense, sublinham o seu interesse que, de acordo com a historiadora já referida, depende muito mais do jogo de luz que a sua formulação arquitectónica propicia, do que propriamente do formalismo regular que caracteriza outros monumentos idênticos desta mesma época.

 

 

O seu carácter diferenciador, provavelmente resultante da influência dos frades de Nossa Senhora da Piedade, que orientaram os homens do mar no seu projecto de erguer a igreja, transforma a Igreja dos navegantes num dos mais preciosos monumentos do Património religioso Cascalense.

 

O Espigão das Ruivas e o Porto de Touro na Sacralidade Devocional de Cascais

João Aníbal Henriques, 27.01.22
 

por João Aníbal Henriques

Existem espaços que, independentemente da sua História e/ou da sua monumentalidade, apresentam uma força extraordinária no imaginário colectivo das comunidades. Normalmente, quando assim acontece, a sua História efectiva, baseada nos factos incontornáveis ditados pela documentação existente ou pelos vestígios que a arqueologia recuperou, mistura-se com os mitos que resultam do impacto que o dito espaço tem nas gerações que se vão multiplicando em seu torno.

A sacralidade destes espaços, constrói-se a partir da interpretação que se faz deles. E as comunidades que os vivem, condicionando-os às suas necessidades e ensejos, traduzem normalmente nessas abordagens os resquícios mais profundos da sua própria existência…

O mítico Espigão das Ruivas, situado no limite Ocidental do território municipal de Cascais, em local próximo do Cabo da Roca e em estricta ligação física ao Rio de Touro, que ali desagua misturando-se com o próprio Oceano, é exemplo paradigmático desta realidade, impondo-se no imaginário das populações e reformatando a sua relação com a Serra de Sintra e o com o Atlântico.

 

 

O seu envolvimento plástico e cénico, com as arribas verdejantes ao fundo e em contraste profundo com o azul do mar, mistura-se amiúde com o vento forte que condiciona o acesso e impõe respeito a quem o quer visitar. Mítico, porque inacessível ao comum dos mortais, apresenta características morfológicas especiais que adensam o mistério e promovem essa perspectiva quase irreal de um sonho inconcretizado.

As principais linhas de interpretação do Espigão das Ruivas passam pelo mais básico alinhamento das reais necessidades da vida das suas gentes com os impressivos resquícios das vivências passadas. Os rituais da fertilidade, ancestrais na sua relação com a própria sobrevivência da espécie humana, conjugam-se aqui de forma telúrica com o cruzamento entre as águas do Rio Touro. Oriundo da Serra de Sintra, mais propriamente do planalto de São Saturnino, a Poente da lendária Peninha, onde António Carvalho Monteiro, conhecido como Monteiro dos Milhões, construiu o seu eremitério sagrado sobre as penhas velhas da Senhora da Conceição, o ribeiro desce a encosta de forma livre até se cruzar neste espaço quase inacessível, com as tradições lunares das Ruivas, espécie de ninfas que aproveitam a solidão daquele espaço para por ali prosperar.

A linha de abordagem positiva, aqui consignada à figura mitológica do touro, sinónimo de força, de pujança viril e de masculinidade, junta-se à linha matriarcal e feminina que a Lua lhe dá. E desta ligação natural, simbolicamente traçando o contraste de forças aparentemente antagónicas mas complementares, resulta o movimento que origina a própria vida.

 

 

Com base neste pressuposto, e não se sabendo com exactidão qual foi a origem efectiva da velha estrutura pétrea existente no topo da rocha e com vista directa para a praia, fácil se torna perceber a interpretação linear que dele faz a comunidade. Se a isto juntarmos a longevidade desta situação, porque os vestígios que foram encontrados junto à dita estrutura datam da Idade do Ferro, natural se torna perceber que a extrapolação dos factos converge para aquilo que define as angústias maiores da sobrevivência daqueles que por ali passam.

Ano após ano: século após século; e milénio após milénio, vai-se aprofundando a convicção de que o Espigão das Ruivas é o espaço onde se encontram as respostas efectivas às nossas principais necessidades. E na perspectiva mais devocional do termo, resulta natural o processo de sacralização de um espaço que se presta a uma vivência onde a simbologia impera e que dá sentido a cada um dos detalhes que compõem a nossa existência sagrada.

No choque de contrastes quase de índole eléctrica que este espaço gera, cria-se uma janela de esperança que ajuda de sobremaneira a definir formas alternativas de existência.

E hoje, seja para um passeio deslumbrante através de uma das paisagens mais marcantes de Cascais, ou como mote para uma introspectiva análise recatadamente elaborada a partir de um qualquer anseio, a descida ao Porto de Touro, conjugado com a subida ao Espigão das Ruivas, oferece a quem a faz uma perspectiva diferente do Cascais onde vivemos.

Qualquer que seja o mote, o ensejo, a crença, a fé ou a determinação de quem o faz, este é um passeio que vale mesmo a pena!

O Alto de Santa Eufémia em Sintra

João Aníbal Henriques, 25.01.22
 

por João Aníbal Henriques

Envolvida nas brumas do mito e de uma sacralidade mística que dá forma à própria identidade de Sintra, o Alto de Santa Eufémia, no pico nascente da Serra Sagrada, é um dos mais impressivos recantos daquela montanha ancestral. Os seus seis mil anos de História correm ao sabor de uma vivência sempre muito significante e integram os laivos primordiais que dão forma à essência espiritual de Sintra.

 

Com uma vivência histórica comprovada desde o 4º milénio A.C., o Alto de Santa Eufémia é tradicionalmente considerado como o berço de Sintra. O povoado neolítico ali existente, aproveitando e adaptando-se ao binómio formado pela riqueza do seu manancial de águas e pela situação estratégica do seu plano elevado em relação à envolvência, foi desde a sua origem um espaço fundamental para a definição daquilo que virá a ser a ocupação humana em toda a região Ocidental da península Ibérica.

De acordo com Vítor Manuel Adrião, investigador e historiador especialista na História de Sintra, as origens do culto a Santa Eufémia perdem-se nas origens do próprio tempo, estando relacionadas de forma directa com os cultos de fertilidade associados com a água, num apelo ancestral à Deusa-Mãe, Eufémia, origem simbólica de toda a ritualística Cristã da Senhora que concebe, ou seja, de Nossa Senhora da Conceição.

 

 

Sem grandes registos dos seus primeiros anos de História, até porque nunca se realizaram naquele espaço escavações arqueológicas de largo espectro que permitissem conhecer detalhadamente o que ali se passou ao longo dos muitos milénios de vida que o lugar conheceu, Santa Eufémia de Sintra volta a surgir na historiografia medieval quando o cruzado Osberno descobriu o espaço e a fonte de água que descreve no seu relato sobre a Conquista de Lisboa como sendo rica em propriedades curativas.

Embora não existindo vestígios dessa época, presume-se que a primitiva capela que terá existido no local será desta época, eventualmente ocupando o mesmo lugar onde em momentos anteriores terão existido espaços sagrados com outros cultos e diferentes formas de Fé.

Já no Século XVIII, por ordem do Capitão Francisco Lopes e Azevedo, a aparição no local da própria Santa Eufémia terá sido a razão que determinou a reedificação do templo medieval, readaptando a sua zona de banhos e reforçando o culto que se prolongou até à actualidade.

E sublinhando o carácter místico do espaço, quando o romantismo do Século XIX se impõe, nova intervenção é efectuada no espaço, promovendo a sua identidade estética e transformando-o basicamente naquilo que ele é actualmente. A lápide colocada sobre a porta principal da capela, indicando que as obras foram mandadas fazer anonimamente por um “estrangeiro devoto”, reforça esse secretismo mítico que o investigador Vítor Manuel Adrião atribui como possível obra do Rei Dom Fernando II, marido da Rainha Dona Maria II e membro da linhagem Saxe-Coburgo-Gotha do Norte da Europa.

 

 

Foi o Rei Consorte, aliás, quem recuperou cenicamente a Serra da Sintra, reconstruindo o antigo eremitério da Pena e construindo ali o Palácio que hoje é ex-libris essencial de qualquer visita sintrense. A sua reinterpretação do espaço, em linha com a sua formação cultural de base germânica, é a principal responsável pela recuperação de grande parte da sua lendária sacralidade.

A lenda de Santa Eufémia, com todos os traços de uma intemporalidade que é transversal a estas histórias, carrega consigo os arquétipos mais essenciais do pensamento cultural e religioso de Portugal.

 

 

Rezam as histórias que a tradição oral sintrense perpectuou, que naquele local terá vivido uma antiga princesa de nome Eufémia. No auge da sua juventude, e no fulgor romântico dos seus verdes anos, a Princesa Eufémia apaixonou-se por um rapaz pobre e humilde que vivia nas redondezas. E seu pai, austero do alto do seu poder, determinou a proibição daqueles amores, gerando junto dos nubentes um profundo desgosto que no caso do rapaz terá degenerado numa doença grave a ponto de colocar em risco a sua própria vida. A princesa, incapaz de lidar com a morte provável do seu amado, lembra-se de o levar à fonte ali existente e de o banhar nas águas benignas que tradicionalmente curavam todos aqueles que as utilizavam. E o resultado não se fez esperar. O rapaz recuperou rápida e totalmente das suas maleitas e a princesa, para que ninguém se esquecesse do acontecido, marcou com o seu pé uma das rochas existentes na fonte, deixando uma marca que ali se mantém até à actualidade.

Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 2002, o Alto de Santa Eufémia em Sintra é hoje um importante ponto de peregrinação fazendo parte dos calendários principais da Igreja Católica Romana. A romaria popular que ali acontece durante o mês de Maio, remetendo para as suas origens ritualísticas de índole vegetal, transporta-nos directamente para as linhas Marianas de pensamento, profundamente arreigadas no imaginário colectivo nacional.

A Igreja de São João de Alporão em Santarém

João Aníbal Henriques, 21.01.22
 

por João Aníbal Henriques

No final do Século XII, quando Portugal vivia ainda no ímpeto massacrante da sua afirmação nacional, a região do Ribatejo e a Cidade de Santarém foram peça-chave na definição conclusiva das fronteiras e na capacidade de consolidação do País recém-nascido.

No seu esforço para crescer, as zonas da raia assumiram especial importância, não só porque estrategicamente eram pontos vulneráveis a possíveis ataques, como também porque eram zonas de transição que impunham um controle defensivo arreigado e funcionavam como cadinho para o permanente esforço de crescimento territorial.

Santarém, com a sua História antiga e uma tradição assente na capacidade permanente de readaptação política, social e cultural, foi sempre estrategicamente essencial para a formulação dos equilíbrios que permitiram impor Portugal como nação incontestável na Europa de então.

De especial importância, até porque a sua situação junto ao Rio Tejo lhe dava um estatuto de redobrado relevo no contexto dos núcleos urbanos de Portugal, Santarém estruturou-se urbanisticamente a partir das vicissitudes da sua História política, ganhando desde sempre a capacidade de adaptabilidade necessária para cumprir com sucesso esse desiderato.

 

 

A Igreja de São João de Alporão é disso exemplo paradigmático.

Com uma História longa e quase milenar, foi-se construindo e reconstruindo ao sabor das vicissitudes diversas que a foram afectando. A sua espacialidade, muito condicionada pela posição estratégica que assume na entrada do perímetro amuralhado da cidade, foi determinante na concepção dos variados modelos defensivos da capital escalabitana, dela dependendo as estruturas militares que existiam à sua volta e que foram desaparecendo ao longo dos séculos.

Modelo híbrido em termos arquitectónicos, porque representa de forma evidente uma posição de charneira entre o românico e o gótico, pertenceu nas suas origens à Ordem de São João do Hospital, na senda das suas funções de reconquista do território Cristão.

O seu pórtico de entrada, assente em arcaria de origem românica, confere-lhe o peso da vetustez da sua longa História. Mas a rosácea, encabeçando a transição para o goticismo iluminado, confere-lhe uma certa singeleza que em contraste nos remete para os desafios mais inquietantes daquele período da História de Portugal.

 

 

Havendo provavelmente alguma explicação para este tão vincado carácter duplo do monumento escalabitano, o certo é que o abandono da estrutura original românica e o assumir das orientações góticas na redefinição do seu desenho, dota esta igreja de uma aura quase mística no contexto da arquitectura religiosa de então. Obras inacabadas na sua versão inicial, ou eventualmente um qualquer acidente e/ou cataclismo que tenha obrigado à sua recuperação, o certo é que São João do Alporão se define a partir desta duplicidade estética que afecta de forma indelével a cenografia estética da Cidade de Santarém.

Antes de se transformar no notável Museu de Arqueologia que agora é, a Igreja de São João de Alporão foi adaptada a armazém de mercadorias e posteriormente a teatro, depois da extinção das ordens religiosas ter implicado a sua venda em hasta pública a particulares.

Classificada como Monumento Nacional desde 1910, a Igreja de São João de Alporão nunca perdeu o seu valor simbólico na estruturação religiosa do Ribatejo, tendo ajudado a redefinir a linha de pensamento de índole Cristã quando toda a região recuperou em definitivo a estabilidade política necessária para esse efeito.