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O Convento de Nossa Senhora da Piedade em Cascais (Casas do Visconde da Gandarinha e/ou Centro Cultural de Cascais)

João Aníbal Henriques, 19.09.22

 

 

 

 

por João Aníbal Henriques

A porta de entrada do auditório principal do Centro Cultural de Cascais abre caminho através de uma história longa e profícua de mais de 426 anos de segredos imensos que urge revelar.

As abóbodas incompletas daquela sala, oferecendo ao espaço uma aura mística que mesmo a utilização actual não consegue toldar, são o que resta da Capela onde rezavam quotidianamente os frades do Convento de Nossa Senhora da Piedade.

 

 

E nas paredes envelhecidas pelos séculos, está ainda a Pietá envolvida pelo silhar de azulejos que confirma a sua origem cultual, bem as placas evocativas dos beneméritos que ao longo dos anos foram contribuindo com a sua esmola e trocando a materialidade dos seus bens pelas Missas eternas que lhes garantiam a saúde da Alma…

 

 

Na denominada Capela do Fundador, ali mesmo à entrada do novo restaurante, parecem ainda ouvir-se as vozes tristes dos que acompanharam os seus entes queridos à sua última morada em cerimónias de uma magnificência terrena que contrastava com a singeleza excruciante de quem nem calçado usava. E nas sepulturas abertas no chão, está marcado o brilho da espada, das esporas e os restos da farda de gala de um dos mais importantes cavaleiros desse velho Cascais, mesmo ao lado dos confessionários onde se partilhavam sob sigilo sagrado as tentações de uma vida onde o pecado sempre teima em vingar.

 

 

Na passagem para o antigo claustro, sob o olhar atento do Camões que nasceu dolorosamente das mãos de Mestre Cutileiro, surge marcado a negro o percurso alquímico do deambulatório onde muitas gerações de religiosos descalços cruzavam as suas ladainhas elevando ao Altíssimo as preces mais pungentes das gentes de Cascais.

 

 

Nos vãos das janelas antigas, que abrem agora para sítio nenhum, pressentem-se os raios de luz que emanavam das representações majestosas de Nossa Senhora da Conceição e de Santa Teresa de Ávila, ali mesmo onde o caldeirão alquímico dos frades-filósofos transformava o cobre em ouro e dava ensejo para a retransformação espiritual da comunidade. E na Sala do Capítulo, onde se tomavam as decisões mais impactantes relativas ao futuro da comunidade, estão ainda as janelas que ofereciam aos irmãos uma visão privilegiada sobre a cidadela relembrando-os da ligação ao poder temporal que ela representava.

O céu e a terra ligados numa ponte mística neste convento de Cascais…

O Convento de Nossa Senhora da Piedade, onde em 1594 nasceram e cresceram os primeiros laivos da ciência em Portugal, é hoje o cadinho da cultura em Cascais. E onde há quatro séculos atrás se salvavam as Almas através do deleite proporcionado pela oração permanente e pela proximidade a Deus, crescem agora os espíritos deslumbrados pelo carácter onírico e pela pujança cromática dos muitos artistas que permanentemente ali encontram um palco privilegiado.

 

 

A Igreja de Nossa Senhora de Fátima na Parede

João Aníbal Henriques, 19.09.22

 

 

por João Aníbal Henriques

Em Agosto de 1950, quando o então Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, benzeu a primeira pedra da futura Igreja da Parede, já a localidade tinha uma longa e profícua História, afirmando-se como pilar de modernidade no Concelho de Cascais.

De facto, desde praticamente a chegada da Corte a Cascais, no final do Verão de 1870, que a Parede, antiga São José do Estoril, havia ganho fama de local especial. As suas arribas, com propriedades terapêuticas únicas, eram desde há muito local de cura para diversos males, com especial preponderância para as maleitas dos ossos.

No Hospital de Santana, situado nas falésias confinantes com a Estrada Marginal, o vetusto edifício recebi todos os anos uma população flutuante que ia engrossando à medida em que crescia a fama da localidade. E ao lado, na Clínica Hélio Marítima, mais conhecida pelos locais como a “Casa do Patriarca”, por lá ter vivido no início do Século XX o então Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Sebastião Netto, os tratamentos inovadores alcançavam resultados nunca antes vistos nos locais de tratamento daquelas doenças existentes no Portugal dessa época.

Em ambos os edifícios (no hospital e na Casa do Patriarca) existiam pequenas capelas abertas ao culto popular e era aí que os paredenses se deslocavam para expressarem a sua religiosidade dada a distância considerável que os separava da sua Igreja Paroquial situada nos confins de São Domingos de Rana.

 

 

Era esse, por definição, o problema mais relevante com que se debatia a povoação naquela época. Com valores populacionais crescentes, mercê do crescimento urbano centrado nas suas potencialidades terapêuticas mas, também, do esforço empreendedor de Nunes da Mata, o visionário republicano que havia projectado a fama da Parede além fronteiras, a Parede continuava a pertencer administrativamente à Freguesia de São Domingos de Rana, não possuindo autonomia secular ou religiosa. Os Paredenses, que desde há muito pediam que fosse criada uma freguesia encabeçada pela localidade e uma paróquia que fosse deles, debatiam-se com um problema grave e irresolúvel. As pequenas capelas anexas aos espaços hospitalares não tinham dignidade nem tamanho para servirem de Igreja Paroquial e o templo de São Domingos de Rana, com a sua História longa e uma monumentalidade que expressava bem os laivos rurais da sua implantação, ofuscavam por completo os anseios daquelas progressivas gentes.

Dessa forma, foi a própria população quem tomou a iniciativa de construir na sua localidade uma igreja projectada de raiz que despoletasse, por seu turno, a necessária movimentação em direcção à autonomia paredense. A Comissão de Senhoras Pró-Construção da Igreja da Parede não se poupou a esforços. E, entre saraus musicais, concertos na rádio, festas populares e quermesses, demorou menos de meia década a angariar o manancial necessário para avançar com a obra e para cumprir este seu desiderato maior de dar à Parede um reconhecimento oficial que a povoação ainda não lograra obter.

Contactado o Arquitecto Rebelo de Andrade, que já nessa altura alcançara a fama através da sua participação na preparação de diversos pavilhões oficiais representativos de Portugal nas principais feiras internacionais do seu tempo, o mesmo imediatamente ofereceu os seus serviços gratuitamente, preparando o projecto que surgiria em linha com a modernidade que se associava ao culto ainda muito recente à Virgem de Fátima, cujas aparições haviam despoletado um renovado fulgor para a Igreja Católica depois dos anos conturbados que tinham caracterizado o início do período republicano.

 

 

Com a ajuda do escultor Jorge Barradas, que ficou encarregue da decoração do novo templo, e se dedicou a esculpir as imagens que o haviam de encher, Rebelo de Andrade projectou um edifício de traça modernista com um impacto imenso na paisagem e uma capacidade cénica que influir directamente nas expectativas dos paredenses quando por ele passavam no seu quotidiano. As linhas verticais de cor branca, marcadas na frontaria pelo portal de Jorge Barradas com figuras bíblicas e a imagem de Nossa Senhora de Fátima rodeada por duas pombas brancas, assumiam o apelo à singeleza da Fé paredense, recriando em torno daquele lugar uma mística onde se espraiavam os laivos maiores do culto do Espírito Santo e, por extensão, uma abordagem igualmente assumida e transconsubstanciada na pureza virginal da Mãe de Deus.

Conjugadas as vontades e os meios necessários à sua concretização, foi a igreja inaugurada no dia 1 de março de 1953, no meio de uma festa imensa que juntou naquele espaço todos os paredenses. O culto foi inaugurado no novo templo pelo próprio Cardeal-patriarca Dom Manuel Gonçalves cerejeira que surgiu acompanhado pelo Ministro e pelo Secretário-de-Estado das Obras Públicas, que se reuniram na Parede com as principais autoridades civis, militares e eclesiásticas de Cascais.

 

 

A Igreja Matriz de Grândola

João Aníbal Henriques, 16.09.22
 

 

por João Aníbal Henriques

Integrada na paisagem urbana de Grândola, a Igreja Matriz, com invocação recente a Nossa Senhora da Assunção, é um excelente exemplo da forma como evoluiu a própria localidade. A simplicidade da sua traça, numa apologia assumida ao estilo chão que dá forma à extraordinária expressão arquitectónica do Alentejo, aponta para um sentido neoclássico, porventura resultante das vicissitudes imensas que conheceu ao longo da sua longa História.

Não se conhecendo a sua origem, uma vez que documentalmente a primeira menção a esta igreja data de 1482, quando se efectuou uma campanha de obras que visava contrariar a degradação em que o templo se encontrava, sabe-se que nessa altura o seu orago era Nossa Senhora da Abendada, facto que se alterou já no Século XVI quando lhe foi atribuída a actual designação.

A volumetria que actualmente apresenta, fruto de sucessivas campanhas de obras ali efectuadas pela Ordem de Santiago da Espada, foi determinada pelo visitador-mor da ordem, D. Jorge de Lencastre, Duque de Coimbra, após visita ao espaço em 1513. Nessa altura, em virtude da pobreza original do edifício, a Ordem de Santiago considerou que era pouco digno o carácter campesino da igreja original, com a sua Pia Baptismal feita a partir de uma tina de barro e o chão de terra batida, foi decidida a ampliação do espaço original e a criação de um conjunto de serviços que incluíam basicamente todas as necessidades referentes ao apoio à população.

 

 

A afirmação de Grândola ao longo de todo o Século XVI, quando a pujança fértil das suas terras acabou por ser determinante na criação de excessos de produção que consolidaram a componente mercantil da localidade, traduz-se em sucessivas intervenções na Igreja de Nossa Senhora da Assunção, assim se explicando a riqueza das suas talhas e dos painéis de azulejos que contrastam de forma evidente com a simplicidade do seu traçado.

Nossa Senhora da Assunção, a invocação maior deste período mais recente, aponta simultaneamente para a evolução cultual naquela zona do Alentejo, numa apologia permanente aos mistérios maiores da criação, assertivamente dependentes de um pragmatismo simples expropriado das abordagens mais elaboradas que populações oriundas de outros lugares para ali procuravam trazer. Por isso, para a Senhora da Assunção convergem os interesses, relegando para segundo plano outros tipos de motivações que contradissessem as mais puras formas de expressão da piedade popular. E a nova invocação, sendo ela própria uma assumida ponte entre o carácter mundano da vida comum e o prolixo contexto da religiosidade mais elaborada e exigente das camadas populacionais mais privilegiadas, transforma-se assim no cadinho onde se fermenta uma nova forma de ser e de estar que é determinante para a consolidação do tecido social da própria Vila de Grândola até à actualidade.

Eixo consistente para a estruturação urbana local, a Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Grândola é assim o ponto mais significante da localidade, nele reservando toda a informação relevante para compreendermos o que foi a História daquele local.

As Casas da Câmara de Grândola

João Aníbal Henriques, 15.09.22

 

por João Aníbal Henriques

No Século XVI a região de Grândola conheceu um período de crescimento sem par. Os bons anos agrícolas, transfigurados em colheitas de grande potencial, significaram fartura nos índices de produção locais. E o excesso, suprindo de forma cabal as necessidades alimentícias da população, foram escoadas para o mercado, rentabilizando assim a energia despendida no trabalho e reforçando o valor estratégico de toda a região.

Em 1544, a povoação recebeu a sua Carta de Foral, criando assim as bases da sua autonomia administrativa e, por consequência, todas as obrigações e responsabilidades que normalmente correspondiam aos municípios.

 

 

Este esforço, necessário para enfrentar os vários desafios políticos e económicos que acompanharam o crescimento e consolidação da estrutura municipal, exigiam infraestruturas de que a terra não estava dotada. E, para fazer face a essas necessidades, recebeu o município as devidas autorizações para iniciar a construção de raiz de um complexo que fosse capaz de albergar as instalações da Câmara Municipal, as dependências do tribunal e, no seu piso térreo, prisões masculinas e femininas, acompanhadas por habitação para albergar o carcereiro.

Assim, depois de muitos esforços para conseguir recolher os valores necessários para esse avultado investimento, iniciaram-se em 1725 as obras de construção das novas Casas da Câmara que, sem a monumentalidade de outros edifícios congéneres situados noutros concelhos, são bem demonstrativos da periclitante situação em que sempre viveu este município alentejano. A pouca qualidade dos materiais utilizados, e o carácter precário da obra de construção, obrigou à realização de várias obras de manutenção e requalificação ao longo do tempo.

 

 

E em 1755, quando o Grande Terramoto abalou de sobremaneira a estrutura construída da localidade, o edifício ficou profundamente danificado, gerando nova necessidade de recolha de dinheiro para fazer face às imensas despesas de recuperação. É nessa altura que a Coroa assume uma quota-parte das mesmas e, para viabilizar a intervenção urgente que era necessário fazer na construção, oferece ao município a quantia de 664.397 Réis, quantia com a qual se realizou a intervenção e que recuperou o edifício.

Depois de a câmara ter crescido e consolidado a sua importância no contexto municipal alentejano, já em pleno Século XX, o município arrendou outro espaço para instalar os serviços municipais. E as velhas Casas da Câmara, mercê do restauro da Comarca de Grândola, em 1919, foram cedidas para a instalação do tão almejado tribunal.

Pelas suas características urbanas e pelo desenho extraordinário das suas ruas, a Vila de Grândola é hoje um ex-libris da História do Alentejo. E se o final do Século XX lhe consolidou as memórias, sobretudo acentuadas pela ligação perene do município às alterações impostas pela revolução, trouxe também a Grândola um cunho de serenidade que se impôs na paisagem envolvente, transformando-a numa das mais atractivas de Portugal.

Miguel Pinto Luz Empossado como Académico da ALA – Academia de Letras e Artes

João Aníbal Henriques, 09.09.22

 

O Engº. Miguel Pinto Luz, Vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, foi empossado como académico da ALA – Academia de Letras e Artes. O recém-empossado, como formação académica nas áreas da engenharia informática e da liderança, tem-se dedicado a estudar aprofundadamente as estruturas de suporte à sociedade do futuro. É essa área, aliás, que deu mote ao seu mais recente livro, no qual aborda caminhos transversais que garantam um futuro coeso e sustentável em Portugal, alicerçado no seu trabalho enquanto autarca no Concelho de Cascais. A mobilidade urbana, associada à coesão territorial é pedra angular na construção de uma sociedade mais justa e plena, oferecendo a todos os cidadãos as ferramentas necessárias para que se garanta o acesso a níveis de qualidade de vida que sejam sinónimo de felicidade.  No dicurso de apresentação a Academia de Letras e Artes sublinhou a expectativa de poder contar com o contributo crítico e empreendedor de Miguel Pinto Luz para reforçar a sua capacidade de intervenção no panorama social e cultural da comunidade. Nesta cerimónia tomaram ainda posse como novos académicos da ALA o Dr. Pedro Gomes Sanches, a Drª. Júlia Nery, a Drª. Dulce Rodrigues e o Dr. Bonifácio Ricardo José.

 

 
 
 
 

 

 

Dom Simão do Santíssimo Sacramento Pedro Cota Falcão Aranha de Sousa e Menezes – “Cascais Menino”

João Aníbal Henriques, 29.06.22
 
 
 
Foi sentida a homenagem prestada a Dom Simão Aranha, o ilustre escritor Cascalense que assinava com o pseudónimo Pedro Falcão, por ocasião da apresentação da terceira edição da sua obra-prima “Cascais Menino”. A iniciativa, promovida pela Fundação Pedro Facão & Yanrub, na pessoa da sua Presidente Mariana de Sande e Castro Campbell e pela União de Freguesias de Cascais e Estoril, na pessoa do seu Presidente Pedro Morais Soares, contou com a apresentação da vida e da obra do autor por João Aníbal Henriques. A galeria da Junta de Freguesia de Cascais, onde se partilharam as histórias e as memórias que o inesquecível Dom Simão Aranha deixou como legado aos vindouros da sua terra, não obedeceu a planos nem seguiu nenhum guião previamente definido. Cumprindo a sua vontade, vagueou sorrateiramente, como se fosse um menino, pelas aventuras que dão forma à magia de Cascais e das suas gentes. A aura de Cascais, como dizia a sua mulher Dona Ana Maria Burnay Aranha no prefácio0 da primeira edição, em 1980, assentava na capacidade única que Pedro Facão tinha para anular o curso do tempo. Acreditava ele que no palco da sua cabeça havia espaço para fazer reviver as figuras e as desventuras de todos aqueles que fizeram parte da sua infância. “Cascais Menino”, sem uma cronologia que permita considerá-lo como História, é a obra que melhor enquadra a diferença de Ser Cascalense. É leitura obrigatória para todos quantos desejem mergulhar na Alma desta terra.
 
O Livro pode ser adquirido na Livraria Galileu ou através do website da Fundação Pedro Falcão & Yanrub AQUI
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografias da União de Freguesias de Cascais e Estoril
 
 

 

Conceição Valdez Telles de Menezes com Timor no Coração

João Aníbal Henriques, 18.06.22
 
 

Domingo, dia 18 de Junho de 2022, foi um dia especial na Casa Sommer em Cascais. 25 anos depois da inauguração da exposição sobre o seu avô na saudosa Universidade Moderna, em Lisboa, Maria da Conceição Valdez Telles de Menezes apresentou publicamente o seu livro “Com Timor no Coração”. A obra, que recupera as memórias familiares da autora, cumpre o propósito principal de ultrapassar as garras inexoráveis do tempo, trazendo para o presente os feitos alcançados pelos seus antepassados e recuperar a capacidade que tiveram de honrar e respeitar as ligações profundas que criaram com Timor e com os Timorenses. Com apresentação por João Aníbal Henriques, Joaquim da Cunha Roberto e Pedro Teixeira da Mota, a cerimónia contou ainda com a inesperada intervenção de Maria Ângela Carrascalão, antiga Ministra da Justiça de Timor Lorosae, que trouxe à sala um laivo sentido de homenagem ao legado deixado naquele território pelos Portugueses. Com este fechar de ciclo, Conceição Valdez eterniza a memória dos seus ancestrais, perpectuando no tempo e ao longo das próximas gerações a imensa herança de memória que recebeu dos seus avoengos.

 

 
 
 
 
 

A Ermida de Nossa Senhora da Cabeça em Évora

João Aníbal Henriques, 17.06.22
 

por João Aníbal Henriques

Existem espaços que se impõem na paisagem. Na maior parte das vezes é a vetustez magnífica da sua fachada ou a opulência da sua decoração que determinam essa capacidade de adaptar a envolvência à sua própria personalidade.

Nas vilas e cidades históricas portuguesas, quase sempre resultantes de um vínculo de índole religiosa que foi determinante no seu nascimento e na sua consolidação no seio da comunidade humana que as habitou, são os espaços sagrados que, através do impacto que têm na construção identitária da localidade, assumem este papel de cadinho maior a partir do qual se organiza tudo o resto.

 

 

Mas não é nada disto que acontece no final da Rua Mendo Estevães, em pleno centro história da mítica Cidade de Évora. O templo, enganosamente intitulado como “ermida”, ou seja, apontando para uma origem num ermo remoto e dado principalmente à interioridade meditativa humilde e despojada, é um espaço de aspecto robusto e solidamente construído dentro do velho casco urbano.

No entanto, nem a monumentalidade da sua construção, nem também o facto de recuperar a sacralidade ancestral que já noutras eras prosperava naquele local, foram suficientes para o impor na paisagem, antes passando quase despercebido perante quem por ali deambula ao sabor dos calores tórridos das tardes estivais.

 

 

A Ermida de Nossa Senhora da Cabeça foi consagrada em 1681 e, nessa altura, conheceu um período de aparente grande pujança e prosperidade. A robustez monumental da sua galilé, reforçada por eventuais estruturas de apoio das quais subsistem vestígios nas pedras velhas que suportam o seu terraço, foi mais tarde complementada com um magnífico painel de azulejos dedicado ao Coroamento da Virgem, que complementa os painéis azulejares da autoria de António de Oliveira Bernardes que decoram o seu interior.

A inovação a Nossa Senhora da Cabeça, de origem espanhola, está profundamente arreigada na piedade popular. Como é comum neste tipo de situações, um ingénuo pastor que calcorreava os ermos da Serra Morena, na Andaluzia, terá ouvido nos desérticos montes por onde andava com o seu rebanho, o som de uma campainha que o parecia chamar. Seguindo esse ruído, entrou numa gruta situada na cabeça de um morro no fundo da qual estava uma formosíssima imagem de Nossa Senhora profusamente iluminada. Ajoelhando-se, o pastor questionou a figura sobre a razão de ser de tal milagre. E Nossa Senhora, com uma voz suave e envolvente definida pela sua geração sagrada, pediu-lhe que contasse nas redondezas a natureza deste milagre, construindo no local uma ermida em sua memória onde todos pudessem ir rezar.

 

 

Na ermida eborense, lançando sobre a envolvente duas sombras cruas, a representação do Sol e da Lua reforçam a sua significação milenar, acentuando a dicotomia entre as sombras e a luz e comprovando a sua origem ancestral. Embora não se sabia exactamente a data de fundação da ermida, e assumindo-se que a consagração já mencionada é somente um dos momentos da sua mais longa existência, pressupõe-se que a sua origem se perca na sacralidade ancestral associada aos cultos longínquos que foram professados naquele mesmo espaço.

E a apontar nesse sentido estão os vários materiais reutilizados na actual construção, comprovando que outros edifícios (ou diferentes formulações do mesmo) terão co-existido naquele lugar ao longo dos séculos.

 

 

Discreta na sua implantação urbana, a Ermida de Nossa Senhora da Cabeça é um magnífico exemplo da arquitectura sagrada de Portugal, mostrando que as principais devoções, quase todas resultados directo da evolução do pensamento e da Fé nas comunidades que as professaram, são superiores aos séculos, Às épocas e às eras, impondo-se no imaginário popular como alicerce principal da sua religiosidade.

E, se por fora parece mera capela perdida no seio da multiplicidade de tempos semelhantes que profusamente enxameiam as ruas de Évora, por dentro a qualidade da sua decoração demonstra bem que era espaço de primeira importância para as gentes do local.

Nossa Senhora da Rocha em Linda-a-Pastora

João Aníbal Henriques, 02.05.22

por João Aníbal Henriques

Por detrás das lendas, muitas vezes escondendo sub-repticiamente os laivos maiores da identidade de um local, estão factos da História que marcam de forma efectiva o sentimento de cidadania e promovem a coesão que é determinante para que as comunidades se imponham equilibradas e saudáveis a bem de todos os que dela fazem parte integrante.

É o que acontece em Linda-a-Pastora, no Concelho de Oeiras, onde a memória colectiva define a Senhora da Rocha como plataforma potenciadora daquele agregado populacional, unido sempre em torno da loca (ou gruta) onde o sagrado e o profano se cruzam a partir de uma devoção sentida à imagem maior da Virgem Maria no seu orago associado aos mistérios da conceição.

 

 

Reza a lenda que em 1822, num mítico dia 28 de Maio, um grupo de crianças locais deambulava pelos campos junto à Ribeira do Jamor em busca de coelhos que lhes fugiam através dos matos que enchiam este local. Um dos animais, despertando a cobiça dos fedelhos, terá ousadamente entrado numa lura de difícil acesso e os rapazes, acicatados pelo desejo de o caçar, entraram atrás dele, desviando os arbustos e os silvados.

Para sua grande surpresa, porque rapidamente se viram envolvidos pelo negrume da escuridão, perceberam que estavam dentro de uma gruta desconhecida e que à sua volta, num registo de terror que lhes potenciava o medo, um grande conjunto de ossadas humanas os contemplava da lonjura das suas vidas ancestrais.

Incrédulos com o achado, e interpretando os ossos que viam como uma alucinação, resolveram trazer alguns para a luz do dia e levaram-nos para as suas casas contando a sua aventura aos aldeãos. Como ninguém acreditou neles, organizou-se então uma nova visita ao espaço com a presença dos adultos que viviam nesse lugar e, para grande surpresa de todos, não só confirmaram o relato das crianças como também encontraram, singelamente perdida no meio das ossadas, uma pequeníssima imagem de Nossa Senhora feita em barro, que imediatamente interpretaram como um sinal da presença divina naquele lugar especial.

 

 

Ajoelhando-se à sua frente em profunda devoção, os fiéis que encontraram a imagem da Virgem Maria deparam-se com novo mistério. Repentinamente, sem que ninguém desse conta disso, a imagem desaparece da sua vista, como se tivesse fugido deles e desaparecesse de forma inesperada. Alvoroçados, procurando perceber o que aconteceu, os devotos acabam por encontrar a imagem pousada numa oliveira situada junto à porta da velha gruta oeirense, interpretando este sinal como sendo a Providência Divina a comunicar com eles.

O sucesso desta história, com ecos insuspeitos que se estenderam até à capital, levaram o Rei Dom João VI a interessar-se pelo acontecido. Procurando controlar o fervor popular e ao mesmo tempo tentando recentrar o potencial da devoção na Sé de Lisboa, o monarca manda transferir a imagem para a capital. Temendo a sublevação popular, são enviadas tropas para acompanhar o processo mas a população, provavelmente condicionada pela presença sagrada que emanava da imagem, manteve a compostura e acompanhou o andar ao longo de todo o percurso.

 

 

Precisamente 71 anos depois da aparição da imagem, agora no mesmo dia 28 de Maio, mas do ano de 1893, conclui-se enfim a obra de construção de uma capela no local onde outrora estava a oliveira onde a imagem reapareceu. Com a presença da Rainha Dona Amélia, que promoveu uma devoção que havia marcado anteriormente os Reis Dom Miguel, Dom Pedro V e Dom Luís I, a consagração do espaço acontece com toda a pompa e circunstância marcando o regresso da singela imagem de barro a terras de Oeiras.

A devoção simbólica a Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, é um dos mais importantes apoios da portugalidade. Transversal a todo o território, a todas as eras da História e a todas as classes sociais e culturais de Portugal, esta ligação perene entre os portugueses e este dogma tardio da Igreja Católica é verdadeiramente ancestral, provavelmente antecedendo historicamente o próprio nascimento real da Mãe de Jesus Cristo.

Os cultos ancestrais da portugalidade, eivados de um apelo permanente à natureza e ao mito da Deusa-Mãe adaptaram-se escatologicamente à ideia do desejado, mito que promove o apelo imaginário a um quadro de futuro que mitiga as maleitas do presente e transfere divinamente para a Mãe Primordial o ónus do acompanhamento e protecção pela qual sempre se ansiou em Portugal.

 

 

Maria, a Virgem Santíssima que alquimicamente transmuta a matéria, conjugando os sonhos da comunidade com as oportunidades que o real vai oferecendo, é devoção profundamente entranhada na Portugalidade. É ela quem determina a construção da escada que salvificamente transporta os seres viventes até ao Céu, sendo por isso mesmo a grande padroeira das causas maiores que se prendem com as angústias determinadas pela existência.

A Senhora da Conceição, que na gruta da Rocha, junto à Ribeira do Jamor, foi sempre a guardiã dos restos humanos dos muitos que por ali viveram as suas vidas ao longo dos séculos, oferece uma réstea de luz para iluminar a escuridão que esta nossa existência fugaz sempre acarreta. Do fundo da caverna, espaço privilegiado para a introspecção e para o pensamento, a Mãe Celeste prepara o neófito para o regresso à luz do Sol e à terra. Até porque é lá dentro, naquele útero primordial onde a vida se estabelece, que o espírito se prepara para o desafio enorme que representa o seu regresso à terra.

 

 

Em Linda-a-Pastora, envolvida pelo carácter idílico de um espaço onde naturalmente a água do Jamor e o verde da floresta original se conjugavam para criar um cenário úbere e pleno de fertilidade, é nesta ponte que se faz entre as crenças e a Fé da comunidade e os desafios próprios do quotidiano e da vida, que se estebelecem os laços essenciais de um espírito de cidadania participada, coerente e significante.

Nossa Senhora da Rocha foi, desde a sua origem, fenómeno de Fé. Movimentou as gentes dos arredores e foi pedra angular na criação da matriz identitária de Linda-a-Pastora e do Município de Oeiras.

O Solar dos Falcões em Cascais

João Aníbal Henriques, 10.03.22

 

por João Aníbal Henriques

Marcada pelo ritmo austero da sua fachada, o Solar dos Falcões, situado no coração do núcleo urbano consolidado de Cascais, é um dos mais importantes e significantes edifícios da vila. Tendo sobrevivido ao grande terramoto de 1755, quando os danos que sofreu não impediram que tenha passado a ser utilizado como substituto da igreja paroquial que, ali mesmo ao lado, havia sido bastante danificada pelo cataclismo, é um dos mais antigos edifícios de Cascais, carregando consigo informações essenciais para compreendermos como era a vila antes das grandes transformações ocorridas a partir de 1870 quando Dom Luís I escolheu este local como estância de veraneio.

De salientar, até porque é bem demonstrativo desta importância, o papel que teve Manuel Rodrigues de Lima, o arrematando da hasta pública que vendeu esta casa e a capela anexa em 1864, na concretização desse projecto de trazer a corte para a vila. Esse seu proprietário, num acto inusitado de entrega ao bem comum, constrói no terreno do velho solar um magnífico teatro dedicado a Gil Vicente que, na magnificência do seu projecto, contrasta de forma evidente com a simplicidade chã que caracterizava Cascais naquela época. E, despertando nos seus contemporâneos a estranheza por tão grandiosa obra num espaço tão desinteressante, depressa se percebe que a mesma fazia já parte de um plano maior engendrado pelas mais importantes e influentes personalidades da vila, das quais faziam parte o dito Manuel Rodrigues de Lima mas também João de Freitas Reis e, principalmente, Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, que com um espírito muito empreendedor foram dotando a vila dos equipamentos necessários para que ela pudesse vir a ser escolhida pelo monarca como destino para o final das suas férias de Verão.

 

 

O Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré, em conjunto com o que resta do seu antigo jardim, apresentam a formulação urbanística que definiu o nascimento e crescimento do casco antigo da Vila de Cascais. A simplicidade dos volumes, contrastando de forma evidente com a riqueza da sua decoração interior, é demonstrativa da influência que teve a arquitectura popular tradicional da região saloia naquilo que foi a consolidação da vila enquanto cerne de afirmação do poder municipal.

O provável instituidor da capela e possível construtor do solar, terá sido Bernardino Falcão Pereira e sua mulher Antónia Felícia Gameiro Feyo que, algures ainda no Século XVII, assumiram este espaço como morada para a família e como jazigo privado.  Foram eles quem, depois de um processo de instalação no território municipal muito marcado ainda pela exploração dos recursos primários da vila, deram origem a uma linhagem familiar que foi determinante na recriação do Cascais da Corte cujas repercussões se sentiram até à actualidade. Pedro Falcão, o saudoso autor da mítica obra “Cascais Menino” era um dos orgulhosos descendentes destes primeiros Falcões, fazendo eco deste legado nas suas obras e nos vários momentos que determinam a sua profusa vida de cascalense.

 

 

Em termos artísticos o Solar dos Falcões possui um importante conjunto azulejar que, com data de 1729, foi pintado pelo Mestre António de Oliveira Bernardes e centra-se numa pintura figurativa de Nossa Senhora da Nazaré a ressuscitar um homem. Os símbolos marianos, que enchem a Capela-Mor, acompanham várias figuras infantis com ligação directa às litanias de Maria, compondo um quadro que complementa de forma evidente a abordagem mariana existente no vizinho Convento de Nossa Senhora da Piedade e o dogmatismo católico que caracteriza a abordagem pragmática expressa de forma visual na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção situada ali mesmo ao lado.

Em termos históricos, e para além da forma como o conjunto monumental evoluiu ao longo da sua longa existência, importa sublinhar a provável utilização desta casa para a assinatura da chamada “Convenção de Sintra”, na qual o General Francês Junot assina a sua rendição perante as tropas inglesas que na mesma altura estavam aquarteladas no edifício dos Condes da Guarda, actuais Paços do Concelho. Importante é ainda, entre 1741 e 1753, a breve ocupação do imóvel por padres da Ordem de São Francisco de Paula que pretendiam utilizar a casa para ali instalar o seu convento em Cascais, e do qual desistiram depois de se aperceberem da existência de condicionantes à posse plena da propriedade.

 

 

Estando a capela classificada desde 1978 como Imóvel de Interesse Público, e o solar como de Interesse Municipal desde 2009, o conjunto composto pelos dois monumentos faz parte integrante da matriz identitária de Cascais e recupera os valores mais importantes da génese de índole rural desta vila piscatória.

Integrada no quarteirão onde o Teatro Gil Vicente impera visualmente, dando o mote para que se perceba como evoluiu historicamente a vila desde meados do Século XIX até à actualidade, o Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré serão porventura as mais abrangentes peças do património cascalense.