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cascalenses

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São Martinho de Palma (Alcácer do Sal) e o Apelo à Pureza Original

14.02.19, cascalenses

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Ali mesmo, onde começa a paisagem enorme do Alentejo, encontra-se a velhíssima Aldeia de Palma com a sua vetusta igreja paroquial e um inusitado apelo a uma visita sã e demorada em linha com o apelo visual imposto pela magnitude do edifício e pelo contraste ineludível relativamente à singeleza da povoação envolvente.
 
E apesar de se saber pouco acerca das origens mais remotas desta localidade, que já foi sede de freguesia e outrora ficou conhecida como o maior dos latifúndios Portugueses, sabe-se desde logo que a grandeza e opulência da sua igreja contrasta em definitivo com a humildade quase pagã das muitas casas que a envolvem.
 
 
 
 
Acontece assim, numa dicotomia que se repete vezes sem conta por Portugal fora, basicamente porque a grandiosidade do templo espelha a riqueza imensa da terra onde o mesmo foi construído, hoje pejado de sobro e de arroz, mas outrora conhecido pela sua fertilidade pródiga que deu corpo a lendas e histórias que fazem parte da própria história de Palma.
 
É o caso das meloas, que já no Século XIX foram cantadas como as mais doces de Portugal, como já outrora outros produtos haviam trazido fama grande a este local.
 
 
 
 
Ligada de forma absoluta ao nome do empresário José Maria dos Santos, que em meados do Século XIX adquiriu a propriedade original ao Conde do Sabugal por setenta e cinco contos mercê de um processo de litígio judicial que literalmente depauperou o proprietário original, Palma cresceu desmesuradamente durante esse período. O novo proprietário, detentor de conhecimentos tecnicamente avançados e de uma capacidade empreendedora pouco usual no Portugal de então, não só se entusiasmou com a tarefa de acrescentar mais terras à terra que já tinha, como ainda introduziu técnicas modernas nas práticas agrícolas que ali concretizou. Os novos adubos, duplicando a capacidade de produção, permitiram potenciar o valor da terra e a antiga herdade, habituada a viver ao ritmo lento e sentido do Alentejo de outros tempos, depressa se transformou num negócio próspero e pujante, afirmando-se como exemplo para outros empreendedores nacionais.
 
Toda essa nova dinâmica teve repercussões na própria igreja local e é ainda hoje visível para quem a visita. O painel azulejar dedicado a São João Baptista, está datado de finais do Século XIX e acompanha a alteração do orago original do templo.
 
Originariamente dedicada a São Martinho, com notícias documentais que comprovam a sua existência pelo menos desde 1544, quando o ermitão João Rodrigues aqui viveu, a velha ermida foi crescendo ao sabor do crescimento da própria propriedade e adquire a sua volumetria inusitada actual pela mão de João Maria do Santos, que lhe dedicou uma parte da riqueza que Palma lhe conferiu.
 
 
 
 
Destruída quase por completo com o terramoto de 1 de Novembro de 1755, a velha ermida perdeu totalmente as suas características originais com o processo da reconstrução, sendo actualmente virtualmente impossível provar factualmente a sua lendária origem do Século XIII.
 
Mas não deixa de ser irónico que o dedicatória original a São Martinho, o Santo-Menino que, encaminhado para a vida de soldado, oferece metade da sua capa de Inverno para proteger um menino pobre com quem se cruzou durante uma intempérie primaveril, tenha evoluído para a maior propriedade de Portugal, numa trajectória onde o apelo à pureza original se verga de forma inclemente à necessidade de afirmação terrena e material.
 
 
 
 
Palma, outrora na rota de todos aqueles que anualmente rumavam de Lisboa para o Algarve, fica ali a meio caminho entre Águas de Moura e Alcácer-do-Sal, na Estrada Nacional que sucumbiu perante a imponência da nova auto-estrada que atravessa Portugal. Mas merece o desvio, a visita e o deslumbramento de um lugar pequenino e singelo mas detentor de uma História sem igual.