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cascalenses

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O Obelisco da Memória em Angra do Heroísmo e a Guerra Civil Portuguesa

João Aníbal Henriques, 24.10.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Um dos piores flagelos que afectou Portugal ao longo da sua História, foi a guerra civil, decorrida entre 1828 e 1834, que opôs os reis e irmãos D. Miguel e D. Pedro IV numa luta fratricida que quase destruiu o País.
 
D. Pedro de Alcântara de Bragança, filho primogénito do Rei Português D. João VI, recebeu em 1820 a incumbência do seu pai de ficar no Brasil em seu nome, com a função de príncipe regente. Devia, durante a ausência do pai na metrópole para tratar dos assuntos relacionados com a Revolução Liberal, representar a Coroa de Portugal nas terras de além-mar. Mas, pressionado pelos liberais Portugueses a regressar à metrópole e a fazer regredir o estatuto autonómico do Reino do Brasil, o príncipe cede aos interesses da antiga colónia e, num acto de traição da Portugal, é aclamado Imperador do Brasil, no dia 12 de Outubro de 1822, depois de ter proclamado a independência do novo reino num episódio que passou a designar-se como o “Grito do Ipiranga”.
 
 
 
 
A solução de governabilidade e sucessão encontrada depois da morte de Dom João VI, passava pela colocação no trono Português da sua neta D. Maria da Glória, filha primogénita do seu filho brasileiro, que deveria desposar, para garantir o sustento jurídico do seu vínculo Real, o seu tio Dom Miguel de Bragança. Dado que a legislação em vigor não permitia que um só monarca acumulasse dois tronos e a praxis jurídica Portuguesa determinava o ‘Grito do Ipiranga’ como um acto de traição à Pátria fazendo cessar quaisquer direitos sucessórios que o seu promotor pudesse ter, este acordo adaptava-se às circunstância e selava-se assim um pacto que garantia a soberania de Portugal e do Brasil, ao mesmo tempo que se acautelavam os interesses das duas Nações no xadrez político que estava a definir novas fronteiras no Mundo de então.
 
Mas, como nem sempre a linearidade dos acontecimentos se compadece com as necessidades do dia-a-dia, os interesses específicos do Brasil, de França e da Inglaterra, misturados ainda com o clima de tensão que nunca se diluiu relativamente à presença Holandesa em terras de Vera Cruz, acabaram por determinar uma alteração substancial nos compromissos políticos assumidos. O Imperador do Brasil, com o apoio dos liberais ingleses, cujos interesses eram muitos e muito variados em Portugal, recebeu a incumbência de recuperar a Coroa Nacional, alegando que o seu irmão, entretanto aclamado Rei pelo povo português, havia quebrado o pacto e o juramento feito à Carta Liberal.
 
 
 
 
Dom Miguel, de espírito vivo e de coração profundamente vincado pelos interesses da Nação Portuguesa, não acatou as ordens do irmão brasileiro e recusou responder de forma cabal aos interesses ingleses. E o resultado, de todos bem conhecido, foi uma guerra civil terrível que dividiu o País em dois e que teve como principal consequência um estado de permanente dependência relativamente a Inglaterra.
 
Quando as Cortes de 1828 aclamaram Dom Miguel como Rei de Portugal, num acto de autonomia relativamente àquilo que haviam sido os principais laivos da determinante movimentação liberal que afectou o País nesta época, passaram a estar em causa um conjunto de leis que haviam sido definidas por países estrangeiros com interesses diferentes daqueles que eram os dos Portugueses de então. Dom Miguel, expressão completa daquilo que sempre havia sido a pedra angular da Portugalidade, representava assim um renovado sopro de independência do País relativamente a interesses terceiros, possivelmente deixando antever ainda alguns resquícios da essência nacionalista que resultou da Revolução de 1640.
 
O regresso à política municipalista, recuperando práticas antigas do Portugal de antanho, foi uma das medidas mais populares tomadas pelo novo Rei. Dando um passo atrás e recuperando valores associados ao absolutismo, renegando políticas estrangeiradas que haviam entrado em Portugal através de organizações de índole sobretudo inglesa e francesa e que nada tinham a ver com a tradição local, Dom Miguel alcança o apoio incondicional do povo, da nobreza tradicional e da Igreja. Mas o esforço diplomático internacional levado a cabo pela Coroa, querendo fazer reconhecer o rei, apenas consegue o apoio dos recém-nascidos Estados Unidos da América e do Vaticano, tendo-se debatido com o firme silêncio das restantes nações europeias.
 
 
 
 
O seu irmão, Imperador Dom Pedro I do Brasil, por seu turno, desenvolve contactos no mesmo sentido com os mais importantes movimentos liberais e para-maçónicos da Europa. Tendo conseguido o seu apoio, que tinha como principal objectivo o recuperar desses valores políticos liberais, acaba por abdicar do trono brasileiro, onde deixou o seu filho mais velho que foi aclamado como Imperador Dom Pedro II do Brasil, e regressa a Portugal com o objectivo de usurpar o trono.
 
A guerra civil entre absolutistas e liberais, apoiantes de Dom Miguel e de Dom Pedro, começa assim a dilacerar o País, impondo um clima de terror absoluto que vai mudar durante muitos anos a existência dos Portugueses. Começando por ser favorável aos miguelistas, que contavam com o apoio da maior parte dos Portugueses, o rumo da guerra mudou de forma inexorável quando Dom Pedro recebe o apoio dos ingleses. Depois de desembarcar nos Açores, onde transformou a Ilha Terceira e a Cidade de Angra no seu quartel-general, Dom Pedro lança uma série de ofensivas bem conseguidas contra o exército Português, alcançando vitórias que acabarão por ser vitais para o controle efectivo de Portugal.
 
A dureza das batalhas, bem documentada através da longevidade que a sua memória alcançou, teve o seu apogeu precisamente no Arquipélago dos Açores, que serviu de cenário para alguns dos seus mais ensanguentados episódios.
 
Na capital da Ilha Terceira, a força dos combates foi tão grande que o Rei D. Pedro IV, depois de recuperar o controle do trono, decide alterar o nome da cidade. A velhinha cidade de Angra, ganha então o epíteto ‘do Heroísmo’, que passa a integrar-lhe o nome com o objectivo expresso pelo rei de não deixar esquecer o heroísmo dos soldados liberais que ali apoiaram a sua causa.
 
 
 
 
No Alto da Memória, num flanco sobranceiro à cidade de Angra do Heroísmo, existe ainda hoje um estranho obelisco de forma piramidal, conhecido como o “Obelisco da Memória” que recorda essas batalhas. Erigido em 1856, foi feito com pedras retiradas do antigo Castelo dos Moinhos e integrando uma pedra trazida do porto da cidade, que teria sido lendariamente a primeira pedra pisada pelo Rei Dom Pedro IV quando chegou à Ilha Terceira.
 
A sua estética profundamente maçónica, com a sua estrutura piramidal que não nega a sua origem estrangeira, assenta numa vasta e complexa estrutura simbólica que traduz de forma muito assertiva o conjunto de valores e princípios que determinaram o apoio europeu ao Rei Dom Pedro. É essa influência, aliás, que melhor explica a dicotomia entre um país que genericamente apoiava o seu rei absoluto, Dom Miguel, e que se confrontou com as movimentações liberalizantes que pouco ou nada tinham a ver com as práticas reais em Portugal.
 
 
 
 
Mais do que a evolução das mentalidades que sustentavam a Coroa de Portugal, o obelisco piramidal do Alto da Memória, em Angra do Heroísmo, é a chave que permite interpretar as muitas mudanças que o País conheceu daí em diante e que, na sua generalidade, se prolongam até hoje no devir quotidiano dos Portugueses.
 
Deve ser visitado e conhecido, num esforço de interpretação que deixa antever aquilo que outrora foi Portugal.

O Triste Estado do Forte da Cadaveira em São João do Estoril

João Aníbal Henriques, 17.10.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Conhecido oficialmente como Forte de São Teodósio ou da Cadaveira, o Forte d’Assubida, como popularmente é designado, situa-se a Nascente da Praia da Poça, em São João do Estoril, numa as margens da Ribeira da Cadaveira.
 
 
 
 
A estrutura, de cunho simples e desenhada com o objectivo de ser eficaz, foi erguida durante o período das Guerras da Restauração, logo depois de 1640. Integrando-se numa linha defensiva de larga escala contra as tentativas de reconquista do poder luso por parte dos exércitos espanhóis, o Forte de São Teodósio defendia a enseada da Praia da Poça, em fogo cruzado com o Forte Velho, situado na outra margem da ribeira. Deste plano de defesa da Costa de Lisboa, que se prolongava desde São Julião da Barra até ao Cabo da Roca, faziam parte mais de uma dezena de fortificações de várias dimensões, adaptando-se a orografia dos terrenos onde foram construídas.
 
O Forte da Cadaveira, com planta quadrangular semelhante às restantes, apresenta um pátio central a partir do qual se distribuíam os espaços interiores. Os quartéis e o paiol, sustentando um terraço de onde se obtém uma das mais extraordinárias vistas dos Estoris, viram a sua segurança reforçada, já em pleno Século XVIII, com a construção de três guaritas que passaram a permitir o patrulhamento nos principais ângulos de acesso à praia.
 
 
 
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público desde Setembro de 1977, o Forte da Cadaveira conheceu uma história atribulada e nada linear. Depois de ter sido desactivado das suas funções militares, em 1843, o edifício foi entregue à Santa Casa da Misericórdia de Cascais que, por sua vez, o cedeu a um particular. Este, por seu turno, devolveu-o à Misericórdia que em 1942, depois do início das obras de construção da Avenida Marginal, o entregou à Guarda Fiscal, que aí se instalou até época recente. Já neste século, o edifício veio parar às mãos da Câmara Municipal de Cascais que prontamente anunciou um projecto para o local. Mas, por qualquer motivo que possivelmente alguém conhecerá, foi agora completamente abandonado, com a porta aberta e o interior acessível a todo o tipo de destruição.
 
O cenário que hoje apresenta o Forte da Cadaveira é dantesco. A porta destruída abre o espaço para o pátio coberto de lixo e de restos de fogueiras. E os alojamentos, ainda há pouco tempo em excelente estado de conservação, estão agora completamente destruídos, alguns com sinais de incêndio e os restantes cobertos de lixo nauseabundo e de seringas usadas. A bateria, de onde é possível observar a passagem magnífica do local, está praticamente coberta de entulho e o cheiro a fezes, combinado com os restos de refeições já apodrecidos e com centenas de garrafas partidas, torna praticamente impossível visitá-la.
 
 
 
Não existem palavras para descrever o estado em que se encontra este edifício classificado e que faz parte do património Cascalense. Responsáveis pela situação actual haverão certamente. E é deles a responsabilidade pela destruição da memória e da identidade dos Cascalenses.
 
 
 
 
 

Nossa Senhora da Conceição da Abóboda em Cascais

João Aníbal Henriques, 03.10.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O dogma da Imaculada Conceição faz parte dos mais ancestrais arquétipos da Portugalidade. Praticamente desde a fundação da nacionalidade, provavelmente recuperando laivos de Fé que nos chegam desde o princípio dos tempos, que a Senhora da Conceição está directamente ligada aos mais importantes acontecimentos que regem a História de Portugal.
 
 
 
 
Em termos oficiais, foi no dia 8 de Dezembro de 1325, a pedido da Rainha Santa Isabel e por proposta do Bispo Dom Raimundo de Coimbra, que Nossa Senhora da Conceição foi decretada Padroeira de Portugal. Anos mais tarde, depois da Restauração da Independência Nacional, o Rei Dom João IV consagrou Portugal a Nossa Senhora da Conceição, sendo que desde essa altura, num reconhecimento perene à sua intervenção relativamente ao destino de Portugal, nenhum monarca Português voltou a usar a Coroa, colocada na imagem venerada em Vila Viçosa.
 
Também em 1385, na chegada ao trono da Dinastia de Avis, é Nossa Senhora da Conceição que corporiza a devoção principal de Portugal. Dom João I, Mestre de Avis, bem como o seu braço direito, o Condestável D. Nun’Álvares Pereira, dedicam a Nossa Senhora as suas vitórias e consagram-lhe o País numa profunda devoção. O Mosteiro de Santa Maria da Batalha, por um lado, e o Convento do Carmo, por outro, utilizam como sustentáculo de Fé precisamente o despojamento total relativamente à materialidade e uma entrega plena à Divindade. O Condestável, do alto do imenso poder político e económico que havia conquistado, entrega mesmo a sua vida, os seus bens e a sua própria identidade a Nossa Senhora, tendo morrido como simples Frei Nuno de Santa Maria, num exercício de despojamento total que representa a consagração profunda de Portugal ao seu novo estado.
 
 
 
 
Em Cascais, são vários os espaços de culto dedicados a Nossa Senhora da Conceição e geralmente relacionados com espaços de raiz rural, nos quais a memória colectiva preserva lembranças de antigos milagres onde a principal marca é a transmutação da matéria. Numa abordagem eminentemente alquímica relacionada com a importância de Nossa Senhora na defesa dos mais pobres e dos mais desesperados, numa linha que entronca nos milagres atribuídos à Rainha Santa, simultaneamente mulher do Rei Dom Dinis e zeladora dos interesses (leia-se conhecimentos) templários preservados em Portugal através da Ordem de Cristo, Nossa Senhora da Conceição intervêm directamente junto da comunidade Cascalense, interferindo positivamente no seu quotidiano e provocando alterações profundas na prática religiosa desta Nossa Terra.
 
Na localidade da Conceição da Abóboda, junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, Nossa Senhora apareceu a uma pobre e esfomeada pastora que por ali andava a tomar conta do seu rebanho. Pedindo-lhe que se dirigisse à vizinha localidade de Freiria, enquanto ela própria zelava pelos animais do rebanho, Nossa Senhora indicou à pastora um forno de pão ao qual se deveria dirigir para pedir alimento. Ali chegada, a pastorinha explicou à forneira que a Senhora lhe tinha aparecido e pedido que colocasse para si um pouco de pão no forno. Esta, zombeteira e não acreditando na criança, põe no forno uma bola minúscula de massa que, depois de cozer se transforma num enorme pão. Não o querendo entregar, repete a operação com uma quantidade de massa ainda mais reduzida, mas o fenómeno volta a repetir-se de igual maneira. E numa terceira tentativa, colocando no forno uma míseras migalhas de farinha que dão origem ao maior pão jamais cozido naquele forno, a padeira apercebe-se da estranheza do que estava a acontecer e convence-se de que fora efectivamente a Senhora da Conceição que ali estava a intervir.
 
Simultaneamente, perto do local onde havia ficado o rebanho, um fidalgo local andava a caçar lebres. Um acidente, no entanto, fez com que a sua espingarda tivesse rebentado com um tiro mas, milagrosamente, sem lhe provocar qualquer espécie de ferimento. Tentando perceber o que se passava, o senhor encontra a pastorinha e a forneira que lhe contam o que se havia passado, tendo ele mandado erguer uma pequena ermida no local onde aparecera Nossa Senhora, como agradecimento pela sua intervenção miraculosa no acidente que sofreu.
 
 
 
 
A Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda é, assim, um testemunho físico extraordinário da ligação precoce que o povo de Cascais tem à Padroeira de Portugal, numa expressão de singeleza profunda que segue em linha com o apelo ao despojamento que o culto mariano expressa na sua origem sagrada.
 
De linhas simples e com elementos decorativos de índole profundamente rural, a capela apresenta uma só nave, onde sobressai a pedra tumular datada de 1579 mandada construir por Frei Gonçalo de Azevedo e o remate do arco de acesso ao Altar no qual se podem ver as cruzes da Ordem de Malta, à qual pertencia o frade fundador. No corpo da capela, merece especial destaque a imagem de Nossa Senhora do Ó, de origem desconhecida mas certamente de origem ainda medieval, entroncando no culto provavelmente pré-Cristão que evolui até chegar precisamente à Senhora da Conceição.
 
 
 
 
A singeleza da velhinha Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda contrasta de forma extraordinária com a grandeza do significado profundo que ela agrega e, sobretudo, com a sua importância na definição da Identidade Cascalense. Assumindo que a própria Nacionalidade depende das bases de sustentação ao nível da cultura e da espiritualidade, facilmente se percebe que a Capela da Abóboda é peça essencial do património municipal de Cascais.
 
Deve ser conhecida, reconhecido e valorizada.
 
A bem de Cascais!

Património de Cascais - Memórias Antigas da Nossa Terra

João Aníbal Henriques, 20.09.16

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Na semana em que Cascais se prepara para comemorar o património, oferecendo à sua população a possibilidade rara de visitar peças que fazem parte da identidade Cascalense e que estão normalmente fechadas ao público, importa recuperar este que é um dos temas mais importantes para a Nossa Terra.

 

Entre 1993 e 2000, a Fundação Cascais preparou o “Levantamento Exaustivo do Património Cascalense”  O trabalho agregou um conjunto de seis bases de dados (uma por cada freguesia) com um total de 2900 fichas patrimoniais e cerca de 500 páginas de sugestões e propostas que tinham como principal objectivo recriar um instrumento de trabalho profícuo para a administração municipal.

 

O L.E.P.C. foi publicado em versão electrónica através de um suporte em CD-Rom, tecnologia de ponta naquela época, facto que se tornou possível depois do apoio que a instituição recebeu da Câmara Municipal de Cascais para esse efeito, tendo sido distribuído gratuitamente em todas as bibliotecas e escolas do município.

 

Infelizmente, 16 anos depois dessa publicação, uma parte substancial das peças patrimoniais inventariadas pela Fundação Cascais já desapareceu. Algumas foram destruídas pela fúria do betão e deram lugar a espaços incaracterísticos que todos conhecemos; outras desapareceram como consequência da ruína que resultou do seu abandono; e outras tantas, embora devidamente classificadas, foram “esquecidas” pelo poder político, vendo desaparecer todo o potencial turístico, cultural e social que ainda possuíam.

 

Em 2003, quando a Fundação Cascais publicou a sua revista dedicada ao património, fez-se o ponto-de-situação em que nos encontrávamos… Isabel Magalhães, então presidente do Conselho de Fundadores, dizia que “a inventariação e a posterior classificação dos imóveis com valor, é o primeiro passo que se deve seguir para combater a degradação”. Filipe Soares Franco, o então presidente do Conselho de Administração, sublinhava que “apesar de ter sido notório o apoio da sociedade civil a esta causa, os partidos políticos ignoraram o apelo, criando assim as condições que permitiram a delapidação patrimonial de Cascais”. Pedro Luís Cardoso, tesoureiro da instituição, dizia que “sem património e sem memória fica comprometida a vocação turística de qualidade de Cascais” e João Aníbal Henriques, coordenador do projecto, explicava que “no ano 2000, quando a Fundação Cascais entregou à Autarquia o ‘Levantamento Exaustivo do Património Cascalense’, com seis bases de dados e cerca de 2900 imóveis inventariados, deixou de existir desculpa para o desconhecimento que se alegava noutros tempos”.

 

Tantos anos depois, quando muitos dos imóveis que constam no Levantamento Patrimonial realizado pela Fundação Cascais já são história e não passam de memórias difusas de alguns Cascalenses, vale a pena voltar a percorrer cada uma destas fichas e destas fotografias que ainda se encontram por aí em bibliotecas espalhadas por esse País fora.  Por ali se encontram os laivos oníricos de um Cascais que soçobrou perante os muitos interesses que permanentemente se digladiam à sua volta, mas também os pilares indestrutíveis de um edifício de cidadania que dignifica a Nossa Terra.

 

 

Clique AQUI para reler a Revista Fundação Cascais dedicada ao Património Cascalense

 

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Pax Júlia e o Castelo de Beja

João Aníbal Henriques, 19.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
São muito raras as cidades, sejam elas situadas no actual território Português ou fora dele, que podem orgulhar-se de ostentar um topónimo tão significativo como Beja. O actual nome da cidade, recuperando o topónimo ancestral (provavelmente pré-histórico) do local, deriva da palavra baja, ou seja, lama ou lodo, trazendo à memória a fertilidade excepcional dos terrenos agrícolas que envolvem a cidade. Mas, durante o processo de romanização, iniciado provavelmente no primeiro século antes de Cristo, adquiriu a designação latina de Pax Julia. O pax reverte para o processo de pacificação das populações célticas que foram invadidas pelos romanos, e o epíteto Julia tem a ver com o nome do Imperador que deu forma a esse processo de paz: Júlio César.
 
Beja é, por isso, cidade simultaneamente de paz e de fertilidade, ou seja, tem tudo aquilo de que o Ser Humano necessita para viver bem e usufruir da sua vida! A planície alentejana, dourada pelo restolho quente que dá forma e corpo ao ciclo agrícola, perpetua no tempo os valores antigos de gerações e gerações de Portugueses que se vão substituindo umas às outras neste espaço imenso.
 
E a História de Beja é longa e profícua. Inicia-se provavelmente durante a pré-História, como o indicam os muitos vestígios arqueológicos existentes nas redondezas, e afirma-se de forma peremptória durante o calcolítico quando ali foi construído um povoado fortificado que ocupava o espaço onde hoje se situa o castelo.
 
 
 
Quanto a este, altaneiro a partir das suas muralhas antigas, é produto da evolução dos tempos e das necessidades pelas quais foram passando os muitos pacenses que foram habitando o lugar. Se as primeiras pedras foram colocadas ainda antes da História, tendo-se perdido o seu rasto nos complicados repositórios da memória popular, certo é que os laivos da fortificação mais resistente serão de origem romana. André de Resende, o historiador quinhentista de Évora, assegura, embora sem fontes fidedignas que o atestem, que o local onde hoje se situa o castelo de Beja foi outrora ocupado por um oppidum romano, ou seja, uma fortificação de carácter simples e planta circular, cuja principal função seria a de proteger aqueles que governavam a cidade.
 
O próprio Júlio César, cumulado de glória por ter conseguido conquistar os anteriores habitantes do local, subjugando-os pela força do seu exército mas também pelo carácter imperioso da cultura que o Império Romano representava, terá estado ali para formalizar a paz que conseguira assegurar. O período romano, foi assim uma época de grande prosperidade para a cidade, que foi simultaneamente sede de convento – o Conventus Pacencis – e sede de uma das chancelarias da Lusitânia. Por ali passava uma das principais vias romanas, que permitia a ligação directa à capital do Império, corporizando um impulso urbanístico cujos vestígios são ainda hoje visíveis um pouco por toda a cidade.
 
 
 
O declínio do Império Romano e a sua progressiva desagregação, sendo sinónimo de uma diminuição paulatina do poder detido pelos invasores, representou também ele o início de um período de maior instabilidade no actual território alentejano e, por extensão, na própria cidade de Pax Julia. Os ataques dos bárbaros, sistemáticos e sucessivos ao longo de vários séculos, traduziram-se em várias conquistas e reconquistas que, como facilmente se percebe, significaram também saques e destruição, delapidando as muitas riquezas que existiam na cidade. Será porventura dessa época o período de maior destruição das muralhas do castelo. Sem tempo nem estabilidade para serem reconstruídas, o processo natural de erosão das mesmas e a incapacidade de se proceder a obras de reconstrução, gerou um processo de ruína acentuado, do qual não escaparam as necessidades práticas e quotidianas de pedras para utilização noutros equipamentos e em casas que foram sendo edificadas. É ainda hoje muito fácil encontrar nas ruas de Beja, casas e muros onde são notórias as grandes pedras retiradas da anterior fortificação da cidade e que, século após século, foram dando forma à urbe que hoje ali encontramos.
 
Já na idade média, durante o domínio árabe, foi Beja novamente retransformada numa das mais importantes cidades do Alentejo. Os ocupantes muçulmanos, ali chegados no ano de 711, propuseram-se recuperar o traçado urbano antigo e é dessa época a transição do topónimo romano – Pax Julia – para a ancestral Baja. No entanto, quer pelas guerras internas, quer possivelmente pelas alteração dos eixos estratégicos dentro do território, não voltou Beja a recuperar a grandiosidade de outros tempos.
 
As notícias mais recentes na História da Cidade e do seu castelo são assim do século XII, quando Fernão Gonçalves, chefiando um grupo de populares oriundos de Santarém, ataca a cidade de surpresa alcançando uma vitória retumbante. Embora tivesse sido sol de pouca dura, porque logo depois os inimigos muçulmanos conseguiram voltar a recuperar a cidade, o certo é que até este primeiro esforço de reconquista mostra bem o estado lastimoso em que Beja se encontrava. Um grupo mal armado e mal preparado, naturalmente motivado pela possibilidade do saque a que a vitória do seu ataque daria direito, avança de forma amadora e despreparada sobre as velhas muralhas e facilmente as consegue conquistar.
 
O regresso ao controle cristão não está devidamente documentado, mas um estudo comparativo com o que aconteceu nas redondezas, permite supor que Beja terá regressado à Coroa Portuguesa algures entre 1232 e 1234, dado terem sido estas as datas em que tal processo aconteceu com as vizinhas cidades de Moura, Serpa e Aljustrel. Mas o seu velho castelo, destruído por sucessivos séculos de ataques e de abandono, só virá a conhecer obras de recuperação com o Rei Dom Afonso III que em 1234 atribuiu o foral à cidade.
 
 
 
O Rei Dom Dinis, depois de confirmar o foral inicial, dedicou-se também à reconstrução do castelo, sendo da sua responsabilidade a generalidade dos amuralhamentos que ali hoje vemos. Foi também ele quem, por necessidades práticas associadas à consolidação da fronteira Nacional, mandou edificar a torre de menagem que é hoje um símbolo de Beja. Com cerca de 40 metros de altura, o que faz dela a mais alta de Portugal, foi concebida de forma similar àquela que existe no Castelo de Estremoz, tendo sido concluída provavelmente durante o reinado de D. João I, o fundador da Dinastia de Avis, à qual Beja se manteve firmemente fiel durante o conturbado processo político de 1383-1385.
 
Depois deste período, novamente no Século XVI se realizam obras no castelo, desta vez para o adaptar às modernas exigências técnicas da guerra, que já não se compadecia com a formulação eminentemente medieval da velha fortificação. Apesar deste esforço modernizativo, Beja foi completamente destruída pelas tropas napoleónicas durante as invasões francesas, tendo depois disso mantido o seu carácter humilde de cidade de província, estatuto que manteve até ao final da primeira metade do Século XX.
 
 
 
 
A partir daí, fruto de uma grande aposta do Estado, Beja conheceu um novo período de crescimento. Viu construídas várias escolas e um grande hospital, tendo recuperado alguma das suas antiga pujança. Para surpresa de muitos, ali se construiu um aeroporto internacional, nos idos de 2011, que apesar de não apresentar movimento (!?) é hoje o ex-libris das modernas obras públicas na cidade!
 
Mantendo nas suas armas municipais a figura do touro, recuperado da velha lenda que nos conta a forma como Beja conseguiu matar uma cobra venenosa que aterrorizava os habitantes da cidade, a urbe é hoje um símbolo muito firme da força e da perseverança que sempre caracterizou as suas gentes, sendo capaz de se afirmar como um espaço de excepcional importância para compreender Portugal e para perceber as origens da identidade Portuguesa.
 
A paz que a cidade ostenta, cobrindo de glória os muitos motivos de interesse para uma visita e a inesgotável fonte de História e de história que a cada canto e recanto representam, são marca indelével de um sentido de Portugalidade que é urgente compreender.

A Capela de Nossa Senhora dos Remédios em Viseu

João Aníbal Henriques, 13.09.16

 

 
por João Aníbal Henriques
 
As memórias antigas de Viseu estão ainda hoje profundamente ligadas ao legado deixado pelo Infante Dom Henrique. O navegador visionário, Mestre da Ordem de Cristo, testemunha o carácter ancestral da ligação de Viseu ao Mundo, numa atitude cosmopolita que contrasta de for evidente com a práxis quotidiana da cidade ao longo dos últimos séculos.
 
O ilustre infante, senhor do Ducado de Viseu, geria os seus domínios a partir do paço que possuía junto à Porta do Soar, do qual terá feito parte, e perto do sítio onde actualmente se encontra a singela Capela de Nossa Senhora dos Remédios.


 
Certamente por mera casualidade, pois o templo foi construído somente em 1742, a capela apresenta uma curiosa planta octogonal, em linha com o que terá sido a planta principal dos templos erguidos pela ordem que o Infante dirigia, complementada com um altar de talha polícroma composta a partir de um conjunto de índole tardo-barroca.
 
A capela, que terá vindo substituir uma anterior dedicada a São Sebastião e datada do Século XVI, ocupa posição estratégica no seio do eixo de protecção da cidade. A porta do Soar, também conhecida como Arco dos Melos, em homenagem à família cujo solar se encontrava a ela adossado (actual Hotel Palácio dos Melos), era uma das principais portas de entrada na cidade e São Sebastião, a quem o templo tinha sido dedicado, tinha como função principal proteger o espaço mais importante de Viseu da peste e de outras enfermidades, dado ser ele o padroeiro protector contra esse tipo de males. Por isso, mais do que por qualquer motivação de âmbito sagrado, ocupará a actual capela a posição em que se encontra no Largo do Pinto Gata, que era a antiga Praça da Erva.


 
Construída à custa das esmolas dos devotos, terá a iniciativa da sua edificação partido de um grupo de moradores da Praça da Erva, com a motivação de prestarem homenagem à sua padroeira. Em 1739, o então Cónego Bernardo Pereira de Melo, em resposta à pretensão dos moradores, assina uma escritura de doação de um conjunto de pequenas casas com o intuito de aí se edificar o novo templo. As obras foram conduzidas pelos pedreiros minhotos Manuel Lourenço e Manuel Ribeiro, tendo sido necessário ao Cabido da Sé a oferta de vários apoios dado a escassez das esmolas que os moradores conseguiram pedir.
 
O espólio, simples tal como a formulação do próprio templo, veio da Capela de São Lázaro, que tinha sido demolida em 1816, por iniciativa da Confraria de Nossa Senhora dos Remédio, que tinha sido institucionalizada no ano de 1747. Depois de passar para as mãos da família Melo, que dela se apossou em meados do Século XIX, a capela volta ao uso público já no Século XX depois de ter sido arrematada em leilão pela edilidade de então. 
 
Guardiã da memória histórica da Cidade de Viseu, ali colocada como sentinela firme que testemunha a entrada e saída por aquela que é uma das mais importantes portas do burgo, a Capela de Nossa Senhora dos Remédios esconde aos olhos menos atentos as memórias velhas do Infante Dom Henrique de Portugal que, na sua planta octogonal, esconde os desígnios mais profundos da Portugalidade  e o ensejo de trazer novos mundos ao Mundo.
 
Enfim… a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em Viseu, é testemunho vivo da própria Portugalidade.  

A Ermida de São Sebastião e as Grutas Mouras do Alvito

João Aníbal Henriques, 13.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A origem mourisca da cultura Portuguesa, assente na recuperação de valores estéticos, artísticos e mesmo religiosos dos ocupantes maometanos que estiveram na Península Ibérica a partir do ano de 711, é ainda hoje visível em usos e costumes um pouco por todo o País.
 
No Alentejo, que durante mais tempo sentiu a influência árabe, grande parte das localidades, na sua vertente de distribuição urbanística e também na componente estética das suas casas, apresenta características desse período, integrando elementos que foram criados nessa época e fazendo o aproveitamento de técnicas de construção que os mouros delinearam.
 
No Alvito, no coração da província Alentejana, é precisamente a memória moura que determina o carácter extraordinário da povoação. Ele vive-se e sente-se em cada canto e recanto, numa profusa amálgama de pequenos detalhes que deslumbram quem ali chega.
 
No Rossio de São Sebastião, aproveitando o topónimo que o consagra, ergue-se a velha ermida com o mesmo nome e, para espanto de todos aqueles que questionam os locais sobre o que é a porta enorme que existe nas suas traseiras, uma autêntica “fábrica de mós”.
 
 
 
 
A ermida de cunho mudéjar bem definido, foi construída algures no Século XVI, sendo dessa data as primeiras referências documentais que se conhecem, provavelmente aproveitando quaisquer vestígios mais antigos que tenham subsistido do período de domínio muçulmano. Inserida no gótico final alentejano, que procura o deslumbramento de quem a visita, a ermida é um edifício simples, como o são quase todos aqueles que a pobreza que se vivia no Alentejo nessa época determinava, mas possui no seu interior um conjunto de inestimável valor de pintura mural, em forma de frescos, pintados provavelmente por José Escobar em 1611.
 
A dedicação a São Sebastião, cruzada com a localização na entrada da localidade, dever-se-á ao carácter protector deste santo relativamente às pestes. Com a colocação neste local, os seus construtores terão pensado que conseguiriam travar a entrada da peste no Alvito, ao mesmo tempo que recriavam uma barreira perante possíveis invasões que pudessem chegar daquele lado.
 
Mas o mais interessante, ainda para mais com uma datação que precede bastante a construção da própria ermida, é a existência, nas traseiras da mesma, de um conjunto vastíssimo de grutas artificiais, denominadas oficialmente como “Grutas do Rossio”. Estas galerias, escavadas na rocha-mãe que suporta os alicerces da própria ermida, surgem na documentação como sendo antigas minas de exploração de calcário no Século XIII. Mas notas documentais indirectas, que foram encontradas recentemente, apontam para a utilização dos túneis como saídas alternativas do velho castelo mouro e dos demais edifícios importantes existentes na velha vila alentejana.
 
A tradição popular, ainda hoje transmitida pelos habitantes do local a quem os visita, é que aquele é um espaço assombrado pelos mouros, sendo autênticos viveiros onde cresciam mós!
 
 
 
 
Mas nas crónicas templárias medievais, cujo conteúdo se dedica sobretudo à reconquista das terras alentejanas, o sistema de túneis do Alvito é explicado como sendo um conjunto de pedreiras onde os mouros exploravam a pedra calcária, tendo sido escavadas por mão-de-obra escravizada durante as muitas batalhas que aconteceram na região. 
 
O certo é que entre 1190 e 1191, depois de o Rei Dom Sancho I ter chegado a Silves, no Algarve, o contra-ataque mouro redobrou a sua força. Sob a liderança de Ya’qub Al-Mansur, o exército árabe terá retomado o controle de vastas áreas na região do Alentejo interior, das quais fazia parte a actual Vila de Alvito, transformando o seu castelo no ponto de referência na defesa das suas fronteiras. Em virtude dessa decisão, terão sido canalizados para ali os muitos escravos Cristãos capturados durante as batalhas, tendo-lhes sido dada a incumbência de escavar as minas e de criar os túneis que hoje conhecemos.
 
D. Frei Pedro Álvares, oitavo Mestre do Templo em Portugal, terá então liderado um ataque às posições mouras sediadas no Alvito, tendo conseguido ludibriar o inimigo e libertado a totalidade da população escrava que estava encerrada naqueles espaços subterrâneos.
 
Por isso, é ainda hoje cognominado como o “Herói do Alvito”, mantendo aquele espaço o cunho indestrutível de bastião templário de Portugal!

 

A Ermida de Nossa Senhora do Pranto na Chamusca

João Aníbal Henriques, 12.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Se existe terra onde a tradição ribatejana impera, é na Chamusca que isso mais se sente. Localizada junto à margem do Rio Tejo, do qual depende de forma directa a vila tem uma história longa de velhas práticas agrícolas, nas quais o gado assume especial importância.
 
Talvez por isso, num contexto em que a importância da terra se impõe, a dicotomia é grande e concretiza-se na diferença marcante entre a arquitectura chã das suas habitações mais humildes e a opulência grandiosa das velhas casas senhoriais que davam guarita às famílias mais importantes ligadas à posse dos terrenos de cultivo existentes nas redondezas. A paisagem chamusquense é assim de casario branco em correnteza, dando lugar, aqui e li, ao surgimento das habitações veneráveis de uns quantos.
 
A dependência próxima do rio e dos ciclos agrícolas que derivam do mesmo, sente-se em cada esquina, até porque as margens do Tejo são factor de destaque na paisagem, sendo que o verde da primeira linha de água, indicando o carácter fértil daquele lugar, se mantém suficientemente afastado da localidade para precaver possíveis cheias quando as águas sobrem e galgam as margens saindo do leito.
 
 
 
 
Um dos mais bonitos monumentos da Chamusca, situado no topo de uma das colinas adjacentes, é a Ermida de Nossa Senhora do Pranto. Com uma vista única sobre a Vila da Chamusca e sobre a lezíria, a singela ermida integra-se na tipologia simples dos espaços rurais onde foi construída, integrando um conjunto em que se destaca um enorme cruzeiro calcário e um pequeno adro ladrilhado de onde é possível perceber bem a dinâmica histórica do local onde se insere.
 
Apesar de a sua origem remontar ao Século XVII, sendo dessa altura a capela de São José que a integra, o corpo principal é muito mais recente. Para além das obras de conservação e adaptação que foi sofrendo, e que lhe conferiram a imagem que hoje tem, a ermida foi ainda integrando elementos decorativos que possivelmente terão resultado de aproveitamentos oriundos de espaços análogos que eventualmente tenham desaparecido nas redondezas. É o caso do velho cruzeiro que está incrustado na sua parede, e que terá precedido, junto ao adro, o actualmente existente, alguns retábulos, bem como alguns dos maravilhosos painéis de azulejos que por dentro a revestem.
 
A Ermida do Pranto, numa devoção que conta com quase 200 anos de história, está intimamente ligada a um dos acontecimentos mais marcantes da História recente de Portugal: as invasões francesas. Reza a lenda que quando os exércitos napoleónicos chegaram ao Ribatejo, aquartelando-se na Golegã e preparando um assalto às terras da Chamusca, um conjunto de populares se refugiou na velhinha Capela de São José, no cimo do monte, para daí verem com mais cuidado o avanço das tropas na outra margem do rio. Apavorados com o que estava a acontecer, e em pranto por saberem quais seriam as consequências que iriam sofrer caso os Franceses chegassem à sua terra, os Chamusquenses terão rezado a Nossa Senhora e solicitado a sua intercessão para os salvar do desastre. Prometeram ainda, caso se salvassem deste acontecimento nefasto, a construção de uma nova capela em honra da Senhora do Pranto.
 
 
 
 
Como que por milagre, quando os Franceses se preparavam para atravessar o rio, as águas terão subido subitamente impedindo a travessia e salvado a Chamusca da mesma destruição que outras terras conheceram. Os Chamusquenses, gratos a Nossa Senhora, terão então remodelado a Capela de São José, construindo em seu torno a actual Ermida do Pranto!...
 
Ainda existe, guardada na sacristia da velha Capela de São José, uma das balas que os Franceses dispararam contra a Chamusca em desespero por não conseguirem chegar a ela durante a primeira invasão napoleónica a terras Portuguesas.
 

Nossa Senhora do Castelo em Coruche

João Aníbal Henriques, 12.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A devoção de Portugal a Nossa Senhora é ancestral e precede até o processo de formação da Nacionalidade. O culto sagrado à Virgem, personificada de diversas formas consoante a designação ritualística a que está inerente, é o fio condutor que unifica pensamentos, gerando um consenso alargado que transforma a Mãe de Deus na verdadeira força motriz que dá forma a Portugal.
 
Nossa Senhora, mãe de Jesus enquanto Deus vivo na Terra, consolida assim os laivos de sacralidade que acompanham o próprio acto da criação. A diferenciação do Homem das criaturas suas congéneres no mundo animal, faz-se pelo assumir desta capacidade simbólica de interpretar o universo. E Nossa Senhora, hoje padroeira e verdadeira Rainha de Portugal, já era pedra angular da fé daqueles que por aqui vivem, desde tempos anteriores ao próprio nascimento de Jesus Cristo. Num laivo de mistério profundo, apelando aos sentidos que impõem a disciplina à carne, foi a Virgem Ancestral, mãe verdadeira da humanidade, quem determinou os vínculos perenes que mais tarde se transformam na persistente entrega à causa maior da independência do nosso Pais.
 
 
 
 
Em Coruche, pequena e airosa vila situada nas margens do Rio Sorraia, no Ribatejo, a vinculação a Nossa Senhora surge marcada precisamente pelo processo de formação da Identidade Nacional. De facto, sendo estrategicamente crucial para o controle dos territórios envolventes, bem como essencial por se situar em pleno coração da ubérrima lezíria sorraiana, Coruche conheceu um processo histórico intrincado, marcado por sucessivas lutas de conquistas e reconquistas por parte dos diversos povos que a quiseram controlar.
 
Em 1166, quando Dom Afonso Henriques a conquista aos Mouros, a pequena vila era defendida por um castelo de composição rudimentar, cuja construção era essencialmente suportada por travejamentos de madeira e tijolo simples. Foi, aliás, o carácter muito precário desta fortificação, que servia basicamente de complemento na linha de defesa marcada pelas fortificações de Santarém e de Montemor-o-Novo, que determinou a sua reconquista pelos maometanos, ocorrida em 1180, o que obrigou o primeiro Rei de Portugal a um esforço redobrado para a colocar definitivamente sob domínio Nacional.
 
Ainda o Século XII, antes de estar encerrado o processo de Nacionalização de Coruche, a Coroa entrega a vila à Milícia da Ordem de São Bento, em Évora, mais tarde de Avis. Neste processo, cujo fulcro é colocado no cimo da colina onde se erguiam as paredes do velho castelo, assume sempre especial papel o culto Mariano a Nossa Senhora, concretizado a partir da velha ermida que por ali existia. A consolidação das fronteiras e a definitiva pacificação do território Nacional, determina a perda da importância da fortificação, recentrado todo o perímetro das paredes fortificadas para a componente sagrada do espaço de culto.
 
 
 
 
Embora se conheça muito pouco daquilo que foi a História antiga de Coruche, sabe-se que a sua importância estratégica foi atravessando as eras, explicando assim a manutenção da sua ocupação humana desde os primórdios da Pré-História. Depois de os Romanos terem estado lá por motivos idênticos, o longo período sob domínio muçulmano terá certamente culminado na criação de um conjunto de espaços de culto, sendo bastante provável que o alto da colina do castelo tenha sido ponto essencial na definição dessa dinâmica religiosa.
 
Coruche está, aliás, profundamente relacionada com estes processos de mudança e transmutação. A imagem de Nossa Senhora do Castelo, provavelmente de origem oitocentista, apresenta a Virgem Mãe com o seu filho em pé, ao seu lado, ao invés de a apresentar como é normal no resto do País, com o menino ao colo. Diziam os devotos populares de outros tempos, que tal se devia ao carácter muito milagreiros da Santa Mãe, explicando assim a sua importância da definição da própria identidade dos Coruchenses. Nas Memórias Paroquiais do Século XVIII, quando o pároco local apresentava às autoridades o ponto-de-situação em que ficou Coruche depois do grande terramoto de 1755, sublinha esse facto, explicando que todos os devotos que procuraram na imagem de Nossa Senhora do Castelo e nas paredes da sua ermida uma protecção contra o cataclismo, viram as suas casas salvas da ruína em que ficaram as restantes…  
 
 
 
 
É por isso o milagre, consubstanciado na intervenção de Nossa Senhora do Castelo em defesa dos seus devotos seguidores, o factor principal que permite perceber a importância deste espaço no contexto da devoção mariana Nacional, sendo certo que as especificidades territoriais desta Senhora, muito mais do que à comum definição lendária de aparições sucessivas, se ficam a dever a uma prática reiterada desde a ancestralidade, mostrando uma linha de culto comum que se perde nos laivos antigos de outros tempos.
 
O culto actual, organizado a partir da Carta-Ordem emitida em 1516 pelo então Mestre da Ordem de Santiago e Avis, D. Jorge de Lencastre, que definia a obrigatoriedade de se organizar uma procissão anual de acção de graças a Nossa Senhora, mistura-se ele próprio com a história extraordinária da enigmática Rainha Santa Isabel, a santa alquimista que teve a capacidade de transmutar a matéria transformando pão em rosas, já que a referida procissão anual decorreu durante muito tempo no dia 4 de Julho, precisamente o dia em que se celebra a Rainha Santa e o seu falecimento em Estremoz. Só mais tarde, quando o dia 15 de Agosto passa a estar consagrado à Assunção de Nossa Senhora, se altera a data da procissão, que passa a realizar-se nesse dia e associada a uma feira anual que animava (anima ainda) a Vila de Coruche.
 
 
 
 
Ambas as datas, como é evidente, são resquícios profundos de uma religiosidade marcada pela devoção a Nossa Senhora, consubstanciada num e noutro caso em pressupostos que estão muito para além do dogmatismo que é usual noutros lados.
 
Nossa Senhora do Castelo, a Virgem-Mãe que ainda hoje acompanha em permanência muitos milhares de Coruchenses, é muito mais do que a Mãe de Jesus ou do que a mera Assunção de Nossa Senhora. É marca viva de uma ancestralidade perdida dos biombos dos tempos, marca indelével que suporta a capacidade que Coruche tem de fazer parte da vida de todos os seus filhos e dos filhos deles.
 
Vale a pena subir ao castelo de Coruche e visitar a ermida da Senhora do Castelo. Porque ali se sente Portugal. 

Nossa Senhora da Peninha em Sintra

João Aníbal Henriques, 08.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Reza a lenda que, algures durante o reinado de Dom João III, uma pastorinha muda e esfomeada nascida na localidade das Almoínhas Velhas (Malveira-da-Serra, Cascais), terá subido à Serra de Sintra com o seu rebanho onde encontrou Nossa Senhora. A figura com a qual falou, respondendo ao seu anseio de alimentos para si e para a sua família, disse-lhe para regressar a casa e abrir uma determinada arca onde encontraria o pão de que necessitava. Correndo de regresso para casa da mãe, a pastorinha recuperou a voz e disse à sua mãe onde procurar o tão almejado alimento. A velha imagem tosca de Nossa Senhora da Penha, colocada na arca, terá sido então colocada para veneração na velha Capela de São Saturnino, situada a poucos metros do local da aparição. Mas, teimosa, saia subrepticiamente do altar onde a colocavam e reaparecia no cimo dos rochedos situados atrás do templo. Tantas vezes se repetiu a travessura que se construiu em sua honra a capela actual no topo do monte da peninha.
 
Não se sabendo exactamente quando tudo isto aconteceu, e havendo várias notícia da existência de edifício que precederam aquele que actualmente ali se encontra, sabe-se, no entanto, que a Capela de Nossa Senhora da Peninha terá sido construída por um tal Pedro da Conceição, que tinha na altura somente 28 anos, e que se encontra sepultado junto ao monumento.
 
 
 
 
Nas inscrições lapidares de Sintra, vem descrita a indicação que se encontra na sepultura do fundador, dizendo que ali jaz o Ermitão Pedro da Conceição, falecido em 18 de Setembro de 1726, e que pede a todos os que por ali passem um Padre Nossa e uma Avé Maria pela Alma dos seus benfeitores. Numa das paredes do templo, existe uma segunda lápide confirmando a identidade do construtor original e afirmando que a obra foi efectuada em 1690. Sendo muitos e rocambolescos os episódios pelos quais passou o singelo templo sintriano, o certo é que foi alvo de muitas obras de construção e reconstrução que lhe conferiram o aspecto que hoje conhecemos.
 
Sabe-se ainda que no final do Século XIX, em 1892, a Peninha é comprada pelo Conde da Almedina que em 1918 a revende a António Augusto Carvalho Monteiro. O Monteiro dos Milhões, como ficou conhecido o construtor da Quinta da Regaleira, situada junto à Vila de Sintra, era na altura um dos mais conhecidos e ricos empresários lisboetas, com investimentos variados na banca de então que, do alto da sua prosperidade, adquire uma visão ecléctica do Mundo e das suas gentes.
 
Profundamente místico e grande conhecedor de tudo aquilo que dizia respeito ao destino de Portugal, Carvalho Monteiro pauta a sua vida por um conjunto de valores e de princípios que, apesar da distância que o separa do antigo Ermitão Pedro da Conceição, lhe são muito próximos e semelhantes.
 

Adossado às penhas que sustentam a capela, o proprietário projecta a construção de um palácio onde pretendia passar temporadas em meditação e em recolhimento. Projectado por Júlio da Fonseca em 1920, o palácio fica por acabar mercê da morte de Carvalho Monteiro, tendo posteriormente sido adquirido do advogado José Rangel de Sampaio que concluiu as obras e legou o palácio em testamento à Universidade de Coimbra.
 
 
 
 
Em 1991, pela importância de 90.000 contos, o imóvel é adquirido pelo Estado Português, através do Serviços de Parques e Conservação da Natureza, que efectuou algumas obras de restauro e conservação.
 
A Poente da Capela de Nossa Senhora da Peninha, subsiste em forma de ruína avançada, o que resta da velhinha Ermida de São Saturnino, originária do Século XII, e cuja importância em termos patrimoniais contrasta de forma evidente com a incúria em que tem sido deixada.
 
 
 
 
O conjunto patrimonial da Peninha, composto pela Capela, pelo palácio de Carvalho Monteiro e pela velha Ermida de São Saturnino, está inserido numa das mais impactantes paisagens da Região de Lisboa, abraçando em termos visuais desde a Ponte Sobre o Tejo, em Lisboa,  até ao Cabo da Roca.

A singeleza da lenda, apelando aos sentidos de pureza primordial e fazendo a apologia da pobreza extrema, enquadra-se no conjunto ritualístico próprio da Serra de Sintra, numa lógica cruzada de paganismo cristianizado e de apelo constante ao Quinto Império Português. A devoção pela Senhora que concebe, a Senhora da Conceição que tão linearmente devolve à pastorinha das Almoínhas Velhas (ou Almas velhas), a sua voz e lhe mata a fome, é concretizada pelo Ermitão, ou seja, pelo que assume a pobreza como fio condutor da sua vida, Pedro da Conceição, em ligação permanente ao culto ritual antigo.
 
Na Ermida Medieval, onde o culto é de São Saturnino, a linha orientadora é a mesma, apelando ao eterno retorno e ao culto obscurecido dos Mundos Internos, numa lógica que corre em linha com o útero materno, a Deusa-Mãe primordial, por aqui venerada desde tempos imemoriais.
 

 

Enfim… Nossa Senhora da Conceição.