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cascalenses

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A Igreja de Nossa Senhora da Graça em Évora

João Aníbal Henriques, 20.10.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
 
Os “Meninos da Graça” como é conhecida em Évora a Igreja Renascentista de Nossa Senhora da Graça, são míticas figuras Atlantes. E, cumprindo o desígnio maior de zelar pela memória de Portugal, estão ali na qualidade de guardiões das quatro partes do Mundo descobertas pelos Portugueses. Todo o templo, resquício inesperado do substracto místico e mítico de Portugal, transparece em lendas e em mistério, rendendo homenagem maior aos feitos enormes que noutras eras e noutros tempos caracterizaram este País tão especial…
 
 
Considerada por muitos como o mais antigo templo renascentista do Alentejo, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, situada no coração da egrégia cidade de Évora, é um dos mais interessantes monumentos de Portugal.
 
Integrando o antigo Convento dos Frades Eremitas Calçados de Santo Agostinho, a igreja que agora conhecemos foi construída depois da instalação da Ordem em Portugal, no ano de 1511, com traço de Miguel de Arruda e esculturas de Nicolau de Chanterene.  Terá vindo ocupar o lugar de um templo de menores dimensões e de pouca exigência arquitectónica que os frades construíram naquele lugar logo depois da sua chegada a Évora, sendo provavelmente sido na década de 1520 que se iniciaram as obras que lhe conferem o aspecto actual.
 
 
 
 
Integrando de forma sublime todos os detalhes que definem o período renascentista em Portugal, a Igreja da Graça leva quase ao extremo a sua inquietante demanda pelos símbolos maiores da nacionalidade, apelando de forma directa ao alicerce raramente assumido do inconsciente colectivo de Portugal. A temática marítima, em voga na época em que a igreja foi edificada, cruza-se com as lendas maiores do Globo Terrestre, espécie de brinquedo temático que se consagra por inteiro a Portugal, como se o Universo todo conspirasse de uma forma global para canalizar para este recanto encantado os destinos maiores da humanidade em geral. Resultam daí as escapadelas ao ideário Atlante, numa sede quase mística do desconhecido e do inexplorado, um pouco em linha com a mítica demanda do Santo Graal e, em Portugal, com a espera eterna pelo Rei Desejado.
 
Este caminho, feito nas sombras visíveis de uma sociedade ainda maioritariamente dependente dos equilíbrios e das certezas medievais, assume especial relevo se nos reportarmos ao Alentejo de então. A região, marcada de forma telúrica por uma dependência extrema relativamente às agruras da natureza, sustenta o seu edifício simbólico no tronco maior que dá relevo à inovação da Senhora da Graça, ou seja, àquela que contra tudo e contra todos, se materializa na miraculosa capacidade de tudo fazer.
 
 
 
 
A Atlântida, continente mítico elevada de forma eterna à plenitude maior do saber e da sabedoria, consubstancia-se na Igreja da Graça através de toda a simbologia que dá forma ao edifício. Mas também, porque o Céu e a Terra são ambos necessários para a compreensão integral de Deus, nas práticas seguidas e cumpridas de forma sentida pelos frades que ocuparam este convento durante muitas gerações. É a eternidade, composta pela mistura integral entre o finito e o infinito, que nos surpreende quando nos deparamos com a fachada granítica e imponente desta igreja. Uma eternidade que é sustentada pelo conhecimento superior e pela sabedoria daqueles que regressaram de um lugar diferente. O ideal celeste, condicionado pelas necessidades próprias da vida terrena, resulta aqui numa amálgama de símbolos que se interligam num plano de consciência que tem necessariamente de estar alterada para ser verdadeiramente entendida e compreendida.
 
 
 
 
O ímpeto cenográfico da Igreja da Graça, de carácter fortemente impactante na pujante vida cultural eborense da época renascentista, dá corpo ao reforço deste movimento arquitectónico e artístico em Portugal. Na sua evolução para o maneirismo, o templo congrega o carácter humanista profundo que enforma a acção dos seus mecenas originais, El-Rei Dom João III e o seu primo o Bispo Dom Afonso de Portugal.  São eles, mercê da formação que tiveram no contexto da Europa em que viveram, que canalizam para este espaço de Évora os meios que permitem a construção de um tão vetusto templo. E com esse acto, aparentemente singular, dão um contributo extraordinário para a viragem cultural que definirá Portugal ao longo dos séculos seguintes.
 
A importância da Igreja da Graça é, por isso, muito superior ao seu valor patrimonial. Ela é o testemunho mais evidente da forma como Portugal, assente num conjunto de valores espirituais profundamente difundidos por todo o território, foi capaz que os plasmar na sua realidade física, social e política e, dessa maneira, concretizar o sonho imenso dos descobrimentos. Atesta, numa linha de continuidade que nos carrega até à actualidade, que o espírito transcende de facto a matéria, tornando possíveis os milagres e enfatizando que as fronteiras são pouco mais do que meros obstáculos que se interpõem durante a vida de cada um.
 
 
 
 
Única na sua formulação física e patrimonial, mas também na mensagem que carrega, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora, é pilar axial essencial para compreender a Portugalidade.

 

A Igreja Paroquial de Santiago (ou de São Tiago) em Évora

João Aníbal Henriques, 05.10.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Situada no coração da cidade e envolvida de perto pelas principais atracções turísticas de Évora, a Igreja de Santiago passa normalmente despercebida a quem por ali deambula. Mas não deveria ser assim… o templo, de origens ancestrais, é um dos mais interessantes repositórios das memórias e das histórias desta urbe alentejana, sendo bem demonstrativo da forma como as eras, as culturas e as gentes aqui confluíram numa amálgama de vida que não pode deixar ninguém indiferente.
 
A documentação histórica aponta o ano de 1302 como o da fundação do primeiro templo Cristão no local onde hoje se ergue a Igreja de Santiago. Cercada pelas antigas muralhas da cidade, bem perto do antigo fórum romano e da principal via estruturante da economia da região é provável, no entanto, que naquele espaço tenham existido outras construções que a precederam e que são responsáveis pelos muitos vestígios que se podem ver no local.
 
 
 
 
Desde a colunata de origem romana até à própria formulação espacial ao templo, que denota claramente uma influência de origem islâmica, são muitas as pistas que nos permitem suspeitar da ancestralidade maior da origem sacra deste espaço tão especial, marcado de forma impactante pela profusão de estilos decorativos e de cores que se cruzam e se sobrepõem em camadas bem ilustrativas daquilo que foram os seus mais de 800 anos de História que se sobrepõem em camadas sucessivas de memórias.
 
Na sua componente Cristã, Católica, Apostólica e Romana, a Igreja de Santiago de Évora nasce por isso no Século XIV, permanecendo sem grande história durante cerca de 200 anos. Durante esse período foi, muito provavelmente, somente um dos muitos templos que servia a prática religiosa dos eborenses, num plano de discrição que resulta naturalmente do recato que a sua localização impõe. Apesar disso, enquanto espaço de morte, foi permanentemente destino privilegiado de vários habitantes ilustres da cidade, nomeadamente ligados ao Clero, tal como o atestam as muitas lápides sepulcrais que subsistem no seu interior, em linha com a ligação sempre perene à cúpula organizativa da própria Ordem de Santiago da Espada.
 

 

 
 
Mas o principal foco de interesse para quem visita esta igreja, marcante do ponto de vista estético e fulcral na definição daquilo que foram as principais intervenções efectuadas no seu interior, são as paredes repletas de pinturas murais polícromas, que fecham uma intervenção maior que reformatou o espaço interior e dotou o templo de uma cabeceira estrutural de grandes dimensões e que define hoje o monumento.
 
São desta época também os painéis de azulejos que cobrem as laterais do Altar-Mor e da nave principal da igreja, da autoria de Gabriel del Barco e de Oliveira Bernardes, que ajudam a enquadrar o mote barroco que passou a caracterizar a essência decorativa do espaço. Importa destacar, pela implicação de enquadramento cénico que tem, sublinhado pelo carácter de província da igreja, a talha dourada dos altares, que se mistura com o esplendor das evocações artísticas de âmbito semi-profano que dão corpo à estrutura decorativa da mesma, num apelo quase herético a realidades que aparentemente se supõem longínquas do Alentejo da época em questão.
 
 
 
 
O apelo à Força, simbolicamente associada à exaltação do Altíssimo, surge misturado numa verdadeira amálgama figurativa onde as figuras Atlantes assumem papel de destaque enquadratório. Talvez seja por isso, na senda da já referida tradição maior que transparece da evolução das épocas e das gentes que fruíram daquele espaço, que o epitome maior que desde sempre surge como uma espécie de sina desta igreja, seja o da ritualidade da morte, ainda hoje marcante para quem habita em Évora, e que ali se consubstancia num conjunto bastante vasto de referências culturais, religiosas e simbólicas numa simbiose que se próxima de sobremaneira da estrutura de pensamento do Alentejo de todos os tempos.
 
 
 
 
O balcão fronteiro ao templo, num varandim de pequenas dimensões que compacta a sacralidade do lugar ao pouco espaço existente naquele recanto da cidade, contribui também ele para reforçar esse ideia inicial, sendo maioritariamente um apelo à visita ao espaço interior, ao mesmo tempo que faz prevalecer o absurdo deleite pelo contraste e pelo oposto. Esta dualidade, também ela visível na estrutura pétrea do templo, associa a ideia do equilíbrio como parte essencial da preservação do carácter sagrado da vida, aqui se espelhando na forma como o crescimento comunitário de quem por ali cumpriu os seus ritos de Fé, se foi construindo a partir de uma continuidade que obrigava a cedências de princípio na dogmática que dá forma a cada uma das épocas em que o templo existiu.
 
A Igreja de Santiago, mais do que mais um mero templo desta mítica Cidade Alentejana, é acima de tudo um monumento que estabelece pontes entre as várias eras e os tempos que a sua História atravessou. Acolhe no seu seio a singularidade de um espaço de características intrinsecamente chãs mas, por outro lado (e até em antagonia) de um local onde a complexidade da vida se espraia em cada elemento.
 
 
 
 
O seu estado de conservação muito precário também ele contradiz a importância  e o interesse desta igreja. Urge uma intervenção prévia de consildação e interpretação do espaço, antes da definição de uma intervenção de fundo que garanta a recuperação dos seus elementos estruturantes mais importes.
 
Até lá, tal como vem acontecendo ao longo de (pelo menos) o último milénio, acolhe diariamente as naves que transportam os eborenses à sua última morada e que ali recolhem os últimos raios de uma luz que certamente foi ensejo daqueles que a foram construindo ao longo do tempo!...  

 

O Castelo de Portel Mafomede no Alentejo

João Aníbal Henriques, 06.01.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Assumindo a sua posição altaneira relativamente à bonita vila de Portel, no Alentejo, o Castelo de Portel é um dos mais extraordinários vestígios da origem cultural de Portugal e da ligação profunda e arreigada às tradições ancestrais que deram forma aos mais importantes arquétipos da humanidade.
 
Não se conhecendo de forma documental a sua verdadeira origem, é crível que antes do início da construção da actual edificação, ali existisse já uma fortificação anterior, provavelmente de origem muçulmana, que daria corpo ao sustento da população que vivia naquele espaço. Na documentação coeva da sua construção, a Casa Real Portuguesa denomina a vila como ‘Portel Mafomede’, numa prática toponímica que aponta para uma pré-existência islâmica cuja origem não será diferente daquela que noutras zonas do actual território nacional terá conduzido à aculturação que forma a Identidade Nacional.
 
A atribuição toponímica de Portel a Mafomede, curiosa se pensarmos que a diabolização da expressão resulta do processo de extinção da Ordem dos Cavaleiros Templários, assume foros de grande importância quando nos debruçamos sobe a origem do castelo. Em primeiro lugar porque, como se sabe actualmente, a figura da Mafomede ou Bafomet, representa basicamente as três formas de expressão primordiais da matéria. No Convento de Cristo, em Tomar, a figura de Hermes Trismegisto é representada numa das pedras angulares da edificação representada como Bafomet com as suas três faces reinantes. Depois, porque a divinização trina que Bafomet compõe, juntando num mesmo plano as diversas faces que apresenta Deus na sua expressão simbólica de eixo estrutural da humanidade, uma reposição dos antigos cultos pagãos de origem Grega que, compondo o seu corpo de saber sobre os rituais ancestrais que acompanharão a evolução humana na bacia do Mediterrâneo, nos levam até à figura do Deus Pã, complexão estática do sopro deífico que dá forma lendária à origem de muitas das mais importantes povoações de Portugal.
 
 
 
 
No Grego antigo, por exemplo, a expressão Baph Metis, significa literalmente o “baptismo da sabedoria”, sabendo-se ainda que a mesma expressão em hebraico, utilizando a codificação cabalística, significa Sophia, ou sabedoria…
 
Em qualquer dos casos, o Portel que hoje temos, foi outrora o Portel Mafomede, num fluxo generalizado de saber oculto, que determinou o processo de reconquista Cristã em que se insere a construção do castelo actual e, mais importante ainda, a definição dos equilíbrios político-administrativos no recém-criado Reino de Portugal.
 
 
 
 
De facto, quando em 1257 o Rei Dom Afonso III entregou a João de Aboim as terras de Portel Mafomede, determinando o início da construção do castelo e retirando-as ao Termo de Évora, o que está em causa é a preservação do controle político deste importante território. Para além de impor uma dinâmica concertada no que concerne ao processo de reconquista, a doação e posterior construção da estrutura amuralhada reforçam ainda o poder político pessoal do novo rei, depois da conturbação política que ditou o afastamento do seu irmão, o anterior Rei Dom Sancho II. Portel surge assim como axioma de referência, na definição daquela que virá a ser a intervenção política da Casa Reinante, e que durará até ao fim da Primeira Dinastia, em 1385.
 
João Peres de Aboim, de origens minhotas e filho do senescal do Rei Dom Sancho II, é apresentado na documentação ceva como “um fidalgo violento e insaciável que saqueava sem mercê os bens dos municípios e dos seus moradores”. A sua proximidade ao infante Dom Afonso, com o qual ruma a França onde preparam a revolução que ditará a subida ao trono deste, acabará por granjear-lhe um poder sem igual, que manterá mesmo depois da morte do rei e durante todo o período em que durou o reinado de Dom Dinis.
 
As obras do castelo de Portel, prolongaram-se também ao longo das décadas seguintes, acompanhando a mudança radical introduzida em Portugal pelo Rei Trovador, sempre acompanhado de perto por João de Aboim que preserva as honras inerentes a facto de ter sido Mordomo-Mor do Reino.
 
 
 
 
O rei Dom Dinis, o alquimista assumido que planta as naus que desde Leiria darão novos mundos ao Mundo, é assim o verdadeiro Hermes Trismegisto de Portel, consagrando nas suas três faces de político, poeta e mágico a apetência para transformar aquele espaço na referência primária da consolidação do cristianismo herético da Ordem de Cristo, na pedra angular da Identidade Nacional. Não é por acaso que, quando Mafomede é utilizado como argumento no julgamento que ditará a extinção dos Templários, dizendo-se que representa um culto satânico de cujo poder depende o sucesso militar e religioso da ordem liderada por Jacques de Molay, em Portugal é o Rei Dom Dinis que contorna as directivas papais criando a nova Ordem de Cristo para a qual transitam os bens templários existentes em Portugal e, possivelmente, os próprios directores espirituais da antiga ordem.
 
De qualquer maneira, depois da morte do Rei Dom Dinis e do construtor do castelo, a contenda jurídica que envolve os seus herdeiros acaba por decidir a recuperação da propriedade por parte do Estado e, em 1384, a sua entrega ao Condestável de Portugal, Dom Nuno Álvares Pereira, que junta as terras de Mafomede ao património do que há-de vir a ser a Casa de Bragança.
 
O Santo Condestável, nessa altura já transformado em Frei Nuno de Santa Maria, obreiro da magnitude enorme da Ínclita Geração e concretizador do projecto alquímico plantado pelo Rei Dom Dinis, trabalha sob o signo da flor-de-lis, sob a tutela de Dom João I, o Mestre de Avis, transformando Portel num verdadeiro caldeirão alquímico no qual tudo pode acontecer. A mítica transmutação da matéria, epíteto maior que resulta da posse do segredo da pedra filosofal, conduz no recato de Portel à transmutação das almas. Mafomede, com as suas três faces, nada mais é do que o simbólico arquétipo da Santíssima Trindade, consolidando pelo verbo do Pai e o pão que se transforma em carne, do seu Filho, a força maior transformadora que concebe o Espírito-Santo. E este, por seu turno, subvertendo a realidade e condecorando como Rei o mais humilde dos seus servos. Como se vida e morte fosse uma realidade só!
 
 
 
 
Depois de perdida a sua utilidade militar, o Castelo de Portel foi entrando num paulatino processo de ruína que culminou, já no início do Século XX, com as primeiras campanhas de reconstrução que o dotaram do aspecto actual.
 
Durante a vigência do Estado Novo, num processo conduzido pela então Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, foi recuperada a sua vocação romântica, introduzindo-lhe uma cortina de ameias que, em conjunto com a adaptação da sua Torre de Menagem, lhe alteraram a estrutura e o adaptaram à vocação turística que então se assumiu para Portugal.
O Castelo de Portel, pleno de potencial turístico e cultural, está hoje aquém daquilo que poderia ser na definição da memória colectiva do Alentejo e de Portugal. A sua importância efectiva e o simbolismo que agrega, fazem dele uma peça essencial para se perceber quais são os desígnios nacionais e a forma como nestas paragens se encontram os resquícios mais profundos da nossa Identidade Nacional. 
 
Pode ser que um dia alguém se dedique novamente a este recanto tão especial de Portugal.

 

Nossa Senhora do Castelo em Coruche

João Aníbal Henriques, 12.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A devoção de Portugal a Nossa Senhora é ancestral e precede até o processo de formação da Nacionalidade. O culto sagrado à Virgem, personificada de diversas formas consoante a designação ritualística a que está inerente, é o fio condutor que unifica pensamentos, gerando um consenso alargado que transforma a Mãe de Deus na verdadeira força motriz que dá forma a Portugal.
 
Nossa Senhora, mãe de Jesus enquanto Deus vivo na Terra, consolida assim os laivos de sacralidade que acompanham o próprio acto da criação. A diferenciação do Homem das criaturas suas congéneres no mundo animal, faz-se pelo assumir desta capacidade simbólica de interpretar o universo. E Nossa Senhora, hoje padroeira e verdadeira Rainha de Portugal, já era pedra angular da fé daqueles que por aqui vivem, desde tempos anteriores ao próprio nascimento de Jesus Cristo. Num laivo de mistério profundo, apelando aos sentidos que impõem a disciplina à carne, foi a Virgem Ancestral, mãe verdadeira da humanidade, quem determinou os vínculos perenes que mais tarde se transformam na persistente entrega à causa maior da independência do nosso Pais.
 
 
 
 
Em Coruche, pequena e airosa vila situada nas margens do Rio Sorraia, no Ribatejo, a vinculação a Nossa Senhora surge marcada precisamente pelo processo de formação da Identidade Nacional. De facto, sendo estrategicamente crucial para o controle dos territórios envolventes, bem como essencial por se situar em pleno coração da ubérrima lezíria sorraiana, Coruche conheceu um processo histórico intrincado, marcado por sucessivas lutas de conquistas e reconquistas por parte dos diversos povos que a quiseram controlar.
 
Em 1166, quando Dom Afonso Henriques a conquista aos Mouros, a pequena vila era defendida por um castelo de composição rudimentar, cuja construção era essencialmente suportada por travejamentos de madeira e tijolo simples. Foi, aliás, o carácter muito precário desta fortificação, que servia basicamente de complemento na linha de defesa marcada pelas fortificações de Santarém e de Montemor-o-Novo, que determinou a sua reconquista pelos maometanos, ocorrida em 1180, o que obrigou o primeiro Rei de Portugal a um esforço redobrado para a colocar definitivamente sob domínio Nacional.
 
Ainda o Século XII, antes de estar encerrado o processo de Nacionalização de Coruche, a Coroa entrega a vila à Milícia da Ordem de São Bento, em Évora, mais tarde de Avis. Neste processo, cujo fulcro é colocado no cimo da colina onde se erguiam as paredes do velho castelo, assume sempre especial papel o culto Mariano a Nossa Senhora, concretizado a partir da velha ermida que por ali existia. A consolidação das fronteiras e a definitiva pacificação do território Nacional, determina a perda da importância da fortificação, recentrado todo o perímetro das paredes fortificadas para a componente sagrada do espaço de culto.
 
 
 
 
Embora se conheça muito pouco daquilo que foi a História antiga de Coruche, sabe-se que a sua importância estratégica foi atravessando as eras, explicando assim a manutenção da sua ocupação humana desde os primórdios da Pré-História. Depois de os Romanos terem estado lá por motivos idênticos, o longo período sob domínio muçulmano terá certamente culminado na criação de um conjunto de espaços de culto, sendo bastante provável que o alto da colina do castelo tenha sido ponto essencial na definição dessa dinâmica religiosa.
 
Coruche está, aliás, profundamente relacionada com estes processos de mudança e transmutação. A imagem de Nossa Senhora do Castelo, provavelmente de origem oitocentista, apresenta a Virgem Mãe com o seu filho em pé, ao seu lado, ao invés de a apresentar como é normal no resto do País, com o menino ao colo. Diziam os devotos populares de outros tempos, que tal se devia ao carácter muito milagreiros da Santa Mãe, explicando assim a sua importância da definição da própria identidade dos Coruchenses. Nas Memórias Paroquiais do Século XVIII, quando o pároco local apresentava às autoridades o ponto-de-situação em que ficou Coruche depois do grande terramoto de 1755, sublinha esse facto, explicando que todos os devotos que procuraram na imagem de Nossa Senhora do Castelo e nas paredes da sua ermida uma protecção contra o cataclismo, viram as suas casas salvas da ruína em que ficaram as restantes…  
 
 
 
 
É por isso o milagre, consubstanciado na intervenção de Nossa Senhora do Castelo em defesa dos seus devotos seguidores, o factor principal que permite perceber a importância deste espaço no contexto da devoção mariana Nacional, sendo certo que as especificidades territoriais desta Senhora, muito mais do que à comum definição lendária de aparições sucessivas, se ficam a dever a uma prática reiterada desde a ancestralidade, mostrando uma linha de culto comum que se perde nos laivos antigos de outros tempos.
 
O culto actual, organizado a partir da Carta-Ordem emitida em 1516 pelo então Mestre da Ordem de Santiago e Avis, D. Jorge de Lencastre, que definia a obrigatoriedade de se organizar uma procissão anual de acção de graças a Nossa Senhora, mistura-se ele próprio com a história extraordinária da enigmática Rainha Santa Isabel, a santa alquimista que teve a capacidade de transmutar a matéria transformando pão em rosas, já que a referida procissão anual decorreu durante muito tempo no dia 4 de Julho, precisamente o dia em que se celebra a Rainha Santa e o seu falecimento em Estremoz. Só mais tarde, quando o dia 15 de Agosto passa a estar consagrado à Assunção de Nossa Senhora, se altera a data da procissão, que passa a realizar-se nesse dia e associada a uma feira anual que animava (anima ainda) a Vila de Coruche.
 
 
 
 
Ambas as datas, como é evidente, são resquícios profundos de uma religiosidade marcada pela devoção a Nossa Senhora, consubstanciada num e noutro caso em pressupostos que estão muito para além do dogmatismo que é usual noutros lados.
 
Nossa Senhora do Castelo, a Virgem-Mãe que ainda hoje acompanha em permanência muitos milhares de Coruchenses, é muito mais do que a Mãe de Jesus ou do que a mera Assunção de Nossa Senhora. É marca viva de uma ancestralidade perdida dos biombos dos tempos, marca indelével que suporta a capacidade que Coruche tem de fazer parte da vida de todos os seus filhos e dos filhos deles.
 
Vale a pena subir ao castelo de Coruche e visitar a ermida da Senhora do Castelo. Porque ali se sente Portugal.