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O Fim da União na Europa

João Aníbal Henriques, 21.07.15

 

 

Não terá sido certamente por mal, até porque resulta das contingências e das naturais consequências de uma União Europeia artificial e naturalmente contrária aos interesse das várias nações que ainda a compõem, que o Presidente Francês, François Hollande, terá dado ontem a machada final na ideia de Europa que se vinha construído e impondo desde o final da II Guerra Mundial.
 
Num discurso chocante, que contraria todas as discussões e tratados que deram forma à União Europeia que ainda temos, assente numa putativa afirmação da soberania dos vários países que dela fazem parte e que os cépticos do europeísmo sempre disseram que era uma utopia impossível de alcançar, Hollande veio a público defender a criação de um governo europeu a seis. Na sua perspectiva, os seis países fundadores da então CEE, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Luxemburgo e Holanda deverão passar a tutelar os governos de cada um dos restantes países membros, que passam a ser seus dependentes, acabando de vez com a pouca soberania que ainda lhes resta.
 
Nesta opção de uma Europa a várias velocidades e tamanhos, assume-se que os fortes controlam os fracos e que os vestígios de uma pseudo-solidariedade e respeito institucional que profusamente se utilizaram para nos vender esta realidade, serão definitivamente arrumados na gaveta. A Europa das nações, que se sustentava na soberania dos países que a compunham e na sua complementaridade institucional para reforçar a competitividade de todos, já nem sequer chega a ser uma utopia, pois a federalização da Europa, com esta espécie de governo central, institucionaliza a menoridade de alguns em detrimento da soberania dos restantes.
 
A União Europeia morreu definitivamente com este discurso, pois ele surge como a confirmação definitiva de que os argumentos desde há décadas utilizados pelos cépticos estavam correctos.
 
Mas agora, com a maior parte dos países desprovidos dos meios de produção que lhes permitiriam sobreviver e crescer economicamente e que trocaram por auto-estradas, frotas de automóveis e fundos pseudo-estruturais de vária índole que foram enchendo os bolsos de vários governos pseudo-democráticos, são poucas as opções que restam aos que não desejam submeter-se à vontade dos seis grandes. Muito pouco há a fazer, a não ser que as vicissitudes que resultam da crise Grega sejam tão grandes que façam implodir o trono onde ainda se resfastelam os seis que mandam.
 
Em todo o caso, a união morreu às mãos de François Hollande. E ele teve, pelo menos, a coragem de dar a machadada final. 

O Muro de Berlim 25 Anos Depois

João Aníbal Henriques, 03.11.14

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Parece impossível, inverosímil e inaceitável! Mesmo quem percorre as ruas do centro de Berlim, aceitando o horror do que ali se passou durante a II Grande Guerra e que ainda se sente, tem dificuldade em aceitar que há tão pouco tempo tenha sido possível à capital de uma das mais importantes nações da Europa viver dividida num regime de terror que contraria os mais elementares princípios do respeito pelo homem… e no entanto, apesar de tudo e de todos, das memórias bem vivas que se preservam nas vidas daqueles que ali sofreram estas atrocidades, e de toda a evolução que a Europa conheceu ao longo das últimas décadas, passaram-se apenas 25 anos desde o início da demolição do muro da vergonha. Foi ontem…
 
 
 
É quase impossível, para quem viaja carregando a sensibilidade humanista natural na nossa sociedade ocidental, visitar a capital da Alemanha sem se transtornar com as memória sentidas que transbordam a cada recanto daquela cidade tão especial.
 
À primeira vista, para quem gosta da história e de tocar os mesmos monumentos e espaços tocados por outros ao longo dos milénios, Berlim não é a cidade ideal para uma viagem de recreio. Mas isso é só à primeira vista. Apesar de ter sido quase completamente arrasada em 1945 durante os bombardeamentos que puseram fim à II Guerra Mundial e ao ciclo de terror imposto pelo III Reich nazi, parece que as pedras que reconstruíram a cidade carregam consigo as memórias terríveis que encheram de dor, sofrimento e consternação aquele espaço.
 
 
 
Em cada canto que se visita, lá estão ainda os ecos dos passos ignominiosos do Führer e as sombras cáusticas dos milhões de homens, mulheres e crianças que caminharam aterrorizados para uma morte atroz e inconcebível. Os monumentos, as casas e as ruas, todos novos e alguns deles com pouco mais de década e meia de existência, não foram capazes de se limpar destas emoções e elas envolvem-nos, num limbo de nojo e de amargura que é maior do que as palavras utilizadas nos muitos guias turísticos que por lá se vendem, e que tornam única uma visita atenta a este local emblemático da Europa onde hoje vivemos.
 
Construído a partir de 1961, como consequência do agravamento das relações muito tensas que resultaram da divisão da cidade pelos aliados ocidentais e soviéticos depois do final da guerra, o muro de Berlim era uma realidade física com mais de 156 kms de comprimento e cerca de 300 torres de vigilância que literalmente dividiram a cidade e os seus habitantes, separando famílias e reforçando a dor da qual a Alemanha não tinha conseguido recuperar depois das atrocidades da guerra.
 
De um lado, o sector ocidental, Berlim era essencialmente Americana. Orientações urbanísticas que promoviam a democracia, com edifícios de vidro e superfícies transparentes, amplos jardins verdejantes e centros-comerciais cheios de marcas internacionais, transformaram a cidade num dos mais cosmopolitas centros da Europa de então. Livres e seguros da sua vida, os Alemães ocidentais, constitucionalmente integrados na República Federal Alemã, viviam numa economia de consumo, no qual o liberalismo americano estava omnipresente, num ambiente de ostentação e consumismo que contrastava largamente com aquilo que se passava do outro lado.
 
No sector oriental, vigiados 24 horas por dia e controlados nos seus mais insignificantes movimentos, os Alemães apartados à força dos seus familiares ocidentais, sobreviviam à sombra de uma economia de fachada, envolvidos na pobreza de quem não é livre para escolher os passos que dá, e siderados pelas forças militares de um regime soviético que cumpria ordens estrangeiras originadas directamente no Kremlin.
O contraste era tão grande e a separação tão efectiva, que os Alemães de cada um dos lados desconhecia basicamente a forma como viviam os do outro lado, criando uma série de estórias e de lendas que, de lado a lado, foram envolvendo os outros numa aura de ficção extremada que os tornou em gente efectivamente diferente.
 
 
 
Mas há 25 anos, em Novembro de 1989, tudo mudou inesperadamente. Como consequência do enfraquecimento soviético e da consequente diminuição da opressão militar imposta pela guerra fria, os Alemães de leste ousaram insurgir-se contra o regime em que viviam. Esperava-se sangue e terror imenso, em linha com aquilo a que a idade já estava habituada, mas nada disso aconteceu. Naquela manhã do dia 9, saindo das suas casas a pé e de bicicleta, milhares de berlinenses saltaram o muro e abraçaram os seus familiares com os quais tinham perdido o contacto há já tantos anos. E não aconteceu nada a ninguém.
 
O muro caiu, de forma tão expressiva e emblemática e carregou consigo um mundo novo e diferente e uma Europa necessariamente mais forte a pujante. Tal como é inconcebível a sua construção, e o modo como o chamado ocidente aceitou a situação ignóbil que esse monumento criou, inconcebível é também a sua demolição, num movimento natural de reaproximação que embora marcado pelas feridas insanáveis que ainda hoje por lá vemos, se impôs ao Mundo como se de uma realidade natural se tratasse e como se aquele momento, acompanhado ao vivo e em directo por biliões de pessoas em todo o lado, mais não fosse do que um mero exercício experiencialista igual a tantos outros que se foram fazendo…
 
 
 
 
Vinte e cinco anos depois, é pungente passear em Berlim. Tendo desaparecido quase completamente, demolido e vendido em peças aos milhões de turistas que imediatamente invadiram os monumentos antigos que a URSS reconstruiu de fora exemplar depois da guerra, o muro é como se ainda lá estivesse. As pedras que colocaram para marcar o local onde se erguia, são um testemunho demasiado pesado por quem ali passa pela primeira vez e é impossível calcorrear aquela linha sem expressar a questão retórica que enche a boca de toda a gente: como foi possível?
 
Como foi possível aquilo que ali aconteceu? Como foi possível que o Mundo inteiro tenha sido complacente com uma realidade daquelas? Como possível que a Alemanha, ainda hoje a gemer lacrimosamente com as feridas que lhe foram impostas por duas grandes guerras, tenha sido capaz de se reconstruir, de fomentar equilíbrios novos e diferentes, e de promover um dia-a-dia no qual o bem-estar é parte integrante.
 
 
 
 
 
É certo que as memórias do Reich permanecem bem vivas naquela cidade. Apesar de as suas casas, edifícios e monumentos terem desaparecido quase completamente. Mas também é certo que para os Alemães que ali vivem, transformando memórias em negócios evidentemente florescentes, viveram eles próprios mais de 40 anos de terror ninguém compreende.
 
Berlim não apagou ainda as memórias das suas guerras, tal como ainda transpira com o suor do terror soviético. Mas fá-lo como se isto se tivesse passado há 5 séculos e não, como infelizmente sabemos, há apenas 25 anos. Ontem…