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Regresso do Presidente da República a Cascais Após Viagem aos Açores em 1941

João Aníbal Henriques, 22.05.25

 

por João Aníbal Henriques

Em Julho e Agosto de 1941, num contexto internacional marcado pela II Guerra Mundial, a República Portuguesa teve necessidade de afirmar a importância do Arquipélago dos Açores para a soberania nacional. Para tal, cumprindo aquele que era um desiderato sempre adiado desde a viagem efectuada àquele território pelo Rei Dom Carlos e pela Rainha Dona Amélia, o então Chefe de Estado, o General Óscar Fragoso Carmona, fez uma visita oficial preparada com minúcia e muito cuidado e apoiada por uma campanha de comunicação nunca vista em Portugal.

Com o perigo eminente de um ataque alemão àquela que era estrategicamente uma das mais importantes rotas de fuga numa Europa em guerra, os Açores eram igualmente visitados pelos interesses particulares de ingleses e americanos que Portugal tinha de rebater, afirmando-se historicamente como o país proprietário daquele território ultramarino. A visita do General Carmona foi, deste modo, a forma encontrada para propagar junto de todo o Mundo a soberania portuguesa sobre os açores e, no contexto da guerra, reforçar a importância de Portugal enquanto parceiro estratégico das potencias beligerantes mesmo mantendo a sua bem conhecida neutralidade política.

 


Tendo corrido da melhor forma e cumprido integralmente os propósitos para os quais havia sido concebida, a visita do Presidente da República aos Açores fez manchetes em toda a comunicação social nacional e internacional, levando consigo a mensagem subliminar do Estado Português, e enchendo de orgulho e de esperança os portugueses que viam nos dirigentes do Estado Novo a solução mais pragmática para os muitos problemas que afectam cronicamente Portugal desde há demasiadas décadas.

Como no resto do País, Cascais vibrou de forma entusiasmada como os ecos desta viagem. E os cascalenses, cientes do facto de a sua vila ter sido escolhida pelo histórico presidente para sua residência oficial, impavam de orgulho perante o sucesso alcançado por aquele que eles consideravam um deles.

O mais entusiasmado dos cascalenses com o êxito da iniciativa foi José Florindo d’Oliveira, o dirigente de sempre da Propaganda de Cascais que, politicamente muito próximo dos ideais propagados pelo Estado, aproveitava todas as oportunidades para contribuir activamente para que a sua terra fizesse parte do grande plano de salvar Portugal. E nesta ocasião, mesmo contra as opiniões oficiais que pediam às entidades locais que se alheassem da viagem do Presidente da República aos Açores, Florindo d’Oliveira teimou em organizar a sociedade civil cascalense para receber de forma gloriosa o General Carmona no seu regresso à Cidadela de Cascais depois de tão retumbante êxito alcançado em terras açorianas.

Em conluio com o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, José Roberto Raposo Pessoa, organizou uma festa de boas-vindas ao Chefe de Estado marcada de forma brilhante por um convite feito a todos os cascalenses que possuíssem automóveis, de forma a que se concentrassem à entrada do território municipal, junto à Fortaleza de São Julião da Barra, acompanhando em desfile a entrada do General Carmona em Cascais e acompanhando-o ao longo da Avenida Marginal, em cortejo embandeirado, até à residência oficial na Cidadela.

 


Dizia Florindo d’Oliveira num panfleto que encheu todas as caixas de correio do Concelho de Cascais: “Preparemo-nos para festivamente aguardar a chegada do Exmº. Senhor Presidente da República! Depois da triunfal visita aos Açores o Chefe da Nação tornou-se ainda mais querido aos nossos corações! A admiração que temos por Sua Excelência, o respeito que nos inspira o alto cargo, que tão elevadamente desempenha, aumentam com as manifestações de carinho, admiração e respeito que todos os nossos concidadãos lhe tributam. Recebamos grandiosamente, na volta ao seu lar nesta nossa vila, o Exmº. Senhor General Carmona e a Sua Exmª. Família! Regosijarmo-nos pela sua feliz viagem é abraçar também o Portugal Insular, pela nobreza com que recebeu o Chefe da Nação comum! Gritar bem alto que muito queremos ao preclaríssimo Chefe da Nação é dizer ao Mundo o nosso amor a Portugal!”

 


E o povo de Cascais respondeu à altura ao apelo de Florindo d’Oliveira e José Raposo Pessoa, literalmente entupindo a Avenida Marginal, entre a entrada por Carcavelos e a Cidadela de Cascais, com milhares de automóveis ostentando orgulhosamente centenas de bandeiras de Portugal, e acompanhados ao longo da estrada e enchendo os passeios, por milhares de Cascalenses que gritavam apoteoticamente pelo seu vizinho Presidente.

A reacção do Chefe de Estado não se fez esperar e no mesmo dia, através de telegrama enviado para a Câmara Municipal e para a Sociedade Propaganda de Cascais, o General Óscar Carmona agradece de forma sincera e reconhecida a iniciativa da Sociedade Propaganda, da Câmara Municipal, na pessoa do seu Presidente e dos Vereadores, e de todas as entidades públicas e privadas que contribuíram para a organização deste evento, sublinhando o quão importante havia sido para ele e para a sua esposa essa grande manifestação de carinho por parte dos cascalenses. Diz ele que foi “uma manifestação que lhe calou muito no seu espírito e que jamais esquecerá!”

Nas contas apresentadas no final do evento, verifica-se que o investimento dos cascalenses no mesmo ascendeu  a 602$50, a que se somaram cerca de 300$00 que foram pagos directamente pela Junta de Turismo de Cascais para impressão dos cerca de 10.000 convites distribuídos à população, e mais 600$00 relativos à oferta de foguetes e morteiros lançados durante a festa e que foram pagos pelo Grupo Desportivo Estoril Plage.

 

 

 

Fotografias do AHMC – Arquivo Histórico Municipal de Cascais

O Dia da Árvore de 1982 em Cascais

João Aníbal Henriques, 09.05.25
 

por João Aníbal Henriques

Corria o ano de 1982 e o governo municipal de Cascais pertencia à Aliança Democrática. Com Carlos Rosa como presidente da Autarquia, do executivo municipal fazia igualmente parte António de Sousa Lara que acumulava o cargo com a sua profissão de professor universitário, investigador e dirigente da Sociedade Propaganda de Cascais.

E foi no âmbito de uma estreita parceria entre a Câmara Municipal de Cascais e a Sociedade propaganda que nesses anos de boas relações institucionais se desenvolveram diversos projectos que alteraram de forma pragmática e efectiva o tecido social, económico e cultural do Cascais de então.

 

 

Para além dos concursos de montras, dos concursos hípicos, dos festejos das principais efeméridas que de alguma forma estavam relacionadas com a história da vila, nesse ano de 1982 estas instituições lançaram em conjunto um vasto programa de plantação de árvores ao longo dos principais arruamentos da vila.

Sob a orientação do mítico Armando Penin Vilar, proprietário da Quinta das Patinhas e um dos principais impulsionadores da empresa que geria os destinos do jogo na região, e que durante muitos anos se entregou de Alma & Coração à defesa da causa pública e dos interesses dos cascalenses, a Sociedade Propaganda de Cascais encetou e dirigiu os trabalhos de plantio de muitas das árvores que ainda hoje enchem de sombra os arruamentos cascalenses. Figura de destaque em todo o processo, o sempre muito activo e saudoso Benjamim de Quaresma Dinis que, em equipa com António de Sousa Lara, concebeu a grande maioria dos planos de revitalização de Cascais naquela época.

 

 

Em ofício dirigido às principais forças vivas da sociedade civil cascalense, a Câmara Municipal e da Sociedade Propaganda apelavam à participação de todos neste acto simbólico que consideravam ser essencial para o projecto global de recuperação da dinâmica da vila depois dos muitos problemas que tinham resultado da revolução e que de alguma maneira haviam contribuído para a degradação do espaço público e para a fuga de Cascais de muitos empreendedores portugueses e estrangeiros que contribuíam decisivamente para o antigo charme que caracterizava a povoação. O cerne da intervenção, centrada no plantio simbólico das árvores nos arruamentos da vila, era o de motivar os cascalenses para participarem na identificação dos problemas que afectavam Cascais e para que, em conjunto com as instituições municipais, criarem ideias, projectos e estratégicas que devolvessem à vila a pujança que havia tido noutros tempos.

Em ano de eleições autárquicas, que uma vez mais colocam nas mãos dos cascalenses os destinos desta sua terra, importa relembrar estes projectos, não só pela importância que tiveram noutros tempos, como também pelos ensinamentos que deixam pistas para a definição do futuro que queremos para Cascais.

Sem redes sociais e sem os facilitismos de comunicação que hoje temos, o Cascais de há 40 anos seguia bem longe do vazio dos discursos que hoje enchem as discussões que acompanham o acto eleitoral, juntando sensibilidades diferentes, opções político-partidárias por vezes divergentes e origens sociais díspares em torno do Amor que os unia em torno dos reais interesses desta Nossa Terra! Porque de mãos sujas na terra das nossas ruas, todos eram iguais na apreciação das coisas boas que iam surgindo para melhorar a vida da comunidade cascalense.

Outros tempos.

 
 
 
Fotografias de João Cabral da Silva