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O Solar dos Falcões em Cascais

João Aníbal Henriques, 10.03.22

 

por João Aníbal Henriques

Marcada pelo ritmo austero da sua fachada, o Solar dos Falcões, situado no coração do núcleo urbano consolidado de Cascais, é um dos mais importantes e significantes edifícios da vila. Tendo sobrevivido ao grande terramoto de 1755, quando os danos que sofreu não impediram que tenha passado a ser utilizado como substituto da igreja paroquial que, ali mesmo ao lado, havia sido bastante danificada pelo cataclismo, é um dos mais antigos edifícios de Cascais, carregando consigo informações essenciais para compreendermos como era a vila antes das grandes transformações ocorridas a partir de 1870 quando Dom Luís I escolheu este local como estância de veraneio.

De salientar, até porque é bem demonstrativo desta importância, o papel que teve Manuel Rodrigues de Lima, o arrematando da hasta pública que vendeu esta casa e a capela anexa em 1864, na concretização desse projecto de trazer a corte para a vila. Esse seu proprietário, num acto inusitado de entrega ao bem comum, constrói no terreno do velho solar um magnífico teatro dedicado a Gil Vicente que, na magnificência do seu projecto, contrasta de forma evidente com a simplicidade chã que caracterizava Cascais naquela época. E, despertando nos seus contemporâneos a estranheza por tão grandiosa obra num espaço tão desinteressante, depressa se percebe que a mesma fazia já parte de um plano maior engendrado pelas mais importantes e influentes personalidades da vila, das quais faziam parte o dito Manuel Rodrigues de Lima mas também João de Freitas Reis e, principalmente, Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, que com um espírito muito empreendedor foram dotando a vila dos equipamentos necessários para que ela pudesse vir a ser escolhida pelo monarca como destino para o final das suas férias de Verão.

 

 

O Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré, em conjunto com o que resta do seu antigo jardim, apresentam a formulação urbanística que definiu o nascimento e crescimento do casco antigo da Vila de Cascais. A simplicidade dos volumes, contrastando de forma evidente com a riqueza da sua decoração interior, é demonstrativa da influência que teve a arquitectura popular tradicional da região saloia naquilo que foi a consolidação da vila enquanto cerne de afirmação do poder municipal.

O provável instituidor da capela e possível construtor do solar, terá sido Bernardino Falcão Pereira e sua mulher Antónia Felícia Gameiro Feyo que, algures ainda no Século XVII, assumiram este espaço como morada para a família e como jazigo privado.  Foram eles quem, depois de um processo de instalação no território municipal muito marcado ainda pela exploração dos recursos primários da vila, deram origem a uma linhagem familiar que foi determinante na recriação do Cascais da Corte cujas repercussões se sentiram até à actualidade. Pedro Falcão, o saudoso autor da mítica obra “Cascais Menino” era um dos orgulhosos descendentes destes primeiros Falcões, fazendo eco deste legado nas suas obras e nos vários momentos que determinam a sua profusa vida de cascalense.

 

 

Em termos artísticos o Solar dos Falcões possui um importante conjunto azulejar que, com data de 1729, foi pintado pelo Mestre António de Oliveira Bernardes e centra-se numa pintura figurativa de Nossa Senhora da Nazaré a ressuscitar um homem. Os símbolos marianos, que enchem a Capela-Mor, acompanham várias figuras infantis com ligação directa às litanias de Maria, compondo um quadro que complementa de forma evidente a abordagem mariana existente no vizinho Convento de Nossa Senhora da Piedade e o dogmatismo católico que caracteriza a abordagem pragmática expressa de forma visual na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção situada ali mesmo ao lado.

Em termos históricos, e para além da forma como o conjunto monumental evoluiu ao longo da sua longa existência, importa sublinhar a provável utilização desta casa para a assinatura da chamada “Convenção de Sintra”, na qual o General Francês Junot assina a sua rendição perante as tropas inglesas que na mesma altura estavam aquarteladas no edifício dos Condes da Guarda, actuais Paços do Concelho. Importante é ainda, entre 1741 e 1753, a breve ocupação do imóvel por padres da Ordem de São Francisco de Paula que pretendiam utilizar a casa para ali instalar o seu convento em Cascais, e do qual desistiram depois de se aperceberem da existência de condicionantes à posse plena da propriedade.

 

 

Estando a capela classificada desde 1978 como Imóvel de Interesse Público, e o solar como de Interesse Municipal desde 2009, o conjunto composto pelos dois monumentos faz parte integrante da matriz identitária de Cascais e recupera os valores mais importantes da génese de índole rural desta vila piscatória.

Integrada no quarteirão onde o Teatro Gil Vicente impera visualmente, dando o mote para que se perceba como evoluiu historicamente a vila desde meados do Século XIX até à actualidade, o Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré serão porventura as mais abrangentes peças do património cascalense.

O Edifício dos SMAS de Cascais

João Aníbal Henriques, 17.02.22

 

por João Aníbal Henriques

Actualmente devoluto, depois de em 2012 os serviços das Águas de Cascais terem mudado a sua sede para a Aldeia de Juso, o edifício dos SMAS, situado na Avenida do Ultramar, mesmo no coração da Vila de Cascais, é um dos mais interessantes exemplos da forma como a arquitectura e o urbanismo acompanharam o pujante desenvolvimento do concelho ao longo de toda a primeira metade do Século XX.

 

 

A escolha do arquitecto que o projectou denota igualmente a forma intencional como a expressão urbana de Cascais foi adaptada para incorporar os valores que o Estado havia definido como essenciais para a definição do novo Portugal. Joaquim Ferreira (1911-1966), um dos mais eminentes membros das Belas Artes, defendia uma cisão programática com as perspectivas arquitectónicas vigentes, criticando a visão paradigmática da denominada “Casas Portuguesa” e assumindo-se frontalmente contrário àquilo que ele pragmaticamente chama o “Português Suave”.

E se em termos formais tudo é novo na obra de Joaquim Ferreira, em linha com o modernismo que transversalmente alterou a praxis das cidades portuguesas em meados do século passado, o edifício dos SMAS de Cascais apresenta inovações igualmente ao nível das técnicas e dos materiais utilizados, recriando um palco de linearidade futurista onde a experimentação acabou por se transformar numa espécie de escola com resultados que se espraiam até à actualidade.

 

 

O projecto original deste edifício, assente na eminente funcionalidade programática para o qual ele foi pensado, repercute a linearidade da abordagem que Joaquim Ferreira já havia intentado no projecto do carismático edifício do Cinema São José, junto à Ribeira das Vinhas, que veio substituir as instalações novecentistas da antiga fábrica de conservas de Cascais.

O anteprojecto do edifício, datado de 1961, havia sido previamente aprovado pelo Secretário de Estado das Obras Públicas e foi inaugurado, com pompa e muita circunstância, em 1965, de forma integrada no importante programa comemorativo do 600º aniversário da autonomia de Cascais. A partir dessa altura, com o alto patrocínio das mais altas entidades estatais, torna-se o símbolo funcional de um Cascais assente na visão progressista e moderna que há-de marcar o cunho do município durante mais de quarenta anos.

 

 

Depois deste edifício, quase todas as obras públicas concretizadas em Cascais seguiram este exemplo de maturação desta linha arquitectónica despojada de revivalismos, reformatando a imagem da vila e dotando-a de renovadas condições para assumir o carácter cosmopolita muito marcante que tornou possível uma onda de progresso ímpar afectando de forma positiva e linear quase todas as áreas do território municipal.

Os homens de Cascais que governaram a terra nesta época eram gente empreendedora, com uma capacidade de visão estratégica extraordinária e uma abertura de espírito sagaz que lhes permitiu alcançar um grau de sucesso nunca antes visto no concelho. E o Edifício dos SMAS, respondendo arquitectonicamente a esse desafio, serviu como comprovativo dessa situação perante a sociedade e a generalidade dos portugueses.

A Igreja dos Navegantes em Cascais

João Aníbal Henriques, 02.02.22
 

por João Aníbal Henriques

Marcante na paisagem cénica de Cascais, com os seus altivos torreões a imporem-se na paisagem sobre o caso antigo da vila, a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes (também designada como de São Pedro Gonçalves Telmo ou de Nossa Senhora dos Prazeres) é um dos mais enigmáticos segredos de Cascais.

Nada se sabendo de certo sobre a sua origem, presume-se que a Igreja dos Navegantes tenha sido construída algures no Século XVI por iniciativa dos homens do mar de Cascais. Isto mesmo é alegado por eles quando, nessa mesma altura, através dos seus representantes legais, apelam directamente a Roma e ao Papa queixando-se dos abusos que sofriam por parte da Igreja local.

 

 

Diziam eles que as multas de que eram alvo, e que derivavam das faltas às presenças obrigatórias nas Missas e ao trabalho que faziam ao Domingo, se deviam à necessidade efectiva de angariarem o seu sustento. E que, em contrapartida, haviam construído a suas custas dois conventos, um no Estoril e outro em Cascais, um hospício e duas igrejas (a de Nossa Senhora dos Prazeres e a da Ressurreição de Cristo que caiu com o Terramoto de 1755).

Terá sido este contacto, aliás, o que motivou o Papa Paulo V a conceder a autorização para se pescar aos Domingos e nos dias santos, na perspectiva de que os lucros auferidos nessas ocasiões se destinavam exclusivamente à construção das igrejas e a consolidar o processo de canonização de Frei Pedro Gonçalves Telmo, futuro padroeiro dos pescadores de Cascais.

A única certeza que existe é que a igreja sofreu uma intervenção que visou a sua reconstrução em 1729, conforme o atesta a data dos seus painéis de azulejos, estando ainda in completa em 1755 quando o terramoto novamente lhe abalou os alicerces.

 

 

Em termos estéticos, a Igreja dos Navegantes  que agora temos,  que resultou do segundo processo reconstrutivo iniciado em finais do Século XVIII, e que só foi concluído em 1942 quando foram colocados os dois torreões, situa-se na transição entre o período maneirista e proto-barroco, apresentando como ponto de sublinhado interesse a sua rara planta oitravada que Raquel Henriques da Silva, a grande especialista nesta matéria, considera que “exemplifica o gosto de inovação formal característico daquele período”.

O facto de ter ficado inacabada, sem os detalhes decorativos e estéticos característicos do barroco cascalense, sublinham o seu interesse que, de acordo com a historiadora já referida, depende muito mais do jogo de luz que a sua formulação arquitectónica propicia, do que propriamente do formalismo regular que caracteriza outros monumentos idênticos desta mesma época.

 

 

O seu carácter diferenciador, provavelmente resultante da influência dos frades de Nossa Senhora da Piedade, que orientaram os homens do mar no seu projecto de erguer a igreja, transforma a Igreja dos navegantes num dos mais preciosos monumentos do Património religioso Cascalense.

 

Joaquim Baraona - A Coragem e a Determinação que Colocaram Cascais na Vanguarda da Tecnologia

João Aníbal Henriques, 14.12.20
 

No início de 1974, quando a revolução de Abril era ainda uma mera miragem, Cascais atravessava uma das maiores e mais transversais crises de sempre.

Nessa altura, a mais premente necessidade dos Cascalenses era um novo hospital e, não havendo vontade nem meios por parte do poder central para o construir, um jovem e destemido Provedor da Santa Casa da Misericórdia ousou contrariar tudo e todos e construir o hospital que considerava condigno para os Cascalenses. Chamava-se Joaquim Baraona e com este seu projecto colocou Cascais na vanguarda da tecnologia médica daquela época.

O velho Hospital de Cascais, construído em 1941 com um subsídio do Fundo do Desemprego ao qual se juntou uma parte importante do legado dos Condes de Castro Guimarães e um terreno doado pelo benemérito Marques Leal Pancada, estava completamente obsoleto. Os 29000 habitantes do Cascais de 1940 tinham aumentado para cerca de 92700 em 1970 e o antigo hospital, equipado com tecnologia do período da guerra, já não conseguia dar uma resposta cabal à população Cascalense. Em Abril de 1971, numa tentativa ousada para tentar resolver os problemas com os quais a instituição se debatia, é eleita uma nova direcção na Misericórdia.

O novo provedor, o ainda muito jovem empresário Joaquim Baraona, assume o desafio de resolver o problema, perante o cepticismo da mais tradicional sociedade Cascalense. Depois de tomar posse, com uma firmeza a que os Cascalenses não estavam habituados, Joaquim Baraona dedica-se por inteiro a sanar os problemas financeiros que impediam o trabalho daquela importante instituição e, antes do final desse ano, faz um anúncio bombástico que deixa Cascais boaquiaberto.

 

 

Numa entrevista concedida ao jornal “A Nossa Terra” o provedor promete iniciar de imediato as obras de remodelação do velho hospital e dotá-lo da mais moderna tecnologia existente nessa época. Considerando que o que existia não era compatível com a vocação turística que Cascais vivia, Baraona menciona os avanços técnicos e científicos que a medicina havia alcançado e refere como exemplo uma máquina denominada “auto-analizer”, existente em vários hospitais Norte-Americanos que era considerada um dos mais revolucionários equipamentos do seu tempo. E, perante a estupefacção do repórter que o entrevistava, desde logo promete que o Hospital de Cascais seria o primeiro a tê-lo em Portugal! E assim o fez! Procedendo a angariações de fundos e à captação de investimentos, o jovem provedor consegue rapidamente obter os meios para proceder à reconstrução do hospital, para o equipar com as mais modernas tecnologias e com o dito “auto-analizer” que de imediato adquiriu nos Estados Unidos.

 

 

 

Mas levantava-se um problema prático que o previdente provedor não tinha conseguido prever: o hospital era demasiadamente pequeno e não existia espaço físico onde se pudesse colocar este equipamento! E Joaquim Baraona uma vez mais não desistiu.

Procurando em redor do hospital espaços vazios onde fosse possível construir as instalações para montar o tão desejado “auto-analizer” encontra ali mesmo ao lado, num terreno que pertencia ao Estado e que se encontrava ocupado por um edifício onde tinha funcionado há algum tempo um posto de apoio à tuberculose, a tão desejada solução para o seu problema. Mas surpreendentemente foi muito mais fácil encontrar os meios para adquirir o equipamento do que obter as autorizações governamentais para o instalar no edifício devoluto já existente… Mas o provedor não desistiu. Com o apoio unânime da Mesa Administrativa da Misericórdia, o jovem provedor dirigiu-se ao prédio devoluto, arrombou a porta oficialmente selada e iniciou de imediato a instalação do equipamento.

 

 

 

 

Como seria de esperar, as vozes críticas de sempre logo se levantaram e as ameaças surgiram imediatamente.

Mas Baraona sabia que o espaço continuava legitimamente no domínio público e assim concretizou sem mais atrasos o seu projecto que contribuiu de forma imediata para uma melhoria significativa dos serviços médicos do hospital e que foi responsável pela vida de milhares de Cascalenses. O novo hospital foi inaugurado em Abril de 1974, dias antes da revolução, com a presença do Presidente da República e das mais altas individualidades do Estado e da sociedade desta terra. Noutra terra qualquer é mais do que certo que ainda hoje teríamos o “auto-analizer” por estrear e guardado numa arrecadação. Mas a coragem e a determinação de Joaquim Baraona foi essencial na defesa dos interesses legítimos de Cascais e dos Cascalenses, resultando numa benfeitoria que funcionou até 2010.

Porque a coragem faz parte dos genes dos verdadeiros Cascalenses...

 

Nossa Senhora da Conceição e as Memórias do Convento da Piedade em Cascais

João Aníbal Henriques, 10.12.20
No dia de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira e Rainha de Portugal e invocação ancestral de Cascais, recuperamos a memória do Convento da Piedade, escola de filosofia e de pensamento, onde nasceu a Identidade Cascalense. Actual Centro Cultural de Cascais, o antigo convento foi cadinho de cultura, é hoje o coração cultural da nossa terra e trabalha diariamente para a consolidação no futuro da Identidade Municipal. Porque a cultura em Cascais conjuga-se no passado, no presente e no futuro.

 

Villa Romana de Freiria: Devolver aos Cascalenses a Memória Municipal

João Aníbal Henriques, 10.12.20
Devolver a Cascais uma herança com 2000 anos. Sabendo que a vocação turística de Cascais se consolida no devir quotidiano dos Cascalenses do Século XXI estamos a recuperar o mosaico romano da Domus Senhorial de Titus Curiatius Rufinus na Villa Romana de Freiria, em São Domingos de Rana. Com um impacto extraordinária no reforço da qualidade de Cascais enquanto destino turístico de excelência na Europa, Freiria é agora mais oportunidade para conhecer e reconhecer as origens e a Identidade de Cascais.



Fez-se Luz em Cascais!

João Aníbal Henriques, 11.11.20
Se há coisa difícil de perceber nos dias de hoje é a existência de um Mundo sem electricidade… De facto, dos telefones às televisões, passando pelos electrodomésticos e pela própria iluminação dos espaços públicos, a electricidade está hoje omnipresente em todos os momentos do quotidiano sendo parte imprescindível do nosso crescimento civilizacional. Mas nem sempre foi assim e, até época não muito remota, não existia electricidade em Portugal! Mais uma vez, por ser (como sempre foi) o centro nevrálgico de Portugal, Cascais teve papel decisivo na implementação deste extraordinário avanço tecnológico, tendo sido no Passeio Dona Maria Pia, mesmo junto à Cidadela, que se efectuou a primeira tentativa de iluminação pública em Portugal! Sublinhamos a palavra “tentativa” porque, pensada como surpresa maior para a comemoração do aniversário natalício de SAR o Príncipe herdeiro Dom Carlos, a experiência contou com alguns percalços caricatos que muito devem ter aborrecido Sua Majestade o Rei Dom Luís I que planeara minuciosamente a iniciativa e que contou com o apoio das principais forças da sociedade civil local… O gerador adquirido para alimentar as lâmpadas colocadas na via pública avariou e foi necessário o empréstimo à última hora de equipamento de substituição por um navio Inglês que estava fundeado ao largo de Cascais… Mas, à hora marcada e para gáudio e felicidade de Portugal, lá se acenderam as lâmpadas dos candeeiros e o Passeio Maria Pia, ali mesmo no coração de Cascais, transformou-se no primeiro lugar de Portugal a ser iluminado electricamente! Cascais, sempre na vanguarda da tecnologia e do desenvolvimento, cumpre uma vez mais o seu papel de guarda avançada de Lisboa, transformando a noite escura de 15 de Agosto de 1878, num cenário onírico de iluminação e esplendor que a partir dali se estendeu à capital e ao resto de Portugal. Fez-se luz em Cascais e, a partir desta Nossa Terra, iluminou-se Portugal!


Quando a História de Espanha acontece em Cascais

João Aníbal Henriques, 26.10.20
No dia 20 de Julho de 1936 Cascais foi palco de um acontecimento dramático que mudou de forma drástica e permanente os destinos históricos da Espanha actual. Na localidade da Areia, junto ao areal do Guincho, uma avioneta despenhou-se abruptamente no solo depois de ter tentado descolar de um aeródromo improvisado na pista equestre da Quinta da Marinha. A bordo, depois de ter sido escolhido pelos seus pares para liderar a revolução instituída em Espanha contra a república vigente, seguia o General José Sanjurjo Sacanell, que regressava à sua pátria para dar corpo à mais dura das ditaduras jamais vividas em terras espanholas. O militar, que viveu exilado durante longos períodos no Estoril, organizou a partir desta terra os alicerces do novo regime político que pretendia fazer nascer, encetando em Cascais todos os contactos diplomáticos que lhe permitiram a angariação dos apoios necessário à boa concretização deste seu megalómano projecto. Com o acidente de 1936 em que perdeu a vida, abriu-se uma janela de oportunidade para muitos políticos emergentes nesta Espanha que estranhamente se debatia com adversidades diversas. E o seu lugar enquanto caudilho escolhido para liderar o país neste momento, foi ocupado até 1975 pelo General Francisco Franco, que recriou de acordo com o seu perfil um país completamente diferente marcado antes da sua morte por uma transição pacífica para um novo regime monárquico constitucional que coroa Juan Carlos e permite a institucionalização da democracia que os espanhóis hoje podem viver. Dir-se-á que a História não se faz com suposições, mas se não fosse o acidente ocorrido na Areia em 1936, o destino da Espanha teria sido certamente muito diferente. E Cascais, uma vez mais, acaba por ser eixo-axial de importância fundamental na roda do destino e dos acontecimentos.


Caminhos da Liberdade: As Origens do Partido Comunista Português em Cascais...

João Aníbal Henriques, 09.09.20
Cascais surge ao público associada quase sempre a uma ideia de conservadorismo que não corresponde à realidade. Em vários sectores de actividade, desde a ciência, à tecnologia, à pintura, escultura e literatura, passando pelo empreendedorismo e até pela política, Cascais foi sempre terra de vanguarda e contribuiu de forma decisiva para o nascimento e consolidação de ideias inovadoras que ajudaram a transformar e a fazer evoluir Portugal e o próprio Mundo. Um destes exemplos prende-se com o surpreendente rol de “Casas Clandestinas” existente neste concelho. De facto, desde a sua fundação em 1921, que o Partido Comunista Português utiliza o respeito pela liberdade que aqui encontra para dar corpo às suas iniciativas e projectos.  Em Novembro de 1943, contra quase tudo o que é expectável, realiza-se no Monte Estoril o primeiro congresso do partido depois de ter sido remetido à clandestinidade, no qual o líder Álvaro Cunhal, em plena II Guerra Mundial, vem defender a unidade da Nação Portuguesa na luta pelo pão, pela liberdade e pela independência. E alguns anos depois, já em 1957, é em Cascais que são aprovados os primeiros estatutos do partido, alicerçando um programa de princípios que norteará a actividade comunista durante as épocas conturbadas que depressa chegarão. Decorrido na Casa dos Cedros, em São João do Estoril, este V Congresso do PCP é marcado pela grande discussão sobre o problema colonial, tendo sido a primeira vez que os congressistas Portugueses recebem as saudações oficiais por parte dos restantes partidos comunistas do Mundo de então. Depois, já em 3 de Janeiro de 1960, foi na Vivenda Montalvinho, em São João do Estoril, que o histórico líder comunista se refugiou depois do grande sucesso da sua fuga da prisão em Peniche, mostrando de forma cabal ser este o destino de excepção que melhor lhe garantiria a segurança neste momento tão importante, inquietante e marcante da sua vida pessoal e da vida do próprio partido nascente. Em suma, num registo historicamente longo de respeito pelo outro e pelo pensamento de vanguarda, Cascais foi sempre um verdadeiro bastião de liberdade, tendo a capacidade de acolher e promover formas alternativas e vanguardistas de pensamento. Porque este é o ADN Cascalense. 


Avis e Cascais

João Aníbal Henriques, 31.07.20
Em 1385 a independência de Portugal foi salva por um homem. Chamava-se João das Regras. Criou uma nova dinastia - de Avis - e o Mundo novo em que agora vivemos. Foi devido a ele que a Europa se ligou à Ásia, à África, à América e à Oceania. Como prémio de vida o Rei Dom João I ofereceu-lhe o presente mais extraordinário do Portugal de então: o Senhorio de Cascais!