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O Hotel Miramar no Monte Estoril: uma questão de vocação

por cascalenses, em 06.06.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem construções que transcendem o imenso valor que se associa ao seu uso e que, pelas suas características intrínsecas, se impõem na paisagem definindo com precisão a vocação das localidades onde foram construída. É o que acontece com o Chalet Almeida Pinheiro, mais conhecido como Hotel Miramar, em pleno coração do Monte Estoril…
 
O Chalet Almeida Pinheiro, situado em pleno coração do Monte Estoril, é uma das peças mais emblemáticas da arquitectura de veraneio em Portugal. Concebido para cumprir a dupla função de ostentar a riqueza, o poder e a diferença da sua primeira encomendadora, uma “excêntrica africanista” de acordo com a descrição do Engenheiro Almeida Pinheiro que o construiu, e de servir como habitação de luxo para a mesma, a casa apresentava uma volumetria excepcional, impondo-se na paisagem e no registo de veraneio que caracterizava as casas existentes na sua envolvência.
 
De acordo com as descrições da época, a dimensão do Chalet Almeida Pinheiro era de tal forma inusitada que a casa fazia lembrar uma enorme praça de touros colocada estrategicamente dentro de um grande e frondoso jardim que, encobrindo tenuamente alguns dos seus detalhes, despertava a curiosidade e o interesse de quem por ele passava naqueles tempos. Deixava implícita uma certa descrição, apesar de o apelo maior seguir na linha da ostentação, apelando à imaginação e ao enleio.
E desde logo, quando ainda era uma construção muito recente no autêntico emaranhado de egos que deu forma ao desenho arquitectónico do Monte Estoril original, se transformou no cadinho maior da identidade monte estorilense assumindo papel fulcral na definição estética do que haveria de vir a ser aquela localidade enquanto berço primária da vocação turística municipal.
 
 
 
 
Os principais elementos definidores da importância arquitectónica do Chalet Almeida Pinheiro tiveram uma função estética e decorativa. 
 
Os torreões, altaneiros mas propositadamente desnivelados, recriavam em pleno romantismo a ideia de coisa velha e antiga, lançando em quem o observava a dúvida sobre a verdadeira origem daquela construção. No final do Século XIX, quando a casa foi construída, não havia no horizonte possibilidade alguma de uma enorme batalha em terras estorilenses, nem tão pouco se augurava a possibilidade de construir um castelo com pretensões funcionais. A ideia subjacente ao projecto, mais do que dependente da realidade vivida de forma efectiva, pretendia reforçar o vínculo identitário com o revivalismo decorativo do romantismo grassante, recriando cenários plenos de imaginação e ficcionando uma realidade que se assumia como cenário maior no qual os seus proprietários representavam o papel da sua vida. Como é evidente, os torreões do Chalet Almeida Pinheiro nunca defenderam nada nem ninguém, apesar de as mísulas de cantaria fazerem lembrar velhos merlões de castelos que outros sítios têm a sorte de ter. Mas, em termos da sua funcionalidade estética, cumpriram religiosamente o seu papel de sublinhadores da importância da já referida “excêntrica africanista” no contexto social romântico do Monte Estoril de então e, por outro lado, reforçaram os vínculos entre a nova construção que viu a luz do dia somente em 1899 e as restantes casas torreadas que davam forma à identidade estética e arquitectónica daquela que era considerada a “pérola de Portugal”.
 
A arcaria que suportava o alpendre situado na fachada principal, encimada mais tarde pela propaganda ao Hotel Royal e ao Hotel Miramar que o substituiu, recupera também ela a formulação estética daquilo que mais tarde vem a ser a “Casa Portuguesa”. A encomendadora, que teria enriquecido em África e que era de origens humildes de uma das aldeias provincianas do interior Português, precisava avidamente de se mostrar aos seus pares e, sobretudo, de o fazer de forma linear e inquestionável. E a casa, repositório maior dos seus anseios, surge no Monte Estoril do Século XIX como memória maior do velho solar de província que assenta os seus alicerces em laços de sangue antigos e perenes cujas origens se perdem nos princípios do próprio tempo…
 
Por fim, recriando-se enquanto cenário enquadrador do alpendre profundamente prenhe dos valores ancestrais da Portugalidade e do torreão altaneiro em guarda perante uma invasão que simplesmente se ousava imaginar, o muro delimitador da propriedade rematava a paisagem com um apelo quase rude às memórias da pedra solta de uma qualquer casa rural na várzea sintrense. Naquela altura, como é evidente, poder-se-ia ter colocado ali um muro de emparelhamento regular e com corte rectilíneo dando foco à casa e cumprindo a função de segurança que um qualquer muro deve ter. Mas não foi assim. Em linha com tudo o resto, o muro é também ele próprio elemento estruturante da paisagem e reforço emblemático da força da casa no contexto do Monte Estoril que estava a nascer. Pretendia transparecer a ideia de coisa antiga e forte, em linha com a ambição social de quem o concebeu.
 
 
 
 
Num dos seus artigos mais emblemáticos sobre o Monte Estoril, a Professora Raquel Henriques da Silva caracteriza o esquema quase “esquizofrénico” do local para sublinhar o seu carácter único e excepcional. De facto, o caso do Chalet Almeida Pinheiro, com a sua imensa excentricidade e pujança, só podia ter surgido naquele local e naquela época, num Monte Estoril onde tudo transbordava de romantismo e de sonho. O carácter onírico da localidade, onde os telhados de duas águas aguardam eternamente os nevões enormes que se sabe de antemão que nunca chegarão, e os castelos medievais construídos já em pleno Século XX sem nenhuma funcionalidade nem utilidade prática que não fosse a de servirem inocentemente de cadinho de esperança para o carácter mas sonhador dos seus habitantes, sobrepõem-se a todos os resquícios de lógica e de discernimento. Ali, num espaço de sonho em que se sonha, tudo é de facto passível de acontecer e, em linha com esse pressuposto, o custo de cada uma destas excentricidades é tido como um investimento.
 
No Monte Estoril de 1899 o Chalet Almeida Pinheiro é muito mais do que uma casa qualquer. É símbolo maior de uma movimento arquitectónico recriado de raiz a partir daquele que será porventura o primeiro masterplan Português. Aqui vale tudo e tudo faz sentido fazer, até porque sendo palco de excêntricos, era simultaneamente uma ponte maior entre as agruras da vida real e o sonho maior que todos afincadamente desejamos viver. Foi esse pressuposto, mais do que qualquer preciosismo canónico que a arquitectura de então pudesse ter, que fez desta uma localidade total e completamente diferente. E foi essa diferença, marcada pela igualmente diferente maneira de ali se viver, que recriou a identidade coesa, forma, determinante e determinada que perdurou (contra tudo e contra todos) até época muito recente.
 
Mas como todos os sonhos são frágeis e inconsistentes, também este clima de quase-loucura que o Monte Estoril teve o ensejo de desenvolver, se debateu com problemas estruturais que o pragmatismo da vida normal sempre tem a capacidade de oferecer. E, logo na abertura do novo Século, quando Portugal se envolveu nos períodos negros das revoltas políticas e a Corte de sangue azul desapareceu para sempre, os castelos de cartas que os sonhadores de outros tempos haviam ousado empreender, desmoronaram-se sucessivamente ao sabor do um vento que rapidamente os fez tremer.
 
E as casas, castelos e torreões, despidos de utilidade prática, tiveram de ser reconvertidos e reconfigurados perante a nova lógica funcionalista que acabava de nascer. Vendidos e restruturados, acabaram quase todos por assumir novas funções e por desempenhar papéis diferentes num Portugal novo que a Implantação da República acabou por trazer. Como peças únicas que eram, e com custos de produção incomportavelmente altos para a época de crise que o novo regime consolidou por muito tempo, tornaram-se cada vez mais motivo acrescido de interesse por parte de todos aqueles que desejavam deslumbrar-se com a pujança artística que estas construções acabavam por ter.
 
Ao Monte Estoril, primeiro de Lisboa e arredores e depois de todos os cantos e recantos do Mundo, vinham muitos para passear nas ruelas pseudo-medievais, para se deslumbrarem com os castelos fugazes e com os muros de pedra, e para apreciarem os jardins imensos onde cresciam pretensamente livres espécies vegetais que haviam sido plantadas ali depois de terem sido trazidas de origens inóspitas somente com o intuito de fazerem diferença e de acentuarem o cenário de exclusividade que o Monte Estoril conseguiu ter.
 
 
 
 
Nasce assim o turismo em Portugal. E nasce no Monte Estoril porque ser aquele um local único no Mundo inteiro. Nasce no Monte Estoril porque ali era possível usufruir dos bons ares da praia, da vida excelente que se afagava com o tom azulado dos sangues dos que ali viviam sempre, e também da paisagem marcante e marcada pela  força bruta e inesperada de imóveis como este.
 
Quando em 1906 o Engenheiro Almeida Pinheiro vendeu a sua casa a uma sociedade de empreendedores, nasce na velha mansão o mítico Royal Hotel e em 1914, depois de se afirmar no contexto da Primeira Grande Guerra, é novamente vendido a Ricardo Allen, Salvador Villanova e Ventura Garcia que o adaptam funcionalmente a um novo registo de hotel, e o rebatizam com o nome de Hotel Miramar.
 
Funciona assim, já perdido nas suas origens mais remotas e no sonho inalcançado a velha africanista de outras eras e de outros tempos, até 1975 quando é destruído por um incêndio.
 
Passaram-se muitas décadas desde que o Chalet Almeida Pinheiro desapareceu fisicamente da praxis urbana monte estorilense. Mas a pujança da sua força, o carácter enorme do seu torreão e o enquadramento cénico dos seus muros ancestrais, sobreviveu até hoje, mostrando que mais do que a sua funcionalidade, é a sua presença física que serve de fulcro identitário maior da comunidade onde se insere. Apesar do estado avançado de ruína, ele continua a fazer parte da estrutura cénica do Monte Estoril que ainda temos.
 
 

 

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publicado às 15:48

Padre Raúl Cassis Cardoso (1928-2019)

por cascalenses, em 15.01.19

 

 

Figura marcantíssima, interveniente, controversa e sempre presente na História recente de Cascais, faleceu hoje, aos 90 anos de idade, o Padre Raúl Cassis Cardoso.

 

Nascido no Distrito de Santarém, o Padre Raul foi ordenado Sacerdote em 1952 pelo então Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira e, depois de um périplo pelas Paróquias de Carregueiros, Pedreira, Calhandriz e Alverca do Ribatejo, assumiu a liderança da Paróquia de Cascais em 1970, ainda na juventude dos seus 41 anos. Durante os que 4 décadas em que esteve em Cascais, o Padre Raúl foi responsável pela dinamização generalizada da Paróquia local, tendo sido o motor principal de muitos dos movimentos paroquiais que deram forma ao Cascais que hoje temos.

 

 Activo e sempre interveniente, nem sempre de trato fácil quando em causa estavam as suas mais profundas convicções, foi líder espiritual de uma comunidade que nele se reviu durante muitos anos e cujo exemplo motivou as vidas de quase todos aqueles que com eles tiveram a sorte de se cruzar. Quando em 2008 deixou a liderança da Paróquia de Cascais, e se retirou para aqueles que seriam os seus últimos anos de vida, o Padre Raúl manteve-se permanentemente bem vivo na memória de milhares de Cascalenses que recordavam com saudade a sua dedicação à Igreja e à comunidade local. 

 

Ainda há pouco tempo, quando a atribuição de um topónimo com o nome de um dos seus antecessores a um arruamento na Freguesia de Cascais o fez regressar à terra onde trabalhou durante tantos anos, foi com amizade que a comunidade local o recebeu, enchendo com o carinho de um familiar muito próximo os ânimos daqueles que tiveram a oportunidade de com ele conviver.

 

O Padre Raúl Cassis Cardoso marcou Cascais, a Paróquia que tão bem dirigiu e a vida de centenas de crianças (hoje adultos) que dele receberam as primeiras orientações espirituais. Que descanse em paz como merece. Cascais não o vai esquecer.

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publicado às 00:54

O Forte das Velas na Praia do Abano em Cascais

por cascalenses, em 17.12.18

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Só existe um adjectivo com a abrangência suficiente para descrever de forma capaz o popularmente designado Forte do Abano, situado a Norte da Praia do Guincho, em pleno Parque Natural Sintra-Cascais: incrível!
 
Sendo um momento singelo de raiz militar, semelhante tipologicamente a tantos outros existentes ao longo da nossa linha de costa e construído especificamente para garantir a segurança do território Nacional perante eventuais investidas marítimas dos nossos muitos inimigos, é único na sua relação com o espaço e com o enquadramento cénico que lhe dá forma.
 
 

 

 
 
A sua localização, num promontório rochoso entre as Praias do Guincho e do Abano, plena e permanentemente fustigado pela fúria das ondas do mar e pelo vento que chega agreste e forte vindo da Serra de Sintra, confere-lhe um impacto sem par na paisagem. À sua volta, no contraste permanente entre o azul do mar, o branco das nuvens e o verde forte das encostas que dali seguem até à Peninha, a vista alonga-se através de um dos mais inesquecíveis cenários do Concelho de Cascais, potenciando a sua presença e reforçando a sua importância estratégica na definição da vocação turística municipal.
 
Incrível também porque, até contextualizando o monumento na sua mera função figurativa enquanto esteio promocional do turismo desta região, o estado deplorável de abandono, vandalismo latente e degradação acentuada, representa um autêntico atentado ao património de Cascais, dos Cascalenses e mesmo de Portugal.
 
 
 
É totalmente inconcebível que num país como Portugal e num Concelho como o de Cascais, nos quais a projecção da importância do sector turístico é tão grande, seja possível deixar que desleixadamente este tipo de equipamentos se vá perdendo por incúria, desleixo e desinteresse das entidades públicas,  perdendo não só todo o valor cultural que a ele está inerente, como também todo o enorme conjunto de potencialidades económicas, empresariais, culturais, patrimoniais, educativas e outras que o mesmo apresenta. É inconcebível e intolerável que o Estado Português, responsável tutelar pela salvaguarda dos valores que os Portugueses lhe deram à guarda, permita que este tipo de peças patrimoniais chegue a este estado de abandono, não efectuando sequer o mínimo esforço para garantir que os mesmos estão fechados e inacessíveis aos vândalos que os vão degradando.
 
 
 
E infelizmente, este não é caso único, nem singular em Cascais e em Portugal! Intolerável e incrível!
O Forte das Velas, sendo peça integrante no esforço efectuado depois da Restauração da Independência Nacional em 1640, faz parte de um complexo de vários fortes que cruzavam fogo sobre as principais enseadas marítimas de Cascais, recriando uma cortina que visava impedir desembarques indesejados nas principais praias do concelho.
 
 

 

 

 
 
Com a volumetria tradicional da sua época, o também designado Forte do Abano foi construído em 1642 por ordem de D. António Luís de Castro, Conde de Cantanhede e Governador da Praça de Cascais, e inicialmente guarnecido por sete peças de artilharia pesada.
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público através do Decreto 129/77, de Setembro de 1977, foi alvo de várias obras de requalificação e adaptação ao longo dos anos, que lhe conferiram o aspecto que hoje apresenta.
 
Na componente de alojamento, teria inicialmente três corpos cobertos virados a Este, protegidos da força do mar pelo terraço onde se instalava o grosso da artilharia, e terá sido reformado em meados do Século XIX, quando o desenvolvimento de novas técnicas militares possibilitou a libertação de algum do espaço de aquartelamento, perdendo o corpo central que foi substituído por um pequeno terraço a céu aberto e pela nova cisterna de captação de água corrente.
 
 
 
 
Da estrutura inicial são ainda de salientar as duas chaminés de aquecimento dos corpos de alojamento situados junto à entrada, vandalizadas possivelmente de forma irrecuperável em época recente, bem como a estrutura de transporte e captação das águas para o seu espaço de armazenamento.
 
Com o enquadramento cénico único propiciado pelo espaço onde se encontra, o Forte das Velas é uma das peças patrimoniais que mais interesse desperta junto dos muitos milhares de veraneantes e passeantes que frequentam a Praia do Guincho, que quase sempre sobem o espaço da encosta para o observar mais de perto.
 
 
 
 
Sobre a porta da entrada, praticamente ilegível debaixo do Escudo de Armas Português, a placa comemorativa da sua inauguração desperta o gracejo dos que o visitam. Em acentuada degradação e em estado de ruína eminente, é simultaneamente um tesouro precioso e um perigo imenso, com a acessibilidade privilegiada que tem cruzada com a falta de controle de quem por ali transita.
 
Resta pouco tempo de vida ao Forte das Velas. Até porque para além do vandalismo a que está sujeito quotidianamente, os próprios elementos se encarregam de o ir destruindo.
 
Com o seu desaparecimento e paulatina degradação perde Cascais, perdem os Cascalenses e todos os Portugueses. Incrível que seja assim!
 
 

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publicado às 11:54

Villa Romana de Freiria em Cascais

por cascalenses, em 25.09.18

 

Devolvida aos Cascalenses 2000 anos depois…
 
 
 
 
por João Aníbal Henriques
 
2000 anos depois de Titvs Cvriativs Rvfinvs ter chegado à Lusitânia oriundo de Roma e ter solicitado autorização aos Deuses Manes para se instalar no território que hoje pertence ao Município de Cascais, os vestígios que restam da sua enorme villa agro-senhorial foram finalmente devolvidos a Cascais e aos Cascalenses!
 
A Villa Romana de Freiria, localizada junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, tem uma ocupação humana que se perde nas brumas do tempo. Utilizada provavelmente desde a Pré-História, mercê da sua localização privilegiada junto ao estuário do Rio Tejo e do carácter muito fértil das suas terras agrícolas, Freiria apresenta vestígios únicos que atestam os principais momentos da evolução civilizacional do Homem, e um conjunto de estruturas do período romano que são peças únicas da arqueologia mundial.
 
 
 
 
Entre os dois conjuntos termais, com águas quentes e frias, o espaço habitacional e de lazer profusamente decorado com mosaicos e irrigado com um complexo sistema de distribuição de águas avançadíssimo para o seu tempo, e as estruturas agrícolas de grandes dimensões e de uma qualidade construtiva sem par, a Villa Romana de Freiria possui um potencial cultural extraordinário que se cruza com o valor turístico que a vocação de Cascais não permite renegar.
 
Descoberta por Virgílio Correia no início do Século XX, a Villa Romana de Freiria foi escavada em dezenas de campanhas que se prolongaram ao longo de todo o século, num esforço hercúleo que permitiu recolher milhares de artefactos únicos e atestar de forma comprovada a imensa importância do local.
 
 
 
Desde meados do século passado, quando a expansão urbanística da região de Grande Lisboa determinou o alastramento absurdo da mancha habitacional e reformatou a matriz urbanística das periferias a partir do caos imposto pelas construções clandestinas, que Freiria foi sendo envolvida por centenas de construções desregradas que, para além de comprometerem a integridade do espaço, acabaram por influir de forma dramática na sua conservação e na possibilidade do seu usufruto por parte da população local.
 
Praticamente desconhecidas dos Cascalenses, as ruínas romanas foram sobrevivendo aos ataques sucessivos das últimas décadas através do enorme esforço da equipa de arqueólogos que foi acompanhando e estudando o local e que, através de estratagemas quase impensáveis, foram conseguindo esconder, tapar e guardar alguns dos mais importantes detalhes do espaço, salvando assim a sua integridade até à actualidade.
 
 
 
 
O poder político (ou melhor dizendo) os poderes políticos que sucessivamente foram tomando conta dos destinos de Cascais, demonstraram sempre uma incapacidade latente ao nível decisório, tendo sido todos eles incapazes de contribuir o que quer que seja para a salvaguarda e para o aproveitamento do potencial deste local.
 
No início dos anos 90 do século passado, quando a Freguesia de São Domingos de Rana cresceu de forma desmesurada e desregrada, a Villa Romana de Freiria foi literalmente engolida pela clandestinidade envolvente, havendo mesmo casas, oficinas e outro tipo de construções que utilizaram materiais das próprias ruínas para as suas próprias edificações. E quando foi apresentada a primeira proposta de um Plano de Pormenor que visava salvar o local, a inoperância política de quem mandava impediu a sua cabal concretização e manteve o cenário de abandono e de incúria até praticamente à actualidade.
 
 
 
 
As memórias de Titvus Cvriativs Rvfinus, o romano de cepa que chegou a Freiria no Século I d.C. pareciam estar destinadas a uma mera prateleira numa qualquer sala de museu, à medida em que o abandono do espaço incitava à presença dos caçadores de tesouros, dos curiosos e dos detectores de metais, iam esboroando aos poucos aquele que era um dos principais patrimónios de Cascais.
 
Mas nesta semana, num acto digno de louvor, a Câmara Municipal de Cascais terminou e inaugurou uma intervenção extraordinária no local.
 
 
 
 
Para além de vedar de forma total o espaço da villa romana, e de recriar um conjunto de passadiços em madeira que permitem percorrer todo o perímetro do monumento sem comprometer a estrutura arqueológica, a intervenção agora concretizada contempla a colocação de sinalética com a identificação dos principais motivos de interesse para quem o visita e, acima de tudo, informação clara e eficiente acerca do que se está a ver e a interpretar.
 
Com esta intervenção agora inaugurada, Freiria é finalmente devolvida aos Cascalenses, a Cascais e a Portugal, que agora passa a poder usufruir, a conhecer e a reconhecer uma peça ímpar na História deste local.
 
Desta maneira, mercê do circuito interpretativo, da salvaguarda da integridade do espaço, e do conforto para a visitação, a Villa Romana de Freiria transforma-se no cadinho que desde sempre deveria ter sido de potenciação cultural do local. E, ao invés do que muitos diziam quando há cerca de 20 anos se instalou a polémica acerca do estado de abandono do monumento, passou a ser também um dos principais motores qualificadores de todo o espaço envolvente, fomentando a identidade local e as potencialides turístico-culturais de Cascais e da Freguesia de São Domingos de Rana.
 
 
 
 
Com a inauguração do pólo universitário de Carcavelos, e a selagem recente do aterro de Trajouce, cria-se nesta zona um eixo de crescimento sustentado e de qualidade que não pode deixar ninguém indiferente. Todo o Vale da Ribeira da Lage, desde o Bairro do Pomar das Velhas até ao novo pólo universitário de Carcavelos, passa agora a ter condições para se destacar da paisagem inóspita da invasão clandestina que caracterizou o Cascais de outros tempos, traduzindo-se em elementos geradores de qualidade de vida para todos os Cascalenses.
 
Estão de parabéns as equipas de arqueólogos que desde há muitas décadas dedicaram o seu tempo a lutar pela preservação de Freiria. Estão de parabéns as equipas técnicas que idealizaram e concretizaram este importante programa de salvaguarda. E estão de parabéns, os decisores políticos que foram capazes de passar das palavras aos actos e de (finalmente) devolver a Cascais um dos valores maiores da sua culturalidade.
 
 
 
 
Ganhou Cascais. Ganharam os Cascalenses e ganhou Portugal.

 

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publicado às 17:12

Joaquim António Pereira Baraona (1930-2018)

por cascalenses, em 30.05.18

 

por João Aníbal Henriques

 

O Comendador Joaquim Baraona nasceu em 1930, em Ourique, e era orgulhosamente um alentejano dos quatro costados. Quando chegou a Cascais, onde veio criar a Conservatória do Registo Predial, assumiu de Alma-e-Coração esta terra de adopção onde deixou uma marca perene e extraordinária que o triste dia de hoje não vai conseguir abalar.

 

Em Cascais, quase tudo transborda com os ecos do trabalho, do empenho e da paixão do Comendador Baraona. A antiga maternidade onde nasceram milhares de Cascalenses; o hospital; as conservatórias; os bairros sociais; as academias e as colectividades; o jornais, as revistas e a imprensa local; os movimentos cívicos e de cidadania; as grandes causas que acenderam os ânimos e mudaram a face da Nossa Terra… Por todos os lados, em todos os cantos e recantos de Cascais existe obra do Comendador Baraona.

 

E para além desta, da qual ele passava sempre ao lado, como se não fosse coisa sua mas que todos sabiam e nela reconheciam a sua intervenção, um vastíssimo legado de entrega à comunidade, ao próximo, a Cascais e a Portugal que ele nunca permitiu que se soubesse que tinha sido ele. Generoso como só ele sabia ser, foram milhares aqueles a quem ele literalmente salvou nos piores momentos, exigindo somente discrição nesses actos, para que ninguém soubesse a grandiosidade indescritível que ele sabia ter.

 

Não existem palavras no léxico Português onde caiba a obra e o legado do Comendador Joaquim Baraona. Porque ela, sendo reconhecidamente enorme na parte pública, era incomensuravelmente maior na componente que poucos tiveram a sorte de conhecer…

 

Joaquim Baraona, foi erudito, académico, escritor, diplomata, político, empresário, benfeitor e tantas outras coisas onde expressou a profundidade da sua excelência. Foi condecorado pela Presidência da República como reconhecimento público pela sua obra e, depois da revolução, perseguido de forma injusta pelos mesmos motivos.

 

Soube, porque era figura maior do que os pequenos personagens com quem se cruzou na vida toda, virar a página e abraçar Portugal como causa sua, continuando, praticamente até ao último dia, a trabalhar a favor de toda a gente.

 

O dia de hoje é marcante para Cascais e para Portugal. Já nada voltará a ser com era. O desaparecimento físico do Comendador Joaquim Baraona representa o fim definitivo de uma era e, para desgraça dos que cá ficam com a sua boa memória, a certeza absoluta de que é insubstituível para sempre.

 

Que descanse em paz. Porque o merece.

 

A bem de Cascais.

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publicado às 11:20

José Sebastião de Leite Perry (1948-2018)

por cascalenses, em 06.03.18

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A Câmara Municipal de Cascais homenageou hoje com um minuto de silêncio, por proposta do Vereador João Aníbal Henriques, o ilustre e saudoso Cascalense José Sebastião de Leite Perry (1948-2018) falecido inesperadamente há cerca de um mês.

 

Nascido em São Sebastião da Pedreira no dia 18 de Outubro de 1948, José Perry dedicou a sua vida a Cascais, onde viveu durante muitas décadas. Casado com Maria da Graça Souza Azevedo de Leite Perry, com quem teve cinco filhos, era figura sobejamente conhecida em todo o concelho de Cascais, onde desenvolveu de forma activa e empenhada um vastíssimo conjunto de actividades políticas de grande relevo. Dedicado à Freguesia de Cascais, em cuja Junta de Freguesia desempenhou diversos cargos em sucessivos mandatos autárquicos, José Perry foi sempre conhecido pela sua determinação férrea e pela força das suas convicções.

 

Controverso e sem medo de polémicas, abraçou muitas causas e lutou sempre até aos últimos limites pela verdade dos factos e pela concretização das ideias e dos projectos que considerava melhores para o futuro de Cascais. Não obstante, todos lhe reconheciam a generosa capacidade de aceitar divergências opinativas, tratando todos com o respeito democrático que considerava essencial na vida pública.

 

José Sebastião de Leite Perry foi, no decorrer dos últimos 35 anos, figura incontornável na vida política Cascalense, representando o seu falecimento o fim de uma era e de uma geração na defesa causa pública deste concelho. Faz parte das memórias de Cascais, da identidade municipal e é insubstituível.

 

Que descanse em paz.

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publicado às 15:43

Ruínas no Natal em Cascais

por cascalenses, em 23.12.17

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Caros Cascalenses,

 

A pedido de vários munícipes moradores na Alapraia, alertei há algum tempo a edilidade para o problema do abandono e avançado estado de ruína em que se encontram as Grutas Pré-Históricas existentes naquela localidade.  

 

Estando classificadas como Imóvel de Interesse Público desde 1945, as Grutas de Alapraia foram descobertas no início do Século XX por Francisco Paula e Oliveira e, mais tarde, estudadas de forma aprofundada por Afonso do Paço e Eugénio Jalhay que ali encontraram um dos mais importantes espólios arqueológicos de Portugal.

 

As sandálias de calcário de Alapraia, que só encontram paralelo em Almeria (Espanha), são a peça mais impactante de um espólio vastíssimo com vestígios de muitas culturas e civilizações que utilizaram aquele espaço ao longo dos séculos.

 

Tendo sido intervencionadas por diversas vezes nos últimos anos, sobretudo por iniciativa e empenho do saudoso director do Gabinete de Arqueologia da CMC, Dr. João Pedro Cabral, foram alvo de um arrojado projecto de musealização que integrava as várias grutas conhecidas e o Casal Saloio que, entretanto adquirido pela Autarquia, foi recuperado e transformado num pólo de interpretação museológica de apoio ao complexo.

 

Mais recentemente, por motivos para os quais nunca nos foi possível encontrar explicação plausível, as grutas foram entulhadas com gravilha e o casal saloio foi simplesmente deixado ao abandono. Os actos de vandalismo perpetrados desde então têm vindo a destruir o sítio por completo, tendo desaparecido portas e janelas e, nos últimos meses, as próprias telhas da cobertura, deixando no ar um tom de ruína que contrasta de forma evidente com a enorme importância desta peça do património cascalense.

 

Mas a maior preocupação dos moradores já nem é a destruição do património e da memória de Cascais. A utilização indevida do espaço, principalmente durante a noite, tem vindo a despoletar um sentimento de insegurança que se alastra entre a comunidade local, facto que se conjuga com a utilização de todo o complexo como sanitário público, com implicações ao nível da higiene e da saúde pública.

 

Mas, mais de um mês depois do alerta apresentado em reunião de câmara, nada aconteceu no espaço. O projecto de recuperação continua a aguardar a aprovação de um programa de apoio comunitário, de acordo com informação prestada pelo Presidente da CMC, e não foi feito rigorosamente nada para controlar o acesso ao monumento ou sequer para desde já impedir o uso indevido do mesmo durante a noite.

 

Perde obviamente a memória de Cascais que vê delapidar uma das mais significativas peças do seu património histórico; perde a comunidade Cascalense que diariamente vê desaparecer as extraordinárias potencialidades pedagógicas e turísticas associadas a um espaço como este; perdem os moradores do local que, para além da insatisfação de verem a degradação que paulatinamente vai envolvendo as suas casas, assistem ao crescimento da insegurança e pressentem a sua incapacidade de sensibilizar as entidades competentes para que lhes resolvam rapidamente um problema simples e premente.

 

Na última reunião de câmara reforcei publicamente o pedido para que, com carácter de muita urgência, sejam tomadas providências que impeçam a continuação da destruição das Grutas de Alapraia.

 

Esperemos que a quadra festiva que atravessamos e o dealbar de um novo ano, nos tragam finalmente a concretização deste projecto tão importante para o fomento da Identidade Municipal.

 

Para todos os Cascalenses os nossos votos de um Feliz Natal e de um próspero 2018.

 

A Bem de Cascais!

 

João Aníbal Henriques

Vereador na Câmara Municipal de Cascais

 

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publicado às 01:18

Bons Exemplos em Cascais

por cascalenses, em 17.12.17

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Nos dias que correm, adquirir uma casa antiga e optar por reconstrui-la mantendo a traça, a volumetria e a identidade arquitectónica do lugar exige coragem, determinação e arrojo fora do usual. 

 

Mas foi o que aconteceu em Cascais, na Rua Fernandes Thomaz, onde a empresa Cima Sobral - Gestão Imobiliária Lda. efectuou uma obra de requalificação urbana de grande qualidade. 

 

No gaveto entre a Rua das Flores e a Rua Fernandes Thomaz, num quarteirão com a marca do que foi a segunda fase da urbanização de veraneio da vila, no início do Sèculo XX, recuperaram uma das habitações mais marcantes desse período, mantendo inclusivamente o pequeno torreão com terraço que durante muitas décadas identificou a dita habiração. 

 

E porque os bons exemplos devem ser conhecidos e reconhecidos, pois só assim se podem transformar na bitola de qualidade que defendemos para a Nossa Terra, aqui ficam os nossos parabéns à Sara Cima Sobral pela coragem e bom gosto que teve neste processo.

 

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publicado às 14:51

Propostas Clandestinas para Cascais

por cascalenses, em 17.11.17

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por João Aníbal Henriques

 

Na última reunião da Câmara Municipal de Cascais foram discutidas três propostas que visavam limpar de construções clandestinas uma faixa de terreno que se situa junto ao Aeródromo de Tires e que põem em causa a segurança do equipamento e as suas possibilidades de crescimento.

 

Entre as décadas de 60 e de 90 do século XX as construções clandestinas destruíram praticamente um quarto do território municipal de Cascais, representando um autêntico flagelo que pôs em causa a qualidade de vida de todos os Cascalenses.

 

Este fenómeno, que conjugou a vontade dos prevaricadores com o desleixo das autoridades responsáveis pela fiscalização, gerou fortunas imensas que são de todos bem conhecidas e que condicionaram os destinos do concelho.

 

No início deste século, com a consciência de que estes milhares de construções punham em causa a sustentabilidade dos recursos municipais, sentindo-se problemas graves ao nível da mobilidade, do trânsito, do ambiente, das infraestruturas, da educação e das escolas, da segurança e até da saúde, os poderes políticos iniciaram um processo de legalização que procurava estancar o arranque de novas construções.

 

Mas, apesar de agora serem designados como “AUGIS – Áreas Urbanas de Génese Ilegal”, os bairros clandestinos continuaram a marcar a paisagem com o desregramento urbanístico que os caracteriza, pressionando os recursos e deteriorando a vida da generalidade dos munícipes de Cascais.

 

Para resolver este problema específico em Tires, a opção encontrada por este executivo municipal foi a de a de permutar os avos ilegais situados junto ao aeródromo por terrenos municipais devidamente legalizados e onde a construção está autorizada, compensando ainda os proprietários clandestinos com uma indemnização pecuniária que servirá para a construção de uma nova casa.

 

Com esta decisão, contra a qual votámos na reunião da passada Terça-feira, o município incorre numa profunda injustiça perante todos aqueles que cumpriram a Lei e que construíram as suas casas assumindo os custos processuais a que são obrigados. Porque no caso em apreço, são precisamente aqueles que construíram ilegalmente quem será premiado com um lote de terreno legal e ainda da verba necessária para lá construírem uma casa nova em folha…

 

A sugestão que apresentámos, reiterada de forma sistemática desde 1993, quando a Fundação Cascais estudou de forma aprofundada a realidade dos bairros clandestinos em Cascais, foi a de que se abordasse a questão de uma forma justa e pragmática para todos os Cascalenses.

 

Que, conforme a câmara fez noutros locais, se avançasse com uma acção de expropriação deste terreno indiviso e desastrosamente dividido em avos. E, existindo preocupações sociais com os habitantes deste espaço, e somente no caso de estas casas serem a única habitação das famílias que ali vivem, assumindo que existe por parte do município uma parte de responsabilidade porque deixou construir ilegalmente, que se oferecesse a estes proprietários alternativas situadas dentro do parque de habitação social do concelho, não os deixando sem tecto mas também não os premiando por terem prevaricado com a construção que fizeram.

 

Só assim, de forma leal e transparente, se faria justiça a todos os Cascalenses.

 

A bem de Cascais!

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publicado às 00:52

Artur de Azevedo Rua - A capacidade de concretizar o impossível em Cascais

por cascalenses, em 11.04.17
 
por João Aníbal Henriques
 
Pontualmente, geralmente quando menos se espera, surgem Cascalenses que transcendem a natural passagem do tempo. Por determinação férrea e uma exemplar entrega à comunidade, concretizam os impossíveis, mudando vidas e oferecendo ao Mundo e a esta Nossa Terra caminhos novos e alternativos que perduram ao longo de muitas gerações. Foi o que fez o Dr. Artur de Azevedo Rua, médico saudoso que revolucionou a cirurgia ortopédica, e que foi um dos principais responsáveis pela saúde na Nossa Terra.
 
Nascido em Lisboa em 1901, Artur de Azevedo Rua chegou a Cascais em 1927 para prestar serviço no então designado Sanatório António José de Almeida. Médico de formação e cirurgião por devoção, especializou-se nessa área na equipa do Dr. Francisco Gentil, tendo feito parte da equipa pioneira que dá forma aos Hospitais Civis de Lisboa.
 
Atento às necessidades mais prementes da comunidade onde veio viver, Azevedo Rua encontra na Parede o microclima especial que faz daquele recanto um dos mais conceituados espaços para o tratamento de problemas ósseos e de pele. A partir do sanatório onde desenvolve a sua prática médica, aprofunda de forma extraordinária o conhecimento científico acerca da tuberculose óssea, importante enfermidade que nessa época flagelava a população Portuguesa, tendo mais tarde construído uma clínica na Parede para onde confluíam grande parte daqueles que não encontravam noutro lado uma resposta cabal para os seus padecimentos.
 
 
 
 
E, como quase sempre acontece com todos os grandes Cascalenses, assume como causa sua este combate, não temendo lutar contra o que quer que seja para que se torne possível recriar em Cascais o espaço ideal para o tratamento desta doença. Literalmente contra tudo e contra todos, pois nessa altura para além dos constrangimentos próprios de um Portugal atrasado em termos científicos, o Concelho de Cascais vivia num letárgico imobilismo que convinha à maioria desses tempos, o Dr. Azevedo Rua empreende uma autêntica revolução na saúde local.
 
Com um grupo de amigos movidos pela entrega às causas sociais, ajuda a criar a Associação de Beneficência e Socorros Amadeu Duarte e, no âmbito dessa actividade, inaugura na Parede o pequeno Hospital Amadeu Duarte onde era possível encontrar o conhecimento de ponta na área da tuberculose óssea que Artur de Azevedo Rua havia adquirido em formações variadas concretizadas com os melhores especialistas existentes no estrangeiro.
 

 

 
 
Reconhecido o seu esforço e sendo visíveis os resultados da sua excelência médica, será a partir de 1947 convidado para Director do Hospital Dr. José de Almeida onde reformula as práticas cirúrgicas, introduz um moderno serviço de Raio X e o transforma numa das mais conceituadas e modernas unidades cirúrgicas para o tratamento da tuberculose óssea existentes na Europa.
 
Com base no prestígio alcançado, funda A SPOT – Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia, cuja primeira reunião decorre no Hotel Atlântico no Monte Estoril, em 1947.
 
A entrega abnegada de Artur de Azevedo Rua à medicina, numa permanente e tenaz luta contra o desinteresse generalizado dos seus pares e a gritante falta de meios técnicos e humanos que afectavam o Cascais de então, fizeram toda a diferença na vida de muitos milhares de doentes que nele procuraram o alívio para as suas dores. Ele mudou literalmente as vidas dos seus pacientes, deixando atrás de si um legado de saber e de conhecimento que fez perdurar os frutos da sua excelência.
 
Com a sua morte, em 1986, chegou ao fim um dos mais importantes capítulos da história da medicina em Portugal, mas a sua herança, bem visível ainda hoje nos hospitais de Cascais e na Vila da Parede, perdura no tempo.
 
 
 
 
Esquecido pelas entidades ditas competentes e avesso a homenagens que considerava pouco pertinentes, Azevedo Rua recebeu da Presidência da República Portuguesa a Grã-Cruz da Ordem da Benemerência e de Oficial da Ordem Militar de Cristo.
 
A sua memória confunde-se com a Memória Colectiva de Cascais e da Parede, sendo certo que o seu exemplo é pilar estrutural inabalável da Identidade Cascalense. É essencial recuperar a sua história extraordinária porque dela depende a defesa da excelência desta Nossa Terra. 
 
A bem de Cascais!

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publicado às 15:48

Dom Diogo de Menezes – Heróis & Traidores em Cascais

por cascalenses, em 20.03.17

 

 
 
Entre 1580 e 1640, Portugal atravessou um dos mais negros períodos da sua História e Cascais desempenhou um papel essencial neste triste episódio. A traição do então Senhor de Cascais, que num acto hediondo vendeu a Nossa Terra à Coroa Espanhola, contrastou com a coragem heróica com a qual D. Diogo de Menezes defendeu Portugal. Pagou muito caro pela sua lealdade e foi indignamente executado na Cidadela de Cascais em 1580, deixando atrás de si uma lenda de glória que o tempo não vai conseguir destruir…
 
por João Aníbal Henriques
 
A perda da independência nacional, em 1580, foi um dos episódios mais negros da História de Portugal. Fruto da imberbe actuação do Rei Dom Sebastião no Norte de África, e dos muitos interesses que desde sempre corporizaram o poder político Português, o país mergulhou na sua maior crise de sempre, entregando o trono de Portugal ao usurpador Espanhol.
 
Apesar do então Senhor de Cascais ser traiçoeiramente partidário das pretensões de Filipe II de Espanha, o povo de Cascais não hesitou em apoiar a causa de Dom António, Prior do Crato, participando activamente na sua aclamação como Rei de Portugal. Até à implantação da república, em 1910, manteve-se na toponímia Cascalense uma homenagem sublime ao monarca Português, consubstanciada numa “Rua D. António I”, representando simbolicamente o leal apoio de Cascais à Causa Nacional.
 
 
 
 
Nessa altura crítica, quando o Rei Dom António escolhia os seus mais fiéis e bravos apoiantes para defender Portugal do avanço das tropas Espanholas, D. Diogo de Menezes, que tinha sido Governador de Ormuz e Vice-Rei da Índia, foi nomeado General e colocado como Comandante da Fortaleza de Cascais.
 
Soldado experiente e bem preparado, D. Diogo de Menezes organizou as suas parcas forças de forma a assegura a inexpugnabilidade da fortificação Cascalense perante o ataque Espanhol. E, quando no dia 27 de Julho, o Duque d’Alba desembarca em Sesimbra, Cascais estava a postos para defender Portugal.
 
Mas o Senhor de Cascais, acompanhado da sua cáfila de meia-dúzia de traidores, empenha-se em entregar aos invasores informações detalhadas sobre a defesa da terra, permitindo ao Duque d’Alba desembarcar inesperadamente na Lage do Ramil, junto ao Farol da Guia. E, não satisfeito com a sua traição, organiza a corja que o acompanha de forma a conseguir abrir as portas da fortaleza, onde D. Diogo de Menezes defendia activamente a Causa Portuguesa.
 
Derrotado pela diferença abissal de forças entre o seu pequeno contingente Cascalense e a enormidade do exército Espanhol, Diogo de Menezes é capturado depois de uma batalha renhida e terrível e invoca as leis da honra e da cavalaria para, em conformidade com a sua alta posição hierárquica dentro das tropas do Rei Dom António, o deixarem regressar a Lisboa para ajudar o monarca. Mas o invasor Espanhol, num acto que subverte a própria honra militar, manda executar o herói Português na própria parada da fortaleza…
 
 
 
 
Conta o historiador espanhol António de Herrera  y Tordesillas que “eram quatro da tarde e estava a praça apinhada de piques e arcabuzes alemães, e no meio dela via-se o cadafalso, onde o sangue nobre ia sujar os brasões de um dos maiores de Espanha, fazendo-o expiar as nódoas estampadas pela venialidade de haver esquecido quem era e o que devia aos seus antepassados e ao reino de Espanha”…
 
E na mesma linha, sublinhando a dignidade heróica de D. Diogo de Menezes na defesa corajosa da liberdade de Portugal, Ferreira de Andrade não hesita em indicar a traição do Senhor de Cascais como um dos actos mais ignóbeis da nossa História, em linha com a falta de dignidade e de honra que caracterizou a decisão brutal do Duque d’Alba: “Assim morreu nesta vila de Cascais um dos mais nobres e honrados fidalgos de então, pelo crime horrendo de ser Português. Uma mancha de sangue marcaria para sempre, como um estigma de ignomínia, os gloriosos feitos do grande general de Filipe II”.
 
D. Diogo de Menezes, heróico defensor da Portugalidade, morreu em Cascais a lutar ao lado dos Cascalenses pela defesa da independência de Portugal.  A sua memória, parte maior da Memória de Cidadania desta Nossa Terra, é pilar estrutural da Identidade Municipal.
 
Promover a memória dos seus feitos e a coragem que demonstrou ter na defesa de Portugal, é assim obrigação de Cascais, onde o seu sangue jorrou perante o desespero dos Cascalenses de então. Porque dos ecos da sua grandeza se retiram lições fundamentais para preparar o futuro das próximas gerações…

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publicado às 13:20

A Igreja de Nossa Senhora dos Remédios em Carcavelos

por cascalenses, em 16.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O orago de Nossa Senhora dos Remédios remete-nos para as memórias mais ancestrais da humanidade De facto, a Senhora que cura e cuida dos seus filhos, reminiscência simbólica das práticas de sociabilização que acompanham o nascimento do conceito de família, tem o seu apogeu nos primórdios do período Neolítico, quando os primeiros assentamentos humanos abandonam nomadismo e adoptam estilos de vida marcados pela sedentarização.
 
A Senhora dos Remédios, que o lendário Português associa directamente aos perigos e perseguições sofridas pelos primeiros Cristãos durante o descalabro que acompanhou a queda do Império Romano, é assim simultaneamente a histórica Mãe de Jesus e a figura épica da Senhora da Conceição, eixo primordial da Fé e da espiritualidade antiga naquele que é hoje o território de Portugal. A ligação estreita entre ambos os oragos, num displicente apelo à figura que centra em si a capacidade de apoiar o ser humano nesta sua aventura terrena, conjuga-se nas práticas Cristãs como repositório dos valores absolutos da bondade inequívoca e da entrega total à vontade de Deus, consubstanciado de forma completa no papel desempenhado por Nossa Senhora enquanto cadinho alquímico da transformação da divindade pura em carne e em sangue.
 
 
 
 
É, pois, o sofrimento geral que acompanha a vida humana neste recanto inóspito do fim-do-mundo romano, marcado pela angústia que resulta da dúvida sistemática em relação ao que o futuro nos reserva e à incerteza em relação à vontade de Deus, quem determina a devoção ancestral que liga a Senhora dos Remédios a Carcavelos, num pleito de harmonia profunda entre as vicissitudes próprias da antiga comunidade rural que subsistia neste local e os ventos mais recentes de um impulso regenerador e progressista que os tempos recentes vieram trazer. Remedia Nossa Senhora aqueles que são ais desafortunados…
 
A faceta saloia de Carcavelos, dependente em permanência da terra e das instáveis vontades da natureza, recria uma forma muito própria de viver a espiritualidade. Aqui, mais do que em qualquer outro local da periferia de Lisboa, sente-se no ar a dúvida permanente entre o valor da matéria e o bem geral da comunidade… Será isso, possivelmente, o que explica a decoração singela da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, na qual a nave única se enche da policromia própria dos painéis azulejares do Século XVI, prescindindo da opulência vistosa dos dourados barrocos que algum tempo depois hão-de transformar-se na principal marca dos templos e das igrejas de Portugal.
 
 
 
 
Mas, se no Século XVI, foi a génese saloia e rural da actual Freguesia de Carcavelos, quem determinou a estrutura do templo, obviamente enquadrado naquilo que eram as práticas arquitectónicas comuns na sua época, a partir daí foram muitos os problemas que vieram a afectar a igreja, condicionando a sua formulação e até a própria implantação no espaço, naquele que é o coração da localidade.
 
De facto, pouco tempo depois da sua construção, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios foi bastante danificada pelo terramoto de 1755. E se, noutros lugares, a recupeação foi possível e decorreu de forma célere, em Carcavelos o processo foi moroso e difícil, em linha com a pobreza que nessa altura caracteriza aquele espaço. Ao longo do Século XVIII e, mais tarde, durante todo o Século XIX, a situação financeira da Igreja e da Paróquia de Carcavelos foi-se agravando, ao ponto de, por ocasião da implantação da república, a igreja ter sido encerrada por falta de recursos. E daí por diante, mercê da laicização progressiva da sociedade e das influências republicanas sentidas nesta zona Nascente do Concelho de Cascais, a situação foi-se agravando ainda mais, ao ponto de a igreja ter sido mesmo transformada numa escola depois de ter sido desmantelado e vendido todo o seu recheio.
 
Mas a devoção a Nossa Senhora dos Remédios, a senhora que ajuda quem dela mais precisa, acabou por ser determinante na história da própria localidade. Logo depois da implantação da república, é o administrador do Concelho de Cascais quem toa a iniciativa de defender o património da igreja, proibindo a retirada e a venda dos seus painéis de azulejo. E é também ele quem, ao proteger os bens daquele importante templo, recria as condições essenciais para que mais tarde se recupere a paróquia e o culto seja devolvido a Carcavelos.
 
 
 
 
Em termos iconográficos, como consequência da história associada à Ordem Hospitalar da Santíssima Trindade, que foi a principal responsável pelo orago de Nossa Senhora dos Remédios, a imagem devocional da igreja apresenta uma Nossa Senhora com o menino no braço esquerdo e uma bolsa de dinheiro na mão direita. Cumpria-se, assim, a ajuda da Virgem aos seus devotos, numa entrega de bens que suprem as necessidades mais prementes daqueles que a Ela apelam. E a Senhora dos Remédios, remedei-a assim os mais necessitados, num desapego perante a materialidade que é essencial no percurso espiritual daqueles que seguem o seu exemplo.
 
Será certamente este valor potencial que determina a amplitude devocional em Carcavelos. Dentro da igreja, venerados pelos paroquianos, existe uma outra imagem de Nossa Senhora, esta feita do Carmo, que complementa em termos simbólicos a força que emana no órgão principal. Nossa Senhora do Carmo, possivelmente denotando a relação com o Convento do Carmo existente desde o Século XVI em Cascais, apresenta-se com o escapulário próprio da ordem e representa a total entrega à vontade de Deus.
 
 
 
 

 

A visita à Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, em Carcavelos, é pois o sinónimo desta entrega absoluta à divindade. A singeleza da sua formulação estética, marcante do estilo chão que sempre caracterizou a via em Carcavelos, impõe-lhe uma beleza sem par. Vale a pena, desta maneira, passar os antigos portões de Carcavelos e visitar esta igreja tão especial. 

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publicado às 14:13

Maravilhas de Cascais - O Trilho Saloio da Ribeira das Vinhas

por cascalenses, em 07.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Está de parabéns a Câmara Municipal de Cascais pela excelente intervenção realizada no primeiro troço da Ribeira das Vinhas, entre as traseiras do Mercado Municipal e a Quinta do Casal Ventoso. A recuperação minimalista da antiga serventia saloia, praticamente sem interferências ao nível dos equilíbrios ecológicos do espaço, recupera a ancestral ligação entre Cascais e a suas origens rurais, promovendo a memória colectiva e a identidade municipal.
 
Respondendo a um desejo demasiado antigo expresso pelos Cascalenses no sentido de se proceder à recuperação da antiga serventia saloia da Ribeira das Vinhas, em Cascais, a edilidade requalificou recentemente o primeiro troço do velho trilho, entre a vila e o acesso à Pampilheira.
 
A intervenção, minimalista tal como advogavam os que defendiam o projecto (Ver AQUI), permite o usufruto de uma das mais impactantes paisagens de Cascais, descobrindo um recanto essencial para se conhecer e perceber a História Rural Cascalense (Ver AQUI).
 
Antigo trilho que ligava a vila às aldeias saloias do Cobre, Pampilheira, Murches, Birre e Zambujeiro, a Ribeira das Vinhas foi utilizada desde tempos imemoriais como espaço de troca entre as comunidades que subsistiam da agricultura e que se situavam na zona mais interior do Concelho, e as comunidades piscatórias e cosmopolitas do litoral.  Era através deste caminho de pé-posto, normalmente atravessado pelos grandes rebanhos de ovelhas que noutros tempos marcavam o panorama económico de Cascais, que a vila se abastecia dos bens mais essenciais, como o leite, o pão, a farinha, o queijo e as hortaliças. E era também através dele que, em burricadas que ainda perduram na memória dos mais velhos, as lavadeiras transportavam a roupa que lavavam nas suas aldeias.
 
 
 
 
Para além da imensa riqueza ecológica, bem visível através das muitas espécies de animais que sobrevivem naquele espaço, a Ribeira das Vinhas apresenta ainda um conjunto importantíssimo de património histórico, ao qual se juntam os complexos de grutas e uma paisagem de extraordinária beleza.
 
A intervenção agora concretizada pela Autarquia é, assim, um importante contributo para o fomento da cidadania em Cascais, com possibilidade de rapidamente se transformar num instrumento pedagógico e educativo para as escolas onde estudam as novas gerações de Cascalenses.
 
Sugestões para complementar e melhorar a intervenção agora concretizada:
 
 
 
 
PROLONGAMENTO DA INTERVENÇÃO
 
Sendo excelente, a recuperação agora concluída cinge-se aos primeiros metros da antiga serventia saloia. É essencial que a mesma se prolongue acompanhando o leito da ribeira, numa segunda fase até Alvide e à Quinta das Patinhas e, depois de se ligar ao Parque das Penhas da Marmeleira, atravessando o Vale do Zambujeiro e a Quinta do Pisão em direcção à Barragem do Rio da Mula.
 
 
 
 
RECUPERAÇÃO URGENTE DA ENTRADA
 
O troço existente entre as traseiras do mercado (que agora foi designado como Rua Padre Moysés da Silva) e o início do caminho, está num estado deplorável de abandono. Sem controlo de tráfego e coberto de viaturas por ali estacionam sem regras nem cuidado, é um imenso lamaçal quando chove e um mar de pó durante o tempo seco, impedindo o acesso e o usufruto do espaço recuperado.
 
 
 
 
MOBILIDADE COMUNITÁRIA
 

 

Permitindo uma ligação muito simples e rápida do centro de Cascais aos principais bairros da periferia, é urgente que a intervenção seja complementada com as ligações aos trilhos de Alvide, do Bairro de São José e do Outeiro da Vela. Para além de muitos simples de concretizar, porque os trilhos já existem há muitos séculos, devolverão às comunidades locais um meio acrescido de mobilidade e de acesso ao centro.  

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publicado às 10:33

Palmela e a Identidade de Cascais

por cascalenses, em 02.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Num périplo de deslumbramento pelos cantos e recantos de Cascais, não passa despercebido a ninguém o carácter vincado e onírico da principal casa situada na entrada da vila. A Conceição Velha, reminiscência maior da arquitectura de veraneio, faz parte do legado mítico que a Família Palmela deixou a Cascais e inscreve-se no imaginário colectivo de todos os Cascalenses. É obrigatório que se conheça e reconheça o papel desta importante família na consolidação da Identidade de Cascais e no nascimento da vocação turística municipal.
 
A Casa Pamela, também conhecida como “Conceição Velha, é uma das mais antigas e importantes construções de veraneio da Vila de Cascais. Mandada construir em 1874 pela terceira Duquesa de Palmela, foi projectada com traço do arquitecto inglês Thomas Henry Wyatt, recuperando os valores estéticos do medievalismo romântico e recriando em Portugal o estilo neogótico que a projecta como expoente máximo da denominada arquitectura de cenário.
 
 
 
 
Enorme na sua estranha relação com as arribas onde se ergue, a Casa Palmela define-se a partir das memórias do velho Baluarte da Conceição que existia no mesmo lugar e que foi adquirido em 1868 pela Família Palmela ao Estado Português pela módica quantia de 2611$000 Reis. O contrato de aquisição assinado nessa data, condicionava os compradores a manter intacta a linha de fuzilaria que acompanhava a Costa de Cascais, obrigando a que o novo edifício pudesse ser utilizado militarmente em caso de guerra.
 
A sua volumetria assimétrica, construída em planos diversos que davam a ideia de se tratar de uma casa velha à qual se foram fazendo acrescentos novos ao longo dos séculos, sublinha o carácter laico da construção que, pelo menos nos seus primórdios, nem sequer tinha uma capela que era usual neste tipo de espaços. Wyatt, o artista que se intitulava arquitecto-pintor, recriou na Conceição Velha a força extraordinária dos fundadores da casa, aproveitando a pedra local para erigir este autêntico monumento.
 
 
 
 
D. Maria Luísa Domingas Eugénia Ana Filomena Josefa Antónia Francisca Sales e Borja de Assis de Paula de Souza Holstein, simultaneamente 3ª Duquesa de Palmela, 3ª Condessa do Calhariz, 2ª Marquesa do Faial e Condessa de Sanfré no Piemonte, foi camareira-mór da Rainha Dona Amélia e a mais importante mecenas de toda a História de Cascais. Para além de ter mandado edificar várias casas com o propósito de as oferecer e assim apoiar os principais artistas do seu tempo, como a Casa Monsalvat, com traço de Raúl Lino, que construiu no Monte Estoril para oferecer ao pianista Alexandre Rey Colaço, ou a Villa Dom Pedro, edificada junto à baía para a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, a duquesa ainda fundou e pagou o Hospital Infantil do Rêgo, as Cozinhas Económicas e Lisboa, a Associação Nacional de Tuberculosos e o Instituto de Socorros a Náufragos.
 
 
Bisneta de D. Isabel Juliana de Sousa Coutinho, que passou à História como o “Bichinho da Conta”, por ter resistido muito jovem ao poder extraordinário do Marquês de Pombal que a havia obrigado a casar com quem não queria, e de quem a terceira duquesa herdou certamente a coragem e a determinação, D. Maria Luís de Souza Holstein foi simultaneamente um dos principais pilares do edifício diplomático português depois das Guerras Liberais, papel no qual desenvolveu a sensibilidade artística e estética que a tornarão numa das referências da cerâmica no final do Século XIX e que explicam a excelência extraordinária do legado que deixou em Cascais.
 
 
 
 
Mercê da enorme influência que teve na instalação da Corte em Cascais, e na definição daquilo que há-de vir a ser a base do charme mítico desta Nossa Terra, a Família Palmela é peça fulcral na consolidação da Identidade Municipal e na definição daquilo que é hoje este recanto tão especial. Merece ser conhecido por todos e reconhecido formalmente e de forma oficial este papel único que a Terceira Duquesa de Palmela em particular e a sua família, de forma mais geral, desempenhou na nossa História.
 
A bem de Cascais!

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publicado às 12:35

Devolver a Ribeira das Vinhas a Cascais

por cascalenses, em 25.01.17

 

 
 
O Vale da Ribeira das Vinhas, acessível a partir das traseiras do edifício do mercado, foi durante milénios um canal privilegiado de mobilidade para os Cascalenses. Era através dele, quando a vila dependia de forma directa do trabalho árduo e suado dos saloios que exploravam as pequenas unidades agrícolas situada no termo municipal, que chegavam a Cascais os legumes, as frutas e o leite que se produziam nas antigas aldeias rurais do Cobre, Murches, Zambujeiro, Malveira-da-Serra ou Janes. Era também através do caminho de pé-posto que acompanhava o serpentear das águas da ribeira, que as lavadeiras transportavam as roupas dos Cascalenses, num ciclo de interdependência que deu corpo à Identidade Municipal.
 
Ao nível dos costumes e das tradições, assim como nas crenças, nas práticas religiosas e na Fé, os Cascalenses construíram uma memória colectiva que reproduz um sentimento vivo e arreigado de Cascalidade. E grande parte desses usos e costumes, repetidos de forma reiterada ao longo de centenas de anos, concretizaram-se neste espaço extraordinário.
 
Paulatinamente abandonadas as pequenas explorações agrícolas que aí existiram até meados da década de 80 do Século passado, o Vale da Ribeira das Vinhas foi perdendo a sua importância no seio da comunidade Cascalense. As memórias antigas que integrava, foram-se apagando na medida em que iam morrendo os Cascalenses antigos que davam vida ao lugar, ao ponto de serem hoje muito poucos aqueles que conhecem este recanto encantado de Cascais.
 
 
 
   
Apesar disso, o Vale da Ribeira das Vinhas é ainda um dos locais de maior potencial para a Nossa Terra. Para além de ser uma via de comunicação acessível e confortável entre o centro da vila e os bairros periféricos, como o Bairro dos Pescadores, o Bairro da Caixa de Previdência, o Bairro da Assunção, a Pampilheira, o Cobre, o Zambujeiro, Murches, Alvide, Bairro Irene ou as Fontaínhas, permitindo transformar uma ida ao mercado, à praia ou à estação numa curta e inesquecível caminhada, o património histórico e natural ali existente, bem como a envolvente antropológica do local, poderiam ser facilmente aproveitados em favor do fomento da nossa identidade.
 
 
 
 
Assente no pressuposto de que a intervenção a realizar na Ribeira das Vinhas deve assumir um carácter minimalista, reduzindo ao mínimo o investimento público e rentabilizando os muitos equipamentos potenciais que ali subsistem, a nossa proposta passa pela recuperação do antigo caminho pedonal, integrando-o no património edificado ali existente, nomeadamente as azenhas, os moinhos e as várias estruturas agrícolas, complementado com a criação de uma bolsa de hortas urbanas que deveriam ser entregues à população. Nas componentes lúdica, pedagógica e turística, é essencial a recuperação das Grutas de Alvide e a recriação de vários trajectos pedonais e cicláveis associados à participação das escolas, associações juvenis cascalenses e aos agrupamentos de escuteiros.
 
Em ano de eleições, quando os poderes autárquicos se mostram naturalmente menos crispados perante as sugestões dos Cascalenses, vale a pena reforçar esta nossa proposta, convidando todas e todos os munícipes de Cascais para que literalmente invadam este espaço extraordinário.
 
A bem de Cascais!

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publicado às 13:01

Carlos Antero Ferreira (1932-2017) - A Genialidade dos Afectos na Portugalidade

por cascalenses, em 17.01.17

 

 
Com 84 anos e idade, faleceu esta semana uma figura ímpar da Portugalidade. Carlos Antero Ferreira, Arquitecto, Professor e Poeta, era Académico Honorário da Academia de Letras e Artes e desempenhava ilustremente funções como Presidente da Assembleia Geral desta instituição.
 
Na sua dimensão material, o Ser Humano vive constrangido pelo binómio espácio-temporal que determina a sua existência. O nascimento, a vida e a morte, num desígnio inexorável que traga todos da mesma maneira, caracterizam a existência do comum cidadão, cuja vida se esgota num determinado lugar e num determinado tempo.
 
Mas existem alguns que, pela genialidade da sua existência, conseguem transcender o espaço e o tempo, alcançado uma imortalidade que os perpetua na sociedade de forma transversal e que estende a sua influência ao longo das eras.
 
Foi o caso do Professor Arquitecto Carlos Antero Ferreira.
 
Num exercício permanente de genialidade, carregava consigo uma erudição sem limites. Mas, ao contrário do que acontece com outros, cuja soberba naturalmente se impõe pela grandiosidade do seu pensamento, impunha a sua existência num plano humanista que o colocava naturalmente ao nível da comunidade onde sempre foi tão importante. Sendo o primeiro pela dimensão e excelência do seu trabalho, partilhava naturalmente com os seus amigos e colegas a sublimidade de um artista que só a imensa maturidade do seu génio pode explicar, augurando uma sensibilidade única que transpirava no contacto pessoal, nos livros que escreveu, nas conferências que proferiu e nos imensos desafios profissionais que dele fizeram uma das grandes personalidades da cultura nacional.
 
Carlos Antero Ferreira, que foi Presidente do Centro Cultural de Belém, Presidente do Instituto Português do Património Cultural, Presidente da Academia Nacional das Belas Artes, Professor Catedrático e fundador da Faculdade de Arquitectura de Lisboa, Director da Sociedade de Geografia de Lisboa, Fundador da National Geographic Society e Senador da Universidade Técnica de Lisboa, de entre muitos outros cargos e funções de um currículo riquíssimo que demonstra o seu pragmatismo e capacidade de fazer, foi sobretudo um dos principais obreiros da Portugalidade, deixando um imenso vazio que dificilmente poderá voltar a encher-se.
 
Ávido de saber e de novos conhecimentos até ao final da sua vida, num exercício pleno do seu carácter de sábio maior que tão bem desempenhou, Antero Ferreira alcançou a sublimidade do seu génio através da poesia e das artes, nas quais se elevou a patamares de excelência inigualáveis, só possíveis pela humildade natural da sua sabedoria e pela permanente vontade de aprender com tudo e com todos.
 
Eterno na grandeza da sua obra e do seu génio, o Professor Antero Ferreira deixa atrás de si uma saudade que ilustra bem o pesar que a sua morte física representa para Portugal e para os Portugueses. 
 
 
 

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publicado às 11:04

A Casa Sommer em Cascais

por cascalenses, em 12.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
 
Parte integrante do imaginário urbano da Vila de Cascais, a Casa Sommer, no espaço da antiga Parada, é uma das peças mais importantes e significativas do património cascalense. Em estado avançado de degradação há demasiados anos, foi adquirida pela Autarquia e adaptada para instalar o Arquivo Histórico Municipal. Na sua futura função de guardiã das memórias municipais, mas também enquanto elemento singular na definição da Identidade Cascalense, a Casa Sommer é um excelente exemplo do que pode e deve fazer-se nesta Nossa Terra.
 
 
Romântica pelo seu enquadramento urbanístico nos terrenos fronteiros à antiga Parada de Cascais e neoclássica pela formulação arquitectónica que compõe a sua fachada e estrutura decorativa, a Casa Sommer, em Cascais, é um dos monumentos mais significantes na definição do que foi a Vila no período em que foi edificada.
 
Mandada construir por Henrique de Sommer, algures entre o final do Século XIX e o início do Século XX, o imóvel acompanha em termos estéticos a evolução dos modelos construtivos que caracterizaram a Vila de Cascais durante essa época. Apesar do seu cunho cenográfico, a casa repõe uma linha arquitectónica mais séria e funcional que vai esbatendo progressivamente os cunhos oníricos do romantismo de alguns anos atrás.
 
O apelo aos valores do classicismo, bem visíveis, por exemplo, no pórtico de entrada da moradia, traduz as alterações que estavam a acontecer no paradigma social do Cascais de então. Depois da instalação do Rei Dom Luís e da Corte, em 1870, que trouxe para Cascais aqueles que virão a ser os alicerces de uma nova sociedade em Portugal, as casas e os espaços públicos passam a desempenhar um papel importante enquanto elementos de afirmação e reconhecimento social. Com a chegada do novo século, associado à indefinição política que virá a servir de mote para a posterior implantação da república, cria-se um espaço alternativo no qual se encaixam os valores renovados de uma elite empreendedora para quem o sangue mais não é do que elemento que ajuda a reforçar o seu reconhecimento funcional.
 
O sucesso empresarial de Henrique Sommer, profundamente ligado à indústria do ferro e dos cimentos, enquadra-se já numa nova dinâmica de modernização do País, alheia aos valores antiquados que haviam servido de mola propulsora ao nascimento do Cascais Real. A casa que mandou construir num dos mais nobres locais da vila, cenograficamente impactante, é por isso um misto de testemunho e de prova, sustentando aquele que virá a ser o devir histórico que alterará profundamente a vida de Cascais, abrindo caminho para o despertar dos primeiros movimentos nacionalistas e para o nascimento da posterior vocação turística municipal.
 
A afirmação, num contexto em que a componente familiar assume primordial importância, surge associada de forma muito próxima aos critérios de construção utilizados na época, facto que explica a singularidade deste edifício no contexto patrimonial da vila de Cascais.
 
 
 
 
Numa época em que Cascais assiste impávido à destruição paulatina dos seus principais valores patrimoniais, com a desagregação dos núcleos urbanos identitariamente fundamentais, como é o caso do Monte Estoril e dos principais núcleos rurais que ainda subsistem no território municipal, a recuperação da Casa Sommer é uma excelente notícia que, contrariando a prática em curso, defende a memória local e promove a identidade municipal.
 
Resta esperar que este bom exemplo se transforme no cadinho que dará forma às muitas intervenções que num futuro próximo vão acontecer na Nossa Terra. 

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publicado às 14:55

A Areia e a Capela de São Brás em Cascais

por cascalenses, em 09.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando em 1997, em pleno processo de preparação do Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, publiquei um trabalho sobre a história da ruralidade da Freguesia de Cascais (*), a povoação da Areia era ainda palco privilegiado das ancestrais tradições rurais que deram forma ao município de Cascais.
 
No Largo de São Brás, expressão máxima do sentido comunitário da localidade, congregavam-se os elementos principais de uma existência na qual a ligação aos trabalhos da terra e uma dependência extrema relativamente às agruras da natureza, se revezavam amiúde, representando o principal sustentáculo de um ideário comunitário comum que conduziu à arreigada identidade que a localidade ainda possui.
 
 
 
A Capela de São Brás, o chafariz e o lavadouro comunitário, partilham por ali o coração simbólico da Areia, dando forma a uma existência na qual a singeleza do quotidiano funciona como elemento motivador de uma forma de ser e de estar que fomenta o tecido social do local.
 
 
 
 
A Areia, de cujas origens pouco se conhece, apresenta um topónimo que deriva da proximidade à Praia do Guincho e a estrutura pobre dos seus solos. Mas, é também essa aparente fragilidade natural que, conjugando-se em processos dinâmicos de sobrevivência, vem determinar uma série de práticas que são vincadamente locais e extraordinariamente únicas no contexto da existência rural de Cascais e de Portugal.
 
Do período romano, o povoado dos Casais Velhos, com a milenar fábrica de púrpura e a ligação directa à cabeça do Império, representa a expressão máxima da sua monumentalidade, traduzida em algo que, apesar do abandono a que tem sido devotado ao longo dos últimos anos, é irrepetível e assume laivos de primeira linha no inventário do património Cascalense.
 
Mas a Capela de São Brás, situada em plano coração da Areia, é também ela eixo essencial na estruturação moderna da localidade, representando um papel catalisador no desenvolvimento da estrutura social que há-de definir o devir quotidiano naquele espaço.
 
Sem origem cronológica conhecida, a Capela de São Brás que hoje conhecemos será certamente o resultado de um processo de paulatino desenvolvimento. A sacralidade do local, provavelmente marcado por um antigo templo e/ou ermida que por lá tenha existido, foi necessariamente o ponto de partida de uma expressão cultual que gera em seu torno os elementos necessários à fixação humana. Em 1527, quando se realizou o primeiro recenseamento à população, a Areia tinha somente nove vizinhos, o que corresponde a pouco mais de duas dezenas de pessoas, que entre si partilhavam os parcos recursos que resultavam do trabalho da terra.
 
 
 
 
A pobreza material da população, cessada que estava a exploração riquíssima da produtiva fábrica de púrpura, está bem expressa na formulação urbanística da localidade e, sobretudo, no carácter chão da arquitectura desta sua capela. De traços simples e simbolicamente próxima dos valores muito regulares que sempre caracterizaram a existência local, a Capela de São Brás conjuga em si os principais elementos que nos ajudam a perceber e a conhecer a povoação.
 
A devoção a São Brás, o santo arménio que começa a sua vida adulta como médico e que abandona tudo o que tem e o seu dia-a-dia na cidade depois de ouvir o chamamento de Deus, é também ela ilustrativa do carácter longínquo que a Areia representou durante muitos anos, em linha com a opção do Santo por uma vida de eremita, devotado à interioridade e à oração, em comunhão profunda com a solidão da natureza. A singeleza da história, a mesma que caracteriza a Capela de São Brás e mesmo o devir quotidiano na localidade da Areia, dão nota desse desligar sentido das correntes que nos prendem permanentemente à clausura da materialidade, representando um ímpeto de libertação que é resultado da proximidade a Deus.
 
A Areia, na sua ligação a São Brás, representa assim a profundidade da entrega devocional de Cascais à causa do despojamento material, numa sentida e assumida opção pela simplicidade extrema.
 
As duas devoções que estão nos altares secundários deste templo, entregues a Nossa Senhora de Fátima e ao Sagrado Coração de Jesus, são também elas expressivas deste caminho, denotando uma continuidade na prática devocional que terá obrigatoriamente de assentar numa vivência comunitária solidamente assente num conjunto e valores simbólicos desenvolvidos ao longo de muitos anos.
 
Visitar a Areia e a Capela de São Brás, num exercício de libertação perante a opressão sensível do charme de Cascais e dos Estoris, é assim uma oportunidade para entender a perenidade desta escapatória axial na formulação mais profunda da comunidade e do património Cascalenses.
 
 

 

(*) HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.

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publicado às 10:43

A Lenda da Boca do Inferno

por cascalenses, em 07.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A dicotomia entre o mal e o bem, num jogo em que as memórias efectivas se misturam amiúde com as entoações próprias dos sonhos, assume especial importância na Boca do Inferno, em Cascais, um recanto encantado no qual se conjuga uma paisagem extraordinária com uma inesquecível história.
 
Diz a lenda que naquelas paragens, num castelo cujas memórias pétreas nunca chegaram a olhos humanos, vivia um gigante maligno que padecia do maior dos males que afectam a humanidade: o amor. Profundamente apaixonado por uma donzela maravilhosa que não o correspondia, resolveu tomar medidas drásticas e consumar o seu amor de forma subliminar. Montado no seu cavalo, atacou o palácio onde a donzela vivia com o seu pai e raptou-a levando-a para o seu castelo de Cascais.
 
 
 
 
A donzela, apaixonada por seu turno por um ilustre cavaleiro que há muito a cortejava, não cedeu às intenções do gigante. E este, para apaziguar o seu ímpeto, fechou-a no alto da maior torre do seu castelo, prendendo-a até que ela se convencesse da necessidade de claudicar ao amor que ele lhe queria dar.
 
Mas o noivo apaixonado, tomado da força que só o amor consegue despoletar, insinuou-se no castelo e conseguiu libertou a sua amada, fugindo dali numa cavalgada desenfreada no seu magnífico cavalo branco que quase parecia voar.
 
 
 
O gigante, quando deu conta da fuga da donzela ficou furioso. Com artes mágicas que só ele conhecia e os ímpetos malignos que a fúria imensa havia despertado, lançou uma praga sobre os fugitivos e sobre eles fez crescer uma enorme tempestade.
 
Apanhados pela intempérie nuns rochedos junto ao mar, o casal de apaixonados tudo fez para conseguir fugir da influência do seu maléfico perseguidor. Mas, provocando um sismo que partiu as arribas e fendeu o chão, o gigante fez abrir sob os seus pés um enorme buraco onde ambos caíram com o seu cavalo e onde desapareceram para sempre sem eixar rasto.
 
Estava aberta a porta para o inferno e esta jamais se voltaria a fechar…

 

 
 

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publicado às 11:36

Nossa Senhora da Guia em Cascais

por cascalenses, em 07.12.16

 

 
por João Aníbal Henriques
 
As inconsistências do mar, profundamente enraizadas nos arquétipos primordiais da vida dos Cascalenses, marcaram de forma muito evidente o devir histórico da comunidade. Os desafios enormes que o mar carrega, seja para pescadores ou seja para as suas famílias, congregam em si a necessidade de recriar formas alternativas de o entender, de o perceber e de o controlar.
 
Os mitos marítimos, quase sempre presos de forma onírica aos principais pesadelos que flagelaram o dia-a-dia de Cascais, são parte integrante da Identidade Municipal, neles se compondo os alicerces da sua vivência simbólica e sagrada.
 
 
 
 
Nossa Senhora da Guia, situada num promontório localizado à saída de Cascais em direcção ao Guincho, foi sempre um dos pilares da expressão de Fé dos Cascalenses. Venerada desde tempos ancestrais, numa dinâmica de culto que dava destaque principal à peregrinação anual que para ali trazia milhares de forasteiros oriundos das mais diversas partes do País, a imagem da Senhora a Guia resulta necessariamente da existência prévia do farol e do registo traiçoeiro que o mar impõe naquele recanto natural.
 
De facto, as mais antigas notas históricas referentes a este lugar mencionam a existência de um farol nos rochedos situados à entrada de Cascais. É crível, desta maneira, que pelo menos desde o início da epopeia marítima Portuguesa, tivesse existido neste sítio um farol que garantisse segurança àqueles que navegavam por aquelas perigosas águas. Assim, a designação da Senhora da Guia, ou seja, da imagem que foi encontrada no local onde se estava o farol com o mesmo nome, terá resultado da apropriação geográfica da figura e não, como as Memórias Paroquiais do Século VIII deixa subentendido, ao contrário.
 
De qualquer maneira, são várias as lendas acerca do surgimento desta ermida e do culto à Senhora da Guia que proliferam no imaginário de Cascais. As mais antigas, relacionam-se com as figuras de Nossa Senhora que foram encontradas nas águas de Cascais. Quase sempre interpretadas como sendo da Senhora da Graça, foram veneradas pelo seu carácter miraculoso, atestado por diversos acontecimentos que se foram sucedendo no burgo piscatório de Cascais.
 
 
 
 
Frei Agostinho de Santa Maria, na sua obra “Santuário Mariano”, publicada em 1770, refere expressamente a origem ancestral do culto a Nossa Senhora da Guia neste local. No entanto, associa-o de forma directa à relação existente entre uma nascente de água que terá existido no local onde hoje se encontra a ermida, estabelecendo assim uma relação entre os mais antigos cultos de fertilidade que proliferaram durante a Pré-História do actual território Cascalense e a devoção mariana posteriormente estabelecida no mesmo local. Num exercício de sapiência que subjaz dos seus conhecimentos no âmbito da geometria sagrada, vai mesmo ao ponto de interpretar os sinais das pedras que existiam no espaço da fonte, para com base neles estabelecer de forma criteriosa a natureza primordial do ritual Cascalense: “Ao pé da rocha que fica na Praia de Cascais está uma fonte; e é constante tradição entre as pessoas daquela vila que nela apareceu a Senhora da Guia. E ainda querem comprovar esta tradição com uma pedra da mesma fonte, na qual se vê uma pegada, que dizem ser de Nossa Senhora, que por tal ainda hoje é venerada e lhe chamam a pegada de Nossa Senhora. E juntamente se vê também na mesma pedra uma coroa esculpida; se foi pela natureza, para que também esta manifesta que ela é a Rainha do Céu e da Terra, ou feita artificialmente se não sabe dizer nada. Esta é a tradição”.
 
 
 
 
Embora de âmbito cronológico mais tardia, uma segunda lenda marca de forma assaz curiosa a relação entre Nossa Senhora da Guia e Cascais. Como refere Ferreira de Andrade na monografia que publicou aquando da comemoração do sexto centenário da elevação de Cascais à condição de vila independente de Sintra, o principal factor motivador do incremento do culto devocional à Virgem da Guia, depois de nele se ter integrado a romagem anual promovida pelos comerciantes de Lisboa a partir do Século XVII, foi uma história acontecida com o antigo cirurgião-mor do Regimento de Cascais, José Gomes de Cenas, que em criança terá sido raptado da casa de seus pais na Vila de Cascais. Não se sabendo o que lhe aconteceu, o seu desaparecimento causou pânico e estupefacção na vila, tendo levantado todo o povo na busca do menino. Passados alguns dias, quando a esperança de o encontrar vivo já não existia, alguém terá ouvido gritos que vinham das profundezas da arriba na zona da Guia, ali tendo encontrado, depois de lá chegarem vindos por mar, o menino são e salvo que desesperadamente tentava sair. Questionado sobre o que tinha acontecido e como tinha ido possível sobreviver sem comida nem água durante tanto tempo, o menino terá respondido que foi transportado para aquele buraco por umas bruxas de Cascais que para ali o levaram voando. E quando à alimentação, disse simplesmente que diariamente uma senhora muito bonita lhe levava sopinhas de cravos para ele comer. Retirado do buraco e levado para a pequena ermida da Senhora a Guia, então já ali existente, a criança terá olhado para a imagem de Nossa Senhora e terá dito aos pais que tinha sido aquela a senhora que o tinha ajudado a sobreviver!
 
 
 
 
A partir desse momento, e até ao desastre provocado pelo terramoto de 1755, a Senhora da Guia viu crescer de forma desmesurada a devoção, facto que se traduziu numa romagem anual, na mesma época das comemorações do Espírito-Santo Cascalense, que levava à Guia milhares de peregrinos que chegavam de Lisboa e de Sintra.
 
A romagem, organizada pela Irmandade de Nossa Senhora da Guia, criada por iniciativa dos vereadores da Câmara Municipal de Lisboa que, em 1522 assinaram o compromisso da irmandade, integrava plenamente o simbolismo associado aos milagres que o agiológio mariano consagrava. Serão certamente dessa época, construídos para dar resposta à demanda que o lugar gerava junto de gente vinda de muito longe e de diversas partes de Portugal, os cómodos da hospedaria que envolvia a ermida. Existentes já em 1758, quando as Memórias Paroquiais a referem expressamente, a Hospedaria de Nossa Senhora da Guia ainda hoje pode ser vista adossada a Nascente do templo
.
As cantarias manuelinas das suas portas, bem como sepultura de António Ribeiro da Fonseca, com data de 1577, que existe no seu interior, denotam origem mais antiga, deixando antever as várias campanhas de obras, de remodelações e de reconstruções de que foi alvo ao longo dos séculos.
 
 
 
 
Em 1810, quando finalmente terminaram as obras de recuperação da ermida e do farol depois dos estragos causados pelo terramoto, foi colocada sobre a porta principal um painel com as armas reais e a data em questão, que complementa, em termos decorativos, os magníficos painéis de azulejos existentes no seu interior. A “Adoração dos Pastores” e a “Adoração dos Reis Magos”, de origem indeterminada mas certamente muito anterior àquela que consta na dita pedra armoriada, compõe o espólio interno da ermida, numa expressão rebuscada que contrastava com a singeleza do local.
 
Perdida a devoção a partir do início do Século XX, quando a secularização da vida nacional determinada em termos políticos a partir da implantação da república a isso obrigou, a Ermida de Nossa Senhora a Guia foi perdendo importância na definição das tradições Cascalenses.
 
Apesar de tudo, é local inultrapassável numa visita a Cascais, até porque ali se sente ainda o perfume agregador da Fé mariana na definição identitária municipal.

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publicado às 10:44

São José da Parede na Dinâmica Urbanística de Cascais

por cascalenses, em 06.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A gestão dos critérios urbanísticos numa determinada localidade, mais do que o resultado de uma prática projectada de antemão, é usualmente a consequência mais visível do devir político e comunitário dos seus habitantes.
 
Quando a comunidade é activa e pragmática no estabelecimento das prioridades que hão-de definir o seu espaço, temos como resultado um menor peso do poder político central e, como consequência, uma maior liberdade de critérios de construção e decoração. Quando a isso juntamos um afastamento geográfico relativamente ao poder decisor, aumenta ainda mais a autonomia comunitária e alarga-se o espectro de soluções que hão-de espelhar-se no cenário urbano que se cria em seu torno.
 
Um dos exemplos mais paradigmáticos desta situação, é o da Vila da Parede, no Concelho de Cascais, ou seja, uma localidade nascida no útero de periferia suburbana de Lisboa, marcada desde sempre pela negligência ao nível das instituições municipais e Nacionais, e profundamente constrangida pela necessidade de se auto-definir ao nível do seu carácter comunitário.
 
Nascida de forma enquadrável nos modelos evolutivos mediterrâneos, a Parede até no seu topónimo deixa antever uma necessidade de afirmação que resulta do processo histórico da sua concretização.
 
 
 
 
Muito embora só exista, em termos institucionais desde o início do século XX, a localidade da Parede, cabeça da antiga Freguesia, resulta teoricamente da evolução de uma existência que havia sido marcada pela aldeia de Cai-Água (hoje São Pedro do Estoril) e essa, por seu turno, marcada também pela existência de diversas comunidades pré-históricas que utilizaram o seu espaço. Em termos práticos, no entanto, e tal como o comprova o levantamento patrimonial Cascalense (ver HENRIQUES, João Aníbal, Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, Cascais, Fundação Cascais, 2000), não existem praticamente laços de união entre as duas realidades, uma vez que, a moderna Parede, de cariz republicano e revolucionário, e assumidamente a mais proletária de todas as localidades do concelho de Cascais, é uma realidade que resulta da chegada dos novos habitantes pré-industriais que para ali vão trazer um sentimento de suburbanidade que a antiga aldeia rural não conhecia. Os paredenses, hoje entendidos como parte integrante, a todos os níveis da vivência cascalense, foram, durante várias décadas, o resultado da existência de uma comunidade proletária em que o estabelecimento urbano se alicerçou nos princípios, nas orientações e nas motivações que anteriormente mencionámos.
 
Em termos físicos, com base na divisão dos terrenos que faziam parte das grandes quintas que o Comandante Nunes da mata ali adquiriu para mandar edificar, a preços módicos e acessíveis, uma nova povoação que correspondesse às necessidades efectivas da classe trabalhadora que não suportava habitar na cidade de Lisboa, onde os preços das acessibilidades eram pagos com valores que eles não podiam aguentar, a Parede do século XX conhece a auto-construção como forma eminente de se urbanizar. As velhas azenhas e moinhos, colocados estrategicamente para receberem sem encargos de maior os produtos agrícolas do interior do território, e para poderem enviar apara Lisboa as farinhas após terem sido manufacturadas, deixaram de fazer sentido num espaço onde todos eram iguais e onde todos sabiam fazer o mesmo. Os operários que se instalaram na Parede, oriundos de muitas partes do país, e observando o mesmo ritual quotidiano de utilização do comboio para chegar à capital, tornaram obsoleta a economia tradicional deste espaço, facto que obrigou a que se destruísse quase todo o parque habitacional antigo e tradicional, que hoje praticamente é impossível observar no interior da localidade da Parede, e o substituísse pelas novas casas de cariz operário e burguês, que seguiram quase à risca, as orientações apontadas por Leontidou.
 
 
 
 
Estas novas edificações, longe de seguirem os modelos desde sempre utilizados pela tradicionalidade local, impuseram-se através da diferença, fazendo apelo a formulações estéticas e decorativas que permitiam a utilização de muitas das bases culturais que traziam das suas terras de origem, e que eram sistematicamente adaptados à nova vivência de conjunto que aqui procuravam estabelecer. Vivendas como a do ‘Gato’, bastante próxima do centro da urbanidade paredense, são exemplos paradigmáticos da forma como a utilização decorativa de novas formulações, acaba por influir na capacidade de efectivarem, através do cunho artístico pessoal dos seus criadores, uma afirmação pessoal e comunitária da qual depende o próprio nascimento da povoação.
 
De facto, se nos ativermos às necessidades culturais da população, depressa compreenderemos a importância que assume a possibilidade de, através da decoração das suas casas, ganharem uma forma de afirmação que está em consonância com tudo aquilo que é o espírito que enforma o nascimento da institucionalidade e do poder da própria povoação. As casas, espelho muito fiel do sentir cultural de cada um dos seus habitantes, são, no seu conjunto um misto da harmonia que resulta da afirmação pessoal dos diferentes tipos de comunidade que ali habitam, com a heterogeneidade que marca a diferença que entre eles, de uma forma permanente e quase imutável, se vai efectivando.
 
A nível da estrutura urbana, ou seja, da forma como se dispõem os edifícios no seio da complexidade real que resulta da necessidade de se conseguir, na teia emaranhada de edifícios que compõem as diversas ruas marcadas pela construção não-planificada, discernir linhas orientadoras que promovam o entendimento sobre as bases culturais que a enformam, é possível perceber que existe uma competição básica, de âmbito individual, dela resultando a grande maioria das orientações que agregam as casas, a sua decoração, e os próprios quarteirões onde se inserem.
 
 
 
 
Desta forma, ao nível da visibilidade e do ordenamento do território, no seio de todas as incongruências que caracterizam a falta de plano e de previsão urbana, é possível encontrar linhas mestras, em que a colocação espacial de cada edifício, mais do que propriamente a sua localização paisagística ou as acessibilidades, é definidora dos fundamentos que regem as relações sociais. Esta situação, assaz curiosa se entendermos que no seio destas povoações a visibilidade da casa, muitas vezes construída num interstício sem quaisquer condições, é mais significante do que a própria qualidade da sua construção ou as vistas que dela se fruem, permite-nos ainda perceber qual é, verdadeiramente, a importância que a imagem e, logo, a própria decoração, exercem sobre aqueles que a constroem.
 
Na Parede, cada canto e recanto reflecte esta vivência profundamente sentido daqueles que construíram a povoação. Com uma aparência erudita nas suas zonas nobres e a singeleza decorativa mais simples nas zonas marcadas pelo desfavorecimento sócio-cultural, a vila define parâmetros de urbanidade que dão corpo à sua existência.
 
 
 
 
Para compreender o que é hoje a Parede em termos patrimoniais, importa perceber quais são as principais linhas definidoras da sua evolução histórica, nelas congregando tudo aquilo que contribuiu para a gestão dos equilíbrios sociais que tornaram possível a sua sobrevivência histórica. Por isso, é essencial a capacidade de ver para além da monumentalidade que o património por vezes exige, para se encontrar, quantas vezes perdido algures num laivo de excelência perdida no contra-forte de um qualquer muro de suporte, a informação que é necessária para entender a organização social a comunidade.
 
A Vila da Parede, suficientemente longe do exercício do poder para sonhar com a verdadeira expressão da liberdade, mas também demasiadamente importante para poder subtrair-se à evolução histórica de Cascais e da Região de Lisboa, é exemplo paradigmática da excelência urbanística, representando um papel fundamental na definição da Identidade Municipal de Cascais.

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publicado às 12:32

O Lago da Praia do Guincho em Cascais

por cascalenses, em 05.12.16

 

 
 
A acumulação anormal de pluviosidade, em conjunto com o crescimento das dunas, criou um cenário onírico na Praia do Guincho. O lago que ali nasceu, em Dezembro de 2016, deslumbrante no contraste entre o céu, a serra e o mar, compõe um postal extraordinário que ficará na memória de Cascais e dos Cascalenses.
 
 

 

 

 

 

 

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publicado às 15:02

As Cocheiras do Monte Estoril

por cascalenses, em 02.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A excelência urbana do Monte Estoril, Concelho de Cascais, resulta da conjugação entre a forma de viver da sua comunidade e a definição criteriosa do seu espaço comunitário. As casas, as ruas, a decoração dos jardins e até as técnicas construtivas utilizadas na construção das habitações, dos seus muros delimitadores e dos seus equipamentos, fazem parte de um projecto global que pressupõe a recriação de um ideário social bem definido.
 
Um dos melhores exemplos desta projectada qualidade, até porque foi sempre imaginado e concebido como um equipamento de índole prática que se destinava a fins pragmaticamente dependentes do devir quotidiano da localidade, é o das Cocheiras do Monte Estoril.
 
 
 
 
Aqui, marcada pelo binómio que se caracteriza em permanência pelo contraste entre a existência burguesa e a aristocracia tradicional, acaba por influir na criação de uma nova identidade local, na qual o próprio carácter cénico da paisagem, do vestuário e da decoração das diversas casas, garante a manutenção das prerrogativas que mantêm no seu lugar cada uma das partes que compõem a nova totalidade social.
 
As Cocheiras do Monte Estoril são, por isso, um exemplo paradigmático dessa situação. Com uma colocação geográfica extraordinariamente boa, situada muito próximo da zona mais central daquela que foi na época a mais nobre das nobres localidades da Costa do Sol, o pequeno complexo das cocheiras possui características cénicas que permitem entendê-lo como uma espécie de tradução da sua singularidade face à totalidade do espaço envolvente.
 
Muito próxima dos outros, de que depende para sobreviver, a comunidade de assalariados que habita nas cocheiras possui um espaço próprio que, em termos do seu enquadramento estrutural, se alicerça em princípios estéticos que lhe garantem não se confundir com as partes restantes da paisagem urbana.
 
Construídas de raiz para albergar os empregados da Companhia do Monte Estoril, principalmente os operários que trabalharam na construção da linha férrea que ligava o Monte Estoril a Pedrouços, as cocheiras possuem no seu andar térreo uma série de espaços para guardar animais. Com todo o terreno vago que envolve o Monte Estoril, no qual facilmente se poderiam construir as instalações necessárias à colocação dos animais, a Companhia opta por colocá-los em conjunto com os seus operários, demonstrando assim que a centralidade do espaço construído para esse efeito, contrariamente àquilo que seria de esperar, não é definidora de uma qualidade e de uma excelência na sua existência, mas sim de uma certa discriminação, essencial para que se possa alicerçar a educabilidade que deveria enformar a criação da nova sociedade estorilense.
 
 

 

 
 
Em termos estéticos, a decoração utilizada para a concretização destas ideias, misto de beleza que deveria envolver uma zona nobre por excelência, e de uma certa particularidade que garantisse a satisfação da diferença, alicerça-se na utilização de uma cor diferente daquela que era utilizada para a generalidade das restantes habitações daquele novo espaço. Assim, enquanto que o ideal estético da denominada ‘Casa Portuguesa’, com a sua luminosidade alva nas paredes, envolvida nos pormenores rocambolescos de uma exuberância que dota aquele espaço de características que o vão transformando numa zona única em todo o panorama turístico português, assenta na pintura em tinta branca, fazendo recriar os laços existentes entre a nova vivência e aquilo que se pretendia consubstanciar como a existência tradicional do País, as cocheiras adoptam uma luminosidade opaca, baseada nos tons amarelados, ao qual se apensam alguns elementos decorativos em madeira. A utilização da cor, marcando a distinção do espaço servil face ao espaço nobre da localidade, e a decoração em madeira, marcando uma aproximação aos ideais estéticos de índole romântica que garantiam a dependência de ambos os espaços, é assim fundamento de uma formalização objectiva do património edificado enquanto elemento gerador de educação na nova comunidade.
 
A importância patrimonial das Cocheiras do Monte Estoril é, desta forma, profundamente dependente da hierarquia social que compôs a localidade na segunda metade do Século XIX, definindo um enquadramento cénico ao qual não é alheia a necessidade de construir uma sociedade diferente.
 
Hoje, quando o Plano Director Municipal de Cascais abre caminho a uma apreciação casuística de cada uma das peças patrimoniais do município, vale a pena visitar as recuperadas (e adaptadas) Cocheiras do Monte Estoril, onde é possível distinguir perfeitamente a inter-dependência que existe entre cada edifício e o carácter singular daquela outrora distinta localidade Cascalense.
 
 
 
 
Compreender o Monte Estoril exige uma perspectiva de conjunto. Cada uma das suas casas; cada detalhe do traçado sinuoso de cada arruamento; cada uma das pedras aparentemente mal-aparelhada  que compõe os seus muros; e até o aspecto algo arruinado de alguns dos jardins que sobreviveram desde a sua concepção romântica; faz parte do charme que levou longe o nome de Cascais.
 
Não compreender este princípio, que a Companhia Mont’Estoril utilizou na concepção linear da localidade, é condenar o Monte Estoril de outrora ao desaparecimento, carregando consigo a excelência pela qual Cascais foi mundialmente reconhecida em tempos que já lá vão. 

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publicado às 11:19

A Capela de Nossa Senhora da Graça em Tires

por cascalenses, em 14.11.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Dizem os eruditos que a pequena capela de Tires foi dedicada a Nossa Senhora da Graça num acto de gratidão pelos benefícios recebidos pelos pescadores de Cascais, em 1362, quando foram libertados do jugo administrativo de Sintra.
 
O templo, no entanto, é muito mais recente, e embora não esteja datado em termos documentais, tal como acontece com a generalidade de espaços de culto semelhantes, será provavelmente originária do Século XVI ou XVII.
 
De planta simples e uma só nave, integra-se esta capela na tipologia mais comum dos monumentos de cariz rural e de estilo chão, espraiando a devoção dos habitantes mais humildes e geralmente ligados de forma perene à terra e à sua produção.
 
A inovação da Senhora da Graça, “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”, remete-nos para um universo religioso profundamente marcado pelas devoções antigas que proliferaram no actual território de Cascais desde tempos ancestrais. A concepção imaculada da Virgem-Mãe, arquétipo primordial da religiosidade pré-Cristã em Cascais, denota precisamente essa ligação à terra e aos ciclos da fertilidade, conduzindo-nos, numa linha mística repleta de significado, para a própria essência profunda e sagrada de Portugal.
 
 
 
 
De facto, Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, foi sempre elemento indissociável das graças concedidas a este País, num fluxo constante de oração e Fé que marcou de forma indelével os mais importantes momentos da nossa História. O apelo à Rainha, mãe ancestral de todos aqueles que utilizam a força da natureza como bitola definidora das suas escolhas materiais, num «Ó» de súplica que fomenta os mantras sonoros típicos da sabedoria mais avançada, faz-se precisamente através de um acto de entrega total e absoluta à vontade de Deus numa ligação profunda ao martírio de Cristo em defesa dos seus pares.
 
Em Tires, Nossa Senhora da Graça é assim espaço de memória que se define a partir do fulcro mais importante da existência cultural da localidade. Com a sua estética simples, num corpo em que a única nave abre caminho simbólico em direcção ao céu, são de sublinhar os elementos decorativos esculpidos na pedra calcária da porta principal, nos quais a flor, natureza em movimento, nos transporta para a concepção onírica dos planos mais elevados. A torre sineira, simples na sua formulação, mas perfeita na forma como se integra na estética do lugar, prima pela proporcionalidade que fomenta o carácter da capela.
 
 
 
 

 

A Capela de Tires, no centro nevrálgico da localidade, é assim uma espécie de eixo definidor que nos permite conhecer melhor Portugal e a história recente das gentes anónimas de Cascais. Deve ser conhecido e reconhecidamente integrado na vocação turística deste lugar. 

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publicado às 16:53

A Igreja de São Vicente de Alcabideche

por cascalenses, em 14.11.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A Igreja de São Vicente de Alcabideche é o principal monumento religioso daquela importante freguesia de natureza rural do Concelho de Cascais. Embora seja de origem recente na sua formalização histórica, uma vez que as primeiras referências que sobre ela existem são do Século XVII, quando ali foi fundado o Compromisso do Santíssimo Sacramento, terá sido muito provavelmente antecedida por outros espaços de culto dos quais se perdeu memória.
 
Sucessivamente destruída por cataclismos naturais, nomeadamente pelo grande terramoto de 1755, o templo foi várias vezes reconstruído e adaptado, chegando assim à formulação singela e em estilo chão que actualmente apresenta.
 
 
 
O espaço onde o templo foi construído, num dos pontos estrategicamente mais relevantes da antiquíssima localidade de Alcabideche, deixa antever os vestígios daquilo que foi a Igreja de São Vicente noutras épocas e até em períodos em que existiam outras formas de religião. Em redor da capela, num espaço repleto de vestígios arqueológicos cronologicamente situados entre o Neolítico, o período Romano e a modernidade, foram encontrados vários vestígios de construções anteriores. Ainda hoje, encastrados nas paredes antigas das casas do largo e mesmo no interior do templo, existem várias lápides, estelas discóides e cantarias que comprovam a utilização antiga daquele espaço.
 
 
 
Na nave da igreja, situada à entrada logo a seguir à Pia Baptismal, está colocada uma antiga estela medieval, ostentando a Cruz de Cristo e a Flor-de-Lis, num apelo sentido à profundidade cultual de Alcabideche. Noutros pontos, fruto da reutilização de materiais que foram recuperados de ruínas que a precederam, existem vários exemplares de cantaria trabalhada manuelina, evidenciando que a data setecentista que se aponta como origem do templo, nada mais representa do que um dos momentos de reconstrução do mesmo.
 
 
 
A ligação a São Vicente, na linha da complexa orientação da Identidade Municipal de Cascais, recupera os valores essenciais da ocupação islâmica de Alcabideche. A temática dos corvos, que lendariamente terão impedido o corpo do mártir cristão de ser devorado pelos abutres, surge num contexto simbólico bem visível na história da localidade. Alcabideche, ou Al-Qabdaq na sua grafia árabe, está desde há muito ligada às dinâmicas da natureza que se espraiam nos ciclos agrícolas e na dependência da fertilidade. Quando Abu Zaid Abd-Arh Ramãn Ibn Mucane cantou os moinhos de vento de Alcabideche, já eram as aves de rapina, enquanto repositório do rol de preocupações que toldava a felicidade quotidiana da população, as referências essenciais num apelo sentidode dependência da terra e dos frutos que ela dava.
 
O corpo do mártir São Vicente, e a sua aventurosa viagem de partidas e retornos por terra, pelo ar e pelo mar, nem sequer escapou à ira do fogo, cuja dimensão simbólica nos arrasta de forma imediata para os mais complexos universos da purificação e expiação dos pecados mortais.
 
 
 
 
Alcabideche é, dessa forma, espaço de limpeza espiritual, num plano que o Cristanismo foi capaz de integrar no dia-a-dia da comunidade. A Igreja de São Vicente, testemunha antiga dos rituais de outrora, é também ela ponte de ligação entre as muitas gerações que sucessivamente vêm vivendo a sua vida nesta localidade, consolidando um pleito de cidadania que faz convergir vontades e formas de estar. 

 

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publicado às 15:25

Milagre de Novembro em Cascais

por cascalenses, em 11.11.16

 

 
 
 
Eu sou aquelle, que Cascaes já vi,
eu sou o que Cascaes não vejo já,
de quanto era dantes fumos dá,
e tudo he fumo o que contém em si.
 
Frei António do Espírito-Santo
Mestre de Filosofia do Convento de Nossa Senhora da Piedade em Cascais
1756
 
por João Aníbal Henriques

Eram 9h45 da manhã desse dia 1 de Novembro de 1755 quando a Vila de Cascais viveu o pior cataclismo da sua História. Depois de um início de dia calmo e ameno, que fez sair a população das suas casas para se dirigir às igrejas e capelas para assistir à Santa Missa do Dia de Todos-os-Santos, começaram a ouvir-se ao longe os rugidos tremendos oriundos das entranhas da terra e a sentir-se os primeiros tremores que anunciavam o terror que estava para vir.
 
 
 
 
Assustados, os Cascalenses de então refugiram-se na oração e, de dentro dos espaços sagrados de Cascais, assistiram incrédulos à completa destruição da sua terra. À medida que os abalos iam aumentando, fazendo cair pedras e as paredes velhas, aumentava o clamor do rugido que se ia misturando com a gritaria enlouquecida da população com a visão turvada pelo medo e pela morte. E como se não bastasse, porque a natureza foi especialmente truculenta naquele dia nefasto, num instante transbordaram as águas da Ribeira das Vinhas que encheram a vila e provocaram afogamentos sem igual. O mar, enraivecido também ele pelo desastre que se abatia sobre Portugal, galgara os rochedos e entrava livremente em Cascais, esmagando com a sua força muitos daqueles que procuravam sobreviver à desgraça geral.
 
Não tendo outro local para onde fugir, um grupo de Cascalenses refugiu-se dentro da frágil Capela de Nossa Senhora da Conceição, ali procurando a protecção divina contra a desgraça que imperava ao seu redor. Unidos pela sua Fé, fizeram um voto a Nossa Senhora dos Inocentes pedindo protecção contra o desastre que enfrentavam. E, tendo sido ouvidos pela Senhora da Conceição, que logrou salvar a singela capelinha dos fenómenos desastrosos que por todos os lados a atacavam, salvaram-se todos os que ali se tinham abrigado. Agradecidos pela mercê, criaram uma irmandade que tinha como principal objectivo o cumprimento do voto feito a Nossa Senhora, consignado numa Procissão que aconteceu anualmente até 1920, sempre com a presença de todo o povo de Cascais.
 
 
 
 
O milagre de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, perpectuado em Cascais através da singela presença do antigo templo, é marca perene da devoção ancestral dos Cascalenses à sacralidade primordial da Senhora da Conceição. Simbolicamente agregada aos arquétipos ancestrais da fertilidade, congregando em seu torno o papel de mãe e protectora que ilumina aqueles que têm Fé na sua mensagem, a ritualidade mística que envolve esta devoção é inquestionavelmente um dos alicerces principais da vivência sagrada da vila de Cascais.
 
 
 
 
Não se conhecendo com rigor a data de construção da capela, mas inferindo que o ano de 1609 que consta no cruzeiro construído ao seu lado poderá corresponder ao início da sua edificação, a Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, para onde se transferiu o culto religioso depois de o terramoto ter destruído quase por completo todas as restantes igrejas e capelas da vila, apresenta uma planta simples à qual foram adicionados, já em meados do Século XIX, os dois corpos laterais, em linha com aquilo que era a tradição mais antiga da religiosidade de raiz rural que proliferava junto da população.
 
Passando hoje bastante despercebida no caminho de veraneio para o paredão, a Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes carrega consigo uma das principais memórias de Cascais e aquela que é a pedra basilar da Identidade Municipal dos Cascalenses. O milagre de Novembro de 1755, quando se passaram já 261 anos desde aquela manhã faídica, é a prova cabal da ligação dos Cascalenses ao poder da Fé e à inequívoca capacidade que sempre demonstraram ter de viver de forma assumida os valores e os princípios que nortearam o seu devir existencial.
 
 

 

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publicado às 17:20

Nossa Senhora da Conceição da Abóboda em Cascais

por cascalenses, em 03.10.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O dogma da Imaculada Conceição faz parte dos mais ancestrais arquétipos da Portugalidade. Praticamente desde a fundação da nacionalidade, provavelmente recuperando laivos de Fé que nos chegam desde o princípio dos tempos, que a Senhora da Conceição está directamente ligada aos mais importantes acontecimentos que regem a História de Portugal.
 
 
 
 
Em termos oficiais, foi no dia 8 de Dezembro de 1325, a pedido da Rainha Santa Isabel e por proposta do Bispo Dom Raimundo de Coimbra, que Nossa Senhora da Conceição foi decretada Padroeira de Portugal. Anos mais tarde, depois da Restauração da Independência Nacional, o Rei Dom João IV consagrou Portugal a Nossa Senhora da Conceição, sendo que desde essa altura, num reconhecimento perene à sua intervenção relativamente ao destino de Portugal, nenhum monarca Português voltou a usar a Coroa, colocada na imagem venerada em Vila Viçosa.
 
Também em 1385, na chegada ao trono da Dinastia de Avis, é Nossa Senhora da Conceição que corporiza a devoção principal de Portugal. Dom João I, Mestre de Avis, bem como o seu braço direito, o Condestável D. Nun’Álvares Pereira, dedicam a Nossa Senhora as suas vitórias e consagram-lhe o País numa profunda devoção. O Mosteiro de Santa Maria da Batalha, por um lado, e o Convento do Carmo, por outro, utilizam como sustentáculo de Fé precisamente o despojamento total relativamente à materialidade e uma entrega plena à Divindade. O Condestável, do alto do imenso poder político e económico que havia conquistado, entrega mesmo a sua vida, os seus bens e a sua própria identidade a Nossa Senhora, tendo morrido como simples Frei Nuno de Santa Maria, num exercício de despojamento total que representa a consagração profunda de Portugal ao seu novo estado.
 
 
 
 
Em Cascais, são vários os espaços de culto dedicados a Nossa Senhora da Conceição e geralmente relacionados com espaços de raiz rural, nos quais a memória colectiva preserva lembranças de antigos milagres onde a principal marca é a transmutação da matéria. Numa abordagem eminentemente alquímica relacionada com a importância de Nossa Senhora na defesa dos mais pobres e dos mais desesperados, numa linha que entronca nos milagres atribuídos à Rainha Santa, simultaneamente mulher do Rei Dom Dinis e zeladora dos interesses (leia-se conhecimentos) templários preservados em Portugal através da Ordem de Cristo, Nossa Senhora da Conceição intervêm directamente junto da comunidade Cascalense, interferindo positivamente no seu quotidiano e provocando alterações profundas na prática religiosa desta Nossa Terra.
 
Na localidade da Conceição da Abóboda, junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, Nossa Senhora apareceu a uma pobre e esfomeada pastora que por ali andava a tomar conta do seu rebanho. Pedindo-lhe que se dirigisse à vizinha localidade de Freiria, enquanto ela própria zelava pelos animais do rebanho, Nossa Senhora indicou à pastora um forno de pão ao qual se deveria dirigir para pedir alimento. Ali chegada, a pastorinha explicou à forneira que a Senhora lhe tinha aparecido e pedido que colocasse para si um pouco de pão no forno. Esta, zombeteira e não acreditando na criança, põe no forno uma bola minúscula de massa que, depois de cozer se transforma num enorme pão. Não o querendo entregar, repete a operação com uma quantidade de massa ainda mais reduzida, mas o fenómeno volta a repetir-se de igual maneira. E numa terceira tentativa, colocando no forno uma míseras migalhas de farinha que dão origem ao maior pão jamais cozido naquele forno, a padeira apercebe-se da estranheza do que estava a acontecer e convence-se de que fora efectivamente a Senhora da Conceição que ali estava a intervir.
 
Simultaneamente, perto do local onde havia ficado o rebanho, um fidalgo local andava a caçar lebres. Um acidente, no entanto, fez com que a sua espingarda tivesse rebentado com um tiro mas, milagrosamente, sem lhe provocar qualquer espécie de ferimento. Tentando perceber o que se passava, o senhor encontra a pastorinha e a forneira que lhe contam o que se havia passado, tendo ele mandado erguer uma pequena ermida no local onde aparecera Nossa Senhora, como agradecimento pela sua intervenção miraculosa no acidente que sofreu.
 
 
 
 
A Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda é, assim, um testemunho físico extraordinário da ligação precoce que o povo de Cascais tem à Padroeira de Portugal, numa expressão de singeleza profunda que segue em linha com o apelo ao despojamento que o culto mariano expressa na sua origem sagrada.
 
De linhas simples e com elementos decorativos de índole profundamente rural, a capela apresenta uma só nave, onde sobressai a pedra tumular datada de 1579 mandada construir por Frei Gonçalo de Azevedo e o remate do arco de acesso ao Altar no qual se podem ver as cruzes da Ordem de Malta, à qual pertencia o frade fundador. No corpo da capela, merece especial destaque a imagem de Nossa Senhora do Ó, de origem desconhecida mas certamente de origem ainda medieval, entroncando no culto provavelmente pré-Cristão que evolui até chegar precisamente à Senhora da Conceição.
 
 
 
 
A singeleza da velhinha Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda contrasta de forma extraordinária com a grandeza do significado profundo que ela agrega e, sobretudo, com a sua importância na definição da Identidade Cascalense. Assumindo que a própria Nacionalidade depende das bases de sustentação ao nível da cultura e da espiritualidade, facilmente se percebe que a Capela da Abóboda é peça essencial do património municipal de Cascais.
 
Deve ser conhecida, reconhecido e valorizada.
 
A bem de Cascais!

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publicado às 18:14

A Capela de São Sebastião em Cascais

por cascalenses, em 26.09.16

 

 
 
 
por João Aníbal Henriques
 
Passaram-se muitos meses desde que o temporal do Outono de 2015 destruiu o cruzeiro, o alpendre e o adro da Capela de São Sebastião, em Cascais. Mas, finalmente, foram efectuadas as obras de recuperação e reposta a dignidade daquela importante peça do património cascalense.
 
A Capela de São Sebastião, construída provavelmente em 1628, atendendo à inscrição existente na base do seu cruzeiro, possui um interessante conjunto azulejar cujas origens dispersas não se conhecem com exactidão.
 
A sua localização, fora da localidade e já muito perto da Enseada de Santa Marta, terá sido determinante para a sua formulação arquitectónica simples, em estilo dito “chão” e para as suas origens eminentemente ruralizantes. Situada originalmente na cerca do antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), seria certamente posto avançado de oração e recolhimento daquele importante núcleo religioso da Vila de Cascais.
 
 
 
 
De acordo com alguns autores, serão do antigo convento, que foi construído em 1594 por D. António de Castro, então Senhor de Cascais e pela sua mulher D. Inês Pimentel, alguns dos painéis de azulejos que hoje se podem ver na capela e nas zonas envolventes. O mais importante, hoje colocado de forma cenicamente impactante no jardim construído no local pelos Condes de Castro Guimarães, é precisamente a “Procissão Alquímica” em que Nossa Senhora é transportada aos céus numa imensa carruagem inserida num cortejo do qual fazem parte algumas das mais importantes figuras da imagética transcendental da Portugalidade Sebástica.
 
O certo é que quer na figura “Civitates Urbius Terrarum” da autoria de Georgius Branius, de 1572, quer na planta geral da Vila de Cascais, datada de 1594 e guardada no Arquivo Geral de Simancas, a pequena capela surge expressamente representada, sendo certo, por esse motivo, que já nessa altura fazia parte do património religioso da localidade.
 
 
 
 
Na parede do adro, com datação provável dos finais do Século XVII, e correspondendo a uma das campanhas de obras de remodelação que o edifício terá sofrido ao longo da sua história, existe um painel azulejar polícromo dedicado ao Santíssimo Sacramento e, como não poderia deixar de ser numa peça de património de índole rural, à Imaculada Conceição da Virgem Maria. Uma vez mais, como é evidente, cerca de dois séculos antes de o Papa Pio IX, através da bula Inneffabilis Deus, ter solenemente definido a Imaculada Conceição como dogma, em linha com o que acontece com as principais orientações cultuais no Portugal de então e, especialmente, com as ancestrais tradições religiosas existentes no Concelho de Cascais.
 
O orago Sebastianista da capela, apelando ao supremo poder de Deus perante os homens e à permanente necessidade destes de tentarem impor a sua vontade, recupera também ele os laivos dessa paulatina degeneração dos cultos mais antigos das populações locais que, depois de Cristianizados, acabam por integrar-se de forma definitiva no conjunto de pressupostos sagrados que dão forma à Fé local.
 
 
 
A recuperação da Capela de São Sebastião, para além de um importante contributo para a consolidação da vocação turística municipal, que depende da existência de uma oferta significante que concretize a Região do Estoril como um destino turístico de excepção no contexto europeu, significa ainda o assumir da Identidade Cascalense, assente num imaginário colectivo na qual as memórias físicas se cruzam quase sempre com os vestígios materiais de gerações ancestrais.
 
É, por isso, uma boa notícia para a Nossa Terra!
 

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publicado às 11:33

Tratar da Saúde a Cascais

por cascalenses, em 30.08.16

Tratar da Saúde a Cascais.jpg

 

 

Actualmente o edifício do antigo Hospital dos Condes de Castro Guimarães, vulgo Hospital de Cascais, encontra-se devoluto e poucos são aqueles que sabem o que ali se vai fazer, preocupando os Cascalenses e criando espaço para especulações que vão minando a confiança dos cidadãos.

 

Em 2002, quando a saúde era o principal desafio que se colocava a Cascais, a Fundação Cascais publicou um número da sua revista inteiramente dedicada a este sector. Nessa altura, perante a total desadequação do velho hospital perante as necessidades efectivas de Cascais e dos Cascalenses, a instituição veio propor um “Plano Global de Saúde para Cascais” que, para além da urgente construção de um novo hospital, recriasse também uma rede global de apoio à população, com hospitais de rectaguarda, cuidados preventivos, cuidados continuados e cuidados paliativos.

 

Vale a pena recordar a entrevista ao então recém-eleito Presidente da CMC, António d'Orey Capucho, que despoletou um processo importantíssimo de reformulação da saúde no concelho depois de mais de duas décadas de completo marasmo. Nota especial também para a entrevista a Maurício Chumbo, então director clínico do Centro Hospitalar de Cascais, que chefiava uma equipa que fez literalmente milagres nas condições inadmissíveis com as quais trabalhava.

 

Menção especial ainda para o artigo da autoria de Isabel Magalhães, nessa altura vereadora independente com o pelouro das actividades económicas, sobre a relação entre a prática empresarial e a saúde de Cascais. Na mesma linha, Pedro Luís Cardoso vem defender a importância da existência de cuidados de saúde de qualidade para o desenvolvimento da vocação turística da região.

 

Por fim, num acto de gratidão que marcou o décimo aniversário da presença da Fundação Cascais no Centro Pastoral Nossa Senhora e Fátima, no Bairro do Fim-do-Mundo, a notícia da publicação do livro infantil O Grande Fininho, que corporizava uma homenagem muito sentida ao trabalho e à dedicação das Irmãs Salesianas Elvira e Joaquina a uma das mais desfavorecidas comunidades Cascalenses.

 

Releia AQUI a Revista “Tratar da Saúde a Cascais”

 

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publicado às 15:22

A Praia do Guincho (Cascais) no Verão de 1952

por cascalenses, em 22.08.16

Guincho Verão 1952.jpg

Fotografia de Aníbal Ferreira Henriques (1903-1966)

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publicado às 14:52

Cascais e o Estoril em 1989 na Revista "Cidades & Municípios"

por cascalenses, em 10.08.16

Cidades&Municipios1989.jpg

 

 

Há precisamente 27 anos, em Agosto de 1989, a revista “Cidades & Municípios” dedicava um dos seus números àquilo que designava como “as consequências do crescimento de Cascais e de Sintra”.

 

Abordando o turismo como vocação agregadora da região, basicamente por recuperar quase um século de uma história grandiosa sob a chancela da marca internacional “Estoril”, a revista apontava as grandes infra-estruturas que deveriam concretizar-se num futuro próximo. Da auto-estrada de ligação a Lisboa ao sistema de saneamento, muitos eram os desafios que em 1989 se colocavam a Cascais, nomeadamente na gestão da sua promoção internacional, nas acessibilidades, na consolidação ambiental e na habitação.

 

No ano em que foi publicada esta reportagem, Cascais vivia o início do período conturbado que mais tarde haveria de ser chamado “a betonização do concelho”. As mudanças que acabariam por chegar a partir da década de 90, como a já referida A5, o emissário submarino, a marina, o centro de congressos, a escola de turismo, etc., foram o mote para um complexo processo que desvirtuou definitivamente o devir quotidiano de Cascais e que gerou uma série de desequilíbrios dos quais o concelho ainda não conseguiu recuperar.

 

Os anos que se seguiram foram caóticos para a memória comunitária municipal. A destruição do património e a construção desenfreada, geraram novas realidades que os poderes locais demoraram demasiado tempo a entender e a começar a tratar.

 

27 anos depois, vale a pena reler esta reportagem, até porque muitos dos desafios ali elencados são ainda pertinentes na actualidade. Conhecer e perceber a história recente é um passo de gigante para evitar que voltem a cometer-se os erros do passado.

 

Leia AQUI a Reportagem “O Crescimento e o Turismo” da Revista Cidades & Municípios

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publicado às 15:32

A Singularidade e o Escadote Social de Cascais

por cascalenses, em 05.07.16

 

 
 
O Concelho de Cascais, pela sua situação estratégica no seio da Península de Lisboa, e pela notoriedade que granjeou ao longo do último século e meio de uma história verdadeiramente extraordinária, é um dos espaços mais atractivos de Portugal, possuindo uma fama que o precede e que é conhecida e reconhecida por toda a Europa.
 
O cunho cosmopolita desta terra, assente nos pressupostos atrás definidos, é de extraordinária importância na definição da vida quotidiana do Concelho. Com um ímpeto progressista que surge associado à permanente capacidade de recriar paradigmas renovados a partir dos problemas com os quais se debate, Cascais esteve sempre um passo à frente do resto do Pais e caracterizou-se sempre pela inovação e pela modernidade.
 
 
 
 
Apesar de existirem aspectos positivos e negativos associados a esta situação, pois o crescimento desmesurado, associado à falta de planeamento e de rigor e de, em muitos momentos da nossa história, ter sido governada de forma pouco capaz, acabou por resultar nalgum caos urbano que se espraiou, com características diferenciadas, um pouco por todo o território municipal, o certo é que a fama de Cascais sobreviveu sempre e foi capaz de se impor às várias gerações que até agora habitaram o concelho.
 
A ideia de qualidade que Cascais deixa transparecer, conjugando o glamour das suas zonas mais emblemáticas com a fama que carregou até bem longe as suas potencialidades, transformou-se em ideias e estereótipos de um determinado tipo de vida que, não sendo linearmente real, serviu sempre de base para que viver em Cascais fosse considerado algo de verdadeiramente notável. Em consequência disso, e pelo menos desde que o Rei Dom Luís escolheu Cascais para estância de veraneio, nos idos de 1870, que esta terra é palco assumido para os devaneios de índole diversa que dão forma à sociedade portuguesa.
 
Como se de um escadote real se tratasse, Cascais é o local que procuram todos aqueles que alcançam a fortuna e o êxito, sendo aqui o melhor espaço para poderem usufruir das suas conquistas. Da mesa forma, e no plano oposto, Cascais é também o local escolhido por todos aqueles que anseiam pelo prestígios e pelo êxito, recriando em seu torno um espaço onírico que serve de cenário para a concretização dos sonhos que ainda faltam acontecer.
 
 
 
 
A singularidade de Cascais é, desta forma, dupla e dúbia. Associa-se às grandes figuras da nossa história que por cá passaram, e também aos grandes desaires e apaixonantes episódios que aconteceram dentro das fronteiras do Concelho, tornando-o único e irrepetível por aquilo que é, mas também por aquilo que muitos acreditam que ele pode vir a ser.
 
Um dos aspectos em que mais se faz sentir esta espécie de pressão positiva, que se fundamenta na solidez estrutural que todos ligamos à qualidade, é o da habitação. As casas, as ruas, os espaços públicos e os acessos a Cascais, sempre foram aspectos essenciais neste pressuposto de afirmação que a terra procura promover. Quem alcançou o sucesso, constrói normalmente em Cascais uma casa à altura do seu sucesso, ao mesmo tempo que quem procura o êxito opta por uma habitação que transpareça o fim último que procura atingir. Por tudo isto, durante muitas décadas, o crescimento e a consolidação da paisagem urbana no Concelho fez-se num processo de paulatina afirmação da qualidade, assumindo uma componente estética que reforçou de sobremaneira a já de si grande fama que a terra transportava. Os parâmetros volumétricos, as cores, as formulações geométricas e os materiais utilizados, eram geralmente de grande qualidade e inseriam-se nos mais vanguardistas movimentos da culturalidade das épocas em que se concretizavam.
 
 
 
 
No que aos espaços públicos diz respeito, o movimento foi idêntico, assistindo-se à criação de infra-estruturas e equipamentos de grande qualidade, em linha com o que se passava com a habitação privada. A qualidade de vida que resultou deste processo, evidente para toos aqueles que aqui viviam e mesmo para os que somente a visitavam, redobraram a fama de excelência que lá fora já caracterizava o concelho, exigindo que governantes e governados se pautassem por níveis de excelência pouco usuais no Portugal de então. Dos colégios e das escolas que recebiam as novas gerações, aos restaurantes, jardins, hotéis e campos de golfe, Cascais foi-se apetrechando de tudo aquilo que caracterizava uma grande capital, ao mesmo tempo que era capaz de preservar a pequenez das terras de sonho e das estâncias turísticas que desde o século XIX consolidaram o seu prestígio um pouco por toda a Europa.

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publicado às 17:08

O Triste Caso da Capela de São Sebastião em Cascais

por cascalenses, em 16.03.16

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No Outono passado a Capela de São Sebastião, situada no Parque do Gandarinha junto à entrada do Museu dos Condes de Castro Guimarães, foi bastante danificada por um temporal. O seu alpendre, o adro e o cruzeiro fronteiro à mesma, foram destruídos pela intempérie e a edilidade fechou o espaço para prevenir eventuais danos para os visitantes.

 

Passaram-se até agora muitas semanas desde aquele triste acontecimento e a dita capela, monumento importante da memória patrimonial de Cascais, continua no mesmo estado de ruína. Pela sua frente passam diariamente centenas de passeantes e turistas, não só aqueles que vão visitar o museu, como também todos os que atravessam o parque a partir da entrada da marina.

 

Com um clima de feira permanente instalado em Cascais, em que se montam-desmontam-e-voltam-a-montar barracas que enchem os mis emblemáticos recantos da vila, a Câmara Municipal de Cascais ainda não teve tempo nem vontade para arranjar os estragos na capela.

 

É indecente. 

 

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publicado às 16:02

Cascais e o Terramoto de 1755

por cascalenses, em 01.02.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O cataclismo que se abateu sobre Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 deixou um rasto de destruição na Vila e no Concelho de Cascais. O terramoto e o posterior maremoto, foram acompanhados de incêndios e muitos dos principais edifícios que existiam foram completamente destruídos.
 
A face urbana da Vila de Cascais, com a monumentalidade própria de uma pequena vilória piscatória, sofreu enormes alterações e, mercê dos muitos interesses instalados nesta terra, terá sido porventura o terramoto o embrião da primeira operação de especulação que Cascais conheceu…
 
De facto, as Memórias Paroquiais, bem como as respostas dos reitores das igrejas às questões levantadas pelas autoridades depois do terramoto, apresentam-nos informações muito úteis para conhecer e compreender o que então aconteceu em Cascais. A menção à antiga torre-relógio, que desapareceu nessa manhã fatídica, e a organização espacial dentro das muralhas do velho castelo, estão bem expressas nas palavras do pároco de então: “Está esta vila sem relógio porque este, e sua grande torre feita pelos mouros, que sefes em cinzas. O palácio dos marqueses de Cascaes uq era de hua excelente perspectiva, e de exquisitas pinturas, com hua bella ermida, desconhecesse tudo pelo que foi, e já não hé (…). Nesta freguesia há hu castelo, cujo hoje está todo cheio de moradores e para nada serve mais, porem ahinda selhe conservão alguas amejas, cujo fica para abanda da ribeira, pegado com os palacios dos marqueses de Cascaes”.

 
Também Frei António do Espírito-Santo, um dos frades carmelitas do Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), dá-nos conta do estado do castelo após o terramoto de 1755: “cahio a torre com o seu mais especioso relógio nas sonoras vozes do seu sino, que fica olhando para norte, e matando 22 pessoas”.
 
Esta torre, bem identificada em muita da cartografia antiga que se conhece, corresponderia à torre que se situava na parte Nascente do Castelo, com frente para a área do antigo Rossio. Teria planta redonda, em linha com a tradição arquitectónica deste tipo de edifícios, facto ainda visível nas fotografias tiradas no início do Século XX por João da Cruz Viegas, D. António de Castelo-Branco e pelo Visconde de Coruche. De salientar que alguns dos torreões do antigo castelo, marcando os eixos que deram forma ao núcleo urbano inicial da Vila de Cascais, subsistiram até aos anos 60 do século passado, quando foram demolidas no âmbito do surto de construção que assolou Cascais nessa época.
Em termos religiosos, eram vários os edifícios que existiam em Cascais neste final do Século XVIII. Mas a maior parte, mercê das agruras do cataclisma, acabou por ficar muito danificado ou mesmo completamente destruído.

 
De acordo com o testemunho do Reitor da Igreja Matriz de Cascais, Padre Manoel Marçal da Silvejra, ao responder em 1758 aos inquéritos paroquiais, nada sobrou do terramoto e o que se manteve de pé estava em tais condições que a ele lhe parecia que mais valia destruir para construir novas edificações de raiz do que proceder ao seu restauro: “(…) a villa ficou toda arruinada até ao chão. Não há caza, wur ou não cahisse em terra, ou não ficase abalada, ameaçando ruína. Os templos, a ponte, a cidadela, e os eus quartéis, tudo está demolido, e feito em pó. A major parte da villa haita ahinda em barracas fora, e dentro do destricto, a ponte está com hu só arco em pee, e senaõ passa po rella, sem que se reparasse ahinda nada, somente alguas czas setem levantado, poucas, ao mesmo tempo, que outras, com as tempestades e ventos, se tem acabado de postrar”.
 
Do reitor da Freguesia da Ressureição, a segunda freguesia de Cascais e situada no espaço extra-muros, recebemos a informação de que foi esta uma das mais afectadas freguesias do país com a catástrofe do terramoto de 1755: “De todas as terras foi esta aq. Experimentou mayor ruina (conforme dizem todos) por causado ditto terramoto, pois todos os edifícios serruinarão, e quazi todos cahiram, e algum q. nan cahio de todo ficou inahabitavel, mas ao prezente is se acham muntos deles reedificados”.
 
Mas, se é certo que a destruição provocada pelo terramoto foi enorme, certa é também a dose de exagero patente em todos estes documentos, explicável possivelmente com a necessidade de chocar quem os lê-se para sensibilizar o poder nacional para a necessidade de recursos que Cascais sentia para proceder à sua recuperação urbana. De facto, tendo ruído a Igreja da Ressurreição, que se situava sensivelmente onde actualmente se encontra a estação de comboios, muitos outros monumentos civis, militares e religiosos se mantiveram de pé o foram reconvertidos e/ou recuperados e ainda hoje podem ser apreciados na Vila de Cascais.


 
 
A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, por exemplo, uma construção de meados do Século XVII que resistiu à força do terramoto, foi bastante alterada no seu exterior tendo sofrido várias alterações que lhe conferem a imagem que hoje apresenta. Na sacristia e no arco que suporte o coro, ainda são visíveis as sequelas do cataclisma, ao lado com uma pequena inscrição que informa que o templo havia sofrido obras de restauro em 1720 à custa dos irmãos pescadores.
 
Mais à frente, e para além dos muros antigos do castelo, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza de Nossa da Luz resistiram ao terramoto, tendo acontecido o mesmo com o Convento de Nossa Senhora da Piedade que, já no Século XIX, foi comprado em hasta pública pelo Visconde do Gandarinha que o adaptou a residência de veraneio. Quando essas obras foram efectuadas, estavam ainda em estado razoável de conservação a antiga sala do capítulo, a capela, o claustro, a cisterna e mesmo o friso de janelas viradas a Sul que ainda hoje se mantém.


 
 
Da mesma maneira, e para além das pequenas capelas de Nossa Senhora de Porto Seguro e de Nossa Senhora da Conceição, sobreviveram ainda as capelas de Nossa Senhora da Vitória, a Igreja da Misericórdia e a Igreja e Nossa Senhora dos Navegantes que foram reconstruídas depois da catástrofe.


 
 
Tendo exagerado de forma linear a verdade do que aconteceu, a documentação coeva dá-nos uma primeira imagem do que era Cascais naquela época. E, sabendo nós que o ímpeto de construção que se lhe segue fica a dever-se à generalizada informação de ruína eminente em que pretensamente Cascais se encontrava, fácil se torna perceber que naquela altura, como ainda hoje, foi sobre inverdades e premissas adaptadas às necessidades do momento, que se deu uma nova cara ao Cascais de sempre.
 

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publicado às 12:56

O Teatro Gil Vicente em Cascais

por cascalenses, em 15.12.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando Cascais assistiu, nos idos de 1869, à inauguração do Teatro Gil Vicente, recém-construído a expensas do ilustre Cascalense Manuel Rodrigues Lima, ainda não tinha perfeita consciência da importância desse acto e dessa data da História da própria vila.
 
É que, nesse ano, Cascais era ainda a pequeníssima aldeia de pescadores situada numa das zonas mais longínquas dos arredores de Lisboa, conhecida mais pelo seu peixe e pela sua importância estratégica de âmbito militar, do que pela arte, ciência, sociedade ou cultura.
 
Mas foi em 1869, com a inauguração do teatro, que tudo começou a mudar.
 
Logo nesse mesmo ano, depois de os jornalistas lisboetas noticiarem a inauguração de um “teatro de luxo na vila de Cascais”, os cerca de 500 lugares da sala de espectáculos esgotaram várias vezes. Por ali, como se de uma grande capital cosmopolita se tratasse, passaram os grandes nomes da vida artística europeia dessa época. Desde o grande actor Vale, passando por Mercedes Blasco, Laura Ferreira, Pedro Cabral, Beatriz Rente e Pereira da Silva, muitos foram os nomes famosos que levaram longe a fama da nova casa de espectáculos e da própria vila de Cascais, recriando em torno da povoação uma mística de interesse que nunca mais desapareceu.
 
Terá sido também a partir da construção do Teatro Gil Vicente, que se criaram em Cascais numerosos grupos, colectividades, associações e academias, que alteram por completo a vivência social e cultural do velho burgo. O teatro de amadores, ainda hoje recordado com nostalgia por ter marcado de forma perene a História de Cascais, desenvolveu-se sempre em torno deste espaço. D. Fernando Atalaia, Rodrigo Berquo, Maria Luís da Costa, Belmira Lima, D. José de Atalaia, Ermelinda Assunção, subiram ao palco lado-a-lado com celebridades estrangeiras como Sandor Vegh, Eisenberg, Hans Munch e Karl Engel. E o fulgor manteve-se inalterado durante praticamente um século. Francisco Carneiro, Luís Costa Constante, João Constante, Helena Pinto, Edmundo Ferreira, Jaime Salgado, Marília Costa, Cármen Mota, João Carriço, Juvenália Tavares, são apenas alguns exemplos dos muitos artistas amadores que durante muitas décadas foram criando, encenando e fazendo subir ao palco algumas das mais divertidas, cómicas, dramáticas e culturalmente emblemáticas peças de teatro do país.
 

 

Foi também a inauguração do Teatro Gil Vicente, com toda a animação que a envolveu, que motivou o Rei Dom Luís I e a Corte Portuguesa, a escolherem Cascais como estância de veraneio a partir de 1870, tendo a Família Real assistido, de forma reiterada, a várias peças de teatro e inúmeros eventos culturais nas cadeiras deste novo espaço de entretenimento.
 
 
 

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publicado às 10:05

Navio Tokyo Spirit Naufragado em Cascais

por cascalenses, em 19.10.15

 

 
 
Sábado, dia 17 de Outubro de 2015. No meio de um imenso temporal, com ventos fortíssimos e o caos instalado no Concelho de Cascais, o petroleiro “Tokyo Spirit”, das Bahamas e com 274 metros de comprimentos e 78845 toneladas, encalhou junto ao Farol de Santa Marta. Ao longo dos dois dias em que durou o resgate, no qual participaram rebocadores vindos de Setúbal e de Sines, o enorme navio foi arrastado para junto da marina de onde foi retirado no final da tarde de Domingo. 
 
 

 

 

 

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publicado às 15:12

104,74 Milhões de Euros é o total da dívida do Município de Cascais em 2013

por cascalenses, em 22.07.14

 

104,74 Milhões de Euros é o total da dívida do Município de Cascais em 2013 de acordo com

os dados hoje publicados no Portal Governamental 'Transparência Municipal'

(Aceda em www.portalmunicipal.pt)

 

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publicado às 15:38

Dívida Pública em Cacais - 502,78 € por cada Munícipe!

por cascalenses, em 22.07.14

 

 

Em Cascais a dívida pública municipal indica que em 2013 cada munícipe devia o equivalente a 502,78 €! E está a crescer!

(Dados do portal governamental da 'Transparência Municipal' em www.portalmunicipal.pt)

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publicado às 13:15

O Casal do Clérigo e a Memória Urbanística de Cascais

por cascalenses, em 19.06.14

 



por João Aníbal Henriques

Situado a Este de Manique, na freguesia de São Domingos de Rana, o Casal do Clérigo é actualmente uma das mais pequenas localidades do concelho de Cascais. Com uma população pouco numerosa e envelhecida, esta povoação distingue-se ainda hoje pela sua riqueza natural, quer em termos paisagísticos, quer em termos de solo, quer mesmo no que aos recursos naturais diz respeito. Mais uma vez, e tal como em muitas pequenas aldeias do interior Este deste território municipal, o Casal do Clérigo é rico em pedra Calcária, que utilizou, trabalhou e exportou em grande quantidade.

Se do ponto de vista estratégico esta povoação tem pouco a oferecer, não possuindo significativas infra-estruturas, escolas igrejas, campos desportivos ou outros equipamentos, do ponto de vista patrimonial, é de grande quantidade de monumentos, possui no seu seio belíssimos exemplares de imóveis  de grande interesse histórico e arquitectónico, nomeadamente no que diz respeito às formas rurais destacando-se a presença de dois casais rurais com primeiro andar, um saloio, e de uma captação pública de água, enquadrada dentro de um sistema de aqueduto destinado às regas e à prática agrícola.

O casal saloio é um dos mais antigos vestígios da arquitectura rural do concelho de Cascais. Muito embora seja quase impossível determinar com exactidão a data precisa da sua construção, a volumetria simples que apresenta, bem como o seu característico enquadramento espacial, e a própria forma interna, aparentam a consolidação de uma sobreposição de ocupações, de onde se destaca, pela presença do pátio retirado e pelo recolhimento da sua colocação, os elementos básicos da presença muçulmana.




 
De facto, se nos ativermos aos elementos arquitectónicos, este casal saloio apresenta características próprias dificilmente verificáveis noutros exemplares análogos deste concelho. A estrutura de suporte do telhado, que ainda possui as velhas telhas de burro, bem como a aparelhagem da parede, apresentam sinais evidentes de um alonga ocupação, ao longo da qual muitas terão sido as transformações aplicadas ao imóvel. muito embora o seu estado de ruína contribua para a sua descaracterização, bem como para o o desagrado com que é vista a manutenção da existência deste espaço, o certo é que o casal saloio do Casal do Clérigo foi já uma peça importante da estrutura habitacional cascalense que, para além de indiciar o modo de vida agrícola do seu proprietário, aponta ainda para o registo das influências norte-africanas, desde meados do século VIII, e para a continuidade e manutenção das inovações trazidas desse espaço. A alvenaria grosseira das paredes, que possuem mais de meio metro de espessura, e a pequena janela aberta possivelmente em períodos mais recentes, indiciam a presença de um exemplar muito antigo da arquitectura popular cascalense.

O exemplar de casal rural que apresentamos indicado com o número 480, é um excelente exemplo daquilo que foi o verdadeiro Casal do Clérigo de outrora. O edifício, com andar duplo e exploração agrícola é um dos exemplos dos velhos casais agrícolas que existem em grande quantidade por todo o concelho, demonstrando, de forma evidente, a forma como as influências muçulmanas, implicaram na criação, manutenção e desenvolvimento das estruturas de pensamento cristãs medievais.




 
Em termos arquitectónicos, este casal rural do Casal do Clérigo apresenta uma estrutura sólida e quadrada, com paredes de espessura uma estrutura sólida e quadrada, com paredes de espessura superior a cinquenta centímetros e cantarias de rígidas de calcário. A fachada, com uma porta no andar inferior e uma janela de quatro partes no superior, denota a necessidade de solidez na construção inicial, indiciando ainda a forma segura e pouco dispendiosa com que se queria realizar esta habitação. Embora de alguma forma desenquadrada das formas tipológicas mais usuais no concelho de Cascais, pela colocação de espanta-fantasmas nos beirais do velho telhado, este casal rural apresenta elementos apensos que, só por si, são merecedores de especial atenção por parte das entidades competentes. A existência de um poço, onde se insere uma nora de metal, marca a diferença deste espaço, onde a vocação rural rural, mais ainda do que a própria fisionomia sóbria da edificação, se desenvolve em torno do corpo principal da propriedade. O sistema de armazenamento de água a partir do poço, num pequeno depósito colocado junto ao primeiro andar, indicia por seu turno a realização de obras de adaptação em período recente, sendo que, o actual estado de abandono, só pode ser resultado das normais contingências da vida, em que o ciclo do nascimento, desenvolvimento e morte, inadiável em todos os seres humanos, trás implicações difíceis de gerir no que à manutenção do património diz respeito.

O facto de se encontrar à venda, bem como a necessidade que existe de promover as raízes culturais das gentes que vivem nas imediações, parecem apontar este casal rural como uma das peças fundamentais para o desenvolvimento concertado do concelho, assumindo, pelas suas características e pelos elementos que lhe foram apensos, uma vocação pedagógica que dificilmente será substituível pelo mais capaz dos professores.





Fazendo conjunto com o exemplar anteriormente referido, encontramos no Casal do Clérigo outra edificação de grande valor patrimonial. Situado a poente da estrada que liga esta aldeia a Trajouce, o casal rural com primeiro andar, classificado com o número 497, está actualmente em utilização comercial como fábrica de mármore, atestando, como se referiu no início, a importância que a indústria extractiva da pedra assumiu no seio da economia das populações do interior do concelho de Cascais.

O exemplar em questão, possuidor de grandes analogias com o anteriormente citado, possui uma frontaria de dimensões idênticas às do anterior, existindo ainda a mesma disposição de porta e janela. Esta, muito embora possua as mesmas dimensões daquelas apresentadas pelo exemplar já referido, está dividida em três partes, indicando o factor de ser possivelmente mais recente do que a outra. Muito embora não possua as estruturas de espanta-fantasmas referidas anteriormente, este exemplar apresenta curiosos sinais da prévia existência de um telhado a meia altura, possivelmente um telheiro de apoio ao telhado principal de quatro águas que já não existe. A utilização como depósito e oficina de talhe de mármore, bem como a sua situação no seio de um bloco de construções de pouca qualidade arquitectónica e urbanística, cria aparentemente algumas dificuldades à utilização deste espaço. No entanto, e porque de recuperações pretende este trabalho falar, salientamos o facto de ser extremamente vantajoso para o concelho, do ponto de vista urbanístico e cultural, a requalificação destes espaços. Para tal, e porque a manutenção do funcionamento da oficina não pode, obviamente, ser posta em causa, necessário seria investir na reconversão total daquele espaço, de modo a integrar a faceta histórica e patrimonial, numa visão mais ampla de progresso, onde a memória do futuro, elemento chave da identidade Nacional, se possa desenvolver de forma harmoniosa, contribuindo para o desenvolvimento da qualidade de vida dos habitantes do Casal do Clérigo e de todos os habitantes e munícipes de Cascais.





O quarto elemento essencial para a compreensão daquilo que patrimonialmente é o Casal do Clérigo, é a captação pública de água. Este exemplar, integrado num espaço amplo de características agrícolas, apresenta uma estrutura simples datada de 1915, indiciando a manutenção da importância atribuída à prática agrícola até épocas muito recentes. Muito embora o seu estado de conservação não seja caótica, apresentando ainda quase intactos todos os componentes de origem, esta mãe-de-água do Casal do Clérigo necessita de uma intervenção de requalificação urgente. Os acessos, o estudo e a classificação deste espaço, segundo parâmetros de qualidade e de aproveitamento lúdico-cultural, transformaria, assim um espaço desaproveitado num centro de desenvolvimento urbano, tendo em conta, como é evidente, os interesses de Cascais e dos seus habitantes.

A estrutura de aqueduto que envolve este espaço, bem como os diversos tanques de armazenagem e distribuição da água, fazem deste lugar um espaço único de desenvolvimento pedagógico, servindo de exemplo para ensinar à população escolar das redondezas, a forma eficaz e simples como se desenrolava a vida nesta povoação.

A consolidação do espaço histórico do Casal do Clérigo, e a posterior integração dos dois casais rurais, do saloio e desta captação de água, poderiam servir de incentivo á requalificação global do interior do concelho, tendo em conta a forma caótica como se desenvolveram os bairros clandestinos nas redondezas, e o espaço verde e equipamento cultural de que vão necessitar as futuras gerações de cascalenses nascidos nesses espaços sem qualidade urbana.

A reconsolidação da memória, bem com o despertar da identidade são, foram e serão aspectos essenciais na manutenção ideológica do concelho de Cascais. O Casal do Clérigo, bem como a quase totalidade dos antigos núcleos urbanos deste município, decerto tomará parte na construção do novo concelho de Cascais.

 

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publicado às 11:07

Fertilidade Romana no Espigão das Ruivas

por cascalenses, em 18.06.14
por João Aníbal Henriques

Situado no extremo ocidental do concelho de Cascais, onde desde a Idade do ferro se praticam os desconhecidos para reconhecidos cultos da fertilidade, encontramos o sitio arqueológico do Espigão das Ruivas, num lugar que a tradição designa como Porto de Touro ou Guincho Velho.

A envolvência deste lugar, bastante isolado do resto do território e, por isso, propício ao desenvolvimento de práticas ritualizadas, aliado ao facto de existir nas suas imediações um importante curso de água denominado Rio de Touro, possuía excelentes condições para o desabrochar de relações íntimas com a divindade, facto comprovado pela existência de um templo neste sítio, e que foi repetidamente reutilizado durante várias épocas, desde a pré-história até à actualidade.

De acordo com os dados arqueológicos fornecidos pelas escavações ali efectuadas pela Associação Cultural de Cascais, dirigidas pelo arqueólogo Guilherme Cardoso, o Espigão das Ruivas terá sido um dos principais pontos estratégicos onde se efectuou o culto da fertilidade, ainda hoje bastante vicejante junto das comunidades humanas que habitam ou utilizam as redondezas.

 


 
O afastamento do sítio face aos principais aglomerados humanos, bem como a proximidade patente face ao Rio de Touro, carregado com a simbologia da força e da virilidade, transformou este local de culto num sítio onde as práticas efectuadas não eram muito compatíveis com a mentalidade oficial das diversas épocas, factor condicionante da transformação de uma prática comum a quase todas as civilizações, ou seja, a adoração dos astros com o intuito de incrementara a fertilidade da mulher, uma zona profundamente vincada por um misticismo crescente, o que contribuiu para a manutenção, difusão e desenvolvimento dessas actividades. A natural curiosidade humana face ao desconhecido, bem como as especulações que também sob uma forma natural se vão desenvolvendo transformou o Espigão das Ruivas num sítio onde os meros rituais de passagem característicos de quase todas as sociedades ditas primitivas, depressa se transformaram em ritos mágico-religiosos carregados de um misticismo que se explica de forma natural pelas contingências geográficas  e magnéticas  que o local possuía, mas também pelo encantamento e pelo sentido apelativo que estava inerente às próprias acções ali desempenhadas.

 
 
De facto, quer a denominação de lugar, onde as ruivas representam, segundo a tradição popular, as antigas ninfas que ali aguardavam o sopro divino que lhes permitia o desenvolvimento da carga sexual com que encantavam os homens, quer mesmo o nome que ainda hoje é atribuído ao curso de água ali existente, em que a relação com o Deus Romano da fertilidade e com o símbolo grego e cartaginês da força e da pujança está extraordinariamente bem patente, demonstram bastante bem a forma como a prática reiterada de um exercício que se afasta da vivência quotidiana pode influenciar as mentalidades, a etnografia e mesmo a vida política de uma comunidade. Essa influência, por seu turno, acaba por influir, sempre de forma positiva, no próprio património edificado, tal como se constata pela listagem patrimonial que apresentamos em anexo.

A chegada dos romanos à Península Ibérica, bem como o esforço por eles desenvolvido no sentido de promover a efectivação de um processo de aculturação do qual dependia a real ocupação deste lugar, acabaram por influir decisivamente no desenvolvimento da nova mentalidade peninsular. De facto, por serem conhecedores de novas técnicas de utilização e de rentabilização do solo, herdadas na sua quase totalidade daquelas que o antigo império grego havia repescado das civilizações antigas do médio oriente, os romanos que se instalaram em Cascais acabaram por transformar, de uma forma bastante radical, o modo de vida das populações indígenas, uma vez que estas últimas, na sua quase totalidade, eram compostas profissionalmente de agricultores e pescadores, razão pela qual se tornou bastante fácil o referido processo de aculturação.

Como se sabe, ambas estas actividades se encontravam bastante dependentes dos elementos naturais para o seu sucesso ou insucesso, sendo que, aqui como noutros locais, os habitantes que a elas se dedicam tendem a respeitar de sobremaneira as expressões do ambiente e do meio envolvente, atribuindo-lhes significação simbólica e religiosa. Não será por acaso, quanto mais não seja porque o acaso não existe, que os grupos humanos formados essencialmente por pescadores e lavradores, tal como acontecia em Cascais no período imediatamente anterior à chegada dos Romanos, são mais propícios ao desenvolvimento de rituais místicos e mágicos.

 
 
Não será estranho a nenhum Cascalense, segundo esta ordem de ideias, o encontrar de diversas capelas e ermidas dedicadas a figuras simbólicas do cristianismo católico, edificadas sobre vestígios mais ou menos palpáveis de templos ou espaços sagrados anteriores, nomeadamente atribuídos a cultos pagãos ou indígenas pré-históricos. A continuidade ritual de Cascais será assim, como não poderia deixar de ser, o fruto de uma série de influências recebidas dos mais variados pontos do globo, desde as antigas migrações norte-africanas, até às recentes comunidades afro-brasileiras que aqui desenvolvem as suas acções. A dependência da terra e do mar, mesmo na actualidade, favorece as ligações entre o Homem e Deus, uma vez que o processo de funcionamento da natureza, à partida com características absolutamente aleatórias, se torna incompreensível para o comum cidadão, que é obrigado a procurar noutros sítios as explicações para os bons e maus anos de colheitas e para as boas ou más pescarias.

 
 
 
Assim, as contribuições dadas pelos invasores itálicos para o conhecimento daquelas que eram as melhores formas de controlar a natureza depressa lhes granjeou um respeito e uma fidelidade que veio a permitir a sua vasta interferência nos rituais mágicos e religiosos praticados neste espaço. Só que, nesta como noutras áreas directamente relacionadas com a presença romana no actual território Cascalense, também os invasores superaram o bloqueio ideológico promovido anteriormente. Os recém-chegados ocupantes, como povo desenvolvido à custa de intrincados processos de aculturação promovidos em todo o território imperial, incentivados pela riqueza crescente que a aculturação e a necessidade de homogeneidade promovia, depressa perceberam que a manutenção física do território conquistado, para ser duradoura e para produzir os tão almejados frutos económicos pretendidos, passava mais depressa pelo encetamento de relações amigáveis com os indígenas, do que pela manutenção de uma posição de força militar que, como já outros casos o haviam demonstrado, possui um tempo de vigência muito curto, para além de se tornar bastante dispendioso.

A única solução compatível, no caso peninsular, onde as populações autóctones possuíam um grau de desenvolvimento difícil de definir, uma vez que as suas estruturas de hierarquização social, bem como as principais características de vivência em grupo, se encontravam providas de bases bastante sólidas, o que, para alguns investigadores poderá ser sinónimo de um grau bastante grande de desenvolvimento, foi a de promover o contacto amigável entre os dois grupos, de onde resultou a miscelânea cultural encontrada em Cascais pelo Prof. José da Encarnação. Para outros investigadores, a consequente procura crescente de ritos e rituais paranormais, bem como a existência de uma complicada base ideológica e religiosa, traduz-se na prática pela pouca aptidão comunal pelas matérias relacionadas com o conhecimento científico.

 
 
 
Só que, em nosso entender, esses investigadores esquecem as características que normalmente revestem essa proclamada cientificidade, de onde se destacam, pela observação do devir histórico das ciências, o carácter precário e provisório de todas as descobertas efectuadas em quase todas as áreas do saber. Por esse motivo, e porque o saber mágico-ritual das populações indígenas Cascalenses, no momento imediatamente anterior à chegada dos romanos, era de facto bastante complexo, para além de espelhar grandemente a necessidade de compreensão da natureza e dos seus fenómenos, será lícito pensar que o desenvolvimento comunitário inerente a este facto deverá ser tido em conta, sendo essa, afinal, a única chancela que veio a condicionar o esforço romano de proclamar e desenvolver uma política de respeito face às crenças e à cultura peninsular. É por este motivo, mais do que por qualquer outro, que a miscenização entre romanos e indígenas vai marcar definitivamente a vivência daquele que é actualmente o território concelhio de Cascais, facto que teve o seu seguimento lógico, em momentos seguintes, pela continuidade de utilização desta política de mistura que esteve patente não só durante o período visigótico, com também durante o Árabe e mesmo durante os anos de ouro dos Descobrimentos.

A comprovar esta hipótese e na sequência do trabalho epigráfico do Prof. José da Encarnação, já mencionado anteriormente, está a existência de diversas lápides romanas encontradas em Cascais onde é possível vislumbrar a mistura em questão. Na sua obra «Roteiro Epigráfico Romano de Cascais», embora com algumas naturais reticências, o autor segue precisamente esse cainho: «por conseguinte, parece ter confluído na identificação deste divindade influências orientais. Não será de rejeitar a hipótese de uma relacionação - através do radical ar - com a água corrente, na sequência do raciocínio, apresentado em 1975, a reflectir a importância da Ribeira de Manique para os agricultores de antanho. Ma essa divindade tem um cunho étnico, digamos assim, atendendo ao primeiro sobrenome: protegerá de modo especial os Aranti; já o segundo encomiástico, terá uma função diferente, a de infundir confiança - porque Áraco vencerá todos os obstáculos... [...] É a dedicante uma indígena romanizada: usa o gentilício decerto mais frequente no termo de Olísipo - Iulius - e, por isso, não hesita em o mencionar simplesmente em sigla.»

 
 
É óbvio, quando se menciona a vivência psíquica e sagrada de uma comunidade que viveu tão afastada do presente, que o carácter dos conhecimentos que agora se adquirem e se difundem podem ser simplesmente pistas que servirão de bases a novas hipóteses, razão pela qual, e fundamentando a já referida precariedade do conhecimento científico actual, o ilustre autor acaba por concluir mais à frente: «Uma interpretação sedutora, confesso; assaz desprovida de fundamentos válidos, não o nego; mas é nesse campo ainda movediço que, infelizmente, ainda nos movimentamos quando tentamos desvendar o mundo ainda tão hermético da teonímia indígena peninsular».

 

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publicado às 16:13

O Estoril não foi à BTL

por cascalenses, em 14.03.14

 


Pela primeira vez desde há 26 anos, o Estoril não foi à BTL – Feira Internacional de Turismo de Lisboa. No ano do centenário do seu nascimento [1914-2014], e numa altura em que se assumia como terceiro destino turístico em Portugal, logo depois de Lisboa e do Algarve, é com grande preocupação, estranheza e perplexidade que registamos esta ausência, principalmente se tivermos em conta o reconhecimento internacional inquestionável que a marca turística ‘Estoril’ conquistou ao longo dos últimos anos. Substituído por uma pequena banca sempre vazia e completamente perdida dentro do stand do Turismo de Lisboa com a recém-criada marca ‘C’ de Cascais (e sabe-se lá do que mais), é com muita tristeza que somos obrigados a explicar a todos os operadores internacionais que nos questionam sobre o porquê deste desaparecimento estranhíssimo do Estoril, que foram motivações políticas e estratégias partidárias que determinaram esta morte anunciada. Eles não percebem. Nós também não. 

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publicado às 11:56

O Ilusório Acesso para Deficientes ao Parque da Ribeira dos Mochos

por cascalenses, em 25.02.14
Inaugurada com pompa e circunstância vários anos depois da inauguração do próprio parque, a nova entrada adaptada para deficientes do Parque Urbano da Ribeira dos Mochos, no final da Avenida Infante Dom Henrique, foi apontada como um importante investimento para oferecer acesso a pessoas com mobilidade condicionada àquele espaço extraordinário de Cascais.

A estrutura de madeira, imponente e complexa, compõe-se de uma sucessão de rampas paralelas que, num percurso de vários metros, ajudam a reduzir o desnível de forma a permitir que as cadeiras de rodas possam entrar facilmente no Parque da Ribeira dos Mochos.

Mas infelizmente não passa de uma mera ilusão de óptica que engana quem dela pretende usufruir.  Depois do percurso sinuoso através da estrutura em madeira, o Cascalenses que entrar no parque em cadeira de rodas passa a ter 2 opções para a sua visita: ou segue em direcção ao parque infantil, e aí encontra dois lanços de escadarias íngremes que não pode descer; ou segue em direcção ao passeio central, onde são três os lanços de escadas…

Ou seja, depois de descer o percurso difícil até ao final do passadiço, a única opção viável é… desistir de visitar o parque e voltar a fazer o mesmo percurso para trás, em direcção a saída!

Como de boas intenções está o inferno cheio, é absolutamente incrível esta situação, sobretudo quando pensamos no colorido da inauguração e nas verbas públicas que foram gastas para o efeito... 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 12:48

As Dunas do Guincho: Um Apelo Sentido de Todos os Cascalenses

por cascalenses, em 16.02.14

Quando a Câmara Municipal de Cascais inaugurou, em Julho de 2011, os passadiços de madeira nas Dunas do Guincho (Praia da Cresmina), ainda sob a presidência de António Capucho, foi grande o júbilo dos Cascalenses.

Apesar de os projectistas se terem “esquecido” de integrar no percurso maravilhoso as três peças do património de Cascais que lhe estão adjacentes (a mãe-de-água da Cresmina, o Aqueduto Romano e o Povoado dos Casais Velhos) e de ter perdido a oportunidade para os recuperar, esta intervenção oferecia ao turismo do Estoril uma nova e extraordinária ferramenta de trabalho que, para além de permitir o acesso a um dos mais bonitos recantos do Concelho de Cascais, deslumbrando todos aqueles que tivessem a sorte de saber da sua existência, também servia como contributo importante para preservar (e recuperar) as dunas da Cresmina.

Mas agora, em 2014, depois de se ter mudado a presidência da C.M.C. e de as eleições terem sido ultrapassadas, a situação em que se encontra este equipamento é muito diferente.

Fruto da incúria e do desleixo, a degradação tomou conta do passadiço e, em alguns troços, para além de ter desaparecido a corda que marcava o percurso e que protegia as dunas consolidadas, existem sinais evidentes de destruição da própria estrutura em madeira.

Agora, são muitos aqueles que voltaram a pisotear e a destruir os habitats naturais e as próprias dunas, em linha com o ar de abandono em que se encontra toda a estrutura, destruindo assim uma parte substancial da riqueza natural de Cascais e das potencialidades turísticas do local.

Mais preocupante ainda, dado tudo isto ter sido feito e pago com verbas públicas, ou seja, dinheiro que pertence a todos os Cascalenses, é percebermos que se a recuperação da estrutura não vier a acontecer num curto espaço de tempo, e não for seguida de um esforço continuado de manutenção, perderemos definitivamente mais este equipamento.

 

Agora que as eleições autárquicas já passaram, esperemos que as europeias que aí vêm e as legislativas que se lhes seguem, sejam argumentos suficientes para que a Autarquia tome em mãos a resolução do problema... 

 

 

 

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publicado às 16:51

SerCascais - Formalização da Primeira Candidatura Independente

por cascalenses, em 30.07.13

Momento histórico em Cascais em que o Movimento SerCascais, liderado por Isabel Magalhães, formaliza a primeira candidatura independente de sempre às Eleições Autárquicas Cascalenses. Mais de 6000 assinaturas marcaram um dia que fica para a História e que prova que... vale a pena SERCASCAIS!


 

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publicado às 23:06


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