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A Areia e a Capela de São Brás em Cascais

por cascalenses, em 09.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando em 1997, em pleno processo de preparação do Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, publiquei um trabalho sobre a história da ruralidade da Freguesia de Cascais (*), a povoação da Areia era ainda palco privilegiado das ancestrais tradições rurais que deram forma ao município de Cascais.
 
No Largo de São Brás, expressão máxima do sentido comunitário da localidade, congregavam-se os elementos principais de uma existência na qual a ligação aos trabalhos da terra e uma dependência extrema relativamente às agruras da natureza, se revezavam amiúde, representando o principal sustentáculo de um ideário comunitário comum que conduziu à arreigada identidade que a localidade ainda possui.
 
 
 
A Capela de São Brás, o chafariz e o lavadouro comunitário, partilham por ali o coração simbólico da Areia, dando forma a uma existência na qual a singeleza do quotidiano funciona como elemento motivador de uma forma de ser e de estar que fomenta o tecido social do local.
 
 
 
 
A Areia, de cujas origens pouco se conhece, apresenta um topónimo que deriva da proximidade à Praia do Guincho e a estrutura pobre dos seus solos. Mas, é também essa aparente fragilidade natural que, conjugando-se em processos dinâmicos de sobrevivência, vem determinar uma série de práticas que são vincadamente locais e extraordinariamente únicas no contexto da existência rural de Cascais e de Portugal.
 
Do período romano, o povoado dos Casais Velhos, com a milenar fábrica de púrpura e a ligação directa à cabeça do Império, representa a expressão máxima da sua monumentalidade, traduzida em algo que, apesar do abandono a que tem sido devotado ao longo dos últimos anos, é irrepetível e assume laivos de primeira linha no inventário do património Cascalense.
 
Mas a Capela de São Brás, situada em plano coração da Areia, é também ela eixo essencial na estruturação moderna da localidade, representando um papel catalisador no desenvolvimento da estrutura social que há-de definir o devir quotidiano naquele espaço.
 
Sem origem cronológica conhecida, a Capela de São Brás que hoje conhecemos será certamente o resultado de um processo de paulatino desenvolvimento. A sacralidade do local, provavelmente marcado por um antigo templo e/ou ermida que por lá tenha existido, foi necessariamente o ponto de partida de uma expressão cultual que gera em seu torno os elementos necessários à fixação humana. Em 1527, quando se realizou o primeiro recenseamento à população, a Areia tinha somente nove vizinhos, o que corresponde a pouco mais de duas dezenas de pessoas, que entre si partilhavam os parcos recursos que resultavam do trabalho da terra.
 
 
 
 
A pobreza material da população, cessada que estava a exploração riquíssima da produtiva fábrica de púrpura, está bem expressa na formulação urbanística da localidade e, sobretudo, no carácter chão da arquitectura desta sua capela. De traços simples e simbolicamente próxima dos valores muito regulares que sempre caracterizaram a existência local, a Capela de São Brás conjuga em si os principais elementos que nos ajudam a perceber e a conhecer a povoação.
 
A devoção a São Brás, o santo arménio que começa a sua vida adulta como médico e que abandona tudo o que tem e o seu dia-a-dia na cidade depois de ouvir o chamamento de Deus, é também ela ilustrativa do carácter longínquo que a Areia representou durante muitos anos, em linha com a opção do Santo por uma vida de eremita, devotado à interioridade e à oração, em comunhão profunda com a solidão da natureza. A singeleza da história, a mesma que caracteriza a Capela de São Brás e mesmo o devir quotidiano na localidade da Areia, dão nota desse desligar sentido das correntes que nos prendem permanentemente à clausura da materialidade, representando um ímpeto de libertação que é resultado da proximidade a Deus.
 
A Areia, na sua ligação a São Brás, representa assim a profundidade da entrega devocional de Cascais à causa do despojamento material, numa sentida e assumida opção pela simplicidade extrema.
 
As duas devoções que estão nos altares secundários deste templo, entregues a Nossa Senhora de Fátima e ao Sagrado Coração de Jesus, são também elas expressivas deste caminho, denotando uma continuidade na prática devocional que terá obrigatoriamente de assentar numa vivência comunitária solidamente assente num conjunto e valores simbólicos desenvolvidos ao longo de muitos anos.
 
Visitar a Areia e a Capela de São Brás, num exercício de libertação perante a opressão sensível do charme de Cascais e dos Estoris, é assim uma oportunidade para entender a perenidade desta escapatória axial na formulação mais profunda da comunidade e do património Cascalenses.
 
 

 

(*) HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.

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publicado às 10:43

A Moura Salúquia do Alentejo

por cascalenses, em 11.11.15

 

 
por João Aníbal Henriques
 
As memórias da Cidade de Moura, no Alentejo, guardam consigo o ensejo antigo da beleza e da formosura da Princesa Salúquia, filha de Abu-Hassan e noiva eterna de Bráfama, alcaide de Aroche.
 
Aos seus pés, perdido algures na brancura singela da planície, sob um manto de restolho inchado pelas águas úberes deste Outono ameno, está o tesouro antigo que os tempos fizeram questão de olvidar.
 
Quando Moura se chamava ainda Al-Manijah, Salúquia estava apaixonada por Bráfama e aguardava nervosamente no cimo da torre de menagem do castelo a chegada do seu noivo. Mas, ao contrário daquilo que deveria ter sido, os exércitos mouros foram derrotados numa breve peleja pelos audazes seguidores de Dom Afonso Henriques. E a princesa, puríssima e com o colo alvíssimo preparado para receber o seu amado, assiste perplexa à entrada encapuçada dos cristãos no recinto amuralhado onde o seu pai a havia deixado à guarda dos seus mais sérios soldados.
 
Consciente do carácter sórdido dos maus-tratos que a esperavam assim que os invasores subissem ao castelo e ciente da morte prematura de Bráfama e do seu pai, Salúquia prescindiu da vida e atirou-se do cimo da torre de menagem para o chão duro do castelo.
 
Morreu. Levando consigo o tesouro de virtude que a acompanhava e a paixão que lhe enchia a alma.
Salúquia está hoje presente no Brasão de Moura, deitada eternamente aos pés da cidade onde nasceu, onde viveu e onde se entregou de corpo e alma ao seu destino. Com ela seguem os sons ocos de uma vida radicalmente diferente daquela que hoje temos e simultaneamente igual ao devir que ainda agora constrange o dia-a-dia de todos os Portugueses.
 
Decidiu morrer ao invés de se entregar nas mãos dos Cristãos recém-chegados, impedindo-os de deleitosamente gozarem os prazeres intocados da sua imaculada existência. Mas fê-lo às mãos daqueles que a tornaram imortal, entregando-lhe muitas centúrias de vidas e sucessivas gerações de Portugueses.
 
Dizem que ainda hoje Salúquia circula por ali. Não já no corpo que entregou por amor, mas com o espírito que continua a guardar o seu segredo.
 
E nas manhãs de nevoeiro, quando toda a paisagem se cobre com a película diáfana do mistério, não são poucos aqueles que a conseguem discernir, com os seus olhos fixos no horizonte, numa espera eterna pelo amor que nunca há-de chegar a ser. Dizem também, sobretudo aqueles que vêem com os olhos da sua própria alma, que Salúquia já não é uma mulher, tendo assumido um corpo de cobra que deambula sinistramente pelo meio daqueles que a pressentem… 
 
A cobra encantada de Moura. No Alentejo.
 
 
 
 

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publicado às 12:57


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