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cascalenses

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Racionamento de Luz em Cascais

João Aníbal Henriques, 27.10.25


Raínha Vitória Eugénia de Espanha, Czarina Joana da Bulgária, Rei Humberto II de Itália e Condes de Barcelona numa festa plena de charme e iluminação no Hotel Palácio do Estoril em 1941 (Fotografia do AHMC)

 

por João Aníbal Henriques

O período entre as duas guerras mundiais significou riqueza, prosperidade e notoriedade para Cascais e Estoril. O registo de paz que caracterizou Portugal, associado à sua localização estratégica enquanto ponte de acesso para a América, transformou o País e especialmente esta região no destino favorito para os refugiados que anisavam por alguma tranquilidade numa Europa completamente devastada pelas agruras dos conflitos.

Para aqui vieram, oriundos dos principais países beligerantes, os políticos, actores de cinema, pintores, poetas, escritores e  empresários que consigo trouxeram a fama que foi determinante na afirmação da excelência dos estoris enquanto destino privilegiado para quem desejava retomar os seus projectos de vida. E esta fama, assente no proveito que resultava do manancial de riqueza que transitava por estes lados, foi peça fulcral na recuperação da vocação turística de Cascais depois da paulatina degradação que a região vinha sentindo desde o fim do regime monárquico e do desaparecimento da principal aristocracia portuguesa que por aqui veraneava.

Mas nem tudo foram rosas neste período dourado. Tal como noutras partes do país e do resto da Europa, também Cascais sentiu na pela os problemas do racionamento. A escassez de alimentos e de bens condicionou de sobremaneira a qualidade de vida daqueles que por aqui viviam.

Trazemos hoje, pela mão da Comissão de Propaganda de Cascais, o problema grave que existia em Cascais em 1942 com o fornecimento de energia eléctrica. A distribuição pública deste bem essencial era escassa e o governo, ciente da necessidade de poupar recursos, resolveu impor restrições ao uso deste bem. Através da Portaria nº 10.048, reforçada pelo Despacho Ministerial de 20 de Março, foram criadas classes de consumo que implicavam disparidades entre os limites de energia que podia ser consumida e os preços por KW utilizado.

E a aplicação desta medida, num município que avidamente necessitava de manter as aparências e preservar o charme que lhe granjeava a tão necessária fama internacional, acabou por ser polémica e controversa, conforme o comprovam os ofício que aqui publicamos.

Contrastando com esta realidade, os jardins do Casino Estoril, em pleno esforço de guerra, continuavam a ostentar a sua profusa e magnífica iluminação pública. Até porque em Cascais, naquela época como actualmente, as aparências são muito mais importantes do que a efectiva realidade que vivemos.

 

 

Iluminação Pública dos Jardins do Casino Estoril em 1940

 
 

Troca de Correspondência entre a Comissão de Propaganda de Cascais e a Companhia de Gás e Electricidade em 1942

 

 

Quando o Rei Humberto II de Itália foi Doar Sangue em Cascais

João Aníbal Henriques, 14.10.24

 

por João Aníbal Henriques

Existem histórias que se transformam em mitos e mitos que se transformam em História… foi o que aconteceu com o Rei Humberto II de Itália durante os muitos anos em que residiu exilado na Vila de Cascais.

Despojado, por sua vontade, dos rigores protocolares que tinha conhecido bem enquanto foi monarca, o Rei fez questão de se integrar plenamente nos usos e nos costumes de Cascais, partilhando com os cascalenses os seus hábitos e a simplicidade despojada que desde sempre caracterizou a vida social nesta vila.

Pouco depois de aqui se instalar, inicialmente em Casa do Conde Monte Real, em frente à Cidadela de Cascais e, depois, numa das Casa Pinto Basto situada junto à  enseada de Santa Marta, resolveu um dia logo pela madrugada, de forma a não ser visto por ninguém, dirigir-se ao posto de saúde da vila para se inscrever como doador de sangue.

O seu natural altruísmo, e o desdém que sentia por qualquer acto de ostentação, obrigava-o a zelar pela discrição, evitando assim qualquer publicidade que desvirtuasse o acto abnegado que queria concretizar. 

Mas para grande constrangimento do monarca, estavam nesse dia no posto de saúde duas varinas de Cascais que, reconhecendo o Rei e sendo assumidamente suas fãs, lhe pediram reiteradamente que não fizesse esse sacrifício que, segundo elas, poderia pôr em risco a sua saúde e até a sua vida, o que elas consideravam ser um atentado por ser ele um Rei gentil, de muito boa aparência e pai de quatro filhos…

Mas, apesar do pedido do Rei de que não contassem a ninguém o que tinham acabado de ver, as varinas não se calaram e espalharam por todo o lado a notícia do que Humberto II de Itália tinha acabado de fazer.

O Rei nunca desmentiu nem confirmou a história, fugindo sempre do assunto e procurando que o mesmo fosse caindo no esquecimento dos cascalenses.

Mas anos mais tarde, quando foi visitado pelo investigador e escritor Júlio Sauerwien, que viera a Cascais para recolher material para o seu livro “Exilados Régios no Estoril”, foi frontalmente questionado sobre a veracidade dessa história. E, não querendo mentir, foi obrigado a confirmar que era verdadeira!

Mais uma história da História de Cascais que vem confirmar a máxima atribuída a Sua Majestade o Rei Dom Carlos I de Portugal de que “Cascais é o sítio onde o povo é mais nobre e onde a nobreza é mais popular”!