Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

cascalenses

cascalenses

O Grupo Dramático e Sportivo de Cascais e o Culto ao Espírito-Santo!

João Aníbal Henriques, 24.10.25
 

por João Aníbal Henriques

Em Maio de 1947, quando Cascais vivia na pujança singela de uma vila que havia recuperado o seu charme idílico ao receber os importantes exilados que procuraram refúgio em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, o Grupo Dramático e Sportivo de Cascais celebrava as festividades do Espírito-Santo com uma grande vitória na modalidade do Hóquei em patins.

A pedido da França e da Bélgica, que procuravam espaços para treinar as suas selecções nacionais com a segurança e o conforto que a muito abalada Europa não conseguia prestar, Cascais recebeu as principais equipas desses países que aqui vieram treinar e jogar.

O Grupo Dramático e Sportivo de Cascais, conhecido pela qualidade dos seus atletas, assumiu-se como anfitrião daquelas importantes equipas europeias e, como penhor de gratidão pela sua hospitalidade, nos dias 25 e 26 desse mês decorreram importantes jogos privados de hóquei em patins entre as ditas selecções e a equipa local de Cascais que visavam agradecer ao dramático todos os cuidados dispensados, oferecendo-lhe dois momentos de grande visibilidade que concorreriam para alicerçar a fama do já então muito relevante clube de Cascais.

Mas a surpresa instalou-se assim que a equipa local, treinada por Gomes, venceu a Bélgica por 3-1, ao que se seguiu nova vitória retumbante contra a França por 2-0…

O povo de Cascais não podia acreditar! A equipa formada por A.S. Machado, M.E.F. Jorge, F.M. Magro, V. da S. Fonseca, A.J. d’Oliveira e A.G.M. dos Reis, todos cascalenses de gema, demonstrou internacionalmente a qualidade do seu jogo e a importância do Grupo Dramático e Sportivo de Cascais na modalidade, afirmando Cascais como grande destino do hóquei em patins a nível mundial e, acima de tudo, reforçando a já muito importante vocação turística municipal.

Recebidos como heróis, os atletas foram agraciados com um jantar comemorativo na sala da velha Petisqueira, situada no final da então Calçada da Assunção, que cruzou a festa comemorativa das vitórias desportivas com o pleito de Fé e devoção pelo Santíssimo Espírito Santo de Cascais, que nesse ano partilhou as honras de Maio com os atletas do Dramático de Cascais!

 

 

Joaquim da Galera Homenageado na Toponímia de Cascais

João Aníbal Henriques, 23.06.25

 

por João Aníbal Henriques

 

Numa iniciativa conjunta da Junta de Freguesia de Cascais e Estoril e do Vice-Presidente da Câmara municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, Cascais homenageou Joaquim da Piedade Aguiar, atribuindo o seu nome à rotunda situada junto ao lugar onde nasceu.  Ao fazê-lo, num preito de homenagem e gratidão, reconhecendo a entrega, a coragem, a determinação e o amor a Cascais que Joaquim da Piedade Aguiar, o mítico Joaquim da Galera bem conhecido por todos os cascalenses, devotou a esta nossa terra ao longo de toda a sua vida.

 

São infelizmente raros aqueles que com o dom da sua vida conseguiram dedicá-la, assim a 100%, à terra onde nasceram e onde sempre viveram, deixando atrás de si um rasto extraordinário que teve, tem e terá repercussões directas na Identidade Municipal e na qualidade de vida de milhares de cascalenses. E o Joaquim da Galera fê-lo!

 

 

 

 

 

Joaquim da Piedade Aguiar é uma das mais incontornáveis personagens do Cascais em que hoje vivemos. Nascido ali mesmo, na Rua Freitas Reis, no dia 24 de Fevereiro de 1938, cresceu sob a chancela de um grande dinamismo que atravessava longitudinalmente todo aquele extraordinário recanto de Cascais.

 

Empregado de comércio conhecido por todos os cascalenses, com aquele seu jeito inato que tornava especiais todos os clientes que pelas suas mãos passavam, depressa se impôs no panorama comercial de Cascais. No início da sua vida profissional esteve ligado à mítica Casa Tomaz e, desde cedo, marcou definitivamente a forma de bem receber e de servir quem procurava encontrar roupa e demais acessórios de vestuário.

 

Em 1974, com as oportunidades que se multiplicavam como resultado do caos revolucionário, Joaquim Aguiar identificou uma loja situada junto à Estação de Comboios com o potencial para se estabelecer por conta própria e para se afirmar no comércio de Cascais. Inicialmente numa parceria com Armindo Mestrinho, seu antigo colega na Casa Tomaz e, depois, associado à sua mulher, abriu ao público a Galera Modas que durante muitos anos foi referência incontornável da moda em Cascais e em Portugal. Juntando mais tarde a Boutique Glória ao seu já vasto negócio, depressa Joaquim Aguiar se transformou num motor da sociedade civil de Cascais, tendo participado e apoiado em quase todas as iniciativas e projectos que foram desenvolvidos no concelho até à actualidade.

 

O segredo de Joaquim da Piedade Aguiar, para além da sua natural apetência para o negócio e da imensa experiência acumulado durante os vinte e dois anos em que trabalhou na Casa Tomaz estava na sua inata habilidade estética e numa extraordinária força de vontade.

 

Nas suas lojas, sempre um passo à frente do seu tempo, toda a mercadoria exposta era apresentada de forma irrepreensível. O carácter inovador das suas montras, sempre motivo de especial atenção por parte dos seus conterrâneos que corriam a vê-las quando as inaugurava, tornavam a disposição dos seus artigos em autênticas exposições de arte. E isso, aliado ao facto de permanentemente correr o Mundo em busca das melhores colecções, dos criativos mais vanguardistas e dos materiais e marcas mais exclusivos, depressa tornaram a Galera no espaço onde chegavam clientes de todo o lado, cientes de que a maior parte do que de excelente ali se vendia não seria vendido em nenhum outro lado. João Aguiar, seu filho, transcreve no livro comemorativo do cinquentenário da Galera, um interessantíssimo apontamento publicado pelo Jornal da Costa do Sol logo em Outubro de 1974, poucos meses depois da abertura oficial da loja que tanto interesse havia despertado: “A princípio hesita-se em entrar. Todo o Mundo para diante da montra panorâmica, espreitando gulosamente o bem-apresentado recheio, onde de tudo se encontra: a última novidade em modas para todas as idades, das mais conceituadas marcas de pronto-a-vestir. Hesita-se porque – pela aparência – se suspeita de loja para bolsas recheadas! Loja onde se pague o luxo que, em verdade, não existe ali pois aquilo não é luxo, é tão-somente bom gosto, o savoir-faire. E de quem há muitos anos trabalha no ramo. As pessoas param, admiram, admiram-se e entram!”.

 

Joaquim da Galera, cujo nome se confunde com o pulsar constante da Vila de Cascais, rapidamente transformou o êxito que alcançou enquanto empresário numa verdadeira mola propulsora da vida da sua terra. Focado sempre no bem-comum, com a capacidade de identificar com rigor o mérito e as virtudes dos seus conterrâneos, ele multiplica a sua presença nas colectividades e associações de cascalenses, sempre com o seu carisma de organizador em grande destaque e a capacidade de liderar e garantir que todos dão igualmente o seu melhor para que Cascais preserve aquele seu charme que faz chegar longe a sua fama. Mas não se pense que Joaquim da Galera é o líder que assiste impávido ao trabalho dos outros, ordenando do alto do seu altar as directrizes que garantem o cumprimento dos seus projectos. Muito pelo contrário! Onde há projectos trabalhosos, que exigem entrega física e esforço, eis que é ele o primeiro a conduzir as suas carrinhas de carga, a carregar vasos de flores e a ajudar a organizar as mesas onde mais tarde também ele se vai sentar.

 

Da Sociedade Propaganda de Cascais, onde os concursos hípicos lhe exigem uma entrega sem par, até às comemorações oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, até à Associação Comercial de Cascais, o dia de Joaquim Aguiar parece ter a capacidade de multiplicar as suas horas, porque para onde quer que olhemos, se o mote é Cascais e se o ambiente é de alegria e festa, lá está ele a trabalhar. Igualmente nas associações de moradores da baixa de Cascais, na Sociedade Musical de Cascais, na Associação de Bombeiros e no magnífico Teatro Gil Vicente, é Joaquim da Galera que tem as ideias, quem as materializa e quem tem a arte de acicatar os ânimos e pôr toda a comunidade a trabalhar empenhadamente nestes eventos que dão forma à própria vida de Cascais.

 

Ao longo da sua longa vida, Joaquim da Piedade Aguiar foi presença constante em quase tudo o que se passava em Cascais. No Natal, quando os comerciantes rebuscavam ideias para materializar campanhas que motivassem as vendas e as visitas de forasteiros que por aqui deambulavam em busca dos produtos que só se encontravam em Cascais, era ele quem estava por detrás dos concursos de montras, do embelezamento dos canteiros públicos e sistematicamente era ele quem organizava as iluminações que enchiam as ruas da vila de animação e música, multiplicando os ecos juntos dos principais órgãos de comunicação social e, criando tracção, reforçavam a mística de Cascais. E no Carnaval, quem não se recorda dos magníficos e muito animados corsos que ligavam Cascais ao Estoril e que exigiam meses e mais meses de preparação e trabalho? Está visto que, neste grande evento que juntava milhares de visitantes ao longo de todo o percurso, era quase sempre o carro alegórico da Galera Modas aquele que mais curiosidade despertava, não só pelo cuidado na sua preparação, como pela animação que o Joaquim da Galera nele colocava! À noite, quando o cansaço tomava conta dos foliões, não era raro ouvir-se ao longe a música e as gargalhadas de grupos que percorriam a vila reforçando a animação. E quase sempre, como o sabem todos os cascalenses, era o Joaquim da Galera quem lá estava mascarado e sempre disposto a pregar partidas que se tornaram míticas e que geraram histórias e memórias que passaram a fazer parte das Histórias de Cascais!

 

Dos muitos projectos e organizações de que fez parte, houve um que transcendeu todos os demais pelas repercussões que teve na vida de Cascais. Em 1993, em conjunto com as mais importantes personalidades que lideravam a designada Sociedade Civil de Cascais, esteve o Joaquim da Galera à frente da secção de comércio e animação cultural da recém-criada Fundação Cascais. Foi um trabalho duro aquele que foi feito naquela instituição, lutando permanentemente pela sua independências perante interesses políticos e partidários, e tendo como mote unicamente o bem comum dos cascalenses. Dizia-se que era uma utopia inalcançável a Fundação Cascais. Mas em conjunto com Isabel Olavo, António Aguiar, Luís Athayde, Pedro Canelas, Pedro Luís Cardoso, Carlos Olavo, João de Castro, Vieira da Fonseca, João Coelho Pinto, Jorge Marques, Pedro Garcia e tantos outros, lá esteve Joaquim Aguiar como fundador e administrador da Fundação Cascais garantindo que a instituição tinha as condições necessárias para cumprir os seus muitos desideratos.

 

 

 

 

 

A sede da instituição, instalada numa sala dentro da sede da Sociedade Propaganda, que ele próprio preparou para ali instalar a fundação, transformou-se num cadinho de movimento e animação, com discussões acaloradas sobre o futuro comum da terra magnífica que era o Cascais de então. E logo naquele primeiro ano, durante a campanha para as eleições autárquicas, pela sede da Fundação Cascais passaram todos os candidatos de todos os partidos que, num registo de respeito comum pelas opiniões alheias, vieram dizer aos Cascalenses ao que vinham e o que traziam para oferecer à nossa terra.

O trabalho preparatório, feito com a ajuda de imensos cooperantes que voluntariamente se reuniam aquele conjunto de homens-bons do concelho, foi feito com levantamentos sistemáticos de informação em cada uma das áreas prioritárias de intervenção, que eram posteriormente trabalhadas em conjunto em reuniões plenárias e das quais resultaram projectos de intervenção que no campo alteraram radicalmente o futuro de Cascais. Sempre com presença activa de Joaquim Aguiar, vale a pena lembrar os concursos de arte, os concursos de montras, os torneios de futebol juvenil, o levantamento exaustivo do património histórico de todo o concelho de Cascais, os estudos sobre alcoolismo juvenil, a associação de apoio e desafio à SIDA, as peças de teatro com fins beneméritos, o apoio ao trabalho feito pela Irmã Elvira no Bairro do Fim-do-Mundo, o seminário sobre turismo e políticas de promoção internacional de Cascais que deram forma a novas estratégias de captação de visitantes que vieram consolidar a vocação turística municipal. E nas edições, o livro sobre a História da Paróquia do Estoril, a publicação do levantamento do património, o livro sobre o Plano Director Municipal, as revistas sectoriais sobre a realidade de Cascais, o livro sobre Urbanismo & Comércio e tantas outras publicações que ainda hoje continuam a ser referência inultrapassável para quem pretende estudar a realidade municipal de Cascais. E, porventura o mais importante de todos os trabalhos desenvolvidos pela Fundação Cascais e no qual Joaquim da Piedade Aguiar foi peça-angular na sua concretização: o grande estudo sobre saúde que culminou com uma mega-reunião no Teatro Gil Vicente onde estiveram em aberta discussão os profissionais de saúde, os autarcas de Cascais, os representantes da sociedade civil e do turismo e ainda o então Ministro da Saúde. Desse trabalho, imenso e aparentemente inconcretizável, resultou a publicação do livro “Tratar da Saúde de Cascais”, com um conjunto de propostas que tornou possível a construção do novo hospital de Cascais e a recuperação da totalidade das estruturas de saúde primárias em todas as freguesias do concelho.

Foi também obra em que ele se empenhou e que teve repercussões drásticas na vida de Cascais e dos Cascalenses com um rasto que se prolonga ao longo dos anos e que se repercute ao longo de muitas gerações de Cascalenses.

No boletim que publicou durante vários anos para promover a sua Galera Modas, e que surge transcrito na obra atrás mencionada, diz-se no primeiro número datado de 1975 que o lema de Joaquim da Piedade Aguiar assentava em três palavras fundamentais: Vontade, Trabalho e Ousadia. E serão porventura estas as palavras que melhor descrevem quem é Joaquim da Galera, e que explicam o impacto que ele tem junto dos seus conterrâneos.

A excelência do Joaquim da Galera e a entrega de vida a Cascais só vale a pena se for reconhecida por todos. Até porque Cascais seria uma terra diferente, para pior, se não fosse a vida dele!

 

Fotografias @ Junta de Freguesia de Cascais e Estoril – Susana Meireles

 

Comércio de Cascais – Encerrou a Agência Vitória de João Cabral da Silva no Largo Camões

João Aníbal Henriques, 31.03.25

 

por João Aníbal Henriques

Quando a Agência Vitória, a primeira imobiliária de Cascais, abriu portas, no já longínquo ano de 1956, já o edifício onde esteve instalada, no Largo Camões, estava desde há muito ligado à Família Cabral da Silva.

Adquirido no início dos anos 20 por João Cabral da Silva (1905-1966), o edifício setecentista albergou a antiga ourivesaria da família, que ocupava o piso térreo, tendo no primeiro andar, em regime de aluguer, uma sucursal da mítica Pastelaria Garrett.

 


A construção do edifício da Agência Vitória em 1956
 

João Cabral da Silva, nascido na Gândara do Além, em Carvide, Monte Real, veio para Cascais com cinco anos, por ter ficado órfão de forma inesperada. Criado por um tio paterno, o mítico Cabral “o Velho” que possuía estabelecimento comercial na Travessa Afonso Sanches, e que Pedro Falcão eternizou na sua obra memorial “Cascais Menino”, fez toda a sua vida na vila de Cascais, em conjunto com dois primos-direitos que o tratavam como irmão e com quem desenvolveu as naturais apetências comerciais que todos possuíam.

 

 
João Cabral da Silva e sua Mulher D. Celestina Moreira Cabral da Silva 

 

No início da Rua Direita, virada para o mesmo Largo Camões, João Cabral fundou a “Papelaria Cabral”, através da qual se tornou representante oficial das mais importantes marcas de canetas e de perfumes, ao mesmo tempo que, dando azo ao seu espírito empreendedor, inaugurou no primeiro piso do imóvel a primeira biblioteca pública de Cascais. Mais tarde, adquirindo o imóvel do Século XVII que existia na Rua Regimento Dezanove, ali instalou a sua primeira ourivesaria, vendendo e comprando outro, prata, pedras preciosas e relógios, numa paixão que se estendeu durante muitas décadas e que o filho herdou.

João Cabral da Silva foi ainda sócio fundador da Associação Comercial de Cascais e, dentro da estrutura da Igreja Católica, foi um dos principais impulsionadores e promotores das procissões e actos devocionais que aconteciam na vila. Para tal contribuiu de forma decisiva o facto de ter estado com a sua avó Guilhermina Cabral da Silva na Cova da iria, em Fátima, no dia 13 de Outubro de 1917, tendo assistido no próprio local ao “Milagre do Sol”. Esse evento, que o marcou de forma profunda e eterna, foi a razão principal da sua profunda Fé e devoção a Nossa Senhora de Fátima a quem dedicou inclusivamente a sua capela privativa, situada na casa “Serradinho da Eira”, na aldeia da Charneca. Através da Igreja, e sempre resguardado no recato que considerava essencial para que a caridade não se transformasse num instrumento de promoção social, apoiou discretamente dezenas de famílias pobres de Cascais, a quem assegurava a dignidade que defendia para toda a gente.

 

 João Cabral da Silva na Janela do 1º Andar da Tabacaria Cabral

 

Falecido na sua casa da Rua Direita no dia 13 de junho de 1966, o seu trabalho foi continuado pelo filho, João Moreira Cabral da Silva (1935-2024), que dirigiu a Agência Vitória desde o dia da sua inauguração e até ao dia da sua morte.

Casado com Maria Fernanda Veiga Henriques Cabral da Silva (1936-2023) e sem descendência, João Cabral da Silva foi um dos mais inovadores empresários do sector imobiliário. Empreendedor e visionário, foi capaz de transformar o legado do seu pai numa das mais prósperas casas comerciais da vila, para onde convergiam clientes provindos das mais variadas partes do mundo e que ali procuravam as casas onde viriam a morar.

 

 O Casal Maria Fernanda e João Cabral da Silva na Agência Vitória em 2023

 

A Agência Vitória, reconhecida internacionalmente pelos seus bons serviços e pela seriedade do seu trabalho, serviu algumas das mais proeminentes figuras da vida política, económica e cultural da Europa de meados do Século XX, chegando a ter uma carteira com mais de 500 imóveis disponíveis e perto de mil clientes (entre proprietários e inquilinos), geridos por Cabral da Silva que, com a sua mulher, liderava uma equipa com cerca de 20 colaboradores.

Os arrendamentos temporários, sobretudo durante o período estival, foram um dois pilares que sustentou o desenvolvimento e a afirmação do Turismo de Cascais durante várias décadas. E ao nível das vendas e dos arrendamentos de longa duração, inovou com a oferta de contratos relativos a imóveis completamente mobilados, que eram nessa altura um filão raro e muito difícil de encontrar em Portugal. Do seu portfolio faziam ainda parte uma parte substancial da oferta de imóveis comerciais na vila e no concelho de Cascais, sector que se afigurou de primeira importância para a consolidação da vocação turística municipal.

 

 
João Cabral da Silva e Manuela Araújo na Agência Vitória em 1956
 

Erudito e conservador, preservando os mesmos hábitos e costumes que haviam sido desenvolvidos durante a vida do pai, João Cabral da Silva foi figura marcante e incontornável do Cascais do Século XX. Durante e após o processo revolucionário, em 1974, manteve intocados os valores que sempre defendeu, preferindo pagar o preço dos seus princípios do que vergar-se à novidade que exigia dele posicionamentos mais modernos e liberalizantes. E até final do século, numa luta permanente da qual nunca pediu tréguas, conseguiu manter vivo o seu negócio e encontrar um registo de trabalho assente nesses valores de seriedade que permitiram à Agência Vitória manter a suas portas abertas e preservar uma parte substancial da sua carteiras de clientes, mesmo quando por toda a vila se multiplicavam os concorrentes que surgiam no mercado com  ofertas melhor adaptadas aos novos tempos que iam chegando.  

 
A Agência Vitória em pleno funcionamento nos anos 70 do Século XX

 

Já na sua velhice, debilitado por uma saúde frágil, manteve sempre abertas as portas da Agência Vitória, onde trabalhava diariamente até à véspera do seu falecimento na mesma casa da rua direita onde tinha nascido há 89 anos.

A Agência Vitória laborou ainda até final do ano, tendo encerrado definitivamente as suas portas no dia 30 de Setembro de 2024. Com o seu encerramento, fecha-se um ciclo longo e próspero do comércio de rua em Cascais, acompanhado infelizmente pelo igual encerramento da mítica Drogaria Costa, a Pastelaria Bijou, a Galera Modas, o Faraó e muitos outros estabelecimentos comerciais que durante muitas décadas ajudaram a definir o que era a Vila de Cascais.

A Agência Vitória no dia em que comemorava o seu 40º Aniversário em 1996

 

Ficam as memórias perenes e inultrapassáveis destes negócios históricos e, sobretudo, a lembrança das vidas dos empresários que lhes deram ensejo e forma. A todos eles se dedicam as palavras de gratidão pela forma como com as suas vidas ajudaram a fazer desta vila uma das mais extraordinárias terras de Portugal.

 

A Escravatura em Cascais

João Aníbal Henriques, 02.09.24

 

por João Aníbal Henriques

Por incrível que pareça, em 1514, quando Dom Manuel I renovou o antigo Foral de Cascais, a escravatura era um exercício comercial comum na nossa vila. 

De facto, numa das posturas desse documento diz-se taxativamente que quem vendesse um escravo ou uma escrava em Cascais teria de pagar um imposto de 13 Reais e meio! E que as escravas que fossem mães de crianças que ainda mamassem não veriam agravadas as suas taxas por esse efeito.

Uma realidade cruel que caracterizou a nossa terra e o resto do mundo mas que felizmente já está muito distante! Pelo menos por cá e por enquanto…

O "Arreda" no Verão de Cascais

João Aníbal Henriques, 23.08.24
 

por João Aníbal Henriques

Nos primórdios do automobilismo em Portugal, uma das primeiras e mais importantes figuras e circular pelos caminhos de Cascais no seu extraordinário automóvel foi o Infante Dom Afonso de Bragança – o Arreda -, irmão mais novo do Rei Dom Carlos. O príncipe descia diariamente a Avenida Valbom em alta velocidade de forma a tentar que o automóvel ganhasse balanço suficiente para subir a Alfarrobeira sem parar... E, enquanto acelerava o seu bólide, gritava em plenos pulmões “Arreda! Arreda!” tentando afastar do caminho os peões que por ali andavam. Foi assim em Cascais que ele ganhou a alcunha de “O Arreda” que o acompanhou até ao fim dos seus dias e que ainda hoje o caracteriza nos livros de História!

Quando era Preciso Passaporte para Entrar em Cascais

João Aníbal Henriques, 08.08.24
 
 

por João Aníbal Henriques

Um dos muitos problemas que afectaram as povoações destruídas pelo grande terramoto de 1755 foi o que nessa altura se chamava “vadiagem”. Os sem-abrigo, impossibilitados de recuperar as habitações perdidas durante o cataclismo, deambulavam pelas ruas mendigando e arrastando a desgraça que sobre eles se tinha abatido. O problema era de tal forma grave que no 25 de Junho de 1760 foi publicada uma lei que obrigava os cidadãos que pretendiam viajar entre concelhos a levar consigo um “passa-porte” autorizado. Em Cascais, a exigência do dito “passa-porte” municipal vigorou até 1825 e a sua emissão por parte da câmara exigia que os que o requeriam apresentassem testemunhas e fiadores!

Rei Dom Luís I - A Última Vez em Cascais

João Aníbal Henriques, 05.08.24

CAM1219.jpg

por João Aníbal Henriques

No dia 31 de Julho de 1889, há 135 anos, o Rei Dom Luís I chegou pela última vez a Cascais. A conselho dos médicos, que conheciam a extrema gravidade da sua saúde e o seu estado terminal, instalou-se no Palácio Real da Cidadela, de forma a que os seus últimos dias fossem passados a contemplar a sua Baía de Cascais. Para tal, o quarto foi mudado para outro compartimento de forma a colocar a cama junto à janela que tinha aquela vista privilegiada. Expirou serena e tranquilamente no dia 19 de Outubro de 1889 com o olhar perdido nas águas maravilhosas do mar que tanto amava. Sempre em Cascais.

CAM0217.jpg

bobone_quarto.jpg

(o quarto privado do Rei Dom Luís I no Palácio Real da Cidadela de Cascais)

O Mito do Pelourinho de Cascais em 24 de Julho de 1833

João Aníbal Henriques, 24.07.24
 
 

por João Aníbal Henriques

Diz a voz popular, repetida incansavelmente há muitas gerações, que o Pelourinho de Cascais está situado em frente à lota, com vista privilegiada sobre a nossa extraordinária baía.

Mas não é verdade. O Pelourinho Medieval de Cascais, que a documentação atesta ter existido junto à ponte que ligava as duas margens da Ribeira da Vinhas, terá sido completamente destruído pelo grande terramoto de 1755.

O padrão colocado junto à baía, a que tantos aludem como sendo o dito pelourinho, é um marco comemorativo de um dos mais sanguinários e destruidores momentos da História de Portugal: a luta fratricida entre Dom Pedro e Dom Miguel e a mortífera Guerra Civil que opôs liberais a absolutistas depois da morte de Dom João VI.

No dia 24 de Julho de 1833, liderando um exército formado com o apoio da Coroa Inglesa, que tinha vastíssimos interesses na independência de Portugal e no estabelecimento de um regime liberal que satisfizesse as suas necessidades no controle das rotas comerciais com a Ásia, com África e, sobretudo, com o Brasil, entra em Lisboa o Duque da Terceira, desferindo sobre os partidários do Rei Dom Miguel I um duro golpe que pôs fim à Guerra Civil.

Dom Pedro IV, primeiro imperador do Brasil e mítico autor do célebre Grito do Ipiranga, que tornou a antiga colónia portuguesa num país independente, decide abdicar da Coroa Portuguesa na pessoa da sua filha mais velha, assumindo a liderança da Casa de Bragança e regressando a Lisboa como Regente do Reino de Portugal, deixando o seu filho Dom Pedro II como Imperador do Brasil.

A entrada triunfal da Rainha Dona Maria II em Lisboa, depois do êxito de 24 de Julho de 1833, marca o início de um novo período da vida política de Portugal, uma vez que a jovem rainha, que passara uma parte importante da sua infância em Inglaterra, mantém uma ligação de profunda afeição e amizade com a futura Rainha Vitória, fortalecendo assim uma aliança que ainda hoje tem consequências diversas na política externa portuguesa e nos equilíbrios políticos de Portugal nesta Europa escalavrada em que vivemos.

O marco ao qual os Cascalenses chamam erradamente “pelourinho”, é assim um monumento que festeja a vitória liberal e a subida ao trono da Rainha Dona Maria II de Portugal!

As Obras de Construção do Largo Camões em Cascais

João Aníbal Henriques, 13.05.24
 

 

Até ao dia 10 de Junho de 1980 o actual Largo Luís de Camões, em plano coração da Vila de Cascais, era um sórdido e mal preparado parque de estacionamento a céu aberto. O equipamento, por sua vez, havia substituído com carácter provisório este espaço onde anteriormente existiam casas antigas, prolongando o eixo da Rua Regimento 19 de Infantaria, e que foram demolidas de forma a abrir o espaço e a criar uma praça para onde se pretendia fazer convergir as principais dinâmicas comerciais da velha vila piscatória. As obras em curso, promovidas pelo saudoso Dr. Carlos Rosa, que presidia à Câmara Municipal depois das eleições que foram ganhas pela Aliança Democrática, tinham em vista a definição de uma linha de modernidade que promovesse o comércio tradicional e permitisse a reafirmação de Cascais como destino de excelência no seio da recém-criada Área Metropolitana de Lisboa.