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Padre Raúl Cassis Cardoso (1928-2019)

por cascalenses, em 15.01.19

 

 

Figura marcantíssima, interveniente, controversa e sempre presente na História recente de Cascais, faleceu hoje, aos 90 anos de idade, o Padre Raúl Cassis Cardoso.

 

Nascido no Distrito de Santarém, o Padre Raul foi ordenado Sacerdote em 1952 pelo então Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira e, depois de um périplo pelas Paróquias de Carregueiros, Pedreira, Calhandriz e Alverca do Ribatejo, assumiu a liderança da Paróquia de Cascais em 1970, ainda na juventude dos seus 41 anos. Durante os que 4 décadas em que esteve em Cascais, o Padre Raúl foi responsável pela dinamização generalizada da Paróquia local, tendo sido o motor principal de muitos dos movimentos paroquiais que deram forma ao Cascais que hoje temos.

 

 Activo e sempre interveniente, nem sempre de trato fácil quando em causa estavam as suas mais profundas convicções, foi líder espiritual de uma comunidade que nele se reviu durante muitos anos e cujo exemplo motivou as vidas de quase todos aqueles que com eles tiveram a sorte de se cruzar. Quando em 2008 deixou a liderança da Paróquia de Cascais, e se retirou para aqueles que seriam os seus últimos anos de vida, o Padre Raúl manteve-se permanentemente bem vivo na memória de milhares de Cascalenses que recordavam com saudade a sua dedicação à Igreja e à comunidade local. 

 

Ainda há pouco tempo, quando a atribuição de um topónimo com o nome de um dos seus antecessores a um arruamento na Freguesia de Cascais o fez regressar à terra onde trabalhou durante tantos anos, foi com amizade que a comunidade local o recebeu, enchendo com o carinho de um familiar muito próximo os ânimos daqueles que tiveram a oportunidade de com ele conviver.

 

O Padre Raúl Cassis Cardoso marcou Cascais, a Paróquia que tão bem dirigiu e a vida de centenas de crianças (hoje adultos) que dele receberam as primeiras orientações espirituais. Que descanse em paz como merece. Cascais não o vai esquecer.

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publicado às 00:54

Dom Diogo de Menezes – Heróis & Traidores em Cascais

por cascalenses, em 20.03.17

 

 
 
Entre 1580 e 1640, Portugal atravessou um dos mais negros períodos da sua História e Cascais desempenhou um papel essencial neste triste episódio. A traição do então Senhor de Cascais, que num acto hediondo vendeu a Nossa Terra à Coroa Espanhola, contrastou com a coragem heróica com a qual D. Diogo de Menezes defendeu Portugal. Pagou muito caro pela sua lealdade e foi indignamente executado na Cidadela de Cascais em 1580, deixando atrás de si uma lenda de glória que o tempo não vai conseguir destruir…
 
por João Aníbal Henriques
 
A perda da independência nacional, em 1580, foi um dos episódios mais negros da História de Portugal. Fruto da imberbe actuação do Rei Dom Sebastião no Norte de África, e dos muitos interesses que desde sempre corporizaram o poder político Português, o país mergulhou na sua maior crise de sempre, entregando o trono de Portugal ao usurpador Espanhol.
 
Apesar do então Senhor de Cascais ser traiçoeiramente partidário das pretensões de Filipe II de Espanha, o povo de Cascais não hesitou em apoiar a causa de Dom António, Prior do Crato, participando activamente na sua aclamação como Rei de Portugal. Até à implantação da república, em 1910, manteve-se na toponímia Cascalense uma homenagem sublime ao monarca Português, consubstanciada numa “Rua D. António I”, representando simbolicamente o leal apoio de Cascais à Causa Nacional.
 
 
 
 
Nessa altura crítica, quando o Rei Dom António escolhia os seus mais fiéis e bravos apoiantes para defender Portugal do avanço das tropas Espanholas, D. Diogo de Menezes, que tinha sido Governador de Ormuz e Vice-Rei da Índia, foi nomeado General e colocado como Comandante da Fortaleza de Cascais.
 
Soldado experiente e bem preparado, D. Diogo de Menezes organizou as suas parcas forças de forma a assegura a inexpugnabilidade da fortificação Cascalense perante o ataque Espanhol. E, quando no dia 27 de Julho, o Duque d’Alba desembarca em Sesimbra, Cascais estava a postos para defender Portugal.
 
Mas o Senhor de Cascais, acompanhado da sua cáfila de meia-dúzia de traidores, empenha-se em entregar aos invasores informações detalhadas sobre a defesa da terra, permitindo ao Duque d’Alba desembarcar inesperadamente na Lage do Ramil, junto ao Farol da Guia. E, não satisfeito com a sua traição, organiza a corja que o acompanha de forma a conseguir abrir as portas da fortaleza, onde D. Diogo de Menezes defendia activamente a Causa Portuguesa.
 
Derrotado pela diferença abissal de forças entre o seu pequeno contingente Cascalense e a enormidade do exército Espanhol, Diogo de Menezes é capturado depois de uma batalha renhida e terrível e invoca as leis da honra e da cavalaria para, em conformidade com a sua alta posição hierárquica dentro das tropas do Rei Dom António, o deixarem regressar a Lisboa para ajudar o monarca. Mas o invasor Espanhol, num acto que subverte a própria honra militar, manda executar o herói Português na própria parada da fortaleza…
 
 
 
 
Conta o historiador espanhol António de Herrera  y Tordesillas que “eram quatro da tarde e estava a praça apinhada de piques e arcabuzes alemães, e no meio dela via-se o cadafalso, onde o sangue nobre ia sujar os brasões de um dos maiores de Espanha, fazendo-o expiar as nódoas estampadas pela venialidade de haver esquecido quem era e o que devia aos seus antepassados e ao reino de Espanha”…
 
E na mesma linha, sublinhando a dignidade heróica de D. Diogo de Menezes na defesa corajosa da liberdade de Portugal, Ferreira de Andrade não hesita em indicar a traição do Senhor de Cascais como um dos actos mais ignóbeis da nossa História, em linha com a falta de dignidade e de honra que caracterizou a decisão brutal do Duque d’Alba: “Assim morreu nesta vila de Cascais um dos mais nobres e honrados fidalgos de então, pelo crime horrendo de ser Português. Uma mancha de sangue marcaria para sempre, como um estigma de ignomínia, os gloriosos feitos do grande general de Filipe II”.
 
D. Diogo de Menezes, heróico defensor da Portugalidade, morreu em Cascais a lutar ao lado dos Cascalenses pela defesa da independência de Portugal.  A sua memória, parte maior da Memória de Cidadania desta Nossa Terra, é pilar estrutural da Identidade Municipal.
 
Promover a memória dos seus feitos e a coragem que demonstrou ter na defesa de Portugal, é assim obrigação de Cascais, onde o seu sangue jorrou perante o desespero dos Cascalenses de então. Porque dos ecos da sua grandeza se retiram lições fundamentais para preparar o futuro das próximas gerações…

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publicado às 13:20

Maravilhas de Cascais - O Trilho Saloio da Ribeira das Vinhas

por cascalenses, em 07.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Está de parabéns a Câmara Municipal de Cascais pela excelente intervenção realizada no primeiro troço da Ribeira das Vinhas, entre as traseiras do Mercado Municipal e a Quinta do Casal Ventoso. A recuperação minimalista da antiga serventia saloia, praticamente sem interferências ao nível dos equilíbrios ecológicos do espaço, recupera a ancestral ligação entre Cascais e a suas origens rurais, promovendo a memória colectiva e a identidade municipal.
 
Respondendo a um desejo demasiado antigo expresso pelos Cascalenses no sentido de se proceder à recuperação da antiga serventia saloia da Ribeira das Vinhas, em Cascais, a edilidade requalificou recentemente o primeiro troço do velho trilho, entre a vila e o acesso à Pampilheira.
 
A intervenção, minimalista tal como advogavam os que defendiam o projecto (Ver AQUI), permite o usufruto de uma das mais impactantes paisagens de Cascais, descobrindo um recanto essencial para se conhecer e perceber a História Rural Cascalense (Ver AQUI).
 
Antigo trilho que ligava a vila às aldeias saloias do Cobre, Pampilheira, Murches, Birre e Zambujeiro, a Ribeira das Vinhas foi utilizada desde tempos imemoriais como espaço de troca entre as comunidades que subsistiam da agricultura e que se situavam na zona mais interior do Concelho, e as comunidades piscatórias e cosmopolitas do litoral.  Era através deste caminho de pé-posto, normalmente atravessado pelos grandes rebanhos de ovelhas que noutros tempos marcavam o panorama económico de Cascais, que a vila se abastecia dos bens mais essenciais, como o leite, o pão, a farinha, o queijo e as hortaliças. E era também através dele que, em burricadas que ainda perduram na memória dos mais velhos, as lavadeiras transportavam a roupa que lavavam nas suas aldeias.
 
 
 
 
Para além da imensa riqueza ecológica, bem visível através das muitas espécies de animais que sobrevivem naquele espaço, a Ribeira das Vinhas apresenta ainda um conjunto importantíssimo de património histórico, ao qual se juntam os complexos de grutas e uma paisagem de extraordinária beleza.
 
A intervenção agora concretizada pela Autarquia é, assim, um importante contributo para o fomento da cidadania em Cascais, com possibilidade de rapidamente se transformar num instrumento pedagógico e educativo para as escolas onde estudam as novas gerações de Cascalenses.
 
Sugestões para complementar e melhorar a intervenção agora concretizada:
 
 
 
 
PROLONGAMENTO DA INTERVENÇÃO
 
Sendo excelente, a recuperação agora concluída cinge-se aos primeiros metros da antiga serventia saloia. É essencial que a mesma se prolongue acompanhando o leito da ribeira, numa segunda fase até Alvide e à Quinta das Patinhas e, depois de se ligar ao Parque das Penhas da Marmeleira, atravessando o Vale do Zambujeiro e a Quinta do Pisão em direcção à Barragem do Rio da Mula.
 
 
 
 
RECUPERAÇÃO URGENTE DA ENTRADA
 
O troço existente entre as traseiras do mercado (que agora foi designado como Rua Padre Moysés da Silva) e o início do caminho, está num estado deplorável de abandono. Sem controlo de tráfego e coberto de viaturas por ali estacionam sem regras nem cuidado, é um imenso lamaçal quando chove e um mar de pó durante o tempo seco, impedindo o acesso e o usufruto do espaço recuperado.
 
 
 
 
MOBILIDADE COMUNITÁRIA
 

 

Permitindo uma ligação muito simples e rápida do centro de Cascais aos principais bairros da periferia, é urgente que a intervenção seja complementada com as ligações aos trilhos de Alvide, do Bairro de São José e do Outeiro da Vela. Para além de muitos simples de concretizar, porque os trilhos já existem há muitos séculos, devolverão às comunidades locais um meio acrescido de mobilidade e de acesso ao centro.  

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publicado às 10:33

Manuel Possolo e as Memórias Profundas de Outros Carnavais em Cascais

por cascalenses, em 23.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando Manuel Possolo nasceu, em 1910, Cascais enfrentava um dos maiores desafios da sua história. A implantação da república, pondo fim à relação afectiva que a vila possuía com a Família Real, condicionou o desenvolvimento da localidade, exigindo imaginação e uma imensa capacidade de adaptação para que os novos tempos mantivessem incólume o registo de qualidade que até aí tinha sido apanágio de Cascais.
 
Mas a Nossa Terra esteve à altura do desafio. Marcando de forma extraordinária os novos tempos de Portugal, Cascais foi capaz de se reinventar, recriando uma nova geração de Cascalenses que souberam honrar a herança dos antepassados, ousando singrar um caminho novo ao qual dedicaram a sua vida e que foi essencial na definição da nossa nova identidade.
 
José Florindo de Oliveira, Boaventura Ferraz, Armando Vilar, Fausto Figueiredo e Abreu Nunes foram alguns dos vultos maiores desta época grandiosa. A vocação turística de Cascais, que a marca “Estoril” dignamente representou, assentava no carácter único desta terra especial e na dinâmica empresarial dos seus primeiros promotores. Mas entre eles, com uma capacidade visionária e um espírito empreendedor fora do usual, estava alguém que marcou definitivamente o futuro municipal…
 
Manuel Possolo foi um dos mais activos membros da sociedade civil Cascalense. Enquanto director da Sociedade Propaganda de Cascais, foi um dos fundadores do Clube Naval de Cascais e um dos entusiastas que deu corpo às inúmeras iniciativas de propaganda da vila, nomeadamente os concursos de montras, os bailes de angariação de fundos para construção do hospital e da praça de toiros e os corsos de Carnaval.
 
 
 
 
A sua paixão pelos cavalos, que começou com a transformação do fosso da Cidadela numa espécie de picadeiro que servia para treino hípico, culminou com a realização de muitas dezenas de concursos de saltos que transformaram os Estoris numa das referências hípicas mundiais.
 
Foi ele quem viabilizou a cedência de uns terrenos que pertenciam ao Visconde dos Olivais, para ali se construir um moderno e magnífico hipódromo onde decorreu, em 1937, o primeiro grande concurso hípico de Cascais. A qualidade do seu trabalho foi reconhecida em 1961, quando o Presidente da República o agraciou com a Medalha de Mérito Desportivo, assumindo a importância que teve na promoção internacional de Cascais através da fama de excelência e do prestígio que os concursos hípicos que organizava traziam para a Costa do Estoril.
 
Quase esquecido da generalidade dos Cascalenses, que recentemente viram uma parte substancial dos terrenos do hipódromo transformados num inusitado parque de estacionamento (!), a memória de Manuel Possolo perdura singelamente na designação oficial do equipamento que criou: “Hipódromo Municipal Manuel Possolo”.
 
Faleceu no Carnaval de 1979 e a sua memória cruza-se com a Memória Colectiva e com a própria Identidade Municipal.
 
A bem de Cascais!

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publicado às 13:39

A Areia e a Capela de São Brás em Cascais

por cascalenses, em 09.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando em 1997, em pleno processo de preparação do Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, publiquei um trabalho sobre a história da ruralidade da Freguesia de Cascais (*), a povoação da Areia era ainda palco privilegiado das ancestrais tradições rurais que deram forma ao município de Cascais.
 
No Largo de São Brás, expressão máxima do sentido comunitário da localidade, congregavam-se os elementos principais de uma existência na qual a ligação aos trabalhos da terra e uma dependência extrema relativamente às agruras da natureza, se revezavam amiúde, representando o principal sustentáculo de um ideário comunitário comum que conduziu à arreigada identidade que a localidade ainda possui.
 
 
 
A Capela de São Brás, o chafariz e o lavadouro comunitário, partilham por ali o coração simbólico da Areia, dando forma a uma existência na qual a singeleza do quotidiano funciona como elemento motivador de uma forma de ser e de estar que fomenta o tecido social do local.
 
 
 
 
A Areia, de cujas origens pouco se conhece, apresenta um topónimo que deriva da proximidade à Praia do Guincho e a estrutura pobre dos seus solos. Mas, é também essa aparente fragilidade natural que, conjugando-se em processos dinâmicos de sobrevivência, vem determinar uma série de práticas que são vincadamente locais e extraordinariamente únicas no contexto da existência rural de Cascais e de Portugal.
 
Do período romano, o povoado dos Casais Velhos, com a milenar fábrica de púrpura e a ligação directa à cabeça do Império, representa a expressão máxima da sua monumentalidade, traduzida em algo que, apesar do abandono a que tem sido devotado ao longo dos últimos anos, é irrepetível e assume laivos de primeira linha no inventário do património Cascalense.
 
Mas a Capela de São Brás, situada em plano coração da Areia, é também ela eixo essencial na estruturação moderna da localidade, representando um papel catalisador no desenvolvimento da estrutura social que há-de definir o devir quotidiano naquele espaço.
 
Sem origem cronológica conhecida, a Capela de São Brás que hoje conhecemos será certamente o resultado de um processo de paulatino desenvolvimento. A sacralidade do local, provavelmente marcado por um antigo templo e/ou ermida que por lá tenha existido, foi necessariamente o ponto de partida de uma expressão cultual que gera em seu torno os elementos necessários à fixação humana. Em 1527, quando se realizou o primeiro recenseamento à população, a Areia tinha somente nove vizinhos, o que corresponde a pouco mais de duas dezenas de pessoas, que entre si partilhavam os parcos recursos que resultavam do trabalho da terra.
 
 
 
 
A pobreza material da população, cessada que estava a exploração riquíssima da produtiva fábrica de púrpura, está bem expressa na formulação urbanística da localidade e, sobretudo, no carácter chão da arquitectura desta sua capela. De traços simples e simbolicamente próxima dos valores muito regulares que sempre caracterizaram a existência local, a Capela de São Brás conjuga em si os principais elementos que nos ajudam a perceber e a conhecer a povoação.
 
A devoção a São Brás, o santo arménio que começa a sua vida adulta como médico e que abandona tudo o que tem e o seu dia-a-dia na cidade depois de ouvir o chamamento de Deus, é também ela ilustrativa do carácter longínquo que a Areia representou durante muitos anos, em linha com a opção do Santo por uma vida de eremita, devotado à interioridade e à oração, em comunhão profunda com a solidão da natureza. A singeleza da história, a mesma que caracteriza a Capela de São Brás e mesmo o devir quotidiano na localidade da Areia, dão nota desse desligar sentido das correntes que nos prendem permanentemente à clausura da materialidade, representando um ímpeto de libertação que é resultado da proximidade a Deus.
 
A Areia, na sua ligação a São Brás, representa assim a profundidade da entrega devocional de Cascais à causa do despojamento material, numa sentida e assumida opção pela simplicidade extrema.
 
As duas devoções que estão nos altares secundários deste templo, entregues a Nossa Senhora de Fátima e ao Sagrado Coração de Jesus, são também elas expressivas deste caminho, denotando uma continuidade na prática devocional que terá obrigatoriamente de assentar numa vivência comunitária solidamente assente num conjunto e valores simbólicos desenvolvidos ao longo de muitos anos.
 
Visitar a Areia e a Capela de São Brás, num exercício de libertação perante a opressão sensível do charme de Cascais e dos Estoris, é assim uma oportunidade para entender a perenidade desta escapatória axial na formulação mais profunda da comunidade e do património Cascalenses.
 
 

 

(*) HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.

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publicado às 10:43

A Lenda da Boca do Inferno

por cascalenses, em 07.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A dicotomia entre o mal e o bem, num jogo em que as memórias efectivas se misturam amiúde com as entoações próprias dos sonhos, assume especial importância na Boca do Inferno, em Cascais, um recanto encantado no qual se conjuga uma paisagem extraordinária com uma inesquecível história.
 
Diz a lenda que naquelas paragens, num castelo cujas memórias pétreas nunca chegaram a olhos humanos, vivia um gigante maligno que padecia do maior dos males que afectam a humanidade: o amor. Profundamente apaixonado por uma donzela maravilhosa que não o correspondia, resolveu tomar medidas drásticas e consumar o seu amor de forma subliminar. Montado no seu cavalo, atacou o palácio onde a donzela vivia com o seu pai e raptou-a levando-a para o seu castelo de Cascais.
 
 
 
 
A donzela, apaixonada por seu turno por um ilustre cavaleiro que há muito a cortejava, não cedeu às intenções do gigante. E este, para apaziguar o seu ímpeto, fechou-a no alto da maior torre do seu castelo, prendendo-a até que ela se convencesse da necessidade de claudicar ao amor que ele lhe queria dar.
 
Mas o noivo apaixonado, tomado da força que só o amor consegue despoletar, insinuou-se no castelo e conseguiu libertou a sua amada, fugindo dali numa cavalgada desenfreada no seu magnífico cavalo branco que quase parecia voar.
 
 
 
O gigante, quando deu conta da fuga da donzela ficou furioso. Com artes mágicas que só ele conhecia e os ímpetos malignos que a fúria imensa havia despertado, lançou uma praga sobre os fugitivos e sobre eles fez crescer uma enorme tempestade.
 
Apanhados pela intempérie nuns rochedos junto ao mar, o casal de apaixonados tudo fez para conseguir fugir da influência do seu maléfico perseguidor. Mas, provocando um sismo que partiu as arribas e fendeu o chão, o gigante fez abrir sob os seus pés um enorme buraco onde ambos caíram com o seu cavalo e onde desapareceram para sempre sem eixar rasto.
 
Estava aberta a porta para o inferno e esta jamais se voltaria a fechar…

 

 
 

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publicado às 11:36

Nossa Senhora da Guia em Cascais

por cascalenses, em 07.12.16

 

 
por João Aníbal Henriques
 
As inconsistências do mar, profundamente enraizadas nos arquétipos primordiais da vida dos Cascalenses, marcaram de forma muito evidente o devir histórico da comunidade. Os desafios enormes que o mar carrega, seja para pescadores ou seja para as suas famílias, congregam em si a necessidade de recriar formas alternativas de o entender, de o perceber e de o controlar.
 
Os mitos marítimos, quase sempre presos de forma onírica aos principais pesadelos que flagelaram o dia-a-dia de Cascais, são parte integrante da Identidade Municipal, neles se compondo os alicerces da sua vivência simbólica e sagrada.
 
 
 
 
Nossa Senhora da Guia, situada num promontório localizado à saída de Cascais em direcção ao Guincho, foi sempre um dos pilares da expressão de Fé dos Cascalenses. Venerada desde tempos ancestrais, numa dinâmica de culto que dava destaque principal à peregrinação anual que para ali trazia milhares de forasteiros oriundos das mais diversas partes do País, a imagem da Senhora a Guia resulta necessariamente da existência prévia do farol e do registo traiçoeiro que o mar impõe naquele recanto natural.
 
De facto, as mais antigas notas históricas referentes a este lugar mencionam a existência de um farol nos rochedos situados à entrada de Cascais. É crível, desta maneira, que pelo menos desde o início da epopeia marítima Portuguesa, tivesse existido neste sítio um farol que garantisse segurança àqueles que navegavam por aquelas perigosas águas. Assim, a designação da Senhora da Guia, ou seja, da imagem que foi encontrada no local onde se estava o farol com o mesmo nome, terá resultado da apropriação geográfica da figura e não, como as Memórias Paroquiais do Século VIII deixa subentendido, ao contrário.
 
De qualquer maneira, são várias as lendas acerca do surgimento desta ermida e do culto à Senhora da Guia que proliferam no imaginário de Cascais. As mais antigas, relacionam-se com as figuras de Nossa Senhora que foram encontradas nas águas de Cascais. Quase sempre interpretadas como sendo da Senhora da Graça, foram veneradas pelo seu carácter miraculoso, atestado por diversos acontecimentos que se foram sucedendo no burgo piscatório de Cascais.
 
 
 
 
Frei Agostinho de Santa Maria, na sua obra “Santuário Mariano”, publicada em 1770, refere expressamente a origem ancestral do culto a Nossa Senhora da Guia neste local. No entanto, associa-o de forma directa à relação existente entre uma nascente de água que terá existido no local onde hoje se encontra a ermida, estabelecendo assim uma relação entre os mais antigos cultos de fertilidade que proliferaram durante a Pré-História do actual território Cascalense e a devoção mariana posteriormente estabelecida no mesmo local. Num exercício de sapiência que subjaz dos seus conhecimentos no âmbito da geometria sagrada, vai mesmo ao ponto de interpretar os sinais das pedras que existiam no espaço da fonte, para com base neles estabelecer de forma criteriosa a natureza primordial do ritual Cascalense: “Ao pé da rocha que fica na Praia de Cascais está uma fonte; e é constante tradição entre as pessoas daquela vila que nela apareceu a Senhora da Guia. E ainda querem comprovar esta tradição com uma pedra da mesma fonte, na qual se vê uma pegada, que dizem ser de Nossa Senhora, que por tal ainda hoje é venerada e lhe chamam a pegada de Nossa Senhora. E juntamente se vê também na mesma pedra uma coroa esculpida; se foi pela natureza, para que também esta manifesta que ela é a Rainha do Céu e da Terra, ou feita artificialmente se não sabe dizer nada. Esta é a tradição”.
 
 
 
 
Embora de âmbito cronológico mais tardia, uma segunda lenda marca de forma assaz curiosa a relação entre Nossa Senhora da Guia e Cascais. Como refere Ferreira de Andrade na monografia que publicou aquando da comemoração do sexto centenário da elevação de Cascais à condição de vila independente de Sintra, o principal factor motivador do incremento do culto devocional à Virgem da Guia, depois de nele se ter integrado a romagem anual promovida pelos comerciantes de Lisboa a partir do Século XVII, foi uma história acontecida com o antigo cirurgião-mor do Regimento de Cascais, José Gomes de Cenas, que em criança terá sido raptado da casa de seus pais na Vila de Cascais. Não se sabendo o que lhe aconteceu, o seu desaparecimento causou pânico e estupefacção na vila, tendo levantado todo o povo na busca do menino. Passados alguns dias, quando a esperança de o encontrar vivo já não existia, alguém terá ouvido gritos que vinham das profundezas da arriba na zona da Guia, ali tendo encontrado, depois de lá chegarem vindos por mar, o menino são e salvo que desesperadamente tentava sair. Questionado sobre o que tinha acontecido e como tinha ido possível sobreviver sem comida nem água durante tanto tempo, o menino terá respondido que foi transportado para aquele buraco por umas bruxas de Cascais que para ali o levaram voando. E quando à alimentação, disse simplesmente que diariamente uma senhora muito bonita lhe levava sopinhas de cravos para ele comer. Retirado do buraco e levado para a pequena ermida da Senhora a Guia, então já ali existente, a criança terá olhado para a imagem de Nossa Senhora e terá dito aos pais que tinha sido aquela a senhora que o tinha ajudado a sobreviver!
 
 
 
 
A partir desse momento, e até ao desastre provocado pelo terramoto de 1755, a Senhora da Guia viu crescer de forma desmesurada a devoção, facto que se traduziu numa romagem anual, na mesma época das comemorações do Espírito-Santo Cascalense, que levava à Guia milhares de peregrinos que chegavam de Lisboa e de Sintra.
 
A romagem, organizada pela Irmandade de Nossa Senhora da Guia, criada por iniciativa dos vereadores da Câmara Municipal de Lisboa que, em 1522 assinaram o compromisso da irmandade, integrava plenamente o simbolismo associado aos milagres que o agiológio mariano consagrava. Serão certamente dessa época, construídos para dar resposta à demanda que o lugar gerava junto de gente vinda de muito longe e de diversas partes de Portugal, os cómodos da hospedaria que envolvia a ermida. Existentes já em 1758, quando as Memórias Paroquiais a referem expressamente, a Hospedaria de Nossa Senhora da Guia ainda hoje pode ser vista adossada a Nascente do templo
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As cantarias manuelinas das suas portas, bem como sepultura de António Ribeiro da Fonseca, com data de 1577, que existe no seu interior, denotam origem mais antiga, deixando antever as várias campanhas de obras, de remodelações e de reconstruções de que foi alvo ao longo dos séculos.
 
 
 
 
Em 1810, quando finalmente terminaram as obras de recuperação da ermida e do farol depois dos estragos causados pelo terramoto, foi colocada sobre a porta principal um painel com as armas reais e a data em questão, que complementa, em termos decorativos, os magníficos painéis de azulejos existentes no seu interior. A “Adoração dos Pastores” e a “Adoração dos Reis Magos”, de origem indeterminada mas certamente muito anterior àquela que consta na dita pedra armoriada, compõe o espólio interno da ermida, numa expressão rebuscada que contrastava com a singeleza do local.
 
Perdida a devoção a partir do início do Século XX, quando a secularização da vida nacional determinada em termos políticos a partir da implantação da república a isso obrigou, a Ermida de Nossa Senhora a Guia foi perdendo importância na definição das tradições Cascalenses.
 
Apesar de tudo, é local inultrapassável numa visita a Cascais, até porque ali se sente ainda o perfume agregador da Fé mariana na definição identitária municipal.

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publicado às 10:44

São José da Parede na Dinâmica Urbanística de Cascais

por cascalenses, em 06.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A gestão dos critérios urbanísticos numa determinada localidade, mais do que o resultado de uma prática projectada de antemão, é usualmente a consequência mais visível do devir político e comunitário dos seus habitantes.
 
Quando a comunidade é activa e pragmática no estabelecimento das prioridades que hão-de definir o seu espaço, temos como resultado um menor peso do poder político central e, como consequência, uma maior liberdade de critérios de construção e decoração. Quando a isso juntamos um afastamento geográfico relativamente ao poder decisor, aumenta ainda mais a autonomia comunitária e alarga-se o espectro de soluções que hão-de espelhar-se no cenário urbano que se cria em seu torno.
 
Um dos exemplos mais paradigmáticos desta situação, é o da Vila da Parede, no Concelho de Cascais, ou seja, uma localidade nascida no útero de periferia suburbana de Lisboa, marcada desde sempre pela negligência ao nível das instituições municipais e Nacionais, e profundamente constrangida pela necessidade de se auto-definir ao nível do seu carácter comunitário.
 
Nascida de forma enquadrável nos modelos evolutivos mediterrâneos, a Parede até no seu topónimo deixa antever uma necessidade de afirmação que resulta do processo histórico da sua concretização.
 
 
 
 
Muito embora só exista, em termos institucionais desde o início do século XX, a localidade da Parede, cabeça da antiga Freguesia, resulta teoricamente da evolução de uma existência que havia sido marcada pela aldeia de Cai-Água (hoje São Pedro do Estoril) e essa, por seu turno, marcada também pela existência de diversas comunidades pré-históricas que utilizaram o seu espaço. Em termos práticos, no entanto, e tal como o comprova o levantamento patrimonial Cascalense (ver HENRIQUES, João Aníbal, Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, Cascais, Fundação Cascais, 2000), não existem praticamente laços de união entre as duas realidades, uma vez que, a moderna Parede, de cariz republicano e revolucionário, e assumidamente a mais proletária de todas as localidades do concelho de Cascais, é uma realidade que resulta da chegada dos novos habitantes pré-industriais que para ali vão trazer um sentimento de suburbanidade que a antiga aldeia rural não conhecia. Os paredenses, hoje entendidos como parte integrante, a todos os níveis da vivência cascalense, foram, durante várias décadas, o resultado da existência de uma comunidade proletária em que o estabelecimento urbano se alicerçou nos princípios, nas orientações e nas motivações que anteriormente mencionámos.
 
Em termos físicos, com base na divisão dos terrenos que faziam parte das grandes quintas que o Comandante Nunes da mata ali adquiriu para mandar edificar, a preços módicos e acessíveis, uma nova povoação que correspondesse às necessidades efectivas da classe trabalhadora que não suportava habitar na cidade de Lisboa, onde os preços das acessibilidades eram pagos com valores que eles não podiam aguentar, a Parede do século XX conhece a auto-construção como forma eminente de se urbanizar. As velhas azenhas e moinhos, colocados estrategicamente para receberem sem encargos de maior os produtos agrícolas do interior do território, e para poderem enviar apara Lisboa as farinhas após terem sido manufacturadas, deixaram de fazer sentido num espaço onde todos eram iguais e onde todos sabiam fazer o mesmo. Os operários que se instalaram na Parede, oriundos de muitas partes do país, e observando o mesmo ritual quotidiano de utilização do comboio para chegar à capital, tornaram obsoleta a economia tradicional deste espaço, facto que obrigou a que se destruísse quase todo o parque habitacional antigo e tradicional, que hoje praticamente é impossível observar no interior da localidade da Parede, e o substituísse pelas novas casas de cariz operário e burguês, que seguiram quase à risca, as orientações apontadas por Leontidou.
 
 
 
 
Estas novas edificações, longe de seguirem os modelos desde sempre utilizados pela tradicionalidade local, impuseram-se através da diferença, fazendo apelo a formulações estéticas e decorativas que permitiam a utilização de muitas das bases culturais que traziam das suas terras de origem, e que eram sistematicamente adaptados à nova vivência de conjunto que aqui procuravam estabelecer. Vivendas como a do ‘Gato’, bastante próxima do centro da urbanidade paredense, são exemplos paradigmáticos da forma como a utilização decorativa de novas formulações, acaba por influir na capacidade de efectivarem, através do cunho artístico pessoal dos seus criadores, uma afirmação pessoal e comunitária da qual depende o próprio nascimento da povoação.
 
De facto, se nos ativermos às necessidades culturais da população, depressa compreenderemos a importância que assume a possibilidade de, através da decoração das suas casas, ganharem uma forma de afirmação que está em consonância com tudo aquilo que é o espírito que enforma o nascimento da institucionalidade e do poder da própria povoação. As casas, espelho muito fiel do sentir cultural de cada um dos seus habitantes, são, no seu conjunto um misto da harmonia que resulta da afirmação pessoal dos diferentes tipos de comunidade que ali habitam, com a heterogeneidade que marca a diferença que entre eles, de uma forma permanente e quase imutável, se vai efectivando.
 
A nível da estrutura urbana, ou seja, da forma como se dispõem os edifícios no seio da complexidade real que resulta da necessidade de se conseguir, na teia emaranhada de edifícios que compõem as diversas ruas marcadas pela construção não-planificada, discernir linhas orientadoras que promovam o entendimento sobre as bases culturais que a enformam, é possível perceber que existe uma competição básica, de âmbito individual, dela resultando a grande maioria das orientações que agregam as casas, a sua decoração, e os próprios quarteirões onde se inserem.
 
 
 
 
Desta forma, ao nível da visibilidade e do ordenamento do território, no seio de todas as incongruências que caracterizam a falta de plano e de previsão urbana, é possível encontrar linhas mestras, em que a colocação espacial de cada edifício, mais do que propriamente a sua localização paisagística ou as acessibilidades, é definidora dos fundamentos que regem as relações sociais. Esta situação, assaz curiosa se entendermos que no seio destas povoações a visibilidade da casa, muitas vezes construída num interstício sem quaisquer condições, é mais significante do que a própria qualidade da sua construção ou as vistas que dela se fruem, permite-nos ainda perceber qual é, verdadeiramente, a importância que a imagem e, logo, a própria decoração, exercem sobre aqueles que a constroem.
 
Na Parede, cada canto e recanto reflecte esta vivência profundamente sentido daqueles que construíram a povoação. Com uma aparência erudita nas suas zonas nobres e a singeleza decorativa mais simples nas zonas marcadas pelo desfavorecimento sócio-cultural, a vila define parâmetros de urbanidade que dão corpo à sua existência.
 
 
 
 
Para compreender o que é hoje a Parede em termos patrimoniais, importa perceber quais são as principais linhas definidoras da sua evolução histórica, nelas congregando tudo aquilo que contribuiu para a gestão dos equilíbrios sociais que tornaram possível a sua sobrevivência histórica. Por isso, é essencial a capacidade de ver para além da monumentalidade que o património por vezes exige, para se encontrar, quantas vezes perdido algures num laivo de excelência perdida no contra-forte de um qualquer muro de suporte, a informação que é necessária para entender a organização social a comunidade.
 
A Vila da Parede, suficientemente longe do exercício do poder para sonhar com a verdadeira expressão da liberdade, mas também demasiadamente importante para poder subtrair-se à evolução histórica de Cascais e da Região de Lisboa, é exemplo paradigmática da excelência urbanística, representando um papel fundamental na definição da Identidade Municipal de Cascais.

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publicado às 12:32

A Igreja de São Domingos de Rana

por cascalenses, em 23.11.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Profundamente ligada ao trabalho da pedra, numa zona do Concelho de Cascais onde as pedreiras e os ofícios de cantaria assumiam especial importância, a Igreja de São Domingos de Rana é um dos mais importantes imóveis históricos que fazem parte do Património Cascalense.
 
Sem se conhecer a data da sua fundação, nem tão pouco se a antecedeu qualquer outra espécie de espaço de culto ou edifício sagrada que tenha anteriormente ocupado o alto da colina onde se ergue este templo, remete para a lenda e para as tradições orais as principais indicações que nos permitem compreender o imóvel no contexto da religiosidade rural do interior do Concelho de Cascais.
 
 
 
 
 
Reza a lenda que, algures durante a Idade Média, os trabalhadores que tiravam pedra das muitas pedreiras existentes nesta zona, viam amiúde a figura de São Domingos de Gusmão passeando reiteradamente por aquela zona. O santo, historicamente nascido em Castela em Junho de 1170 e que foi fundador da Ordem dos Pregadores, mais tarde conhecidos como Dominicanos, está ligado de forma directa aos rituais de despojamento que determinam a essência sagrada do culto Cristão em Portugal.
 
 
 
 
Depois de ter viajado ainda muito novo até à Dinamarca para participar no acto solene de trazer para a Península Ibérica a noiva Escandinava do Príncipe de Castela, São Domingos terá ficado profundamente impressionado com a falta de conhecimentos que aqueles povos teriam de Cristo e da sua doutrina. Nasce-lhe assim, num acto de inspiração que muda vida até à actualidade, a ideia de criar uma ordem cujo objectivo essencial seria o de evangelizar esses territórios, conquistando Almas novas para o orfeão Cristão. As dificuldades, no entanto, associadas a várias experiências que o ajudaram a despertar os sentidos e a clarividência, mostraram-lhe que o Ser Humano não é naturalmente bom nem tem uma natural propensão para a bondade. Pelo contrário! O apelo do mal e da maldade, reconhecido nos mais mesquinhos apontamentos da vida de cada comunidade, mostraram a São Domingos que o único caminho possível em direcção ao Céu e a Deus, era o da abdicação total e absoluta à mundanidade e à materialidade da vida corrente, como forma de propiciar a libertação do anjo sagrado que o Santo considerava que existia dentro de cada um e que se mantinha subjugado pelas tentações carnais do mundo e da sociedade.
 
Domingos de Gusmão, com influência existencial marcada pelo ideário cátaro, liberta-se assim das pulsões da natureza e determina uma ordem na qual o afastamento do mundo e das coisas é a regra principal. A Ordem de São Domingos, mendicante de origem, é assim o repositório mais profundo da ancestralidade mística de Portugal, num plano de existência na qual a iluminação advém directamente da capacidade de libertar o espírito do que da compilação da doutrina conventual.
 
 
 
 
A propensão para locais recônditos e remotos, dos quais fosse possível obter uma visão periférica e exterior do mundo, surge em sequência com a escolha lendária do local onde havia de vir a ser erguida a Igreja de São Domingos de Rana. No cimo da colina de Rana, da qual é possível abarcar uma paisagem que se estende por terra e pelo mar ao longos de muitos quilómetros de distância, a actual igreja motiva o eremita a uma comunhão directa com Deus através de um esforço de contemplação do qual não está alheada a entrega total e absoluta aos ideias de despojamento que serão sempre apanágios das mais iluminadas e marcantes figuras da História de Portugal.
 
Em termo históricos, a Igreja de São Domingos que hoje temos é o produto dos restos da antiga igreja construída no início do Século XVIII e que foi amplamente destruída pelo terramoto de 1755. Há, no entanto, notícia, de que antes dessa data, já em meados do Século XVI, ali existia um templo Cristão, cujas origens documentais se desconhecem.
 
A qualidade dos materiais da igreja, até por ser esta uma terra de canteiros e de pedreiras florescentes, dão corpo a um dos mais importantes monumentos do Concelho de Cascais. A sua fachada, altivamente erguida com vista para Sul e para o Estuário do Rio Tejo, denotada uma riqueza arquitectural que destoa da pobreza tradicional das povoações da envolvente. As suas duas torres sineiras, uma das quais ostentando um vetusto relógio de Sol, enquadram-se nos padrões construtivos que deram o mote à reconstrução do concelho nos finais do Século XVIII e início do Século XIX; apresentando um porte altivo que contrasta com a singeleza do seu interior.
 
 
 
 
Em termos territoriais e devido à posição estratégica que ocupa perante o território que a envolve, a Igreja de São Domingos de Rana foi sempre referência essencial para a navegação, servindo de guia para as entradas e saídas da Barra do Tejo.
 
Concretizando na solidez do seu porte a Fé dos habitantes de São Domingos de Rana, a igreja de São Domingos é um dos mais interessantes atestados do poder que a devoção tem na formação das comunidades locais, tendo sido ela o principal factor determinante da criação da própria localidade que a envolve.

 

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publicado às 16:42

A Capela de São Sebastião em Cascais

por cascalenses, em 26.09.16

 

 
 
 
por João Aníbal Henriques
 
Passaram-se muitos meses desde que o temporal do Outono de 2015 destruiu o cruzeiro, o alpendre e o adro da Capela de São Sebastião, em Cascais. Mas, finalmente, foram efectuadas as obras de recuperação e reposta a dignidade daquela importante peça do património cascalense.
 
A Capela de São Sebastião, construída provavelmente em 1628, atendendo à inscrição existente na base do seu cruzeiro, possui um interessante conjunto azulejar cujas origens dispersas não se conhecem com exactidão.
 
A sua localização, fora da localidade e já muito perto da Enseada de Santa Marta, terá sido determinante para a sua formulação arquitectónica simples, em estilo dito “chão” e para as suas origens eminentemente ruralizantes. Situada originalmente na cerca do antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), seria certamente posto avançado de oração e recolhimento daquele importante núcleo religioso da Vila de Cascais.
 
 
 
 
De acordo com alguns autores, serão do antigo convento, que foi construído em 1594 por D. António de Castro, então Senhor de Cascais e pela sua mulher D. Inês Pimentel, alguns dos painéis de azulejos que hoje se podem ver na capela e nas zonas envolventes. O mais importante, hoje colocado de forma cenicamente impactante no jardim construído no local pelos Condes de Castro Guimarães, é precisamente a “Procissão Alquímica” em que Nossa Senhora é transportada aos céus numa imensa carruagem inserida num cortejo do qual fazem parte algumas das mais importantes figuras da imagética transcendental da Portugalidade Sebástica.
 
O certo é que quer na figura “Civitates Urbius Terrarum” da autoria de Georgius Branius, de 1572, quer na planta geral da Vila de Cascais, datada de 1594 e guardada no Arquivo Geral de Simancas, a pequena capela surge expressamente representada, sendo certo, por esse motivo, que já nessa altura fazia parte do património religioso da localidade.
 
 
 
 
Na parede do adro, com datação provável dos finais do Século XVII, e correspondendo a uma das campanhas de obras de remodelação que o edifício terá sofrido ao longo da sua história, existe um painel azulejar polícromo dedicado ao Santíssimo Sacramento e, como não poderia deixar de ser numa peça de património de índole rural, à Imaculada Conceição da Virgem Maria. Uma vez mais, como é evidente, cerca de dois séculos antes de o Papa Pio IX, através da bula Inneffabilis Deus, ter solenemente definido a Imaculada Conceição como dogma, em linha com o que acontece com as principais orientações cultuais no Portugal de então e, especialmente, com as ancestrais tradições religiosas existentes no Concelho de Cascais.
 
O orago Sebastianista da capela, apelando ao supremo poder de Deus perante os homens e à permanente necessidade destes de tentarem impor a sua vontade, recupera também ele os laivos dessa paulatina degeneração dos cultos mais antigos das populações locais que, depois de Cristianizados, acabam por integrar-se de forma definitiva no conjunto de pressupostos sagrados que dão forma à Fé local.
 
 
 
A recuperação da Capela de São Sebastião, para além de um importante contributo para a consolidação da vocação turística municipal, que depende da existência de uma oferta significante que concretize a Região do Estoril como um destino turístico de excepção no contexto europeu, significa ainda o assumir da Identidade Cascalense, assente num imaginário colectivo na qual as memórias físicas se cruzam quase sempre com os vestígios materiais de gerações ancestrais.
 
É, por isso, uma boa notícia para a Nossa Terra!
 

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publicado às 11:33

O Visconde da Luz e o Despertar do Cascais Contemporâneo

por cascalenses, em 11.07.16

 

 
 
Estávamos no ano de 1862, não passando  a Vila de Cascais de um pequeno burgo piscatório, quando nela se instalou Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, numa moderna casa de veraneio que mandou construir na Vila Nova, antigo Alto da Bela Vista.
 
Este acontecimento, que poderia ser fortuito no desenrolar do devir histórico da localidade, foi determinante para a História de Cascais, marcando de forma definitivamente um processo de modernização que, conjugado com a chegada da Corte e do Rei Dom Luís, transformará definitivamente Cascais num dos mais cosmopolitas destinos turísticos do Mundo. A chegada do Visconde da Luz, acompanhada por uma série de benefícios que por sua iniciativa melhoraram drasticamente a vida na vila, ofereceram a Cascais um laivo de contemporaneidade que alterou por completo a vivência piscatória e ruralizante que a caracterizava até aí.
 
Acompanhando o Visconde da Luz, muitos foram os lisboetas ilustres que escolheram Cascais para seu destino de veraneio. E, em conjunto com o saudoso Presidente da Câmara João de Freitas Reis, foram o motor de arranque de um conjunto de obras públicas que dotaram Cascais de infraestruturas de excelência que culminaram na escolha da Vila por parte do Rei e da Corte.
 
 
 
 
Por postura camarária de 24 de Maio de 1860, já por sugestão do Visconde da Luz, João de Freitas Reis cria a nova estrada entre Cascais e Oeiras, obra fulcral no desenvolvimento das comunicações entre a Foz do Tejo e a Capital. Paralelamente, a mesma postura determina ainda que todos os carros, ómnibus, seges e bestas somente pudessem transportar pelo empedrado, sob pena de multa. Para o embelezamento desta importante via pública cedeu a câmara, a instâncias do Visconde da Luz, as varas necessárias para protegerem o crescimento das árvores então plantadas.
 
Foi esta postura, assente no pressuposto de que valia a pena apostar numa dinâmica diferente para a Vila de Cascais, que gerou a onda de mudanças que caracterizam esta terra daí por diante. O Visconde da Luz, ainda antes de ter efectivamente passado a residir em Cascais, foi figura determinante na definição de um modelo urbano que assentava na qualidade de vida de todos aqueles que habitavam na localidade. E foi, por esse motivo, o grande impulsionador do Cascais que hoje (ainda) temos.
 
 
(Imagens Real Villa de Cascaes)
 

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publicado às 17:24

A Singularidade e o Escadote Social de Cascais

por cascalenses, em 05.07.16

 

 
 
O Concelho de Cascais, pela sua situação estratégica no seio da Península de Lisboa, e pela notoriedade que granjeou ao longo do último século e meio de uma história verdadeiramente extraordinária, é um dos espaços mais atractivos de Portugal, possuindo uma fama que o precede e que é conhecida e reconhecida por toda a Europa.
 
O cunho cosmopolita desta terra, assente nos pressupostos atrás definidos, é de extraordinária importância na definição da vida quotidiana do Concelho. Com um ímpeto progressista que surge associado à permanente capacidade de recriar paradigmas renovados a partir dos problemas com os quais se debate, Cascais esteve sempre um passo à frente do resto do Pais e caracterizou-se sempre pela inovação e pela modernidade.
 
 
 
 
Apesar de existirem aspectos positivos e negativos associados a esta situação, pois o crescimento desmesurado, associado à falta de planeamento e de rigor e de, em muitos momentos da nossa história, ter sido governada de forma pouco capaz, acabou por resultar nalgum caos urbano que se espraiou, com características diferenciadas, um pouco por todo o território municipal, o certo é que a fama de Cascais sobreviveu sempre e foi capaz de se impor às várias gerações que até agora habitaram o concelho.
 
A ideia de qualidade que Cascais deixa transparecer, conjugando o glamour das suas zonas mais emblemáticas com a fama que carregou até bem longe as suas potencialidades, transformou-se em ideias e estereótipos de um determinado tipo de vida que, não sendo linearmente real, serviu sempre de base para que viver em Cascais fosse considerado algo de verdadeiramente notável. Em consequência disso, e pelo menos desde que o Rei Dom Luís escolheu Cascais para estância de veraneio, nos idos de 1870, que esta terra é palco assumido para os devaneios de índole diversa que dão forma à sociedade portuguesa.
 
Como se de um escadote real se tratasse, Cascais é o local que procuram todos aqueles que alcançam a fortuna e o êxito, sendo aqui o melhor espaço para poderem usufruir das suas conquistas. Da mesa forma, e no plano oposto, Cascais é também o local escolhido por todos aqueles que anseiam pelo prestígios e pelo êxito, recriando em seu torno um espaço onírico que serve de cenário para a concretização dos sonhos que ainda faltam acontecer.
 
 
 
 
A singularidade de Cascais é, desta forma, dupla e dúbia. Associa-se às grandes figuras da nossa história que por cá passaram, e também aos grandes desaires e apaixonantes episódios que aconteceram dentro das fronteiras do Concelho, tornando-o único e irrepetível por aquilo que é, mas também por aquilo que muitos acreditam que ele pode vir a ser.
 
Um dos aspectos em que mais se faz sentir esta espécie de pressão positiva, que se fundamenta na solidez estrutural que todos ligamos à qualidade, é o da habitação. As casas, as ruas, os espaços públicos e os acessos a Cascais, sempre foram aspectos essenciais neste pressuposto de afirmação que a terra procura promover. Quem alcançou o sucesso, constrói normalmente em Cascais uma casa à altura do seu sucesso, ao mesmo tempo que quem procura o êxito opta por uma habitação que transpareça o fim último que procura atingir. Por tudo isto, durante muitas décadas, o crescimento e a consolidação da paisagem urbana no Concelho fez-se num processo de paulatina afirmação da qualidade, assumindo uma componente estética que reforçou de sobremaneira a já de si grande fama que a terra transportava. Os parâmetros volumétricos, as cores, as formulações geométricas e os materiais utilizados, eram geralmente de grande qualidade e inseriam-se nos mais vanguardistas movimentos da culturalidade das épocas em que se concretizavam.
 
 
 
 
No que aos espaços públicos diz respeito, o movimento foi idêntico, assistindo-se à criação de infra-estruturas e equipamentos de grande qualidade, em linha com o que se passava com a habitação privada. A qualidade de vida que resultou deste processo, evidente para toos aqueles que aqui viviam e mesmo para os que somente a visitavam, redobraram a fama de excelência que lá fora já caracterizava o concelho, exigindo que governantes e governados se pautassem por níveis de excelência pouco usuais no Portugal de então. Dos colégios e das escolas que recebiam as novas gerações, aos restaurantes, jardins, hotéis e campos de golfe, Cascais foi-se apetrechando de tudo aquilo que caracterizava uma grande capital, ao mesmo tempo que era capaz de preservar a pequenez das terras de sonho e das estâncias turísticas que desde o século XIX consolidaram o seu prestígio um pouco por toda a Europa.

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publicado às 17:08

Tendências Demográficas no Cascais Medieval

por cascalenses, em 22.03.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O primeiro numeramento de Cascais data de 19 de Setembro de 1527. Sendo já posterior à época medieval, da qual não existem registos efectivos acerca do que se passava neste concelho, vamos tomar como base desta análise a curva demográfica de Cascais durante este período da baixa Idade Média e a partir daí comparar teoricamente as tendências das principais cidades Portuguesas e Europeias, assumindo, desta forma, alguma linearidade nos comportamentos demográficos da velha vila de pescadores.
 
Assim, à excepção de Toulouse, a tendência mais evidente da demografia urbana europeia é a de um aumento sustentado do contingente populacional. Assim acontece com as principais cidades da Europa de então, tendência que se confirma em Portugal com os dados que temos relativos à cidades de Lisboa ou de Lagos. Da mesma forma, encontra-se uma tendência generalizada para um período de recessão nos finais do Século XIII e inícios dos Século XIV que, com um carácter fulgurante em cidades como Florença, em Itália, atingiu de forma medíocre as restantes cidades europeias com dados conhecidos. Segundo Carlo Cipolla, a crise que afectou a Europa nessa época não passou de uma rectificação natural da demografia urbana, respondendo de forma directa ao excesso populacional acumulado em determinadas regiões, ainda sem o suporte essencial em termos de salubridade e saúde pública e pouco preparadas para sustentar esse crescimento.
 
Por esse motivo, muitas foram as cidades e/ou pequenos aglomerados populacionais que viram bastante reduzido o seu contingente populacional durante este período, provocando um surto de mortandade que acompanhou o recrudescimento de diversas epidemias e doenças.
 
 
 
 
Zonas pouco apetrechadas em termos urbanísticos, como era o caso da Vila de Cascais durante esse período, sofreram assim as consequências nocivas da sua impreparação, facto que conduz a um intervalo de tempo que se caracteriza por uma imensa razia em termos do número de habitantes, obviamente com repercussões directas a várias níveis da organização social dessas terras. Será possivelmente esta a explicação que nos permite perceber o reduzidíssimo número de Cascalenses que existiam nessa época e que Oliveira Marques aponta num dos seus artigos sobre Cascais: ”É provável que em meados de trezentos, para mais com as consequências da peste negra, o número de habitantes da jovem vila não fosse além dos duzentos ou trezentos, se é que os atingia sequer. E no termos correspondentemente”.
 
Na carta régia de 1385 de Dom João I, o despovoamento de Cascais torna-se evidente, sentindo o monarca que chegou à altura de incentivar o mesmo. É também nesta mesma carta que o rei levanta o problema do Castelo de Cascais, sublinhando a sua importância na estratégia de defesa de Lisboa. Sê-lo-á em termos meramente militares e políticos ou também em termos económicos e estratégicos?...
 
No que concerne à densidade populacional nas freguesias cascalenses, é notório e muito evidente a enorme discrepância existente entre aos espaços rurais e urbanos. Esta dualidade surge bem expressa nos números que traduzem, por exemplo, a realidade na Freguesia de Cascais, que sobressai com 10,5 habitantes por km2, em contraste com os cerca de 4,3 habitantes por km2 em espaços como Carcavelos e São Domingos de Rana. Na primeira temos uma realidade marcantemente urbanizada, recriando-se em torno do conjunto habitacional coeso que enche o seu espaço amuralhado, e nas segundas surge a realidade de âmbito rural, com as explorações agrícolas e o minifúndio a imporem a sua realidade.
 
Embora pouco importante para a determinação daquilo que foi Cascais durante este período, é certo que este quadro nos permite supor um povoamento da vila de Cascais muito anterior àquele que supostamente surge na documentação oficial, precedendo-a e alterando os dados efectivas recolhidos em época posterior. Fazendo o exercício de completar os dados inexistentes de Cascais com aqueles que caracterizam as restantes cidades de Portugal e as principais tendências nos espaços urbanos europeus, parece lícito supor que a continuidade da linha demográfica na vila se encaixa no fluxo corrente que caracteriza a Europa anteriormente.
 
Prova ainda mais contundente deste pressuposto é a que nos oferece o Professor Oliveira Marques no estudo atrás mencionado e que nos diz que: “O número de besteiros do conto, de cerca de 1422, atribuía ao Concelho de Cascais 20 besteiros, cifra igual na comarca da Estremadura, à de Sintra e à do Soure e próxima à de Alenquer e à de Óbidos”. Este mesmo número está confirmado no número de besteiro existentes no Algarve, em linha com o que se passa em espaços pujantes demograficamente como Castro Marim, Albufeira e Aljezur.
 

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publicado às 16:22

Cascais e o Terramoto de 1755

por cascalenses, em 01.02.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O cataclismo que se abateu sobre Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 deixou um rasto de destruição na Vila e no Concelho de Cascais. O terramoto e o posterior maremoto, foram acompanhados de incêndios e muitos dos principais edifícios que existiam foram completamente destruídos.
 
A face urbana da Vila de Cascais, com a monumentalidade própria de uma pequena vilória piscatória, sofreu enormes alterações e, mercê dos muitos interesses instalados nesta terra, terá sido porventura o terramoto o embrião da primeira operação de especulação que Cascais conheceu…
 
De facto, as Memórias Paroquiais, bem como as respostas dos reitores das igrejas às questões levantadas pelas autoridades depois do terramoto, apresentam-nos informações muito úteis para conhecer e compreender o que então aconteceu em Cascais. A menção à antiga torre-relógio, que desapareceu nessa manhã fatídica, e a organização espacial dentro das muralhas do velho castelo, estão bem expressas nas palavras do pároco de então: “Está esta vila sem relógio porque este, e sua grande torre feita pelos mouros, que sefes em cinzas. O palácio dos marqueses de Cascaes uq era de hua excelente perspectiva, e de exquisitas pinturas, com hua bella ermida, desconhecesse tudo pelo que foi, e já não hé (…). Nesta freguesia há hu castelo, cujo hoje está todo cheio de moradores e para nada serve mais, porem ahinda selhe conservão alguas amejas, cujo fica para abanda da ribeira, pegado com os palacios dos marqueses de Cascaes”.

 
Também Frei António do Espírito-Santo, um dos frades carmelitas do Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), dá-nos conta do estado do castelo após o terramoto de 1755: “cahio a torre com o seu mais especioso relógio nas sonoras vozes do seu sino, que fica olhando para norte, e matando 22 pessoas”.
 
Esta torre, bem identificada em muita da cartografia antiga que se conhece, corresponderia à torre que se situava na parte Nascente do Castelo, com frente para a área do antigo Rossio. Teria planta redonda, em linha com a tradição arquitectónica deste tipo de edifícios, facto ainda visível nas fotografias tiradas no início do Século XX por João da Cruz Viegas, D. António de Castelo-Branco e pelo Visconde de Coruche. De salientar que alguns dos torreões do antigo castelo, marcando os eixos que deram forma ao núcleo urbano inicial da Vila de Cascais, subsistiram até aos anos 60 do século passado, quando foram demolidas no âmbito do surto de construção que assolou Cascais nessa época.
Em termos religiosos, eram vários os edifícios que existiam em Cascais neste final do Século XVIII. Mas a maior parte, mercê das agruras do cataclisma, acabou por ficar muito danificado ou mesmo completamente destruído.

 
De acordo com o testemunho do Reitor da Igreja Matriz de Cascais, Padre Manoel Marçal da Silvejra, ao responder em 1758 aos inquéritos paroquiais, nada sobrou do terramoto e o que se manteve de pé estava em tais condições que a ele lhe parecia que mais valia destruir para construir novas edificações de raiz do que proceder ao seu restauro: “(…) a villa ficou toda arruinada até ao chão. Não há caza, wur ou não cahisse em terra, ou não ficase abalada, ameaçando ruína. Os templos, a ponte, a cidadela, e os eus quartéis, tudo está demolido, e feito em pó. A major parte da villa haita ahinda em barracas fora, e dentro do destricto, a ponte está com hu só arco em pee, e senaõ passa po rella, sem que se reparasse ahinda nada, somente alguas czas setem levantado, poucas, ao mesmo tempo, que outras, com as tempestades e ventos, se tem acabado de postrar”.
 
Do reitor da Freguesia da Ressureição, a segunda freguesia de Cascais e situada no espaço extra-muros, recebemos a informação de que foi esta uma das mais afectadas freguesias do país com a catástrofe do terramoto de 1755: “De todas as terras foi esta aq. Experimentou mayor ruina (conforme dizem todos) por causado ditto terramoto, pois todos os edifícios serruinarão, e quazi todos cahiram, e algum q. nan cahio de todo ficou inahabitavel, mas ao prezente is se acham muntos deles reedificados”.
 
Mas, se é certo que a destruição provocada pelo terramoto foi enorme, certa é também a dose de exagero patente em todos estes documentos, explicável possivelmente com a necessidade de chocar quem os lê-se para sensibilizar o poder nacional para a necessidade de recursos que Cascais sentia para proceder à sua recuperação urbana. De facto, tendo ruído a Igreja da Ressurreição, que se situava sensivelmente onde actualmente se encontra a estação de comboios, muitos outros monumentos civis, militares e religiosos se mantiveram de pé o foram reconvertidos e/ou recuperados e ainda hoje podem ser apreciados na Vila de Cascais.


 
 
A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, por exemplo, uma construção de meados do Século XVII que resistiu à força do terramoto, foi bastante alterada no seu exterior tendo sofrido várias alterações que lhe conferem a imagem que hoje apresenta. Na sacristia e no arco que suporte o coro, ainda são visíveis as sequelas do cataclisma, ao lado com uma pequena inscrição que informa que o templo havia sofrido obras de restauro em 1720 à custa dos irmãos pescadores.
 
Mais à frente, e para além dos muros antigos do castelo, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza de Nossa da Luz resistiram ao terramoto, tendo acontecido o mesmo com o Convento de Nossa Senhora da Piedade que, já no Século XIX, foi comprado em hasta pública pelo Visconde do Gandarinha que o adaptou a residência de veraneio. Quando essas obras foram efectuadas, estavam ainda em estado razoável de conservação a antiga sala do capítulo, a capela, o claustro, a cisterna e mesmo o friso de janelas viradas a Sul que ainda hoje se mantém.


 
 
Da mesma maneira, e para além das pequenas capelas de Nossa Senhora de Porto Seguro e de Nossa Senhora da Conceição, sobreviveram ainda as capelas de Nossa Senhora da Vitória, a Igreja da Misericórdia e a Igreja e Nossa Senhora dos Navegantes que foram reconstruídas depois da catástrofe.


 
 
Tendo exagerado de forma linear a verdade do que aconteceu, a documentação coeva dá-nos uma primeira imagem do que era Cascais naquela época. E, sabendo nós que o ímpeto de construção que se lhe segue fica a dever-se à generalizada informação de ruína eminente em que pretensamente Cascais se encontrava, fácil se torna perceber que naquela altura, como ainda hoje, foi sobre inverdades e premissas adaptadas às necessidades do momento, que se deu uma nova cara ao Cascais de sempre.
 

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publicado às 12:56

História do Urbanismo de Cascais na Idade Moderna

por cascalenses, em 20.01.16

 

 

por João Aníbal Henriques
 
As tendências urbanísticas de um local, mais do que um reflexo do gosto de então, espelham sobretudo o pulsar interno da ida de uma nação ou de um povoado.
 
A dispersão das casas, o maior ou menor estreitamento das suas vias, a altura e o aspecto das suas edificações, a monumentalidade das suas igrejas e templos, são acima de tudo características ditadas por uma série de situações que derivam directamente do devir das populações.
 
Assim, para compreender o Cascais da actualidade, importa conhecer melhor a história do seu desenvolvimento urbano, dele retirando as pistas que nos permitirão conhecer e perceber o substrato político, económico e social que deu corpo àquilo que hoje temos e somos.
 
Com este objectivo bem definido, vamos então traçar as verdadeiras tendências urbanas desta região, utilizando a documentação histórica coeva e integrando-a, sempre que possível naquela que exista para os concelhos limítrofes.
 
A demografia, na sua vertente mais pura, assim como os censos populacionais, as inquirições religiosas e os demais instrumentos de trabalho desta área científica, reforçarão as hipóteses e as pistas que daremos acerca do pulsar político de Cascais ao longo dos tempos.
 
O Concelho de Cascais, rico, ontem como hoje em potencialidades e belezas naturais, desde cedo despertou a atenção e o interesse da espécie humana. A amenidade do seu clima, a riqueza das suas águas, a fertilidade das suas terras e a posição estrategicamente privilegiada em que se encontra, foram factores decisivos na definição da história municipal.


 
Deixando de lado as questões directamente relacionadas com os primeiros anos da ocupação do território (que poderá rever AQUI), procuraremos acima de tudo dar uma panorâmica daquilo que foi Cascais e o seu termo no período imediatamente posterior à libertação jurídica face a Sintra.
 
Assim, no período que medeia o ano de 1364, data em que Dom Pedro I concede o foral a Cascais, e o ano de 1370, data em que Cascais fica efectivamente livre do jugo de Sintra pela mão do Rei Dom Fernando I, todo o termo do Concelho sofre enormes transformações.
 
Se, por um lado, assistimos à criação de toda a plêiade de cargos administrativos inerente à nova posição política concelhia, por outro, terão de ser criadas as condições urbanísticas necessárias à manutenção e alojamento das pessoas que resultam deste acréscimo populacional. O termo de Cascais, por seu turno, e mercê das enormes dificuldades que resultavam do esforço de manter e defender a independência, teve também de contribuir para esse esforço de afirmação política, assistindo-se na mesma época ao aproveitamento de uma série de potencialidades que existiam em todo o território municipal.


 
 
São, desta forma, desta época, a maior parte das edificações e casas antigas de Cascais, principalmente aquelas que vieram ocupar os espaços situados no núcleo intra-muralhas e na margem direita da Ribeira as Vinhas, e que complementaram os extensos espaços ocupados pelas habitações dos pescadores espalhadas ao longo da linha do mar. Estas, como é evidente, seriam muito mais precárias, construídas de madeira e em forma de abarracamentos. O Paço dos Senhores de Cascais, de influência marcadamente italiana, surge somente em finais do Século XVI, pese embora se situasse dentro do perímetro das muralhas antigas da vila, sensivelmente onde hoje se encontra a Casa do Conde Monte Real, na Avenida Dom Carlos. O Convento de Nossa Senhora da Piedade, já fora desse mesmo recinto, é seu contemporâneo, complementando assim os domínios de Gomes Lourenço de Avelar a quem Dom Fernando entregara, em 1370, as terras de Cascais: “seu caualleyro e […] guarda moor e leal vassalo”.
 
No dia 7 de Junho de 1373, cerca de três anos depois da primeira doação, o mesmo monarca desfaz o documento original, penalizando Gomes Lourenço de Avelar por este se ter recusado a entregar um dos seus filhos como refém no âmbito da assinatura do Tratado de Santarém. Neste último documento, a vila de Cascais é entregue a Henrique Manuel de Vilhena, figura pouco quista entre as gentes do concelho. É aqui que pela primeira vez surge uma menção ao Reguengo de Oeiras que, a partir desta mesma altura, passa a integrar o termo de Cascais.
 
Em 3 de Julho de 1384, sabemos que Henrique Manuel de Vilhena já havia sido desapossado do senhorio, porque andava então “em deserujço destes regnos e senhor com elrey de Castella” (Chancelaria de Dom João I).
 
Nesta época o território do termo de Cascais seria já muito semelhante àquele que conhecemos actualmente, exceptuando-se a integração do Reguengo de Oeiras ou de parte dele, conforme veremos adiante, e o acrescento posterior de alguns territórios que ainda pertenciam a Sintra e que o Rei, por considera-los seus, resolveu integrar no termo cascalense. Na carta de foral de 8 de Abril de 1370, Dom Fernando I integra no termo de Cascais territórios bem definidos: “Por seu termo como se começa pollo porto de Touro (fooz do Touro) e desy per cima da debaruas de Rey e dhy acima da malueirra e pella pena da era e desy como se vay dhi endiante atta o açude daacenha do tarãbulho e desy como se vay per cima de janas torta os fornõs da cal acima daaçenha do caminho todo agoas vertentes e desy pella strada dirrejta ao rio do trotulho com villa noua e desy como se vay pela strada do camjnho de lixboa atta as portas de manique e dhy adiante pello veeiro acima como se vay topar na strada de sintra que vay topa na ponte do rio ao mar vaao todalas quetaães e herdades que ora o dicto gomez Lourenço há em rio de mouro aaller e aaquê daagoa do dicto rio de mouro e outrossy a aldeã dalgafamy”. (Chancelaria de Dom Fernando).


 
 
O aspecto urbano de Cascais e do seu termo seria assim uma constante de contradições incluindo no seu seio o povoamento rural das zonas interiores, as zonas que haviam sofrido maiores influências islâmicas situadas nas faldas da Serra de Sintra, bem como as zonas mais urbanas situadas no centro da vila, consolidando assim um quadro marcadamente ecléctico e de abertura cultural que dará corpo àquilo que tem sido Cascais ao longo dos anos.
 
De salientar ainda, neste quadro daquilo que é a face urbanística de Cascais nos inícios da Idade Moderna, o povoamento disperso em pequenos casais espalhados aleatoriamente ao longo dos mitos e pequenos riachos que lhe sulcavam a terra. Este aspecto, como se verá no desenvolvimento económico concelhio (ver HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997), prenderá a atenção de Jorge Fernandez, enviado do Rei que, em 19 de Setembro de 1527 elabora o primeiro censo populacional conhecido para esta vila.
 
Ainda hoje, em certos cantos e recantos pouco conhecidos do concelho, e possível vislumbrar os restos desses casais, marcados profundamente pela vida simples e pacata que neles se levava.


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publicado às 16:36

Cascais na Idade Média Clássica

por cascalenses, em 19.01.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A reconquista Cristã e a entrada de novas gentes no actual território da Península de Lisboa, veio afectar de sobremaneira o Concelho de Cascais. É ponto assente entre os estudiosos da matéria, que Cascais exista já em 1147 e que foi alvo do interesse do novo rei de Portugal, Dom Afonso Henriques.
 
Segundo Pedro Barruncho, na sua obra “Villa e Concelho de Cascais”, datada de 1873, “é mais provável, para começarmos em mais próximos tempos, que pouco antes ou depois da tomada do Castelo de Cintra, se não ao mesmo tempo, o lugar de Cascaes entrasse no domínio do novo reino Lusitano”.
 
Esse facto é por demais evidente se nos debruçarmos mais profundamente sobre o Foral de Dom Manuel em que se pode ler acerca das preocupações que tanto Dom Afonso Henriques como Dom Sancho I tiveram em relação a este pequeno território: “Achámos visto os foraes por El-Rei D. Affonso Henriques e por El-Rei D. Sancho seu filho que os direitos e foros da dita villa de Cascaes sa hão-de arrecadar e pagar d’aqui em diante na maneira e formas seguintes […]”.
 
Este documento, com data de 15 de Novembro de 1514, é ponto fulcral de mudança e transição no estudo da História da Vila de Cascais a nível demográfico. Por um lado, ele comprova a importância da vila para os monarcas das primeira e segunda dinastias, quer seja a nível militar e estratégico, como defesa do estuário do Tejo perante as ameaças Almorávidas, quer a nível político. Por outro lado, ele diz-nos que Cascais possuía já um número razoável de habitantes que lhe permitia alguma expressão ao nível dos centros de poder governamental.
 
Assim, e tendo presente a subjugação administrativa a Sintra que Cascais sofria nessa época, podemos vislumbrar de forma mais linear a curva demográfica da vila durante este período já longínquo da História. É facto assente que desde épocas remotas existiria uma estrada que garantiria a ligação a Lisboa. Essa estrada, designada por “Caminho Velho” em certos documentos medievais, existiria já desde o tempo dos Romanos e possuiria uma extensão que estabeleceria a ligação a Sintra. Por este motivo, e porque Sintra dependia de Cascais e do seu porto para a exportação, pois a única solução para transportar produtos perecíveis para Lisboa era por mar, lógico seria que Cascai tivesse já nesta altura um contingente significativo de homens do mar que, conjuntamente com as suas famílias, se dedicassem à arte de marear. Tal facto é confirmado por José d’Encarnação e Guilherme Cardoso que se têm dedicado à procura da origem do povoamento do território Cascalense: “Uma das preocupações que temos é precisamente a de localizar os vestígios dessa via quando se faz qualquer urbanização no Concelho, uma vez que é muito provável que existisse, e existia mesmo, não temos dúvida nenhuma (temos documentos medievais que nos falam por exemplo na via velha, no caminho velho). É, portanto, possível que esse caminho velho fosse um caminho já utilizado no tempo dos Romanos – tinha forçosamente de existir uma estrada de Lisboa para Cascais, pois ao contrário do que se pensa, eles preferiam afastar-se do mar”.
 
Cascais foi, por isso, causa e efeito da reconquista Cristã, pois que, com o seu porto, contribui fortemente para o desembarque das naus da referida reconquista. Por outro lado, essa mesma reconquista contribuiu por sua vez para um desvanecer das fronteiras a Sul, e a consequente estabilidade que dela resultou contribuiu de forma decisiva para a facilitação do povoamento do território que, a par com a expansão demográfica e económica da Europa, vêm facilitar o desabrochar de novas povoações e o crescimento das já existentes.
 
Como é evidente, nem todos concordam linearmente com esta premissa. Oliveira Marques, por exemplo, contradiz-se ao referir-se a Cascais da seguinte maneira: “Apesar de todos estes povoamentos, o território de Cascais – como aliás toda a região litoral a Ocidente de Lisboa – era considerada como terra bravia e despovoada nos começos da nacionalidade”. Mas mais à frente, na mesma obra, acaba por atestar a importância de Cascais ao sublinhar a relevância da entrega do “Sturil”, actual lugar do Estoril, a Estevão Eanes, valido de Dom Afonso III, que comprova a importância daquele que é hoje o território municipal Cascalense.
 

 

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publicado às 18:23

Outros Carnavais em Cascais

por cascalenses, em 17.02.15

 

 
 
O Carnaval foi sempre uma das festas tradicionais de Cascais. Desde tempos imemoráveis, mas principalmente depois do desenvolvimento que resultou da chegada da corte para o final do estio, em 1870, o Domingo e a Terça-feira de Carnaval eram sinónimo de festa, brincadeiras e de um clima generalizado de boa disposição que envolviam as ruas e as pessoas que moravam em Cascais. Nesses outros Carnavais, eram as instituições de Cascais e os Cascalenses que as dirigiam, quem organizava os desfiles, os bailes e as demais tropelias que davam forma ao carnaval na nossa terra. Desde 1939, quando foi criada pela mão de Nunes do Santos, Florindo de Oliveira e, mas tarde, por Armando Vilar e Joaquim Aguiar, que a Sociedade Propaganda de Cascais começou a liderar a organização das festas, dando corpo a um conjunto de iniciativas nas quais participavam, de forma directa e indirecta, quase todos os Cascalenses. 
 
 
 

 

 
 

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publicado às 11:11

As Cheias em Cascais - 19 de Novembro de 1983

por cascalenses, em 19.11.14

 

 
 
Cumprem-se hoje 31 anos desde que Cascais amanheceu coberta de água. Naquela madrugada, numa noite de Sexta-feira para Sábado, preparava-se mais uma manhã de mercado saloio no centro da Vila. Por todo o lado, num cenário dantesco no qual o caos imperava, fluíam ao sabor das águas os sacos de batatas, as caixas de legumes e mesmo os carros e carrinhas que os transportavam. Naquela manhã, mesmo perante o pânico que estava instalado, ouviram-se desde cedo o som dos motores dos barcos que aproveitaram a situação para roubar lojas e casas. Ao mesmo tempo, na actual Praça Francisco Sá Carneiro, um casal de idosos morreu enquanto tentava desesperadamente serrar com uma faca de cozinha as grades que poucos dias antes havia mandado colocar nas suas janelas...  31 anos depois, aqueles que tiveram a infelicidade de acordar rodeados de águas, sem electricidade, telefone ou qualquer outro tipo de comunicação, ainda sentem no ar o cheiro putrefacto que emanava daquelas águas lamacentas. Nalguns recantos da vila, dentro de casas e em muros que ninguém imaginaria que algum dia estiveram submersos, ainda hoje se podem ver os restos das lamas que o dia 19 de Novembro de 1983 trouxe para Cascais. 
 
 

 

 

 

 


Fotos Recolhidas em Real Villa de Cascaes no Facebook

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publicado às 16:46

A Casa dos Expostos de Cascais

por cascalenses, em 11.11.14

 

 
por João Aníbal Henriques
 
Abordar a História de Cascais, numa primeira vista, pressupõe a menção a um infindável rol de nomes, mais ou menos importantes, ou de personalidades que viveram ou desempenharam as suas funções profissionais neste concelho. Para além destes, em alguns casos, fala-se também de conhecidas confrarias e corporações, que deixaram marcas profundas e de  grande relevo no desenvolvimento histórico da localidade.
 
No final do século XVIII, quando Portugal assumiu por fim a necessidade de congregar esforços no sentido de precaver a nação contra os infortúnios alheios, foi criada em Lisboa, de acordo com as ordens de Pina Manique  e as directivas da Rainha D. Maria, uma instituição de caridade denominada «Casa dos Expostos». Cascais, como peça fundamental do devir histórico da época, não esteve alheio a esta questão, decorrendo pouco tempo até que em aqui se instalasse um organismo semelhante.
 
 
 
 
De acordo com as informações de Carlos Andrade Teixeira, ilustre Cascalense, a Casa dos Expostos de Cascais teria sido criada no ano de 1822, recebendo no dia 27 de Julho uma primeira criança do sexo masculino, que foi posteriormente baptizada com o nome de Prudêncio e que viria a falecer um ano mais tarde.
 
A casa onde funcionava a "Roda", situava-se numa pequena edificação saloia na Travessa da Nazaré, e que ainda hoje existe embora muito alterada na sua formulação urbanística original, e estava munida de uma roda de madeira, que girava em torno de um eixo central, de modo a que as crianças enjeitadas pudessem ser colocadas no seu interior, sem qualquer espécie de identificação da pessoa responsável pelo acto. Depois, as crianças passavam rapidamente para as mãos de uma ama que as recolhia e que, a expensas do estado, promovia a sua educação durante os primeiros anos de vida.
 
As amas de Cascais, também elas figuras humildes e dedicadas ao ofício pelas necessidades financeiras, tinham obrigatoriamente de ser moças casadas e minimamente preparadas para o desempenho das suas funções, tal como se pode ler no despacho geral do intendente: «[...] moça casada, fecunda, bem constituída e aceada, a qual se conservará enquanto for possível;».
 
Se do ponto de vista psicológico o abandono de crianças nos últimos anos do século XVIII parece ser um aspecto ímpio da vivência portuguesa, por outro a instituição da Casa dos Expostos ou da Roda, é também ela evidenciadora de um sentido novo que emanava dos órgãos de estado portugueses. Estas crianças, que ganhavam assim uma oportunidade para se manterem vivas, embora em condições de extrema pobreza, estavam destinadas quase sempre a uma morte a prazo. Os cuidados de saúde daquela época, bem como a motivação que levava à candidatura das amas àquele cargo, determinava quase sempre a morte prematura do abandonado, que se sujeitava, sem que qualquer culpa lhe fosse formulada, a todas as vicissitudes que ordenavam a vida da Rodeira. Este problema, indiciador de uma certa sensibilidade por parte das entidades públicas Portuguesas, é também ele evidenciador de outras questões: Como é óbvio, a preocupação fica certamente a dever-se ao elevado número de crianças abandonadas, evidenciando um clima de instabilidade moral que grassava no País nessa época...
 
 
 
 
Numa perspectiva patrimonial, e porque a Casa da Roda de Cascais ainda se mantém no seu sítio, importante seria a recuperação integral daquele espaço. A manutenção da antiga Roda no centro da vila, indiciadora de todos os problemas económico-sociais anteriormente mencionados, é um excelente exemplo crítico de uma sociedade que não se encontra ainda muito longe de nós e que poderia contribuir para o reforço da atractividade da Vila de Cascais.
 
As características arquitectónicas do imóvel, perfeitamente enquadráveis na tipologia corrente no núcleo histórico da vila de Cascais, permitiram a subsistência de uma componente da memória colectiva que muitas vezes é delegada para segundo plano. A compreensão da história do município Cascalense, bem como da forma como se constituíram, programaram e delimitaram as funcionalidades urbanísticas deste espaço, ficaram a dever-se a componentes sociais e psicológicas que são levadas em conta na sua constituição e que poderiam ajudar-nos a perceber melhor a forma como funcionava a estrutura social desta nossa terra.
 
O centro histórico de Cascais, com as ruelas envolvidas em sombras escuras e húmidas, é o resultado da interacção da geografia, do urbanismo pré-existente, mas também dos condicionalismos sociais que deram forma à comunidade Cascalense. 
 
Desconhecida por quase todos, a Casa dos Expostos de Cascais é um exemplo da potencialidade patrimonial deste concelho, desaproveitada e tristemente votada a uma anomia que tanta insatisfação latente vai consolidando em torno de um identidade há muito deturpada pelos interesses específicos e particulares daqueles que nos governam.
 
Uma tristeza!

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publicado às 10:38

Toccata & Fuga - Miguel Sousa Tavares no Expresso Sobre a gestão Urbanística em Casais

por cascalenses, em 24.09.14

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publicado às 16:15

Etnografia Simbólica de Cascais

por cascalenses, em 11.06.14



por João Aníbal Henriques

Ao longo da sua extensa História, foram inúmeros os factores directamente condicionantes do desenvolvimento político, económico, social e religioso de Cascais. As suas numerosas linhas de água, serpenteando entre inúmeros montes e elevações de ténue e acentuada inclinação, entrecortadas de maciços calcários repletos de grutas e reentrâncias, propiciaram e condicionaram o aparecimento de estruturas simbólicas que, por seu turno, contribuíram para o aparecimento de estruturas simbólicas que, por seu turno, contribuíram para o desenvolvimento de formas individualizáveis de comportamento.


Esta forma de estar na vida, que é tipicamente cascalense, é diferenciável daquela que se fez sentir em crise em Sintra, onde o clima, o ambiente, os recursos hidrícos e os acidentes geográficos, são substancialmente diferentes dos que existem em Cascais. É de todos conhecida, com toda a certeza, a diferença que existe, no seio da Serra de Sintra, entre a vertente soalheira cascalense, e a encosta sombria e húmida de sintra, factor que, quanto mais não seja, influencia a forma de construção das edificaçõesque naqueles sítios são levantadas. Por outro lado, no que ao concelho de Oeiras diz respeito, as principais diferenças que o afastam do de Cascais, dizem respeito à composição do solo.

No concelho vizinho, tal como também na zona mais oriental do município cascalense, a riqueza do solo propiciou o desenvolvimento de uma vivência rural significativa, traduzível, como poderão constatar pela listagem patrimonial que apresentamos em anexo, na faceta saloia que caracteriza quase todas as construções edificadas nesse espaço até meados deste século. No entanto, e para além das influências que se processam a nível prático, e de onde se salientam as já referidas referências às construções particulares, existem muitas outras formas  de condicionamento à vivência das populações.

A prova disto, como não poderia deixar de ser, está patente nos diversos vestígios etnográficos que ainda subsistem no seio das comunidades que habitam nestes três concelhos. Hábitos antigos, passados de geração em geração e que, de forma mais ou menos exacerbada, acabam por influir no modo de vida da população, seja em termos práticos nas actividades profissionais do quotidiano, quer mesmo em termos simbólicos, nas vivências religiosas e místicas da população. Não será por mero acaso, por exemplo, que a figura de Nossa Senhora dos Navegantes é muito venerada em Cascais, facto que só se compreende pela proximidade das excelentes águas da baía, bem como da arte da pesca que hoje ainda, infelizmente de uma forma muito efémera, continua a funcionar como atractivo turístico para o centro da vila. 

Da mesma forma, as diversas lendas que existem em torno de locais onde foram edificadas capelas e ermidas, muitas vezes praticamente inacessíveis ao comum cidadão, e bastante importantes em épocas de romarias e procissões, só podem ser explicadas se tivemos em conta a organização interna do simbólico das populações e que, como verificámos ao longo dos muitos meses em que durou este trabalho, se pode relacionar directamente com as próprias características físicas do território municipal.

De facto, se nos ativermos aos números concretos daquilo que é hoje a realidade patrimonial do concelho de Cascais ou, pelo menos, àquilo que normalmente é considerado como objecto de valor patrimonial, depressa perceberemos que cerca de noventa por cento desses artefactos se inserem em tabelas tipológicas relacionadas com o simbólico. 





As conhecidas sandálias de calcário encontradas nas grutas artificiais de Alapraia, os artefactos votivos desenterrados do Espigão das Ruivas, as muitas capelas e ermidas, até à maior parte das habitações burguesas de finais do século XIX construídas no Monte Estoril e em quase toda a faixa costeira, são apenas alguns exemplos de facetas patrimoniais relacionadas com esta questão, salientando-se aqui, como resultado da observação directa dos objectos ou edificações em questão, o facto de que o passar dos tempos, com a consequente mudança das mentalidades, não foi factor suficientemente condicionante para influenciar grandemente nem tão pouco transformado de forma significativa a forma de pensar dos cascalenses.

De facto, desde a época pré-histórica até à actualidade, muito embora se tenham modificado os cultos, é possível vislumbrar um factor que serviu de fim condutor e que sempre condicionou a vivência simbólica destas comunidades, não só em termos de ocupação de espaços sagrados, como consequência deste facto, encontrar vestígios nos rituais habituais de modos de agir que possuem as suas raízes envoltas nos mantos cerrados das brumas do tempo. A explicação para este facto, sempre dependente da perspectiva com que se encara o fenómeno e que, de alguma forma pode ser condicionada pela interpretação pessoal da realidade, encontrar-se-á provavelmente no próprio carácter físico da humanidade. 

Desde tempos remotos, quando mesmo os aspectos mais básicos da tecnologia se encontravam fora do alcance da mente humana, que o Homem tem necessidade de explicar as causas dos acontecimentos que ocorrem quotidianamente. No entanto, e como a maior parte deles o transcendem ou ultrapassam a sua capacidade de explicação, a consequência antropológica é a procura no Além do elemento-chave para o deslinde do mistério, factor observável em Cascais como em todos os pontos do globo onde a influência física do Homem se fez sentir. 

Neste espaço, incentivado pelas características do território, onde o estado do mar condicionava a actividade piscatória, e onde os bons e maus anos agrícolas acabavam por influenciar a produtividade da terra, essas características são naturalmente incentivadas, uma vez que a explicação da fertilidade, ou mesmo a natural procura do melhor, condicionam o aparecimento de formas de pensar que se vão interiorizando e transformando em mitos; esses mitos, por seu turno, vão ter de ser enquadrados dentro das actividades normais do grupo, e para tal, com a ajuda das estruturas e instituição próprias da organização social humana criam-se ritos e rituais, que propagavam e consolidavam a primitiva interpretação pessoal do facto em questão; como consequência do desenvolvimento destas formas de agir, e uma vez que a sedentarização de um grupo humano implica, logo à partida, a necessidade de incentivo da ligação entre o indivíduo e a terra, aparecem então as implicações directas no património, seja em termos de construções de carácter puramente sagrado, como são, por exemplo, as necrópoles e os templos, até aos mais básicos vestígios das habitações pessoais, onde se espelham muitos dos aspectos ligados a esta vivência religiosa.





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publicado às 12:51

O Marégrafo de Cascais

por cascalenses, em 20.01.14

No final do Século XIX, depois de Dom Luís ter escolhido Cascais para o seu período de veraneio, a Vila transformou-se num imenso cadinho de novidades que alteraram de forma profunda o seu dia-a-dia e a dinâmica da povoação.

Para além da luz eléctrica e do telefone, bem como de várias benfeitorias introduzidas na Vila pelo Visconde da Luz, em 1882 Cascais assistiu à inauguração do seu Marégrafo. O instrumento, que servia para recolher dados sobre as correntes e sobe as marés, foi determinante na definição do sistema de altimetrias Nacional, tendo contribuído de forma decisiva para a criação de uma estrutura de análise e estudo do mar.

Mudado para o local onde actualmente se encontra em 1895, depois de se ter verificado que a localização inicial não permitia uma leitura correcta dos dados, o Marégrafo passou a fazer parte da linha de paisagem de Cascais e da sua baía, assumindo-se como fulcro de ligação dos Cascalenses ao mar.

Do seu varandim, ao qual se acedia através de uma escadaria situada no final do Passeio Maria Pia, muitos eram aqueles que aproveitavam as suas vistas abertas para descansar ao som cadenciado da ondulação.

Depois da inauguração da Marina de Cascais e, mais tarde, da remodelação do Clube Naval de Cascais, o Marégrafo foi completamente engolido pelo betão, tendo-se perdido no seio de um espaço fechado ao público e tendo deixado de usufruir da antiga ligação aberta aos mares de Cascais.

Falta de senso, de consciência patrimonial e de capacidade de entender a importância simbólica que este tipo de equipamentos e monumento tem no imaginário colectivo e na identidade municipal, determinaram que o Marégrafo seja hoje uma mera peça sem préstimo e sem dignidade que, afastado do usufruto dos Cascalenses, perdeu a importância que durante mais de um século teve na vida desta terra.

 

Mudam-se os tempos, mudam-se os governantes e o regime… e vão-se esvaziando os vínculos antigos de Cascais.

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