Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

cascalenses

cascalenses

A Aldeia Nova de Cascais no Alto da Bela Vista

João Aníbal Henriques, 21.03.20
 

 

 
O Cascais que conhecemos e em que hoje vivemos, resultante das grandes alterações havidas na vila a partir do último quartel do Século XIX quando o Rei Dom Luís escolheu este espaço como destino privilegiado de veraneio, esconde de forma literal todo um enquadramento histórico que deriva do processo natural de nascimento, crescimento e afirmação da urbe no contexto nacional. O Alto da Bela Vista é exemplo paradigmático desta situação, pois reúne em si mesmo um conjunto de memórias consubstanciadas em património urbano de primeira importância para Cascais, que ficou encoberto pela assimilação daquele espaço pelo perímetro histórico consolidado da vila que agora temos. Conhecer a génese histórico/urbanística do Alto da Bela Vista é, desta forma, um importante contributo para a recuperação da Memória Histórica e, por extensão, da Identidade Municipal de Cascais, reafirmando a capacidade de enquadramento dos projectos que surjam para aquele local e potenciando o seu valor enquanto factores consolidadores da cidadania local.

 

 
por João Aníbal Henriques 
 
 
 
 
A Génese do Espaço e as Memórias de Cascais
 
Ninguém sabe, de forma efectiva, onde Cascais nasceu. A urbe que hoje temos, tradicionalmente marcada pelo epíteto de “Vila de Reis e de Pescadores”, é o resultado efectivo de um enorme conjunto de acontecimentos que por aqui se desenvolveram ao longo dos séculos.
 
Sabendo-se que a ligação de Cascais ao mar é realidade inata à própria existência de aglomerados habitacionais neste espaço, o certo é que a ligação da vila aos seus ilustres pescadores nem sempre se desenhou a partir dos cenários que hoje conhecemos.
 
Nos primórdios da existência humana em Cascais, quando as primeiras comunidades deambulavam em busca de segurança e alimento, o espaço agora ocupado pela vila oferecia condições excepcionais de habitabilidade.
 
O mar, fonte praticamente inesgotável de alimentos, assegurava praticamente ao longo de todo o ano, o sustento necessário à sobrevivência humana. E, se o clima e a paisagem eram (e são cada vez mais) paradisíacos, faltava assegurar somente uma dessas componentes básicas que dão sustento a existência de comunidades humanas: o abrigo e a segurança perante ataques e intempéries.
 
Mas neste campo, possivelmente diferenciando Cascais das demais enseadas arenosas e desérticas que abundavam na região, possui no seu subsolo um conjunto de grutas e cavidades que, furando a pedra calcária que dá forma ao nosso solo, formam um vasto complexo de cavernas que apresentavam excelentes condições de acesso e habitabilidade.
 
 
 
 
Torna-se fácil perceber, desta maneira, a razão de ser de ter sido provavelmente nas actuais Grutas do Poço Velho, situadas no sopé do morro da Bela Vista, que Cascais nasceu efectivamente. E de, nesses tempos imemoriais do Paleolítico, terem sido ocupadas por caçadores-recolectores que naturalmente utilizavam o mar como sua fonte principal de alimentos.
 
Cascais nasceu ali, há dezenas de milhares de anos atrás, a partir do binómio que ainda corporiza o inconsciente colectivo da grande maioria dos Cascalenses: o Sol e o Mar, definindo na sua lógica de desenvolvimento urbano uma componente que vincula ambas as realidades perante a necessidade maior de oferecer qualidade de vida a todos os seres humanos que ali se instalaram e que escolheram este como o local ideal para viver.
 
Suficientemente afastadas do mar para poderem salvaguardar a segurança desejada mas, ao mesmo tempo, próximas o suficiente para serem acessíveis no labor quotidiano, foi no espaço das Grutas do Poço Velho que nasceram as primeiras comunidades piscatórias locais. Foi também ali, a partir dos pressupostos atrás elencados, que nasceram e se criaram as técnicas, as práticas e os conhecimentos que aproximam Cascais do mar até à actualidade.
 
A consolidação e a sedentarização destas primeiras comunidades humanas na génese do território Cascalense inicia então um processo de paulatina aproximação física ao mar e às praias. O desenvolvimento de conhecimentos na área das construções e a pacificação que resultou do processo de Neolitização, tornou possível virar costas aos abrigos naturais proporcionados pelas grutas e optar por formas de abrigo mais precárias e melhor posicionadas relativamente ao mar. Nascem assim os primeiro aglomerados pré-urbanos, possivelmente localizados em torno da Baía de Cascais, a partir da construção de casas feitas com materiais perecíveis e cujos vestígios não chegaram naturalmente até à actualidade.
 
Na época Romana, na qual a urbanidade já tinha atingido outros níveis de conhecimento, já encontramos vestígios arqueológicos de ocupação humana na actual zona do castelo, de cara voltada para o mar mas ainda assim aproveitando o desnível do terreno para assegurar alguma segurança suplementar (ver as Cetárias Romanas situadas na Rua Marques Leal Pancada), ao mesmo tempo que o espaço antigo das velhas grutas de outros tempos vai ficando olvidado.
 
 
 
 
 
Durante muitos séculos a vida de Cascais recentrou-se em volta da Baía. Era ali que se situavam as velhas cabanas abarracadas onde pernoitavam os pescadores que aqui chegavam, era também ali que se situavam as indústrias de salga e conserva de peixe que tornaram próspero o lugar.
 
Utilização e Usufruto
 
Mas como nada é linear na História de Cascais, importa perceber que a concentração de esforços e o assentamento das primeiras comunidades na actual zona junto ao mar, não representou necessariamente o abandono dos velhos espaços. Pelo contrário.
 
Nas Grutas do Poço Velho e, de forma muito progressiva nas encostas do morro da Bela Vista, foram ficando pequenas comunidades humanas que trabalhavam e rentabilizavam esses espaços.
 
A primeira notícia que temos desta realidade situa-se precisamente junto à entrada nas Grutas do Poço Velho numa das ruas que dá acesso às mesmas para quem vinha da zona saloia situada no triângulo verdejante e próspero que liga a Serra de Sintra ao mar. Na pequeníssima e quase desconhecida Capela de Nossa da Conceição de Porto Seguro, está ainda hoje uma placa votiva que refere que o templo e o hospício que lhe estava anexo foi construído em 1691por Paschoal Dias e Maria da Costa, originários de Oeiras e que ofereceram esse espaço aos Frades Capuchos  de Santa Cruz da Serra de Sintra.
 
E por ali, contrariamente ao que hoje se sabe, consolidou-se um núcleo de povoamento dependente do apoio social proporcionado pelo hospício e, concomitantemente, pelo amparo espiritual da invocação maior que Nossa Senhora da Conceição represente em Cascais e em Portugal…
 
 
 
 
De tal forma foi importante esse povoamento do local, demonstrando a documentação existente que houve efectivamente um afastamento real entre esse espaço e o da consolidação urbanística da Vila de Cascais e seus arrabaldes, que já no Século XIX, quando a Corte escolhe a vila como estância de veraneio, Francisco Marques Leal Pancada, um benemérito Cascalense também relacionado profissionalmente com a conservação do peixe, adquire a capela e o hospício e efectua amplas obras de conservação e restauro.
 
É importante não esquecer que foi precisamente Leal Pancada que, tempos depois, oferece à população de Cascais o terreno onde virá a ser construído o Hospital dos Condes de Castro Guimarães, situado mesmo em frente ao local onde se situava o Campo Santo e o cemitério principal da localidade.


 
 

A Vila Nova de Cascais, por ironia do destino localizada precisamente sobre o local onde Cascais nasceu, cresceu assim com uma dinâmica própria e a pujança de um local que detinha meios próprios de subsistência. Sendo um arrabalde da vila propriamente dita, preservou a sua identidade e consolidou a sua importância no crescimento e consolidação geral da vida Cascalense.
 
Memórias e Identidade
 
Na caracterização da unidade urbanística que resulta do devir histórico da Aldeia Nova de Cascais e do próprio Alto da Bela Vista, importa recuperar muita da informação presente no “Levantamento Exaustivo do Património Cascalense” (Fundação Cascais: 2000) onde se elencavam cada casa e cada detalhe com relevância para a compreensão deste importante núcleo Cascalense.


 
 
As peças que hoje restam, para além do aglomerado habitacional que foi sendo construído a partir da criação do velho hospício e da Capela de Porto Seguro, ambos peças-chave para compreender e contextualizar eventuais intervenções futuras a realizar naquele espaço, cingem-se tão somente aos detalhes arquitectónicos que sobreviveram às agruras impostas pelos novos tempos e pelas novas necessidades. As cantarias das portas e das janelas, muitas delas com decoração singela em memória de realidades que não existem já, foram reutilizadas em processos de demolição e reconstrução sucessivas que por ali se foram fazendo. E na divisão dos lotes, mesmo com as contrariedades impostas pelo emparcelamento, ainda é possível encontrar os vestígios daquele que foi o Cascais primordial de outros tempos, com as suas courelas e pequenas quintas, os velhos currais de gado e até as actividades de apoio à vida quotidiana no coração da vila.


 
 
Esta vertente “saloia” da Aldeia Nova, o local onde se produzia muito daquilo que se consumia na vila de então, foi-se consolidando com o desenvolvimento industrial. Em primeiro lugar, logo ali ao lado, a Real Fábrica de Lanifícios de Cascais e, mais adiante, a Fábrica de Conservas de Peixe que ajudou a definir a margem direita da ribeira. O hospício, que entretanto foi evoluindo para um verdadeiro hospital (e cujo edifício ainda lá se encontra transformado em espaço residencial), era destino eminente para os mais pobres e desfavorecidos da sociedade de então. Convergiriam para ali os que tinham menos posses e meios, sendo certo que pescadores e mareantes ali encontravam o consolo físico e espiritual para os males que os afectavam.
 
Será eventualmente por isso que, a título de explicação, se mantém a ligação perene entre o mar e este arrabalde “longínquo” do centro de Cascais onde, aliás, se situava o cemitério onde encontravam os pescadores o seu eterno descanso. Possivelmente por isso igualmente, e parecendo pôr em causa toda a lógica e discernimento, ali é construído em época mais recente o “Bairro de Nossa Senhora dos Navegantes” (vulgo Bairro dos Pescadores) que, até há muito pouco tempo era cenário de velhos barcos esventrados ou em operações de reconstrução, pousados em pequenos terrenos cheios de redes e apetrechos velhos de pesca.


 
 
Enquadramento Urbanístico
 
A apreciação de operações urbanísticas neste espaço, natural por sabermos que o envelhecimento do espaço determina necessariamente a sua recuperação, actualização e modernização, deveria ter em conta esta identidade própria do Alto da Bela Vista e a sua importância efectiva na definição daquilo que ainda hoje é Cascais.
 
O enquadramento dos futuros projectos nesta realidade, bem como a rentabilização das memórias patrimoniais que ali subsistem, ajuda a qualificar as intervenções e, desta forma, consolida a Identidade Municipal e promove a memória colectiva.
 
Interpretar desta maneira a realidade que temos em linha com as pré-existências dos diversos lugares, assegura aos que projectam nos mesmos condições ímpares para reforçarem igualmente a sua atractividade e, por extensão natural, o valor intrínseco dos empreendimentos e espaços.
 
Por esse motivo ganha redobrada importância a proposta de requalificação do edifício situado na Rua da Bela Vista, cuja Certidão Urbanística foi discutida na última reunião de Câmara. Toda e qualquer intervenção efectuada no âmbito do contexto urbanístico e patrimonial que seja sinónimo de melhoria da qualidade dos edifícios, e que o faça sem desvirtuar o seu enquadramento genérico na realidade local, é contributo decisivo para o reforço da vocação turística municipal, sendo que esta, conforme está plasmado no próprio Plano Director Municipal, deverá ser resultando de um acréscimo na identidade dos moradores e frequentadores do local.


 
 
O potencial educativo e pedagógico do Alto da Bela Vista, tal como acontece em tantos outros cantos e recantos de Cascais, é imenso. É ali que reside a possibilidade de as novas gerações criarem laços e vínculos perenes com quem os antecedeu na ocupação deste espaço. Só assim, com esses laços bem evidentes e com uma abordagem politicamente consciente desta importância, será possível fazer crescer Cascais com qualidade, motivando os equilíbrios sociais com as necessidades de prosperidade e empreendedorismo, e zelando por um reforço efectivo da Identidade Municipal, essencial para uma cidadania consciente e, em última instância, para uma democracia saudável.


 
 
Conclusão
 
A Aldeia Nova de Cascais é uma realidade desconhecida de quase toda a gente. E esse facto, associado aos naturais processos de rejuvenescimento dos nossos espaços habitacionais consolidados, acaba por fazer perder potencialidades que um conhecimento enquadratório daquela realidade almejaria alcançar.
 
Compreender a razão de ser daquele espaço, os motivos que levaram a que tivesse chegado até nós com as características que nele reconhecemos e as potencialidades imensas que possui para a definição da qualidade que todos desejemos para Cascais, ajuda os técnicos que formulam e apreciam os projectos para aquele lugar, os professores e educadores das escolas locais, os políticos que decidem os destinos da nossa terra, e até o cidadão comum que pretende construir ali (ou reconstruir) a sua casa, a tomar as decisões que melhor correspondem aos interesses de todos os Cascalenses.
 
Porque sem consciência de quem somos, de onde viemos e para onde vamos, as discussões acabam naturalmente por perder-se nos interesses mais mesquinhos e imediatos, delas resultando pouco mais do que uma pequena peça na engrenagem imensa com que o sistema político que temos nos constrange.
 
 
Porque como dizia Pedro Falcão no seu “Cascais Menino”, este é “o Cascais com que sonhamos”. 
 
 

Padre Raúl Cassis Cardoso (1928-2019)

João Aníbal Henriques, 15.01.19
 
 
Figura marcantíssima, interveniente, controversa e sempre presente na História recente de Cascais, faleceu hoje, aos 90 anos de idade, o Padre Raúl Cassis Cardoso.
 
Nascido no Distrito de Santarém, o Padre Raul foi ordenado Sacerdote em 1952 pelo então Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira e, depois de um périplo pelas Paróquias de Carregueiros, Pedreira, Calhandriz e Alverca do Ribatejo, assumiu a liderança da Paróquia de Cascais em 1970, ainda na juventude dos seus 41 anos. Durante os que 4 décadas em que esteve em Cascais, o Padre Raúl foi responsável pela dinamização generalizada da Paróquia local, tendo sido o motor principal de muitos dos movimentos paroquiais que deram forma ao Cascais que hoje temos.
 
 Activo e sempre interveniente, nem sempre de trato fácil quando em causa estavam as suas mais profundas convicções, foi líder espiritual de uma comunidade que nele se reviu durante muitos anos e cujo exemplo motivou as vidas de quase todos aqueles que com eles tiveram a sorte de se cruzar. Quando em 2008 deixou a liderança da Paróquia de Cascais, e se retirou para aqueles que seriam os seus últimos anos de vida, o Padre Raúl manteve-se permanentemente bem vivo na memória de milhares de Cascalenses que recordavam com saudade a sua dedicação à Igreja e à comunidade local. 
 
Ainda há pouco tempo, quando a atribuição de um topónimo com o nome de um dos seus antecessores a um arruamento na Freguesia de Cascais o fez regressar à terra onde trabalhou durante tantos anos, foi com amizade que a comunidade local o recebeu, enchendo com o carinho de um familiar muito próximo os ânimos daqueles que tiveram a oportunidade de com ele conviver.
 
O Padre Raúl Cassis Cardoso marcou Cascais, a Paróquia que tão bem dirigiu e a vida de centenas de crianças (hoje adultos) que dele receberam as primeiras orientações espirituais. Que descanse em paz como merece. Cascais não o vai esquecer.

Dom Diogo de Menezes – Heróis & Traidores em Cascais

João Aníbal Henriques, 20.03.17

 

 
 
Entre 1580 e 1640, Portugal atravessou um dos mais negros períodos da sua História e Cascais desempenhou um papel essencial neste triste episódio. A traição do então Senhor de Cascais, que num acto hediondo vendeu a Nossa Terra à Coroa Espanhola, contrastou com a coragem heróica com a qual D. Diogo de Menezes defendeu Portugal. Pagou muito caro pela sua lealdade e foi indignamente executado na Cidadela de Cascais em 1580, deixando atrás de si uma lenda de glória que o tempo não vai conseguir destruir…
 
por João Aníbal Henriques
 
A perda da independência nacional, em 1580, foi um dos episódios mais negros da História de Portugal. Fruto da imberbe actuação do Rei Dom Sebastião no Norte de África, e dos muitos interesses que desde sempre corporizaram o poder político Português, o país mergulhou na sua maior crise de sempre, entregando o trono de Portugal ao usurpador Espanhol.
 
Apesar do então Senhor de Cascais ser traiçoeiramente partidário das pretensões de Filipe II de Espanha, o povo de Cascais não hesitou em apoiar a causa de Dom António, Prior do Crato, participando activamente na sua aclamação como Rei de Portugal. Até à implantação da república, em 1910, manteve-se na toponímia Cascalense uma homenagem sublime ao monarca Português, consubstanciada numa “Rua D. António I”, representando simbolicamente o leal apoio de Cascais à Causa Nacional.
 
 
 
 
Nessa altura crítica, quando o Rei Dom António escolhia os seus mais fiéis e bravos apoiantes para defender Portugal do avanço das tropas Espanholas, D. Diogo de Menezes, que tinha sido Governador de Ormuz e Vice-Rei da Índia, foi nomeado General e colocado como Comandante da Fortaleza de Cascais.
 
Soldado experiente e bem preparado, D. Diogo de Menezes organizou as suas parcas forças de forma a assegura a inexpugnabilidade da fortificação Cascalense perante o ataque Espanhol. E, quando no dia 27 de Julho, o Duque d’Alba desembarca em Sesimbra, Cascais estava a postos para defender Portugal.
 
Mas o Senhor de Cascais, acompanhado da sua cáfila de meia-dúzia de traidores, empenha-se em entregar aos invasores informações detalhadas sobre a defesa da terra, permitindo ao Duque d’Alba desembarcar inesperadamente na Lage do Ramil, junto ao Farol da Guia. E, não satisfeito com a sua traição, organiza a corja que o acompanha de forma a conseguir abrir as portas da fortaleza, onde D. Diogo de Menezes defendia activamente a Causa Portuguesa.
 
Derrotado pela diferença abissal de forças entre o seu pequeno contingente Cascalense e a enormidade do exército Espanhol, Diogo de Menezes é capturado depois de uma batalha renhida e terrível e invoca as leis da honra e da cavalaria para, em conformidade com a sua alta posição hierárquica dentro das tropas do Rei Dom António, o deixarem regressar a Lisboa para ajudar o monarca. Mas o invasor Espanhol, num acto que subverte a própria honra militar, manda executar o herói Português na própria parada da fortaleza…
 
 
 
 
Conta o historiador espanhol António de Herrera  y Tordesillas que “eram quatro da tarde e estava a praça apinhada de piques e arcabuzes alemães, e no meio dela via-se o cadafalso, onde o sangue nobre ia sujar os brasões de um dos maiores de Espanha, fazendo-o expiar as nódoas estampadas pela venialidade de haver esquecido quem era e o que devia aos seus antepassados e ao reino de Espanha”…
 
E na mesma linha, sublinhando a dignidade heróica de D. Diogo de Menezes na defesa corajosa da liberdade de Portugal, Ferreira de Andrade não hesita em indicar a traição do Senhor de Cascais como um dos actos mais ignóbeis da nossa História, em linha com a falta de dignidade e de honra que caracterizou a decisão brutal do Duque d’Alba: “Assim morreu nesta vila de Cascais um dos mais nobres e honrados fidalgos de então, pelo crime horrendo de ser Português. Uma mancha de sangue marcaria para sempre, como um estigma de ignomínia, os gloriosos feitos do grande general de Filipe II”.
 
D. Diogo de Menezes, heróico defensor da Portugalidade, morreu em Cascais a lutar ao lado dos Cascalenses pela defesa da independência de Portugal.  A sua memória, parte maior da Memória de Cidadania desta Nossa Terra, é pilar estrutural da Identidade Municipal.
 
Promover a memória dos seus feitos e a coragem que demonstrou ter na defesa de Portugal, é assim obrigação de Cascais, onde o seu sangue jorrou perante o desespero dos Cascalenses de então. Porque dos ecos da sua grandeza se retiram lições fundamentais para preparar o futuro das próximas gerações…

Maravilhas de Cascais - O Trilho Saloio da Ribeira das Vinhas

João Aníbal Henriques, 07.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Está de parabéns a Câmara Municipal de Cascais pela excelente intervenção realizada no primeiro troço da Ribeira das Vinhas, entre as traseiras do Mercado Municipal e a Quinta do Casal Ventoso. A recuperação minimalista da antiga serventia saloia, praticamente sem interferências ao nível dos equilíbrios ecológicos do espaço, recupera a ancestral ligação entre Cascais e a suas origens rurais, promovendo a memória colectiva e a identidade municipal.
 
Respondendo a um desejo demasiado antigo expresso pelos Cascalenses no sentido de se proceder à recuperação da antiga serventia saloia da Ribeira das Vinhas, em Cascais, a edilidade requalificou recentemente o primeiro troço do velho trilho, entre a vila e o acesso à Pampilheira.
 
A intervenção, minimalista tal como advogavam os que defendiam o projecto (Ver AQUI), permite o usufruto de uma das mais impactantes paisagens de Cascais, descobrindo um recanto essencial para se conhecer e perceber a História Rural Cascalense (Ver AQUI).
 
Antigo trilho que ligava a vila às aldeias saloias do Cobre, Pampilheira, Murches, Birre e Zambujeiro, a Ribeira das Vinhas foi utilizada desde tempos imemoriais como espaço de troca entre as comunidades que subsistiam da agricultura e que se situavam na zona mais interior do Concelho, e as comunidades piscatórias e cosmopolitas do litoral.  Era através deste caminho de pé-posto, normalmente atravessado pelos grandes rebanhos de ovelhas que noutros tempos marcavam o panorama económico de Cascais, que a vila se abastecia dos bens mais essenciais, como o leite, o pão, a farinha, o queijo e as hortaliças. E era também através dele que, em burricadas que ainda perduram na memória dos mais velhos, as lavadeiras transportavam a roupa que lavavam nas suas aldeias.
 
 
 
 
Para além da imensa riqueza ecológica, bem visível através das muitas espécies de animais que sobrevivem naquele espaço, a Ribeira das Vinhas apresenta ainda um conjunto importantíssimo de património histórico, ao qual se juntam os complexos de grutas e uma paisagem de extraordinária beleza.
 
A intervenção agora concretizada pela Autarquia é, assim, um importante contributo para o fomento da cidadania em Cascais, com possibilidade de rapidamente se transformar num instrumento pedagógico e educativo para as escolas onde estudam as novas gerações de Cascalenses.
 
Sugestões para complementar e melhorar a intervenção agora concretizada:
 
 
 
 
PROLONGAMENTO DA INTERVENÇÃO
 
Sendo excelente, a recuperação agora concluída cinge-se aos primeiros metros da antiga serventia saloia. É essencial que a mesma se prolongue acompanhando o leito da ribeira, numa segunda fase até Alvide e à Quinta das Patinhas e, depois de se ligar ao Parque das Penhas da Marmeleira, atravessando o Vale do Zambujeiro e a Quinta do Pisão em direcção à Barragem do Rio da Mula.
 
 
 
 
RECUPERAÇÃO URGENTE DA ENTRADA
 
O troço existente entre as traseiras do mercado (que agora foi designado como Rua Padre Moysés da Silva) e o início do caminho, está num estado deplorável de abandono. Sem controlo de tráfego e coberto de viaturas por ali estacionam sem regras nem cuidado, é um imenso lamaçal quando chove e um mar de pó durante o tempo seco, impedindo o acesso e o usufruto do espaço recuperado.
 
 
 
 
MOBILIDADE COMUNITÁRIA
 

 

Permitindo uma ligação muito simples e rápida do centro de Cascais aos principais bairros da periferia, é urgente que a intervenção seja complementada com as ligações aos trilhos de Alvide, do Bairro de São José e do Outeiro da Vela. Para além de muitos simples de concretizar, porque os trilhos já existem há muitos séculos, devolverão às comunidades locais um meio acrescido de mobilidade e de acesso ao centro.  

Manuel Possolo e as Memórias Profundas de Outros Carnavais em Cascais

João Aníbal Henriques, 23.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando Manuel Possolo nasceu, em 1910, Cascais enfrentava um dos maiores desafios da sua história. A implantação da república, pondo fim à relação afectiva que a vila possuía com a Família Real, condicionou o desenvolvimento da localidade, exigindo imaginação e uma imensa capacidade de adaptação para que os novos tempos mantivessem incólume o registo de qualidade que até aí tinha sido apanágio de Cascais.
 
Mas a Nossa Terra esteve à altura do desafio. Marcando de forma extraordinária os novos tempos de Portugal, Cascais foi capaz de se reinventar, recriando uma nova geração de Cascalenses que souberam honrar a herança dos antepassados, ousando singrar um caminho novo ao qual dedicaram a sua vida e que foi essencial na definição da nossa nova identidade.
 
José Florindo de Oliveira, Boaventura Ferraz, Armando Vilar, Fausto Figueiredo e Abreu Nunes foram alguns dos vultos maiores desta época grandiosa. A vocação turística de Cascais, que a marca “Estoril” dignamente representou, assentava no carácter único desta terra especial e na dinâmica empresarial dos seus primeiros promotores. Mas entre eles, com uma capacidade visionária e um espírito empreendedor fora do usual, estava alguém que marcou definitivamente o futuro municipal…
 
Manuel Possolo foi um dos mais activos membros da sociedade civil Cascalense. Enquanto director da Sociedade Propaganda de Cascais, foi um dos fundadores do Clube Naval de Cascais e um dos entusiastas que deu corpo às inúmeras iniciativas de propaganda da vila, nomeadamente os concursos de montras, os bailes de angariação de fundos para construção do hospital e da praça de toiros e os corsos de Carnaval.
 
 
 
 
A sua paixão pelos cavalos, que começou com a transformação do fosso da Cidadela numa espécie de picadeiro que servia para treino hípico, culminou com a realização de muitas dezenas de concursos de saltos que transformaram os Estoris numa das referências hípicas mundiais.
 
Foi ele quem viabilizou a cedência de uns terrenos que pertenciam ao Visconde dos Olivais, para ali se construir um moderno e magnífico hipódromo onde decorreu, em 1937, o primeiro grande concurso hípico de Cascais. A qualidade do seu trabalho foi reconhecida em 1961, quando o Presidente da República o agraciou com a Medalha de Mérito Desportivo, assumindo a importância que teve na promoção internacional de Cascais através da fama de excelência e do prestígio que os concursos hípicos que organizava traziam para a Costa do Estoril.
 
Quase esquecido da generalidade dos Cascalenses, que recentemente viram uma parte substancial dos terrenos do hipódromo transformados num inusitado parque de estacionamento (!), a memória de Manuel Possolo perdura singelamente na designação oficial do equipamento que criou: “Hipódromo Municipal Manuel Possolo”.
 
Faleceu no Carnaval de 1979 e a sua memória cruza-se com a Memória Colectiva e com a própria Identidade Municipal.
 
A bem de Cascais!

A Areia e a Capela de São Brás em Cascais

João Aníbal Henriques, 09.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando em 1997, em pleno processo de preparação do Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, publiquei um trabalho sobre a história da ruralidade da Freguesia de Cascais (*), a povoação da Areia era ainda palco privilegiado das ancestrais tradições rurais que deram forma ao município de Cascais.
 
No Largo de São Brás, expressão máxima do sentido comunitário da localidade, congregavam-se os elementos principais de uma existência na qual a ligação aos trabalhos da terra e uma dependência extrema relativamente às agruras da natureza, se revezavam amiúde, representando o principal sustentáculo de um ideário comunitário comum que conduziu à arreigada identidade que a localidade ainda possui.
 
 
 
A Capela de São Brás, o chafariz e o lavadouro comunitário, partilham por ali o coração simbólico da Areia, dando forma a uma existência na qual a singeleza do quotidiano funciona como elemento motivador de uma forma de ser e de estar que fomenta o tecido social do local.
 
 
 
 
A Areia, de cujas origens pouco se conhece, apresenta um topónimo que deriva da proximidade à Praia do Guincho e a estrutura pobre dos seus solos. Mas, é também essa aparente fragilidade natural que, conjugando-se em processos dinâmicos de sobrevivência, vem determinar uma série de práticas que são vincadamente locais e extraordinariamente únicas no contexto da existência rural de Cascais e de Portugal.
 
Do período romano, o povoado dos Casais Velhos, com a milenar fábrica de púrpura e a ligação directa à cabeça do Império, representa a expressão máxima da sua monumentalidade, traduzida em algo que, apesar do abandono a que tem sido devotado ao longo dos últimos anos, é irrepetível e assume laivos de primeira linha no inventário do património Cascalense.
 
Mas a Capela de São Brás, situada em plano coração da Areia, é também ela eixo essencial na estruturação moderna da localidade, representando um papel catalisador no desenvolvimento da estrutura social que há-de definir o devir quotidiano naquele espaço.
 
Sem origem cronológica conhecida, a Capela de São Brás que hoje conhecemos será certamente o resultado de um processo de paulatino desenvolvimento. A sacralidade do local, provavelmente marcado por um antigo templo e/ou ermida que por lá tenha existido, foi necessariamente o ponto de partida de uma expressão cultual que gera em seu torno os elementos necessários à fixação humana. Em 1527, quando se realizou o primeiro recenseamento à população, a Areia tinha somente nove vizinhos, o que corresponde a pouco mais de duas dezenas de pessoas, que entre si partilhavam os parcos recursos que resultavam do trabalho da terra.
 
 
 
 
A pobreza material da população, cessada que estava a exploração riquíssima da produtiva fábrica de púrpura, está bem expressa na formulação urbanística da localidade e, sobretudo, no carácter chão da arquitectura desta sua capela. De traços simples e simbolicamente próxima dos valores muito regulares que sempre caracterizaram a existência local, a Capela de São Brás conjuga em si os principais elementos que nos ajudam a perceber e a conhecer a povoação.
 
A devoção a São Brás, o santo arménio que começa a sua vida adulta como médico e que abandona tudo o que tem e o seu dia-a-dia na cidade depois de ouvir o chamamento de Deus, é também ela ilustrativa do carácter longínquo que a Areia representou durante muitos anos, em linha com a opção do Santo por uma vida de eremita, devotado à interioridade e à oração, em comunhão profunda com a solidão da natureza. A singeleza da história, a mesma que caracteriza a Capela de São Brás e mesmo o devir quotidiano na localidade da Areia, dão nota desse desligar sentido das correntes que nos prendem permanentemente à clausura da materialidade, representando um ímpeto de libertação que é resultado da proximidade a Deus.
 
A Areia, na sua ligação a São Brás, representa assim a profundidade da entrega devocional de Cascais à causa do despojamento material, numa sentida e assumida opção pela simplicidade extrema.
 
As duas devoções que estão nos altares secundários deste templo, entregues a Nossa Senhora de Fátima e ao Sagrado Coração de Jesus, são também elas expressivas deste caminho, denotando uma continuidade na prática devocional que terá obrigatoriamente de assentar numa vivência comunitária solidamente assente num conjunto e valores simbólicos desenvolvidos ao longo de muitos anos.
 
Visitar a Areia e a Capela de São Brás, num exercício de libertação perante a opressão sensível do charme de Cascais e dos Estoris, é assim uma oportunidade para entender a perenidade desta escapatória axial na formulação mais profunda da comunidade e do património Cascalenses.
 
 

 

(*) HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.

A Lenda da Boca do Inferno

João Aníbal Henriques, 07.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A dicotomia entre o mal e o bem, num jogo em que as memórias efectivas se misturam amiúde com as entoações próprias dos sonhos, assume especial importância na Boca do Inferno, em Cascais, um recanto encantado no qual se conjuga uma paisagem extraordinária com uma inesquecível história.
 
Diz a lenda que naquelas paragens, num castelo cujas memórias pétreas nunca chegaram a olhos humanos, vivia um gigante maligno que padecia do maior dos males que afectam a humanidade: o amor. Profundamente apaixonado por uma donzela maravilhosa que não o correspondia, resolveu tomar medidas drásticas e consumar o seu amor de forma subliminar. Montado no seu cavalo, atacou o palácio onde a donzela vivia com o seu pai e raptou-a levando-a para o seu castelo de Cascais.
 
 
 
 
A donzela, apaixonada por seu turno por um ilustre cavaleiro que há muito a cortejava, não cedeu às intenções do gigante. E este, para apaziguar o seu ímpeto, fechou-a no alto da maior torre do seu castelo, prendendo-a até que ela se convencesse da necessidade de claudicar ao amor que ele lhe queria dar.
 
Mas o noivo apaixonado, tomado da força que só o amor consegue despoletar, insinuou-se no castelo e conseguiu libertou a sua amada, fugindo dali numa cavalgada desenfreada no seu magnífico cavalo branco que quase parecia voar.
 
 
 
O gigante, quando deu conta da fuga da donzela ficou furioso. Com artes mágicas que só ele conhecia e os ímpetos malignos que a fúria imensa havia despertado, lançou uma praga sobre os fugitivos e sobre eles fez crescer uma enorme tempestade.
 
Apanhados pela intempérie nuns rochedos junto ao mar, o casal de apaixonados tudo fez para conseguir fugir da influência do seu maléfico perseguidor. Mas, provocando um sismo que partiu as arribas e fendeu o chão, o gigante fez abrir sob os seus pés um enorme buraco onde ambos caíram com o seu cavalo e onde desapareceram para sempre sem eixar rasto.
 
Estava aberta a porta para o inferno e esta jamais se voltaria a fechar…

 

 
 

Nossa Senhora da Guia em Cascais

João Aníbal Henriques, 07.12.16

 

 
por João Aníbal Henriques
 
As inconsistências do mar, profundamente enraizadas nos arquétipos primordiais da vida dos Cascalenses, marcaram de forma muito evidente o devir histórico da comunidade. Os desafios enormes que o mar carrega, seja para pescadores ou seja para as suas famílias, congregam em si a necessidade de recriar formas alternativas de o entender, de o perceber e de o controlar.
 
Os mitos marítimos, quase sempre presos de forma onírica aos principais pesadelos que flagelaram o dia-a-dia de Cascais, são parte integrante da Identidade Municipal, neles se compondo os alicerces da sua vivência simbólica e sagrada.
 
 
 
 
Nossa Senhora da Guia, situada num promontório localizado à saída de Cascais em direcção ao Guincho, foi sempre um dos pilares da expressão de Fé dos Cascalenses. Venerada desde tempos ancestrais, numa dinâmica de culto que dava destaque principal à peregrinação anual que para ali trazia milhares de forasteiros oriundos das mais diversas partes do País, a imagem da Senhora a Guia resulta necessariamente da existência prévia do farol e do registo traiçoeiro que o mar impõe naquele recanto natural.
 
De facto, as mais antigas notas históricas referentes a este lugar mencionam a existência de um farol nos rochedos situados à entrada de Cascais. É crível, desta maneira, que pelo menos desde o início da epopeia marítima Portuguesa, tivesse existido neste sítio um farol que garantisse segurança àqueles que navegavam por aquelas perigosas águas. Assim, a designação da Senhora da Guia, ou seja, da imagem que foi encontrada no local onde se estava o farol com o mesmo nome, terá resultado da apropriação geográfica da figura e não, como as Memórias Paroquiais do Século VIII deixa subentendido, ao contrário.
 
De qualquer maneira, são várias as lendas acerca do surgimento desta ermida e do culto à Senhora da Guia que proliferam no imaginário de Cascais. As mais antigas, relacionam-se com as figuras de Nossa Senhora que foram encontradas nas águas de Cascais. Quase sempre interpretadas como sendo da Senhora da Graça, foram veneradas pelo seu carácter miraculoso, atestado por diversos acontecimentos que se foram sucedendo no burgo piscatório de Cascais.
 
 
 
 
Frei Agostinho de Santa Maria, na sua obra “Santuário Mariano”, publicada em 1770, refere expressamente a origem ancestral do culto a Nossa Senhora da Guia neste local. No entanto, associa-o de forma directa à relação existente entre uma nascente de água que terá existido no local onde hoje se encontra a ermida, estabelecendo assim uma relação entre os mais antigos cultos de fertilidade que proliferaram durante a Pré-História do actual território Cascalense e a devoção mariana posteriormente estabelecida no mesmo local. Num exercício de sapiência que subjaz dos seus conhecimentos no âmbito da geometria sagrada, vai mesmo ao ponto de interpretar os sinais das pedras que existiam no espaço da fonte, para com base neles estabelecer de forma criteriosa a natureza primordial do ritual Cascalense: “Ao pé da rocha que fica na Praia de Cascais está uma fonte; e é constante tradição entre as pessoas daquela vila que nela apareceu a Senhora da Guia. E ainda querem comprovar esta tradição com uma pedra da mesma fonte, na qual se vê uma pegada, que dizem ser de Nossa Senhora, que por tal ainda hoje é venerada e lhe chamam a pegada de Nossa Senhora. E juntamente se vê também na mesma pedra uma coroa esculpida; se foi pela natureza, para que também esta manifesta que ela é a Rainha do Céu e da Terra, ou feita artificialmente se não sabe dizer nada. Esta é a tradição”.
 
 
 
 
Embora de âmbito cronológico mais tardia, uma segunda lenda marca de forma assaz curiosa a relação entre Nossa Senhora da Guia e Cascais. Como refere Ferreira de Andrade na monografia que publicou aquando da comemoração do sexto centenário da elevação de Cascais à condição de vila independente de Sintra, o principal factor motivador do incremento do culto devocional à Virgem da Guia, depois de nele se ter integrado a romagem anual promovida pelos comerciantes de Lisboa a partir do Século XVII, foi uma história acontecida com o antigo cirurgião-mor do Regimento de Cascais, José Gomes de Cenas, que em criança terá sido raptado da casa de seus pais na Vila de Cascais. Não se sabendo o que lhe aconteceu, o seu desaparecimento causou pânico e estupefacção na vila, tendo levantado todo o povo na busca do menino. Passados alguns dias, quando a esperança de o encontrar vivo já não existia, alguém terá ouvido gritos que vinham das profundezas da arriba na zona da Guia, ali tendo encontrado, depois de lá chegarem vindos por mar, o menino são e salvo que desesperadamente tentava sair. Questionado sobre o que tinha acontecido e como tinha ido possível sobreviver sem comida nem água durante tanto tempo, o menino terá respondido que foi transportado para aquele buraco por umas bruxas de Cascais que para ali o levaram voando. E quando à alimentação, disse simplesmente que diariamente uma senhora muito bonita lhe levava sopinhas de cravos para ele comer. Retirado do buraco e levado para a pequena ermida da Senhora a Guia, então já ali existente, a criança terá olhado para a imagem de Nossa Senhora e terá dito aos pais que tinha sido aquela a senhora que o tinha ajudado a sobreviver!
 
 
 
 
A partir desse momento, e até ao desastre provocado pelo terramoto de 1755, a Senhora da Guia viu crescer de forma desmesurada a devoção, facto que se traduziu numa romagem anual, na mesma época das comemorações do Espírito-Santo Cascalense, que levava à Guia milhares de peregrinos que chegavam de Lisboa e de Sintra.
 
A romagem, organizada pela Irmandade de Nossa Senhora da Guia, criada por iniciativa dos vereadores da Câmara Municipal de Lisboa que, em 1522 assinaram o compromisso da irmandade, integrava plenamente o simbolismo associado aos milagres que o agiológio mariano consagrava. Serão certamente dessa época, construídos para dar resposta à demanda que o lugar gerava junto de gente vinda de muito longe e de diversas partes de Portugal, os cómodos da hospedaria que envolvia a ermida. Existentes já em 1758, quando as Memórias Paroquiais a referem expressamente, a Hospedaria de Nossa Senhora da Guia ainda hoje pode ser vista adossada a Nascente do templo
.
As cantarias manuelinas das suas portas, bem como sepultura de António Ribeiro da Fonseca, com data de 1577, que existe no seu interior, denotam origem mais antiga, deixando antever as várias campanhas de obras, de remodelações e de reconstruções de que foi alvo ao longo dos séculos.
 
 
 
 
Em 1810, quando finalmente terminaram as obras de recuperação da ermida e do farol depois dos estragos causados pelo terramoto, foi colocada sobre a porta principal um painel com as armas reais e a data em questão, que complementa, em termos decorativos, os magníficos painéis de azulejos existentes no seu interior. A “Adoração dos Pastores” e a “Adoração dos Reis Magos”, de origem indeterminada mas certamente muito anterior àquela que consta na dita pedra armoriada, compõe o espólio interno da ermida, numa expressão rebuscada que contrastava com a singeleza do local.
 
Perdida a devoção a partir do início do Século XX, quando a secularização da vida nacional determinada em termos políticos a partir da implantação da república a isso obrigou, a Ermida de Nossa Senhora a Guia foi perdendo importância na definição das tradições Cascalenses.
 
Apesar de tudo, é local inultrapassável numa visita a Cascais, até porque ali se sente ainda o perfume agregador da Fé mariana na definição identitária municipal.

São José da Parede na Dinâmica Urbanística de Cascais

João Aníbal Henriques, 06.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A gestão dos critérios urbanísticos numa determinada localidade, mais do que o resultado de uma prática projectada de antemão, é usualmente a consequência mais visível do devir político e comunitário dos seus habitantes.
 
Quando a comunidade é activa e pragmática no estabelecimento das prioridades que hão-de definir o seu espaço, temos como resultado um menor peso do poder político central e, como consequência, uma maior liberdade de critérios de construção e decoração. Quando a isso juntamos um afastamento geográfico relativamente ao poder decisor, aumenta ainda mais a autonomia comunitária e alarga-se o espectro de soluções que hão-de espelhar-se no cenário urbano que se cria em seu torno.
 
Um dos exemplos mais paradigmáticos desta situação, é o da Vila da Parede, no Concelho de Cascais, ou seja, uma localidade nascida no útero de periferia suburbana de Lisboa, marcada desde sempre pela negligência ao nível das instituições municipais e Nacionais, e profundamente constrangida pela necessidade de se auto-definir ao nível do seu carácter comunitário.
 
Nascida de forma enquadrável nos modelos evolutivos mediterrâneos, a Parede até no seu topónimo deixa antever uma necessidade de afirmação que resulta do processo histórico da sua concretização.
 
 
 
 
Muito embora só exista, em termos institucionais desde o início do século XX, a localidade da Parede, cabeça da antiga Freguesia, resulta teoricamente da evolução de uma existência que havia sido marcada pela aldeia de Cai-Água (hoje São Pedro do Estoril) e essa, por seu turno, marcada também pela existência de diversas comunidades pré-históricas que utilizaram o seu espaço. Em termos práticos, no entanto, e tal como o comprova o levantamento patrimonial Cascalense (ver HENRIQUES, João Aníbal, Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, Cascais, Fundação Cascais, 2000), não existem praticamente laços de união entre as duas realidades, uma vez que, a moderna Parede, de cariz republicano e revolucionário, e assumidamente a mais proletária de todas as localidades do concelho de Cascais, é uma realidade que resulta da chegada dos novos habitantes pré-industriais que para ali vão trazer um sentimento de suburbanidade que a antiga aldeia rural não conhecia. Os paredenses, hoje entendidos como parte integrante, a todos os níveis da vivência cascalense, foram, durante várias décadas, o resultado da existência de uma comunidade proletária em que o estabelecimento urbano se alicerçou nos princípios, nas orientações e nas motivações que anteriormente mencionámos.
 
Em termos físicos, com base na divisão dos terrenos que faziam parte das grandes quintas que o Comandante Nunes da mata ali adquiriu para mandar edificar, a preços módicos e acessíveis, uma nova povoação que correspondesse às necessidades efectivas da classe trabalhadora que não suportava habitar na cidade de Lisboa, onde os preços das acessibilidades eram pagos com valores que eles não podiam aguentar, a Parede do século XX conhece a auto-construção como forma eminente de se urbanizar. As velhas azenhas e moinhos, colocados estrategicamente para receberem sem encargos de maior os produtos agrícolas do interior do território, e para poderem enviar apara Lisboa as farinhas após terem sido manufacturadas, deixaram de fazer sentido num espaço onde todos eram iguais e onde todos sabiam fazer o mesmo. Os operários que se instalaram na Parede, oriundos de muitas partes do país, e observando o mesmo ritual quotidiano de utilização do comboio para chegar à capital, tornaram obsoleta a economia tradicional deste espaço, facto que obrigou a que se destruísse quase todo o parque habitacional antigo e tradicional, que hoje praticamente é impossível observar no interior da localidade da Parede, e o substituísse pelas novas casas de cariz operário e burguês, que seguiram quase à risca, as orientações apontadas por Leontidou.
 
 
 
 
Estas novas edificações, longe de seguirem os modelos desde sempre utilizados pela tradicionalidade local, impuseram-se através da diferença, fazendo apelo a formulações estéticas e decorativas que permitiam a utilização de muitas das bases culturais que traziam das suas terras de origem, e que eram sistematicamente adaptados à nova vivência de conjunto que aqui procuravam estabelecer. Vivendas como a do ‘Gato’, bastante próxima do centro da urbanidade paredense, são exemplos paradigmáticos da forma como a utilização decorativa de novas formulações, acaba por influir na capacidade de efectivarem, através do cunho artístico pessoal dos seus criadores, uma afirmação pessoal e comunitária da qual depende o próprio nascimento da povoação.
 
De facto, se nos ativermos às necessidades culturais da população, depressa compreenderemos a importância que assume a possibilidade de, através da decoração das suas casas, ganharem uma forma de afirmação que está em consonância com tudo aquilo que é o espírito que enforma o nascimento da institucionalidade e do poder da própria povoação. As casas, espelho muito fiel do sentir cultural de cada um dos seus habitantes, são, no seu conjunto um misto da harmonia que resulta da afirmação pessoal dos diferentes tipos de comunidade que ali habitam, com a heterogeneidade que marca a diferença que entre eles, de uma forma permanente e quase imutável, se vai efectivando.
 
A nível da estrutura urbana, ou seja, da forma como se dispõem os edifícios no seio da complexidade real que resulta da necessidade de se conseguir, na teia emaranhada de edifícios que compõem as diversas ruas marcadas pela construção não-planificada, discernir linhas orientadoras que promovam o entendimento sobre as bases culturais que a enformam, é possível perceber que existe uma competição básica, de âmbito individual, dela resultando a grande maioria das orientações que agregam as casas, a sua decoração, e os próprios quarteirões onde se inserem.
 
 
 
 
Desta forma, ao nível da visibilidade e do ordenamento do território, no seio de todas as incongruências que caracterizam a falta de plano e de previsão urbana, é possível encontrar linhas mestras, em que a colocação espacial de cada edifício, mais do que propriamente a sua localização paisagística ou as acessibilidades, é definidora dos fundamentos que regem as relações sociais. Esta situação, assaz curiosa se entendermos que no seio destas povoações a visibilidade da casa, muitas vezes construída num interstício sem quaisquer condições, é mais significante do que a própria qualidade da sua construção ou as vistas que dela se fruem, permite-nos ainda perceber qual é, verdadeiramente, a importância que a imagem e, logo, a própria decoração, exercem sobre aqueles que a constroem.
 
Na Parede, cada canto e recanto reflecte esta vivência profundamente sentido daqueles que construíram a povoação. Com uma aparência erudita nas suas zonas nobres e a singeleza decorativa mais simples nas zonas marcadas pelo desfavorecimento sócio-cultural, a vila define parâmetros de urbanidade que dão corpo à sua existência.
 
 
 
 
Para compreender o que é hoje a Parede em termos patrimoniais, importa perceber quais são as principais linhas definidoras da sua evolução histórica, nelas congregando tudo aquilo que contribuiu para a gestão dos equilíbrios sociais que tornaram possível a sua sobrevivência histórica. Por isso, é essencial a capacidade de ver para além da monumentalidade que o património por vezes exige, para se encontrar, quantas vezes perdido algures num laivo de excelência perdida no contra-forte de um qualquer muro de suporte, a informação que é necessária para entender a organização social a comunidade.
 
A Vila da Parede, suficientemente longe do exercício do poder para sonhar com a verdadeira expressão da liberdade, mas também demasiadamente importante para poder subtrair-se à evolução histórica de Cascais e da Região de Lisboa, é exemplo paradigmática da excelência urbanística, representando um papel fundamental na definição da Identidade Municipal de Cascais.

A Igreja de São Domingos de Rana

João Aníbal Henriques, 23.11.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Profundamente ligada ao trabalho da pedra, numa zona do Concelho de Cascais onde as pedreiras e os ofícios de cantaria assumiam especial importância, a Igreja de São Domingos de Rana é um dos mais importantes imóveis históricos que fazem parte do Património Cascalense.
 
Sem se conhecer a data da sua fundação, nem tão pouco se a antecedeu qualquer outra espécie de espaço de culto ou edifício sagrada que tenha anteriormente ocupado o alto da colina onde se ergue este templo, remete para a lenda e para as tradições orais as principais indicações que nos permitem compreender o imóvel no contexto da religiosidade rural do interior do Concelho de Cascais.
 
 
 
 
 
Reza a lenda que, algures durante a Idade Média, os trabalhadores que tiravam pedra das muitas pedreiras existentes nesta zona, viam amiúde a figura de São Domingos de Gusmão passeando reiteradamente por aquela zona. O santo, historicamente nascido em Castela em Junho de 1170 e que foi fundador da Ordem dos Pregadores, mais tarde conhecidos como Dominicanos, está ligado de forma directa aos rituais de despojamento que determinam a essência sagrada do culto Cristão em Portugal.
 
 
 
 
Depois de ter viajado ainda muito novo até à Dinamarca para participar no acto solene de trazer para a Península Ibérica a noiva Escandinava do Príncipe de Castela, São Domingos terá ficado profundamente impressionado com a falta de conhecimentos que aqueles povos teriam de Cristo e da sua doutrina. Nasce-lhe assim, num acto de inspiração que muda vida até à actualidade, a ideia de criar uma ordem cujo objectivo essencial seria o de evangelizar esses territórios, conquistando Almas novas para o orfeão Cristão. As dificuldades, no entanto, associadas a várias experiências que o ajudaram a despertar os sentidos e a clarividência, mostraram-lhe que o Ser Humano não é naturalmente bom nem tem uma natural propensão para a bondade. Pelo contrário! O apelo do mal e da maldade, reconhecido nos mais mesquinhos apontamentos da vida de cada comunidade, mostraram a São Domingos que o único caminho possível em direcção ao Céu e a Deus, era o da abdicação total e absoluta à mundanidade e à materialidade da vida corrente, como forma de propiciar a libertação do anjo sagrado que o Santo considerava que existia dentro de cada um e que se mantinha subjugado pelas tentações carnais do mundo e da sociedade.
 
Domingos de Gusmão, com influência existencial marcada pelo ideário cátaro, liberta-se assim das pulsões da natureza e determina uma ordem na qual o afastamento do mundo e das coisas é a regra principal. A Ordem de São Domingos, mendicante de origem, é assim o repositório mais profundo da ancestralidade mística de Portugal, num plano de existência na qual a iluminação advém directamente da capacidade de libertar o espírito do que da compilação da doutrina conventual.
 
 
 
 
A propensão para locais recônditos e remotos, dos quais fosse possível obter uma visão periférica e exterior do mundo, surge em sequência com a escolha lendária do local onde havia de vir a ser erguida a Igreja de São Domingos de Rana. No cimo da colina de Rana, da qual é possível abarcar uma paisagem que se estende por terra e pelo mar ao longos de muitos quilómetros de distância, a actual igreja motiva o eremita a uma comunhão directa com Deus através de um esforço de contemplação do qual não está alheada a entrega total e absoluta aos ideias de despojamento que serão sempre apanágios das mais iluminadas e marcantes figuras da História de Portugal.
 
Em termo históricos, a Igreja de São Domingos que hoje temos é o produto dos restos da antiga igreja construída no início do Século XVIII e que foi amplamente destruída pelo terramoto de 1755. Há, no entanto, notícia, de que antes dessa data, já em meados do Século XVI, ali existia um templo Cristão, cujas origens documentais se desconhecem.
 
A qualidade dos materiais da igreja, até por ser esta uma terra de canteiros e de pedreiras florescentes, dão corpo a um dos mais importantes monumentos do Concelho de Cascais. A sua fachada, altivamente erguida com vista para Sul e para o Estuário do Rio Tejo, denotada uma riqueza arquitectural que destoa da pobreza tradicional das povoações da envolvente. As suas duas torres sineiras, uma das quais ostentando um vetusto relógio de Sol, enquadram-se nos padrões construtivos que deram o mote à reconstrução do concelho nos finais do Século XVIII e início do Século XIX; apresentando um porte altivo que contrasta com a singeleza do seu interior.
 
 
 
 
Em termos territoriais e devido à posição estratégica que ocupa perante o território que a envolve, a Igreja de São Domingos de Rana foi sempre referência essencial para a navegação, servindo de guia para as entradas e saídas da Barra do Tejo.
 
Concretizando na solidez do seu porte a Fé dos habitantes de São Domingos de Rana, a igreja de São Domingos é um dos mais interessantes atestados do poder que a devoção tem na formação das comunidades locais, tendo sido ela o principal factor determinante da criação da própria localidade que a envolve.