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Villa Romana de Freiria em Cascais

por cascalenses, em 25.09.18

 

Devolvida aos Cascalenses 2000 anos depois…
 
 
 
 
por João Aníbal Henriques
 
2000 anos depois de Titvs Cvriativs Rvfinvs ter chegado à Lusitânia oriundo de Roma e ter solicitado autorização aos Deuses Manes para se instalar no território que hoje pertence ao Município de Cascais, os vestígios que restam da sua enorme villa agro-senhorial foram finalmente devolvidos a Cascais e aos Cascalenses!
 
A Villa Romana de Freiria, localizada junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, tem uma ocupação humana que se perde nas brumas do tempo. Utilizada provavelmente desde a Pré-História, mercê da sua localização privilegiada junto ao estuário do Rio Tejo e do carácter muito fértil das suas terras agrícolas, Freiria apresenta vestígios únicos que atestam os principais momentos da evolução civilizacional do Homem, e um conjunto de estruturas do período romano que são peças únicas da arqueologia mundial.
 
 
 
 
Entre os dois conjuntos termais, com águas quentes e frias, o espaço habitacional e de lazer profusamente decorado com mosaicos e irrigado com um complexo sistema de distribuição de águas avançadíssimo para o seu tempo, e as estruturas agrícolas de grandes dimensões e de uma qualidade construtiva sem par, a Villa Romana de Freiria possui um potencial cultural extraordinário que se cruza com o valor turístico que a vocação de Cascais não permite renegar.
 
Descoberta por Virgílio Correia no início do Século XX, a Villa Romana de Freiria foi escavada em dezenas de campanhas que se prolongaram ao longo de todo o século, num esforço hercúleo que permitiu recolher milhares de artefactos únicos e atestar de forma comprovada a imensa importância do local.
 
 
 
Desde meados do século passado, quando a expansão urbanística da região de Grande Lisboa determinou o alastramento absurdo da mancha habitacional e reformatou a matriz urbanística das periferias a partir do caos imposto pelas construções clandestinas, que Freiria foi sendo envolvida por centenas de construções desregradas que, para além de comprometerem a integridade do espaço, acabaram por influir de forma dramática na sua conservação e na possibilidade do seu usufruto por parte da população local.
 
Praticamente desconhecidas dos Cascalenses, as ruínas romanas foram sobrevivendo aos ataques sucessivos das últimas décadas através do enorme esforço da equipa de arqueólogos que foi acompanhando e estudando o local e que, através de estratagemas quase impensáveis, foram conseguindo esconder, tapar e guardar alguns dos mais importantes detalhes do espaço, salvando assim a sua integridade até à actualidade.
 
 
 
 
O poder político (ou melhor dizendo) os poderes políticos que sucessivamente foram tomando conta dos destinos de Cascais, demonstraram sempre uma incapacidade latente ao nível decisório, tendo sido todos eles incapazes de contribuir o que quer que seja para a salvaguarda e para o aproveitamento do potencial deste local.
 
No início dos anos 90 do século passado, quando a Freguesia de São Domingos de Rana cresceu de forma desmesurada e desregrada, a Villa Romana de Freiria foi literalmente engolida pela clandestinidade envolvente, havendo mesmo casas, oficinas e outro tipo de construções que utilizaram materiais das próprias ruínas para as suas próprias edificações. E quando foi apresentada a primeira proposta de um Plano de Pormenor que visava salvar o local, a inoperância política de quem mandava impediu a sua cabal concretização e manteve o cenário de abandono e de incúria até praticamente à actualidade.
 
 
 
 
As memórias de Titvus Cvriativs Rvfinus, o romano de cepa que chegou a Freiria no Século I d.C. pareciam estar destinadas a uma mera prateleira numa qualquer sala de museu, à medida em que o abandono do espaço incitava à presença dos caçadores de tesouros, dos curiosos e dos detectores de metais, iam esboroando aos poucos aquele que era um dos principais patrimónios de Cascais.
 
Mas nesta semana, num acto digno de louvor, a Câmara Municipal de Cascais terminou e inaugurou uma intervenção extraordinária no local.
 
 
 
 
Para além de vedar de forma total o espaço da villa romana, e de recriar um conjunto de passadiços em madeira que permitem percorrer todo o perímetro do monumento sem comprometer a estrutura arqueológica, a intervenção agora concretizada contempla a colocação de sinalética com a identificação dos principais motivos de interesse para quem o visita e, acima de tudo, informação clara e eficiente acerca do que se está a ver e a interpretar.
 
Com esta intervenção agora inaugurada, Freiria é finalmente devolvida aos Cascalenses, a Cascais e a Portugal, que agora passa a poder usufruir, a conhecer e a reconhecer uma peça ímpar na História deste local.
 
Desta maneira, mercê do circuito interpretativo, da salvaguarda da integridade do espaço, e do conforto para a visitação, a Villa Romana de Freiria transforma-se no cadinho que desde sempre deveria ter sido de potenciação cultural do local. E, ao invés do que muitos diziam quando há cerca de 20 anos se instalou a polémica acerca do estado de abandono do monumento, passou a ser também um dos principais motores qualificadores de todo o espaço envolvente, fomentando a identidade local e as potencialides turístico-culturais de Cascais e da Freguesia de São Domingos de Rana.
 
 
 
 
Com a inauguração do pólo universitário de Carcavelos, e a selagem recente do aterro de Trajouce, cria-se nesta zona um eixo de crescimento sustentado e de qualidade que não pode deixar ninguém indiferente. Todo o Vale da Ribeira da Lage, desde o Bairro do Pomar das Velhas até ao novo pólo universitário de Carcavelos, passa agora a ter condições para se destacar da paisagem inóspita da invasão clandestina que caracterizou o Cascais de outros tempos, traduzindo-se em elementos geradores de qualidade de vida para todos os Cascalenses.
 
Estão de parabéns as equipas de arqueólogos que desde há muitas décadas dedicaram o seu tempo a lutar pela preservação de Freiria. Estão de parabéns as equipas técnicas que idealizaram e concretizaram este importante programa de salvaguarda. E estão de parabéns, os decisores políticos que foram capazes de passar das palavras aos actos e de (finalmente) devolver a Cascais um dos valores maiores da sua culturalidade.
 
 
 
 
Ganhou Cascais. Ganharam os Cascalenses e ganhou Portugal.

 

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publicado às 17:12

O Castelo de Palmela

por cascalenses, em 31.05.18

 

 
 
 
por João Aníbal Henriques
 
 
Altaneiro no cimo da Serra de São Luís, o Castelo de Palmela é, provavelmente, aquele que tem o melhor enquadramento cenográfico natural de Portugal. Com vista privilegiada para o Estuário do Sado, controlando as Serras da Arrábida e as terras de Tróia, o castelo apresenta características típicas das várias épocas construtivas a que foi sujeito.
 
A ocupação original do espaço, provavelmente da época Neolítica, ainda em período Pré-Histórico, enquadra-se na vivência mais comum deste tipo de construções, aproveitando a sua situação estrategicamente relevante para, num laivo de recrudescimento de eventuais posturas, se impor perante a envolvência e definir em seu turno uma vasta área de paz e de prosperidade.
 
 
 
 
A ocupação deste local é, assim, linear e contínua ao longo dos séculos, com focos permanentes de ocupação humana que lhe foram conferindo, através das suas intervenções na paisagem, a forma e as características que hoje apresenta.
 
Depois de Visigodos e de Muçulmanos terem feito de Palmela uma povoação de destaque no contexto da ocupação humana do território agora Português durante a Idade Média, foi na época conturbada da reconquista que se definiram em definitivo as suas dinâmicas de ocupação e de desenvolvimento.
 
 
 
Quando Dom Afonso Henriques, no esforço de reconquista das Terras de Portugal, derruba Lisboa, em 1147, abriu caminho para outras lutas e vitórias, que se estenderam, ainda na mesma data, a Sintra, Alenquer e Palmela.
 
Mas foi sol de pouca dura… a sua posição privilegiada na paisagem e a situação estratégica na defesa das entradas por mar via Rio Sado, tornavam Palmela demasiado importante para que a reconquista Cristã fosse facilmente concretizada e definitiva. Estratégias de contra-ataque, numa tentativa permanente de recuperar esta peça tão importante para a afirmação do poderio militar muçulmano, tornaram este castelo alvo de vários episódios sangrentos de conquistas e reconquistas, passando sucessivamente de mão para mão com evidentes prejuízos para a população e para a paz do local. Depois de recuperada pelos Árabes, Palmela foi reconquistada e novamente perdida pelas forças da Cristandade em 1158 e em 1165, data em que o Rei Dom Sancho I, numa tentativa fugaz de condicionar o destino do local, entrega o castelo à Ordem Militar de Santiago.
 
Mesmo assim, perante o poderio inaudito do líder muçulmano Abu Yusuf Ya’qub al-Mansur, voltou a cair nas mãos do inimigo e só em 1205 entrou em definitivo em mãos Cristãs.
 
 
 
 
Mas mesmo assim não foram de paz permanente os tempos do Castelo de Palmela. Mesmo depois de estar definitivamente integrada no Reino de Portugal, foi alvo de investidas e ataques que a desfiguraram, gerando um clima de insegurança e de incerteza que se prolongou pelos tempos. Em 1382, durante o reinado do Rei Dom Fernando, as tropas Castelhanas saquearam a cidade o o seu castelo, produzindo um índice de devastação que desfigurou de forma perene a estrutura defensiva daquele baluarte, obrigando à realização de obras profundas com vista à sua recuperação e ao reforço da sua capacidade de resistência às investidas dos inimigos, que lhe confeririam o aspecto que hoje lhe conhecemos.
 
Em 1384, novamente no âmbito de um cerco que punha em causa da sobrevivência do próprio Estado de Portugal, foi dos torreões do Castelo de Palmela que Santo Condestável Dom Nun’Álvares Pereira, o monge consagrado à devoção de Maria, avisou o Mestre de Aviz da chegada dos Castelhanos, acendendo ali enormes fogueiras que foram vistas a partir de Lisboa.
 
 
 
 
O Castelo de Palmela é, desta forma, uma das peças mais interessantes do património militar Português. Não só pelas características específicas que denotam a conturbação de quase dois mil anos de uma história pouco fácil, mas também pela sua intervenção específica nos destinos que a História reservou a Portugal.

 
 
 
 


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publicado às 01:02

Joaquim António Pereira Baraona (1930-2018)

por cascalenses, em 30.05.18

 

por João Aníbal Henriques

 

O Comendador Joaquim Baraona nasceu em 1930, em Ourique, e era orgulhosamente um alentejano dos quatro costados. Quando chegou a Cascais, onde veio criar a Conservatória do Registo Predial, assumiu de Alma-e-Coração esta terra de adopção onde deixou uma marca perene e extraordinária que o triste dia de hoje não vai conseguir abalar.

 

Em Cascais, quase tudo transborda com os ecos do trabalho, do empenho e da paixão do Comendador Baraona. A antiga maternidade onde nasceram milhares de Cascalenses; o hospital; as conservatórias; os bairros sociais; as academias e as colectividades; o jornais, as revistas e a imprensa local; os movimentos cívicos e de cidadania; as grandes causas que acenderam os ânimos e mudaram a face da Nossa Terra… Por todos os lados, em todos os cantos e recantos de Cascais existe obra do Comendador Baraona.

 

E para além desta, da qual ele passava sempre ao lado, como se não fosse coisa sua mas que todos sabiam e nela reconheciam a sua intervenção, um vastíssimo legado de entrega à comunidade, ao próximo, a Cascais e a Portugal que ele nunca permitiu que se soubesse que tinha sido ele. Generoso como só ele sabia ser, foram milhares aqueles a quem ele literalmente salvou nos piores momentos, exigindo somente discrição nesses actos, para que ninguém soubesse a grandiosidade indescritível que ele sabia ter.

 

Não existem palavras no léxico Português onde caiba a obra e o legado do Comendador Joaquim Baraona. Porque ela, sendo reconhecidamente enorme na parte pública, era incomensuravelmente maior na componente que poucos tiveram a sorte de conhecer…

 

Joaquim Baraona, foi erudito, académico, escritor, diplomata, político, empresário, benfeitor e tantas outras coisas onde expressou a profundidade da sua excelência. Foi condecorado pela Presidência da República como reconhecimento público pela sua obra e, depois da revolução, perseguido de forma injusta pelos mesmos motivos.

 

Soube, porque era figura maior do que os pequenos personagens com quem se cruzou na vida toda, virar a página e abraçar Portugal como causa sua, continuando, praticamente até ao último dia, a trabalhar a favor de toda a gente.

 

O dia de hoje é marcante para Cascais e para Portugal. Já nada voltará a ser com era. O desaparecimento físico do Comendador Joaquim Baraona representa o fim definitivo de uma era e, para desgraça dos que cá ficam com a sua boa memória, a certeza absoluta de que é insubstituível para sempre.

 

Que descanse em paz. Porque o merece.

 

A bem de Cascais.

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publicado às 11:20

Capital Europeia da Juventude e a Matriz Cristã da Europa nos Casais Velhos (Guincho)

por cascalenses, em 22.02.18

Intervenção do Vereador João Aníbal Henriques na Câmara Municipal de Cascais relativamente à Capital Europeia da Juventude com sugestão de recuperação dos Casais Velhos, no Guincho, onde se encontra plasmada a essência mais importante da matriz Cristã- Católica da Europa que hoje temos. E poucos são os Cascalenses que a conhecem.

 

 

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publicado às 14:35

Ruínas no Natal em Cascais

por cascalenses, em 23.12.17

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Caros Cascalenses,

 

A pedido de vários munícipes moradores na Alapraia, alertei há algum tempo a edilidade para o problema do abandono e avançado estado de ruína em que se encontram as Grutas Pré-Históricas existentes naquela localidade.  

 

Estando classificadas como Imóvel de Interesse Público desde 1945, as Grutas de Alapraia foram descobertas no início do Século XX por Francisco Paula e Oliveira e, mais tarde, estudadas de forma aprofundada por Afonso do Paço e Eugénio Jalhay que ali encontraram um dos mais importantes espólios arqueológicos de Portugal.

 

As sandálias de calcário de Alapraia, que só encontram paralelo em Almeria (Espanha), são a peça mais impactante de um espólio vastíssimo com vestígios de muitas culturas e civilizações que utilizaram aquele espaço ao longo dos séculos.

 

Tendo sido intervencionadas por diversas vezes nos últimos anos, sobretudo por iniciativa e empenho do saudoso director do Gabinete de Arqueologia da CMC, Dr. João Pedro Cabral, foram alvo de um arrojado projecto de musealização que integrava as várias grutas conhecidas e o Casal Saloio que, entretanto adquirido pela Autarquia, foi recuperado e transformado num pólo de interpretação museológica de apoio ao complexo.

 

Mais recentemente, por motivos para os quais nunca nos foi possível encontrar explicação plausível, as grutas foram entulhadas com gravilha e o casal saloio foi simplesmente deixado ao abandono. Os actos de vandalismo perpetrados desde então têm vindo a destruir o sítio por completo, tendo desaparecido portas e janelas e, nos últimos meses, as próprias telhas da cobertura, deixando no ar um tom de ruína que contrasta de forma evidente com a enorme importância desta peça do património cascalense.

 

Mas a maior preocupação dos moradores já nem é a destruição do património e da memória de Cascais. A utilização indevida do espaço, principalmente durante a noite, tem vindo a despoletar um sentimento de insegurança que se alastra entre a comunidade local, facto que se conjuga com a utilização de todo o complexo como sanitário público, com implicações ao nível da higiene e da saúde pública.

 

Mas, mais de um mês depois do alerta apresentado em reunião de câmara, nada aconteceu no espaço. O projecto de recuperação continua a aguardar a aprovação de um programa de apoio comunitário, de acordo com informação prestada pelo Presidente da CMC, e não foi feito rigorosamente nada para controlar o acesso ao monumento ou sequer para desde já impedir o uso indevido do mesmo durante a noite.

 

Perde obviamente a memória de Cascais que vê delapidar uma das mais significativas peças do seu património histórico; perde a comunidade Cascalense que diariamente vê desaparecer as extraordinárias potencialidades pedagógicas e turísticas associadas a um espaço como este; perdem os moradores do local que, para além da insatisfação de verem a degradação que paulatinamente vai envolvendo as suas casas, assistem ao crescimento da insegurança e pressentem a sua incapacidade de sensibilizar as entidades competentes para que lhes resolvam rapidamente um problema simples e premente.

 

Na última reunião de câmara reforcei publicamente o pedido para que, com carácter de muita urgência, sejam tomadas providências que impeçam a continuação da destruição das Grutas de Alapraia.

 

Esperemos que a quadra festiva que atravessamos e o dealbar de um novo ano, nos tragam finalmente a concretização deste projecto tão importante para o fomento da Identidade Municipal.

 

Para todos os Cascalenses os nossos votos de um Feliz Natal e de um próspero 2018.

 

A Bem de Cascais!

 

João Aníbal Henriques

Vereador na Câmara Municipal de Cascais

 

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publicado às 01:18

Um Orçamento para Cascais sem Cascais no Orçamento

por cascalenses, em 15.12.17

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Caros Cascalenses,

 

Hoje foi apresentado e aprovado, com o nosso voto contra, o orçamento municipal de Cascais para 2018. E este foi um momento legal e infeliz que marca de forma muito pragmática o futuro próximo da vida neste concelho.

 

Legal porque, ao abrigo da Lei, o orçamento agora aprovado cumpre necessariamente todos os quesitos a que está obrigado. E infeliz porque, para além de plasmar uma opção de governação que condena Cascais a uma posição de suburbanidade no contexto da Área Metropolitana de Lisboa, foi preparado, discutido e aprovado sem ter em conta a vontade, as opções, a sensibilidade, os interesses, as aspirações ou as sugestões dos Cascalenses.

 

Nas eleições autárquicas que decorreram no passado mês de Outubro, o Partido Socialista, num acto de reconhecida generosidade e de abertura democrática, integrou nas suas listas cinco Cascalenses independentes que foram eleitos para a Vereação e para a Assembleia Municipal.

 

Mas de acordo com a Lei, a proposta de orçamento elaborado pelo executivo (note-se que o orçamento é o documento basilar que vai definir a governação municipal ao longo do próximo ano), deve ser apresentada, explicada e discutida unicamente com os partidos da oposição, que têm assim a possibilidade de apresentar propostas e ideias alternativas.

 

Os independentes, eleitos pelos votos dos Cascalenses e que assumiram os seus lugares em representação dos mesmos, não só não estão presentes nessas reuniões como, na prática, estão condenados a simplesmente votar, em reunião de Câmara, a proposta final que o Executivo decide apresentar, não podendo questionar, discutir e/ou apresentar propostas alternativas que representem a vontade de quem os elegeu em Cascais…

 

Em suma, o orçamento para Cascais que hoje foi apresentado e aprovado com o nosso voto contra, não contempla a vontade de Cascais e impede o concelho de se assumir com identidade própria no contexto regional, nacional e internacional.

 

E é pena. Porque as medidas concretas que gostaríamos que este documento contemplasse, nomeadamente ao nível da educação, da saúde, da mobilidade, do ambiente, do património, da segurança, das actividades económicas e do turismo, em muito contribuiriam para reforçar a Identidade Municipal, diminuindo de forma drástica as clivagens entre o litoral charmoso e cosmopolita que temos, e o interior descaracterizado e degradado que marca este município.

 

Num Concelho com uma taxa de abstenção altíssima nos actos eleitorais que vamos tendo, seria importante que os partidos políticos fossem capazes de repensar esta sua incapacidade de integrar Cascais e os Cascalenses nas suas decisões e projectos. Mas está visto que não têm interesse em fazê-lo.

 

A bem de Cascais!

 

João Aníbal Henriques

(Vereador Independente na Câmara Municipal de Cascais)

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publicado às 14:13

Tomada de Posse dos Novos Órgãos Municipais em Cascais

por cascalenses, em 20.10.17

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Na sequência do acto eleitoral de 1 de outubro de 2017, decorre dia 21 de Outubro, às 17h00, no Palácio da Cidadela de Cascais, a cerimónia de instalação dos órgãos eleitos para a Assembleia Municipal e Câmara Municipal para o mandato 2017/2021.

 

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A importância deste acto marca em definitivo aquilo que vai ser o paradigma governativo de Cascais ao longo dos próximos quatro anos.

 

Liderados por Isabel Magalhães, que encabeçou, enquanto independente, a Lista do PS à Assembleia Municipal de Cascais, vão tomar posse vários Cascalenses Independentes que assegurarão que a Nossa Terra terá voz activa na determinação do futuro de Cascais.

 

Para além de Isabel Magalhães, estarão na Assembleia Municipal os deputados Pedro Rocha dos Santos e Marita Moreno Ferreira. Na Câmara Municipal de Cascais tomarão posse os Vereadores Independentes João Aníbal Henriques e Isabel Fonseca Guerra.

 

Assumindo a sua inabalável independência relativamente a todos os interesses, facções ou opções que contrariem os interesses legítimos de Cascais e dos Cascalenses, os novos autarcas independentes assegurarão ao longo do seu mandato a condição de porta-voz de todos os munícipes deste concelho. Até 2021, poderão os Cascalenses contar com a disponibilidade permanente e o empenho absoluto desta equipa na defesa dos valores que dão forma à Identidade Municipal, sublinhando a importância da democracia activa e participativa como cadinho de uma cidadania consciente da qual depende o futuro coeso e equilibrado de Cascais.

 

Ao longo dos próximos quatro anos, os independentes agora eleitos aplaudirão e apoiarão todas as medidas, ideias e projectos que defendam os interesses de Cascais. Sendo, da mesma maneira, inabaláveis no combate a tudo aquilo que afronte os valores, princípios e interesses dos Cascalenses que os elegeram.

 

A partir de amanhã, para além das plataformas online que todos conhecem (Facebook e Blog Cascalenses), o presente endereço de email (plataformacascalenses@gmail.com) e o telefone969 452 614 ficarão ao dispor permanente de todos os Cascalenses que os desejem utilizar. Ali receberemos as mensagens, pedidos e sugestões que desejem fazer chegar aos órgãos autárquicos onde estamos representados, com o compromisso sublinhado de total disponibilidade para visitar, ouvir, analisar e discutir com todos os Cascalenses, independentemente da sua opção política, filiação partidária, sensibilidade cultural e/ou crença religiosa, o que pretendem relativamente ao futuro de Cascais.

 

Tal como vem acontecendo ao longo dos últimos 25 anos, cá estaremos, agora na Câmara e na Assembleia Municipal de Cascais, para dar voz à Nossa Terra.

 

A bem de Cascais!

 

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publicado às 17:52

A Igreja de São Vicente de Alcabideche

por cascalenses, em 14.11.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A Igreja de São Vicente de Alcabideche é o principal monumento religioso daquela importante freguesia de natureza rural do Concelho de Cascais. Embora seja de origem recente na sua formalização histórica, uma vez que as primeiras referências que sobre ela existem são do Século XVII, quando ali foi fundado o Compromisso do Santíssimo Sacramento, terá sido muito provavelmente antecedida por outros espaços de culto dos quais se perdeu memória.
 
Sucessivamente destruída por cataclismos naturais, nomeadamente pelo grande terramoto de 1755, o templo foi várias vezes reconstruído e adaptado, chegando assim à formulação singela e em estilo chão que actualmente apresenta.
 
 
 
O espaço onde o templo foi construído, num dos pontos estrategicamente mais relevantes da antiquíssima localidade de Alcabideche, deixa antever os vestígios daquilo que foi a Igreja de São Vicente noutras épocas e até em períodos em que existiam outras formas de religião. Em redor da capela, num espaço repleto de vestígios arqueológicos cronologicamente situados entre o Neolítico, o período Romano e a modernidade, foram encontrados vários vestígios de construções anteriores. Ainda hoje, encastrados nas paredes antigas das casas do largo e mesmo no interior do templo, existem várias lápides, estelas discóides e cantarias que comprovam a utilização antiga daquele espaço.
 
 
 
Na nave da igreja, situada à entrada logo a seguir à Pia Baptismal, está colocada uma antiga estela medieval, ostentando a Cruz de Cristo e a Flor-de-Lis, num apelo sentido à profundidade cultual de Alcabideche. Noutros pontos, fruto da reutilização de materiais que foram recuperados de ruínas que a precederam, existem vários exemplares de cantaria trabalhada manuelina, evidenciando que a data setecentista que se aponta como origem do templo, nada mais representa do que um dos momentos de reconstrução do mesmo.
 
 
 
A ligação a São Vicente, na linha da complexa orientação da Identidade Municipal de Cascais, recupera os valores essenciais da ocupação islâmica de Alcabideche. A temática dos corvos, que lendariamente terão impedido o corpo do mártir cristão de ser devorado pelos abutres, surge num contexto simbólico bem visível na história da localidade. Alcabideche, ou Al-Qabdaq na sua grafia árabe, está desde há muito ligada às dinâmicas da natureza que se espraiam nos ciclos agrícolas e na dependência da fertilidade. Quando Abu Zaid Abd-Arh Ramãn Ibn Mucane cantou os moinhos de vento de Alcabideche, já eram as aves de rapina, enquanto repositório do rol de preocupações que toldava a felicidade quotidiana da população, as referências essenciais num apelo sentidode dependência da terra e dos frutos que ela dava.
 
O corpo do mártir São Vicente, e a sua aventurosa viagem de partidas e retornos por terra, pelo ar e pelo mar, nem sequer escapou à ira do fogo, cuja dimensão simbólica nos arrasta de forma imediata para os mais complexos universos da purificação e expiação dos pecados mortais.
 
 
 
 
Alcabideche é, dessa forma, espaço de limpeza espiritual, num plano que o Cristanismo foi capaz de integrar no dia-a-dia da comunidade. A Igreja de São Vicente, testemunha antiga dos rituais de outrora, é também ela ponte de ligação entre as muitas gerações que sucessivamente vêm vivendo a sua vida nesta localidade, consolidando um pleito de cidadania que faz convergir vontades e formas de estar. 

 

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publicado às 15:25

O Obelisco da Memória em Angra do Heroísmo e a Guerra Civil Portuguesa

por cascalenses, em 24.10.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Um dos piores flagelos que afectou Portugal ao longo da sua História, foi a guerra civil, decorrida entre 1828 e 1834, que opôs os reis e irmãos D. Miguel e D. Pedro IV numa luta fratricida que quase destruiu o País.
 
D. Pedro de Alcântara de Bragança, filho primogénito do Rei Português D. João VI, recebeu em 1820 a incumbência do seu pai de ficar no Brasil em seu nome, com a função de príncipe regente. Devia, durante a ausência do pai na metrópole para tratar dos assuntos relacionados com a Revolução Liberal, representar a Coroa de Portugal nas terras de além-mar. Mas, pressionado pelos liberais Portugueses a regressar à metrópole e a fazer regredir o estatuto autonómico do Reino do Brasil, o príncipe cede aos interesses da antiga colónia e, num acto de traição da Portugal, é aclamado Imperador do Brasil, no dia 12 de Outubro de 1822, depois de ter proclamado a independência do novo reino num episódio que passou a designar-se como o “Grito do Ipiranga”.
 
 
 
 
A solução de governabilidade e sucessão encontrada depois da morte de Dom João VI, passava pela colocação no trono Português da sua neta D. Maria da Glória, filha primogénita do seu filho brasileiro, que deveria desposar, para garantir o sustento jurídico do seu vínculo Real, o seu tio Dom Miguel de Bragança. Dado que a legislação em vigor não permitia que um só monarca acumulasse dois tronos e a praxis jurídica Portuguesa determinava o ‘Grito do Ipiranga’ como um acto de traição à Pátria fazendo cessar quaisquer direitos sucessórios que o seu promotor pudesse ter, este acordo adaptava-se às circunstância e selava-se assim um pacto que garantia a soberania de Portugal e do Brasil, ao mesmo tempo que se acautelavam os interesses das duas Nações no xadrez político que estava a definir novas fronteiras no Mundo de então.
 
Mas, como nem sempre a linearidade dos acontecimentos se compadece com as necessidades do dia-a-dia, os interesses específicos do Brasil, de França e da Inglaterra, misturados ainda com o clima de tensão que nunca se diluiu relativamente à presença Holandesa em terras de Vera Cruz, acabaram por determinar uma alteração substancial nos compromissos políticos assumidos. O Imperador do Brasil, com o apoio dos liberais ingleses, cujos interesses eram muitos e muito variados em Portugal, recebeu a incumbência de recuperar a Coroa Nacional, alegando que o seu irmão, entretanto aclamado Rei pelo povo português, havia quebrado o pacto e o juramento feito à Carta Liberal.
 
 
 
 
Dom Miguel, de espírito vivo e de coração profundamente vincado pelos interesses da Nação Portuguesa, não acatou as ordens do irmão brasileiro e recusou responder de forma cabal aos interesses ingleses. E o resultado, de todos bem conhecido, foi uma guerra civil terrível que dividiu o País em dois e que teve como principal consequência um estado de permanente dependência relativamente a Inglaterra.
 
Quando as Cortes de 1828 aclamaram Dom Miguel como Rei de Portugal, num acto de autonomia relativamente àquilo que haviam sido os principais laivos da determinante movimentação liberal que afectou o País nesta época, passaram a estar em causa um conjunto de leis que haviam sido definidas por países estrangeiros com interesses diferentes daqueles que eram os dos Portugueses de então. Dom Miguel, expressão completa daquilo que sempre havia sido a pedra angular da Portugalidade, representava assim um renovado sopro de independência do País relativamente a interesses terceiros, possivelmente deixando antever ainda alguns resquícios da essência nacionalista que resultou da Revolução de 1640.
 
O regresso à política municipalista, recuperando práticas antigas do Portugal de antanho, foi uma das medidas mais populares tomadas pelo novo Rei. Dando um passo atrás e recuperando valores associados ao absolutismo, renegando políticas estrangeiradas que haviam entrado em Portugal através de organizações de índole sobretudo inglesa e francesa e que nada tinham a ver com a tradição local, Dom Miguel alcança o apoio incondicional do povo, da nobreza tradicional e da Igreja. Mas o esforço diplomático internacional levado a cabo pela Coroa, querendo fazer reconhecer o rei, apenas consegue o apoio dos recém-nascidos Estados Unidos da América e do Vaticano, tendo-se debatido com o firme silêncio das restantes nações europeias.
 
 
 
 
O seu irmão, Imperador Dom Pedro I do Brasil, por seu turno, desenvolve contactos no mesmo sentido com os mais importantes movimentos liberais e para-maçónicos da Europa. Tendo conseguido o seu apoio, que tinha como principal objectivo o recuperar desses valores políticos liberais, acaba por abdicar do trono brasileiro, onde deixou o seu filho mais velho que foi aclamado como Imperador Dom Pedro II do Brasil, e regressa a Portugal com o objectivo de usurpar o trono.
 
A guerra civil entre absolutistas e liberais, apoiantes de Dom Miguel e de Dom Pedro, começa assim a dilacerar o País, impondo um clima de terror absoluto que vai mudar durante muitos anos a existência dos Portugueses. Começando por ser favorável aos miguelistas, que contavam com o apoio da maior parte dos Portugueses, o rumo da guerra mudou de forma inexorável quando Dom Pedro recebe o apoio dos ingleses. Depois de desembarcar nos Açores, onde transformou a Ilha Terceira e a Cidade de Angra no seu quartel-general, Dom Pedro lança uma série de ofensivas bem conseguidas contra o exército Português, alcançando vitórias que acabarão por ser vitais para o controle efectivo de Portugal.
 
A dureza das batalhas, bem documentada através da longevidade que a sua memória alcançou, teve o seu apogeu precisamente no Arquipélago dos Açores, que serviu de cenário para alguns dos seus mais ensanguentados episódios.
 
Na capital da Ilha Terceira, a força dos combates foi tão grande que o Rei D. Pedro IV, depois de recuperar o controle do trono, decide alterar o nome da cidade. A velhinha cidade de Angra, ganha então o epíteto ‘do Heroísmo’, que passa a integrar-lhe o nome com o objectivo expresso pelo rei de não deixar esquecer o heroísmo dos soldados liberais que ali apoiaram a sua causa.
 
 
 
 
No Alto da Memória, num flanco sobranceiro à cidade de Angra do Heroísmo, existe ainda hoje um estranho obelisco de forma piramidal, conhecido como o “Obelisco da Memória” que recorda essas batalhas. Erigido em 1856, foi feito com pedras retiradas do antigo Castelo dos Moinhos e integrando uma pedra trazida do porto da cidade, que teria sido lendariamente a primeira pedra pisada pelo Rei Dom Pedro IV quando chegou à Ilha Terceira.
 
A sua estética profundamente maçónica, com a sua estrutura piramidal que não nega a sua origem estrangeira, assenta numa vasta e complexa estrutura simbólica que traduz de forma muito assertiva o conjunto de valores e princípios que determinaram o apoio europeu ao Rei Dom Pedro. É essa influência, aliás, que melhor explica a dicotomia entre um país que genericamente apoiava o seu rei absoluto, Dom Miguel, e que se confrontou com as movimentações liberalizantes que pouco ou nada tinham a ver com as práticas reais em Portugal.
 
 
 
 
Mais do que a evolução das mentalidades que sustentavam a Coroa de Portugal, o obelisco piramidal do Alto da Memória, em Angra do Heroísmo, é a chave que permite interpretar as muitas mudanças que o País conheceu daí em diante e que, na sua generalidade, se prolongam até hoje no devir quotidiano dos Portugueses.
 
Deve ser visitado e conhecido, num esforço de interpretação que deixa antever aquilo que outrora foi Portugal.

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publicado às 15:50

O Triste Estado do Forte da Cadaveira em São João do Estoril

por cascalenses, em 17.10.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Conhecido oficialmente como Forte de São Teodósio ou da Cadaveira, o Forte d’Assubida, como popularmente é designado, situa-se a Nascente da Praia da Poça, em São João do Estoril, numa as margens da Ribeira da Cadaveira.
 
 
 
 
A estrutura, de cunho simples e desenhada com o objectivo de ser eficaz, foi erguida durante o período das Guerras da Restauração, logo depois de 1640. Integrando-se numa linha defensiva de larga escala contra as tentativas de reconquista do poder luso por parte dos exércitos espanhóis, o Forte de São Teodósio defendia a enseada da Praia da Poça, em fogo cruzado com o Forte Velho, situado na outra margem da ribeira. Deste plano de defesa da Costa de Lisboa, que se prolongava desde São Julião da Barra até ao Cabo da Roca, faziam parte mais de uma dezena de fortificações de várias dimensões, adaptando-se a orografia dos terrenos onde foram construídas.
 
O Forte da Cadaveira, com planta quadrangular semelhante às restantes, apresenta um pátio central a partir do qual se distribuíam os espaços interiores. Os quartéis e o paiol, sustentando um terraço de onde se obtém uma das mais extraordinárias vistas dos Estoris, viram a sua segurança reforçada, já em pleno Século XVIII, com a construção de três guaritas que passaram a permitir o patrulhamento nos principais ângulos de acesso à praia.
 
 
 
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público desde Setembro de 1977, o Forte da Cadaveira conheceu uma história atribulada e nada linear. Depois de ter sido desactivado das suas funções militares, em 1843, o edifício foi entregue à Santa Casa da Misericórdia de Cascais que, por sua vez, o cedeu a um particular. Este, por seu turno, devolveu-o à Misericórdia que em 1942, depois do início das obras de construção da Avenida Marginal, o entregou à Guarda Fiscal, que aí se instalou até época recente. Já neste século, o edifício veio parar às mãos da Câmara Municipal de Cascais que prontamente anunciou um projecto para o local. Mas, por qualquer motivo que possivelmente alguém conhecerá, foi agora completamente abandonado, com a porta aberta e o interior acessível a todo o tipo de destruição.
 
O cenário que hoje apresenta o Forte da Cadaveira é dantesco. A porta destruída abre o espaço para o pátio coberto de lixo e de restos de fogueiras. E os alojamentos, ainda há pouco tempo em excelente estado de conservação, estão agora completamente destruídos, alguns com sinais de incêndio e os restantes cobertos de lixo nauseabundo e de seringas usadas. A bateria, de onde é possível observar a passagem magnífica do local, está praticamente coberta de entulho e o cheiro a fezes, combinado com os restos de refeições já apodrecidos e com centenas de garrafas partidas, torna praticamente impossível visitá-la.
 
 
 
Não existem palavras para descrever o estado em que se encontra este edifício classificado e que faz parte do património Cascalense. Responsáveis pela situação actual haverão certamente. E é deles a responsabilidade pela destruição da memória e da identidade dos Cascalenses.
 
 
 
 
 

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publicado às 15:40

Nossa Senhora da Conceição da Abóboda em Cascais

por cascalenses, em 03.10.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O dogma da Imaculada Conceição faz parte dos mais ancestrais arquétipos da Portugalidade. Praticamente desde a fundação da nacionalidade, provavelmente recuperando laivos de Fé que nos chegam desde o princípio dos tempos, que a Senhora da Conceição está directamente ligada aos mais importantes acontecimentos que regem a História de Portugal.
 
 
 
 
Em termos oficiais, foi no dia 8 de Dezembro de 1325, a pedido da Rainha Santa Isabel e por proposta do Bispo Dom Raimundo de Coimbra, que Nossa Senhora da Conceição foi decretada Padroeira de Portugal. Anos mais tarde, depois da Restauração da Independência Nacional, o Rei Dom João IV consagrou Portugal a Nossa Senhora da Conceição, sendo que desde essa altura, num reconhecimento perene à sua intervenção relativamente ao destino de Portugal, nenhum monarca Português voltou a usar a Coroa, colocada na imagem venerada em Vila Viçosa.
 
Também em 1385, na chegada ao trono da Dinastia de Avis, é Nossa Senhora da Conceição que corporiza a devoção principal de Portugal. Dom João I, Mestre de Avis, bem como o seu braço direito, o Condestável D. Nun’Álvares Pereira, dedicam a Nossa Senhora as suas vitórias e consagram-lhe o País numa profunda devoção. O Mosteiro de Santa Maria da Batalha, por um lado, e o Convento do Carmo, por outro, utilizam como sustentáculo de Fé precisamente o despojamento total relativamente à materialidade e uma entrega plena à Divindade. O Condestável, do alto do imenso poder político e económico que havia conquistado, entrega mesmo a sua vida, os seus bens e a sua própria identidade a Nossa Senhora, tendo morrido como simples Frei Nuno de Santa Maria, num exercício de despojamento total que representa a consagração profunda de Portugal ao seu novo estado.
 
 
 
 
Em Cascais, são vários os espaços de culto dedicados a Nossa Senhora da Conceição e geralmente relacionados com espaços de raiz rural, nos quais a memória colectiva preserva lembranças de antigos milagres onde a principal marca é a transmutação da matéria. Numa abordagem eminentemente alquímica relacionada com a importância de Nossa Senhora na defesa dos mais pobres e dos mais desesperados, numa linha que entronca nos milagres atribuídos à Rainha Santa, simultaneamente mulher do Rei Dom Dinis e zeladora dos interesses (leia-se conhecimentos) templários preservados em Portugal através da Ordem de Cristo, Nossa Senhora da Conceição intervêm directamente junto da comunidade Cascalense, interferindo positivamente no seu quotidiano e provocando alterações profundas na prática religiosa desta Nossa Terra.
 
Na localidade da Conceição da Abóboda, junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, Nossa Senhora apareceu a uma pobre e esfomeada pastora que por ali andava a tomar conta do seu rebanho. Pedindo-lhe que se dirigisse à vizinha localidade de Freiria, enquanto ela própria zelava pelos animais do rebanho, Nossa Senhora indicou à pastora um forno de pão ao qual se deveria dirigir para pedir alimento. Ali chegada, a pastorinha explicou à forneira que a Senhora lhe tinha aparecido e pedido que colocasse para si um pouco de pão no forno. Esta, zombeteira e não acreditando na criança, põe no forno uma bola minúscula de massa que, depois de cozer se transforma num enorme pão. Não o querendo entregar, repete a operação com uma quantidade de massa ainda mais reduzida, mas o fenómeno volta a repetir-se de igual maneira. E numa terceira tentativa, colocando no forno uma míseras migalhas de farinha que dão origem ao maior pão jamais cozido naquele forno, a padeira apercebe-se da estranheza do que estava a acontecer e convence-se de que fora efectivamente a Senhora da Conceição que ali estava a intervir.
 
Simultaneamente, perto do local onde havia ficado o rebanho, um fidalgo local andava a caçar lebres. Um acidente, no entanto, fez com que a sua espingarda tivesse rebentado com um tiro mas, milagrosamente, sem lhe provocar qualquer espécie de ferimento. Tentando perceber o que se passava, o senhor encontra a pastorinha e a forneira que lhe contam o que se havia passado, tendo ele mandado erguer uma pequena ermida no local onde aparecera Nossa Senhora, como agradecimento pela sua intervenção miraculosa no acidente que sofreu.
 
 
 
 
A Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda é, assim, um testemunho físico extraordinário da ligação precoce que o povo de Cascais tem à Padroeira de Portugal, numa expressão de singeleza profunda que segue em linha com o apelo ao despojamento que o culto mariano expressa na sua origem sagrada.
 
De linhas simples e com elementos decorativos de índole profundamente rural, a capela apresenta uma só nave, onde sobressai a pedra tumular datada de 1579 mandada construir por Frei Gonçalo de Azevedo e o remate do arco de acesso ao Altar no qual se podem ver as cruzes da Ordem de Malta, à qual pertencia o frade fundador. No corpo da capela, merece especial destaque a imagem de Nossa Senhora do Ó, de origem desconhecida mas certamente de origem ainda medieval, entroncando no culto provavelmente pré-Cristão que evolui até chegar precisamente à Senhora da Conceição.
 
 
 
 
A singeleza da velhinha Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda contrasta de forma extraordinária com a grandeza do significado profundo que ela agrega e, sobretudo, com a sua importância na definição da Identidade Cascalense. Assumindo que a própria Nacionalidade depende das bases de sustentação ao nível da cultura e da espiritualidade, facilmente se percebe que a Capela da Abóboda é peça essencial do património municipal de Cascais.
 
Deve ser conhecida, reconhecido e valorizada.
 
A bem de Cascais!

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publicado às 18:14

Património de Cascais - Memórias Antigas da Nossa Terra

por cascalenses, em 20.09.16

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Na semana em que Cascais se prepara para comemorar o património, oferecendo à sua população a possibilidade rara de visitar peças que fazem parte da identidade Cascalense e que estão normalmente fechadas ao público, importa recuperar este que é um dos temas mais importantes para a Nossa Terra.

 

Entre 1993 e 2000, a Fundação Cascais preparou o “Levantamento Exaustivo do Património Cascalense”  O trabalho agregou um conjunto de seis bases de dados (uma por cada freguesia) com um total de 2900 fichas patrimoniais e cerca de 500 páginas de sugestões e propostas que tinham como principal objectivo recriar um instrumento de trabalho profícuo para a administração municipal.

 

O L.E.P.C. foi publicado em versão electrónica através de um suporte em CD-Rom, tecnologia de ponta naquela época, facto que se tornou possível depois do apoio que a instituição recebeu da Câmara Municipal de Cascais para esse efeito, tendo sido distribuído gratuitamente em todas as bibliotecas e escolas do município.

 

Infelizmente, 16 anos depois dessa publicação, uma parte substancial das peças patrimoniais inventariadas pela Fundação Cascais já desapareceu. Algumas foram destruídas pela fúria do betão e deram lugar a espaços incaracterísticos que todos conhecemos; outras desapareceram como consequência da ruína que resultou do seu abandono; e outras tantas, embora devidamente classificadas, foram “esquecidas” pelo poder político, vendo desaparecer todo o potencial turístico, cultural e social que ainda possuíam.

 

Em 2003, quando a Fundação Cascais publicou a sua revista dedicada ao património, fez-se o ponto-de-situação em que nos encontrávamos… Isabel Magalhães, então presidente do Conselho de Fundadores, dizia que “a inventariação e a posterior classificação dos imóveis com valor, é o primeiro passo que se deve seguir para combater a degradação”. Filipe Soares Franco, o então presidente do Conselho de Administração, sublinhava que “apesar de ter sido notório o apoio da sociedade civil a esta causa, os partidos políticos ignoraram o apelo, criando assim as condições que permitiram a delapidação patrimonial de Cascais”. Pedro Luís Cardoso, tesoureiro da instituição, dizia que “sem património e sem memória fica comprometida a vocação turística de qualidade de Cascais” e João Aníbal Henriques, coordenador do projecto, explicava que “no ano 2000, quando a Fundação Cascais entregou à Autarquia o ‘Levantamento Exaustivo do Património Cascalense’, com seis bases de dados e cerca de 2900 imóveis inventariados, deixou de existir desculpa para o desconhecimento que se alegava noutros tempos”.

 

Tantos anos depois, quando muitos dos imóveis que constam no Levantamento Patrimonial realizado pela Fundação Cascais já são história e não passam de memórias difusas de alguns Cascalenses, vale a pena voltar a percorrer cada uma destas fichas e destas fotografias que ainda se encontram por aí em bibliotecas espalhadas por esse País fora.  Por ali se encontram os laivos oníricos de um Cascais que soçobrou perante os muitos interesses que permanentemente se digladiam à sua volta, mas também os pilares indestrutíveis de um edifício de cidadania que dignifica a Nossa Terra.

 

 

Clique AQUI para reler a Revista Fundação Cascais dedicada ao Património Cascalense

 

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publicado às 14:50

Pax Júlia e o Castelo de Beja

por cascalenses, em 19.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
São muito raras as cidades, sejam elas situadas no actual território Português ou fora dele, que podem orgulhar-se de ostentar um topónimo tão significativo como Beja. O actual nome da cidade, recuperando o topónimo ancestral (provavelmente pré-histórico) do local, deriva da palavra baja, ou seja, lama ou lodo, trazendo à memória a fertilidade excepcional dos terrenos agrícolas que envolvem a cidade. Mas, durante o processo de romanização, iniciado provavelmente no primeiro século antes de Cristo, adquiriu a designação latina de Pax Julia. O pax reverte para o processo de pacificação das populações célticas que foram invadidas pelos romanos, e o epíteto Julia tem a ver com o nome do Imperador que deu forma a esse processo de paz: Júlio César.
 
Beja é, por isso, cidade simultaneamente de paz e de fertilidade, ou seja, tem tudo aquilo de que o Ser Humano necessita para viver bem e usufruir da sua vida! A planície alentejana, dourada pelo restolho quente que dá forma e corpo ao ciclo agrícola, perpetua no tempo os valores antigos de gerações e gerações de Portugueses que se vão substituindo umas às outras neste espaço imenso.
 
E a História de Beja é longa e profícua. Inicia-se provavelmente durante a pré-História, como o indicam os muitos vestígios arqueológicos existentes nas redondezas, e afirma-se de forma peremptória durante o calcolítico quando ali foi construído um povoado fortificado que ocupava o espaço onde hoje se situa o castelo.
 
 
 
Quanto a este, altaneiro a partir das suas muralhas antigas, é produto da evolução dos tempos e das necessidades pelas quais foram passando os muitos pacenses que foram habitando o lugar. Se as primeiras pedras foram colocadas ainda antes da História, tendo-se perdido o seu rasto nos complicados repositórios da memória popular, certo é que os laivos da fortificação mais resistente serão de origem romana. André de Resende, o historiador quinhentista de Évora, assegura, embora sem fontes fidedignas que o atestem, que o local onde hoje se situa o castelo de Beja foi outrora ocupado por um oppidum romano, ou seja, uma fortificação de carácter simples e planta circular, cuja principal função seria a de proteger aqueles que governavam a cidade.
 
O próprio Júlio César, cumulado de glória por ter conseguido conquistar os anteriores habitantes do local, subjugando-os pela força do seu exército mas também pelo carácter imperioso da cultura que o Império Romano representava, terá estado ali para formalizar a paz que conseguira assegurar. O período romano, foi assim uma época de grande prosperidade para a cidade, que foi simultaneamente sede de convento – o Conventus Pacencis – e sede de uma das chancelarias da Lusitânia. Por ali passava uma das principais vias romanas, que permitia a ligação directa à capital do Império, corporizando um impulso urbanístico cujos vestígios são ainda hoje visíveis um pouco por toda a cidade.
 
 
 
O declínio do Império Romano e a sua progressiva desagregação, sendo sinónimo de uma diminuição paulatina do poder detido pelos invasores, representou também ele o início de um período de maior instabilidade no actual território alentejano e, por extensão, na própria cidade de Pax Julia. Os ataques dos bárbaros, sistemáticos e sucessivos ao longo de vários séculos, traduziram-se em várias conquistas e reconquistas que, como facilmente se percebe, significaram também saques e destruição, delapidando as muitas riquezas que existiam na cidade. Será porventura dessa época o período de maior destruição das muralhas do castelo. Sem tempo nem estabilidade para serem reconstruídas, o processo natural de erosão das mesmas e a incapacidade de se proceder a obras de reconstrução, gerou um processo de ruína acentuado, do qual não escaparam as necessidades práticas e quotidianas de pedras para utilização noutros equipamentos e em casas que foram sendo edificadas. É ainda hoje muito fácil encontrar nas ruas de Beja, casas e muros onde são notórias as grandes pedras retiradas da anterior fortificação da cidade e que, século após século, foram dando forma à urbe que hoje ali encontramos.
 
Já na idade média, durante o domínio árabe, foi Beja novamente retransformada numa das mais importantes cidades do Alentejo. Os ocupantes muçulmanos, ali chegados no ano de 711, propuseram-se recuperar o traçado urbano antigo e é dessa época a transição do topónimo romano – Pax Julia – para a ancestral Baja. No entanto, quer pelas guerras internas, quer possivelmente pelas alteração dos eixos estratégicos dentro do território, não voltou Beja a recuperar a grandiosidade de outros tempos.
 
As notícias mais recentes na História da Cidade e do seu castelo são assim do século XII, quando Fernão Gonçalves, chefiando um grupo de populares oriundos de Santarém, ataca a cidade de surpresa alcançando uma vitória retumbante. Embora tivesse sido sol de pouca dura, porque logo depois os inimigos muçulmanos conseguiram voltar a recuperar a cidade, o certo é que até este primeiro esforço de reconquista mostra bem o estado lastimoso em que Beja se encontrava. Um grupo mal armado e mal preparado, naturalmente motivado pela possibilidade do saque a que a vitória do seu ataque daria direito, avança de forma amadora e despreparada sobre as velhas muralhas e facilmente as consegue conquistar.
 
O regresso ao controle cristão não está devidamente documentado, mas um estudo comparativo com o que aconteceu nas redondezas, permite supor que Beja terá regressado à Coroa Portuguesa algures entre 1232 e 1234, dado terem sido estas as datas em que tal processo aconteceu com as vizinhas cidades de Moura, Serpa e Aljustrel. Mas o seu velho castelo, destruído por sucessivos séculos de ataques e de abandono, só virá a conhecer obras de recuperação com o Rei Dom Afonso III que em 1234 atribuiu o foral à cidade.
 
 
 
O Rei Dom Dinis, depois de confirmar o foral inicial, dedicou-se também à reconstrução do castelo, sendo da sua responsabilidade a generalidade dos amuralhamentos que ali hoje vemos. Foi também ele quem, por necessidades práticas associadas à consolidação da fronteira Nacional, mandou edificar a torre de menagem que é hoje um símbolo de Beja. Com cerca de 40 metros de altura, o que faz dela a mais alta de Portugal, foi concebida de forma similar àquela que existe no Castelo de Estremoz, tendo sido concluída provavelmente durante o reinado de D. João I, o fundador da Dinastia de Avis, à qual Beja se manteve firmemente fiel durante o conturbado processo político de 1383-1385.
 
Depois deste período, novamente no Século XVI se realizam obras no castelo, desta vez para o adaptar às modernas exigências técnicas da guerra, que já não se compadecia com a formulação eminentemente medieval da velha fortificação. Apesar deste esforço modernizativo, Beja foi completamente destruída pelas tropas napoleónicas durante as invasões francesas, tendo depois disso mantido o seu carácter humilde de cidade de província, estatuto que manteve até ao final da primeira metade do Século XX.
 
 
 
 
A partir daí, fruto de uma grande aposta do Estado, Beja conheceu um novo período de crescimento. Viu construídas várias escolas e um grande hospital, tendo recuperado alguma das suas antiga pujança. Para surpresa de muitos, ali se construiu um aeroporto internacional, nos idos de 2011, que apesar de não apresentar movimento (!?) é hoje o ex-libris das modernas obras públicas na cidade!
 
Mantendo nas suas armas municipais a figura do touro, recuperado da velha lenda que nos conta a forma como Beja conseguiu matar uma cobra venenosa que aterrorizava os habitantes da cidade, a urbe é hoje um símbolo muito firme da força e da perseverança que sempre caracterizou as suas gentes, sendo capaz de se afirmar como um espaço de excepcional importância para compreender Portugal e para perceber as origens da identidade Portuguesa.
 
A paz que a cidade ostenta, cobrindo de glória os muitos motivos de interesse para uma visita e a inesgotável fonte de História e de história que a cada canto e recanto representam, são marca indelével de um sentido de Portugalidade que é urgente compreender.

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publicado às 17:13

A Capela de Nossa Senhora dos Remédios em Viseu

por cascalenses, em 13.09.16

 

 
por João Aníbal Henriques
 
As memórias antigas de Viseu estão ainda hoje profundamente ligadas ao legado deixado pelo Infante Dom Henrique. O navegador visionário, Mestre da Ordem de Cristo, testemunha o carácter ancestral da ligação de Viseu ao Mundo, numa atitude cosmopolita que contrasta de for evidente com a práxis quotidiana da cidade ao longo dos últimos séculos.
 
O ilustre infante, senhor do Ducado de Viseu, geria os seus domínios a partir do paço que possuía junto à Porta do Soar, do qual terá feito parte, e perto do sítio onde actualmente se encontra a singela Capela de Nossa Senhora dos Remédios.


 
Certamente por mera casualidade, pois o templo foi construído somente em 1742, a capela apresenta uma curiosa planta octogonal, em linha com o que terá sido a planta principal dos templos erguidos pela ordem que o Infante dirigia, complementada com um altar de talha polícroma composta a partir de um conjunto de índole tardo-barroca.
 
A capela, que terá vindo substituir uma anterior dedicada a São Sebastião e datada do Século XVI, ocupa posição estratégica no seio do eixo de protecção da cidade. A porta do Soar, também conhecida como Arco dos Melos, em homenagem à família cujo solar se encontrava a ela adossado (actual Hotel Palácio dos Melos), era uma das principais portas de entrada na cidade e São Sebastião, a quem o templo tinha sido dedicado, tinha como função principal proteger o espaço mais importante de Viseu da peste e de outras enfermidades, dado ser ele o padroeiro protector contra esse tipo de males. Por isso, mais do que por qualquer motivação de âmbito sagrado, ocupará a actual capela a posição em que se encontra no Largo do Pinto Gata, que era a antiga Praça da Erva.


 
Construída à custa das esmolas dos devotos, terá a iniciativa da sua edificação partido de um grupo de moradores da Praça da Erva, com a motivação de prestarem homenagem à sua padroeira. Em 1739, o então Cónego Bernardo Pereira de Melo, em resposta à pretensão dos moradores, assina uma escritura de doação de um conjunto de pequenas casas com o intuito de aí se edificar o novo templo. As obras foram conduzidas pelos pedreiros minhotos Manuel Lourenço e Manuel Ribeiro, tendo sido necessário ao Cabido da Sé a oferta de vários apoios dado a escassez das esmolas que os moradores conseguiram pedir.
 
O espólio, simples tal como a formulação do próprio templo, veio da Capela de São Lázaro, que tinha sido demolida em 1816, por iniciativa da Confraria de Nossa Senhora dos Remédio, que tinha sido institucionalizada no ano de 1747. Depois de passar para as mãos da família Melo, que dela se apossou em meados do Século XIX, a capela volta ao uso público já no Século XX depois de ter sido arrematada em leilão pela edilidade de então. 
 
Guardiã da memória histórica da Cidade de Viseu, ali colocada como sentinela firme que testemunha a entrada e saída por aquela que é uma das mais importantes portas do burgo, a Capela de Nossa Senhora dos Remédios esconde aos olhos menos atentos as memórias velhas do Infante Dom Henrique de Portugal que, na sua planta octogonal, esconde os desígnios mais profundos da Portugalidade  e o ensejo de trazer novos mundos ao Mundo.
 
Enfim… a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em Viseu, é testemunho vivo da própria Portugalidade.  

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publicado às 17:15

A Ermida de São Sebastião e as Grutas Mouras do Alvito

por cascalenses, em 13.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A origem mourisca da cultura Portuguesa, assente na recuperação de valores estéticos, artísticos e mesmo religiosos dos ocupantes maometanos que estiveram na Península Ibérica a partir do ano de 711, é ainda hoje visível em usos e costumes um pouco por todo o País.
 
No Alentejo, que durante mais tempo sentiu a influência árabe, grande parte das localidades, na sua vertente de distribuição urbanística e também na componente estética das suas casas, apresenta características desse período, integrando elementos que foram criados nessa época e fazendo o aproveitamento de técnicas de construção que os mouros delinearam.
 
No Alvito, no coração da província Alentejana, é precisamente a memória moura que determina o carácter extraordinário da povoação. Ele vive-se e sente-se em cada canto e recanto, numa profusa amálgama de pequenos detalhes que deslumbram quem ali chega.
 
No Rossio de São Sebastião, aproveitando o topónimo que o consagra, ergue-se a velha ermida com o mesmo nome e, para espanto de todos aqueles que questionam os locais sobre o que é a porta enorme que existe nas suas traseiras, uma autêntica “fábrica de mós”.
 
 
 
 
A ermida de cunho mudéjar bem definido, foi construída algures no Século XVI, sendo dessa data as primeiras referências documentais que se conhecem, provavelmente aproveitando quaisquer vestígios mais antigos que tenham subsistido do período de domínio muçulmano. Inserida no gótico final alentejano, que procura o deslumbramento de quem a visita, a ermida é um edifício simples, como o são quase todos aqueles que a pobreza que se vivia no Alentejo nessa época determinava, mas possui no seu interior um conjunto de inestimável valor de pintura mural, em forma de frescos, pintados provavelmente por José Escobar em 1611.
 
A dedicação a São Sebastião, cruzada com a localização na entrada da localidade, dever-se-á ao carácter protector deste santo relativamente às pestes. Com a colocação neste local, os seus construtores terão pensado que conseguiriam travar a entrada da peste no Alvito, ao mesmo tempo que recriavam uma barreira perante possíveis invasões que pudessem chegar daquele lado.
 
Mas o mais interessante, ainda para mais com uma datação que precede bastante a construção da própria ermida, é a existência, nas traseiras da mesma, de um conjunto vastíssimo de grutas artificiais, denominadas oficialmente como “Grutas do Rossio”. Estas galerias, escavadas na rocha-mãe que suporta os alicerces da própria ermida, surgem na documentação como sendo antigas minas de exploração de calcário no Século XIII. Mas notas documentais indirectas, que foram encontradas recentemente, apontam para a utilização dos túneis como saídas alternativas do velho castelo mouro e dos demais edifícios importantes existentes na velha vila alentejana.
 
A tradição popular, ainda hoje transmitida pelos habitantes do local a quem os visita, é que aquele é um espaço assombrado pelos mouros, sendo autênticos viveiros onde cresciam mós!
 
 
 
 
Mas nas crónicas templárias medievais, cujo conteúdo se dedica sobretudo à reconquista das terras alentejanas, o sistema de túneis do Alvito é explicado como sendo um conjunto de pedreiras onde os mouros exploravam a pedra calcária, tendo sido escavadas por mão-de-obra escravizada durante as muitas batalhas que aconteceram na região. 
 
O certo é que entre 1190 e 1191, depois de o Rei Dom Sancho I ter chegado a Silves, no Algarve, o contra-ataque mouro redobrou a sua força. Sob a liderança de Ya’qub Al-Mansur, o exército árabe terá retomado o controle de vastas áreas na região do Alentejo interior, das quais fazia parte a actual Vila de Alvito, transformando o seu castelo no ponto de referência na defesa das suas fronteiras. Em virtude dessa decisão, terão sido canalizados para ali os muitos escravos Cristãos capturados durante as batalhas, tendo-lhes sido dada a incumbência de escavar as minas e de criar os túneis que hoje conhecemos.
 
D. Frei Pedro Álvares, oitavo Mestre do Templo em Portugal, terá então liderado um ataque às posições mouras sediadas no Alvito, tendo conseguido ludibriar o inimigo e libertado a totalidade da população escrava que estava encerrada naqueles espaços subterrâneos.
 
Por isso, é ainda hoje cognominado como o “Herói do Alvito”, mantendo aquele espaço o cunho indestrutível de bastião templário de Portugal!

 

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publicado às 15:53

A Ermida de Nossa Senhora do Pranto na Chamusca

por cascalenses, em 12.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Se existe terra onde a tradição ribatejana impera, é na Chamusca que isso mais se sente. Localizada junto à margem do Rio Tejo, do qual depende de forma directa a vila tem uma história longa de velhas práticas agrícolas, nas quais o gado assume especial importância.
 
Talvez por isso, num contexto em que a importância da terra se impõe, a dicotomia é grande e concretiza-se na diferença marcante entre a arquitectura chã das suas habitações mais humildes e a opulência grandiosa das velhas casas senhoriais que davam guarita às famílias mais importantes ligadas à posse dos terrenos de cultivo existentes nas redondezas. A paisagem chamusquense é assim de casario branco em correnteza, dando lugar, aqui e li, ao surgimento das habitações veneráveis de uns quantos.
 
A dependência próxima do rio e dos ciclos agrícolas que derivam do mesmo, sente-se em cada esquina, até porque as margens do Tejo são factor de destaque na paisagem, sendo que o verde da primeira linha de água, indicando o carácter fértil daquele lugar, se mantém suficientemente afastado da localidade para precaver possíveis cheias quando as águas sobrem e galgam as margens saindo do leito.
 
 
 
 
Um dos mais bonitos monumentos da Chamusca, situado no topo de uma das colinas adjacentes, é a Ermida de Nossa Senhora do Pranto. Com uma vista única sobre a Vila da Chamusca e sobre a lezíria, a singela ermida integra-se na tipologia simples dos espaços rurais onde foi construída, integrando um conjunto em que se destaca um enorme cruzeiro calcário e um pequeno adro ladrilhado de onde é possível perceber bem a dinâmica histórica do local onde se insere.
 
Apesar de a sua origem remontar ao Século XVII, sendo dessa altura a capela de São José que a integra, o corpo principal é muito mais recente. Para além das obras de conservação e adaptação que foi sofrendo, e que lhe conferiram a imagem que hoje tem, a ermida foi ainda integrando elementos decorativos que possivelmente terão resultado de aproveitamentos oriundos de espaços análogos que eventualmente tenham desaparecido nas redondezas. É o caso do velho cruzeiro que está incrustado na sua parede, e que terá precedido, junto ao adro, o actualmente existente, alguns retábulos, bem como alguns dos maravilhosos painéis de azulejos que por dentro a revestem.
 
A Ermida do Pranto, numa devoção que conta com quase 200 anos de história, está intimamente ligada a um dos acontecimentos mais marcantes da História recente de Portugal: as invasões francesas. Reza a lenda que quando os exércitos napoleónicos chegaram ao Ribatejo, aquartelando-se na Golegã e preparando um assalto às terras da Chamusca, um conjunto de populares se refugiou na velhinha Capela de São José, no cimo do monte, para daí verem com mais cuidado o avanço das tropas na outra margem do rio. Apavorados com o que estava a acontecer, e em pranto por saberem quais seriam as consequências que iriam sofrer caso os Franceses chegassem à sua terra, os Chamusquenses terão rezado a Nossa Senhora e solicitado a sua intercessão para os salvar do desastre. Prometeram ainda, caso se salvassem deste acontecimento nefasto, a construção de uma nova capela em honra da Senhora do Pranto.
 
 
 
 
Como que por milagre, quando os Franceses se preparavam para atravessar o rio, as águas terão subido subitamente impedindo a travessia e salvado a Chamusca da mesma destruição que outras terras conheceram. Os Chamusquenses, gratos a Nossa Senhora, terão então remodelado a Capela de São José, construindo em seu torno a actual Ermida do Pranto!...
 
Ainda existe, guardada na sacristia da velha Capela de São José, uma das balas que os Franceses dispararam contra a Chamusca em desespero por não conseguirem chegar a ela durante a primeira invasão napoleónica a terras Portuguesas.
 

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publicado às 15:07

Nossa Senhora do Castelo em Coruche

por cascalenses, em 12.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A devoção de Portugal a Nossa Senhora é ancestral e precede até o processo de formação da Nacionalidade. O culto sagrado à Virgem, personificada de diversas formas consoante a designação ritualística a que está inerente, é o fio condutor que unifica pensamentos, gerando um consenso alargado que transforma a Mãe de Deus na verdadeira força motriz que dá forma a Portugal.
 
Nossa Senhora, mãe de Jesus enquanto Deus vivo na Terra, consolida assim os laivos de sacralidade que acompanham o próprio acto da criação. A diferenciação do Homem das criaturas suas congéneres no mundo animal, faz-se pelo assumir desta capacidade simbólica de interpretar o universo. E Nossa Senhora, hoje padroeira e verdadeira Rainha de Portugal, já era pedra angular da fé daqueles que por aqui vivem, desde tempos anteriores ao próprio nascimento de Jesus Cristo. Num laivo de mistério profundo, apelando aos sentidos que impõem a disciplina à carne, foi a Virgem Ancestral, mãe verdadeira da humanidade, quem determinou os vínculos perenes que mais tarde se transformam na persistente entrega à causa maior da independência do nosso Pais.
 
 
 
 
Em Coruche, pequena e airosa vila situada nas margens do Rio Sorraia, no Ribatejo, a vinculação a Nossa Senhora surge marcada precisamente pelo processo de formação da Identidade Nacional. De facto, sendo estrategicamente crucial para o controle dos territórios envolventes, bem como essencial por se situar em pleno coração da ubérrima lezíria sorraiana, Coruche conheceu um processo histórico intrincado, marcado por sucessivas lutas de conquistas e reconquistas por parte dos diversos povos que a quiseram controlar.
 
Em 1166, quando Dom Afonso Henriques a conquista aos Mouros, a pequena vila era defendida por um castelo de composição rudimentar, cuja construção era essencialmente suportada por travejamentos de madeira e tijolo simples. Foi, aliás, o carácter muito precário desta fortificação, que servia basicamente de complemento na linha de defesa marcada pelas fortificações de Santarém e de Montemor-o-Novo, que determinou a sua reconquista pelos maometanos, ocorrida em 1180, o que obrigou o primeiro Rei de Portugal a um esforço redobrado para a colocar definitivamente sob domínio Nacional.
 
Ainda o Século XII, antes de estar encerrado o processo de Nacionalização de Coruche, a Coroa entrega a vila à Milícia da Ordem de São Bento, em Évora, mais tarde de Avis. Neste processo, cujo fulcro é colocado no cimo da colina onde se erguiam as paredes do velho castelo, assume sempre especial papel o culto Mariano a Nossa Senhora, concretizado a partir da velha ermida que por ali existia. A consolidação das fronteiras e a definitiva pacificação do território Nacional, determina a perda da importância da fortificação, recentrado todo o perímetro das paredes fortificadas para a componente sagrada do espaço de culto.
 
 
 
 
Embora se conheça muito pouco daquilo que foi a História antiga de Coruche, sabe-se que a sua importância estratégica foi atravessando as eras, explicando assim a manutenção da sua ocupação humana desde os primórdios da Pré-História. Depois de os Romanos terem estado lá por motivos idênticos, o longo período sob domínio muçulmano terá certamente culminado na criação de um conjunto de espaços de culto, sendo bastante provável que o alto da colina do castelo tenha sido ponto essencial na definição dessa dinâmica religiosa.
 
Coruche está, aliás, profundamente relacionada com estes processos de mudança e transmutação. A imagem de Nossa Senhora do Castelo, provavelmente de origem oitocentista, apresenta a Virgem Mãe com o seu filho em pé, ao seu lado, ao invés de a apresentar como é normal no resto do País, com o menino ao colo. Diziam os devotos populares de outros tempos, que tal se devia ao carácter muito milagreiros da Santa Mãe, explicando assim a sua importância da definição da própria identidade dos Coruchenses. Nas Memórias Paroquiais do Século XVIII, quando o pároco local apresentava às autoridades o ponto-de-situação em que ficou Coruche depois do grande terramoto de 1755, sublinha esse facto, explicando que todos os devotos que procuraram na imagem de Nossa Senhora do Castelo e nas paredes da sua ermida uma protecção contra o cataclismo, viram as suas casas salvas da ruína em que ficaram as restantes…  
 
 
 
 
É por isso o milagre, consubstanciado na intervenção de Nossa Senhora do Castelo em defesa dos seus devotos seguidores, o factor principal que permite perceber a importância deste espaço no contexto da devoção mariana Nacional, sendo certo que as especificidades territoriais desta Senhora, muito mais do que à comum definição lendária de aparições sucessivas, se ficam a dever a uma prática reiterada desde a ancestralidade, mostrando uma linha de culto comum que se perde nos laivos antigos de outros tempos.
 
O culto actual, organizado a partir da Carta-Ordem emitida em 1516 pelo então Mestre da Ordem de Santiago e Avis, D. Jorge de Lencastre, que definia a obrigatoriedade de se organizar uma procissão anual de acção de graças a Nossa Senhora, mistura-se ele próprio com a história extraordinária da enigmática Rainha Santa Isabel, a santa alquimista que teve a capacidade de transmutar a matéria transformando pão em rosas, já que a referida procissão anual decorreu durante muito tempo no dia 4 de Julho, precisamente o dia em que se celebra a Rainha Santa e o seu falecimento em Estremoz. Só mais tarde, quando o dia 15 de Agosto passa a estar consagrado à Assunção de Nossa Senhora, se altera a data da procissão, que passa a realizar-se nesse dia e associada a uma feira anual que animava (anima ainda) a Vila de Coruche.
 
 
 
 
Ambas as datas, como é evidente, são resquícios profundos de uma religiosidade marcada pela devoção a Nossa Senhora, consubstanciada num e noutro caso em pressupostos que estão muito para além do dogmatismo que é usual noutros lados.
 
Nossa Senhora do Castelo, a Virgem-Mãe que ainda hoje acompanha em permanência muitos milhares de Coruchenses, é muito mais do que a Mãe de Jesus ou do que a mera Assunção de Nossa Senhora. É marca viva de uma ancestralidade perdida dos biombos dos tempos, marca indelével que suporta a capacidade que Coruche tem de fazer parte da vida de todos os seus filhos e dos filhos deles.
 
Vale a pena subir ao castelo de Coruche e visitar a ermida da Senhora do Castelo. Porque ali se sente Portugal. 

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publicado às 12:54

Nossa Senhora da Peninha em Sintra

por cascalenses, em 08.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Reza a lenda que, algures durante o reinado de Dom João III, uma pastorinha muda e esfomeada nascida na localidade das Almoínhas Velhas (Malveira-da-Serra, Cascais), terá subido à Serra de Sintra com o seu rebanho onde encontrou Nossa Senhora. A figura com a qual falou, respondendo ao seu anseio de alimentos para si e para a sua família, disse-lhe para regressar a casa e abrir uma determinada arca onde encontraria o pão de que necessitava. Correndo de regresso para casa da mãe, a pastorinha recuperou a voz e disse à sua mãe onde procurar o tão almejado alimento. A velha imagem tosca de Nossa Senhora da Penha, colocada na arca, terá sido então colocada para veneração na velha Capela de São Saturnino, situada a poucos metros do local da aparição. Mas, teimosa, saia subrepticiamente do altar onde a colocavam e reaparecia no cimo dos rochedos situados atrás do templo. Tantas vezes se repetiu a travessura que se construiu em sua honra a capela actual no topo do monte da peninha.
 
Não se sabendo exactamente quando tudo isto aconteceu, e havendo várias notícia da existência de edifício que precederam aquele que actualmente ali se encontra, sabe-se, no entanto, que a Capela de Nossa Senhora da Peninha terá sido construída por um tal Pedro da Conceição, que tinha na altura somente 28 anos, e que se encontra sepultado junto ao monumento.
 
 
 
 
Nas inscrições lapidares de Sintra, vem descrita a indicação que se encontra na sepultura do fundador, dizendo que ali jaz o Ermitão Pedro da Conceição, falecido em 18 de Setembro de 1726, e que pede a todos os que por ali passem um Padre Nossa e uma Avé Maria pela Alma dos seus benfeitores. Numa das paredes do templo, existe uma segunda lápide confirmando a identidade do construtor original e afirmando que a obra foi efectuada em 1690. Sendo muitos e rocambolescos os episódios pelos quais passou o singelo templo sintriano, o certo é que foi alvo de muitas obras de construção e reconstrução que lhe conferiram o aspecto que hoje conhecemos.
 
Sabe-se ainda que no final do Século XIX, em 1892, a Peninha é comprada pelo Conde da Almedina que em 1918 a revende a António Augusto Carvalho Monteiro. O Monteiro dos Milhões, como ficou conhecido o construtor da Quinta da Regaleira, situada junto à Vila de Sintra, era na altura um dos mais conhecidos e ricos empresários lisboetas, com investimentos variados na banca de então que, do alto da sua prosperidade, adquire uma visão ecléctica do Mundo e das suas gentes.
 
Profundamente místico e grande conhecedor de tudo aquilo que dizia respeito ao destino de Portugal, Carvalho Monteiro pauta a sua vida por um conjunto de valores e de princípios que, apesar da distância que o separa do antigo Ermitão Pedro da Conceição, lhe são muito próximos e semelhantes.
 

Adossado às penhas que sustentam a capela, o proprietário projecta a construção de um palácio onde pretendia passar temporadas em meditação e em recolhimento. Projectado por Júlio da Fonseca em 1920, o palácio fica por acabar mercê da morte de Carvalho Monteiro, tendo posteriormente sido adquirido do advogado José Rangel de Sampaio que concluiu as obras e legou o palácio em testamento à Universidade de Coimbra.
 
 
 
 
Em 1991, pela importância de 90.000 contos, o imóvel é adquirido pelo Estado Português, através do Serviços de Parques e Conservação da Natureza, que efectuou algumas obras de restauro e conservação.
 
A Poente da Capela de Nossa Senhora da Peninha, subsiste em forma de ruína avançada, o que resta da velhinha Ermida de São Saturnino, originária do Século XII, e cuja importância em termos patrimoniais contrasta de forma evidente com a incúria em que tem sido deixada.
 
 
 
 
O conjunto patrimonial da Peninha, composto pela Capela, pelo palácio de Carvalho Monteiro e pela velha Ermida de São Saturnino, está inserido numa das mais impactantes paisagens da Região de Lisboa, abraçando em termos visuais desde a Ponte Sobre o Tejo, em Lisboa,  até ao Cabo da Roca.

A singeleza da lenda, apelando aos sentidos de pureza primordial e fazendo a apologia da pobreza extrema, enquadra-se no conjunto ritualístico próprio da Serra de Sintra, numa lógica cruzada de paganismo cristianizado e de apelo constante ao Quinto Império Português. A devoção pela Senhora que concebe, a Senhora da Conceição que tão linearmente devolve à pastorinha das Almoínhas Velhas (ou Almas velhas), a sua voz e lhe mata a fome, é concretizada pelo Ermitão, ou seja, pelo que assume a pobreza como fio condutor da sua vida, Pedro da Conceição, em ligação permanente ao culto ritual antigo.
 
Na Ermida Medieval, onde o culto é de São Saturnino, a linha orientadora é a mesma, apelando ao eterno retorno e ao culto obscurecido dos Mundos Internos, numa lógica que corre em linha com o útero materno, a Deusa-Mãe primordial, por aqui venerada desde tempos imemoriais.
 

 

Enfim… Nossa Senhora da Conceição. 

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publicado às 16:31

A Ponte Pênsil D. Maria II e a Tragédia das Barcas no Porto

por cascalenses, em 08.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quem chega à Ribeira do Porto deslumbra-se de imediato com o impacto extraordinário da paisagem. As duas margens, irmãs na forma como partilham as águas do rio mas apartadas por séculos de rivalidades recíprocas, compõem um cenário digno do melhor filme de Hollywood, no qual as cores e as texturas transmitem de forma muito evidente o peso enorme da suas história e a importância que a cidade invicta sempre teve na própria História de Portugal.
 
Mas junto à Ponte Dom Luís I, que se impõe na paisagem, existe um pequeno monumento que passa despercebido aos mais desatentos e que é marca indelével de outros tempos e de outras histórias. Tendo ficado como repositório de memória, importa recuperar aquilo que se sabe sobre a antiga Ponte Pênsil D. Maria II, cujos pilares sobrevivem com a velhinha casa do guarda, testemunhando por seu turno a enorme tragédia humana e política que configurou a chamada Ponte das Barcas que ela veio substituir.
 
 
 
Sendo a ligação entre as duas margens do Rio Douro uma preocupação constante e uma necessidade permanente ao longo dos séculos, muitas foram as tentativas de construção de pontes que permitissem fazer a passagem em segurança. Sobretudo desde o final do Século XVIII, quando o transporte das pipas de vinho do Porto se tornou numa actividade verdadeiramente lucrativa e importante, foram sendo construídas sucessivas, embora sempre muito frágeis, pontes de barcas a ligar as duas margens. Utilizando velhas barcaças já fora de uso, que eram ligadas entre si com correntes, os portistas de então criavam soluções que embora fossem pouco duradouras, eram mesmo assim mais acessíveis do que o transporte por barco através das águas do rio.
 
A última dessas Ponte das Barcas foi inaugurada em 15 de Agosto de 1806 com traço de Carlos Amarante e nela aconteceu uma das maiores tragédias da História de Portugal. Durante a Segunda Invasão Francesa, dirigida pelo Marechal Nicolas Soult, as tropas francesas ocuparam a cidade do Porto e chacinaram a população que, em pânico, acabou por tentar fugir através da ponte que atravessava o rio. A estrutura, muito frágil e desapropriada para aguentar o peso das cerca de 4000 pessoas que tentavam fugir, acabou por perecer, matando nas águas gélidas do Douro milhares de Portugueses.
 
A tragédia da Ponte das Barcas, marca indissociável da memória colectiva de Portugal e dos Portugueses, transmite em si própria o extremo desespero de um país verdadeiramente abalado pelas alterações políticas que caracterizaram o final do Século XVIII e o início do Século XIX, marginalizado numa Europa que se definia a partir do eixo Londres – Paris e fragilizado pelas sucessivas aventuras políticas em que se havia embrenhado. A morte daquelas 4000 pessoas, contrasta de forma evidente com a vitória de Portugal sobre o exército francês mas denota também a dependência quase eterna relativamente à Coroa Britânica…
 
 
 
A antiga Ponte das Barcas no Douro
 
 
Para substituir a Ponte das Barcas, e possivelmente para ajudar a esquecer a imensa tragédia que se havia abatido sobre a cidade, os poderes locais optam então pela construção de uma nova estrutura de carácter mais perene.
 
 
 
Com desenho do Engenheiro Stanislas Bigot, a nova ponte suspensa que ligava ambas as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia, foi ironicamente construída pela empresa francesa Claranges Lucotte & Cie., tendo sido inaugurada (sem pompa nem circunstância) em Fevereiro de 1843.

 

Antes de ser substituída, cerca de quarenta e cinco anos depois, pela nova Ponte Dom Luís, foi completamente desmontada, subsistindo somente os ditos pilares de suporte na margem do Porto, bem como a parede-mestra da antiga Casa do Guarda, que tinha como função principal a cobrança das portagens relativas à travessia. 

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publicado às 15:28

O Castelo de Mourão no Alentejo

por cascalenses, em 08.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
É extremamente impactante a impressão que produz uma primeira visita ao Castelo de Mourão. Por um lado, a inexplicável linha de horizonte, misturando os resquícios antigos da paisagem seca do Alentejo de outros tempos com os panos de água do Grande Lago, que lhe conferem a singeleza subtil de uma frescura imaginária que o corpo não sente. Por outro, o estado de imensa degradação, num laivo que roça os travos amargos do abandono  e da ruína, dando conta do enorme desprezo pelas mais importantes peças da memória e da História de Portugal…
 
O Castelo de Mourão, cuja actual construção se iniciou em 1343 com traço de Mestre João Afonso e por ordem d’El-Rei Dom Afonso IV, é uma fortificação de cariz militar situada a poucos minutos da raia fronteiriça. É, aliás, esta condição, que representa a sujeição ao clima de permanente instabilidade que resulta da sua inclusão numa zona de fronteira, que determina a sua importância, bem como muitos dos rocambolescos episódios que a constrangeram ao longo do tempo.
 
 
 
 
Essa proximidade, é também ela determinante para definir os antecedentes da história do local, uma vez que dificilmente se concebe a conflituosidade permanente que existiu neste local desde (pelo menos) a fundação da Nacionalidade, sem que nela tenha existido uma fortificação condigna. Muitas das informações existentes sobre este espaço apontam para a existência de vários momentos de construção anteriores à data apontada, sendo certo que, pela sua localização geograficamente relevante e profundamente simbólica em termos estratégicos, seja razoável aceitar que terá existido por ali alguma construção defensiva pelo menos desde a ocupação muçulmana.
 
Na primeira Carta de Foral atribuída à vila alentejana, datada de 1226, O Rei Dom Sancho II doa Mourão aos Cavaleiros da Ordem dos Hospitalários precisamente com o intuito expresso de “incentivar o seu povoamento e defesa”. Em linha com esta indicação, fácil se torna perceber a importância militar que o local possuía e a natural decisão de ali construir ou reconstruir um baluarte defensivo que pudesse contribuir para a consolidação da Causa Nacional.
 
 
 
 
De qualquer forma, existe uma lápide epigrafada colocada na Torre de Menagem, que indica expressamente a data de 1343 para a construção desta estrutura: "ERA DE MIL CCC OITENTA E 1 ANOS PRIMO DIA DE MARÇO DOM AFONSO O QUARTO REI DE PORTUGAL MANDOU COMEÇAR E FAZER ESTE CASTELO DE MOURÃO E O MESTRE QUE O FAZIA HAVIA NOME JOÃO AFONSO QUAL REI FOI FILHO DO MUI NOBRE REI DOM DENIS E DA RAINHA DONA ISABEL AOS QUAIS DEUS PERDOE O QUAL REI É CASADO COM A RAINHA DONA BEATRIZ E HAVIA POR FILHO HERDEIRO O INFANTE DOM PEDRO”.
 
Uma das histórias mais interessantes, acontecida pouco tempo antes do início das obras do castelo, decorreu em 1313, quando o Rei Dom Diniz, num esforço hercúleo para consolidar as fronteiras, entrega a Vila de Mourão a Dom Raimundo de Cardona com a indicação expressa de este não construir ali uma fortificação. Terá tal decisão resultado do facto de já existir por lá uma estrutura defensiva suficiente para os projectos reais? Ou terá somente resultado de um pensamento estratégico por parte do Rei, percebendo que era ainda volátil a linha de fronteira e que não convinha estar a construir estruturas que posteriormente pudessem vir a ser utilizadas contra Portugal? Não se sabe ao certo. Mas, como o inesperado quase sempre impera nestas terras de deslumbramento, falta dinheiro ao novo Senhor de Mourão e a opção que este toma, em claro desobedecimento à vontade do Rei, passa pela venda em leilão da vetusta vila raiana. O comprador, um tal Martim Silvestre, natural de Monsaraz, adquire Mourão pela singela importância de 11.000 Libras em 19 de Abril de 1317. Mas poucos dias depois, a 15 de Maio desse mesmo ano, o feliz comprador recebe ordem Real para que lhe revenda a vila pelo mesmo valor pela qual a comprou, determinando que Mourão tem uma importância definitiva na determinação da linha de fronteira da qual dependia a própria independência de Portugal.
 
Depois de vicissitudes diversas que dão forma ao devir histórico de Mourão, e de diversas intervenções que vão actualizando a componente militar da estrutura defensiva, o castelo vai conhecendo uma progressiva perda da sua importância estratégica, facto que se reforça depois da consolidação da restauração da independência Nacional em 1640. São dessa época a adaptação dos seus panos de muralha às novas exigência da moderna artilharia, e pouco tempo depois, a destruição visível causada pelo grande terramoto de 1755.
 
 
 
 
Daí até agora, e apesar de continuar a existir um conjunto de vestígios que vale a pena visitar, como a antiga Casa dos Guardas e os antigos Paços do Concelho, para além da velha cisterna que resiste sob os pés dos visitantes, a marca maior do Castelo de Mourão é o abandono e a ruína.
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público em Julho de 1957, só vinte anos depois, em 21 de Junho de 1977, é o castelo doado por escritura pública ao Município de Mourão pelo seu então proprietário Marcos Lopes de Vasconcelos Rosado.
 
Mas apesar disso, e de obras pontuais efectuadas para reforçar a estrutura e impedir a sua completa ruína, o Castelo de Mourão é hoje pouco mais do que um espectro semi-derruído daquilo que foi noutros tempos. Ressalva especial para o enquadramento cénico que a Barragem do Alqueva lhe trouxe e para a maravilhosa e mística paisagem que o que dele resta impõe a quem o visita.
 
Que pena Portugal não perceber a importância de um património riquíssimo como este! 

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publicado às 12:27

A Capela do Espírito-Santo de Teira e o Castro de São Martinho em Alcobertas

por cascalenses, em 06.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem espaços e monumentos de tal maneira simples na sua formulação estética, que dificilmente deixam antever a complexidade que traduzem e a importância que têm no registo histórico ao qual pertencem.
 
A sua singeleza, normalmente associada à pureza extraordinária das comunidades que os construíram, traduz assim um apelo quase inaudível aos sentidos, obrigando o visitante a um exercício quase onírico para os perceber…
 
É o que acontece na Freguesia das Alcobertas, no Concelho de Rio Maior, com a singelíssima Capela do Espírito-Santo e, um pouco mais adiante, com o que resta do maltratado Castro chamado de São Martinho.
 
 
 
 
A capela, simples na sua forma chã e pragmaticamente inserida na tipologia própria da arquitectura de índole religiosa das zonas rurais Portuguesas, integra-se num largo de bonitas proporções no qual assumem especial importância um grande crucifixo construído em 2001, e o painel de azulejos onde consta uma perspectiva do antigo Castro de São Martinho, profundamente marcante na definição sagrada do templo Alcobertense.
 
Datada do Século XX, a capela vem substituir uma antiga ermida dedicada a São Martinho que existia no topo do monte onde outrora se ergueria o antigo castro neolítico. Tendo lendariamente sido destruída por um raio, a imagem do santo foi transportada monte abaixo até à nova capela construída no centro da povoação de Teiras. Diz ainda a lenda que a dita imagem, durante muito tempo e por vontade própria, se escapulia durante a noite para o local onde outrora se erguia a sua capela, teimando em não ficar na nova capela do Espírito-Santo onde reiteradamente a colocariam.
 
Com fachadas brancas a condizer com o apelo à simplicidade que o culto do Espírito-Santo obriga, a capela apresenta uma só nave, também ela de aspecto singelo, e um único óculo colocado sobre a porta principal, deixando uma nota de luz no seu interior. O sino, colocado num suporte simples de pedra calcária, completa o conjunto, dando um carácter airoso ao enquadramento simbólico deste espaço sagrado.
 

São Martinho e o Espírito Santo

 
 
Na memória colectiva associada a este espaço, numa linha de continuidade que assenta numa profunda sabedoria popular, possivelmente de tradição oral e que se perpectua ao longo de várias gerações, existe uma forte ligação aos cultos ancestrais que outrora foram desenvolvidos no velho castro.
 
 
 
Se a devoção actual ao Espírito-Santo, numa lógica de Quinto Império Sebastianista, apela ao desapego material, reiterando a máxima de que a Portugalidade exige despojamento das vestes sujas pelas agruras da vida para que seja possível vestir os trajes iluminados de uma existência situada em planos etéreos muito superiores, por outro lado, a devoção ancestral a São Martinho, o tal santo cujo mal-estar por estar colocado na nova capela é por demais  evidente, aponta também ela para uma ritualística de pobreza que, dadas as condições naturais do local onde estes monumentos se encontram, parece ter sido a pedra angular as muitas vidas que por aqui se sucederam ao longo de muitos séculos.
 
Diz a lenda de São Martinho que, sendo ele soldado romano em trânsito por uma estrada gelada numa das imensas serranias do império, terá sido interpelado por um paupérrimo pedinte que, transido de frio, lhe pediu ajuda para sobreviver ao Inverno. O Santo, sem pensar duas vezes, despiu as suas vestes e colocou-as sobre o corpo do desgraçado, ficando ele próprio sujeitos às inclemências do tempo. Mas Deus, reconhecendo o gesto nobre daquele soldado, terá mudado a estação e recriado uns dias de calor estival, dando assim condições a São Martinho para poder regressar são e salvo à sua terra.
 
É esta a origem do denominado “Verão de São Martinho”, bem como do quadro geral de despojamento que caracteriza o culto do Espírito Santo na capela de Teira.

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publicado às 15:22

O Chafariz de São Francisco e a Porta dos Cavaleiros em Viseu

por cascalenses, em 31.08.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A cidade de Viseu, capital da Beira Alta, é um dos mais extraordinários repositórios de História em Portugal. Em cada canto e esquina, atravessando as ruelas de traçado tortuoso que dão forma ao seu centro histórico, encontram-se os ecos de outros tempos, como se certos espaços da cidade, por artes mágicas vindas sabe-se lá de onde, preservassem de forma sentida as memórias das muitas vidas e das muitas eras que sobre elas se cruzam.
 
Viseu, mercê de tudo isto, alia a modernidade de uma vida já bastante cosmopolita, assente num comércio que sempre foi activo e florescente, com um cunho de tradição que é difícil de encontrar noutros lugares.
 
É o que acontece, por exemplo, com o Chafariz de São Francisco, no início da Rua do Arco, para onde concorrem os desígnios mais profundos de um romantismo que ainda hoje caracteriza a cidade. Em conjunto com a Porta dos Cavaleiros, que é um dos poucos restos da antiga muralha Afonsina, o recanto enche o olhar do visitante com a beleza do trabalho em pedra mas, sobretudo, com as memórias imaginadas por Camilo Castelo Branco que, no seu “Amor de Perdição”, situa ali a cena de pugilato em que Simão Botelho se batia pelo amor de D. Teresa de Albuquerque...
 
 
 
 
De facto, construído no Século XVIII, aproveitando um manancial natural que por ali existia, o chafariz utiliza a formulação estética barroca e entrega-se à cidade sob a égide sagrada de São Francisco, opondo a singeleza da devoção deste santo, à opulência quase majestática que caracteriza este espaço. Compondo-se como se fosse uma espécie de cenário, no qual o chafariz nada mais é o que o fundo de palco no qual brilham os restos antigos da velha muralha com a sua porta histórica e o palacete beirão dos Albuquerques, a fonte aproveita o espaço de uma estrutura anterior que terá sido demolida por António de Albuquerque, o seu construtor.
 
Relativamente à porta, é um dos últimos vestígios da medievalidade viseense, tendo resultado de um dos derradeiros esforços de amuralhamento para protecção da cidade. Digna de um realce especial, é a lápide existente no exterior da velha porta, dando conta da devoção do Rei Dom João IV a Nossa Senhora da Conceição (muitos anos antes de o dogma ter sido aceite pela Santa Sé, em 1854), em linha com uma tradição popular antiga que considera Nossa Senhora da Conceição como Rainha de Portugal. A Senhora da Conceição, ritualisticamente cultuada no território Nacional desde antes da fundação da nacionalidade, é provavelmente o resultado da aculturação das velhas crenças pagãs, cruzadas sobre uma enorme amálgama de pressupostos que resultam das vicissitudes do devir histórico, resultando aqui, neste recanto de Viseu, como uma espécie de eixo estrutural de uma Fé que é transversal em termos políticos e sociais a todos aqueles que vivem no País, e que conjuga, agregando vontades, o todo Nacional a partir de um elemento devocional que todos aceitam como peça essencial da existência de Portugal.
 
Em Viseu, o Chafariz de São Francisco e a Porta dos Cavaleiros, compõem um todo turístico que valoriza a cidade, principalmente se interpretados a partir da sua integração na riquíssima história local.

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publicado às 15:54

A Igreja do Espírito-Santo ou da Misericórdia de Rio Maior

por cascalenses, em 08.08.16

 

 
por João Aníbal Henriques
 
Solene e simples, quase perdida no intricado labirinto de ruelas que dão forma ao centro histórico da Cidade de Rio Maior, a Igreja da Misericórdia é um dos mais interessantes monumentos religiosos da região do Ribatejo.
 
Tendo como orago original a Assunção de Nossa Senhora, que terá adquirido já no Século XIX quando a antiga Igreja Matriz fica em ruínas e a Coroa a entrega à Irmandade da Misericórdia, era anteriormente dedicado ao Espírito-Santo, num repto de singeleza que é bem visível nos pormenores construtivos que lhe dão forma.
 
 
 
 
O culto do Espírito-Santo, expressão sagrada de primeira importância na definição dos mais profundos preceitos da irmandade Cristã, pressupõe práticas de abnegação e de entrega ao próximo que estão em linha com o facto de este templo ter sido inicialmente espaço de culto privativo do antigo hospital da localidade.
 
Por vicissitudes diversas, a maior parte das quais relacionadas com a grande dependência que as populações locais sempre tiveram relativamente à agricultura e aos ciclos da natureza, o carácter ecléctico deste templo foi-se adaptando ao ritmo de vida das comunidades locais, adoptando e perdendo sucessivamente muito do seu espólio decorativo.
 
 
 
 
 Para além de ter recebido, em consequência da ruína e da desafectação ao culto de outras igrejas da região, várias peças que outrora haviam estado nesses locais, como acontece com algumas imagens e alfaias religiosas, a Igreja da Misericórdia foi alvo de acrescentos inesperados que lhe dão um carácter de excepção no contexto local e que reforçam o seu interesse por parte de quem a visita.
 
No altar colateral direito, actualmente dedicado a Nossa Senhora de Fátima, é notória a adaptação que sofreu o nicho envolvente, no qual foi inserido um conjunto decorativo do qual sobressai a dedicatória ‘Avé Maria’, sobre uma moldura na qual assume especial importância o crescente lunar invertido. Normalmente associado a Nossa Senhora da Conceição, numa prática hermética que remete para uma cultualidade ancestral e certamente pré-Cristã desta área do actual território Português, tem por significado simbólico a destruição do mal aos pés da Senhora, sendo ela, na sua versão oriental, a Imperatriz que gere as ligações entre o Mundo onde vivemos e o céu. Neste caso específico, provavelmente desenquadrado em termos rituais, até porque a inovação da Senhora de Fátima é bastante recente, julga-se que a definição mais profunda da inovação da igreja venha a ser resultado do cruzamento entre o culto original ao Espírito-Santo e o milagre alquímico associado à figura da Rainha Santa Isabel que é, como se sabe, a rainha da misericórdia. Foi esta Rainha-Santa quem, aliás, desencadeou o processo de escolha da Nossa Senhora da Conceição como rainha e padroeira de Portugal, num processo que deu corpo à assumpção, bastante mais tarde, do dogma da Imaculada Conceição por parte da Igreja Católica.
 
 
 
 
Depois da construção da nova Igreja Matriz de Rio Maior, já na segunda metade do Século XX, a Igreja da Misericórdia volta a perder a dignidade de igreja primaz do concelho, facto que veio a alterar profundamente a dinâmica devocional da cidade. A nova igreja matriz recebeu como devoção a Senhora da Assunção, que até aí tinha estado neste espaço, e recebeu como orago precisamente a Rainha Santa Isabel.
 
De salientar no corpo da igreja o altar-mor em talha dourada de inspiração barroca, a bonita capela baptismal e a imagem da Rainha Santa, junto ao altar lateral onde está a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia. Ara além da singela nave única, em linha com a planificação espacial típica deste tipo de templos e origem ruralizante, o coro alto, preparado para receber a irmandade, que impõe uma linha geral de sobriedade ao espaço.

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publicado às 16:36

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Cercal do Alentejo

por cascalenses, em 01.08.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Sendo provável que o actual edifício tenha substituído um anterior espaço de culto, nada se saber sobre o que existia no local onde agora se ergue a Igreja Matriz do Cercal do Alentejo, com dedicação a Nossa Senhora da Conceição, antes do Século XVIII.
 
De facto, o templo apresenta características vincadas ao período em questão e cumpre integralmente o normativo imposto pela Ordem de Santiago da Espada para a construção deste tipo de estruturas.
Com uma tipologia assente nos princípios basilares da arquitectura vernácula Portuguesa, onde a simplicidade das linhas contrasta com a efusiva decoração rococó, a igreja prima pela sua funcionalidade bem integrada na existência eminentemente rural do Cercal do Alentejo.
 
 
 
 
Na sua fachada, marca presença a espada da Ordem de Santiago, como sempre envolvida pela sugestiva inclusão da flor-de-lis, simbolizando a pureza original e também a singeleza da existência, num ímpeto de criatividade que vem ajudar a distorcer o quotidiano agrícola da população que a frequenta.
 
Localizada no centro da povoação, reformatando a planta geral da localidade a partir do seu eixo devocional, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Cercal do Alentejo, recupera um dos mais ancestrais arquétipos da Portugalidade, assumindo a Conceição de Nossa Senhora como ponto de partir para a viagem simbólica em direcção às origens primordiais da própria humanidade. A senhora que concebe, imaculada por intervenção divina, sendo um dogma recente do Catolicismo, foi desde sempre o principal elemento propulsor da religiosidade Portuguesa, recriando mitos antigos, bem visíveis, por exemplo, na generalidade dos sítios arqueológicos megalíticos, e dando forma a uma noção do sagrado que transcende o próprio real.
 
 
 
 
Na sua origem profunda, o culto à Senhora da Conceição, rainha e senhora de Portugal, transporta-nos para as origens desconhecidas dos antigos cultos pagãos (e mesmo pré-históricos), nos quais a senhora prenha, responsável pela fertilidade das terras e das gentes, se associa sempre á dependência profunda dos ciclos agrícolas e dos desmandos da própria natureza.
 
Singela e simples, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Cercal é monumento angular que nos oferece as pistas necessárias para conhecer e compreender Portugal.

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publicado às 16:02

Pelo Futuro de Cascais - Revista Fundação Cascais nº 4 de Janeiro de 2002

por cascalenses, em 29.07.16

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Em Janeiro de 2002, quando foi publicado o nº4 da Revista Fundação, Cascais atravessava uma das mais marcantes mudanças desde  o início do novo Século: depois de um longo e complexo mandato autárquico de José Luís Judas, toma posse como Presidente da Câmara Municipal de Cascais António d'Orey Capucho, abrindo uma janela de esperança no devir futuro da grande maioria dos Cascalenses.

 

O "Futuro de Cascais" que serviu de mote a esta revista, tinha como pressuposto o estabelecimento de pontes entre aquilo que ainda existia de bom na história recente do concelho e as novas ideias e rumos que poderiam ajudar a reverter a profunda crise que então existia e a trazer Cascais para a senda de um progresso sustentado que os Cascalenses desejavam.

 

Vale a pena reler as palavras de apelo de Filipe Soares Franco na abertura da revista, e também o texto da autoria de Pedro Cardoso que aponta o turismo como a grande vocação municipal. De salientar ainda, a título histórico, a recuperação da memória da loja Faraó, numa entrevista sentida com Jorge Marques, fundador da Fundação Cascais e conceituado empresário comercial Cascalense e a entrevista com o então Presidente da Associação Comercial de Cascais, Eurico Penas Paulo

 

Digno de grande destaque (até porque mantém totalmente a sua actualidade), a apresentação do PIRME - Programa Integrado de Requalificação do Monte Estoril, o primeiro grande projecto de revitalização urbanística e comercial jamais elaborado e apresentado em Cascais. Neste projecto, coordenado pela Associação de Moradores do Monte Estoril, conjugaram-se os contributos e as propostas de quase todas as instituições com interesses naquela importante localidade. A comissão promotora deste projecto era composta por Alfredo Dias Valente de Carvalho, António Pinto Coelho de Aguiar, Diogo Velez Mouta Pacheco de Amorim, Jaime Roque de Pinho de Almeida (Lavradio), João Aníbal Queirós Felgar Veiga Henriques, Joaquim Manuel Cardoso Mendes, José Francisco Gomes Santos Fernandes, José Luís de Athaíde de Almeida e Silva, Luís Miguel Lupi Alves Caetano, Manuel Pinto Barbosa, Paulo Ribeiro Maia de Loureiro e Salvador Correia de Sá. O PIRME pode ser consultado clicando AQUI

 

Vale a pena voltar a ler!

 

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publicado às 15:42

A Capela de Nossa Senhora da Vitória e o Paço Medieval de Rio Maior

por cascalenses, em 29.07.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Nossa Senhora da Vitória, em pleno centro histórico da Cidade de Rio Maior, é uma capela com características singelas mas que esconde um vastíssimo manancial de segredos históricos.
 
Não se conhecendo com exactidão as suas origens, sabe-se, no entanto, que foi construía sobre ruínas de ocupações anteriores. Escavações arqueológicas efectuadas no seu interior e no espaço envolvente, desde o adro fronteiro até ao antigo edifício dos bombeiros, vieram comprovar que seria ali o antigo Paço Senhorial de Rio Maior, mencionado por Fernão Lopes nas suas “Crónicas d’el-Rei Dom João I de Boa Memória”. Existindo já no Século XIV, terá sido ali que se passou um dos mais rocambolescos episódios da História de Portugal, quando o irmão da Rainha Dona Leonor, mulher do Rei Do Fernando, terá chegado a Rio Maior para matar o Conde Andeiro, cujas ligações amorosas com a sua irmã traziam imenso escândalo à corte de então.
 
 
 
 
O antigo paço, também designado como “Real” em alguma documentação, por ali terem pernoitado vátios monarcas Portugueses ao longo da sua vasta história, seria assim uma forma de aproveitamento da topografia natural do local. Sobrelevado relativamente ao resto do burgo, a colina onde se situa o templo personificaria uma forma natural de defesa relativamente a possíveis perigos que pudessem advir, sendo por isso muito natural que tenha sido utilizada desde tempos muito recuados como ponto central a partir do qual se desenvolveu a actual cidade.
 
 
 
 
No decorrer das várias campanhas arqueológicas ali realizadas, foi possível encontrar pelo menos três níveis diferenciados de ocupação e que, no espaço interior da capela, recuam até ao Século, quando ali foi enterrada uma criança de tenra idade cujas ossadas foram levantadas numa dessas intervenções. Também se encontraram, no entanto, vários materiais anteriores, em níveis não consolidados e impossíveis de datar, mas que, dada a interacção com os documentos coevos, sugerem ter sido este espaço pertença de um mais antigo templo que terá existido dentro do próprio Paço Real.
Sem acesso público nem culto, uma vez que é desde há bastante tempo utilizada como depósito dos materiais arqueológicos recolhidos em Rio Maior, a Capela de Nossa Senhora da Vitória terá sido assim baptizada depois da vitória de Dom João I em Aljubarrota perante o exército castelhano. Antes dessa data, por ter pertencido à Irmandade das Almas, ter-se-á chamado Capela das Almas.
 
O enquadramento cenográfico deste tempo, num espaço simbolicamente associado ao devir histórico da cidade, apresenta um imenso potencial turístico que, se conjugado com as muitas estruturas construtivas de diversas épocas que foram encontradas em seu torno (e que estão preservadas debaixo da calçada que dá forma ao seu adro), poderá um dia sustentar a criação de um pólo de grande interesse para a região de turismo do Ribatejo.
 

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publicado às 15:39

O Castelo e Milfontes ou Forte de São Clemente

por cascalenses, em 28.07.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Há lugares assim… únicos, especiais e irrepetíveis! É o que acontece com o conhecido Castelo de Milfontes, situado na foz do Rio Mira, em pleno centro histórico de Vila Nova de Milfontes, no Alentejo.
 
Construído a partir de um conjunto de ruínas já na segunda metade do Século XX, o edifício, com uma posição privilegiada sobre um dos mais bonitos recantos de Portugal, deslumbra quem dele se acerca há já muitos séculos. De facto, está comprovada a sua origem Fenícia, tendo sido também identificados vestígios arqueológicos dos períodos Grego, Cartaginês e Romano, durante os quais a posição estratégica do edifício era essencial para a defesa da barra do Rio Mira.
 
 
 
 
De facto, foi precisamente nos períodos de maior instabilidade marítima, quando o corso e a pirataria mais se desenvolveram, que o antigo castelo conheceu as suas principais benfeitorias. No final do Século XVI, depois de um ataque cerrado à zona costeira alentejana então sob domínio filipino, Filipe II de Portugal decide construir ali um forte de características modernas que fosse capaz de resolver o problema imenso de insegurança criado pelo fácil acesso marítimo à povoação. As obras arrancam desde logo, assim que o monarca solicita a Alexandre Massai, que nessa altura se encontrava a reconstruir o Forte de Porto Côvo, junto à Ilha do Pessegueiro, os planos para a criação de um baluarte marítimo em Milfontes.
 
O posterior assoreamento do rio e a perda da importância estratégica e comercial daquela região, complementada com a restauração da independência de Portugal e pela falta de meios humanos e técnicos para garantirem a manutenção do edifício, conduzem, como aliás aconteceu com muitos espaços de índole semelhante colocados um pouco por toda a costa Portuguesa, a um processo de progressivo abandono e desleixo. A ruína foi-se instalando e o Forte de São Clemente sobreviveu quase por milagre depois de ter sido envolvido num processo rocambolesco de vendas sucessivas quando no Século XX a república se instalou em Portugal.
 
 
 
 
Depois de ter sido vendido em hasta pública, rendendo menos de 500000 Reis ao Estado, foi novamente revendido a um novo proprietário particular que, dado o estado avançado de degradação no qual o edifício se encontrava, acabou por não ter os recursos suficientes para o recuperar.
 
Já na década de 30, mediante o perigo de desmoronamento do forte, a Câmara Municipal de Odemira ponderou a sua expropriação para posterior demolição e somente a falta de recursos por parte daquela depauperada autarquia garantiu o insucesso dessa funesta intenção. Novamente vendido a um particular em 1939, que recuperou integralmente o espaço e o adaptou a residência pessoal, foi possível devolver ao Castelo de Milfontes a dignidade que ele merece.
 
Residente em Lisboa, o novo proprietário resolve transformar o forte numa espécie de pousada turística, fazendo assim com que o Forte de São Clemente tenha sido um dos primeiros projectos de turismo rural existentes em Portugal!
 
 
 
 
Mais tarde, já em 2009, voltou a ser vendido a particulares, facto que se repetiu já em 2016, tendo estado o edifício anunciado para venda por 3.500.000,00 €! Substancialmente mais do que os 464.000 Reis de 1903…
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público e 1978, o Forte de São Clemente é hoje uma peça fulcral na identidade de Vila Nova de Milfontes, carregando uma mística que transporta consigo as emoções, os sonhos e os anseios de mais de mil anos de uma histórica muito atribulada.

 

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publicado às 17:35

"Mau Ambiente em Cascais" - Revista Fundação Cascais nº3 - Novembro de 2001

por cascalenses, em 04.07.16

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O ambiente é um dos pilares essenciais da vocação turística de Cascais! A qualidade da nossa paisagem, o carácter único da nossa História, o nosso clima especial, os monumentos que ainda temos, os cantos e recantos que transformam as nossas vilas e lugares em algo único e irrepetível, são aquilo que sustentou durante um século a prosperidade internacional da marca turística ‘Estoril’ que, nascida da excepcionalidade de Cascais, sempre conferiu à Nossa Terra o prestígio que a transformavam num destino turístico de excepção.

 

Mas o ambiente tem sido sempre uma espécie de “parente pobre” da governação municipal…

 

Debruçando-se sobre este tema, a Fundação Cascais publicou em Novembro de 2001 a revista “Mau Ambiente em Cascais” onde esmiuçava algumas das mais rocambolescas histórias que envolvem a gestão ambiental do Concelho.

 

Filipe Soares Franco, então Presidente da Fundação Cascais, num artigo pragmático sobre este tema, conclui que é batota o que se estava a passar em Cascais, ao mesmo tempo que Pedro Cardoso se debruça sobre a vocação turística de Cascais e sobre a necessidade premente de resolver em definitivo os muitos problemas ambientais que naquela altura caracterizavam o território municipal.

 

No artigo de fundo, desconstroem-se muitos dos mitos que envolvem o ambiente em Cascais. Da ‘Verdadeira História do Abano’ que veio, pela primeira vez, trazer luz sobre o imbróglio que tanto prejudicou Cascais, até à criação de uma entidade “lunar” para gerir os espaços públicos, a instituição apresenta um levantamento exaustivo do que se estava a passar no território contido na área do Parque Natural de Sintra-Cascais, mostrando um cenário dantesco de lixo, incúria e desleixo no qual não faltavam sequer um enorme amontoado de construções clandestinas…

 

E Isabel Magalhães, analisando de forma independente o que estava a passar-se no PNSC, conclui que os vereadores que representavam as câmaras municipais de Cascais e Sintra na estrutura directiva do parque “desempenhavam um papel de verbo-de-encher”!

 

Enfim… cenários de há 15 anos atrás que tanta influência tiveram (e ainda têm) no Cascais no qual hoje vivemos, num clima de profundo mal-estar e de mau-ambiente que não deixava nenhum Cascalense satisfeito.

 

Releia AQUI a versão integral da Revista Fundação Cascais e Novembro de 2001

 

 

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publicado às 17:50

Cascais Está à Venda! - Revista Fundação Cascais - Setembro de 2001

por cascalenses, em 23.06.16

Corria o mês de Setembro de 2001, com as eleições autárquicas quase a chegar, quando o Concelho de Cascais acordou completamente coberto de tabuletas anunciando a venda de propriedades. Eram várias centenas, espalhadas sobretudo pela zona interior do território municipal e resultavam da utilização de um aparentemente insignificante artigo no PDM (Plano Director Municipal) dessa época para proceder à legalização rápida das centenas de loteamentos clandestinos que proliferavam nesta terra. A Fundação Cascais realizou um trabalho de fundo sobre a matéria e concluiu que cerca e 1/3 do território concelhio ficava em causa com este procedimento. E que a negociata fez prosperar muita gente...

 

Neste número desta revista histórica, uma crónica da autoria do saudoso António de Brito intitulada "Pelas Ruas da Amargura" faz um périplo pelas ruas e ruelas da Vila de Cascais. Há 15 anos, os problemas detectados eram basicamente aqueles que hoje afectam os Cacalenses. 

 

Ainda uma nota especial para as "Figuras de Cascais", neste número homenageando o Comendador Joaquim Baraona, e para o artigo de reportagem sobre o estado deplorável em que se encontrava o Palácio Real da Cidadela de Cascais. Esta foi, felizmente, uma batalha que a Fundação Cascais venceu.

 

E ainda a recuperação da memória de Cascais através de uma peça sobre a "Pastelaria Bijou" e o trabalho desvenvolvido pelo seu proprietário, Pedro Canelas, em defesa do comércio tradicional Cascalense. 

 

Vale a pena voltar a ler!

 

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publicado às 17:13

Tendências Demográficas no Cascais Medieval

por cascalenses, em 22.03.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O primeiro numeramento de Cascais data de 19 de Setembro de 1527. Sendo já posterior à época medieval, da qual não existem registos efectivos acerca do que se passava neste concelho, vamos tomar como base desta análise a curva demográfica de Cascais durante este período da baixa Idade Média e a partir daí comparar teoricamente as tendências das principais cidades Portuguesas e Europeias, assumindo, desta forma, alguma linearidade nos comportamentos demográficos da velha vila de pescadores.
 
Assim, à excepção de Toulouse, a tendência mais evidente da demografia urbana europeia é a de um aumento sustentado do contingente populacional. Assim acontece com as principais cidades da Europa de então, tendência que se confirma em Portugal com os dados que temos relativos à cidades de Lisboa ou de Lagos. Da mesma forma, encontra-se uma tendência generalizada para um período de recessão nos finais do Século XIII e inícios dos Século XIV que, com um carácter fulgurante em cidades como Florença, em Itália, atingiu de forma medíocre as restantes cidades europeias com dados conhecidos. Segundo Carlo Cipolla, a crise que afectou a Europa nessa época não passou de uma rectificação natural da demografia urbana, respondendo de forma directa ao excesso populacional acumulado em determinadas regiões, ainda sem o suporte essencial em termos de salubridade e saúde pública e pouco preparadas para sustentar esse crescimento.
 
Por esse motivo, muitas foram as cidades e/ou pequenos aglomerados populacionais que viram bastante reduzido o seu contingente populacional durante este período, provocando um surto de mortandade que acompanhou o recrudescimento de diversas epidemias e doenças.
 
 
 
 
Zonas pouco apetrechadas em termos urbanísticos, como era o caso da Vila de Cascais durante esse período, sofreram assim as consequências nocivas da sua impreparação, facto que conduz a um intervalo de tempo que se caracteriza por uma imensa razia em termos do número de habitantes, obviamente com repercussões directas a várias níveis da organização social dessas terras. Será possivelmente esta a explicação que nos permite perceber o reduzidíssimo número de Cascalenses que existiam nessa época e que Oliveira Marques aponta num dos seus artigos sobre Cascais: ”É provável que em meados de trezentos, para mais com as consequências da peste negra, o número de habitantes da jovem vila não fosse além dos duzentos ou trezentos, se é que os atingia sequer. E no termos correspondentemente”.
 
Na carta régia de 1385 de Dom João I, o despovoamento de Cascais torna-se evidente, sentindo o monarca que chegou à altura de incentivar o mesmo. É também nesta mesma carta que o rei levanta o problema do Castelo de Cascais, sublinhando a sua importância na estratégia de defesa de Lisboa. Sê-lo-á em termos meramente militares e políticos ou também em termos económicos e estratégicos?...
 
No que concerne à densidade populacional nas freguesias cascalenses, é notório e muito evidente a enorme discrepância existente entre aos espaços rurais e urbanos. Esta dualidade surge bem expressa nos números que traduzem, por exemplo, a realidade na Freguesia de Cascais, que sobressai com 10,5 habitantes por km2, em contraste com os cerca de 4,3 habitantes por km2 em espaços como Carcavelos e São Domingos de Rana. Na primeira temos uma realidade marcantemente urbanizada, recriando-se em torno do conjunto habitacional coeso que enche o seu espaço amuralhado, e nas segundas surge a realidade de âmbito rural, com as explorações agrícolas e o minifúndio a imporem a sua realidade.
 
Embora pouco importante para a determinação daquilo que foi Cascais durante este período, é certo que este quadro nos permite supor um povoamento da vila de Cascais muito anterior àquele que supostamente surge na documentação oficial, precedendo-a e alterando os dados efectivas recolhidos em época posterior. Fazendo o exercício de completar os dados inexistentes de Cascais com aqueles que caracterizam as restantes cidades de Portugal e as principais tendências nos espaços urbanos europeus, parece lícito supor que a continuidade da linha demográfica na vila se encaixa no fluxo corrente que caracteriza a Europa anteriormente.
 
Prova ainda mais contundente deste pressuposto é a que nos oferece o Professor Oliveira Marques no estudo atrás mencionado e que nos diz que: “O número de besteiros do conto, de cerca de 1422, atribuía ao Concelho de Cascais 20 besteiros, cifra igual na comarca da Estremadura, à de Sintra e à do Soure e próxima à de Alenquer e à de Óbidos”. Este mesmo número está confirmado no número de besteiro existentes no Algarve, em linha com o que se passa em espaços pujantes demograficamente como Castro Marim, Albufeira e Aljezur.
 

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publicado às 16:22

Festa "Chapéus há Muitos!" SerCascais no FIZZ

por cascalenses, em 21.03.16

 

Uma festa mítica e uma noite muito especial em Cascais. Organizada por Isabel Magalhães, Pedro Rocha dos Santos e João Aníbal Henriques, do Movimento Independente SerCascais, a festa "Chapéus há Muitos!" aconteceu no FIZZ, na Praia de Carcavelos e contou com a presença de 3 centenas de Cascalenses MUITO animados!
 
 
Isabel Magalhães
 
 
 
Pedro Rocha dos Santos e Filomena Gonçalves
 
 
Anabela Gonçalves
 
 
Anabela Azevedo Rua e Manuel Rua
 
 
Filomena Ramilo
 
 
Pedro Rocha dos Santos
 
 
Elsa Henriques, Filipa Ferreira e Anabela Gonçalves
 
 
Hanna Perez, João Ahrens Teixeira e Isabel Magalhães
 
 
António Cabral de Magalhães, Ana Santa Cruz e Rita Freudenthal
 
 
Rita Freudenthal, João Aníbal Henriques e Filipa Ferreira
 
 
Pedro Rocha dos Santos e António Teixeira Lopes
 
 
António Cortez e Celeste Cortez
 
 
Mónica Amante Pereira, Elsa Henriques, Cláudia Veloso, Alexandra Paulo e Eduarda Martins
 
 
Rusa Hespanha e Pedro Santos Paulo
 
 
 
Filomena Ramilo
 
 
António Cabral de Magalhães
 
 
Margarida Rufino
 
 
Pedro Santos Paulo e Alexandra Paulo
 
 
Sofia Cunha Alves
 
 
 
 
Filomena Gonçalves
 
 
 
Pedro Rocha dos Santos e Pedro Santos Paulo
 
 
Mónica Amante Pereira e Cláudia Veloso Parrinha
 
 
 
Gil Cruz
 
 
Filipa Ferreira
 
 
Pedro Rocha dos Santos e Rita Freudenthal
 
 
João Aníbal Henriques, Pedro Rocha dos Santos, Hélder Pereira, Mónica Amante Pereira, Pedro Santos Paulo e Alexandra Paulo
 
 
 
Pedro Santos Paulo
 
 
Anabela Azevedo Rua e Manuel Rua
 
 
 
 
Betty Rodriguez
 
 
 
 
Alexandra Paulo, Cláudia Veloso e Mónica Amante Pereira
 
 
 
Mónica Amante e Pereira e Eduarda Martins
 
 
 
Alexandra Paulo, Elsa Henriques, Mónica Amante Pereira, Filipa Ferreira, Hélder Pereira e Cláudia Veloso Parrinha
 
 
Mónica Amante Pereira, Elsa Henriques, Cláudia Veloso Parrinha, Alexandra Paulo e Eduarda Martins
 
 
 
 
Maurício Chumbo e Fátima Chumbo
 
 
Pedro Santos Paulo
 
 
Pedro Rocha dos Santos, Mónica Amante Pereira, João Aníbal Henriques e Alexandra Paulo
 
 
 
 
 
 
 
Manuel Rua
 
 
Mónica Amante Pereira, Cláudia Veloso Parrinha, Eduarda Martins e Alexandra Paulo
 
 
Elsa Henriques e Filipa Ferreira
 
 
Celeste Cortez
 
 
Pedro Rocha dos Santos e João Aníbal Henriques
 
 
Filipa Ferreira
 
 
 
Anabela Azevedo Rua e Manuel ua
 
 
Pedro Rocha dos Santos e Pedro Santos Paulo
 
 
 
Mónica Amante Pereira
 
 
 
 
Hanna Perez, João Ahrens Teixeira e Isabel Magalhães
 
 
Alexandra Paulo e Mónica Amante Pereira
 
 
Pedro Santos Paulo
 
 
Isabel Magalhães
 
 
Gil Cruz
 
 
 
Cláudia Veloso Parrinha e Eduarda Martins
 
 
 
 
 
Pedro Santos Paulo
 
 
 
Rita Freudenthal, João Aníbal Henriques e Filipa Ferreira
 
 
Elsa Henriques e Filipa Ferreira
 
 
 
Mónica Amante Pereira, Cláudia Veloso Parrinha, Eduarda Martins e Alexandra Paulo
 

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publicado às 14:44

D. Simão Aranha e o Menino Cascais

por cascalenses, em 23.02.16

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por João Aníbal Henriques

 

D. Simão do Santíssimo Sacramento Pedro Cotta Falcão Aranha de Sousa e Menezes (Cascais 1908-2000) foi a personagem mais importante da sua obra-prima “Cascais Menino”. Não tanto por ter dela feito parte, ao longo das deambulações tantas vezes anacrónicas que vão enchendo estas páginas extraordinárias sobre a sua vila natal, mas mais por terem sido os seus olhos de menino o principal instrumento que utilizou para captar os resquícios mais profundos da Alma de Cascais.

 

Década e meia depois da sua morte, quando em Cascais já são muitos aqueles que nunca se cruzaram com Pedro Falcão nas suas sempre polémicas intervenções em defesa desta terra, é notória a falta que faz o discernimento e a capacidade crítica que o escritor-artista tinha para interpretar a realidade local.

 

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O Cascais onde ele nasceu, cresceu, viveu e morreu é intemporal e, tal ele repetia sistematicamente, mantém-se sempre menino na sua incapacidade de se olhar de frente… é um Cascais que se sente, que se intui e se adivinha, mas que é impossível de descrever. É um Cascais substancialmente maior do que as casas e as ruas, os becos e as vielas, os palacetes e as grandes famílias que neles viveram, ou mesmo que as muitas estórias que dão corpo à sua longa História. É um Cascais que cruza utopia e realidade, esponjando as suas redes mais rudes sobre a mais subliminar e requintada essência. Neste Cascais, que Dom Simão Aranha personifica durante toda a sua vida e que enche a sua obra, reis e pescadores partilham um palco comum onde os dramas e as desventuras da vida caminham lado-a-lado com as alegrias dos vários quotidianos que as eras e os tempos nos vai deixando.

 

Defendia o escritor que o tempo não fazia sentido em Cascais e que as personagens desta terra, as suas casas e as suas vidas se eternizam numa espécie de memória-comum a todos os Cascalenses. Para ele, gente como o pescador João Ruço, o Rei Dom Carlos, o Visconde de Athouguia ou a Menina Mariquinhas, não podem morrer. Porque se assim acontecesse seria sinal de que estava a morrer também aquela aura mística que desde há tanto tempo caracteriza lá fora aquilo que os Cascalenses sentem cá dentro no seu peito. Este é um Cascais riquíssimo de todas as questiúnculas e divergências que compõem o devir diária de uma qualquer povoação Portuguesa, mas também um espaço onde os laços de união fraterna e universal dão corpo a uma comunidade profundamente arreigada e coesa.

 

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O Cascais Menino é o cimento que vai juntando as pedras para formar o edifício onde vivemos. Para eles contribuem todos os que são Cascalenses, independentemente de cá terem nascido ou não, ou de cá terem chegado somente em época recente. Porque para Pedro Falcão o ser Cascalense é uma condição superior ao que está escrito na certidão de nascimento, dependendo muito mais dessa capacidade quase infantil de amar esta terra do que de qualquer outro pressuposto ditado pelos acasos que vamos vivendo. Por isso, existem Cascalenses que somente por cá passam as suas férias, da mesma forma que existem outros cá nascidos, que cá moram e que cá hão-de morrer que nunca alcançaram o epíteto de verdadeiros Cascalenses…

 

No passeio deste Domingo, organizado pela Academia de Letras e Artes e pela Fundação Pedro Falcão e Yanrub, mergulhámos literalmente nos entrefolhos profundos desta Cascalidade que Pedro Falcão nos deixou nas palavras que teve a arte de escrever. E é quase dilacerante a certeza com que ficamos de que ele teve razão naquilo que teve a coragem de defender.

 

Cascais precisa da pureza do olhar de uma criança para ser entendido verdadeiramente. Necessita com avidez de se perder nos conceitos redutores do tempo e do espaço para que, bem alicerçado nos valores únicos que corporizam o seu passado, possa enfrentar estruturadamente o futuro, oferecendo aos Cascalenses a alegria de saberem que fazem parte de um lugar tão especial quanto este.

 

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(Fotografias gentilmente cedidas por João Barata, Manuela Barreto, Tó Cortez, 
João Pedro Amorim e Luís Athouguia)

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publicado às 11:50

Cascais e o Terramoto de 1755

por cascalenses, em 01.02.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O cataclismo que se abateu sobre Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 deixou um rasto de destruição na Vila e no Concelho de Cascais. O terramoto e o posterior maremoto, foram acompanhados de incêndios e muitos dos principais edifícios que existiam foram completamente destruídos.
 
A face urbana da Vila de Cascais, com a monumentalidade própria de uma pequena vilória piscatória, sofreu enormes alterações e, mercê dos muitos interesses instalados nesta terra, terá sido porventura o terramoto o embrião da primeira operação de especulação que Cascais conheceu…
 
De facto, as Memórias Paroquiais, bem como as respostas dos reitores das igrejas às questões levantadas pelas autoridades depois do terramoto, apresentam-nos informações muito úteis para conhecer e compreender o que então aconteceu em Cascais. A menção à antiga torre-relógio, que desapareceu nessa manhã fatídica, e a organização espacial dentro das muralhas do velho castelo, estão bem expressas nas palavras do pároco de então: “Está esta vila sem relógio porque este, e sua grande torre feita pelos mouros, que sefes em cinzas. O palácio dos marqueses de Cascaes uq era de hua excelente perspectiva, e de exquisitas pinturas, com hua bella ermida, desconhecesse tudo pelo que foi, e já não hé (…). Nesta freguesia há hu castelo, cujo hoje está todo cheio de moradores e para nada serve mais, porem ahinda selhe conservão alguas amejas, cujo fica para abanda da ribeira, pegado com os palacios dos marqueses de Cascaes”.

 
Também Frei António do Espírito-Santo, um dos frades carmelitas do Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), dá-nos conta do estado do castelo após o terramoto de 1755: “cahio a torre com o seu mais especioso relógio nas sonoras vozes do seu sino, que fica olhando para norte, e matando 22 pessoas”.
 
Esta torre, bem identificada em muita da cartografia antiga que se conhece, corresponderia à torre que se situava na parte Nascente do Castelo, com frente para a área do antigo Rossio. Teria planta redonda, em linha com a tradição arquitectónica deste tipo de edifícios, facto ainda visível nas fotografias tiradas no início do Século XX por João da Cruz Viegas, D. António de Castelo-Branco e pelo Visconde de Coruche. De salientar que alguns dos torreões do antigo castelo, marcando os eixos que deram forma ao núcleo urbano inicial da Vila de Cascais, subsistiram até aos anos 60 do século passado, quando foram demolidas no âmbito do surto de construção que assolou Cascais nessa época.
Em termos religiosos, eram vários os edifícios que existiam em Cascais neste final do Século XVIII. Mas a maior parte, mercê das agruras do cataclisma, acabou por ficar muito danificado ou mesmo completamente destruído.

 
De acordo com o testemunho do Reitor da Igreja Matriz de Cascais, Padre Manoel Marçal da Silvejra, ao responder em 1758 aos inquéritos paroquiais, nada sobrou do terramoto e o que se manteve de pé estava em tais condições que a ele lhe parecia que mais valia destruir para construir novas edificações de raiz do que proceder ao seu restauro: “(…) a villa ficou toda arruinada até ao chão. Não há caza, wur ou não cahisse em terra, ou não ficase abalada, ameaçando ruína. Os templos, a ponte, a cidadela, e os eus quartéis, tudo está demolido, e feito em pó. A major parte da villa haita ahinda em barracas fora, e dentro do destricto, a ponte está com hu só arco em pee, e senaõ passa po rella, sem que se reparasse ahinda nada, somente alguas czas setem levantado, poucas, ao mesmo tempo, que outras, com as tempestades e ventos, se tem acabado de postrar”.
 
Do reitor da Freguesia da Ressureição, a segunda freguesia de Cascais e situada no espaço extra-muros, recebemos a informação de que foi esta uma das mais afectadas freguesias do país com a catástrofe do terramoto de 1755: “De todas as terras foi esta aq. Experimentou mayor ruina (conforme dizem todos) por causado ditto terramoto, pois todos os edifícios serruinarão, e quazi todos cahiram, e algum q. nan cahio de todo ficou inahabitavel, mas ao prezente is se acham muntos deles reedificados”.
 
Mas, se é certo que a destruição provocada pelo terramoto foi enorme, certa é também a dose de exagero patente em todos estes documentos, explicável possivelmente com a necessidade de chocar quem os lê-se para sensibilizar o poder nacional para a necessidade de recursos que Cascais sentia para proceder à sua recuperação urbana. De facto, tendo ruído a Igreja da Ressurreição, que se situava sensivelmente onde actualmente se encontra a estação de comboios, muitos outros monumentos civis, militares e religiosos se mantiveram de pé o foram reconvertidos e/ou recuperados e ainda hoje podem ser apreciados na Vila de Cascais.


 
 
A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, por exemplo, uma construção de meados do Século XVII que resistiu à força do terramoto, foi bastante alterada no seu exterior tendo sofrido várias alterações que lhe conferem a imagem que hoje apresenta. Na sacristia e no arco que suporte o coro, ainda são visíveis as sequelas do cataclisma, ao lado com uma pequena inscrição que informa que o templo havia sofrido obras de restauro em 1720 à custa dos irmãos pescadores.
 
Mais à frente, e para além dos muros antigos do castelo, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza de Nossa da Luz resistiram ao terramoto, tendo acontecido o mesmo com o Convento de Nossa Senhora da Piedade que, já no Século XIX, foi comprado em hasta pública pelo Visconde do Gandarinha que o adaptou a residência de veraneio. Quando essas obras foram efectuadas, estavam ainda em estado razoável de conservação a antiga sala do capítulo, a capela, o claustro, a cisterna e mesmo o friso de janelas viradas a Sul que ainda hoje se mantém.


 
 
Da mesma maneira, e para além das pequenas capelas de Nossa Senhora de Porto Seguro e de Nossa Senhora da Conceição, sobreviveram ainda as capelas de Nossa Senhora da Vitória, a Igreja da Misericórdia e a Igreja e Nossa Senhora dos Navegantes que foram reconstruídas depois da catástrofe.


 
 
Tendo exagerado de forma linear a verdade do que aconteceu, a documentação coeva dá-nos uma primeira imagem do que era Cascais naquela época. E, sabendo nós que o ímpeto de construção que se lhe segue fica a dever-se à generalizada informação de ruína eminente em que pretensamente Cascais se encontrava, fácil se torna perceber que naquela altura, como ainda hoje, foi sobre inverdades e premissas adaptadas às necessidades do momento, que se deu uma nova cara ao Cascais de sempre.
 

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publicado às 12:56

História do Urbanismo de Cascais na Idade Moderna

por cascalenses, em 20.01.16

 

 

por João Aníbal Henriques
 
As tendências urbanísticas de um local, mais do que um reflexo do gosto de então, espelham sobretudo o pulsar interno da ida de uma nação ou de um povoado.
 
A dispersão das casas, o maior ou menor estreitamento das suas vias, a altura e o aspecto das suas edificações, a monumentalidade das suas igrejas e templos, são acima de tudo características ditadas por uma série de situações que derivam directamente do devir das populações.
 
Assim, para compreender o Cascais da actualidade, importa conhecer melhor a história do seu desenvolvimento urbano, dele retirando as pistas que nos permitirão conhecer e perceber o substrato político, económico e social que deu corpo àquilo que hoje temos e somos.
 
Com este objectivo bem definido, vamos então traçar as verdadeiras tendências urbanas desta região, utilizando a documentação histórica coeva e integrando-a, sempre que possível naquela que exista para os concelhos limítrofes.
 
A demografia, na sua vertente mais pura, assim como os censos populacionais, as inquirições religiosas e os demais instrumentos de trabalho desta área científica, reforçarão as hipóteses e as pistas que daremos acerca do pulsar político de Cascais ao longo dos tempos.
 
O Concelho de Cascais, rico, ontem como hoje em potencialidades e belezas naturais, desde cedo despertou a atenção e o interesse da espécie humana. A amenidade do seu clima, a riqueza das suas águas, a fertilidade das suas terras e a posição estrategicamente privilegiada em que se encontra, foram factores decisivos na definição da história municipal.


 
Deixando de lado as questões directamente relacionadas com os primeiros anos da ocupação do território (que poderá rever AQUI), procuraremos acima de tudo dar uma panorâmica daquilo que foi Cascais e o seu termo no período imediatamente posterior à libertação jurídica face a Sintra.
 
Assim, no período que medeia o ano de 1364, data em que Dom Pedro I concede o foral a Cascais, e o ano de 1370, data em que Cascais fica efectivamente livre do jugo de Sintra pela mão do Rei Dom Fernando I, todo o termo do Concelho sofre enormes transformações.
 
Se, por um lado, assistimos à criação de toda a plêiade de cargos administrativos inerente à nova posição política concelhia, por outro, terão de ser criadas as condições urbanísticas necessárias à manutenção e alojamento das pessoas que resultam deste acréscimo populacional. O termo de Cascais, por seu turno, e mercê das enormes dificuldades que resultavam do esforço de manter e defender a independência, teve também de contribuir para esse esforço de afirmação política, assistindo-se na mesma época ao aproveitamento de uma série de potencialidades que existiam em todo o território municipal.


 
 
São, desta forma, desta época, a maior parte das edificações e casas antigas de Cascais, principalmente aquelas que vieram ocupar os espaços situados no núcleo intra-muralhas e na margem direita da Ribeira as Vinhas, e que complementaram os extensos espaços ocupados pelas habitações dos pescadores espalhadas ao longo da linha do mar. Estas, como é evidente, seriam muito mais precárias, construídas de madeira e em forma de abarracamentos. O Paço dos Senhores de Cascais, de influência marcadamente italiana, surge somente em finais do Século XVI, pese embora se situasse dentro do perímetro das muralhas antigas da vila, sensivelmente onde hoje se encontra a Casa do Conde Monte Real, na Avenida Dom Carlos. O Convento de Nossa Senhora da Piedade, já fora desse mesmo recinto, é seu contemporâneo, complementando assim os domínios de Gomes Lourenço de Avelar a quem Dom Fernando entregara, em 1370, as terras de Cascais: “seu caualleyro e […] guarda moor e leal vassalo”.
 
No dia 7 de Junho de 1373, cerca de três anos depois da primeira doação, o mesmo monarca desfaz o documento original, penalizando Gomes Lourenço de Avelar por este se ter recusado a entregar um dos seus filhos como refém no âmbito da assinatura do Tratado de Santarém. Neste último documento, a vila de Cascais é entregue a Henrique Manuel de Vilhena, figura pouco quista entre as gentes do concelho. É aqui que pela primeira vez surge uma menção ao Reguengo de Oeiras que, a partir desta mesma altura, passa a integrar o termo de Cascais.
 
Em 3 de Julho de 1384, sabemos que Henrique Manuel de Vilhena já havia sido desapossado do senhorio, porque andava então “em deserujço destes regnos e senhor com elrey de Castella” (Chancelaria de Dom João I).
 
Nesta época o território do termo de Cascais seria já muito semelhante àquele que conhecemos actualmente, exceptuando-se a integração do Reguengo de Oeiras ou de parte dele, conforme veremos adiante, e o acrescento posterior de alguns territórios que ainda pertenciam a Sintra e que o Rei, por considera-los seus, resolveu integrar no termo cascalense. Na carta de foral de 8 de Abril de 1370, Dom Fernando I integra no termo de Cascais territórios bem definidos: “Por seu termo como se começa pollo porto de Touro (fooz do Touro) e desy per cima da debaruas de Rey e dhy acima da malueirra e pella pena da era e desy como se vay dhi endiante atta o açude daacenha do tarãbulho e desy como se vay per cima de janas torta os fornõs da cal acima daaçenha do caminho todo agoas vertentes e desy pella strada dirrejta ao rio do trotulho com villa noua e desy como se vay pela strada do camjnho de lixboa atta as portas de manique e dhy adiante pello veeiro acima como se vay topar na strada de sintra que vay topa na ponte do rio ao mar vaao todalas quetaães e herdades que ora o dicto gomez Lourenço há em rio de mouro aaller e aaquê daagoa do dicto rio de mouro e outrossy a aldeã dalgafamy”. (Chancelaria de Dom Fernando).


 
 
O aspecto urbano de Cascais e do seu termo seria assim uma constante de contradições incluindo no seu seio o povoamento rural das zonas interiores, as zonas que haviam sofrido maiores influências islâmicas situadas nas faldas da Serra de Sintra, bem como as zonas mais urbanas situadas no centro da vila, consolidando assim um quadro marcadamente ecléctico e de abertura cultural que dará corpo àquilo que tem sido Cascais ao longo dos anos.
 
De salientar ainda, neste quadro daquilo que é a face urbanística de Cascais nos inícios da Idade Moderna, o povoamento disperso em pequenos casais espalhados aleatoriamente ao longo dos mitos e pequenos riachos que lhe sulcavam a terra. Este aspecto, como se verá no desenvolvimento económico concelhio (ver HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997), prenderá a atenção de Jorge Fernandez, enviado do Rei que, em 19 de Setembro de 1527 elabora o primeiro censo populacional conhecido para esta vila.
 
Ainda hoje, em certos cantos e recantos pouco conhecidos do concelho, e possível vislumbrar os restos desses casais, marcados profundamente pela vida simples e pacata que neles se levava.


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publicado às 16:36

Cascais na Idade Média Clássica

por cascalenses, em 19.01.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A reconquista Cristã e a entrada de novas gentes no actual território da Península de Lisboa, veio afectar de sobremaneira o Concelho de Cascais. É ponto assente entre os estudiosos da matéria, que Cascais exista já em 1147 e que foi alvo do interesse do novo rei de Portugal, Dom Afonso Henriques.
 
Segundo Pedro Barruncho, na sua obra “Villa e Concelho de Cascais”, datada de 1873, “é mais provável, para começarmos em mais próximos tempos, que pouco antes ou depois da tomada do Castelo de Cintra, se não ao mesmo tempo, o lugar de Cascaes entrasse no domínio do novo reino Lusitano”.
 
Esse facto é por demais evidente se nos debruçarmos mais profundamente sobre o Foral de Dom Manuel em que se pode ler acerca das preocupações que tanto Dom Afonso Henriques como Dom Sancho I tiveram em relação a este pequeno território: “Achámos visto os foraes por El-Rei D. Affonso Henriques e por El-Rei D. Sancho seu filho que os direitos e foros da dita villa de Cascaes sa hão-de arrecadar e pagar d’aqui em diante na maneira e formas seguintes […]”.
 
Este documento, com data de 15 de Novembro de 1514, é ponto fulcral de mudança e transição no estudo da História da Vila de Cascais a nível demográfico. Por um lado, ele comprova a importância da vila para os monarcas das primeira e segunda dinastias, quer seja a nível militar e estratégico, como defesa do estuário do Tejo perante as ameaças Almorávidas, quer a nível político. Por outro lado, ele diz-nos que Cascais possuía já um número razoável de habitantes que lhe permitia alguma expressão ao nível dos centros de poder governamental.
 
Assim, e tendo presente a subjugação administrativa a Sintra que Cascais sofria nessa época, podemos vislumbrar de forma mais linear a curva demográfica da vila durante este período já longínquo da História. É facto assente que desde épocas remotas existiria uma estrada que garantiria a ligação a Lisboa. Essa estrada, designada por “Caminho Velho” em certos documentos medievais, existiria já desde o tempo dos Romanos e possuiria uma extensão que estabeleceria a ligação a Sintra. Por este motivo, e porque Sintra dependia de Cascais e do seu porto para a exportação, pois a única solução para transportar produtos perecíveis para Lisboa era por mar, lógico seria que Cascai tivesse já nesta altura um contingente significativo de homens do mar que, conjuntamente com as suas famílias, se dedicassem à arte de marear. Tal facto é confirmado por José d’Encarnação e Guilherme Cardoso que se têm dedicado à procura da origem do povoamento do território Cascalense: “Uma das preocupações que temos é precisamente a de localizar os vestígios dessa via quando se faz qualquer urbanização no Concelho, uma vez que é muito provável que existisse, e existia mesmo, não temos dúvida nenhuma (temos documentos medievais que nos falam por exemplo na via velha, no caminho velho). É, portanto, possível que esse caminho velho fosse um caminho já utilizado no tempo dos Romanos – tinha forçosamente de existir uma estrada de Lisboa para Cascais, pois ao contrário do que se pensa, eles preferiam afastar-se do mar”.
 
Cascais foi, por isso, causa e efeito da reconquista Cristã, pois que, com o seu porto, contribui fortemente para o desembarque das naus da referida reconquista. Por outro lado, essa mesma reconquista contribuiu por sua vez para um desvanecer das fronteiras a Sul, e a consequente estabilidade que dela resultou contribuiu de forma decisiva para a facilitação do povoamento do território que, a par com a expansão demográfica e económica da Europa, vêm facilitar o desabrochar de novas povoações e o crescimento das já existentes.
 
Como é evidente, nem todos concordam linearmente com esta premissa. Oliveira Marques, por exemplo, contradiz-se ao referir-se a Cascais da seguinte maneira: “Apesar de todos estes povoamentos, o território de Cascais – como aliás toda a região litoral a Ocidente de Lisboa – era considerada como terra bravia e despovoada nos começos da nacionalidade”. Mas mais à frente, na mesma obra, acaba por atestar a importância de Cascais ao sublinhar a relevância da entrega do “Sturil”, actual lugar do Estoril, a Estevão Eanes, valido de Dom Afonso III, que comprova a importância daquele que é hoje o território municipal Cascalense.
 

 

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publicado às 18:23

O Teatro Gil Vicente em Cascais

por cascalenses, em 15.12.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando Cascais assistiu, nos idos de 1869, à inauguração do Teatro Gil Vicente, recém-construído a expensas do ilustre Cascalense Manuel Rodrigues Lima, ainda não tinha perfeita consciência da importância desse acto e dessa data da História da própria vila.
 
É que, nesse ano, Cascais era ainda a pequeníssima aldeia de pescadores situada numa das zonas mais longínquas dos arredores de Lisboa, conhecida mais pelo seu peixe e pela sua importância estratégica de âmbito militar, do que pela arte, ciência, sociedade ou cultura.
 
Mas foi em 1869, com a inauguração do teatro, que tudo começou a mudar.
 
Logo nesse mesmo ano, depois de os jornalistas lisboetas noticiarem a inauguração de um “teatro de luxo na vila de Cascais”, os cerca de 500 lugares da sala de espectáculos esgotaram várias vezes. Por ali, como se de uma grande capital cosmopolita se tratasse, passaram os grandes nomes da vida artística europeia dessa época. Desde o grande actor Vale, passando por Mercedes Blasco, Laura Ferreira, Pedro Cabral, Beatriz Rente e Pereira da Silva, muitos foram os nomes famosos que levaram longe a fama da nova casa de espectáculos e da própria vila de Cascais, recriando em torno da povoação uma mística de interesse que nunca mais desapareceu.
 
Terá sido também a partir da construção do Teatro Gil Vicente, que se criaram em Cascais numerosos grupos, colectividades, associações e academias, que alteram por completo a vivência social e cultural do velho burgo. O teatro de amadores, ainda hoje recordado com nostalgia por ter marcado de forma perene a História de Cascais, desenvolveu-se sempre em torno deste espaço. D. Fernando Atalaia, Rodrigo Berquo, Maria Luís da Costa, Belmira Lima, D. José de Atalaia, Ermelinda Assunção, subiram ao palco lado-a-lado com celebridades estrangeiras como Sandor Vegh, Eisenberg, Hans Munch e Karl Engel. E o fulgor manteve-se inalterado durante praticamente um século. Francisco Carneiro, Luís Costa Constante, João Constante, Helena Pinto, Edmundo Ferreira, Jaime Salgado, Marília Costa, Cármen Mota, João Carriço, Juvenália Tavares, são apenas alguns exemplos dos muitos artistas amadores que durante muitas décadas foram criando, encenando e fazendo subir ao palco algumas das mais divertidas, cómicas, dramáticas e culturalmente emblemáticas peças de teatro do país.
 

 

Foi também a inauguração do Teatro Gil Vicente, com toda a animação que a envolveu, que motivou o Rei Dom Luís I e a Corte Portuguesa, a escolherem Cascais como estância de veraneio a partir de 1870, tendo a Família Real assistido, de forma reiterada, a várias peças de teatro e inúmeros eventos culturais nas cadeiras deste novo espaço de entretenimento.
 
 
 

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publicado às 10:05

O Convento de Mafra 298 Anos Depois

por cascalenses, em 18.11.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem realidades que são maiores do que a História e que subjugam os factos, os documentos e a factualidade. Transcendem-se a si próprias, repercutindo os sonhos de quem as idealizou e os horizontes infinitos e intemporais que são sempre sinónimos da genialidade. É o que acontece com o Palácio / Convento de Mafra. Que importa recordar no dia em que se cumprem 298 anos desde aquele dia extraordinário em que Dom João V ali colocou a primeira pedra.
 
 
 
 
O Convento de Mafra, localizado a poucos quilómetros de Lisboa, foi uma das mais impactantes obras de arquitectura jamais concretizadas em Portugal. Com os seus mais de 40000 m2 de área total, os seus impressionantes 29 pátios, as 880 divisões e as duas mais de 4500 portas e janelas, o edifício produz um enorme impacto visual a quem dele se acerca, sendo um repositório que está à altura do facto de ter sido edificado durante o mais rico de todos os reinados dos reis portugueses.
 
Dom João V, cognominado como o magnânimo, teve a sorte de alcançar o ouro do Brasil durante o seu reinado. E com ele, impôs-se como um dos mais poderosos reis europeus. Casado com a arquiduquesa Maria Ana Josefa da Áustria (1683-1754), filha do Imperador Leopoldo I, da Casa dos Habsburgos, foi pai do futuro rei Dom José I de Portugal  e, por morte deste, do Rei Dom Pedro III. Durante a sua vida, assente na magnanimidade da sua imensa riqueza, teve uma intervenção política muito relevante ao nível da cena política internacional e foi um dos monarcas Portugueses que maior influência teve na definição do rumo da Europa durante a sua época.
 
Mas o dia 17 de Novembro de 1717, quando decorreu a primeira pedra do futuro Convento de Mafra, tem um profundo significado simbólico para o então Rei de Portugal em linha, aliás, com todo o simbolismo associado ao edifício, à sua decoração e até ao uso que teve ao longo dos últimos séculos. Tendo tido grande dificuldade em gerar a sua descendência, Dom João V terá feito uma promessa a Deus de que edificaria um convento em Mafra no caso de lhe nascer um filho varão no prazo de um ano a contar daquela data. Diz-se ainda que a promessa, feita por um rei que nunca foi coroado, visto que, tal como os seus antecessores desde o restauracionista Dom João IV, decidiu coroar no seu lugar a imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Padroeira de Portugal, aconteceu durante uma das crises de melancolia do monarca. De facto, nos dias que antecederam o lendário episódio, Dom João V ter-se-ia retirado para o Alentejo devido à estranha doença que o afectava. E terá sido num dos dias de maior prostração, quando a rainha o encontrou desolado sob a sua poderosíssima condição, que terá formulado o seu voto do qual resultou a construção do vetusto monumento.
 
 
 
 
De facto, apesar de o primeiro filho do rei não ter sido varão, pois nasceu a Princesa Maria Bárbara, futura rainha de Espanha por casamento com Fernando VI, o Rei Português decidiu não só manter a sua promessa de construção do pequeno convento destinado a cerca de 13 frades capuchos arrábidos, como incrementou o projecto juntando-lhe um inusitado palácio real que causou a estupefacção e a surpresa dos Portugueses de então.
 
Com o traço de João Frederico Ludovice, Mafra assenta numa planta também ela estranha para a sua época. Com as dimensões extraordinárias que foram indicadas pelo Rei, o Convento de Mafra sobrepõe-se de forma básica à planta da Baixa Pombalina de Lisboa, construída pelo Marquês de Pombal depois do Terramoto de 1755. A sua biblioteca, os aposentos de caça e os longuíssimos corredores que ligam as diversas alas do edifício, consolidam uma fachada decorada com uma escadaria monumental que nos transporta até à basílica. E por baixo de todo esse espaço, escondem-se dos olhares menos atentos os espaços de morte onde se acumulam os restos mortais de várias centenas de religiosos que ali viveram e morreram ao longo dos anos.
 
Estranho ainda, pelo seu carácter vincado e linearmente ostensivo, os espaços vãos existentes entre os tectos dos andares superiores e a cúpula exterior do monumento. Nessas zonas inacessíveis mas bem acabadas, montaram-se vastos espaços de culto ritualístico maçónico, bem patentes na simbologia e na imensa parafernália de instrumentos que a decora. A ideia do Grande Construtor é, aliás, o persistente sinal que acompanha o Rei na sua demanda pela eternidade, consolidando a premissa de que Mafra não é só aquilo que se vê e que existe uma causa discretamente marcada nas suas paredes da qual dependeu a orientação e a decisão real.
 
 
 
 
A vertente simbólica do Convento de Mafra, explicando o tantas vezes mal compreendido carácter perdulário de Dom João V, transmite-nos a certeza de que o monumento é significativamente o expoente máximo da expressão religiosa de Portugal, numa tentativa de tradução cosmológica da realidade imensa do universo que necessariamente terá de passar o entendimento mesquinho do dia-a-dia Português. Mafra é, para Dom João V, o palácio-convento que hoje temos. Mas é sobretudo, na sua vertente mística de um Rei magnânimo, uma espécie de altar-mor de Portugal, idealizado para aproximar o País do seu eterno destino de representação na Terra do cruzeiro de luz que emana do céu. A visão quinto-imperial que transvaza a demanda do Prestes João e que enforma a épica empresa dos descobrimentos, consolida-se aqui no palácio onde o império aguarda a chegada nunca concretizada do desejado, numa prática de despojamento que coroa como imperador o mais puro e inocente dos rapazes. Porque nem sempre aquilo que lá está é exactamente o que percebemos e, sobretudo, porque raramente aquilo para onde olhamos é aquilo que vemos.
 
 
 
 
Nos míticos subterrâneos de Mafra, onde a lenda diz que existem ratazanas imensas que são capazes de se alimentar de seres humanos, nada existe de extraordinário, para além da cloaca colossal para dar vazão à imensidade de gente que utilizava o edifício. Mas no topo das torres, onde o céu já se sente, aí sim, existem os vestígios de uma porta para o paraíso terrestre.
Num espaço repleto de lendas e de ideias-feitas, genericamente resultantes do impacto imenso que um edifício com estas características sempre tem, importa ainda relembrar os míticos carrilhões.
 
Construídos em Antuérpia e Liége por Guilherme Withlockx e Nicolau Levache, respectivamente, terão custado a módica quantia de 50000 moedas de ouro ao cofre Português. Diz-nos a lenda que , tendo encomendado o primeiro, o seu manufactor terá comentado que era obra de grande monta para um Estado tão pequeno… ao que o rei Português, mostrando bem o poder que resultava da sua imensa riqueza, terá respondido que duplicava a encomenda e desejava adquirir não um mas dois carrilhões para o seu edifício mafrense!
 
 
 
 
Lenda ou realidade, o Convento de Mafra é hoje uma realidade que se impõe a todos os Portugueses. Se para uns representa o exercício perdulário que sugou imensamente o erário pública, para outros é certamente o expoente máximo da visão ancestral de um dos reis que melhor personificou a tradicionalmente portuguesa demanda do Graal.
 
Vale a pena visitar com atenção e cuidado, libertando-se de preconceitos e alumiando os recantos mais sombrios de uma história que ainda tem muito para contar ao País onde nasceu. E no fim, depois de subir aos carrilhões e de descer aos sombrios recessos dos subterrâneos, é essencial sair pela “porta do cavalo”… se souber!

 

 

 

 

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publicado às 12:08

Deu Lá Deu e o Eterno Feminino de Monção

por cascalenses, em 07.09.15

 

 
por João Aníbal Henriques
 
Existem poucas terras assim! Monção, vila minhota situada no extremo Norte de Portugal, junto na margem do Rio Minho e a um passo da Galega Salvaterra del Miño, teve sempre uma história conturbada e marcada por constante ataques e contra-ataques oriundos do país vizinho.
 
Mas, no furor bélica dos muitos episódios que dão corpo à sua existência, são vários os momentos em que a defesa da localidade e, por consequência, a defesa de Portugal, foram empreendidas com muito êxito por mulheres.
 
Aconteceu no Século XVII, com as intervenções da Condessa de Castelo Melhor e de D. Helena Peres que, em ocasiões diferentes e separadas por um hiato temporal de quinze anos, tomaram em mãos o encargo de defender a sua terra.
 
Mas a mais célebres das Monçanenses, sepultada actualmente na sua Igreja Matriz e oferecendo o seu nome para topónimo da praça principal daquela vila verdejante, foi Deu-la-Deu Martins, casada com D. Vasco Rodrigues de Abreu, o Alcaide-Mor de Monção.
 
Reza a lenda que em 1368, durante a guerra entre o monarca Português Dom Fernando I e o rei castelhano Dom Henrique de Trastâmara, foi montado cerco à vila minhota. A capacidade das forças atacantes era brutal e a duração do cerco foi fazendo mossa nas já muito depauperadas reservas nacionais, a tal ponto que se perspectivava uma rápida capitulação por falta de víveres, água e mantimentos.
 
Num laivo de genialidade a que certamente não é alheio a capacidade estratégica da heroína, a mulher do alcaide decide juntar todos os poucos víveres que restavam e, perante o espanto e certamente a incompreensão dos seus conterrâneos, manda lança-los por terra das muralhas altaneiras que protegem a vila.
 
Os castelhanos, convencidos da prosperidade que se vivia lá dentro, reforçada pelo facto de verem atirar fora mantimentos que eles consideravam essenciais à sobrevivência da população, resolverem então desistir do cerco e abandonar a cidade que desta forma sobreviveu.
 
 

 

Praça Deu Lá Deu - Monção

 

 

Igreja dos Capuchos - Monção

 

 
 

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publicado às 17:23

Aylan Kurdi e a Europa

por cascalenses, em 03.09.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques

No dia em que se cumprem 74 anos desde o início dos gaseamentos aos judeus perpetrado pelo III Reich nazi durante a II Guerra Mundial, chegam-nos as imagens (nem o adjectivo chocante é suficiente para as descrever) de homens e crianças mortos que deram à costa na Praia de Bodrum, na Turquia.
 
No desespero extremo de quem tem como único objectivo na vida o de sobreviver, os refugiados entregam-se ao destino na tentativa vã de chegar à Europa. E fazem-no porque a ideia de uma Europa Unida se gera a partir dos valores (teóricos) da fraternidade, da liberdade, do humanismo, da democracia e do respeito. E são esses valores e esses princípios ilusórios, que muitos ainda tentam utilizar para descrever a Europa que temos, que ditam a tragédia real que sobre eles se vai abatendo.
 
Porque a Europa que temos não é unida. Porque a Europa em que vivemos não é fraterna. Porque esta Europa não sabe o que é o humanismo. Porque a Europa que subsiste não reconhece o direito universal à democracia nem se respeita…
 
E não se julgue que é um problema da Europa de hoje e das tentativas populistas de transformar o velho continente das Nações numa amálgama federal de dependências. Não. Este problema afectou profundamente a Europa no início do Século XX, conduzindo ao eclodir da guerra em 1914; reiterou-se a partir do início da década de 30 levando ao início da Segunda Grande Guerra em 1939; e depois, mais ou menos controlados pelo peso dos media e pelas campanhas propagandísticas que contornam a realidade e toldam o entendimento dos povos, deu forma ao desastroso drama dos Balcãs, ao desmantelamento das antigas repúblicas soviéticas e a muitos outros focos de ódio entranhados no País Basco, na Catalunha, na Ucrânia, na Bélgica, na Irlanda do Norte, na Escócia, etc.
 
A Europa federal de índole franco-alemã que nos querem impor é anti-natural e por natureza anti-valores. É uma Europa virada para o seu umbigo Berlinense, centrada na defesa da riqueza e da materialidade e sulcada pelo rigor dos calendários eleitorais dos seus membros. Tudo o resto são ninharias que não importam aos governantes.
 
Um nojo. Esta Europa que ainda temos. 

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publicado às 10:48

O Castelo de Castro Laboreiro (Parque Nacional da Peneda Gerês)

por cascalenses, em 25.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem lugares que estão prenhes de memórias e de vida. Neles subsistem memórias ancestrais, marcadas nas rochas firmes que as sustentam, em laivos de ritos que se repetem milenarmente e que quase tocam a eternidade. Castro Laboreiro, no Concelho de Melgaço, no Norte de Portugal, é um excelente exemplo de um espaço assim. Nele convivem muitas gerações que se cruzam nos seus quereres, nos seus sonhos e nas suas emoções, repetindo-se num monumento cíclico eterno que surge perenes nas paredes, no chão e nas rochas do lugar.
 
Com uma história ancestral, provavelmente contemporânea do nascimento da espécie humana na Terra, Castro Laboreiro ganha o seu topónimo do seu velho e vetusto castelo – ou castro – que estrategicamente colocado no topo do morro nos deixa perceber que importância teve este lugar na definição dos limites territoriais do nosso País.
 
 
 
 
O castelo ou castro, atribuído na literatura mais antiga ao período romano, surge durante o romantismo como sendo de origem árabe, facto que se sustenta na efectiva influência que os norte-africanos tiveram na consolidação do espaço territorial do El-Andaluz. Sabe-se hoje, no entanto, que o castelo é muito mais velho do que isto e que, no deambular transumante da pré-história, seria já um local de extrema importância, pelo menos durante o período de veraneio.
 
As suas raízes celtas, imbuídas no espírito das muitas tribos que aqui estavam sedeadas e que se digladiavam de forma permanente protegendo-se nos fortes e contra-fortes que as serranias proporcionavam, é uma certeza inultrapassável que ajuda a percebe melhor a forma consentânea que o espaço apresenta quando relacionada com a existência ambígua dos seus primeiros ocupantes.
 
Hoje, milhares de anos depois desse período áureo de Castro Laboreiro, a população continua a viver de forma cruza entre as   “inverneiras”, ou seja, os espaços de habitação situados nos vales que envolvem o lugar, como Bico, Cailheira, Curveira, Bago de Cima e Bago de Baixo, Ameijoeira, Laceiras, Ramisqueira, João Lavo, Barreiro, Acuceira, Podre, Alagoa, Dorna, Entalada, Pontes, Mareco, Ribeiro de cima e Ribeiro de Baixo e as “brandas” os espaços ocupados durante o período estival e situados na regiões mais altas que envolvem a localidade. As principais “brandas” são Vila, Várzea Travessa, Picotim, Vido, Portelinha, coriscadas, Falagueiras, Queimadelo , Outeiro, Adofreire, Antões, Rodeiro, portela, Formarigo, Teso, Campelo, Curral do Gonçalo, Eiras, Padresouro, Seara, e Portos. O ritual de passagem de trecos e tarecos entre as duas casas pelas famílias castrejas, repete-se ainda hoje numa espécie de ritual cíclico que perpetua a própria Alma Lusitana neste lugar tão especial.
 
 
 
Os dólmenes situados junto à localidade, ainda hoje motivo que redobra o interesse por uma visita, atestam e testemunham a herança simbólica e sagrada de um espaço que provavelmente só assim explica a sua longevidade.
 
De facto, com uma situação geográfica extrema, Castro Laboreiro viveu durante milénio num isolamento muito profundo, facto que contextualiza a excelente preservação dos seus monumentos mas, também, a manutenção quase se poderia dizer inusitada de uma estrutura de pensamento que se consolida à medida em que os séculos vão passando.  Certo, no entanto, é que as agruras do tempo e do clima e até a própria produtividade da terra são insuficientes para explicar a  teimosia humana em permanecer por aqueles lados, isto se não tivermos em linha de conta a beleza natural que envolve todo o espaço e que é de tal forma impactante que se torna difícil de descrever.
 
Situada em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, que seria por si só motivo que chegaria para explicar o interesse de a visitar, a localidade de Castro Laboreiro vale ainda a pena pelos seus excelentes restaurantes e magnífica gastronomia que oferecem aromas e sabor a uma visita ao local.
Mas no alto, alcandorado nas penhas que protegem a fronteira, o castelo sobrevive ainda, assente nas ruínas que sobreviveram a um raio que o destruiu por completo no Século XIV e que Dom Dinis mandou reconstruir.
 
O caminho íngreme e difícil, num acesso que só é possível fazer-se durante o Verão, transporta-nos até a mais de 1000 metros de altura, deixando antever, aqui e ali, pequenos panos das antigas muralhas. Só quando chegamos lá acima, já bem perto das enormes rochas onde está alicerçada a entrada principal, começamos a perceber o assombroso daquele local. Uma paisagem sem fim, num conjunto de planos infinitos que reforçam a sensação de pequenez e de insignificância que este tipo de locais sempre nos trás.
 
 
 
Classificado como Monumento Nacional desde 1944, o Castelo de Castro Laboreiro foi conquistado por Dom Afonso Henriques em 1141 que lhe terá construído uma torre de menagem isolada que lhe conferiu a configuração tradicional dos castelos românicos.
 
Depois de consolidada a Nacionalidade e de terminadas as lutas fratricidas que deram corpo à independência de Portugal, Castro Laboreiro nunca perdeu da sua importância estratégica, facto que se percebe através de uma análise linear à forma como se situa a sua muralha relativamente à fronteira galega. No seu interior, abaixo do marco geodésico que ocupa o espaço onde estava outrora a torre medieval, existe ainda o redil onde se juntava o gado das redondezas, protegido pelos muros grossos das investidas sempre terríveis de inimigos e animais selvagens.  
 
Em suma, Castro Laboreiro e o seu velho castelo são uma das pérolas inesquecíveis de Portugal. Valem a distância necessária para lá chegar e justificam por si só o passar por lá uns dias de férias.
 
 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 17:10

Alcácer do Sal e a Igreja de Santa Maria do Castelo

por cascalenses, em 19.08.15

 

 
João Aníbal Henriques
 
O exercício cénico que resulta do horizonte verde que se espalha para lá do rio é realidade recente, do Século XIX, quando o arroz substituiu o sal enquanto gerador da riqueza de quantos habitavam naquele espaço. Mas, algures por entre as pedras antigas alcandoradas no topo da colina do castelo, sente-se no ar uma paz desconcertante que contrasta de forma ávida com a guerra que permanente assolou a cidade de Alcácer do sal.
 
Situada no Distrito de Setúbal, a História de Alcácer faz-se de um conjunto muito rocambolesco de rocambolescos episódios que se sucederam de forma sucessiva na construção daquele espaço. Habitada desde a pré-história, quando o local onde hoje se situa a Pousada Dom Afonso II era já um espaço amuralhado para defender o precioso sal, a cidade foi descendo a colina até à beira-rio, à medida que se apaziguavam os ânimos e se estabeleciam os poderes definitivos que lhe conferiram a formulação espacial que hoje nos apresenta.
 
Salacia Imperatoria Urbs, dando corpo e fazendo jus à riqueza de sempre de Alcácer do Sal, foi sempre ponto de referência neste troço final do Rio Sado, impondo-se à realidade nativa pré-existente e abrindo caminho para a magnificência imperial que os Árabes souberam aproveitar.
 
 
 
 
Embora não esteja ainda provado, pois as campanhas arqueológicas ainda seguem inconclusivas, parece que o local onde se situa a actual Igreja Matriz, teria sido anteriormente a Mesquita Maior do tempo dos Árabes. O certo, porque subsistem hoje vários elementos dessa época integrados na arquitectura cristã e tardo-românica que a caracteriza, é que há cerca de dois mil anos,  a Igreja de Santa Maria do Castelo seria um templo romano. E, mais importante ainda, as colunas que estão visíveis na estrutura actual comprovam que o edifício romano subsistia quando se procedeu à reforma da Igreja, nos idos do Século XIII, que lhe conferiu o aspecto actual.
 
Reconquistada em definitivo para a cristandade em época já tardia e quando reinava Afonso II, depois de um processo muito complicado de conquistas e reconquistas que se prolongou praticamente desde a fundação da Nacionalidade, a cidade foi-se aglomerando inicialmente dentro do perímetro amuralhado, principalmente no espaço situado junto à igreja, e só posteriormente se alastrou ao declive que nos leva até ao Sado.
 
A Igreja Matriz, espécie de sentinela altiva guardando as memórias dos tempos e das eras que por ali deixaram marcas, foi classificada como Imóvel de Interesse Público em 1951 e partilha a sua localização privilegiada com o antigo paço real onde actualmente funciona a pousada (e onde se diz que será criado um espaço museológico para expor os muitos materiais de grande interesse e importância que foram sendo recolhidos na região).
 
 

 

 

 

 
 

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publicado às 13:24

A Capela de Nossa Senhora da Conceição em Arcos de Valdevez

por cascalenses, em 13.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem locais que transcendem o tempo com a sua capacidade de atravessar incólumes as eras pelas quais a humanidade vai passando. É o que acontece num dos recantos menos conhecidos mas mais emblemáticos de Arcos de Valdevez na antiquíssima capela de Nossa Senhora da Conceição.
 
O vetusto monumento, erigido provavelmente ainda no Século XIV quando Dom Fernando, o Formoso, ainda respirava saúde e a Rainha Leonor Teles, a Aleivosa, se entretinha com o estrangeiro João Fernandes  Andeiro, é um dos mais interessantes exemplares da arquitectura românica do Norte de Portugal.
 
Essencialmente com cunho funerário, remetendo para os ancestrais arquétipos da Senhora da Conceição, a que concebe, a capela apresenta uma formulação espacial sóbria ao gosto da sua época, apesar das alterações impostas na transição para o período gótico, como o arco da frontaria principal e, mais recentemente, pelo altar de orientação “quase” barroca e já de finais do Século XVIII.
 
Na sua intemporalidade solidamente arreigada ao poder das grossas cantarias que a sustentam, a Capela de Nossa Senhora da Conceição de Arcos de Valdevez remete-nos para um imaginário profundamente ligado ao período de consolidação da nacionalidade, no qual a memória antiga associada à Identidade de Portugal se mostra no seu total esplendor, oferecendo um espectáculo emocionante no qual os princípios de uma religiosidade católica muito profundamente sentida se misturam com os laivos distantes de uma espiritualidade ainda bárbara mas significante.
 
 
 
 
A Senhora da Conceição, venerada aqui através de um monumento que deixa antever a orientação sagrada da própria localidade, assume simultaneamente a sua fácies Cristã e pagã, num esforço de gerar consensos que estabeleçam pontes entre o passado e o futuro daqueles que por ali lutam quotidianamente por uma sobrevivência sã. A morte e a vida, partilhando aqui uma espécie de universo místico que contrasta de forma evidente com a vida quotidiana que se vive lá fora, dão o mote para o choque dual entre os contrastes formados pela luz e pela sombra, pelo calor e pelo frio e pela magia e misticismo que se impõe à religiosidade canónica da comunidade envolvente.
 
São emoções únicas que valem a pena conhecer em Arcos de Valdevez.
 
 

 

 

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publicado às 11:12

O Forte do Pessegueiro em Porto Côvo

por cascalenses, em 12.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O Forte do Pessegueiro, situado junto à praia homónima no Lugar de Porto Côvo, Concelho de Sines, resultou da adaptação de uma antiga fortificação marítima construída pelo Arquitecto Italiano Filipe Terzio em 1588 a mando do então Governo Espanhol.
 
Cruzando fogo com a Ilha do Pessegueiro, faixa de terra de sabor romântico situado em frente ao lugar de Porto Côvo e onde existiam duas batarias de defesa de costa, o forte também é designado por Forte de Nossa Senhora do Queimado, por Forte da Ilha de Dentro ou por Forte de Santo António do Pessegueiro. Desta maneira, um pouco ao sabor dos rocambolescos episódios que deram forma à história de Portugal naquele final do Século XVI, a fortificação servia de garante contra desembarques indesejados nas enseadas amenas que existem no local e impedia o aproveitamento dos extensos areais por eventuais tropas invasoras que pretendessem retomar a defesa de Portugal.
 
Em 1590, já com nova plataforma construída a partir de desenhos de Alexandre Massai, o forte foi adaptado com a colocação de quatro peças de artilharia que reforçavam o seu poder de fogo e a sua capacidade de actuação em possíveis cenários de invasão.
 
De resto, depois da restauração da independência, em 1640, o forte esteve sujeito a um período de abandono do qual só recuperou já em 1690 quando o engenheiro militar João Rodrigues Mouro projectou uma nova construção de raiz no mesmo local mas que fez desaparecer por completo os vestígios das construções anteriores.
 
Peça essencial na defesa costeira de Portugal, o forte integra ainda uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Queimada, tendo desempenhado papel de extraordinário relevo ao contribuir para o reforço da independência nacional ao longo das muitas tentativas de recuperação do poder por parte dos invasores espanhóis.
 
São de realçar, para além dos baluartes triangulares que lhe emprestam o ar austero que ainda ostenta, o enorme fosso que o envolvia, obrigando à construção de uma ponte que transforma a frontaria e a porta de entrada numa espécie de castelo medieval. Vale a pena a visita pela extraordinária integração na paisagem e pelo impacto visual conferido pela maravilhosa Ilha do Pessegueiro.
 

 

 

 

 

 

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publicado às 17:36

A Igreja de Nossa Senhora da Soledade em Porto Côvo

por cascalenses, em 12.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Num Alentejo muito singular, no qual as planícies quase eternas se adornam com as arribas frenéticas de mar e de sal, encontramos o sítio de Porto Côvo, marcado pela brancura quase inebriante das suas casas e pelos tons fortes do azul-cobalto que dá corpo às barras que decoram as suas fachadas singelas.
 
E é de singularidade que tratamos quando entramos no Largo Marquês de Pombal, coração deste recanto único de Portugal, desenhado no Século XVIII à imagem e à semelhança da Baixa Pombalina na tão longínqua capital. Situado no coração do lugar de Porto Côvo, o largo mistura a arquitectura típica do Alentejo com os laivos de opulência de uma Lisboa de cujos ecos aqui chegam somente as inconsistências próprios da distância… Grandeza simples e uma pequenez grandiosa, recriam um cenário quase mágico a que não fica indiferente, pela sua forma, pela localização e pelas características do seu culto, a Igreja de Nossa Senhora da Soledade (ou de Porto Côvo), pontuando com a monumentalidade das grandes cidades o lugarejo de praia em que o povoado se transformou.
 
Na frontaria estão os sinais indiscutíveis da sua nascença alentejana. Os traços simples que aqui se misturam com laivos tradicionalistas do estilo neoclássico, surgem em contraponto com a grandiosidade do retábulo de talha dourada que lhe confere um toque barroco que não deixa indiferente quem a visita. 
 
A imagem de Nossa Senhora da Soledade, também ela singela na voluptuosidade das suas vestes roxas, é assim o corolário de um templo projectado no Século XVIII por Joaquim Guilherme d'Oliveira, que justifica a visita e que compõe as magníficas paisagens marítimas do lugar.
 
 

 

 
 
 

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publicado às 13:07

O Subúrbio de Cascais

por cascalenses, em 29.06.15

cascais.JPG

 

 

por Isabel Magalhães e João Aníbal Henriques

 

Na passada semana foi finalmente aprovada a nova versão do PDM de Cascais. Com mais de uma década de atraso, a nova versão deste importante documento consagra valores e princípios que se são uma cisão definitiva com o modelo de desenvolvimento consagrado para o concelho desde há mais de 100 anos. Tudo vai mudar a partir de agora e os equilíbrios estruturais de outros tempos vão perder-se definitivamente.

 

Tal como referiu amiúde o Presidente da Câmara Municipal de Cascais ao longo do controverso período de discussão que envolveu esta polémica aprovação, já tudo foi dito e discutido sobre este PDM. Com a sociedade civil unida contra a orientação política imposta pela coligação PSD/CDS, que consagra definitivamente a dependência de Cascais face a Lisboa e a suburbanidade do nosso concelho, este novo PDM é o resultado de uma opção política por parte daqueles que governam Cascais e impõe-se ao concelho como uma espécie de condenação que terá repercussões directas no devir municipal ao longo dos próximos dez anos e com implicações irreversíveis que se farão sentir ao longo das próximas gerações.

 

Apesar de terem sido muitas as vozes que se fizeram ouvir contra esta opção, e de o período oficial de discussão pública da proposta ter conhecido muitas dezenas de intervenções críticas por parte dos munícipes Cascalenses, os detentores do poder não se cansaram de reiterar a falsa informação de que não existiram intervenções por parte do povo de Cascais…

 

 

No nosso caso, com a experiência negativíssima que tivemos durante o consulado de José Luís Judas, que pura e simplesmente tomou como lixo as muitas críticas e sugestões que lhe fizemos chegar durante o processo de aprovação da versão de 1997 do PDM e, depois, durante a controversa tentativa de revisão que se fez no ano 2000, optámos por compilar conjuntamente as nossas sugestões e críticas num documento ponderado e muito aprofundado que foi entregue oficialmente na Câmara Municipal de Cascais e, para evitar que todo o trabalho fosse para o lixo de forma incipiente, por transformá-lo num livro que garantisse que pelo menos fossem discutidas as nossas ideias e o nosso contributo para o concelho. Mas por mais incrível que pareça, mesmo com a entrega oficial da nossa intervenção e a publicação do livro, os partidos que controlam o poder teimosamente continuam a tentar dar a entender que nada nem ninguém apresentou proposta alguma que servisse de alternativa a esta versão que agora temos… como se uma mentira, por ser repetida sistematicamente, pudesse tornar-se numa verdade junto dos munícipes da nossa terra.

 

Com a aprovação desta nova versão do PDM, a vocação turística municipal deixa de ser o eixo estruturante do concelho. E com esta opção, que contraria mais de um século de uma história próspera e pujante, esvai-se a orientação cujo mote era colocado na qualidade de vida dos Cascalenses. A marca internacional “Estoril”, que o governo de José Sócrates tentou extinguir e que o então Presidente da CMC, António Capucho, tudo fez para salvar, foi agora definitivamente extinta por opção desta coligação que pretende consagrar o Cascais de subúrbio, incaracterístico e desinteressante. Ficou provado que o objectivo que José Sócrates tinha é o mesmo que a actual maioria defende: acentuar a dependência de Cascais perante Lisboa, diminuindo o seu papel na definição dos critérios diferenciadores de outros tempos e definitivamente abandonando o sonho antigo de que esta nossa terra mantivesse a aura de glamour e de excelência que a caracterizou durante muito tempo. Como é evidente, com implicações na gestão das verbas do jogo e no impacto que as mesmas têm no nosso concelho.

 

Hoje, a reboque das necessidades eleitorais que vão aparecendo, a opção consagrada neste PDM aponta para o reforço da suburbanidade de Cascais. Encoberta por parangonas que dizem que vão defender tudo e que tudo vão defender, esta nova versão do PDM recria uma teia de unidades operativas e de sub-unidades que, completamente alheadas da realidade municipal e daquilo que foi sempre o devir deste concelho, escondem os meios que permitem discricionariamente destruir tudo aquilo que de bom ainda temos. Acontece com o património edificado, por exemplo. Ao contrário da opção assumida no tempo do anterior presidente, de anexar ao PDM uma listagem exaustiva de imóveis a proteger e a defender, este novo PDM faz exactamente o inverso: diminui ao mínimo que a lei permite os imóveis listados, dizendo depois que é a opção é salvar tudo aquilo que existe no Concelho! E por aí adiante. Faz-se o mesmo com o ambiente, com as áreas verdes, com os leitos das ribeiras, com os espaços-canal, com a dicotomia entre o litoral e o interior, com a reconversão dos núcleos urbanos consolidados, com os bairros clandestinos entretanto legalizados, com as escolas, com a promoção da actividade empresarial, com os lixos, etc!

 

Dirão alguns que serão poucas as mudanças que para já vamos sentir com a aprovação deste PDM… mas infelizmente não é assim e as consequências desta opção populista e casuística estão já aí para todos as podermos ver. Dos festivais dos pastéis de bacalhau ao monta-e-desmonta permanente das barracas de pau que se colocam em frente à Câmara; dos eventos sociais para colocar nas redes sociais e nas revistas publicadas com erário público para promover o poder; da Rua Direita transformada num imenso shopping indiano-paquistanês; da debandada geral das grandes e conceituadas marcas comerciais que noutros tempos traziam tanta gente à nossa terra; da transformação de arruamentos urbanos numa espécie de vias-rápidas no centro das localidades onde o mote se coloca nos carros e não em quem passeia a pé; nas fachadas envidraçadas dos edifícios que vão ocupando os espaços urbanos mais impactantes; dos projectos de uma pseudo-reconversão da entrada de Cascais, demolindo os edifícios antigos que lá estão para prolongar o horrendo Cascais-Villa que dizem querer fazer desparecer; do demole-e-não demole dos edifícios do Largo da Estação à pseudo-entrega da decisão do que se vai ali fazer aos Cascalenses; são centenas (ou se calhar milhares) de exemplos bem demonstrativos desta opção populista e suburbana, orientada para a caça ao voto e para a promoção rápida de umas quantas gentes, que vão destruindo de forma paulatina a Alma e a essência desta nossa terra.

 

Cascais vai ser agora mais um subúrbio de Lisboa. Vai ser mais um palco populista de um tenebroso caminho que leva progressivamente à indiferenciação e ao conformismo. E vai ser, de forma atroz para todos aqueles que defendem de forma independente a nossa terra, um mero veículo de propaganda eleitoral ao sabor das necessidades dos partidos que nos governam. Aí está o exemplo assombroso do que vão fazer em Carcavelos e o inusitado requinte de tapar o que de mal se faz com os laivos recônditos de um projecto universitário de excelência!.. Sem apelo e sem agravo…

 

Serve de pouco a verdade neste Cascais que agora temos. Mas aqui fica, porque a mentira tem perna curta e Cascais merece um destino diferente, o link para a versão integral em PDF do livro que contém as nossas sugestões, as nossas considerações, as nossas críticas e o nosso contributo para o futuro do nosso concelho. Porque por aí se continua a dizer que não existe: "Cascais – Estratégia de Futuro para a Nossa Terra”.

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publicado às 13:22

Figos de Cascais ou Figos de Rabadilha

por cascalenses, em 19.06.15

 

 
 
Reza a lenda que durante o período de ocupação filipina, o edil de Cascais apoiava a causa dos usurpadores espanhóis e que traía Portugal…
 
Ora vivia nesta altura na velha vila piscatória um judeu velhaco que ocupava os seus dias à procura de estratagemas para afrontar o poder e para se impor aos grandes senhores que oprimiam o seu povo. Atencioso, rico e influente, o dito Judeu começou a enviar diariamente ao edil de Cascais uma bandeja de ouro com os melhores figos da sua quinta.
 
 
Do alto da sua sobranceria, o senhor de Cascais tomou o acto como um gesto de simpatia muito usual naquela época para ganhar os favores daqueles que governavam o concelho. E deleitava-se com os figos oferecidos pelo judeu, não se coibindo de lhes gabar o extraordinário e único odor que tanto apreciava e que o deixava tão satisfeito.
 
Mas um dia, quando o judeu foi preso pela inquisição, foi instado a contar publicamente os seus segredos. E eis que, para gáudio dos Cascalenses que defendiam a sua pátria contra os interesses estrangeiros, explicou o estranho e inesperado odor que tanto agradava ao senhor de Cascais…é que, antes de os enviar ao edil, o judeu passava-os pelo rabo e era ali que eles ganhavam o aroma que conquistara o palato do senhor cascalense!
 
Assim nasceu, com força de uma lição que perdura ao longo dos séculos, a lenda dos “Figos de Cascais”, popularmente conhecida como a lenda dos “Figos de Rabadilha”.

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publicado às 12:15

A China – Quando a Natureza e a Verdade se Renegam a Cada Esquina…

por cascalenses, em 27.05.15

 

 

por João Aníbal Henriques
 
A China é o maior e o mais populoso País do Mundo. Com os seus perto de um bilião e meio de habitantes, ocupando uma imensidão de mais de nove milhões de quilómetros quadrados, a República Popular da China conjuga uma história milenar, patente em cada canto e recanto e sensível em milhares de pequenos laivos da vivência cultural do seu povo, com uma espécie de história nova, de pouco de setenta anos, que acompanha algo a que por lá se chama “revolução cultural” e que ditou os destinos do controle do Partido Comunista Chinês desde o fim da guerra civil que aconteceu em meados do Século XX.
 
Quando se chega à China tudo é inesperado e a sensação que perdura, mais do que os sons marcantes e os cheiros que preenchem todos os detalhes da sua paisagem marcante, é uma sensação de choque cultural que se traduz num impacto muito grande.
 
Com um regime político muito marcado pelo totalitarismo político do Partido Comunista, bem visível nos símbolos, nas cores e na profusa presença de militares nas ruas das cidades, a China empreendeu um esforço hérculeo ao longo das últimas décadas para literalmente apagar das memórias dos seus habitantes os ensinamentos antigos que haviam dado corpo à identidade  nacional. Quem hoje visita a China, e salvo as raríssimas excepções de monumentos ancestrais que não foi possível demolir pelo impacto que tiveram e continuam a ter um pouco por todo o Mundo, como a Cidade Proibida, a Grande Muralha da China, etc. vê um país marcadamente ocidentalizado, com avenidas largas repletos de milhões de carros em engarrafamentos constantes, enormes arranha-céus ao jeito do que se faz na Alemanha e na América e centenas de gigantescos centros comerciais, copiados dos que existem no Ocidente mas agigantados ao gosto chinês, nos quais se encontram as marcas e as lojas mais importantes da Europa actual.


 
 
É por isso um banho de água fria, para quem lá chega à espera de encontrar os vestígios da cultura milenar chinesa, da sua forma de vestir e de estar, bem como os retorcidos telhados dos pagodes ancestrais. Tudo isso desapareceu mercê da revolução dita cultural que o regime empreendeu, e foi paulatinamente substituído por uma espécie de grande cenário Ocidental onde se tenta copiar de forma espampanante o que se faz por cá.
 
Mas tenta-se somente. Porque por detrás das fachadas de vidro, dos carros alemães e das lojas mais requintadas de Paris, sobressaem ainda os gestos antigos que os Chineses teimam em perder… os arrotos sonoros em plena rua, a preparação de comida à porta de casa, as cuspidelas para o chão e o lixo que esvoaça por todo o lado, contrastam de sobremaneira com aquilo que imaginamos para um lugar assim. E depois a desordem ordenada e controlada que existe por todo o lado. Num País onde não é possível navegar livremente na internet, as ruas estão cheias de prostitutas e chulos que perseguem os poucos turistas ocidentais que por ali andam, oferecendo o seu produto e tentando levar os mais incautos para aventuras estranhas e muitos caras das quais poucos têm a coragem de voltar a falar mais tarde.

 
 
E o engano é palavra de ordem que não deixa ninguém indiferente. À sombra da sua incapacidade de falar outra qualquer língua para além do Chinês e da natural dificuldade de comunicação que daí advém, qualquer ocidental que entre num táxi, que tente comprar o que quer que seja e que não esteja habituado aos usos e costumes daquela gente, será enganado com toda a certeza.
 
Apesar de tudo isso, da falta que fazem as memórias antigas de um País antiquíssimo e que tanta importância teve na nossa forma de estar e de ser, o impacto de uma visita à China traduz-se numa experiência de vida, provavelmente mais impactante do que qualquer outra viagem que alguém possa tentar fazer.
 
Vale a pena? Vale certamente!
 

Pequim vs Beijing

 
 
 
 
Existem elementos incontornáveis numa visita a Pequim. Para além da sua imponência e antiguidade, são marcos fulgurantes na imaginação de qualquer um e definem com rigor aquilo que um turista Ocidental pensa antes de chegar a um destino tão impactante. A Cidade Proibida, a Praça de Tian’anmen, a Grande Muralha ou o Templo do Céus, são parte da paisagem e da aura de mistério que acompanha esta enorme metrópole asiática.
 
Tendo anteriormente designações diferentes, como Zhongdu, Dadu ou Cambuluc, Pequim (ou Beijing na ortografia local) é a actual capital da China. Com uma imensa população de quase 24 milhões de habitantes, é a segunda cidade chinesa depois de Shanghai e aquela que conjuga maior simbolismo no contexto da ditadura comunista que actualmente se está ali a viver.



 
 
Fundada originalmente no Século XIII, quando Genghis Khan unificou um conjunto de pequenos povoados ali existentes, Pequim (ou Capital do Norte) foi crescendo ao sabor das muitas vicissitudes que deram forma à sua História. Ali residiram as principais figuras da História da China e ali se centralizam as estruturas de poder ao longo dos últimos séculos.
 

A Praça da Paz Celestial ou Praça de Tian’amnen

 
 
 
 
A Praça da Paz Celestial, como optou por chamar-lhe o regime comunista que controla o País, também conhecida por Praça de Tian’amnen, é a maior do Mundo e foi inaugurada em 1651 às portas da Cidade Proibida. Por ali se representaram as encenações das grandes paradas e dos espectáculos com maior impacto políticos da Ásia e nela se desencadearam acontecimentos políticos que mudaram para sempre a percepção do Mundo em relação a este país tão marcante. Foi ali, em 1989, que centenas de estudantes foram massacrados pelo regime depois de tentaram mostrar a sua insatisfação pelo que estava a acontecer.
 
Hoje, rodeada de enormes medidas de segurança muito visíveis (e também de outras que ninguém vê mas que se sentem), alberga o monumento de memória ao antigo líder comunista Mao Tsé-Tung (1893-1976) e a tumba onde se encontra exposto o seu corpo embalsamado e está permanentemente cheia com centenas de milhares de visitantes maioritariamente chineses que, com um permanente sorriso nos lábios, por ali deambulam horas e horas a fio para poderem ver de perto o corpo daquele a quem, por medo ou respeito, continuam a chamar o “Grande Timoneiro”. E quase faz impressão olhar para aquele mar de gente, ali às portas da antiquíssima Cidade Proibida, gesticulando de satisfação em filas intermináveis que rodeiam o monumento várias vezes e onde passam horas após horas só para comprar o bilhete.

 
 

Mao Tsé-Tung e a Revolução Cultural Chinesa

 
 
 
 
E se a cidade tem uma história ancestral, marcante principalmente no Século XV quando a Cidade Proibida foi construída, o certo é que a sua importância foi reforçada no dia 1 de Outubro de 1949 quando Mao Tsé-Tung (1893-1976) ali proclama o nascimento da actual República Popular da China. Tendo sido conquistada pelo poder Nipónico em 1937, que manteve o controle sobre a cidade até à sua derrota na II Guerra Mundial em 1945, Pequim foi libertada pelo exército liderado por Mao e posteriormente reconquistada pelo poder comunista após a Guerra Civil que impôs o actual regime político.
 
E foi precisamente o auto-designado Grande Líder que, com a ajuda de uma das suas mulheres, empreende entre 1966 e 1969 aquilo a que optou designar por Revolução Cultural que literalmente deu forma à China actual e que tanta influência tem ainda hoje na formulação plástica e social o povo Chinês.
 
Tendo reformulado praticamente todos os aspectos da via quotidiana no seu País, o regime comunista optou por uma solução final que pusesse cobro a toda e qualquer possibilidade de protesto ou de sublevação. Para além de destruir grande parte do património histórico e cultural do País, que associava à possibilidade de descentrar as atenções do povo das inovações e do progresso que o regime comunista pretendia impor, a revolução cultural foi palco de grandes perseguições a oposicionistas, artistas e a todos os que ousassem pensar de maneira diferente. A autêntica lavagem cerebral levada a cabo por Mao Tsé-Tung, apagando os vestígios da milenar história chinesa e reforçando os laços com o movimento comunista, estendeu-se a escolas, empresas e às suas, que se encheram de simbologia do regime e apagaram por completo tudo aquilo que dissesse respeito a outros tempos.

 
 
Ainda hoje, na fachada principal da entrada da Cidade Proibida, se ostenta a fotografia do líder revolucionário, literalmente vigiando o seu povo e reverenciado como se de uma divindade se tratasse… 
 

A Cidade Proibida

 
 
 
 
E o maior choque para quem visita a China pela primeira vez será possivelmente a Cidade Proibida. Conjunto monumental de templos e palácios utilizados pelos vários imperadores chineses desde 1420, quando foi construído, a Cidade Proibida é possivelmente o monumento chinês que transversalmente acompanha o imaginário de todos aqueles que já pensaram estar neste lugar tão diferente.
 
Palco de filmes e de dramas imperiais, vedada ao acesso do cidadão comum, a Cidade Proibida é um autêntico e maravilhoso palco onde se recriavam os espectáculos que sustentavam a magnificência do poder político Chinês.


 
Actualmente, depois da revolução cultural de Mao Tsé-Tung, franquearam-se os portões antigamente sempre fechados e o povo literalmente tomou conta do espaço. Perdendo grande parte da sua mística e o antigo silêncio que dava corpo à apreciação do lugar e que é contado e recontado por todos os viajantes antigos que tiveram a sorte de lá entrar, a Cidade Proibidade está sempre literalmente a abarrotar de milhares e milhares de visitantes, maioritariamente chineses, que entram aos gritos, preenchem cada recanto e vão (literalmente) arrancando bocados dos adornos existentes no local.
 
Sem qualquer outra espécie de orientação para além de umas ténues informações muitos genéricas acerca dos nomes ancestrais daquelas vastas praças e terraços, os visitantes seguem ao ritmo da curiosidade, espreitando aqui e além as muitas salas que enchem o lugar e ouvindo aqui e ali algumas palavras ditas por algum guia mais descuidado. Não existe informação escrita, placas indicativas ou sequer livros à venda com notas sobre o lugar (o único sítio onde encontrámos um livro em inglês sobre a história da Cidade Proibida foi na área de embarque do Aeroporto), tudo acontecendo ao sabor do nada que tudo enche! Perde-se a simbologia, o significado profundo e a magnificência milenar de uma história que importava recordar.






 





 




 


 
 

Shanghai ou Xangai e Pudong

 
 
Situada junto à foz do Rio Yangtze, importante empório comercial durante muitos séculos, a Cidade de Shanghai é actualmente a maior cidade da China e possivelmente uma das maiores metrópoles do Mundo.

 
 
Considerada como “Cidade Mercado” em 1074, foi sempre ponto central na distribuição das riquezas produzidas no vastíssimo território Chinês e um porto da maior importância. De tal forma assim foi que, em 1842, quando a revolução industrial simplesmente começava na Europa, Shanghai se tornou no ponto-angular do comércio asiático, facto que ficou consubstanciado no Tratado de Nangum.
 
Profundamente ocidentalizada, com a sua estrutura urbana marcada por alguns dos maiores arranha-céus do mundo, Shanghai consubstancia o seu impacto na linha costeira do Rio Huangpo e no magnífico cenário do Pudong e a Torre Pérola Oriental, visto a partir do Bund.
 
A torre, construída entre 1991 e 1995, foi desenhada por Jia Huan Cheng e, com os seus 468 metros de altura, é actualmente uma das mais altas torres de televisão do Mundo, tendo-se assumido como ex-libris da cidade. O seu traço, baseado num poemos da Dinastia Tang, procura recriar a linha de paisagem com os traços de um alaúde…
 
Do outro lado, causando estranheza por ter sobrevivido ao surto implacavelmente destruir da revolução comunista, sobrevive um antigo palacete colonial actualmente utilizado como Embaixada da Rússia na China.


 






 
 

Guangzhou e o Cantão

 

 
De todas as cidades Chinesas, Guangzhou é possivelmente aquela que melhor traduz o estado em que se encontra China actual. Empório comercial antiquíssimo, fundada no Século II a.C. e com mais de dois milénios de História, Guangzhou ou Cantão, como é conhecida no Ocidente, é a capital da província de Guangdong, um dos mais prósperos territórios do País.
 
E se o Cantão é bem conhecido dos Portugueses, existindo centenas de relatos e descrições de viagens feitas à cidade ao longo de muitos séculos, até porque um tratado de 1511 atribui a Portugal o monopólio do comércio em Guangzhou, já pouco resta da magnificência de outrora.
 
Os antigos bairros, as casas típicas, os templos e as ruelas estreitas, foram progressivamente substituídos por enormes arranha-céus com dezenas e nalguns casos centenas de andares de altura, muitas vezes pintados de dourado e verdadeiramente resplandescentes, num processo de descaracterização total que cumpre os objectivos ditados pela dita revolução cultural comunista. Sendo actualmente a terceira metrópole da China continental, com mais de 13 milhões de habitantes, Guangzhou é uma espécie de enorme centro comercial, cruzando vários centros comerciais entre si e que se estende por cima e por baixo da terra.
 
Da sua história mais rocambolesca, subsiste o velho abrigo anti-bombardeamentos, resquício da pressão japonesa durante a II Grande Guerra, mas que se encontra literalmente perdido debaixo de uns quantos arranha-céus e de uma amálgama de centenas e centenas de lojas aglomeradas em vários centros comerciais subterrâneos.
 
O que sobrevive da antiquíssima cultura Chinesa? Pouco mais de nada. Os maus hábitos arreigados por práticas de sucessivas gerações, a sujidade que permanentemente vai enchendo as ruas das suas cidades, alguns hábitos alimentares também eles associados a práticas de pouca higiene e… nada mais. 
 
Uma pena.





 

 

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publicado às 17:18

至尊旅行 in Beijing, Shanghai and Guangzhou

por cascalenses, em 27.05.15

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葡萄牙是克里斯蒂亚诺·罗纳尔多(C罗)的故乡,距离当初这里的水手们奔向大海的怀抱,创造连接东西方的历史,已经有超过五百年的时间了。我们的“至尊旅行”将会为您提供一次难忘的葡萄牙之旅,那里是太阳落下的地方,是欧洲最靠西的边缘,在那个美丽的地方,交织着令人难忘的历史遗迹与最引人注目的风景。它会让你觉得正在走进一个历史厚重,传统丰富的国度。现如今,它已经成为欧洲一个时尚的旅行地,一个阳光和魅力交相辉映的国际大都市。  
 
我们的“至尊之旅”,会为您提供一位时刻陪伴左右的中国导游,他将同时担任您的翻译。在旅行中,不仅有中国传统的美食,我们还为您提供了葡萄牙最好的美食与美酒与之互补,并有欧洲最负盛名的商业空间可供参观。在“至尊之旅”的合作酒店中,会对中国旅客提供特殊的照顾,有传统的中式早餐、中国人常穿的拖鞋以及普通话的电视频道。相信这一切,都是让您下一次旅行成为一场至尊之旅的必备要素。

 

 

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publicado às 10:23

As Duas Arcas do Castelo de Montemor-o-Novo...

por cascalenses, em 27.04.15


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por João Aníbal Henriques

Há muitos anos, durante o domínio árabe, vivia no Castelo de Montemor-o-Novo um castelão muito rico que tinha uma filha formosa e casadoura. Enquanto ele procurou encontrar um noivo rico para desposar a menina, ela apaixonou-se por um simples e pobre soldado malgrado a oposição do pai. Sem dele conseguir obter a aprovação de que necessitava para casar com o seu apaixonado, a menina resolve fugir do castelo abandonando definitivamente o seu lar. O castelão, apesar dos muitos esforços que fez para recuperar a sua filha, chegou ao fim da vida roído pelo desgosto de não a voltar a ver. Na hora da morte, ao dispor dos seus bens, resolveu deixar-lhe tudo o que tinha, pedindo encarecidamente que a encontrassem e a informassem desta sua derradeira decisão. Mas não foi linear na forma como o fez… depois de encher uma arca com toda a sua riqueza, encheu uma segunda arca, absolutamente igual à primeira, com uma enorme maldição, instando a filha a escolher bem aquela que desejava abrir em primeiro lugar. Quando chegou ao castelo para recolher a sua herança, a filha foi informada deste desígnio e, com medo de abrir em primeiro lugar a terrível maldição, não ousou escolher, tendo optado por deixar no castelo ambas as arcas, uma com um grande tesouro e a segunda com uma terrível maldição. Reza a lenda que ainda hoje, passados muitos séculos desde este nefasto acontecimento, estão enterradas algures no Castelo de Montemor-o-Novo as arcas em questão. Resta encontra-las e ter a coragem de arriscar ser tocado pela ancestral maldição!

 

 

 

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publicado às 17:08

A Vocação Turística de Cascais no PDM

por cascalenses, em 27.04.15

 

 

Assumir a vocação de Cascais neste processo de revisão do Plano Director Municipal, esforço hercúleo se nos ativermos ao avançado estado de degradação em que se encontra o Concelho e ao facto de esta ser, provavelmente, a última oportunidade para o fazer em termos de recuperação das características principais que deram forma ao sector turístico no território municipal, é assim o desafio que deveria colocar-se aos autores desta proposta. Só assim, com o caminho definido e assumido, é possível aos agentes da nossa cidadania programarem os seus projectos e ideias, consolidando-os a partir das metas que se traçam sobre as orientações que o documento deveria incluir.

 A justificação destas escolhas, mais do que em pretensas ideologias ou em princípios, passa pelos factos concretos e pela situação real em que vive o Concelho. A apresentação desses dados, de forma clara e insusceptível de crítica, fundamenta assim a possibilidade de se tornarem incontroversas, por representarem a realidade e assim representarem também Cascais e os cascalenses, as escolhas que se fazem, promovendo o trilhar de um caminho que, quer queiramos quer não, é o caminho mais profícuo para a geração de equilíbrios espontâneos neste Concelho. Muitos movimentos progressistas, que defendem que as antigas localidades devem evoluir abandonando a sua génese urbana e social e assumindo uma urbanidade assente em valores renovados que renegam as suas origens, teimam em apelar aos poderes políticos para que se repensem os fundamentos da orientação teórica subjacente ao PDM. Fazem-no por acreditarem que o futuro e o passado são incompatíveis, numa linha que critica a solidez estrutural de uma comunidade em detrimento de uma permanente movimentação que, segundo eles, é sinónimo de progresso e desenvolvimento.

Ora em Cascais passa-se exactamente o mesmo. Quatro décadas de ambiguidade, contornando regulamentos e planos que pouca ou nenhuma influência real tinham na definição do desenvolvimento municipal, promoveram um clima de profunda desonestidade intelectual que foi responsável por episódios diversos ao nível do urbanismo concelhio que nada dignificam Cascais nem o brio que os Cascalenses sentem pela sua terra.

Mas o grande problema é que, fruto deste marasmo que sempre interessa a alguns, se está a dar razão aos progressistas atrás mencionados. De facto, num clima de transversal anomia que vivemos, faz mais sentido abdicar do antigo e assumir unicamente os caminhos novos que surgem sem vícios e sem vicissitudes. Casos paradigmáticos como o da Amadora, no qual a assunção do seu carácter metropolitano facilitou os serviços, a gestão urbana mas destruiu por completo a identidade do local, mostram que as comunidades locais, mais do que qualquer outra realidade, deverão ser preservadas a todo o custo, uma vez que se assumem como o garante dos equilíbrios sociais internos, promovendo a qualidade de vida, a sociabilidade e a correcta gestão dos recursos.

Assumir este princípio pressupõe assegurar à comunidade valores e determinações que lhe garantam a possibilidade de sobrevivência. Isto passa, como é evidente, pela manutenção da identidade do grupo; pelo reforço das suas prerrogativas; e pela rentabilização das suas necessidades efectivas que deverão ser respondidas de forma a garantir que rentabilizam o próprio processo, sustentando uma modificabilidade que envolve todos os cidadãos. A vocação cosmopolita de Cascais, génese primordial da sua componente turística e de perto de 140 anos de uma História extraordinária associada ao nome e à marca ‘Estoril’, ao contrário daquilo que muitos defendem, foi sempre geradora de processos evolutivos que garantiram modificação e mudança. Esta, no entanto, processou-se sempre com respeito especial pelas preexistências, solidificando assim uma base que, mesmo nos momentos mais problemáticos da vida do Concelho, permitiram sempre a restauração dos equilíbrios e a recriação dos seus valores comunais.

O Plano Director Municipal que agora se revê, em respeito linear por aquilo que desde sempre tem sido o devir histórico no Concelho, deve ser um plano de futuro, reestruturando o presente de forma a condicionar um ritmo de progresso concertado e equilibrado que seja sinónimo de mais e melhor qualidade de vida para os Cascalenses. Mas para que tal aconteça, tem obrigatória e necessariamente de respeitar o passado e de ser capaz de o conhecer, de o entender e de o contextualizar, porque dele depende a continuidade da identidade municipal que é o sustento primordial da vocação municipal.

Como é evidente, do equilíbrio entre estes dois tempos, o que já terminou e aquele que ainda está para vir, depende a capacidade de Cascais usufruir plenamente de um presente audaz, devolvendo a Cascais a capacidade de permanente inovação que fez desta terra um espaço pioneiro em muitos campos ao longo da sua comprida história.

O estabelecimento de normas concretas e orientações definidas, se garantirem a tradução sistemática da vontade e sentir dos cascalenses, promoverá a reconversão integral da sua paisagem e da sua identidade, garantindo uma qualidade de vida que promove a cidadania.

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publicado às 16:23

Apresentação do Livro "Cascais" de Isabel Magalhães e João Aníbal Henriques

por cascalenses, em 10.04.15

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Decorreu ontem, no Hotel Baía, em Cascais, a sessão de apresentação do livro "Cascais - Estratégia de Futuro para a Nossa Terra" da autoria de Isabel Magalhães e João Aníbal Henriques. Com mais de 200 convidados presentes os autores sublinharam a importância do planeamento estratégico como forma de garantir a sustentabilidade de Cascais, assumindo o turismo como a vocação municipal prioritária. O historiador Paulo Morais-Alexandre, que apresentou a obra, salientou diversos aspectos relacionados com a paulatina degradação dos espaços concelhios, explicando que o Plano Director Municipal é o instrumento mais importante para a definição das regras-gerais que darão corpo à projecção do crescimento muncipal ao longo dos próximos (pelo menos) 10 anos.

 

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publicado às 17:06

A Quinta do Pisão e o Casal de Porto Côvo em Cascais

por cascalenses, em 09.03.15

 

 

 

por João Aníbal Henriques
 
Com uma situação extraordinária, nas faldas da Serra de Sintra e localizada a Sul da albufeira da Barragem do Rio da Mula, a Quinta do Pisão é um dos mais inesquecíveis recantos encantados de Cascais.
 
A sua História muito longa, que remonta (pelo menos) ao Calcolítico e à Idade do Bronze, pois existem vestígios de ambas as épocas na Gruta de Porto Côvo (ou do Rei), situada a Norte do antigo Casal de Porto Côvo, estende-se em ligação estreita aos ciclos da natureza e aos processos agrícolas mais tradicionais.
 
Desde sempre assente na fertilidade da terra, a exploração da Quinta do Pisão foi sempre a actividade primária naquele espaço no qual os cereais assumiram  especial importância. Como registo dessa actividade, que abastecia Cascais, restam ainda diversas estruturas agrícolas como eiras, moinhos e azenhas, associadas ao aproveitamento das águas que a atravessam de forma marcante vindas da serra. Paralelamente, principalmente nas zonas e lameiros que circundam o actual Centro Social, a horticultura aproveitava uma parte substancial dos solos da antiga quinta, actividade que era complementada com a produção de leite e com uma interessante exploração da rocha calcária que por ali abunda e que era utilizada como matéria-prima para a produção de cal, em vários fornos dos quais ainda subsistem vestígios no local.
 
Digna de uma nota especial, é ainda a presença da antiga Ermida de Nossa Senhora da Assunção (ver aqui a nota sobre a história e as memórias da Ermida de Porto Côvo), com raízes históricas que certamente serão pré-Cristãs e que, inserida no conjunto ritualístico matriarcal associado à Serra de Sintra (ou da Lua), era o espaço fulcral de uma devoção profunda que subsistiu até meados do Século XX e se inseria nos principais círios devocionais Cascalenses.
 
Actualmente reaproveitada como estrutura de lazer, a Quinta de Porto Côvo é um destino de excelência para passeios pedestres em família e, enquanto pólo aglutinador de uma biodiversidade extraordinária, um importante sustento para actividades pedagógicas a realizar pela comunidade educativa do concelho.
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

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publicado às 13:08

O Beco do Chão Salgado e o Processo dos Távoras em Belém

por cascalenses, em 24.02.15

 



 
No meio das mais macabras estórias que dão forma à História de Portugal, o processo que culminou com a execução da Família Távora, em Lisboa no tempo do Rei Dom José, é certamente um dos mais rocambolescos e enigmáticos, tendo deixado vestígios que sobrevivem passados mais de duzentos e cinquenta anos.
 
por João Aníbal Henriques
 
Estando situado numa das zonas mais movimentadas de Belém, a poucos metros do Mosteiro dos Jerónimos e dos afamados Pastéis de Belém, o Beco do Chão Salgado é desconhecido e passa despercebido da maioria dos muitos visitantes que por ali deambulam.
 
O pequeno beco, apinhado de casario que foi enchendo o antigo terreiro no qual havia sido proibido construir, está marcado por um obelisco em pedra que perpetua um dos mais significantes momentos da nossa história.
 
 
 
 
Depois do terramoto de 1755, que destruiu a Baixa de Lisboa e o palácio real que se situava no antigo Terreiro do Paço, o Rei Dom José e a Corte ficaram provisoriamente instalados na Ajuda, num conjunto de barracas montadas para o efeito e para onde foram transportados todos os luxos e mordomais da Casa Real.
 
Numa das suas incursões à cidade, dizem as más línguas que para visitar umas amigas, o rei terá sido alvo de um atentado em 1758, quando regressava à Ajuda, desencadeando um processo judicial complexo e pouco transparente que alterou por completo a História Moderna de Portugal e do qual ainda hoje não se conhecem nem os contornos, nem a substância e muito menos a realidade efectiva do que aconteceu.
 
O Marquês de Pombal, aproveitando a oportunidade para resolver o problema político que mais o apoquentava na época, ou seja, as permanentes tentativas por parte da velha nobreza para condicionar o poder e para impedir o absolutismo real, conseguiu que a acusação incidisse sobre a Família Távora que foi condenada, sem provas, pelo atentado à vida do rei.
 
 
 
 
Logo depois do atentado foram presos dois homens que, em declarações prestadas à polícia sob tortura, acusam os Távoras de lhes terem pago para perpetrar o crime, com o objectivo de colocar o Duque de Aveiro no trono.
 
Embora negando a autoria do atentado, toda a Família Távora foi condenada à morte, inclusivamente mulheres e crianças, num espectáculo público de execução a que assistiram milhares de Lisboetas. Por intercessão da rainha e da princesa herdeira, muito marcadas pelo carácter macabro do caso, as crianças acabaram por ser poupadas, sendo que não foram capazes de salvar a Marquesa de Távora que foi executada juntamente com os homens da sua família.
 
Depois de terem as mãos e pés partidos para deleite do rei, que assistiu a todo o macabro espectáculo, e de terem sido massacrados perante o resto da corte e da demais nobreza do reino que assistiu perplexa a um acontecimento encenado para deixar bem claro quem mandava em Portugal, todos os membros da família foram decapitados e queimados, sendo as suas cinzas deitadas ao Rio Tejo.
 
 
 
 
Depois de os seus bens terem sido confiscados e as famílias apagadas dos registos da nobreza Portuguesa, o Palácio do Duque de Aveiro, em Belém, foi demolido, tendo todo espaço sido coberto de sal e decretada a impossibilidade de se voltar a construir por ali o que quer que seja. No local foi construído um obelisco com vários círculos concêntricos simbolizando cada um dos elementos da família que foram executados, com a seguinte inscrição: "Aqui foram arrasadas e salgadas as casas de José Mascarenhas, exautorado das honras de Duque de Aveiro e outras condemnado por sentença proferida na Suprema Junta de Inconfidência em 12 de Janeiro de 1759, justiçado como um dos chefes do bárbaro e execrando desacato que na noite de 3 de Setembro de 1758 se havia cometido contra a Real e Sagrada pessoa de Dom José I. Neste terreno infame se não poderá edificar em tempo algum".


 
 
Simbolizando a devastação total e o apagar completo da memória daquelas gentes, o Beco do Chão Salgado foi, até à morte do rei Dom José e a chegada ao trono da Rainha Don Maria I, que nunca apoiou nem teve simpatia pelo Marquês de Pombal, um dos mais impactantes símbolos do poder político em Portugal.
 
Dois séculos e meio depois, são poucos os Portugueses que conhecem a história e muito menos aqueles que já visitaram este sítio tão especial. A memória do Chão Salgado, naquele recanto escuro de Belém, é a prova-viva de que, ao contrário do que se costuma dizer, os brandos costumes dos Portugueses nem sempre são para levar à letra…
 
 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 17:05

O Palácio do Intendente

por cascalenses, em 16.02.15

 

 
 
 
por João Aníbal Henriques
 
Altivo no meio da desagregada ruína que o caracteriza actualmente, o Palácio do Intendente, situado na localidade de Manique do Intendente, é ainda hoje uma surpresa para todos aqueles que por ali passam pontualmente. Com um estilo neoclássico muito firmado, fazendo lembrar a altivez pétrea de Mafra e as linhas sóbrias do Teatro São Carlos, em Lisboa, o Palácio do Intendente  representa o sonho nunca concretizado do antigo Intendente-Geral da Polícia Diogo Pina Manique.
 
Situado na Freguesia de Manique do Intendente e assumindo uma posição central na praça principal da localidade, o Palácio de Manique do Intendente começou a ser construído em finais do Século XVIII depois de a rainha D. Maria I, como forma de agradecimento pelos importantes serviços prestados pelo seu Intendente-Geral da Polícia, ter concedido as terras da antiga povoação de Alcoentrinho a Diogo de Pina Manique que lhes alterou a designação para a actual Manique do Intendente.
 
Não se conhecendo o nome do arquitecto responsável pelo projecto, julga-se que, mercê da proximidade do traço relativo ao projecto do Teatro São Carlos em Lisboa, também mandado construir por Pina Manique com quem mantinha uma relação de bastante proximidade, o mesmo poderá da autoria de José da Costa e Silva.
 
Portentoso, o edifício apresenta características incomuns para a realidade arquitectónica portuguesa da sua época, não só pela grandiosidade do mesmo, certamente devida ao facto de o Intendente-Geral pretender construir uma nova cidade de raiz a partir da centralidade marcante daquela construção, como também pela sua planta dividida pelo corpo central assente numa grande igreja que se impõe ao conjunto. De facto, quase contrariando a orientação pragmática associada à magnificência que Pina Manique desejava impor através desta construção, o edifício não tem uma entrada mo monumental, dividindo-se a mesma em quatro acessos laterais, e perde o seu peso cénico a partir da presença muito forte do corpo da igreja.
 
Estando actualmente num estado avançado de degradação, que contrasta de forma evidente com o valor simbólico e patrimonial do edifício, o Palácio do Intendente nunca chegou a ser concluído, uma vez que, em 1805, quando Diogo de Pinha Manique foi morto com dois tirões quando regressava a cavalo de Alcoentre, foi completamente abandonado ainda por acabar. Para juntar a este problema, o edifício foi ainda bastante abalado por um ciclone que destruiu a cobertura do claustro já em 1941.
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público através do Decreto nº 45/93, o Palácio do Intendente é hoje uma referência incontornável no panorama patrimonial Português e, apesar do seu estado avançado de ruína, expressa de forma inolvidável um dos mais consequentes e pragmáticos momentos da História de Portugal.
 
 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 15:26

A Saga da Linha da CP em Cascais

por cascalenses, em 19.01.15

 

 

Em 1999, no âmbito da preparação das propostas da Fundação Cascais no processo de revisão do Plano Director Municipal, estivemos com Filipe Soares Franco e Pedro Cardoso, numa reunião com responsáveis pela CP para conhecermos a real situação em que se encontrava a linha de comboios de Cascais.
 
Nessa altura (já lá vão 16 anos) conhecemos a realidade dramática com a qual nos debatíamos: Uma linha tecnicamente em fim de vida, com problemas variados e muito graves e, sobretudo, com a necessidade de uma intervenção estrutural urgente que permitisse a alteração da bitola da linha para que nela pudessem circular comboios mais modernos.
 
A substituição do material circulante era já nessa altura impossível por não existirem comboios novos à venda no mercado e por estar a acabar o stock de peças. E a manutenção do que existia, depois de muitas décadas de trabalho, começava a ser tarefa cada vez mais complicada, por serem muitos e graves os problemas que iam surgindo quotidianamente.
 
 
Alertadas as entidades oficiais, desde o governo de então até à autarquia, passando pelos partidos políticos da oposição e pelos muitos autarcas que nos diversos órgãos municipais representavam e diziam defender os interesses dos Cascalenses, ninguém se importou realmente com o que estávamos a dizer.
 
A esperança de vida da linha era, nessa altura, superior a um mandato eleitoral e, por isso, seria problema que teria de se resolvido por quem viesse governar Cascais mais para a frente…
 
Esta semana, quase duas décadas depois desse nosso alerta, a CP veio anunciar uma redução dramática de 51 comboios diários na linha de Cascais. Com reduções de horários, que ficam a dever-se à falta de material e não à falta de utentes, esta redução configura um importante revés para a vida dos milhares de passageiros que diariamente utilizam a Linha de Cascais, e também para as acessibilidades turísticas à Costa do Estoril.
 
Há 16 anos atrás, quando tornámos público este problema e o incluímos no conjunto de propostas que entendíamos que deveriam constar na revisão do PDM, ninguém quis saber e os actuais autarcas de Cascais, que nessa altura já eram autarcas, assobiaram para o lado e fingiram que não era nada com eles.
 

 

Agora, perante as evidências, todos gritam de forma unânime! Agora, tentando rentabilizar a seu favor o desencanto e o descontentamento dos utentes, já todos se preocupam com o que está a acontecer. Porque é este o Cascais que temos. 

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publicado às 17:03

Je Suis Hypocrite

por cascalenses, em 16.01.15

 

 
 
 
 
por João Aníbal Henriques

 

Sendo inquestionável que a liberdade é um valor civilizacional e que qualquer ataque que contra ela seja perpetrado põe em causa o humanismo em que ainda vivemos, o vil ataque contra o semanário francês “Charlie Hebdo” desencadeou um conjunto absolutamente inusitado de reacções dando forma a um exercício de hipocrisia transversal que é inaceitável num mundo verdadeiramente democrático como aquele que defendemos.
 
Na manifestação solidária de Paris, como também noutras que se espalharam pelo mundo fora, líderes de vários países viraram costas às discordâncias e gritaram em uníssono que todos eram Charlie. De todos os continentes, com crenças diversificadas e religiões por vezes antagónicas, houve unanimidade na condenação ao terrorismo e ao que aconteceu na redacção do jornal francês.
 
Mas esqueceram-se hipocritamente de várias coisas essenciais. Esqueceram-se que a liberdade enquanto valor absoluto não pode sobrepor-se a outros valores que, como ela, são essenciais na corporização do mundo que queremos. Liberdade sem responsabilidade e sem respeito transforma-se desde logo numa arma terrível que uns tantos, à sua sombra, não deixarão de utilizar contra aqueles que pensam de maneira diferente. Liberdade sem conhecer, perceber e assumir as diferenças entre os homens, entre as suas crenças, entre os seus usos e costumes e entre o conjunto de valores que enformam a sua identidade, é um exercício totalitário que assenta no controle da vontade alheira. Liberdade sem transparência e honestidade, é um mero lençol que vai cobrindo os males que se fazem e impedindo a comunidade de os conhecer.
 
E no Sábado, na enorme manifestação e que encheu televisões e jornais no mundo inteiro, os líderes vieram de todo o lado e deram os braços para se solidarizarem com as vítimas do semanário francês. Mas esqueceram-se que, virando as costas aos pilares primordiais que sustentam a própria liberdade, estão com este seu acto hipócrita a distorcer a realidade e a impedir o mundo de progredir livremente.
 
Nestes últimos tempos têm sido infelizmente muitos e inaceitáveis os actos de violência contra a humanidade que têm vindo a acontecer. Por todo o Médio Oriente, na Palestina, em Israel, na Turquia, na Ucrânia, na Síria, no Paquistão, no Egipto e em muitos outros locais, houve terroristas que mataram gente a coberto da pretensa defesa da liberdade ou de um culto qualquer.
 
E que eco tiveram ou têm todas estas desgraças que estão acontecer? E que impacto vão ter na definição das políticas por esse mundo fora e de que forma vão ajudar a transformar a humanidade tal como a conhecemos? Nenhum. Praticamente!
 
E não tiveram porque em Paris se reuniram os líderes que confundiram religião com terrorismo. Porque em Paris todos deram os braços esquecendo e fazendo esquecer o que nos seus países continua a acontecer. Porque em  Paris todos se abstiveram (ou foram incapazes) de falar sobre o respeito, a responsabilidade e sobre o conjunto de princípios basilares do humanismo que eles próprios são incapazes de ter. Hipocrisia simplesmente…
 
 
Valeu-nos uma vez mais o Papa Francisco, líder dos Cristãos Católicos e que cada dia que passa se vai transformando progressivamente no fulcro que o mundo precisa de ter. Sem encenações, sem moralismos fajutas, sem medo de ferir susceptibilidades daqueles que dão os braços por valores que nem eles próprios têm coragem de verdadeiramente defender, foi livre ao explicar o que se passou no semanário “Charlie Hebdo”.
 
Não é de religião nem de liberdade de imprensa que se trata. Não se trata de Cristãos, Muçulmanos ou Judeus. Trata-se de bandidos que em Paris, como no Médio Oriente e nos espaços que atrás referimos, cometem crimes contra toda a humanidade de uma só vez.
 
Para que o mundo possa ser verdadeiramente livre, e todos possam viver acreditando naquilo que quiserem, é preciso acabar com hipocrisias como esta.

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publicado às 16:24

Cinismo Verde em Portugal

por cascalenses, em 16.01.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques

 

O ano de 2015 inicia-se em Portugal com uma tresloucada apetência pelas preocupações ambientais… num acto de desvario que resulta do cruzamento sempre complexo entre as necessidades eleitorais e as que resultam da crónica falta de dinheiro, o estado e as autarquias de diversas sensibilidades políticas e partidárias convergem numa pseudo-defesa intransigente dos interesses ambientais de Portugal, utilizando essa máxima descabida para esconder as reais motivações que estão por detrás da decisões que vão tomando para defender os seus interesses particulares.
 
A primeira destas medidas foi a da chamada “política dos sacos”. Concretizada pela coligação governativa formada pelo PSD e pelo CDS, pretende cobrar-se um imposto que adjectivam como “verde” sobre cada saco de plástico utilizado em Portugal. Dizem eles (e têm razão) que o plástico utilizado nos ditos sacos é imensamente poluente e que, com este imposto, Portugal conseguirá reduzir drasticamente o impacto negativo que tem nesta área.
 
Mas dizem também, sem nenhuma vergonha, que a política dos sacos resulta em primeira instância da necessidade de colmatar o défice orçamental imposto pelo chumbo das propostas orçamentais pelo Tribunal Constitucional. Em suma, se não houvesse este conjunto de constrangimentos orçamentais, o governo pouco se importaria com o impacto dos sacos no ambiente e jamais lhe passaria pela cabeça a criação deste imposto cinicamente “verde”!
 
Em linha com este exercício hipócrita, e novamente ao sabor do eleitoralismo que dará forma a 2015, a câmara socialista de Lisboa veio mostrar-se preocupada com o ambiente no centro da cidade (no resto da cidade não importa nada a poluição…) e impôs restrições à circulação automóvel em algumas zonas da cidade.
 
E tem razão para se mostrar preocupada. A poluição provocada pelo trânsito automóvel é enorme e precisamos urgentemente de criar medidas que libertem as nossas cidades deste flagelo.
 
Mas, no caso específico de Lisboa, a hipocrisia dá forma a mais esta medida hipocritamente “verde”. Ao estabelecer uma idades para definir os carros que podem, ou não, circular na cidade, a edilidade assumiu que os critérios para essa circulação não são o grau de poluição provocado pelos veículos, mas sim uma cínica balança entre os votos dos quais necessitam os partidos que estão no poder, e o politicamente correcto que desde sempre se associa ao ambiente.
 
Senão vejamos: um Opel Corsa B, adquirido novo em 1997, com uma cilindrada de 1200 cm3, emite 156 g/km de CO2 e está proibido de circular em grande parte da cidade de Lisboa. Mas, por exemplo, um BMW 550D, adquirido novo em 2014 e com um índice de emissões na ordem dos 166 g/km de CO2, mais elevado do que a do velhinho Opel Corsa, pode circular livremente! 

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publicado às 16:20

O Milagre Alquímico de Estremoz

por cascalenses, em 01.12.14

 

 

Existem cidades que são mais do que uma mera cidade. Estremoz, assente na brancura imaculada do seu mármore de qualidade conhecida e reconhecida internacionalmente, é um desses espaços especiais. Conjuga uma história milenar com um vastíssimo rol de histórias e lendas que, oferecendo-lhe a grandiosidade das grandes capitais, a envolvem num laivo de glamour que envolve quem tem a sorte de nela se perder.
 
por João Aníbal Henriques
 
Estremoz é uma cidade especial. Dividida em duas partes que se conjugam operando como dois pólos de atracção junto daqueles que a visitam, a cidade comporta um intrincado e emaranhado conjunto de ruelas antigas que dão forma ao seu espaço medieval, compartimentado dentro das muralhas do seu ancestral castelo, e o amplo espaço moderno, que se espraia ao longo da planície, com as suas praças bem delineadas e os monumentos que valorizam cada esquina.


 
 
Quem entra em Estremoz pela primeira vez, fica imediatamente marcado pelo impacto que resulta da sua torre medieval. Do alto da colina onde assenta o núcleo mais antigo do burgo, a torre é possivelmente o mais antigo monumento da cidade, uma vez que o palácio real, bem como todo o quarteirão envolvente, foi completamente destruído por uma misteriosa explosão acontecida durante uma noite de Inverno no Século XVII.  À sua volta, com aquele tom intimista que a cidade ainda tem, tudo o resto são reconstruções mais recentes, sendo que a grande maioria foi construída durante o reinado de Dom João V e com o apoio da Casa Real.
 
Apesar de aparentemente não fazer qualquer sentido, pois sendo cidade pequena quando comparada com as capitais de Évora, Portalegre e Beja que a envolvem, a monumentalidade e a grandeza de Estremoz prende-se com o carácter simbólico que subjaz da sua história muito especial.
 
O primeiro personagem grande da História de Estremoz, depois de uma longa ocupação humana que se pressupõe ter começado ainda na Pré-História mas que teve momentos de grande fulgor durante o período Romano e, mais tarde, sob domínio Muçulmano, é Geraldo o Sem Pavor, herói mítico do Alentejo que, sob ordens de Dom Afonso Henriques, terá reconquistado para a Cristandade grande parte das cidades do Sul de Portugal. Sabe-se que Geraldo conquistou Estremoz em 1185 e que, mercê do período conturbado que então se vivia, ela foi perdida e reconquistada muitas vezes até ter entrado em definitivo na posse dos Reis de Portugal. Em 1258, pela mão de Dom Afonso III, recebeu o seu primeiro foral, facto que sustenta e comprova a importância que tinha no contexto da consolidação política nacional.
 
De entre outros, foi Dom Dinis um dos principais impulsionadores dessa importância relativamente à cidade. Foi ele quem, possivelmente por gosto pessoal relativamente ao espaço e à paisagem, mandou edificar o Paço Real e a torre de menagem atrás mencionada, que passaram a funcionar como baluarte da defensão do reino nas paragens longínquas do Alentejo.


 
 
O seu topónimo – Estremoz – é, aliás, um repositório importante dessa situação extrema em que se encontra a cidade, localizada numa zona de fronteira e sempre sujeita às vicissitudes e às pressões que dela derivavam.
 
A Rainha Santa Isabel, ligada de forma indelével e permanente aos destinos de Estremoz, onde aliás morreu em 1336, vê reforçados os seus laços com a urbe como consequência desse facto. A sua santidade, mais do que ao milagre das rosas, que lhe dá fama, fica a dever-se ao trabalho que efectivamente fez pela paz no reino de Portugal e que, por vicissitudes diversas, a traz amiúde até estas paragens.
 
Filha do Rei de Aragão e de uma princesa Italiana, Isabel casou com Dom Dinis e sofreu em vida as amarguras de um casamento do qual parece que resultou pouca afeição. O rei, conhecido admirador do belo sexo, dedicava-se pouco à sua santa esposa e procurava amiúde o folguedo junto das damas da região. Conhecida pela sua bonomia, a rainha terá sido conivente com tal situação, recebendo no paço, onde lhes facultava condições de vida e uma educação semelhante à que dava aos seus filhos naturais, os vários bastardos reais.


 
 
O futuro Dom Afonso IV, seu filho primogénito e legítimo herdeiro do trono, foi ele próprio alvo dessa situação, dado que o seu pai, tendo preferência por um dos seus filhos bastardos, teimou em deixar-lhe por herança o reino de Portugal. O príncipe, defendendo os seus direitos, terá dado início à primeira guerra civil da nossa história, que teria sido muito mais sangrenta se não fosse a intervenção permanente da sua mãe a Rainha Santa Isabel.
 
Em 1336, a antiga rainha que havia professado em Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, onde desejava passar os seus últimos dias ajudando os pobres, vê-se obrigada a nova e derradeira viagem a Estremoz para evitar uma nova guerra do seu filho agora já rei com o seu cunhado Rei de Castela. Deixando Coimbra carregada de peste, a rainha sucumbe em Estremoz, não sem antes evitar novo derramamento de sangue e de ter deixado expressa a sua vontade de ser sepultada em Coimbra conforme havia planeado fazer.
 
O cortejo fúnebre, que se alongou durante vários dias sob o calor tórrido do Julho no Alentejo, transportou os restos mortais da rainha de Estremoz até Coimbra. O caixão, levado em ombros pelas principais personagens do reino, acabou por rebentar durante o percurso, deixando sair um líquido viscoso que se ia espalhando ao longo do trajecto. Mas, para surpresa e gáudio dos que tiveram a sorte de participar neste triste evento, o líquido que saia deixava no ar um forte aroma a flores que reforçou a aura de santidade que já se atribuía à rainha. Não se sabendo com exactidão quanto haverá de lenda e de realidade nesta história, o certo é que, muitos séculos depois, quando o caixão voltou a ser aberto quando se procedeu à transladação do corpo de Santa Clara-a-Velha para Santa Clara-a-Nova, se encontrou incorrupto o corpo da rainha, sendo que ainda hoje, quase setecentos anos depois da sua morte, se expõe a sua mão à devoção dos Portugueses.


 
 
Mas para além de Geraldo – o sem pavor, de Dom Dinis – o plantador de naus a haver, e da rainha Santa Isabel, também por Estremoz passaram outras ilustres figuras que ajudam a perceber a real importância desta cidade única de Portugal. Em 1367 morreu em Estremoz o Rei Dom Pedro I, muitos anos depois dos míticos e românticos amores com a sua eterna apaixonada Inês; Em 1385, foi Estremoz das poucas praças que sem vacilar apoiou a Causa Nacional durante a crise que levou ao trono o Mestre de Avis e que deu forma à Ínclita Geração, tendo sido dali que Dom Nuno Álvares Pereira, o Condestável Santo que fez nascer a Casa de Bragança e aquela que virá a ser a última das dinastias no trono de Portugal, saiu para as batalhas dos Atoleiros e de Aljubarrota, dando corpo a uma defesa total e intransigente do interesse Nacional. Da mesma maneira, alguns anos depois, é a Estremoz que o rei Dom Manuel I se dirige para entregar a Vasco da Gama a importante tarefa de descobrir o caminho marítimo para a Índia e de estabelecer o contacto com o Prestes João…
 
Não se percebendo bem de onde vêm tão ilustres pergaminhos, perdidos no sem-sentido que dá forma à história local, o certo é que Estremoz conjuga em si própria os encantos maiores do Sul de Portugal. Tal como o País vai sobrevivendo quase incólume às muitas desgraças que dão forma à sua história maior, também Estremoz reafirma a sua Portugalidade em torno de feitos e acontecimentos que se conjugam no plano das ideias ara dar forma ao desígnio maior da nação.
 
 
Visitar Estremoz, subindo ao amplo terraço que se encontra no topo da Torre de Menagem, é ser capaz de reviver os passos difíceis que por ali deram os nossos ancestrais avós, abarcando com a vista a amplitude infinita da paisagem alentejana. Deslumbrante e avassaladora, a brancura de Estremoz acompanha a beleza extraordinária do seu mármore que, depois de um processo alquímico associado à purificação maior das impurezas que o compõem, se transforma na pedra maior que dá forma ao que de melhor se construiu em Portugal. Está por todo o lado, nas asas, nas ruas e nos lambris dos passeios. Mostra-nos a altivez, o charme e a riqueza deste recanto mágico de Portugal.  








 

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publicado às 16:36

Dia 1 de Dezembro de 2014 e a Dependência de Portugal

por cascalenses, em 01.12.14

 

 
 
O dia 1 de Dezembro marca uma data incontornável para Portugal. Em 1640, depois de avanços e recuos que foram determinantes para a definição do conjunto de práticas que deram forma à recuperação da independência nacional, os conjurados defenestraram (atiraram-no pela janela) Miguel de Vasconcelos e entregaram o trono de Portugal ao Duque de Bragança que foi aclamado como Dom João IV.
 
Durante muitos anos, uma prática reiterada que procurava reforçar a nossa identidade, o dia 1 de Dezembro foi feriado em Portugal. E foi feriado grande, devidamente celebrado um pouco por todo o País, precisamente porque marcava o mais importante de todos os acontecimentos políticos desde o dia 5 de Outubro de 1143 quando Dom Afonso Henriques fez nascer Portugal…
 
Mas depois de 1974, com governos atrás de governos e eleições atrás de eleições, os partidos políticos colocaram Portugal na bancarrota e, em situação de profunda dependência estrangeira e de subjugação à vontade de uma Europa onde a Alemanha tem a principal voz, resolveram abolir a comemoração.
 
E não o fizeram de forma linear… escondendo-se por detrás das desculpas que julgavam ser suficientes para lhes preservar a face, optaram por uma explicação fajuta, dizendo que a abolição do feriado seria essencial para a recuperação económica de Portugal! Dizem eles que sem este feriado, a produtividade de Portugal aumentará de forma exponencial.
 
Mas mentem. Mentem porque o peso económico da abolição deste feriado é de tal forma residual que que é possível que não é nenhum. E mentiram também porque a única consequência directa desta abolição é uma drástica, efectiva e muito substancial diminuição da consciência política nacional, associando a “pouca importância da restauração da independência” ao puro e simples esquecimento das circunstâncias que nessa altura viveu Portugal.
 
Agora, sem o feriado, a restauração da independência pura e simplesmente desapareceu das escolas, das salas de aulas e da memória nacional. Agora, tal como queriam os estrangeiros que controlam de forma efectiva os destinos e o devir do nosso País, está enfraquecida da Identidade Nacional.
 
Olhando criticamente à nossa volta, é árida a paisagem e vazios estão os campos onde ecoavam os gritos e as lutas dos nossos avós… E no seu lugar, para que cumpramos o destino que quem nos controla determinou, está o aquiescer perante interesses estrangeiros, num laivo de subserviência de um povo que sabe que já se perdeu a independência de Portugal.
 

 

Dia 1 de Dezembro de 2014. Triste. 

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publicado às 10:12

Sem Mãos em Vouzela e os Símbolos de Portugal

por cascalenses, em 27.11.14

 

 
 
A honra e a glória andam quase sempre a par nos momentos mais marcantes da História de Portugal. Gente houve que, virando as costas ao sofrimento e à morte, ofereceram as mãos, os braços e a própria vida para salvar Portugal. Foi o que aconteceu com Duarte d’Almeida, o decepado de Toro, que recebeu o Paço de Vilharigues como prova do reconhecimento real pelos membros que deixou em terras de Castela.
 
por João Aníbal Henriques 
 
O heroísmo faz parte da História de Portugal. Num país que quando analisado de forma cuidadosa se percebe de imediato que não tem nenhuma razão pragmática que explique a sua independência e o facto de ter conseguido sobreviver a estes quase 9 séculos, assumem especial importância os actos heróicos de gente que foi capaz de superar os limites da existência e da racionalidade prática que dá forma à vida em sociedade. Foram eles quem tornou possível a existência de Portugal, concretizando autênticos milagres que são essenciais para se perceber este País extraordinário.
 
Em Vouzela sobrevivem hoje os resquícios únicos de um desses milagres excepcionais. O Paço de Vilharigues e a lendária estória do Decepado de Toro, o porta-estandarte do exército Português que, em 1476, ofereceu as mãos os braços para salvar a bandeira Nacional, são o presente de reconhecimento que a coroa entregou ao herói que deu forma a um dos mais marcantes (e desconhecidos) episódios da História de Portugal. Não existem provas da presença de Duarte d’Almeida neste lugar. Mas o que importa isso perante o valor tão grande deste símbolo excepcional?
 
No centro da Cidade, ali mesmo onde a solidez da pedra se impõe na arquitectura românica da Igreja Matriz de Vouzela, sente-se o peso de vários milhares de anos de História.
 
Vouzela sempre foi uma cidade importante. Embora seja dos Romanos que resta o maior número de vestígios, bem documentados através dos marcos miliares que nos permitem conhecer o emaranhado de muitas estradas que ligavam a cidade directamente a Roma, são pré-Históricas as origens deste espaço, carregando consigo os episódios rocambolescos que várias gerações foram acrescentando à História do lugar.
 
Apesar disso, o desígnio de Vouzela é uma lenda, perdida nos tempos e na tradição popular. Duarte d’Almeida, o decepado alferes-mor de Dom Afonso V, que está indelevelmente ligado a cada canto e recanto da localidade. Não se sabendo se existiu de facto, é ele o mítico senhor da região de Dão-Lafões que perdura nas memórias do povo e que transborda nas pedras duras que dão forma às casas, aos monumentos e à fácies da cidade.
 
A partir do alto da Senhora do Castelo, onde ainda se vislumbram os restos de um antigo castro que defendia as populações locais durante o conturbado período do neolítico, percebe-se bem a grandeza das terras de Vouzela. A Senhora do Castelo, ou da Esperança, conforme surge em alguns documentos medievais, dá o mote a um espaço com ocupação comprovada desde a pré-História e desde sempre de importância estratégica na salvaguarda e na segurança da cidade situada no sopé do monte. As duas interessantes sepulturas antropomórficas existentes no local, escavadas na rocha que também serviu para construir as muralhas que deram forma ao castro e que serviram pelo menos até à época medieval, mostram bem a ligação quase irracional que existe entre a vida e a morte neste local. Interagindo, o espaço dos vivos e o espaço dos mortos complementam-se, da mesma forma como se complementam os sonhos e os anseios da população actual com os vestígios, reais e imaginários – o que importa? – dos antigos que por lá viveram.
 
Reza o ditado popular que “triste é o povo que precisa dos seus inimigos para honrar os seus heróis”… e é isso precisamente que representa o Paço de Vilharigues, em Vouzela, tradicionalmente apontado como a casa do alferes-mor de Dom Afonso V, Duarte d’Almeida, conhecido como o “decepado” por ter perdido as mãos e os braços na batalha de Toro.
 
A armadura do alferes-mor Português, entendido pelos “inimigos” espanhóis como um herói corajoso e intrépido que foi capaz de se entregar pela causa que representava, está exposto em lugar de grande destaque na Capela de Santiago (Patrono de Espanha), na Catedral de Toledo, homenageando o herói nacional.
 
Responsável pelo pendão Nacional naquela batalha, Duarte d’Almeida foi perseguido pelo inimigo que lhe cortou a mão com a qual segurava o símbolo de Portugal. Continuando a lutar, o alferes-mor passou a bandeira para a outra mão que lhe foi cortada de seguida. E antes de cair, num espectáculo de sangue e sofrimento que serviu para preservar a honra de Portugal, ainda conseguiu segurar a bandeira com a boca para a entregar a um compatriota que a colocasse a salvo.
 
 
Em Espanha é homenageado como herói. Em Portugal ninguém sabe que ele foi nem que entregou a própria vida para salvar Portugal…

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publicado às 12:09

A Rainha Santa Isabel e o Milagre de Portugal

por cascalenses, em 25.11.14

 

 
por João Aníbal Henriques
 
Em linha com o conjunto de circunstâncias inexplicáveis que dão forma aos mais importantes e impactantes episódios da História de Portugal, o conhecido “Milagre das Rosas”, protagonizado pela Rainha Santa Isabel, é um dos mais importantes exemplos da forma como o maravilhoso e o fantástico se cruzam amiúde, dando forma a entendimentos que ultrapassam gerações. São eles que, sem sentido algum, dão sentido ao sempre intrincado enredo de condicionalismos que compõe a existência humana…
 
Nascida em 1271 e filha do Rei D. Pedro III de Aragão e da Rainha Constança da Sicília, Isabel de Aragão foi rainha de Portugal por casamento efectuado por procuração com o Rei Dom Dinis em 1282.
 
 
 
 
A criança, trazida para Portugal em virtude de um casamento que resultou dos interesses políticos daquela época, recebeu mercês diversas e o senhoria de uma imensidade de cidades e vilas que serviram de dote inicial.
 
Com um marido que os documentos coevos apontam como “pouco devotado” à sua jovem esposa e dedicado em demasia aos encantos femininos de Portugal, a Rainha Santa Isabel ficou conhecida pela forma benigna que utilizava para tratar o seu marido e os muitos filhos ilegítimos dele. Em igualdade com os seus próprios filhos, a todos tratou com o mesmo desvelo, garantindo-lhes alimentação e educação e trazendo-os para o paço onde os mesmos cresceram.
 
Reza a lenda que, num dia em que o próprio rei a informou de que iria visitar umas amigas num convento situado numa zona próxima de Lisboa, foi ela própria quem lhe respondeu “Senhor… ide vê-las” tendo dado origem ao topónimo Odivelas.
 
 
 
 
Profundamente devota e dedicada às causas sociais, são também conhecidos vários arrufos com seu marido que, preocupado com o rombo nos cofres reais, via com maus olhos o desvelo com que ela tratava os mais pobres e necessitados, a quem oferecia pão e dinheiro a título de esmolas que lhe granjearam fama de santa ainda em vida. Foi de um desses episódios, aliás, que nasceu a sua lenda mais conhecida – a Lenda das Rosas – que romanticamente se espalhou em Portugal e que acabou por influir largamente na definição do espectro da espiritualidade nacional.
 
Reza a lenda que, numa manhã fria de Janeiro, a rainha saia do paço carregando pão para os pobres quando foi interpelada pelo rei que pretendeu saber o que é que ela transportava no regaço. Mentindo-lhe, a rainha disse-lhe que eram rosas que iria utilizar para alegrar os altares das igrejas da cidade. Estranhando a existência de rosas em pleno Inverno e principalmente naquela gélida manhã de Janeiro, Dom Dinis terá solicitado à rainha que lhe mostrasse o que transportava, e ela, largando das mãos o pão que escondia, deixou cair no chão um conjunto maravilhoso e muito aromáticos das mais bonitas rosas que se tinham visto por aquelas paragens… “São rosas, senhor!” foi a frase que ficou a marcar os arquétipos da crença nacional, corporizando um milagre de metamorfose alquímica que fui considerado como a prova máxima da sua santidade e sustento principal da sua beatificação (1516) e posterior canonização (1742).
 
Tendo tido uma profusa intervenção política em Portugal e em Castela, não só durante o período em que foi rainha mas também depois de viúva, interveio muitas vezes como mediadora em conflitos variados evitando a guerra e alcançando a paz entre os oponentes. O melhor exemplo aconteceu ainda durante a vida de Dom Dinis, quando este, dando preferência a um filho bastardo a quem pretendia deixar em herança o próprio Reino de Portugal, entrou em conflito com o filho legítimo, futuro Dom Afonso IV, tendo sido a rainha quem garantiu o alcançar da paz através de um processo de mediação que evitou aquela que possivelmente teria sido a mais sangrenta das guerras civis de Portugal.
 
 
 
 
Já muito doente, com a peste que matou centenas de milhares de pessoas em Portugal, deslocou-se a Estremoz em 1336 pra uma vez mais intervir num conflito que opunha o seu filho ao Rei de Castela. Faleceu no Paço Real daquela vila Alentejana, deixando escrita a sua vontade de que o seu corpo fosse sepultado no Convento de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, onde havia professado.
 
Tendo morrido em Julho, numa época de calor tórrido semelhante aquele que ainda hoje fustiga aquelas terras, foi preparado um caixão de chumbo para transportar o corpo na longa viagem que teriam de fazer até à Cidade do Mondego. Tentando evitar os cheiros resultantes da decomposição do corpo ao longo daqueles dias, o féretro foi reforçado e envolvido em vários tipos de panejamento e em perfumes de várias espécies.
 
Mesmo assim, mercê do calor que afectou o caixão durante o trajecto, este ter-se-á deteriorado com os gases libertados pelo cadáver da rainha e aberto algumas rachas por onde começou a sair um líquido espesso que muito preocupou muitos daqueles que acompanhavam o cortejo. Mas, para surpresa de todos, verificou-se que esse líquido deitava um cheiro maravilhoso a flores e não o mau-cheiro pelo qual todos esperavam…
 
Por ocasião do processo de canonização, já no Século XVIII, quando o caixão foi transportado de Santa Clara-a-Velha para Santa Clara-a-Nova depois de as águas do Mondego terem inundado por completo o antigo convento, o caixão voltou a ser aberto e perante a estupefacção de todos, verificou-se que o corpo se mantinha incorrupto e que o cheiro continuava a ser o mesmo aroma a flores que haviam descrito os participantes no primeiro cortejo praticamente quatro séculos antes.
 
Na actualidade, com muitos devotos espalhados por Portugal e por Espanha, a Rainha Santa Isabel é venerada a 4 de Julho, dia da sua morte, sendo a sua mão exposta pontualmente para que possa ser vista por milhares de interessados.
 
Rainha, mulher e santa, Isabel de Aragão é uma das figuras incontornáveis da História de Portugal. Na sua vertente mística, associada a processos complexos de uma originalidade sem igual, extravasou largamente o seu tempo e espraiou a sua influência ao longo de muitas gerações que foram cruciais no desenvolvimento na afirmação e na sobrevivência de Portugal.
 
A sua veia alquímica, suportada pelo controle efectivo da organização da matéria, visível no Milagre das Rosas e na incorruptibilidade do seu corpo venal, representa o êxtase máximo que se pode associar à magia deste País tão especial…
 

 

Vale a pena conhecer, compreender e interiorizar. Porque a Rainha Santa Isabel ajuda a perceber Portugal. 

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publicado às 16:59

O Convento dos Capuchos em Sintra

por cascalenses, em 17.11.14

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
São raros os espaços assim que, extraordinários e impactantes, não estão associados à monumentalidade das suas construções mas sim à singeleza levada ao extremo. É o que acontece no Convento dos Capuchos, em Sintra, onde a força da natureza de cruza com a vontade do homem para recriar um espaço que apela ao sonho e à vida, ao mesmo tempo que acorre aos desígnios que a carne impõe ao homem…
 
Embrenhado nas penhas antigas que dão forma à Serra da Lua, o Convento dos Capuchos, também conhecido como Convento da Cortiça, recria-se a partir da solicitação da pobreza extrema e do despojamento total que caracterizava os seus mais antigos habitantes.



 
 
Construído em 1560 por Dom Álvaro de Castro, em cumprimento de um voto formulado pelo seu pai D. João de Castro, Vice-Rei da Índia, que por ali adormeceu durante uma caçada e que terá sonhado com a criação de um pedaço de céu neste recanto inóspito da serra, o Convento dos Capuchos associa o fulgor da natureza, com as suas pedras e penhascos envolvidos em vegetação que romanticamente o envolve, com os mais profundos sonhos e anseios da humanidade.
 
Para lá entrar, passando um portal de sombra que nos verga perante a cruz, é necessário abandonar as paixões do mundo e das coisas, de forma a tornar possível abraçar por completo os desígnios mais profundos da divindade. Lá estão, aliás, o portal com a caveira e as duas tíbias cruzadas que, encimando a porta que sai do terreiro do sino para entrar no espaço conventual, simboliza a morte em vida e o triunfo desta última sobre as funestas sombras da morte…



 
 
E lá dentro, no estreito e obscuro corredor que dá acesso à luz interna, ficam as memórias daqueles que se enterraram vivos, entregando a Deus o seu insignificante corpo em busca da gloriosa apoteose da vida verdadeira, ou seja, daquela que é imortal e que surge livre das peias constrangedoras da carne.
 
Pobre, sombrio e frio, ao ponto de causar estranheza a possibilidade de se viver assim, o convento obriga-nos constantemente a baixar a cabeça. Fazemo-lo para entrar nas celas conventuais, na sala do capítulo, na sala de jantar ou nas cozinhas, num acto de reverência perante Deus e num ritual de humildade em linha com o ideário Franciscano que dá forma à Ordem que por ali prevalece.
 
Por todo o lado, cumprindo a sua obrigação de gritar bem alto que o crucifixo é uma realidade passageira, obviamente necessária para que a carne faça sentido, mas necessariamente transitória no percurso maior em direcção a Deus, lá está a rosa-cruz, espécie de roda em eterno movimento que grita bem alto a Boa Nova e a ressurreição de Cristo Nosso Senhor.



 
 
Mas são muitos e variados os motivos de interesse deste espaço excepcional. Desprovida das expressões mais vulgares da arte e da ostensiva presença de um espólio enriquecido pelos muitos séculos de boas-práticas que aquelas paredes já viram, a cerca é um autêntico cadinho de maravilhas naturais, numa simbiose perfeita entre a força da natureza e a vontade de Deus. Ninguém fica indiferente à decoração em cortiça, que enche por completo cada canto e recanto daquele espaço conventual, nem tão pouco à labiríntica disposição dos seus longos corredores, dispostos com naturalidade em torno da formulação das penhas ancestrais que a natureza por lá deixou.
 
Neste convento, perdido num tempo que se constrói a partir da inexistência do tempo, viveu durante muitas décadas o célebre e mítico Frei Honório que, de acordo com a lenda, se penitenciou durante trinta anos numa gruta inóspita existente na cerca, por ter cedido à tentação perante uma mulher que lhe havia sido enviada pelo maligno para o deter. A pé e água, lá terá sobrevivido até aos cem anos, tendo como companhia exclusivamente a paisagem magnífica da Várzea de Sintra e o frio cortante que constantemente bate o local, carregando as penas de quem por lá estiver. Mas era isso que procurava Frei Honório. A libertação do corpo em defesa de uma Alma pura e liberta das teias e tentações que a carne faz prevalecer.



 
 
É de deslumbramento total e permanente uma visita ao convento. Porque ali encontramos os arquétipos ancestrais que dão forma à nossa forma de ser e de pensar, ansiando na Terra pela descoberta do caminho em direcção ao céu. Filipe II de Espanha, o todo-poderoso rei que uniu Madrid e Lisboa num mesmo trono controlando um Mundo inteiro sob o seu ceptro, escreveu às suas filhas depois de visitar o convento dizendo que existiam duas maravilhas no seu reino: o Escorial, em Espanha, e o Convento dos Capuchos, em Sintra…
 
Pouco se pode dizer sobre esta preciosidade do património Português, até porque a singeleza que o caracteriza apela ao deslumbramento e à espiritualidade que é sempre superior às palavras e ao talento necessário para as transformar na montra que é necessário fazer. Mas é, certamente, um daqueles locais que vale a pena visitar nem que seja uma vez na vida, até porque quem lá entra, desde que o faça com a capacidade crítica de entendimento do espaço e de todos aqueles que por lá viveram, recuperará certamente uma vida nova em linha com a ideia de um paraíso terreal que todos gostaríamos de conhecer prevalecer.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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publicado às 13:28

O Muro de Berlim 25 Anos Depois

por cascalenses, em 03.11.14

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Parece impossível, inverosímil e inaceitável! Mesmo quem percorre as ruas do centro de Berlim, aceitando o horror do que ali se passou durante a II Grande Guerra e que ainda se sente, tem dificuldade em aceitar que há tão pouco tempo tenha sido possível à capital de uma das mais importantes nações da Europa viver dividida num regime de terror que contraria os mais elementares princípios do respeito pelo homem… e no entanto, apesar de tudo e de todos, das memórias bem vivas que se preservam nas vidas daqueles que ali sofreram estas atrocidades, e de toda a evolução que a Europa conheceu ao longo das últimas décadas, passaram-se apenas 25 anos desde o início da demolição do muro da vergonha. Foi ontem…
 
 
 
É quase impossível, para quem viaja carregando a sensibilidade humanista natural na nossa sociedade ocidental, visitar a capital da Alemanha sem se transtornar com as memória sentidas que transbordam a cada recanto daquela cidade tão especial.
 
À primeira vista, para quem gosta da história e de tocar os mesmos monumentos e espaços tocados por outros ao longo dos milénios, Berlim não é a cidade ideal para uma viagem de recreio. Mas isso é só à primeira vista. Apesar de ter sido quase completamente arrasada em 1945 durante os bombardeamentos que puseram fim à II Guerra Mundial e ao ciclo de terror imposto pelo III Reich nazi, parece que as pedras que reconstruíram a cidade carregam consigo as memórias terríveis que encheram de dor, sofrimento e consternação aquele espaço.
 
 
 
Em cada canto que se visita, lá estão ainda os ecos dos passos ignominiosos do Führer e as sombras cáusticas dos milhões de homens, mulheres e crianças que caminharam aterrorizados para uma morte atroz e inconcebível. Os monumentos, as casas e as ruas, todos novos e alguns deles com pouco mais de década e meia de existência, não foram capazes de se limpar destas emoções e elas envolvem-nos, num limbo de nojo e de amargura que é maior do que as palavras utilizadas nos muitos guias turísticos que por lá se vendem, e que tornam única uma visita atenta a este local emblemático da Europa onde hoje vivemos.
 
Construído a partir de 1961, como consequência do agravamento das relações muito tensas que resultaram da divisão da cidade pelos aliados ocidentais e soviéticos depois do final da guerra, o muro de Berlim era uma realidade física com mais de 156 kms de comprimento e cerca de 300 torres de vigilância que literalmente dividiram a cidade e os seus habitantes, separando famílias e reforçando a dor da qual a Alemanha não tinha conseguido recuperar depois das atrocidades da guerra.
 
De um lado, o sector ocidental, Berlim era essencialmente Americana. Orientações urbanísticas que promoviam a democracia, com edifícios de vidro e superfícies transparentes, amplos jardins verdejantes e centros-comerciais cheios de marcas internacionais, transformaram a cidade num dos mais cosmopolitas centros da Europa de então. Livres e seguros da sua vida, os Alemães ocidentais, constitucionalmente integrados na República Federal Alemã, viviam numa economia de consumo, no qual o liberalismo americano estava omnipresente, num ambiente de ostentação e consumismo que contrastava largamente com aquilo que se passava do outro lado.
 
No sector oriental, vigiados 24 horas por dia e controlados nos seus mais insignificantes movimentos, os Alemães apartados à força dos seus familiares ocidentais, sobreviviam à sombra de uma economia de fachada, envolvidos na pobreza de quem não é livre para escolher os passos que dá, e siderados pelas forças militares de um regime soviético que cumpria ordens estrangeiras originadas directamente no Kremlin.
O contraste era tão grande e a separação tão efectiva, que os Alemães de cada um dos lados desconhecia basicamente a forma como viviam os do outro lado, criando uma série de estórias e de lendas que, de lado a lado, foram envolvendo os outros numa aura de ficção extremada que os tornou em gente efectivamente diferente.
 
 
 
Mas há 25 anos, em Novembro de 1989, tudo mudou inesperadamente. Como consequência do enfraquecimento soviético e da consequente diminuição da opressão militar imposta pela guerra fria, os Alemães de leste ousaram insurgir-se contra o regime em que viviam. Esperava-se sangue e terror imenso, em linha com aquilo a que a idade já estava habituada, mas nada disso aconteceu. Naquela manhã do dia 9, saindo das suas casas a pé e de bicicleta, milhares de berlinenses saltaram o muro e abraçaram os seus familiares com os quais tinham perdido o contacto há já tantos anos. E não aconteceu nada a ninguém.
 
O muro caiu, de forma tão expressiva e emblemática e carregou consigo um mundo novo e diferente e uma Europa necessariamente mais forte a pujante. Tal como é inconcebível a sua construção, e o modo como o chamado ocidente aceitou a situação ignóbil que esse monumento criou, inconcebível é também a sua demolição, num movimento natural de reaproximação que embora marcado pelas feridas insanáveis que ainda hoje por lá vemos, se impôs ao Mundo como se de uma realidade natural se tratasse e como se aquele momento, acompanhado ao vivo e em directo por biliões de pessoas em todo o lado, mais não fosse do que um mero exercício experiencialista igual a tantos outros que se foram fazendo…
 
 
 
 
Vinte e cinco anos depois, é pungente passear em Berlim. Tendo desaparecido quase completamente, demolido e vendido em peças aos milhões de turistas que imediatamente invadiram os monumentos antigos que a URSS reconstruiu de fora exemplar depois da guerra, o muro é como se ainda lá estivesse. As pedras que colocaram para marcar o local onde se erguia, são um testemunho demasiado pesado por quem ali passa pela primeira vez e é impossível calcorrear aquela linha sem expressar a questão retórica que enche a boca de toda a gente: como foi possível?
 
Como foi possível aquilo que ali aconteceu? Como foi possível que o Mundo inteiro tenha sido complacente com uma realidade daquelas? Como possível que a Alemanha, ainda hoje a gemer lacrimosamente com as feridas que lhe foram impostas por duas grandes guerras, tenha sido capaz de se reconstruir, de fomentar equilíbrios novos e diferentes, e de promover um dia-a-dia no qual o bem-estar é parte integrante.
 
 
 
 
 
É certo que as memórias do Reich permanecem bem vivas naquela cidade. Apesar de as suas casas, edifícios e monumentos terem desaparecido quase completamente. Mas também é certo que para os Alemães que ali vivem, transformando memórias em negócios evidentemente florescentes, viveram eles próprios mais de 40 anos de terror ninguém compreende.
 
Berlim não apagou ainda as memórias das suas guerras, tal como ainda transpira com o suor do terror soviético. Mas fá-lo como se isto se tivesse passado há 5 séculos e não, como infelizmente sabemos, há apenas 25 anos. Ontem…
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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publicado às 12:40

O Milagre do Sal em Rio Maior

por cascalenses, em 29.08.14

 

 

por João Aníbal Henriques

 

Quando em 1177 Pêro e Aragão e sua mulher Sancha Soares vendem uma parte das Salinas de Rio Maior à Ordem do Templo, facto confirmado através de documento que é a mais antiga prova documental da existência daquele equipamento, estavam longe de imaginar que marcavam de forma efectiva a história daquele recanto extraordinário de Portugal.

 

Apesar desta referência, no Século XII as Salinas de Rio Maior já deveriam ser uma exploração antiga. De facto, quer pela sua estrutura funcional, quer pelas técnicas utilizadas para a captação da água e seu posterior tratamento, tudo indica que as mesmas já existiam pelo menos durante o período de ocupação Árabe da Península Ibérica (Século VIII – Século XII), sendo aceitável que até já existissem em épocas anteriores.

 

 

 

Produto de primeira importância para a vida, o sal que nasce naturalmente de uma mina de sal-gema existente no subsolo da Serra dos Candeeiros foi sempre parte essencial do esforço de sobrevivência da vida humana. Por este motivo, é crível que tenha sido ponto de interesse para o Ser Humano moderno desde que ele chegou à região.

 

Testemunho antigo de um mar pré-histórico que terá existido no local, razão que explica a alta concentração de potássio e a qualidade deste sal, existem vestígios de outras pequenas explorações mais antigas em torno do espaço actual que, mercê do fluxo permanente de água no poço que agora se usa, foram preteridos pela localização actual.

 

 

 

 

O incontornável Pinho Leal, no seu “Portugal Antigo e Moderno”, refere inclusivamente uma lenda que explica a localização actual das Marinhas do Sal. Segundo ele, uma pastora que por ali guiava o seu rebanho terá sentido sede e procurado água numa nascente situada imediatamente a Leste da povoação designada como Fonte da Bica. Ao provar a água, constatou que a mesma era muito salgada, tendo informado a sua família que imediatamente acorreu ao local. Experimentada a mesma e escavado um poço no ponto onde encontramos o actual, verificaram o fluxo daquele manancial e mudaram para ali a exploração.

 

Ainda no “Portugal Antigo e Moderno”, Pinho Leal refere que no final do Século XIX cada talho de sal valia em média 144$000 Reis, montante elevado para aquela época e que atesta bem a importância da jazida e do produto na Europa de então. É ainda ele que, reiterando informação antiga, explica que estas salinas são únicas na Península Ibérica e que eram tidas como as mais importantes dessa altura, sendo reconhecidas a nível internacional.

 

Classificadas como Imóvel de Interesse Público desde 1997 (Decreto n.º 67/97, DR, 1.ª série-B, n.º 301 de 31 Dezembro 1997), as Salinas de Rio Maior são hoje um dos pontos mais interessantes e incontornáveis no panorama turístico do Centro de Portugal.

 

Recentemente, depois de o sal ter perdido valor e de a economia ter abalado profundamente a estrutura de recolha e tratamento do sal, as salinas conheceram um período de algum desânimo e declínio que se traduziu na diminuição da sua produção e da degradação das suas estruturas de trabalho. No entanto, depois de constituída a Cooperativa dos Produtores de Sal, o sítio foi redinamizado, tendo sido recuperadas as antigas casas de madeiras onde se recolhia o sal e reconfigurada toda a envolvência num interessante espaço comercial.

 

 

 

No meio das ruelas ladeadas pelas cabanas de madeira de aspecto rústico, nasceram cafés, lojas de velharias, restaurantes e espaços onde se vende sal e artesanato local, num esforço de modernização e de adequação da oferta às exigências do Mundo actual digno de uma nota especial. Preservando as memórias locais e as técnicas e tradições antigas, as salinas tornaram-se um espaço etnográfico da maior importância e de grande interesse para todos os que visitam Portugal.

 

Por ali se encontram, para além dos sacos de sal embalados de forma atractiva e muito actual, os queijinhos de sal, inventados de forma genial por um dos comerciantes do local, réplicas das pás e demais instrumentos utilizados na extracção e as bonitas telhas muçulmanas que dão forma aos telhados da região. Interessante, para além das velhas estruturas de madeira suportadas por troncos de oliveiras que preservam a sua forma rústica original, é a manutenção do sistema complexo de fechaduras em madeira, inventadas e desenvolvidas para evitar a utilização de materiais feitos de metal que estão muito expostos à oxidação reforçada aqui pela presença permanente do sal.

 

Para além de tudo isto, que só por si seria motivo suficiente para uma visita ao local, os restaurantes ali instalados oferecem uma ampla carta de refeições tradicionais, confeccionadas com base em receitas antigas e com ingredientes de qualidade excepcional.

 

Em torno das salinas, num percurso que se estende por mais de 7 kms, existe uma ciclovia que permite ao visitante conhecer o espaço em redor, nomeadamente a flora e a fauna do Parque Natural da Serra d’Aire e dos Candeeiros, e que se complementa com uma série de percursos pedestres que garantem passeios verdadeiramente excepcionais.

 

 

O património histórico, composto por fontes e fontanários que traduzem uma espécie de homenagem à água que prodigamente nasce com grande qualidade em toda a região, cruzam-se com inúmeras igrejas, capelas e pequenas ermidas, permitindo compreender a linha que dá forma a um culto verdadeiramente ancestral. Importa ressalvar que, ao mesmo tempo que na Aldeia das Alcobertas, uma das capelas da principal igreja do local reutiliza uma antiga anta que foi integrada no espaço cultual, um pouco a Sul de Rio Maior encontramos a Asseiceira, com as suas pouco conhecidas aparições Marianas, a que se juntam, um pouco mais a Norte, o espaço incontornável da Cova da Iria, com o Santuário Mariano de Fátima que fecha uma espécie de ciclo de património imaterial.

 

 

Os milagres, que em Rio Maior são desde sempre parte constante do devir diário da população, traduzem-se aqui na sua expressão mais singela da branca aparição. No sopé da montanha, longe do mar e da costa onde seria coisa natural, o sal nasce da terra, oferecendo vida e saúde a quem estiver mal.

 

Para quem visita o espaço pela primeira vez, a visão dos montículos brancos espalhados por estas marinhas tão especiais, representa um exercício quase onírico de magia que reforça o carácter telúrico da região. Pena é (ou talvez não) que ainda sejam poucos aqueles que conhecem este recanto tão especial!

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publicado às 14:51

As Festas do Judas em Cascais (*)

por cascalenses, em 28.08.14

 

por João Aníbal Henriques

Há precisamente vinte anos iniciava-se um novo ciclo político em Cascais. Depois das Eleições Autárquicas de finais de 1993 (ver aqui), o novo Presidente da Câmara Municipal de Cascais, José Luís Judas, impunha um novo estilo na governação municipal, depois de ter vencido as eleições com uma maioria absoluta que levou o Partido Socialista a conquistar Cascais de forma completa.

No Verão desse ano de 1994, Cascais conheceu a primeira grande mudança na governação. As Festas do Mar, ancestral festejo organizado pelos pescadores locais e que tinha como ponto alto a Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, foram substituídas por um grande evento social que, enchendo Cascais com milhares de visitantes, alterou por completo a orientação original dos festejos.

A partir dessa altura, com engarrafamentos brutais que entupiam literalmente os acessos à Vila, com carros estacionados em cima dos passeios, gente e mais gente que em enormes multidões enchia por completo cada recanto de Cascais, tornou-se hábito vir à nossa terra assistir aos concertos gratuitos e, sobretudo, ao fogo-de-artifício que deslumbrava os visitantes. No meio da multidão que afluía à Baía ouviam-se as interjeições de gente completamente siderada pelo espectáculo que a Câmara Municipal lhes proporcionava, acompanhado, como se de uma grande produção de Hollywood se tratasse, pela banda sonora dos Vangelis.

E Cascais estava completamente rendido ao charme sindicalista do novo Presidente. Dos empresários locais, às grandes famílias tradicionais, passando pelos restaurantes, pelos construtores, pelos ambientalistas e por muitos anónimos que dão forma ao povo de Cascais, era quase unânime a aprovação de todos perante aquele que, sem a gravata de sempre e com a barba de cinco dias por fazer, voltava a colocar Cascais no mapa da animação de Portugal. E ai daqueles que ousassem criticar o novo Presidente! Com festas, feiras e barracas a encher permanentemente a Vila, eram poucos os que ousavam falar de assuntos como urbanismo, património, segurança, trânsito, saúde, turismo ou qualquer outra matéria importante para o equilíbrio estrutural do município Cascalenses!

Se havia escaramuças, então era o delírio! Lá vinham os jornais e as televisões entrevistar o senhor presidente que, cada vez mais popular, explicava que eram situações normais e que Cascais estava a recuperar a animação de outros tempos… Em fundo, sempre os Vangelis, numa apoteose de sucesso que enchia de fulgor a governação municipal.

Os efeitos desta onda de apoio não demoraram a fazer-se sentir. O novo presidente não respondia a cartas nem a faxes (ainda não existiam emails) de munícipes que ousassem questionar as suas prioridades e, num instante, as instituições nas quais existiam Cascalenses descontentes com a festança permanentemente instalada em Cascais, começaram a receber as notícias acerca das “faltas de verbas”, da “impossibilidade de dar continuidade aos apoios de sempre”, das “dificuldades com se debatia o orçamento municipal”, etc. etc.

Nos Paços do Concelho, multiplicavam-se os assessores, chefes-de-gabinete, directores municipais e outras figuras do género que, numa lógica de clientelismo partidário que tanta mossa  fez e faz ainda, respondiam aos Cascalenses. O Presidente só existia para aqueles que o elogiavam de forma incondicional e completamente dependente.

E o resto foi o que hoje, infelizmente, já se conhece muito bem: o descalabro geral de um Concelho onde o betão se multiplicou numa onda de destruição que pôs em causa a essência de Cascais; o património histórico e arqueológico num estado de incúria e de abandono que envergonhava quem gostava de Cascais; a saúde abandonada à sorte de um hospital esgotado há 30 anos e sem soluções à vista; a segurança a descambar para uma situação terrível onde a criminalidade grassava sem capacidade de resposta por parte das entidades competentes; o parque natural transformado num enorme depósito de entulho ao sabor dos projectos e das construções que por lá se iam fazendo; os bairros clandestinos legalizados à força e à custa do erário municipal como estratégia populista de manter o apoio eleitoral do PS; e muitas outras desgraças que os jornais da época traduzem de forma premente.

À sombra das festanças, dos cocktails, das inaugurações e das reportagens nas revistas da moda, a “mudança tranquila” ia encobrindo sob o manto da distracção e do engano a destruição paulatina da Identidade Cascalense.

Essa onda de destruição foi quase tão grande como o eram os bandos de visitantes que enchiam as ruas da Vila aos Sábados à noite, ao ponto de Cascais – o Cascais de sempre que conhecemos e do qual todos gostamos – quase ter desaparecido completamente, tendo sido quase impossível, mesmo depois de nove anos de uma presidência séria do Cascalense António Capucho, recuperar integralmente da destruição que a nossa terra conheceu.

Mas como epifenómeno que era, a popularidade de Judas acabou por se desvanecer. Durante o segundo mandato do então Presidente, depressa os Cascalenses perceberam que por detrás do cenário criado através de um clima de festa permanente havia um município que estava a destruir-se rapidamente.

Choveram as críticas e os ataques e muitos daqueles que tinham sido arrastados pelo apelo simpático do Presidente, acabaram por perceber que o fogo-de-artifício não era suficiente para encobrir os muitos desenganos que estavam a acontecer.

E virou-se o feitiço contra o feiticeiro, como sempre acontece. A verdade acaba sempre por impor-se e por chegar aos Cascalenses. 

Já temos 650 anos de História repleta deste tipo de acidentes…

 


(*) Qualquer semelhança entre o que se passou há vinte anos e o que acontece actualmente em Cascais não é mera coincidência…

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publicado às 17:16

Gestão Pública e Privada na História do Monte Estoril

por cascalenses, em 21.08.14

 

 
 
por João Aníbal Henriques
No Monte Estoril, foi criada de raiz a partir de 1880 uma estância habitacional e turística que funcionou como motor de um estereótipo urbano que, após ter sido importado das mais cosmopolitas cidades europeias, se adaptou perfeitamente ao devir social e histórico das localidades cascalenses.
A Companhia Mont’Estoril, que em 1890 tinha como principais accionistas o Conde de Moser, Carlos Pecquet Ferreira dos Anjos, a Sociedade Agrícola e Financeira de Portugal e o Banco Lisboa & Açores foi sempre, desde a sua fundação, o exemplo ideal de um projecto global de urbanização que se deparou com os problemas resultantes das muitas questiúnculas de pequena importância que impedem o excelente cumprimento do desiderato que inicialmente se propõe. De facto, quando foi criado, a Companhia Mont’Estoril pretendia unicamente transformar o Pinhal da Andreza, espaço vazio onde, segundo Branca Colaço e Maria Archer, se ouvia somente o sussurrar permanente do pinheiral, numa estância de renome internacional na qual a qualidade de vida urbana, assumidamente assente na vertente privada de todas as componentes urbanas do empreendimento, se assumia como principal objectivo.
 
 
Para o cumprir, os primeiros impulsionadores deste projecto, utilizando o prestígio social e profissional de cada um, recorreram a capitais privados para adquirir toda a área de implantação do actual Monte Estoril [excepção feita ao Monte Palmela]. Posteriormente, e dando mostras de uma larga criatividade que transcendia de forma absurdamente extraordinária tudo aquilo que se afigurava como procedimento normal em Cascais ou em Portugal, entenderam ser essencial que se procedesse a uma planificação prévia e minuciosa de tudo aquilo que se pretendia fazer. No âmbito desta actividade, foram projectados os arruamentos, a distribuição de água, as infra-estruturas primárias  como esgotos, iluminação, etc., as construções, e mesmo os pormenores decorativos de cada um dos equipamentos que haveriam de servir a nova localidade.
 
 
Como é evidente, sobretudo se pensarmos que no local onde a Companhia Mont’Estoril pretendeu erguer a sua novíssima estância, existia um espaço sem uso que envolvia uma das mais agradáveis zonas costeiras do Concelho de Cascais, fácil se torna perceber que a sua utilização como passagem pública seria óbvia, evidente e natural. De facto, povoações situadas a Norte do Monte Estoril, como a Amoreira, o Casal do Giraldo, Alcabideche ou Alcoitão, serviam-se de caminhos milenares que atravessavam o Pinhal da Andreza para aceder aos seus lares. Quando a nova companhia se instalou, dando início ao processo de urbanização, jamais se pensou em coarctar os direitos de atravessamento que ali existiam, nem tão pouco em privar as populações das redondezas daquilo que haviam sido as principais linhas que orientaram até aí a sua existência.
Apesar de tudo, e como consequência de um conjunto de querelas levantadas por parte de alguns dos inquilinos das propriedades da Companhia, no ano de 1900, o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Jayme Arthur da Costa Pinto, envia aos Directores da Companhia Mont’Estoril um ofício indicando que a pedido de um grupo de moradores da localidade, a edilidade iria proceder a uma vistoria coerciva à urbanização com o intuito de garantir que fica salvaguardado o livre trânsito e os direitos de propriedade dos requerentes.
Como resposta a esta missiva, e demonstrando que a legitimidade inerente ao carácter privado do empreendimento e ao conjunto de espaços de uso público que o integravam, se via reforçada com esta forma de gestão urbana, os administradores da Companhia Mont’Estoril, Arthur de Souza Tavares Perdigão e Carlos da Costa Osório, sublinham junto do Presidente que a edilidade não tem qualquer espécie de direitos nos terrenos pertencentes àquela entidade, tendo sido, por isso, ilegal, a vistoria que haviam anteriormente anunciado. Em termos que podemos considerar pouco próprios para lidar com uma instituição de sublinhada legitimidade como era a edilidade cascalense, os dois responsáveis indicam à câmara que, caso seja necessário, enviarão para a justiça este tipo de procedimentos: “Não reconhecendo direitos alguns à Câmara Municipal de Cascaes, ou a qualquer particular, contra a posse e propriedade da Companhia, e estranhando o procedimento havido, «por acto particular», sem processo judicial nem ordem de juiz, invadindo propriedade alheia, esta Companhia expoz sua situação legal e protestou contra o que se pretendia praticar. [...] Todos estes actos são até previstos e punidos no Código Penal”.
 
 
 
O ilustrado Presidente da Edilidade, remetendo para o uso milenar daqueles acessos por parte da população circunvizinha, responde aos proprietários que se não podem tolerar interferências de particulares na gestão corrente dos espaços públicos municipais: “Acusando a recepção do ofício de V.Exªs. de 11 do corrente, cumpre-me , em nome da Câmara da minha presidência, declarar que, as Ruas e Avenidas do Mont’Estoril, há anos abertas ao trânsito e ao serviço público, não estão, nem podem estar sujeitas aos caprichos ou interesses de qualquer particular, tanto mais, que, algumas daquelas vias públicas, são apenas variantes dos antigos caminhos para os lugares da Amoreira, Alcabideche e outros”.
 
 
 
A dualidade entre o público e o privado, contrapondo decisões consideradas essenciais pela administração da estância turística do Monte Estoril com necessidades de gestão corrente da edilidade, ficou cada vez mais evidente, à medida em que se foram esbatendo as características privativas e elitistas da Companhia que, com a proibição do jogo, viu altamente prejudicada a procura aos seus serviços e se viu constrangida a vender largas parcelas da sua enorme propriedade inicial. Na querela levantada por um grupo de moradores e/ou proprietários de lotes no Monte Estoril junto da Câmara Municipal, é visível a perda progressiva da força urbana da Companhia, bem como a diluição dos rígidos princípios doutrinários que haviam enformado a criação daquela nova localidade e que, como todos bem sabemos, haviam sido os principais responsáveis pelo elevado índice de qualidade até aí apresentado. No conjunto de correspondência trocada entre as duas instituições, o edil Jayme Arthur da Costa Pinto chega ao ponto de ostensivamente sugerir o recurso aos tribunais para a resolução do problema, colocando-se numa posição de vantagem perante o conjunto de pretensões dos outros litigantes: “A própria Companhia que V.Exªs. dirigem, compreenderá decerto, que esta Câmara não podia ficar indiferente perante a ameaça, em parte realizada, de se privar o público da livre passagem das ruas em que V.Exªs. mandaram colocar marcos; procedimento este, que alarmou os proprietários do Mont’Estoril, os quais, em representação legal, vieram à Câmara pedir providências urgentes afim de não serem esbulhados os seus direitos”.
Com as duas partes em litígio, ou melhor, com a penosa disputa que se estabeleceu entre uma entidade que pela primeira vez em Portugal procedeu à criação de uma urbanização ampla e previamente planeada, e o grupo de proprietários que, após terem adquirido lotes ou edificações no seu seio, acabaram por sentir que o conjunto de obrigações impostas pela entidade vendedora, e que se destinavam a garantir que os parâmetros de qualidade se atingiam e se mantinham eram demasiadamente onerosas, o Monte Estoril acabou por se tornar no primeiro exemplo daquilo que mais tarde se vai tornar o dia-a-dia do urbanismo no Concelho de Cascais: excelência, beleza e qualidade, na generalidade dos panfletos propagandísticos que promovem as novas urbanizações, mas um desesperante e abandonado caos urbanístico a caracterizar a dura realidade que posteriormente se implementa.
 
 
 
O princípio do fim da excepcionalidade do Monte Estoril, ao contrário do que pretendem fazer crer alguns investigadores, não se ficou a dever ao complicado processo de falência da Companhia. Pelo contrário!... O processo de insolvência da Companhia Mont’Estoril, bem visível, por exemplo, nos relatórios de contas relativos aos anos de 1908, 1909 e 1910, foi somente a primeira consequência daquilo que poderíamos considerar como a transição de uma gestão privada para uma gestão pública do espaço global do povoado.
Enquanto a Companhia Mont’Estoril controlou a totalidade dos elementos urbanos do povoado, desde os esgotos, à iluminação, passando pela distribuição de águas e pela limpeza dos arruamentos, a generalidade das despesas era assumida pela sua administração, que recolhia essas verbas do exercício das suas funções e das participações várias vezes solicitadas aos seus accionistas privados. No decorrer desse período, e pese embora o conjunto de pesados encargos que cabiam aos proprietários, a excelência era uma questão de honra no Monte Estoril, e a vida no povoado, em todos os pequenos pormenores que caracterizam o dia-a-dia, afigurava-se radiosamente fantástica.
Quando alguns proprietários, sentindo ser muito mais confortável e menos dispendioso, fazer transitar para a edilidade o conjunto de compromissos que haviam assumido junto da Companhia, e que eram as suas obrigações pessoais na manutenção dos parâmetros de qualidade que, inclusivamente, os havia impelido a adquirir as suas novéis propriedades, o processo de descalabro torna-se irreversível, e a qualidade urbana de outros tempos inicia uma fase de desmoronamento que se mantém até hoje.
 
 
 
Em 1911, quando o próprio Conselho de Administração, provavelmente bafejado com as interessantes e apelativas ideias de uma República recém-instituída, se resigna a esta passagem de testemunho, escreve-se então a primeira página do livro que leva à falência da Companhia, e que fará do Monte Estoril aquilo que ele é hoje: um monte em ruínas, envolto em betão, e sem qualquer espécie de resquícios de uma qualidade urbana que o caracterizou noutros tempos. O texto que o Conselho de Administração insere no relatório de actividades atrás mencionado é exemplificativo desta inversão de princípios orientadores (21): “Na ocasião de elaborarmos este relatório, uma comissão da qual fazem parte alguns dos mais distintos moradores do Mont’Estoril e que tomou sobre si a generosa iniciativa de promover melhoramentos locais para levantar o Mont’Estoril à altura a que a sua fama lhe dá direito, substituindo-se a esta administração para, entre outros trabalhos, conseguir a transferência das nossas ruas para a Câmara Municipal de Cascaes, transacção essa que se impõe pela necessidade de nos libertarmos dessa responsabilidade, dada a redução das nossas receitas e ainda pelo facto de o uso dessas ruas somente aproveitar ao Município. Além dessa circunstância existe ainda a de a transferência referida representar a vontade de todos os habitantes do Mont’Estoril que muitos são, pois entendem que esta Companhia já fez o mais que pode, de modo a reconhecerem a sua ausência de direitos para reclamarem contra o mau estado das ruas cuja reparação deve pertencer de facto ao Município que do Mont’Estoril cobra farta percentagem das receitas do Estado que incidem sobre a propriedade daquela estância”.
Mais à frente, deixando denotar alguma arbitrariedade na forma como altera a sua postura sobre os poderes públicos vigentes, e possivelmente deixando antever um cansaço que ficou a dever-se a mais de duas décadas de luta permanente com um conjunto de proprietários que permanentemente se inibe de investir nas suas propriedades como forma de contribuir para o bem comum da povoação, o mesmo Conselho de Administração apresenta uma espécie de rol de equipamentos urbanos que deveriam transitar para o poder público e que, pela sua actualidade e valor, são demonstrativos do estado de desenvolvimento que o Monte Estoril conheceu na sua faceta urbana, enquanto esteve dependente da iniciativa privada, em comparação com outras zonas do Concelho de Cascais que, dependendo sempre da gestão pública, ainda hoje não possuem este tipo de equipamentos que os monte-estorilenses do início do Século XX já há muito conheciam: “Entregaríamos, portanto, as ruas com as suas colunas e candeeiros de iluminação, bancos, arvoredo, e marcos, assim como o colector geral, que constitui actualmente o nosso único domínio de subsolo e transferiríamos para a Câmara, o contrato de iluminação das ruas que em tempos firmámos com as Companhias Reunidas Gaz e Electricidade. Entendemos que todo o nosso cuidado deve incidir sobre o legítimo respeito e observância dos contratos em tempos celebrados entre esta Companhia e Carlos Pecquet Ferreira dos Anjos, as Companhias Reunidas Gaz e Electricidade e Geral de Águas”.

 

O grau de aperfeiçoamento urbano do Monte Estoril era de tal maneira que, quando comparamos o projecto que enformou a concepção da localidade, ainda algum tempo antes do final do Século XIX, com aquilo que os partidos políticos da actualidade incluem nos seus programas eleitorais, ficamos deveras surpreendidos por encontrarmos como coisa concreta naquele lugar desde há mais de cento e vinte anos, coisas que noutras partes do Concelho de Cascais, continuam a ser miragens por concretizar em pleno Século XXI... A criação de uma rede de esgotos adaptada às necessidades da povoação; a preocupação permanente de gerir com qualidade o sistema de águas, por forma a garantir um fornecimento ininterrupto aos habitantes; a iluminação pública como sinónimo de conforto urbano e de segurança dos transeuntes; os bancos públicos; as árvores; e os marcos informativos e delimitadores de propriedade; são apenas alguns exemplos de equipamentos que existiam já no Monte Estoril em 1910 (serão provavelmente os mesmos que ainda hoje lá se encontram), e que, sendo assumidamente essenciais para a qualidade de vida diária das populações, teimam em continuar a não existir em vastas zonas habitacionais do Concelho de Cascais que sempre dependeram em exclusivo dos poderes públicos.

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publicado às 13:04

A Igreja de São Paulo em Lisboa

por cascalenses, em 06.08.14

 

 

por João Aníbal Henriques

 

Construída depois da destruição que resultou do grande terramoto de 1755, que provocou um posterior maremoto que literalmente varreu toda a zona ribeirinha da cidade, a Igreja de São Paulo situa-se na praça com o mesmo nome, junto ao Cais do Sodré e nas traseiras do Mercado da Ribeira.

 

O edifício actual veio ocupar o espaço de uma antiga ermida, de dimensões consideráveis que são visíveis nas antigas figuras que mostram a cidade de Lisboa, que existia no mesmo local e que foi destruída pelo sismo. De acordo com as fontes, a ermida mais antiga seria datável da época da formação da nacionalidade, sendo que o edifício que desapareceu no Século XVIII dataria de 1412, data que constava de uma lápide em latim colocada na fachada do templo original e que marcou a fundação da respectiva Paróquia de São Paulo, situada na antiga Travessa do Carvão.

 

Depois do cataclismo, toda aquela zona beneficiou da protecção directa do Marquês de Pombal, proprietário de muitos edifícios nas redondezas, que acelerou o processo reconstrutivo e facilitou a integração de vários elementos qualificadores naquela parte da cidade. A ligação ao estadista é ainda hoje visível na toponímia local, na qual o apelido ‘Carvalho’ surge amiúde.

 

Ainda em 1771, o então Primeiro-Ministro inaugura ali mesmo ao lado um importante mercado, a “Ribeira Nova”, ao mesmo tempo que por sua iniciativa são aproveitadas as águas termais de uma nascente situada a Sul da igreja e que foi posteriormente foram transformadas nos “Banhos de São Paulo”.

 

 

 

 

É ainda do tempo do Marquês de Pombal  o projecto de construção de um chafariz público que, apesar dos seus esforços, só foi inaugurado em 1849. Curioso é o facto de a bica virada para a fachada da igreja ter ficado reservada desde logo às gentes ligadas ao mar.

 

 

 

Em termos arquitectónicos, a nova igreja inspira-se no modelo utilizado no Convento de Mafra, sendo o projecto original da autoria do Arquitecto Remígio Francisco de Abreu, assistente de Eugénio dos Santos, decalcando os valores em voga na época e em linha com as directrizes que deram forma à reconstrução da Baixa Pombalina.

 

Na sua formulação espacial, a igreja actual inverte a orientação do templo destruído em 1755, abrindo a sua fachada principal para Nascente, na actual Praça de São Paulo, e dando corpo a um dos mais aconchegantes e bonitos recantos de Lisboa.

 

Com uma só nave, rodeada por oito pequenas capelas laterais, o templo caracteriza-se por uma bonita capela-mor decorada por pinturas da autoria de Joaquim Manuel da Rocha, que contrasta com o mármore que dá forma às colunas que suportam a estrutura principal. Digno de referência é ainda o baptistério situado junto à entrada, da autoria do pinto Pedro Alexandrino.

 

Apesar da sua beleza e do charme que envolve todo o local, um estado de abandono latente e de grande desleixo é hoje a principal característica deste espaço tão especial. Com uma situação geográfica extraordinária, a poucos metros do cada vez mais afamado Cais do Sodré, da renovada frente ribeirinha do Tejo e do empreendedor projecto da Praça da Ribeira, é uma pena que Lisboa não aproveite condignamente um local assim.

 

 

 

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publicado às 16:24

Estoril: 40 Coisas para Fazer na Costa do Sol

por cascalenses, em 31.07.14

Enquanto o poder político se esforça por destruir administrativamente a centenária marca turística ‘ESTORIL’, extinguindo a Região de Turismo do Estoril, a Junta de Turismo do Estoril e até as regras da concessão do jogo na nossa região, eis que o ESTORIL se impõe! Desta vez na Revista Time Out… não vão conseguir matar o Estoril!

 

 

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publicado às 17:44

Lisboa e o Tejo: Perspectivas de uma Intervenção Patrimonial

por cascalenses, em 17.07.14
por João Aníbal Henriques
 
Aproveitando o ensejo da cerimónia de entrega das medalhas de mérito municipal, a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou a renovada frente ribeirinha entre o Cais do Sodré e o Terreiro do Paço.
 
As obras, com orientação de um projecto assinado pelos arquitectos João Nunes e João Gomes da Silva, deram forma a um projecto ambicioso e de extraordinário alcance que muda de forma muito eficaz a relação sempre difícil de Lisboa com o Rio Tejo. Depois de concluído, o projecto recria uma zona de grande conforto urbano, suportado por uma linha de paisagem verdadeiramente extraordinária, que vem reforçar a face turística da cidade, recebendo desde logo largos milhares de turistas que ali sentem e percebem a excelência que configura este recanto único da capital.
 
 
Integrado no mesmo projecto, ficam também as obras de recuperação das Antigas Doca Seca e Doca da Caldeirinha que, retomando a sua ligação com o edifício do Arsenal, permitem perceber melhor como era a cidade durante o período áureo dos Descobrimentos Marítimos.
 
Por decisão da câmara procedeu-se também à  “semi-pedonalização” de todo o trajecto, com condicionantes acrescidas à circulação automóvel que, pecando pelo “semi”, deveria ter assumido de forma corajosa e definitiva o carácter exclusivo daquele espaço. Actualmente, e com imensas excepções para os veículos oficiais, que por ali circulam livremente condicionando o usufruto turístico a zona e comprometendo a qualidade cénica o espaço, a Ribeira das Naus está interdita ao trânsito automóvel durante o período das férias escolares e durante os fins-de-semana, sendo atravessado livremente nos restantes períodos.
 
Não se percebe (nem pode aceitar-se), aliás, que no próprio Terreiro do Paço – espaço de excepção e cara efectiva da Cidade de Lisboa – se mantenha um parque automóvel oficial que ali permanece estacionado! Havendo alternativas de estacionamento, motoristas que podem deixar as figuras importantes que por ali “trabalham”, porque motivo se compromete a face mas importante do turismo de Lisboa com uma fila de caros parados em frente ao Tejo?
 
 
 
 
Inexplicável é também, provavelmente por ter sido adiada para depois da inauguração, a inexistência de placas informativas ao longo do espaço que, explicando o que são as duas docas agora desenterradas e contextualizado a expressão de tempos antigos que mudaram a cidade e o Mundo, permitissem aos visitantes (Lisboetas e turistas) a compreensão efectiva da importância e o alcance da obra que ali foi concretizada. Actualmente, perguntando a quem passe uma explicação sobre o que estão a ver, os milhares de turistas que circulam pela Ribeira das Naus dificilmente encontram quem lhes explique o que estão a ver. E não é isso que queremos com o investimento brutal que ali foi feito!
 
 
 
 
Não ficando diminuída a importância desta obra e as consequências extraordinárias que tem no reforço da atractividade turística da capital, o certo é que parece ter havido pressa na pompa e no foguetório da inauguração.
 
E como o espectáculo já acabou, importa agora não perder tempo e tratar rapidamente de todos os pequenos pormenores que ficaram por fazer. Porque foram os Lisboetas – e os Portugueses em geral – quem pagou as obras em questão. 
 

 

 

 

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publicado às 15:36

Os Caminhos da Constituição

por cascalenses, em 17.07.14



por João Aníbal Henriques

Com a aproximação das negociações que levarão à apresentação de mais um Orçamento de Estado, multiplicam-se já na comunicação social e nas redes sociais as notas sobre um eventual futuro chumbo às mesmas por parte do Tribunal Constitucional.

Como se não vivêssemos num estado de direito, no qual as instituições estatais têm como missão fazer cumprir os valores e as regras constantes na Lei, grassam os ditos irresponsáveis que sacodem as águas mornas de um Verão no qual a guerra eleitoral acontece surpreendente no maior partido da oposição, contaminando com os laivos assanhados dos que lideram essa batalha a percepção e a discussão em torno daquilo que verdadeiramente importa aos Portugueses.

Todos conhecemos bem as origens inglórias da constituição que temos. Todos sabemos bem quão anacrónica e descontextualizada ela se afigura perante os desafios que se levantam a Portugal. Mas, ao invés de assistirmos a um debate político em torno da adaptação da Constituição aos novos tempos em que vivemos, governo e oposição mergulham de forma desenfreada numa luta de guerrilha que tem somente como objectivo salvar a face dos partidos que lhes conferem poder, sem nenhum respeito, honestidade ou verdade perante as muitas necessidades que se vivem cá dentro.

E se é absurda a guerra intestina que acontece no PS numa altura como esta em que Portugal corre o risco de soçobrar definitivamente, mais absurda ainda é a falta de coragem do PSD e do CDS para fazerem a revisão constitucional que é tão premente.

Ao apresentar, ano após ano, propostas que reiteradamente chumbam nas suas bases constitucionais, só podemos concluir que das duas uma: ou o governo não conhece a Constituição que temos, e por isso persiste nesta senda anedótica de ir fuçando e tentando fazer aquilo que é necessário para retirar Portugal da crise em que vivemos; ou conhece e, persistindo no erro, teima hipocritamente fazer passar medidas que já sabe de antemão que serão chumbadas e que servem somente para encapotar o aumento da carga fiscal que, também ano após ano, vai impondo aos Portugueses…

Em qualquer dos casos, sabendo que é necessário rever a Constituição mas não o fazendo, PSD, PS e CDS estão hipocritamente a jogar o jogo do poder, compactuando nesta senda vergonhosa que condena Portugal a um fim inglório e que nenhum de nós alguma vez pensou ver.

Será que esperam que daqui a algum tempo, a dita revisão se faça à força, sem democracia, sem representatividade e contra a vontade dos Portugueses?...

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publicado às 12:51

O Casal do Clérigo e a Memória Urbanística de Cascais

por cascalenses, em 19.06.14

 



por João Aníbal Henriques

Situado a Este de Manique, na freguesia de São Domingos de Rana, o Casal do Clérigo é actualmente uma das mais pequenas localidades do concelho de Cascais. Com uma população pouco numerosa e envelhecida, esta povoação distingue-se ainda hoje pela sua riqueza natural, quer em termos paisagísticos, quer em termos de solo, quer mesmo no que aos recursos naturais diz respeito. Mais uma vez, e tal como em muitas pequenas aldeias do interior Este deste território municipal, o Casal do Clérigo é rico em pedra Calcária, que utilizou, trabalhou e exportou em grande quantidade.

Se do ponto de vista estratégico esta povoação tem pouco a oferecer, não possuindo significativas infra-estruturas, escolas igrejas, campos desportivos ou outros equipamentos, do ponto de vista patrimonial, é de grande quantidade de monumentos, possui no seu seio belíssimos exemplares de imóveis  de grande interesse histórico e arquitectónico, nomeadamente no que diz respeito às formas rurais destacando-se a presença de dois casais rurais com primeiro andar, um saloio, e de uma captação pública de água, enquadrada dentro de um sistema de aqueduto destinado às regas e à prática agrícola.

O casal saloio é um dos mais antigos vestígios da arquitectura rural do concelho de Cascais. Muito embora seja quase impossível determinar com exactidão a data precisa da sua construção, a volumetria simples que apresenta, bem como o seu característico enquadramento espacial, e a própria forma interna, aparentam a consolidação de uma sobreposição de ocupações, de onde se destaca, pela presença do pátio retirado e pelo recolhimento da sua colocação, os elementos básicos da presença muçulmana.




 
De facto, se nos ativermos aos elementos arquitectónicos, este casal saloio apresenta características próprias dificilmente verificáveis noutros exemplares análogos deste concelho. A estrutura de suporte do telhado, que ainda possui as velhas telhas de burro, bem como a aparelhagem da parede, apresentam sinais evidentes de um alonga ocupação, ao longo da qual muitas terão sido as transformações aplicadas ao imóvel. muito embora o seu estado de ruína contribua para a sua descaracterização, bem como para o o desagrado com que é vista a manutenção da existência deste espaço, o certo é que o casal saloio do Casal do Clérigo foi já uma peça importante da estrutura habitacional cascalense que, para além de indiciar o modo de vida agrícola do seu proprietário, aponta ainda para o registo das influências norte-africanas, desde meados do século VIII, e para a continuidade e manutenção das inovações trazidas desse espaço. A alvenaria grosseira das paredes, que possuem mais de meio metro de espessura, e a pequena janela aberta possivelmente em períodos mais recentes, indiciam a presença de um exemplar muito antigo da arquitectura popular cascalense.

O exemplar de casal rural que apresentamos indicado com o número 480, é um excelente exemplo daquilo que foi o verdadeiro Casal do Clérigo de outrora. O edifício, com andar duplo e exploração agrícola é um dos exemplos dos velhos casais agrícolas que existem em grande quantidade por todo o concelho, demonstrando, de forma evidente, a forma como as influências muçulmanas, implicaram na criação, manutenção e desenvolvimento das estruturas de pensamento cristãs medievais.




 
Em termos arquitectónicos, este casal rural do Casal do Clérigo apresenta uma estrutura sólida e quadrada, com paredes de espessura uma estrutura sólida e quadrada, com paredes de espessura superior a cinquenta centímetros e cantarias de rígidas de calcário. A fachada, com uma porta no andar inferior e uma janela de quatro partes no superior, denota a necessidade de solidez na construção inicial, indiciando ainda a forma segura e pouco dispendiosa com que se queria realizar esta habitação. Embora de alguma forma desenquadrada das formas tipológicas mais usuais no concelho de Cascais, pela colocação de espanta-fantasmas nos beirais do velho telhado, este casal rural apresenta elementos apensos que, só por si, são merecedores de especial atenção por parte das entidades competentes. A existência de um poço, onde se insere uma nora de metal, marca a diferença deste espaço, onde a vocação rural rural, mais ainda do que a própria fisionomia sóbria da edificação, se desenvolve em torno do corpo principal da propriedade. O sistema de armazenamento de água a partir do poço, num pequeno depósito colocado junto ao primeiro andar, indicia por seu turno a realização de obras de adaptação em período recente, sendo que, o actual estado de abandono, só pode ser resultado das normais contingências da vida, em que o ciclo do nascimento, desenvolvimento e morte, inadiável em todos os seres humanos, trás implicações difíceis de gerir no que à manutenção do património diz respeito.

O facto de se encontrar à venda, bem como a necessidade que existe de promover as raízes culturais das gentes que vivem nas imediações, parecem apontar este casal rural como uma das peças fundamentais para o desenvolvimento concertado do concelho, assumindo, pelas suas características e pelos elementos que lhe foram apensos, uma vocação pedagógica que dificilmente será substituível pelo mais capaz dos professores.





Fazendo conjunto com o exemplar anteriormente referido, encontramos no Casal do Clérigo outra edificação de grande valor patrimonial. Situado a poente da estrada que liga esta aldeia a Trajouce, o casal rural com primeiro andar, classificado com o número 497, está actualmente em utilização comercial como fábrica de mármore, atestando, como se referiu no início, a importância que a indústria extractiva da pedra assumiu no seio da economia das populações do interior do concelho de Cascais.

O exemplar em questão, possuidor de grandes analogias com o anteriormente citado, possui uma frontaria de dimensões idênticas às do anterior, existindo ainda a mesma disposição de porta e janela. Esta, muito embora possua as mesmas dimensões daquelas apresentadas pelo exemplar já referido, está dividida em três partes, indicando o factor de ser possivelmente mais recente do que a outra. Muito embora não possua as estruturas de espanta-fantasmas referidas anteriormente, este exemplar apresenta curiosos sinais da prévia existência de um telhado a meia altura, possivelmente um telheiro de apoio ao telhado principal de quatro águas que já não existe. A utilização como depósito e oficina de talhe de mármore, bem como a sua situação no seio de um bloco de construções de pouca qualidade arquitectónica e urbanística, cria aparentemente algumas dificuldades à utilização deste espaço. No entanto, e porque de recuperações pretende este trabalho falar, salientamos o facto de ser extremamente vantajoso para o concelho, do ponto de vista urbanístico e cultural, a requalificação destes espaços. Para tal, e porque a manutenção do funcionamento da oficina não pode, obviamente, ser posta em causa, necessário seria investir na reconversão total daquele espaço, de modo a integrar a faceta histórica e patrimonial, numa visão mais ampla de progresso, onde a memória do futuro, elemento chave da identidade Nacional, se possa desenvolver de forma harmoniosa, contribuindo para o desenvolvimento da qualidade de vida dos habitantes do Casal do Clérigo e de todos os habitantes e munícipes de Cascais.





O quarto elemento essencial para a compreensão daquilo que patrimonialmente é o Casal do Clérigo, é a captação pública de água. Este exemplar, integrado num espaço amplo de características agrícolas, apresenta uma estrutura simples datada de 1915, indiciando a manutenção da importância atribuída à prática agrícola até épocas muito recentes. Muito embora o seu estado de conservação não seja caótica, apresentando ainda quase intactos todos os componentes de origem, esta mãe-de-água do Casal do Clérigo necessita de uma intervenção de requalificação urgente. Os acessos, o estudo e a classificação deste espaço, segundo parâmetros de qualidade e de aproveitamento lúdico-cultural, transformaria, assim um espaço desaproveitado num centro de desenvolvimento urbano, tendo em conta, como é evidente, os interesses de Cascais e dos seus habitantes.

A estrutura de aqueduto que envolve este espaço, bem como os diversos tanques de armazenagem e distribuição da água, fazem deste lugar um espaço único de desenvolvimento pedagógico, servindo de exemplo para ensinar à população escolar das redondezas, a forma eficaz e simples como se desenrolava a vida nesta povoação.

A consolidação do espaço histórico do Casal do Clérigo, e a posterior integração dos dois casais rurais, do saloio e desta captação de água, poderiam servir de incentivo á requalificação global do interior do concelho, tendo em conta a forma caótica como se desenvolveram os bairros clandestinos nas redondezas, e o espaço verde e equipamento cultural de que vão necessitar as futuras gerações de cascalenses nascidos nesses espaços sem qualidade urbana.

A reconsolidação da memória, bem com o despertar da identidade são, foram e serão aspectos essenciais na manutenção ideológica do concelho de Cascais. O Casal do Clérigo, bem como a quase totalidade dos antigos núcleos urbanos deste município, decerto tomará parte na construção do novo concelho de Cascais.

 

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publicado às 11:07

Fertilidade Romana no Espigão das Ruivas

por cascalenses, em 18.06.14
por João Aníbal Henriques

Situado no extremo ocidental do concelho de Cascais, onde desde a Idade do ferro se praticam os desconhecidos para reconhecidos cultos da fertilidade, encontramos o sitio arqueológico do Espigão das Ruivas, num lugar que a tradição designa como Porto de Touro ou Guincho Velho.

A envolvência deste lugar, bastante isolado do resto do território e, por isso, propício ao desenvolvimento de práticas ritualizadas, aliado ao facto de existir nas suas imediações um importante curso de água denominado Rio de Touro, possuía excelentes condições para o desabrochar de relações íntimas com a divindade, facto comprovado pela existência de um templo neste sítio, e que foi repetidamente reutilizado durante várias épocas, desde a pré-história até à actualidade.

De acordo com os dados arqueológicos fornecidos pelas escavações ali efectuadas pela Associação Cultural de Cascais, dirigidas pelo arqueólogo Guilherme Cardoso, o Espigão das Ruivas terá sido um dos principais pontos estratégicos onde se efectuou o culto da fertilidade, ainda hoje bastante vicejante junto das comunidades humanas que habitam ou utilizam as redondezas.

 


 
O afastamento do sítio face aos principais aglomerados humanos, bem como a proximidade patente face ao Rio de Touro, carregado com a simbologia da força e da virilidade, transformou este local de culto num sítio onde as práticas efectuadas não eram muito compatíveis com a mentalidade oficial das diversas épocas, factor condicionante da transformação de uma prática comum a quase todas as civilizações, ou seja, a adoração dos astros com o intuito de incrementara a fertilidade da mulher, uma zona profundamente vincada por um misticismo crescente, o que contribuiu para a manutenção, difusão e desenvolvimento dessas actividades. A natural curiosidade humana face ao desconhecido, bem como as especulações que também sob uma forma natural se vão desenvolvendo transformou o Espigão das Ruivas num sítio onde os meros rituais de passagem característicos de quase todas as sociedades ditas primitivas, depressa se transformaram em ritos mágico-religiosos carregados de um misticismo que se explica de forma natural pelas contingências geográficas  e magnéticas  que o local possuía, mas também pelo encantamento e pelo sentido apelativo que estava inerente às próprias acções ali desempenhadas.

 
 
De facto, quer a denominação de lugar, onde as ruivas representam, segundo a tradição popular, as antigas ninfas que ali aguardavam o sopro divino que lhes permitia o desenvolvimento da carga sexual com que encantavam os homens, quer mesmo o nome que ainda hoje é atribuído ao curso de água ali existente, em que a relação com o Deus Romano da fertilidade e com o símbolo grego e cartaginês da força e da pujança está extraordinariamente bem patente, demonstram bastante bem a forma como a prática reiterada de um exercício que se afasta da vivência quotidiana pode influenciar as mentalidades, a etnografia e mesmo a vida política de uma comunidade. Essa influência, por seu turno, acaba por influir, sempre de forma positiva, no próprio património edificado, tal como se constata pela listagem patrimonial que apresentamos em anexo.

A chegada dos romanos à Península Ibérica, bem como o esforço por eles desenvolvido no sentido de promover a efectivação de um processo de aculturação do qual dependia a real ocupação deste lugar, acabaram por influir decisivamente no desenvolvimento da nova mentalidade peninsular. De facto, por serem conhecedores de novas técnicas de utilização e de rentabilização do solo, herdadas na sua quase totalidade daquelas que o antigo império grego havia repescado das civilizações antigas do médio oriente, os romanos que se instalaram em Cascais acabaram por transformar, de uma forma bastante radical, o modo de vida das populações indígenas, uma vez que estas últimas, na sua quase totalidade, eram compostas profissionalmente de agricultores e pescadores, razão pela qual se tornou bastante fácil o referido processo de aculturação.

Como se sabe, ambas estas actividades se encontravam bastante dependentes dos elementos naturais para o seu sucesso ou insucesso, sendo que, aqui como noutros locais, os habitantes que a elas se dedicam tendem a respeitar de sobremaneira as expressões do ambiente e do meio envolvente, atribuindo-lhes significação simbólica e religiosa. Não será por acaso, quanto mais não seja porque o acaso não existe, que os grupos humanos formados essencialmente por pescadores e lavradores, tal como acontecia em Cascais no período imediatamente anterior à chegada dos Romanos, são mais propícios ao desenvolvimento de rituais místicos e mágicos.

 
 
Não será estranho a nenhum Cascalense, segundo esta ordem de ideias, o encontrar de diversas capelas e ermidas dedicadas a figuras simbólicas do cristianismo católico, edificadas sobre vestígios mais ou menos palpáveis de templos ou espaços sagrados anteriores, nomeadamente atribuídos a cultos pagãos ou indígenas pré-históricos. A continuidade ritual de Cascais será assim, como não poderia deixar de ser, o fruto de uma série de influências recebidas dos mais variados pontos do globo, desde as antigas migrações norte-africanas, até às recentes comunidades afro-brasileiras que aqui desenvolvem as suas acções. A dependência da terra e do mar, mesmo na actualidade, favorece as ligações entre o Homem e Deus, uma vez que o processo de funcionamento da natureza, à partida com características absolutamente aleatórias, se torna incompreensível para o comum cidadão, que é obrigado a procurar noutros sítios as explicações para os bons e maus anos de colheitas e para as boas ou más pescarias.

 
 
 
Assim, as contribuições dadas pelos invasores itálicos para o conhecimento daquelas que eram as melhores formas de controlar a natureza depressa lhes granjeou um respeito e uma fidelidade que veio a permitir a sua vasta interferência nos rituais mágicos e religiosos praticados neste espaço. Só que, nesta como noutras áreas directamente relacionadas com a presença romana no actual território Cascalense, também os invasores superaram o bloqueio ideológico promovido anteriormente. Os recém-chegados ocupantes, como povo desenvolvido à custa de intrincados processos de aculturação promovidos em todo o território imperial, incentivados pela riqueza crescente que a aculturação e a necessidade de homogeneidade promovia, depressa perceberam que a manutenção física do território conquistado, para ser duradoura e para produzir os tão almejados frutos económicos pretendidos, passava mais depressa pelo encetamento de relações amigáveis com os indígenas, do que pela manutenção de uma posição de força militar que, como já outros casos o haviam demonstrado, possui um tempo de vigência muito curto, para além de se tornar bastante dispendioso.

A única solução compatível, no caso peninsular, onde as populações autóctones possuíam um grau de desenvolvimento difícil de definir, uma vez que as suas estruturas de hierarquização social, bem como as principais características de vivência em grupo, se encontravam providas de bases bastante sólidas, o que, para alguns investigadores poderá ser sinónimo de um grau bastante grande de desenvolvimento, foi a de promover o contacto amigável entre os dois grupos, de onde resultou a miscelânea cultural encontrada em Cascais pelo Prof. José da Encarnação. Para outros investigadores, a consequente procura crescente de ritos e rituais paranormais, bem como a existência de uma complicada base ideológica e religiosa, traduz-se na prática pela pouca aptidão comunal pelas matérias relacionadas com o conhecimento científico.

 
 
 
Só que, em nosso entender, esses investigadores esquecem as características que normalmente revestem essa proclamada cientificidade, de onde se destacam, pela observação do devir histórico das ciências, o carácter precário e provisório de todas as descobertas efectuadas em quase todas as áreas do saber. Por esse motivo, e porque o saber mágico-ritual das populações indígenas Cascalenses, no momento imediatamente anterior à chegada dos romanos, era de facto bastante complexo, para além de espelhar grandemente a necessidade de compreensão da natureza e dos seus fenómenos, será lícito pensar que o desenvolvimento comunitário inerente a este facto deverá ser tido em conta, sendo essa, afinal, a única chancela que veio a condicionar o esforço romano de proclamar e desenvolver uma política de respeito face às crenças e à cultura peninsular. É por este motivo, mais do que por qualquer outro, que a miscenização entre romanos e indígenas vai marcar definitivamente a vivência daquele que é actualmente o território concelhio de Cascais, facto que teve o seu seguimento lógico, em momentos seguintes, pela continuidade de utilização desta política de mistura que esteve patente não só durante o período visigótico, com também durante o Árabe e mesmo durante os anos de ouro dos Descobrimentos.

A comprovar esta hipótese e na sequência do trabalho epigráfico do Prof. José da Encarnação, já mencionado anteriormente, está a existência de diversas lápides romanas encontradas em Cascais onde é possível vislumbrar a mistura em questão. Na sua obra «Roteiro Epigráfico Romano de Cascais», embora com algumas naturais reticências, o autor segue precisamente esse cainho: «por conseguinte, parece ter confluído na identificação deste divindade influências orientais. Não será de rejeitar a hipótese de uma relacionação - através do radical ar - com a água corrente, na sequência do raciocínio, apresentado em 1975, a reflectir a importância da Ribeira de Manique para os agricultores de antanho. Ma essa divindade tem um cunho étnico, digamos assim, atendendo ao primeiro sobrenome: protegerá de modo especial os Aranti; já o segundo encomiástico, terá uma função diferente, a de infundir confiança - porque Áraco vencerá todos os obstáculos... [...] É a dedicante uma indígena romanizada: usa o gentilício decerto mais frequente no termo de Olísipo - Iulius - e, por isso, não hesita em o mencionar simplesmente em sigla.»

 
 
É óbvio, quando se menciona a vivência psíquica e sagrada de uma comunidade que viveu tão afastada do presente, que o carácter dos conhecimentos que agora se adquirem e se difundem podem ser simplesmente pistas que servirão de bases a novas hipóteses, razão pela qual, e fundamentando a já referida precariedade do conhecimento científico actual, o ilustre autor acaba por concluir mais à frente: «Uma interpretação sedutora, confesso; assaz desprovida de fundamentos válidos, não o nego; mas é nesse campo ainda movediço que, infelizmente, ainda nos movimentamos quando tentamos desvendar o mundo ainda tão hermético da teonímia indígena peninsular».

 

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publicado às 16:13

Portugal: Uma Pátria sem Povo

por cascalenses, em 11.06.14

 

por João Aníbal Henriques

Num 10 de Junho marcado pelo desmaio do Presidente da República, Cavaco Silva, em se pretendia comemorar o Dia de Portugal e dos Portugueses, assistimos tristemente ao estado de vazio exemplar a que deixaram chegar Portugal.

A cerimónia comemorativa, preparada ao pormenor, foi pensada para a praça principal da cidade da Guarda na qual, em frente à extraordinária fachada da Sé, se conjugavam todas as condições cenográficas para tão importante ocasião.

Mas, estranhamente, destas cerimónias ficou arredado o público – leiam-se os Portugueses – que foram impedidos de aceder àquele espaço. Esta decisão, que nenhuma entidade oficial se dignou explicar, ficou naturalmente a dever-se ao medo da contestação popular. Afinal, no Dia de Portugal e dos Portugueses não é suposto ouvir-se a voz dos próprios…

E, com o desmaio de Cavaco a encher televisões e capas de jornais, fica reduzido ao sorriso cínico do sindicalista perverso perante a adversidade do Chefe de Estado, o estado a que conduziram Portugal.

Sem povo e sem Portugueses, este dia foi somente mais uma oportunidade para o confronto desonroso dos partidos e dos poderes que controlam Portugal, digladiando-se numa luta que coloca os seus interesses à frente dos interesses do País e gerando uma onda de insignificância que se traduz na abstenção eleitoral que todos bem conhecemos e num ódio crescente que ontem todos verificámos.

Dirão que é este o Portugal que temos. Não é verdade.

Este Portugal que encheu a comunicação social, do qual ficaram arredados os Portugueses, é um Portugal artificial, desinteressante, promíscuo, insignificante e reles. É o Portugal do rotativismo eleitoral em que vivemos e que eles teimam em continuar a chamar democracia. Um regime que não respeita os Portugueses, os seus sentimentos e as suas necessidades. Um regime fechado sobre si próprio e a sugar dia após dia, os últimos laivos de uma grandiosidade que a Pátria ainda tem mas que eles estão quase a conseguir matar.

O que ficou deste 10 de Junho?

Nada. Infelizmente para Portugal. 

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publicado às 12:58

A Igreja Paroquial de Santo António do Estoril

por cascalenses, em 11.06.14
 

 

 
por João Aníbal Henriques
Inserida num ambiente cosmopolita, onde a lógica turística impera, a Igreja de Santo António do Estoril, apresenta uma história repleta de vicissitudes que a tornam num local de excepcional interesse para o eventual visitante.
As primeiras menções a este lugar, reportam a 1527, quando se noticia a existência de uma pequena ermida de madeira dedicada a São Roque com um altar a Santo António colocado junto à entrada, construído por Leonor Fernandes, moradora no Casal do Estoril.
Segundo Ferreira de Andrade, o terreno onde se erguia esta ermida, pertencia no século XVI a Luís da Maia, que o terá doado à Ordem de São Francisco. Com pedras retiradas do antigo Convento de Enxobregas, os frades recém-instalados iniciaram de imediato a construção de um novo templo, ao qual foi anexado um pequeno eremitério e uma oficina artística.
Em termos físicos, a igreja era composta por uma única nave, com três altares: no altar-mor estava uma imagem de Nossa Senhora da Boa Nova; nos dois restantes encontravam-se imagens de São Domingos e de São Francisco. Segundo a 'Crónica Seráfica da Santa Província dos Algarves', na qual se descrevem os edifícios da ordem de São Francisco, existiria ainda uma imagem de Santo António ao lado da epístola, no altar-mor. Uma imagem do santo taumaturgo existiria ainda, com cerca de três pés de altura, onde hoje se ergue o cruzeiro, junto ao adro da actual igreja. Os azulejos primitivos, datados de 1719 e 1751, denotam uma elevada qualidade de produção artística.
Quase completamente destruída pelo terramoto de 1755, a Igreja conheceu no século XVIII grandes transformações. Iniciadas em 1756, por iniciativa do guardião do templo, Frei Basílio de São Boaventura, as obras de recuperação foram feitas a um ritmo extraordinariamente rápido, havendo notícia de em 1758, pouco mais de dois anos após o seu início, se terem já concluído os trabalhos de reconstrução do altar, com a sua actual talha dourada. O mesmo frade, zeloso cumpridor dos seus deveres, alargou ainda o coro para o adro, em cerca de doze palmos dotando-o de três janelas rasgadas na fachada integralmente efectuada em pedraria, tal como hoje ainda encontramos, e encimada por uma imagem de Santo António colocada num pequeno nicho.
Em 1834, quando foram extintas as ordens religiosas, o convento foi vendido em hasta pública a Manuel Joaquim Jorge, que nos terrenos anexos edificou um prédio de rendimento que alugava durante a época estival aos utilizadores das águas termais do Estoril. Em 10 de Maio de 1916 a igreja foi entregue à Irmandade.
A história desta igreja, no entanto, não termina aqui, uma vez que no ano de 1927 um incêndio destruiu o remodelado templo seiscentista. A luta travada pelos bombeiros das várias corporações presentes contra o fogo, permitiu a recuperação de grande parte do mobiliário, o crucifixo do altar, castiçais de prata e vários objectos de culto.
O projecto de Tertuliano Marques permitiu salvar alguns dos antigos azulejos e manter a traça original do edifício, tendo-lhe sido acrescentados os frescos do tecto actual, da autoria de Carlos Bonvalot, bem como o conjunto azulejar, concretizado pelo Mestre Victória Pereira.

 

Em 1929, na cerimónia de início do funcionamento da nova Paróquia do Estoril, já sob a orientação de Monsenhor Moita, encontramos o templo com o seu aspecto actual, espécie de bastião da memória de um Estoril de outros tempos.

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publicado às 12:54

A Europa das Maiorias e o Portugal da Franjas

por cascalenses, em 11.06.14



por João Aníbal Henriques


Conforme já todos esperavam, o exercício eleitoral que ontem decorreu em Portugal ficou envolvido por um conjunto alteroso de pretensiosas ironias. Para uns, uma diminuição dramática de votantes e a redução do número de eleitos, foi uma vitória incontornável que se associa à derrota do governo. Para outros, a derrota inquestionável que sofreram quase parece ma semi-vitória dado o desplante inqualificável dos restantes concorrentes, o contexto em que as eleições decorreram e mais uma extensa verborreia que enche horas de emissão televisiva e muitas páginas de jornais.

Na prática, fica para a História a impressionante taxa de abstencionistas de 66,09 %, ou seja, de um conjunto de eleitores que fazendo uso do seu direito constitucional, decidiram nem sequer ir votar.

Mas o grande problema, mais do que os resultados destas eleições que pouco ou nada influem na vida de Portugal e dos Portugueses, são as consequências políticas que estes resultados trarão para o nosso País. Porque se PSD e PS deixam transparecer que se acentua o fosso de incomunicabilidade que parece caracterizar as suas relações, levando à costas um CDS ávido daquela golfada de ar que lhe permite ir sobrevivendo,  o certo é que a soma de votos de cada um destes três partidos resulta numa percentagem inglória relativamente ao universo eleitoral.

E nas próximas legislativas, se se mantiver esta linha desinteressante de participação, e parece que assim será se tivermos a sorte de Portugal não se debater com um qualquer cataclismo, assistiremos a uma natural e automática reaproximação entre estes três partidos, no âmbito de uma espécie de renovado bloco central, que será o único cenário que permitirá viabilizar um governo minimamente consistente.

Ou seja, num cenário eleitoral incipiente como este, teremos um novo governo com o PSD, o PS e eventualmente o CDS que, reunindo as forças suficiente para tomar as rédeas do País, vai pura e simplesmente matar a oposição.

Em cenários deste tipo, e a Europa eleitoral de ontem provou isso mesmo, ganham palco os extremismos, os fenómenos de franja e o inusitado dos discursos que tudo podem dizer por saberem que estão indefectivelmente afastados de qualquer possibilidade de chegar ao poder. Fenómenos deste tipo são populares e rapidamente podem transformar-se em movimentos de massas que acabam por modificar a História e os destinos das gentes.

Alguém se lembra do que aconteceu na Alemanha na década de 30 do Século XX?

Resultados das Eleições Europeias de 2014 tendo em conta o número real de votantes:

PS = 10,8%; 
PSD/CDS = 9,7%; 
PCP = 4%; 
MPT = 2,4%; 
Bloco de Esquerda = 1,5%

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publicado às 12:53

Etnografia Simbólica de Cascais

por cascalenses, em 11.06.14



por João Aníbal Henriques

Ao longo da sua extensa História, foram inúmeros os factores directamente condicionantes do desenvolvimento político, económico, social e religioso de Cascais. As suas numerosas linhas de água, serpenteando entre inúmeros montes e elevações de ténue e acentuada inclinação, entrecortadas de maciços calcários repletos de grutas e reentrâncias, propiciaram e condicionaram o aparecimento de estruturas simbólicas que, por seu turno, contribuíram para o aparecimento de estruturas simbólicas que, por seu turno, contribuíram para o desenvolvimento de formas individualizáveis de comportamento.


Esta forma de estar na vida, que é tipicamente cascalense, é diferenciável daquela que se fez sentir em crise em Sintra, onde o clima, o ambiente, os recursos hidrícos e os acidentes geográficos, são substancialmente diferentes dos que existem em Cascais. É de todos conhecida, com toda a certeza, a diferença que existe, no seio da Serra de Sintra, entre a vertente soalheira cascalense, e a encosta sombria e húmida de sintra, factor que, quanto mais não seja, influencia a forma de construção das edificaçõesque naqueles sítios são levantadas. Por outro lado, no que ao concelho de Oeiras diz respeito, as principais diferenças que o afastam do de Cascais, dizem respeito à composição do solo.

No concelho vizinho, tal como também na zona mais oriental do município cascalense, a riqueza do solo propiciou o desenvolvimento de uma vivência rural significativa, traduzível, como poderão constatar pela listagem patrimonial que apresentamos em anexo, na faceta saloia que caracteriza quase todas as construções edificadas nesse espaço até meados deste século. No entanto, e para além das influências que se processam a nível prático, e de onde se salientam as já referidas referências às construções particulares, existem muitas outras formas  de condicionamento à vivência das populações.

A prova disto, como não poderia deixar de ser, está patente nos diversos vestígios etnográficos que ainda subsistem no seio das comunidades que habitam nestes três concelhos. Hábitos antigos, passados de geração em geração e que, de forma mais ou menos exacerbada, acabam por influir no modo de vida da população, seja em termos práticos nas actividades profissionais do quotidiano, quer mesmo em termos simbólicos, nas vivências religiosas e místicas da população. Não será por mero acaso, por exemplo, que a figura de Nossa Senhora dos Navegantes é muito venerada em Cascais, facto que só se compreende pela proximidade das excelentes águas da baía, bem como da arte da pesca que hoje ainda, infelizmente de uma forma muito efémera, continua a funcionar como atractivo turístico para o centro da vila. 

Da mesma forma, as diversas lendas que existem em torno de locais onde foram edificadas capelas e ermidas, muitas vezes praticamente inacessíveis ao comum cidadão, e bastante importantes em épocas de romarias e procissões, só podem ser explicadas se tivemos em conta a organização interna do simbólico das populações e que, como verificámos ao longo dos muitos meses em que durou este trabalho, se pode relacionar directamente com as próprias características físicas do território municipal.

De facto, se nos ativermos aos números concretos daquilo que é hoje a realidade patrimonial do concelho de Cascais ou, pelo menos, àquilo que normalmente é considerado como objecto de valor patrimonial, depressa perceberemos que cerca de noventa por cento desses artefactos se inserem em tabelas tipológicas relacionadas com o simbólico. 





As conhecidas sandálias de calcário encontradas nas grutas artificiais de Alapraia, os artefactos votivos desenterrados do Espigão das Ruivas, as muitas capelas e ermidas, até à maior parte das habitações burguesas de finais do século XIX construídas no Monte Estoril e em quase toda a faixa costeira, são apenas alguns exemplos de facetas patrimoniais relacionadas com esta questão, salientando-se aqui, como resultado da observação directa dos objectos ou edificações em questão, o facto de que o passar dos tempos, com a consequente mudança das mentalidades, não foi factor suficientemente condicionante para influenciar grandemente nem tão pouco transformado de forma significativa a forma de pensar dos cascalenses.

De facto, desde a época pré-histórica até à actualidade, muito embora se tenham modificado os cultos, é possível vislumbrar um factor que serviu de fim condutor e que sempre condicionou a vivência simbólica destas comunidades, não só em termos de ocupação de espaços sagrados, como consequência deste facto, encontrar vestígios nos rituais habituais de modos de agir que possuem as suas raízes envoltas nos mantos cerrados das brumas do tempo. A explicação para este facto, sempre dependente da perspectiva com que se encara o fenómeno e que, de alguma forma pode ser condicionada pela interpretação pessoal da realidade, encontrar-se-á provavelmente no próprio carácter físico da humanidade. 

Desde tempos remotos, quando mesmo os aspectos mais básicos da tecnologia se encontravam fora do alcance da mente humana, que o Homem tem necessidade de explicar as causas dos acontecimentos que ocorrem quotidianamente. No entanto, e como a maior parte deles o transcendem ou ultrapassam a sua capacidade de explicação, a consequência antropológica é a procura no Além do elemento-chave para o deslinde do mistério, factor observável em Cascais como em todos os pontos do globo onde a influência física do Homem se fez sentir. 

Neste espaço, incentivado pelas características do território, onde o estado do mar condicionava a actividade piscatória, e onde os bons e maus anos agrícolas acabavam por influenciar a produtividade da terra, essas características são naturalmente incentivadas, uma vez que a explicação da fertilidade, ou mesmo a natural procura do melhor, condicionam o aparecimento de formas de pensar que se vão interiorizando e transformando em mitos; esses mitos, por seu turno, vão ter de ser enquadrados dentro das actividades normais do grupo, e para tal, com a ajuda das estruturas e instituição próprias da organização social humana criam-se ritos e rituais, que propagavam e consolidavam a primitiva interpretação pessoal do facto em questão; como consequência do desenvolvimento destas formas de agir, e uma vez que a sedentarização de um grupo humano implica, logo à partida, a necessidade de incentivo da ligação entre o indivíduo e a terra, aparecem então as implicações directas no património, seja em termos de construções de carácter puramente sagrado, como são, por exemplo, as necrópoles e os templos, até aos mais básicos vestígios das habitações pessoais, onde se espelham muitos dos aspectos ligados a esta vivência religiosa.





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publicado às 12:51

Fausto Figueiredo e o Sonho do Estoril

por cascalenses, em 16.05.14

A ALA - Academia de Letras e Artes marcou presença na cerimónia comemorativa do centenário da fundação do Estoril com a conferência "Fausto Figueiredo e o Sonho do Estoril" proferida por João Aníbal Henriques.

Esta homenagem àquele que foi o mentor do primeiro e principal destino turístico de Portugal, concretizou-se no âmbito do aniversário da ESHTE e foi coordenada pela Professora Cristina Carvalho e pelo Doutor João Miguel Henriques (CMC), tendo contado ainda com a participação de Cândida Cadavez, Cristina Pacheco, Susana Gonçalves e Manuel Ai Quintas. 

Numa época marcada pela incerteza e pela absurda decisão tomada pelo poder partidário de extinguir a marca turística ‘Estoril’ assume especial importância este evento que, de uma forma transversal e com abordagens diferenciadas, apresenta a prova cabal da excelência que caracterizou o projecto de Fausto Cardoso e Figueiredo no Estoril.

 

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publicado às 17:09

A Melhor Escola de Portugal

por cascalenses, em 10.04.14



por João Aníbal Henriques

Muitos daqueles que teimam em não aceitar a escolha da escola como um direito essencial dos pais, utilizam argumentos que mostram bem a forma como os preconceitos acabam por desvirtuar a discussão e, dessa forma, por condicionar o julgamento e o discernimento de todos aqueles que desejam uma escola melhor em Portugal.

Um dos argumentos mais utilizados para criticar a intervenção que fizemos em Angra do Heroísmo, nos Açores, no passado mês de Março, dizia que a solução passa por reforçar a dotação das escolas do estado e diminuir a sua autonomia. Diz quem pretende defender aquilo a que chamam a “escola pública”, que dessa forma se assegura a qualidade da escola controlando simultaneamente os custos e os gastos da mesma!

Esquecem-se, de forma inquietante, que a liberdade de escolha da escola pressupõe que são os alunos, com base na qualidade da oferta das escolas e na maior ou menor adequação da sua orientação perante as suas expectativas e planos de vida, quem escolhe a escola que querem frequentar…

Ou seja, esquecem-se que é o aluno o fulcro daquilo que defendemos. Esquecem que o que importa é o aluno e não a escola. Esquecem-se que o que está em causa é a qualidade da oferta educativa proporcionada aos alunos e as implicações que ela tem na sua futura qualidade de vida e não o saber se a escola é pública, privada ou mista!

Será que não perceberam que a liberdade de educação não pressupõe aumento da despesa com educação? Será que não perceberam que, com liberdade de escolha, assente no reforço da autonomia e da responsabilidade das escolas, são elas quem define a sua equipa, quem determina o seu plano de trabalho e quem passa a usufruir de uma dotação orçamental associada ao número de alunos que nelas se inscreveram?

Sem utopias, todos sabemos que a escolha será sempre a da melhor escola. Da que for a mesmo a melhor, independentemente de que for o seu proprietário. Mas não é isso que todos queremos? A melhor escola para os nossos filhos?

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publicado às 16:23

Trovas de um vento que não passa...

por cascalenses, em 31.03.14



por João Aníbal Henriques

Agora que Portugal se prepara para comemorar os 40 anos do 25 de Abril, importa tomar especial atenção à forma como a liberdade ditou o presente e está a condicionar o futuro do nosso País…

No sector da educação, por exemplo, são precisamente aqueles que dizem que defendem a liberdade quem impede que todos os Portugueses tenham acesso às mesmas oportunidades e à possibilidade de construírem de forma consciente o futuro dos seus filhos.

A liberdade que eles dizem defender, de expressar opiniões, de reunião, de crítica, em suma, de se fazer o que se quiser, ainda não chegou à educação. Os detentores da dita liberdade, ironicamente utilizando os mesmos argumentos que há mais de 40 já eram usados para negar aos Portugueses a possibilidade de escolherem o futuro dos seus filhos, não permitem a livre escolha da escola.

Ao procederam assim, pretensamente em defesa desta maltratada liberdade, criam dois tipos de Portugueses: os que têm os meios que lhes permitem escolher a escola onde querem inscrever os seus filhos, porque a podem pagar; e aqueles que, por não poderem pagar, estão literalmente condenados a ver os seus filhos inscritos na escola que o Estado lhes escolheu. Mesmo que seja a menos adequada, aquela que nada lhes diz e que não os representa. Mesmo que ali mesmo ao lado exista outra escola onde eles poderiam ser felizes, encontrar o projecto que se aproxima das suas expectativas de vida e que faz mais sentido perante as aspirações que têm.

Os primeiros, podem progredir nos seus estudos, plenos de significado e perfeitamente adaptados às características das crianças. Têm a liberdade de ser bons ou maus alunos; de estudar mais ou menos; de preparar a sua vida académica e de planear o futuro que querem ter. Os outros, os que por motivos diversos não podem pagar, estão impedidos de o fazer.

Num tempo em que as trovas ecoam sublimes pelas paredes ocas que alguns tentam associar à liberdade, em loas avermelhadas a que já nos habituámos, é inadmissível que preconceitos e interesses terceiros impeçam os portugueses de poderem escolher livremente a escola e o futuro dos seus filhos.

Porque estão a impedir o País – que desde 1974 já foi resgatado 3 vezes – a mais 40 anos de falta de capacidade para gerir o seu destino e para recuperar a pujança, o dinamismo e o empreendedorismo de outros tempos.

Porque sem liberdade não existe democracia verdadeira e Portugal merece ser livre. Finalmente. 

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publicado às 15:17

Conferência "Democracia, Cidadania e Liberdade de Educação" por Fernando Adão da Fonseca e João Aníbal Henriques em Angra do Heroísmo

por cascalenses, em 23.03.14

Fernando Adao da Fonseca e João Aníbal Henriques estiveram na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, nos Açores, para falar sobre "Democracia, Cidadania e Liberdade de Educação". O Encontro, moderado pelo Dr. Aurélio Franco da Fonseca, da Escola Secundária Jerónimo Emiliano de Andrade, decorreu no âmbito dos 40 anos da institucionalização da liberdade. 

 

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publicado às 21:20

Fernando Adão da Fonseca e João Aníbal Henriques Discutem a Liberdade nos Açores

por cascalenses, em 23.03.14

Fernando Adão da Fonseca e João Aníbal Henriques estiveram nos Paços do Concelho de Angra do Heroísmo, nos Açores, para falar sobre "Democracia, Cidadania e Liberdade de Educação" numa conferência moderada por Aurélio Franco da Fonseca. Neste encontro, sublinharam-se as consequências negativas para Portugal da falta de liberdade no sector da educação, bem como os principais pontos sobre os quais assentará o futuro Serviço Público de Educação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 21:18

Fernando Adão da Fonseca e João Aníbal Henriques Falam Sobre "Democracia e Liberdade de Educação" nos Açores

por cascalenses, em 17.03.14

 

 

 

 

Na próxima Quinta-feira, dia 20 de Março, às 18h00, Fernando Adão da Fonseca e João Aníbal Henriques, do FLE - Fórum para a Liberdade de Educação (www.fle.pt) vão estar nos Paços dos Concelho de Angra do Heroísmo, nos Açores, para falar sobre "Democracia, Cidadania e Liberdade de Educação"

 

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publicado às 16:39

O Estoril não foi à BTL

por cascalenses, em 14.03.14

 


Pela primeira vez desde há 26 anos, o Estoril não foi à BTL – Feira Internacional de Turismo de Lisboa. No ano do centenário do seu nascimento [1914-2014], e numa altura em que se assumia como terceiro destino turístico em Portugal, logo depois de Lisboa e do Algarve, é com grande preocupação, estranheza e perplexidade que registamos esta ausência, principalmente se tivermos em conta o reconhecimento internacional inquestionável que a marca turística ‘Estoril’ conquistou ao longo dos últimos anos. Substituído por uma pequena banca sempre vazia e completamente perdida dentro do stand do Turismo de Lisboa com a recém-criada marca ‘C’ de Cascais (e sabe-se lá do que mais), é com muita tristeza que somos obrigados a explicar a todos os operadores internacionais que nos questionam sobre o porquê deste desaparecimento estranhíssimo do Estoril, que foram motivações políticas e estratégias partidárias que determinaram esta morte anunciada. Eles não percebem. Nós também não. 

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publicado às 11:56

"Democracia, Cidadania e Liberdade de Educação" com Fernando Adão da Fonseca e João Aníbal Henriques

por cascalenses, em 14.03.14
Parece estranho, quando se comemora o 40º aniversário do 25 de Abril, que os inimigos da liberdade neguem aos pais a liberdade de escolha da escola dos seus filhos utilizando os mesmos argumentos e até as mesmas expressões que antes da instauração da liberdade se utilizavam para o mesmo efeito...

 

Porque não se é verdadeiramente livre se não se for livre para tudo, Fernando Adão da Fonseca e João Aníbal Henriques vão estar no próximo dia 20 de Março, às 17h30, na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, nos Açores, para falar sobre "Democracia, Cidadania e Liberdade de Educação", num encontro que pretende mostrar que o único caminho válido em direcção à verdadeira cidadania é a escola e esta, por seu turno, só sendo livre pode funcionar como uma ferramenta que fomenta nos indivíduos uma consciência verdadeira e saudável da sua identidade.
 
Porque todos os regimes totalitários são inimigos da liberdade de educação...

 

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publicado às 10:27

Ainda a Ribeira das Vinhas...

por cascalenses, em 27.02.14



Situado a dois passos do centro de Cascais, com início nas traseiras do mercado, o Vale da Ribeira das Vinhas é um dos espaços com mais potencial de Cascais. Envolvida pelo bucolismo das antigas quintas (muitas delas, infelizmente, abandonadas) a ribeira deixa antever aquilo que foi a ruralidade Cascalense, oferecendo um dos mais bonitos e inesquecíveis retratos de um Cascais de outros tempos. Facilmente pedonizável, recriando um percurso muito acessível e totalmente verde entre o centro da Vila e a Serra de Sintra, é uma pena o estado de completo abandono e de incúria latente em que este espaço se encontra, contrastando de forma abissal com as suas potencialidades naturais e a mais valia turística em que facilmente se poderia transformar. Provavelmente por falta de vontade, os responsáveis autárquicos de Cascais escudam-se no facto de muitos daqueles terrenos serem propriedade particular para explicar a falta de recuperação deste espaço. Mas não é verdadeira esta desculpa. Ao longo da ribeira, acompanhando todo o seu percurso, existe um caminho de pé-posto que é público e que seria facilmente reconvertido num dos mais impactantes percursos pedestres de Cascais. Assim haja vontade!













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