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Villa Romana de Freiria em Cascais

por cascalenses, em 25.09.18

 

Devolvida aos Cascalenses 2000 anos depois…
 
 
 
 
por João Aníbal Henriques
 
2000 anos depois de Titvs Cvriativs Rvfinvs ter chegado à Lusitânia oriundo de Roma e ter solicitado autorização aos Deuses Manes para se instalar no território que hoje pertence ao Município de Cascais, os vestígios que restam da sua enorme villa agro-senhorial foram finalmente devolvidos a Cascais e aos Cascalenses!
 
A Villa Romana de Freiria, localizada junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, tem uma ocupação humana que se perde nas brumas do tempo. Utilizada provavelmente desde a Pré-História, mercê da sua localização privilegiada junto ao estuário do Rio Tejo e do carácter muito fértil das suas terras agrícolas, Freiria apresenta vestígios únicos que atestam os principais momentos da evolução civilizacional do Homem, e um conjunto de estruturas do período romano que são peças únicas da arqueologia mundial.
 
 
 
 
Entre os dois conjuntos termais, com águas quentes e frias, o espaço habitacional e de lazer profusamente decorado com mosaicos e irrigado com um complexo sistema de distribuição de águas avançadíssimo para o seu tempo, e as estruturas agrícolas de grandes dimensões e de uma qualidade construtiva sem par, a Villa Romana de Freiria possui um potencial cultural extraordinário que se cruza com o valor turístico que a vocação de Cascais não permite renegar.
 
Descoberta por Virgílio Correia no início do Século XX, a Villa Romana de Freiria foi escavada em dezenas de campanhas que se prolongaram ao longo de todo o século, num esforço hercúleo que permitiu recolher milhares de artefactos únicos e atestar de forma comprovada a imensa importância do local.
 
 
 
Desde meados do século passado, quando a expansão urbanística da região de Grande Lisboa determinou o alastramento absurdo da mancha habitacional e reformatou a matriz urbanística das periferias a partir do caos imposto pelas construções clandestinas, que Freiria foi sendo envolvida por centenas de construções desregradas que, para além de comprometerem a integridade do espaço, acabaram por influir de forma dramática na sua conservação e na possibilidade do seu usufruto por parte da população local.
 
Praticamente desconhecidas dos Cascalenses, as ruínas romanas foram sobrevivendo aos ataques sucessivos das últimas décadas através do enorme esforço da equipa de arqueólogos que foi acompanhando e estudando o local e que, através de estratagemas quase impensáveis, foram conseguindo esconder, tapar e guardar alguns dos mais importantes detalhes do espaço, salvando assim a sua integridade até à actualidade.
 
 
 
 
O poder político (ou melhor dizendo) os poderes políticos que sucessivamente foram tomando conta dos destinos de Cascais, demonstraram sempre uma incapacidade latente ao nível decisório, tendo sido todos eles incapazes de contribuir o que quer que seja para a salvaguarda e para o aproveitamento do potencial deste local.
 
No início dos anos 90 do século passado, quando a Freguesia de São Domingos de Rana cresceu de forma desmesurada e desregrada, a Villa Romana de Freiria foi literalmente engolida pela clandestinidade envolvente, havendo mesmo casas, oficinas e outro tipo de construções que utilizaram materiais das próprias ruínas para as suas próprias edificações. E quando foi apresentada a primeira proposta de um Plano de Pormenor que visava salvar o local, a inoperância política de quem mandava impediu a sua cabal concretização e manteve o cenário de abandono e de incúria até praticamente à actualidade.
 
 
 
 
As memórias de Titvus Cvriativs Rvfinus, o romano de cepa que chegou a Freiria no Século I d.C. pareciam estar destinadas a uma mera prateleira numa qualquer sala de museu, à medida em que o abandono do espaço incitava à presença dos caçadores de tesouros, dos curiosos e dos detectores de metais, iam esboroando aos poucos aquele que era um dos principais patrimónios de Cascais.
 
Mas nesta semana, num acto digno de louvor, a Câmara Municipal de Cascais terminou e inaugurou uma intervenção extraordinária no local.
 
 
 
 
Para além de vedar de forma total o espaço da villa romana, e de recriar um conjunto de passadiços em madeira que permitem percorrer todo o perímetro do monumento sem comprometer a estrutura arqueológica, a intervenção agora concretizada contempla a colocação de sinalética com a identificação dos principais motivos de interesse para quem o visita e, acima de tudo, informação clara e eficiente acerca do que se está a ver e a interpretar.
 
Com esta intervenção agora inaugurada, Freiria é finalmente devolvida aos Cascalenses, a Cascais e a Portugal, que agora passa a poder usufruir, a conhecer e a reconhecer uma peça ímpar na História deste local.
 
Desta maneira, mercê do circuito interpretativo, da salvaguarda da integridade do espaço, e do conforto para a visitação, a Villa Romana de Freiria transforma-se no cadinho que desde sempre deveria ter sido de potenciação cultural do local. E, ao invés do que muitos diziam quando há cerca de 20 anos se instalou a polémica acerca do estado de abandono do monumento, passou a ser também um dos principais motores qualificadores de todo o espaço envolvente, fomentando a identidade local e as potencialides turístico-culturais de Cascais e da Freguesia de São Domingos de Rana.
 
 
 
 
Com a inauguração do pólo universitário de Carcavelos, e a selagem recente do aterro de Trajouce, cria-se nesta zona um eixo de crescimento sustentado e de qualidade que não pode deixar ninguém indiferente. Todo o Vale da Ribeira da Lage, desde o Bairro do Pomar das Velhas até ao novo pólo universitário de Carcavelos, passa agora a ter condições para se destacar da paisagem inóspita da invasão clandestina que caracterizou o Cascais de outros tempos, traduzindo-se em elementos geradores de qualidade de vida para todos os Cascalenses.
 
Estão de parabéns as equipas de arqueólogos que desde há muitas décadas dedicaram o seu tempo a lutar pela preservação de Freiria. Estão de parabéns as equipas técnicas que idealizaram e concretizaram este importante programa de salvaguarda. E estão de parabéns, os decisores políticos que foram capazes de passar das palavras aos actos e de (finalmente) devolver a Cascais um dos valores maiores da sua culturalidade.
 
 
 
 
Ganhou Cascais. Ganharam os Cascalenses e ganhou Portugal.

 

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publicado às 17:12

A Igreja de São Domingos de Rana

por cascalenses, em 23.11.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Profundamente ligada ao trabalho da pedra, numa zona do Concelho de Cascais onde as pedreiras e os ofícios de cantaria assumiam especial importância, a Igreja de São Domingos de Rana é um dos mais importantes imóveis históricos que fazem parte do Património Cascalense.
 
Sem se conhecer a data da sua fundação, nem tão pouco se a antecedeu qualquer outra espécie de espaço de culto ou edifício sagrada que tenha anteriormente ocupado o alto da colina onde se ergue este templo, remete para a lenda e para as tradições orais as principais indicações que nos permitem compreender o imóvel no contexto da religiosidade rural do interior do Concelho de Cascais.
 
 
 
 
 
Reza a lenda que, algures durante a Idade Média, os trabalhadores que tiravam pedra das muitas pedreiras existentes nesta zona, viam amiúde a figura de São Domingos de Gusmão passeando reiteradamente por aquela zona. O santo, historicamente nascido em Castela em Junho de 1170 e que foi fundador da Ordem dos Pregadores, mais tarde conhecidos como Dominicanos, está ligado de forma directa aos rituais de despojamento que determinam a essência sagrada do culto Cristão em Portugal.
 
 
 
 
Depois de ter viajado ainda muito novo até à Dinamarca para participar no acto solene de trazer para a Península Ibérica a noiva Escandinava do Príncipe de Castela, São Domingos terá ficado profundamente impressionado com a falta de conhecimentos que aqueles povos teriam de Cristo e da sua doutrina. Nasce-lhe assim, num acto de inspiração que muda vida até à actualidade, a ideia de criar uma ordem cujo objectivo essencial seria o de evangelizar esses territórios, conquistando Almas novas para o orfeão Cristão. As dificuldades, no entanto, associadas a várias experiências que o ajudaram a despertar os sentidos e a clarividência, mostraram-lhe que o Ser Humano não é naturalmente bom nem tem uma natural propensão para a bondade. Pelo contrário! O apelo do mal e da maldade, reconhecido nos mais mesquinhos apontamentos da vida de cada comunidade, mostraram a São Domingos que o único caminho possível em direcção ao Céu e a Deus, era o da abdicação total e absoluta à mundanidade e à materialidade da vida corrente, como forma de propiciar a libertação do anjo sagrado que o Santo considerava que existia dentro de cada um e que se mantinha subjugado pelas tentações carnais do mundo e da sociedade.
 
Domingos de Gusmão, com influência existencial marcada pelo ideário cátaro, liberta-se assim das pulsões da natureza e determina uma ordem na qual o afastamento do mundo e das coisas é a regra principal. A Ordem de São Domingos, mendicante de origem, é assim o repositório mais profundo da ancestralidade mística de Portugal, num plano de existência na qual a iluminação advém directamente da capacidade de libertar o espírito do que da compilação da doutrina conventual.
 
 
 
 
A propensão para locais recônditos e remotos, dos quais fosse possível obter uma visão periférica e exterior do mundo, surge em sequência com a escolha lendária do local onde havia de vir a ser erguida a Igreja de São Domingos de Rana. No cimo da colina de Rana, da qual é possível abarcar uma paisagem que se estende por terra e pelo mar ao longos de muitos quilómetros de distância, a actual igreja motiva o eremita a uma comunhão directa com Deus através de um esforço de contemplação do qual não está alheada a entrega total e absoluta aos ideias de despojamento que serão sempre apanágios das mais iluminadas e marcantes figuras da História de Portugal.
 
Em termo históricos, a Igreja de São Domingos que hoje temos é o produto dos restos da antiga igreja construída no início do Século XVIII e que foi amplamente destruída pelo terramoto de 1755. Há, no entanto, notícia, de que antes dessa data, já em meados do Século XVI, ali existia um templo Cristão, cujas origens documentais se desconhecem.
 
A qualidade dos materiais da igreja, até por ser esta uma terra de canteiros e de pedreiras florescentes, dão corpo a um dos mais importantes monumentos do Concelho de Cascais. A sua fachada, altivamente erguida com vista para Sul e para o Estuário do Rio Tejo, denotada uma riqueza arquitectural que destoa da pobreza tradicional das povoações da envolvente. As suas duas torres sineiras, uma das quais ostentando um vetusto relógio de Sol, enquadram-se nos padrões construtivos que deram o mote à reconstrução do concelho nos finais do Século XVIII e início do Século XIX; apresentando um porte altivo que contrasta com a singeleza do seu interior.
 
 
 
 
Em termos territoriais e devido à posição estratégica que ocupa perante o território que a envolve, a Igreja de São Domingos de Rana foi sempre referência essencial para a navegação, servindo de guia para as entradas e saídas da Barra do Tejo.
 
Concretizando na solidez do seu porte a Fé dos habitantes de São Domingos de Rana, a igreja de São Domingos é um dos mais interessantes atestados do poder que a devoção tem na formação das comunidades locais, tendo sido ela o principal factor determinante da criação da própria localidade que a envolve.

 

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publicado às 16:42


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