Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


A Igreja de Santa Maria da Porta em Melgaço

por cascalenses, em 22.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Dizem que santos de porta não fazem milagres… basicamente porque depois do Concílio de Trento, a disposição das figuras sacras dentro de uma qualquer igreja ou espaço religioso passou a obedecer a regras bem definidas, nas quais a hierarquia celeste ia crescendo na medida em que nos vamos aproximando do Sacrário.
 
 
 
Mas Santa Maria da Porta, orago da principal igreja de Melgaço, no Minho, representa a mais profunda contradição relativamente a este princípio. De facto, assente na profundidade escatológica que acompanhou a formação de Portugal, o orago minhoto integra a generalidade dos arquétipos essenciais que deram corpo à nacionalidade, representando porventura um dos melhores exemplos que subsiste da criação de ponte relacionais com a cultualidade ancestral nesta parte da Península Ibérica.
 
A Senhora da Porta, ou seja, aquela que guarda as entradas e as saídas de um determinado espaço, é simultaneamente causa e consequência do porvir quotidiano de uma comunidade. É dela que dependem os habitantes do local, sendo do seu carácter sacro, bem como da sua capacidade alquímica de transmutar as almas, que resulta o processo de passamento final dos mundos, num trâmite que não se concebe senão à luz das consequências sempre nefastas do pecado original.
 
 
 
 
Para os habitantes de Melgaço – Melgazo na sua grafia original -, Santa Maria maior ficava à porta, sendo para ela que convergiam as dinâmicas sociais de criação da própria localidade. No Século XII, quando surgem documentalmente as primeiras referências do povoado, marcava a sua diferença relativamente à outra igreja local, esta dedicada a Santa Maria do Campo, reformatando a ligação entre os seus fiéis e as novas práticas trazidas ao dia-a-dia do burgo em consequência do processo de independência de Portugal. A imagem de Nossa Senhora, simultaneamente mãe de Jesus e padroeira maior de Portugal, reforçava assim os seus vínculos milenares (provavelmente pré-Cristãos) com a Fé avoenga das terras nortenhas.
 
Construída à porta do antigo castelo, e marcada pelo estilo arquitectónico coevo, de um românico prenhe de apelos telúricos à força da pedra e ao peso das tradições ancestrais, a igreja nasceu por iniciativa do Arcediago de Valares, D. Garcia, que guardou para si, com autorização do Abade de Fiães, com a terça parte do padroado.
 
 
 
 
Muito desvirtuada na sua formulação estética em consequência das muitas intervenções de que foi alvo ao longo dos seus quase 900 anos de história, a Igreja de Santa Maria da Porta representa de forma muito evidente o carácter vincadamente significante que Melgaço sempre representou na estratégia de defesa das fronteiras de Portugal. A fragilidade dos primeiros tempos de nacionalidade, associados à proximidade da fronteira e às constantes investidas das tropas inimigas, fez de Melgaço um bastião essencial na defesa do reino, facto que terá condicionado de forma cabal a sua estrutura urbanística, e sobretudo a eminente necessidade de reforço e resguardo do seu castelo e da sua cinta de muralhas.
 
Singela na forma como se apresenta perante o visitante, a igreja é ela própria um testemunho vivo da força e da determinação daqueles que ao longo de muitos séculos ousaram viver neste lugar, sofrendo na pele as vicissitudes de decisões emanadas de muitos quilómetros de distância. Do alto do seu campanário, espécie de torre de vigia coeva dos primeiros anseios de Portugal, é possível vislumbrar aquilo que terá sido o Minho nessa época tão importante. Na torre sineira, colocada de forma recuada relativamente à fachada principal, é possível ainda hoje ler as assinaturas dos Portugueses de antanho que modelaram a pedra para construir esta igreja sem igual.
 
 
 
 
De nave única, marcada hoje pelo telhado de madeira que nos leva até ao altar principal, tem no seu Altar-Mor a imagem de Nossa Senhora da Conceição, provavelmente original do Século XVII, cujos contornos assentam de forma perfeita no estereótipo principal da criação do próprio Portugal. De facto, em parceria com Nossa Senhora do Campo, de cuja essência saiu para assumir o seu papel de guardiã da porta do castelo, Nossa Senhora da Porta não é mais do que a mãe-primordial dos Portugueses, numa recuperação simbólica de pressupostos de Fé que antecedem a própria ideia de Portugal.
 
Situada num dos mais belos recantos de Portugal, numa vila que sustenta o charme das suas vetustas muralhas, a Igreja de Santa Maria da Porta e a própria localidade de Melgaço, são pormenor incontornável em qualquer visita que se faça ao Norte de Portugal. Ali, pelo que subsiste da sua gloriosa história, é possível sentir e entender aquele que é o alicerce maior da Alma de Portugal. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:20

O Castelo de Castro Laboreiro (Parque Nacional da Peneda Gerês)

por cascalenses, em 25.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem lugares que estão prenhes de memórias e de vida. Neles subsistem memórias ancestrais, marcadas nas rochas firmes que as sustentam, em laivos de ritos que se repetem milenarmente e que quase tocam a eternidade. Castro Laboreiro, no Concelho de Melgaço, no Norte de Portugal, é um excelente exemplo de um espaço assim. Nele convivem muitas gerações que se cruzam nos seus quereres, nos seus sonhos e nas suas emoções, repetindo-se num monumento cíclico eterno que surge perenes nas paredes, no chão e nas rochas do lugar.
 
Com uma história ancestral, provavelmente contemporânea do nascimento da espécie humana na Terra, Castro Laboreiro ganha o seu topónimo do seu velho e vetusto castelo – ou castro – que estrategicamente colocado no topo do morro nos deixa perceber que importância teve este lugar na definição dos limites territoriais do nosso País.
 
 
 
 
O castelo ou castro, atribuído na literatura mais antiga ao período romano, surge durante o romantismo como sendo de origem árabe, facto que se sustenta na efectiva influência que os norte-africanos tiveram na consolidação do espaço territorial do El-Andaluz. Sabe-se hoje, no entanto, que o castelo é muito mais velho do que isto e que, no deambular transumante da pré-história, seria já um local de extrema importância, pelo menos durante o período de veraneio.
 
As suas raízes celtas, imbuídas no espírito das muitas tribos que aqui estavam sedeadas e que se digladiavam de forma permanente protegendo-se nos fortes e contra-fortes que as serranias proporcionavam, é uma certeza inultrapassável que ajuda a percebe melhor a forma consentânea que o espaço apresenta quando relacionada com a existência ambígua dos seus primeiros ocupantes.
 
Hoje, milhares de anos depois desse período áureo de Castro Laboreiro, a população continua a viver de forma cruza entre as   “inverneiras”, ou seja, os espaços de habitação situados nos vales que envolvem o lugar, como Bico, Cailheira, Curveira, Bago de Cima e Bago de Baixo, Ameijoeira, Laceiras, Ramisqueira, João Lavo, Barreiro, Acuceira, Podre, Alagoa, Dorna, Entalada, Pontes, Mareco, Ribeiro de cima e Ribeiro de Baixo e as “brandas” os espaços ocupados durante o período estival e situados na regiões mais altas que envolvem a localidade. As principais “brandas” são Vila, Várzea Travessa, Picotim, Vido, Portelinha, coriscadas, Falagueiras, Queimadelo , Outeiro, Adofreire, Antões, Rodeiro, portela, Formarigo, Teso, Campelo, Curral do Gonçalo, Eiras, Padresouro, Seara, e Portos. O ritual de passagem de trecos e tarecos entre as duas casas pelas famílias castrejas, repete-se ainda hoje numa espécie de ritual cíclico que perpetua a própria Alma Lusitana neste lugar tão especial.
 
 
 
Os dólmenes situados junto à localidade, ainda hoje motivo que redobra o interesse por uma visita, atestam e testemunham a herança simbólica e sagrada de um espaço que provavelmente só assim explica a sua longevidade.
 
De facto, com uma situação geográfica extrema, Castro Laboreiro viveu durante milénio num isolamento muito profundo, facto que contextualiza a excelente preservação dos seus monumentos mas, também, a manutenção quase se poderia dizer inusitada de uma estrutura de pensamento que se consolida à medida em que os séculos vão passando.  Certo, no entanto, é que as agruras do tempo e do clima e até a própria produtividade da terra são insuficientes para explicar a  teimosia humana em permanecer por aqueles lados, isto se não tivermos em linha de conta a beleza natural que envolve todo o espaço e que é de tal forma impactante que se torna difícil de descrever.
 
Situada em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, que seria por si só motivo que chegaria para explicar o interesse de a visitar, a localidade de Castro Laboreiro vale ainda a pena pelos seus excelentes restaurantes e magnífica gastronomia que oferecem aromas e sabor a uma visita ao local.
Mas no alto, alcandorado nas penhas que protegem a fronteira, o castelo sobrevive ainda, assente nas ruínas que sobreviveram a um raio que o destruiu por completo no Século XIV e que Dom Dinis mandou reconstruir.
 
O caminho íngreme e difícil, num acesso que só é possível fazer-se durante o Verão, transporta-nos até a mais de 1000 metros de altura, deixando antever, aqui e ali, pequenos panos das antigas muralhas. Só quando chegamos lá acima, já bem perto das enormes rochas onde está alicerçada a entrada principal, começamos a perceber o assombroso daquele local. Uma paisagem sem fim, num conjunto de planos infinitos que reforçam a sensação de pequenez e de insignificância que este tipo de locais sempre nos trás.
 
 
 
Classificado como Monumento Nacional desde 1944, o Castelo de Castro Laboreiro foi conquistado por Dom Afonso Henriques em 1141 que lhe terá construído uma torre de menagem isolada que lhe conferiu a configuração tradicional dos castelos românicos.
 
Depois de consolidada a Nacionalidade e de terminadas as lutas fratricidas que deram corpo à independência de Portugal, Castro Laboreiro nunca perdeu da sua importância estratégica, facto que se percebe através de uma análise linear à forma como se situa a sua muralha relativamente à fronteira galega. No seu interior, abaixo do marco geodésico que ocupa o espaço onde estava outrora a torre medieval, existe ainda o redil onde se juntava o gado das redondezas, protegido pelos muros grossos das investidas sempre terríveis de inimigos e animais selvagens.  
 
Em suma, Castro Laboreiro e o seu velho castelo são uma das pérolas inesquecíveis de Portugal. Valem a distância necessária para lá chegar e justificam por si só o passar por lá uns dias de férias.
 
 

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:10


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2003
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2002
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2001
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D
  248. 2000
  249. J
  250. F
  251. M
  252. A
  253. M
  254. J
  255. J
  256. A
  257. S
  258. O
  259. N
  260. D
  261. 1999
  262. J
  263. F
  264. M
  265. A
  266. M
  267. J
  268. J
  269. A
  270. S
  271. O
  272. N
  273. D
  274. 1998
  275. J
  276. F
  277. M
  278. A
  279. M
  280. J
  281. J
  282. A
  283. S
  284. O
  285. N
  286. D
  287. 1997
  288. J
  289. F
  290. M
  291. A
  292. M
  293. J
  294. J
  295. A
  296. S
  297. O
  298. N
  299. D