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João Brandão - de Midões a Moçamedes

João Aníbal Henriques, 21.07.25
 

por João Aníbal Henriques

João Brandão passou para a História como o “bandido das beiras”. Acusado de dezenas de crimes, dos mais terríveis até aos pequenos golpes de beira da estrada comuns no Portugal de oitocentos, pagou cara a sua fama e viu-se enredado numa teia de ditos populares que distorceu, alterou e injustamente o associou ao que de pior existiu no nosso país durante o período da guerra civil que opôs liberais a absolutistas.

Filho do Ferreiro de Candosa e associado familiarmente com algumas das mais conceituadas famílias beirãs daquela época, nomeadamente com os Veigas, os Duarte d’Almeida, os Soveral d’Abranches, os Brandões, os Costa Cabral, os Castelo Branco e os Fonseca Magalhães, João Brandão cedo se viu predestinado a grandes feitos. O seu padrinho de baptismo, Roque Ribeiro de Abranches Castelo Branco, tomou-o sob sua protecção e com ele preparou uma carreira política à qual se augurava muito sucesso, em linha, aliás, com o sucesso que caracterizava a presença da sua família em terras beirãs.

Entre 1849 e 1853 foi Presidente da Câmara Municipal de Midões, actividade que o rodeou de prestígio e que lhe permitiu alcançar as mais altas figuras do poder político do reino e inclusivamente lhe abriu várias portas junto dos inúmeros governos que nessa altura foram ocupando sucessivamente as arcadas do Terreiro do Paço.

Em 1863, já bem posicionado nas aspirações que tinha para sua vida, casa-se com D. Ana Eugénia de Jesus Correia Nobre, de escorreita linhagem e de fortuna considerável que lhe abriu definitivamente as portas da mais alta sociedade daquele tempo. E durante esse período, no meio do caos gerado pelo clima geral de guerra civil, dedicou-se à produção agrícola nas terras que pertenciam à sua mulher, encetando assim um período de grande prosperidade que contrasta de forma marcante com a vergonhosa fama que a História Popular o etiquetou.

João Brandão não foi nunca um personagem fácil e as suas intervenções públicas estiveram sempre longe de ser consensuais. Mas esse ímpeto muito carismático que o acompanhou até ao último dia acabou por trazer-lhe um vasto leque de inimizades e até de ódios viscerais. E na devastação geral da guerra civil, com Portugal a viver a incerteza profunda de um país dividido por interesses díspares que se digladiavam entre si sem olhar a princípios, valores ou ideais, todas as armas podiam ser usadas contra o inimigo, perpetuando um clima transversal de intriga que devastou literalmente a sociedade portuguesa.

Nas Beiras, espaço longínquo das luzes da capital, o poder político assentava num regime caciquista que propiciava a maledicência e a mentira. E João Brandão, à medida em que o seu partido ia perdendo a guerra, foi sendo acusado de uma multiplicidade de crimes horrendos dos quais sempre manteve a jura de que era inocente.

Na noite de 31 de Março de 1866 foi assassinado barbaramente na Candosa o Padre José Portugal, com quem Brandão tinha negociado terras agrícolas uns tempos antes. E os seus inimigos, focados no aproveitamento daquele nefasto acontecimento, depressa o acusaram da autoria do crime, tendo João Brandão sido preso no Limoeiro, em Lisboa, e posteriormente condenado à morte por enforcamento. A pena, mercê dos muitos bons amigos que Brandão também tinha, foi comutada para degredo em África e em 9 de Outubro de 1870 segue para Moçamedes onde se instala com a sua família.

Em terras africanas não baixou os braços e, empreendedor como era, dedicou-se à produção de aguardente que exportava para a metrópole. Nos documentos oficiais daquela cidade africana, multiplicam-se as notas sobre os actos de abnegada devoção à sua terra de acolhimento, tendo João Brandão recuperado o prestígio que outrora havia vivenciado em Portugal, abrindo caminho para que ali se tenham instalado inúmeros descendentes, nomeadamente das famílias Duarte d’Almeida e Veiga que se mantiveram em África até à descolonização.

O processo jurídico que condenou João Brandão foi um dos mais badalados acontecimento do último quartel do Século XIX em Portugal. E a sua condenação, mais do que de provas efectivas apresentadas em julgamento, fez-se a partir da aura lendária de terrorismo que rapidamente se multiplicou em seu torno e que se consubstanciou num conjunto vastíssimo de histórias que povoam o imaginário popular do Portugal daquele tempo.

João Brandão foi assassinado em África em 1880 e um dos seus sobrinhos-netos, António Duarte d’Almeida Veiga, homem de letras e do direito, dedicou-se a rever todo o processo ilibando o tio-avô das acusações que o levaram à condenação e ao degredo. Nas suas memórias auto-biográficas, Brandão reconhece não saber com precisão e certeza quem foi responsável por todo o seu processo. Mas ao que parece, olhando com rigor e atenção para os documentos, terá havido intervenção de familiares da sua mulher que, com medo do poderio que ele tinha alcançado naquela época, tudo fizeram para impedir que ele controlasse a fortuna familiar e, dessa maneira, terão sido parte importante no degredo que consolidou aquele que foi um dos mais injustos processos da justiça portuguesa.

150 anos depois da morte de João Brandão, importa recuperar a sua memória e, não sendo possível ilibá-lo dos crimes a que foi condenado, garantir que pelo menos são conhecidos de todos os seus argumentos de defesa.

Resta-nos a harmonia da voz da sua sobrinha-trineta, a fadista Kátia Guerreiro, que com os Monda nos traz a lenda que ainda hoje perdura no imaginário popular de Portugal! Porque João Brandão é ainda maior do que a soma da lenda com a sua história. É um personagem que carrega consigo o contraste entre a grandeza imensa e a pobreza extrema que sempre caracterizou Portugal…

 
 
 

António Duarte d’Almeida Veiga – A Infinita Eternidade da Morte

João Aníbal Henriques, 01.10.24
 

 

por João Aníbal Henriques

Em meados do Século XIX, numa das suas inusitadas viagens pela Europa, o jurista e filósofo português António Duarte d’Almeida Veiga cruzou-se em Paris com Hippolyte Léon Denizard Rivail, ilustre pedagogo e professor francês bem conhecido do público em geral através do pseudónimo que utilizava para assinar as suas obras: Allan Kardec. Ficaram amigos.

Na sua obra de despedida, publicada em Benavente em 1928, António Veiga dedica à sua filha Maria Amélia aquilo a que chamou a “Lei dos Contrastes”, a súmula do seu pensamento filosófico numa ansiada necessidade de se convencer de que a eternidade e o infinito são expressão maior da vida verdadeira, ou seja, daquela que emana directamente de Deus. E, acima de tudo, que a eternidade (tempo) e o infinito (espaço) são efectivamente o contraste um do outro, marcando a dualidade necessária para nos permitir intuir a plenitude superior do Estado Perfeito, e concomitantemente da própria existência de Deus.

Queria encerrar a sua existência física com um legado de pensamento que perpectuasse as suas convicções espirituais e que comprovasse aos seus filhos que a sua partida não representaria o seu fim. Porque a morte não existe, senão aparentemente para contrastar a vida, e podermos reconhecer esta… era para ele um mero e puro descanso do “eu”.

Dizia ela à sua filha Maria Amélia: “a morte real só existe na ideia dos que ficam sobrevivendo. Os que morrem para estes, não morrem na realidade, antes, pelo contrário, revivem!”

António Duarte d’Almeida Veiga, meu bisavô paterno nasceu em Midões, nas Beiras, e morreu em Benavente, no Ribatejo. Foi jurista, notário, filósofo e escritor que, numa permanente ânsia de viver plenamente dedicou a sua vida a pensar, analisar e perceber a morte. Porque acreditava que só nela se poderia encontrar o sentido pleno da vida.

Quando se cumpre um século desde a sua morte, importa lembrá-lo e ao seu legado, até porque na linha das suas discussões espirituais com Allan Kardec, e tal como deixou escrito à sua filha Amélia: “Se soubermos convocar quem parte deste mundo infinito, eles nos provarão que existem sempre, plasmados na eternidade da qual todos fazemos parte”.

 

João Brandão - de Midões ao Limoeiro

João Aníbal Henriques, 20.01.22

 

 

por João Aníbal Henriques

Nos escolhos do tempo, perdidos nos interstícios que vão marcando as sucessivas eras, escondem-se histórias que certamente foram fadadas pelo destino. Insensíveis aos seus protagonistas e aos anseios que dão forma aqueles que as viveram, parecem ser vida com vida própria desenovelando um fio emaranhado que junta sem cerimónia os sonhos, as necessidades do dia-a-dia e os devaneios dos seus protagonistas.

Foi isso que aconteceu com o mítico João Brandão, o denominado “Terror das Beiras”, que em meados do Século XIX se transformou numa das mais extraordinárias lendas do provinciano Português. Em plena guerra civil, quando irmãos se viraram contra irmãos, João Victor da Silva Brandão nasceu em Midões, actual Concelho de Tábua, em março de 1825. Filho de Manuel Rodrigues Brandão, serralheiro de origens humildes, João Brandão depressa deu mostras de grande apetência pela vida pública e pelos interesses dos seus concidadãos.

Profundamente liberal nas suas convicções, marcadas pelo clima de guerrilha permanente em que nas Beiras se viveram as conturbações da guerra, Brandão precisou de ajuda para abrir os seus horizontes de vida e para almejar a influência política com a qual sempre sonhara. Sonhador, sempre enlevado pela ideia do belo, apaixonou-se por D. Ana Eugénia de Jesus Correia Nobre, filha dilecta de uma das muitas famílias aristocráticas que habitavam naquele recanto idílico de Portugal e portadora de um nível de riqueza que contrastava de forma evidente com os parcos recursos da família Brandão.

O seu padrinho político, D. Roque Ribeiro de Abranches Castello Branco, futuro Visconde de Midões, foi presença e desígnio permanente na sua vida, tendo-lhe legado de forma muito evidente o seu fervoroso apoio à causa liberal e aos tempos novos que eles acreditavam terem chegado a Portugal. Esta figura tutelar, que ajudará o jovem João Brandão a comunicar de forma próxima com os principais inspiradores do poder lisboeta, surge em linha com o enorme apoio que o seu pai, Manuel Brandão, dá à causa liberal durante o tempo da Guerra Civil. Com o regresso do Rei Dom Miguel depois da assinatura da Carta Constitucional, a Família Brandão pega em armas contra o absolutismo e dirige nas beiras um enorme movimento de contestação ao absolutismo professado pelo monarca.

Na espiral de violência em que cresceu, João Brandão pôs e dispôs das suas convicções não olhando a meios para garantir o cumprimento dos seus fins. E, se na liberalidade que se instalou em Portugal, tudo parecia acertar-se para fazer dele um dos maiores do reino, a incerteza dos muitos infortúnios que determinaram a criação de uma fama de bandido da qual não mais se conseguiu livrar.

Alvo de um processo movido contra si por muitos daqueles que com ele tinham trilhado os caminhos da vida, até porque no Portugal de então as voltas e reviravoltas políticas determinaram um regime caótico no qual o terror e o medo dominavam o dia-a-dia, João Brandão acabou preso, julgado e condenado pelo crime terrível do assassínio do Padre Portugal.

Sempre clamando pela sua inocência, Brandão esteve preso no Limoeiro, em Lisboa, de onde foi enviado para Angola, já em 1870, como desterrado, e onde morreu uma década mais tarde.

Figura polémica no seu tempo, João Brandão tornou-se uma figura problemática para a História. Porque, para além do ânimo arreigado que sempre demonstrou, e que o envolveu na aura lendária que o acompanha até hoje, foi também um homem de valores e de princípios que colocou à frente daqueles que são os valores basilares da sociedade de então.

João Brandão, o Bandido das Beiras, é santo para uns e bandido para outros. E hoje, 142 anos depois da sua morte, não é ainda possível clarificar de forma definitiva os reais contornos da sua vida política, nem a importância que ele efectivamente teve na sua área geográfica de influência.