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Tendências Demográficas no Cascais Medieval

por cascalenses, em 22.03.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O primeiro numeramento de Cascais data de 19 de Setembro de 1527. Sendo já posterior à época medieval, da qual não existem registos efectivos acerca do que se passava neste concelho, vamos tomar como base desta análise a curva demográfica de Cascais durante este período da baixa Idade Média e a partir daí comparar teoricamente as tendências das principais cidades Portuguesas e Europeias, assumindo, desta forma, alguma linearidade nos comportamentos demográficos da velha vila de pescadores.
 
Assim, à excepção de Toulouse, a tendência mais evidente da demografia urbana europeia é a de um aumento sustentado do contingente populacional. Assim acontece com as principais cidades da Europa de então, tendência que se confirma em Portugal com os dados que temos relativos à cidades de Lisboa ou de Lagos. Da mesma forma, encontra-se uma tendência generalizada para um período de recessão nos finais do Século XIII e inícios dos Século XIV que, com um carácter fulgurante em cidades como Florença, em Itália, atingiu de forma medíocre as restantes cidades europeias com dados conhecidos. Segundo Carlo Cipolla, a crise que afectou a Europa nessa época não passou de uma rectificação natural da demografia urbana, respondendo de forma directa ao excesso populacional acumulado em determinadas regiões, ainda sem o suporte essencial em termos de salubridade e saúde pública e pouco preparadas para sustentar esse crescimento.
 
Por esse motivo, muitas foram as cidades e/ou pequenos aglomerados populacionais que viram bastante reduzido o seu contingente populacional durante este período, provocando um surto de mortandade que acompanhou o recrudescimento de diversas epidemias e doenças.
 
 
 
 
Zonas pouco apetrechadas em termos urbanísticos, como era o caso da Vila de Cascais durante esse período, sofreram assim as consequências nocivas da sua impreparação, facto que conduz a um intervalo de tempo que se caracteriza por uma imensa razia em termos do número de habitantes, obviamente com repercussões directas a várias níveis da organização social dessas terras. Será possivelmente esta a explicação que nos permite perceber o reduzidíssimo número de Cascalenses que existiam nessa época e que Oliveira Marques aponta num dos seus artigos sobre Cascais: ”É provável que em meados de trezentos, para mais com as consequências da peste negra, o número de habitantes da jovem vila não fosse além dos duzentos ou trezentos, se é que os atingia sequer. E no termos correspondentemente”.
 
Na carta régia de 1385 de Dom João I, o despovoamento de Cascais torna-se evidente, sentindo o monarca que chegou à altura de incentivar o mesmo. É também nesta mesma carta que o rei levanta o problema do Castelo de Cascais, sublinhando a sua importância na estratégia de defesa de Lisboa. Sê-lo-á em termos meramente militares e políticos ou também em termos económicos e estratégicos?...
 
No que concerne à densidade populacional nas freguesias cascalenses, é notório e muito evidente a enorme discrepância existente entre aos espaços rurais e urbanos. Esta dualidade surge bem expressa nos números que traduzem, por exemplo, a realidade na Freguesia de Cascais, que sobressai com 10,5 habitantes por km2, em contraste com os cerca de 4,3 habitantes por km2 em espaços como Carcavelos e São Domingos de Rana. Na primeira temos uma realidade marcantemente urbanizada, recriando-se em torno do conjunto habitacional coeso que enche o seu espaço amuralhado, e nas segundas surge a realidade de âmbito rural, com as explorações agrícolas e o minifúndio a imporem a sua realidade.
 
Embora pouco importante para a determinação daquilo que foi Cascais durante este período, é certo que este quadro nos permite supor um povoamento da vila de Cascais muito anterior àquele que supostamente surge na documentação oficial, precedendo-a e alterando os dados efectivas recolhidos em época posterior. Fazendo o exercício de completar os dados inexistentes de Cascais com aqueles que caracterizam as restantes cidades de Portugal e as principais tendências nos espaços urbanos europeus, parece lícito supor que a continuidade da linha demográfica na vila se encaixa no fluxo corrente que caracteriza a Europa anteriormente.
 
Prova ainda mais contundente deste pressuposto é a que nos oferece o Professor Oliveira Marques no estudo atrás mencionado e que nos diz que: “O número de besteiros do conto, de cerca de 1422, atribuía ao Concelho de Cascais 20 besteiros, cifra igual na comarca da Estremadura, à de Sintra e à do Soure e próxima à de Alenquer e à de Óbidos”. Este mesmo número está confirmado no número de besteiro existentes no Algarve, em linha com o que se passa em espaços pujantes demograficamente como Castro Marim, Albufeira e Aljezur.
 

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publicado às 16:22

Cascais na Idade Média Clássica

por cascalenses, em 19.01.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A reconquista Cristã e a entrada de novas gentes no actual território da Península de Lisboa, veio afectar de sobremaneira o Concelho de Cascais. É ponto assente entre os estudiosos da matéria, que Cascais exista já em 1147 e que foi alvo do interesse do novo rei de Portugal, Dom Afonso Henriques.
 
Segundo Pedro Barruncho, na sua obra “Villa e Concelho de Cascais”, datada de 1873, “é mais provável, para começarmos em mais próximos tempos, que pouco antes ou depois da tomada do Castelo de Cintra, se não ao mesmo tempo, o lugar de Cascaes entrasse no domínio do novo reino Lusitano”.
 
Esse facto é por demais evidente se nos debruçarmos mais profundamente sobre o Foral de Dom Manuel em que se pode ler acerca das preocupações que tanto Dom Afonso Henriques como Dom Sancho I tiveram em relação a este pequeno território: “Achámos visto os foraes por El-Rei D. Affonso Henriques e por El-Rei D. Sancho seu filho que os direitos e foros da dita villa de Cascaes sa hão-de arrecadar e pagar d’aqui em diante na maneira e formas seguintes […]”.
 
Este documento, com data de 15 de Novembro de 1514, é ponto fulcral de mudança e transição no estudo da História da Vila de Cascais a nível demográfico. Por um lado, ele comprova a importância da vila para os monarcas das primeira e segunda dinastias, quer seja a nível militar e estratégico, como defesa do estuário do Tejo perante as ameaças Almorávidas, quer a nível político. Por outro lado, ele diz-nos que Cascais possuía já um número razoável de habitantes que lhe permitia alguma expressão ao nível dos centros de poder governamental.
 
Assim, e tendo presente a subjugação administrativa a Sintra que Cascais sofria nessa época, podemos vislumbrar de forma mais linear a curva demográfica da vila durante este período já longínquo da História. É facto assente que desde épocas remotas existiria uma estrada que garantiria a ligação a Lisboa. Essa estrada, designada por “Caminho Velho” em certos documentos medievais, existiria já desde o tempo dos Romanos e possuiria uma extensão que estabeleceria a ligação a Sintra. Por este motivo, e porque Sintra dependia de Cascais e do seu porto para a exportação, pois a única solução para transportar produtos perecíveis para Lisboa era por mar, lógico seria que Cascai tivesse já nesta altura um contingente significativo de homens do mar que, conjuntamente com as suas famílias, se dedicassem à arte de marear. Tal facto é confirmado por José d’Encarnação e Guilherme Cardoso que se têm dedicado à procura da origem do povoamento do território Cascalense: “Uma das preocupações que temos é precisamente a de localizar os vestígios dessa via quando se faz qualquer urbanização no Concelho, uma vez que é muito provável que existisse, e existia mesmo, não temos dúvida nenhuma (temos documentos medievais que nos falam por exemplo na via velha, no caminho velho). É, portanto, possível que esse caminho velho fosse um caminho já utilizado no tempo dos Romanos – tinha forçosamente de existir uma estrada de Lisboa para Cascais, pois ao contrário do que se pensa, eles preferiam afastar-se do mar”.
 
Cascais foi, por isso, causa e efeito da reconquista Cristã, pois que, com o seu porto, contribui fortemente para o desembarque das naus da referida reconquista. Por outro lado, essa mesma reconquista contribuiu por sua vez para um desvanecer das fronteiras a Sul, e a consequente estabilidade que dela resultou contribuiu de forma decisiva para a facilitação do povoamento do território que, a par com a expansão demográfica e económica da Europa, vêm facilitar o desabrochar de novas povoações e o crescimento das já existentes.
 
Como é evidente, nem todos concordam linearmente com esta premissa. Oliveira Marques, por exemplo, contradiz-se ao referir-se a Cascais da seguinte maneira: “Apesar de todos estes povoamentos, o território de Cascais – como aliás toda a região litoral a Ocidente de Lisboa – era considerada como terra bravia e despovoada nos começos da nacionalidade”. Mas mais à frente, na mesma obra, acaba por atestar a importância de Cascais ao sublinhar a relevância da entrega do “Sturil”, actual lugar do Estoril, a Estevão Eanes, valido de Dom Afonso III, que comprova a importância daquele que é hoje o território municipal Cascalense.
 

 

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