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Santa Maria de Pitões das Júnias no Coração da Portugalidade

por cascalenses, em 09.01.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A monumentalidade do património Português, mercê da grandiosidade dos estilos arquitectónicos e da riqueza do património artístico, assenta sobretudo na ânsia permanente que o Homem sente na sua busca pela eternidade. As grandes obras, definidas pelo carácter que resulta do impacto que se imagina que terão sobre as gerações vindouras, é quase sempre uma espécie de manobra desleal para enganar o tempo, eternizando na pedra, nas cores e nos sons as memórias daqueles que a nós se seguirão na implacável caminhada pelo Mundo que todos fazemos. Procura-se ficar marcado, na ilusão de que as obras monumentais são a melhor forma de fugir ao inexorável esquecimento imposto pela passagem do tempo.
 
Mas existem outros monumentos, provavelmente imaginados e construídos por gente especial, que fogem a este estereótipo. E, por vezes, nem por isso são menos eficazes na geração do carácter extraordinário do impacto que provocam naqueles que os vão visitar.
 
 
 
 
É precisamente isto o que acontece com o Monteiro de Santa Maria de Pitões das Júnias, situado no Concelho de Montalegre na Serra do Gerês. A magnificência da paisagem envolvente, aliada ao carácter minimalista do monumento, define um cenário de profundo significado simbólico que, por sua vez, gera um impacto desmesurado sobre os seus visitantes.
 
Construído originalmente no Século VIII, ainda antes da formação da nacionalidade, o Mosteiro de Santa Maria de Pitões das Júnias seguia originalmente os parâmetros de simplicidade da Ordem Beneditina. Os afloramentos graníticos onde se insere, conjugados com a força telúrica das águas que o envolvem e do verde imposto pela vegetação ali existente, conjugam-se num quadro de grande isolamento, promovendo a interioridade e a ligação directa à vontade de Deus.
 
Em Pitões das Júnias, nos primeiros tempos após a sua construção, os frades que ali residiam dedicam-se exclusivamente à pastorícia, dela dependendo para a sua mais basilar sobrevivência. Perdidos nas penedias enormes que se erguem por aqueles ermos, os religiosos entregam literalmente o corpo e a Alma à vontade do Pai, numa ânsia de ascensão em cuja brutalidade dos elementos e da natureza encontravam pistas que lhes permitiam desvendar os segredos do Universo. Era pois das virtudes interiores, ressurgidas através dos exercícios espirituais que a envolvência do mosteiro naturalmente promovia, que se consagrava aquele espaço, do qual estavam apartados todos os apelos mais basilares dos instintos e, inclusivamente, a humanizada vontade perene de perpetuação no tempo, cujo mote servia de motor à religiosidade de outros lugares.
 
São os valores essenciais do trabalho, da humildade e da oração, pilares estruturais da prática de São Bento, quem melhor define o carácter pétreo deste extraordinário mosteiro. Mesmo depois de ter passado a seguir a regra de Císter, seguindo a mesma lógica de combate ao abandalhamento espiritual que Cluny estava a impor na Europa do seu tempo, é na singeleza do assumir a pobreza e no desapego relativo à materialidade, que os monges de Pitões das Júnias constroem o seu legado, bem patente nas obras de remodelação da sua igreja e no carácter místico do seu adro. Ainda hoje, quase mil anos depois desses tempos que nunca chegaram a passar, se sente por ali o sopro fecundo do vento da montanha, recriando um som de fundo que quase obriga ao recolhimento imediato. Sendo o mesmo que ouviram os monges que ao longo de muitos séculos por ali deambularam, limpando-se das negras memórias pessoais que cada um transportava e apelando em conjunto à misericórdia imensa de Deus Pai, é crível que a eternidade se tenha imposto a este lugar. Nas lajes que formam o seu chão antigo, ouvem-se ainda os passos de todos os que por ali circularam. E nas paredes pétreas das ruínas de sobreviveram à história longa pela qual passaram, ecoam os cânticos e o sopro sibilino das orações que ali foram rezadas…
 
 
 
 
A invocação a Santa Maria, neste caso específico à Senhora da Conceição, padroeira e Rainha de Portugal, conflui da mesma maneira para um apelo quase herético à ritualidade mais ancestral. De facto, se nos ativermos ao carácter profundo e simbólico desta construção, depressa percebemos que o segredo mais perene daquelas paredes enegrecidas pelo tempo, assenta num esforço de abdicação das causas comuns do Homem para tornar possível a consagração dos rituais de limpeza que abrem a Alma e permitem ascender à sabedoria divina. O caminho, mais do que o destino final, são aqui assumidos como pedra angular, sendo que a evocação à Senhora da Conceição, rosa crucificada pela entrega do seu próprio Filho aos desígnios do seu Pai, alimenta uma dinâmica de Fé cuja sabedoria intrínseca aponta para a dualidade essencial da existência da própria Alma humana. Com carácter profundamente individual, este caminho é feito na rota da transitoriedade, tal como a vida e a morte, num jogo do qual nenhum de nós se pode alhear, dita destinos para cada um individualmente, que são transformados pela duração sempre curta da caminhada que todos por cá teremos de concretizar.
 
Simples na sua formulação espacial, até pelo carácter firme de São Bento e de Císter, é o isolamento que mais marca a monumentalidade do espaço. Construído em estaleiros que aproveitaram os materiais existentes no local, aprofunda o ascetismo primário dos que o imaginaram e criaram, sublinhando o valor da entrega e a pobreza que transversalmente caracterizou todos aqueles que por ali habitaram.
 
Abandonado no Século XIX, quando foram extintas das ordens religiosas, o antigo mosteiro passou a ser utilizado pela população local como Igreja Paroquial, perdendo progressivamente o carácter simbólico que o transformava num sítio muito especial. A agrura do clima, complementado com o carácter inócuo do comportamento da ribeiro que o atravessa, foram paulatinamente degradando o espaço que é hoje uma mera ruína que palidamente consegue traduzir a grandiosidade do que ali se passava.
 
 
 
 
O Mosteiro de Santa Maria de Pitões das Júnias, ao qual se chega depois de uma caminhada de poucos mais de dois quilómetros desde a povoação que lhe dá o nome, é uma das mais extraordinárias pérolas do Património Nacional,  sendo um dos mais inesquecíveis e impactantes recantos encantados de Portugal.
 
Pena é (ou se calhar não) que se mantenha tão longe das rotas normais dos muitos que visitam o Parque Nacional da Peneda-Gerês e, sobretudo, da memória colectiva que corporiza da Identidade de Portugal. 

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publicado às 16:03

O Castelo de Castro Laboreiro (Parque Nacional da Peneda Gerês)

por cascalenses, em 25.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem lugares que estão prenhes de memórias e de vida. Neles subsistem memórias ancestrais, marcadas nas rochas firmes que as sustentam, em laivos de ritos que se repetem milenarmente e que quase tocam a eternidade. Castro Laboreiro, no Concelho de Melgaço, no Norte de Portugal, é um excelente exemplo de um espaço assim. Nele convivem muitas gerações que se cruzam nos seus quereres, nos seus sonhos e nas suas emoções, repetindo-se num monumento cíclico eterno que surge perenes nas paredes, no chão e nas rochas do lugar.
 
Com uma história ancestral, provavelmente contemporânea do nascimento da espécie humana na Terra, Castro Laboreiro ganha o seu topónimo do seu velho e vetusto castelo – ou castro – que estrategicamente colocado no topo do morro nos deixa perceber que importância teve este lugar na definição dos limites territoriais do nosso País.
 
 
 
 
O castelo ou castro, atribuído na literatura mais antiga ao período romano, surge durante o romantismo como sendo de origem árabe, facto que se sustenta na efectiva influência que os norte-africanos tiveram na consolidação do espaço territorial do El-Andaluz. Sabe-se hoje, no entanto, que o castelo é muito mais velho do que isto e que, no deambular transumante da pré-história, seria já um local de extrema importância, pelo menos durante o período de veraneio.
 
As suas raízes celtas, imbuídas no espírito das muitas tribos que aqui estavam sedeadas e que se digladiavam de forma permanente protegendo-se nos fortes e contra-fortes que as serranias proporcionavam, é uma certeza inultrapassável que ajuda a percebe melhor a forma consentânea que o espaço apresenta quando relacionada com a existência ambígua dos seus primeiros ocupantes.
 
Hoje, milhares de anos depois desse período áureo de Castro Laboreiro, a população continua a viver de forma cruza entre as   “inverneiras”, ou seja, os espaços de habitação situados nos vales que envolvem o lugar, como Bico, Cailheira, Curveira, Bago de Cima e Bago de Baixo, Ameijoeira, Laceiras, Ramisqueira, João Lavo, Barreiro, Acuceira, Podre, Alagoa, Dorna, Entalada, Pontes, Mareco, Ribeiro de cima e Ribeiro de Baixo e as “brandas” os espaços ocupados durante o período estival e situados na regiões mais altas que envolvem a localidade. As principais “brandas” são Vila, Várzea Travessa, Picotim, Vido, Portelinha, coriscadas, Falagueiras, Queimadelo , Outeiro, Adofreire, Antões, Rodeiro, portela, Formarigo, Teso, Campelo, Curral do Gonçalo, Eiras, Padresouro, Seara, e Portos. O ritual de passagem de trecos e tarecos entre as duas casas pelas famílias castrejas, repete-se ainda hoje numa espécie de ritual cíclico que perpetua a própria Alma Lusitana neste lugar tão especial.
 
 
 
Os dólmenes situados junto à localidade, ainda hoje motivo que redobra o interesse por uma visita, atestam e testemunham a herança simbólica e sagrada de um espaço que provavelmente só assim explica a sua longevidade.
 
De facto, com uma situação geográfica extrema, Castro Laboreiro viveu durante milénio num isolamento muito profundo, facto que contextualiza a excelente preservação dos seus monumentos mas, também, a manutenção quase se poderia dizer inusitada de uma estrutura de pensamento que se consolida à medida em que os séculos vão passando.  Certo, no entanto, é que as agruras do tempo e do clima e até a própria produtividade da terra são insuficientes para explicar a  teimosia humana em permanecer por aqueles lados, isto se não tivermos em linha de conta a beleza natural que envolve todo o espaço e que é de tal forma impactante que se torna difícil de descrever.
 
Situada em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, que seria por si só motivo que chegaria para explicar o interesse de a visitar, a localidade de Castro Laboreiro vale ainda a pena pelos seus excelentes restaurantes e magnífica gastronomia que oferecem aromas e sabor a uma visita ao local.
Mas no alto, alcandorado nas penhas que protegem a fronteira, o castelo sobrevive ainda, assente nas ruínas que sobreviveram a um raio que o destruiu por completo no Século XIV e que Dom Dinis mandou reconstruir.
 
O caminho íngreme e difícil, num acesso que só é possível fazer-se durante o Verão, transporta-nos até a mais de 1000 metros de altura, deixando antever, aqui e ali, pequenos panos das antigas muralhas. Só quando chegamos lá acima, já bem perto das enormes rochas onde está alicerçada a entrada principal, começamos a perceber o assombroso daquele local. Uma paisagem sem fim, num conjunto de planos infinitos que reforçam a sensação de pequenez e de insignificância que este tipo de locais sempre nos trás.
 
 
 
Classificado como Monumento Nacional desde 1944, o Castelo de Castro Laboreiro foi conquistado por Dom Afonso Henriques em 1141 que lhe terá construído uma torre de menagem isolada que lhe conferiu a configuração tradicional dos castelos românicos.
 
Depois de consolidada a Nacionalidade e de terminadas as lutas fratricidas que deram corpo à independência de Portugal, Castro Laboreiro nunca perdeu da sua importância estratégica, facto que se percebe através de uma análise linear à forma como se situa a sua muralha relativamente à fronteira galega. No seu interior, abaixo do marco geodésico que ocupa o espaço onde estava outrora a torre medieval, existe ainda o redil onde se juntava o gado das redondezas, protegido pelos muros grossos das investidas sempre terríveis de inimigos e animais selvagens.  
 
Em suma, Castro Laboreiro e o seu velho castelo são uma das pérolas inesquecíveis de Portugal. Valem a distância necessária para lá chegar e justificam por si só o passar por lá uns dias de férias.
 
 

 

 

 

 

 

 

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