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cascalenses

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A Ponte Romana da Catribana em Sintra

João Aníbal Henriques, 02.05.25
 

 

por João Aníbal Henriques

Os vestígios que restam da ocupação romana no actual território português multiplicam-se e são bem conhecidos de todos. Tal facto fica a dever-se à importância que a presença romana teve na organização territorial e administrativa em todo o espaço imperial e, sobretudo, à rede de comunicações existente entre Roma e as diversas partes que compunham o seu território.

O ditado tradicional que nos diz que “todos os caminhos vão dar a Roma” traduz exactamente este pressuposto, uma vez que a rede viária romana, assente em todo o império de forma a garantir a conectividade administrativa e comercial com a sede do poder itálico, foi a grande responsável pela fixação das populações, pela sua prosperidade e também pela sua capacidade de se integrar no universo cultural e político em que a Cidade de Roma servia de exemplo. A PAX Romana, espécie de símbolo máximo de integração e bem-estar, é a base desse sentimento de prosperidade, riqueza e paz que assegurava a todos os cidadãos as vantagens de se integrarem no todo imperial.

 

 

Mas de todas as peças patrimoniais que ainda podemos ver deste período, as velhas pontes romanas são aquelas que maior fascínio exercem sobre os visitantes. O seu carácter robusto e o impacto que têm na paisagem, associado à sua importância para a organização dos territórios, fez com que fossem bem tratadas ao longo das eras, sofrendo obras sucessivas de conservação que procuravam preservar a sua utilidade prática enquanto peças essenciais para garantir a mobilidade por parte daqueles que por ali residiam.

Parte integrante do imaginários das mais antigas aldeias portuguesas, as pontes romanas envolvem-se numa mística plena de charme e carregam consigo os pressupostos maiores da memórias e da identidade dos portugueses e de Portugal.

No Concelho de Sintra, junto à aldeia da Catribana, podemos visitar a velha ponte romana e ainda um troço bem conservado da antiga calçada medieval que lhe dava acesso. O monumento, classificado como Imóvel de Interesse Público através do Decreto n.º 26-A/92, DR, 1.ª série-B, n.º 126, de 01 junho 1992, sofreu recentemente obras de conservação levadas a cabo pela Câmara Municipal de Sintra e apresenta-se em excelente estado de conservação.

Com um arco que sustenta a passagem sobre a Ribeira de Bolelas, a Ponte da Catribana fazia parte da rede viária que ligava o actual território sintrense à estrutura de comunicações do império. E, no local onde se insere, suportava em termos de acesso a ligação entre a velha azenha, onde se moíam os grãos de cereal para fazer a farinha utilizada para alimentar a população e para suportar a estrutura comercial que dele derivava, garantindo simultaneamente o acesso ao denominado “castelo velho” no topo da colina, ou seja, o que resta do antigo povoado que durante a antiguidade terá servido de local de residência para aqueles que viviam por estes lados.

 

 

O conjunto patrimonial da Catribana, composto pela sua extraordinária ponte romana, pela calçada medieval, pela azenha e pelo antigo castelo, é hoje um ex-libris da União de Freguesias de São João das Lampas e Terrugem, sendo visitada por milhares de curiosos que ali se dirigem procurando encontrar as pistas patrimoniais que lhes permitem interpretar a História deste lugar.

O seu enquadramento paisagístico, em plena área protegida do PNSC, compõe um quadro idílico com os montes verdejantes que se multiplicam até perder de vista e o marulhar onírico das águas da ribeira a correrem por entre as pedras marcadas por milhares de anos de passagem.

Visitar a Ponte Romana da Catribana, percebendo a sua importância enquanto estrutura de base na organização política e administrativa do Império Romano, é essencial para que se enquadre a capacidade de investimento que esteve associada à sua construção na posterior integração plena das comunidades que ali viviam e que delas usufruíram ao longo de dois milénios. Nesse período, e por distante que Catribana estivesse da sede imperial, foi possível intervir de forma estrutural no espaço criando condições para que o sentimento de pertença àquele todo-imperial fosse convictamente consolidado a partir de um monumento que alia a sua funcionalidade pragmática enquanto pilar de comunicação à sua função simbólica que promove o sentido de pertença e de integração.

Se não tivesse sido construída naquela época, toda a actual paisagem envolvente seria diferente e a importância da presença romana por estas paragens teria sido muito inferior aquela que ainda hoje sentimos como essencial para a consolidação da nossa Identidade Nacional.

Até porque a romanização foi assumidamente muito mais o resultado da integração de toda a comunidade num projecto comum de onde todos tiravam benefícios, do que uma subjugação político-administrativa pela força como aquela que daí por diante foi usualmente a opção tomada pelas civilizações e pelos povos que tiveram aspirações imperialistas neste Mundo em que ainda vivemos.

Ficam 2000 anos de lições e de muito a aprender, neste quadro de extraordinária beleza  e deslumbramento que a Ponte da Catribana ainda nos pode oferecer!

 

Mouros e Romanos em Assentiz – Rio Maior

João Aníbal Henriques, 19.04.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Sendo certo que as memórias mais antigas do actual Concelho de Rio Maior se perdem nas brumas do tempo, existindo vestígios antiquíssimo de actividade humana que remontam ao primórdio da instalação dos primeiros homens sobre a Terra, é mais certo ainda que tal ancestralidade promove uma história que mistura factos com lendas, recriando uma espécie de cenário maravilhoso que enriquece a Identidade local.
 
Em cada canto e recanto destas terras, provavelmente em estreita ligação com a fertilidade do solo e com a sua extraordinária capacidade produtiva, existem tesouros escondidos e memórias ocultas de princesas mouriscas que de tempos a tempos insistem em nos maravilhar.
 
É o que acontece em Assentiz, a mais recente freguesia do município de Rio Maior. Situada em zona próxima da Vila da Marmeleira, e beneficiando da mesma ligação férrea à força telúrica da terra, Assentiz desenvolve-se sobretudo a partir do Século XVIII, acompanhando o desenvolvimento da casa senhorial que mais tarde dará lugar ao Morgado de Assentiz. É, pois, esta ligação profunda à terra e aos ciclos da natureza que vem determinar os fluxos de desenvolvimento do local, muito embora os vestígios que subsistem, bem como a documentação que se preservou, permitam supor que a génese de tudo surge em momento bastante anterior.
 
 
 
 
A presença romana em terras de Rio Maior, bem atestada pelos vestígios arqueológicos existentes, desenvolve-se a partir da antiga estrada que ligava Lisboa, Santarém e Coimbra, determinando assim que o atravessamento daquelas que são agora as fronteiras desta concelho levassem ao reconhecimento da sua riqueza e fertilidade.
 
De facto, junto à actual localidade de Assentiz, podemos encontrar os restos do que popularmente se designa como a “Ponte Romana”, ligando as margens do ribeiro que por ali passa. A Ponte Romana de Assentiz, originalmente com dois arcos que um cataclisma acontecido no Século XVIII terá reduzido a um só, será assim um dos vestígios centrais da presença dos invasores itálicos nesta parte do território rio maiorense. Mas, tal como acontece amiúde com este laivo de deslumbramento lendário que envolve as terras de Portugal, parece que a dita estrada não passava exactamente neste lugar e, nesse caso, a ponte em questão terá uma origem diferente daquela que a sabedoria popular lhe atribui.
 
Qualquer que seja o caso, é importante ressalvar que a memória associada a este monumento é indestrutível, tal como o são os inúmeros vestígios da presença dos Romanos em território de Rio Maior. E a ponte, tenha sido construída durante a ocupação Romana ou, como alguns investigadores advogam, somente durante o reinado da Rainha Dona Maria I, já em pleno Século XIX, contribui de forma decisiva para o reforço da Identidade local, promovendo a ligação intrínseca entre o povo que ali habita e as memórias ancestrais que deram lugar à construção da monumentalidade actual.
 
 
 
 
No caso da Fonte Mourisca, local de rara beleza que mistura a sua lendária origem com um enquadramento cenográfico sem par, a situação é tendencialmente idêntica. Reza a tradição popular que a fonte será de origem moura e terá sido construída alguns anos antes da reconquista cristã do território de Portugal. Mas, se na sua formulação simbólica a dita fonte carrega consigo o peso das inúmeras lendas que povoam a imaginação de quem visita o local, a sua estrutura, associada a um tanque cuja origem terá estado no processo de desenvolvimento agrícola que o senhorio de Assentiz terá trazido para a povoação, parece apontar para uma origem mais recente, na qual surge incauta uma ligação ela sim antiga aos ritos da água na sobrevivência rural do seu povo.
 
Qualquer que seja a realidade associada ao monumento, certo é que as lendas sobrevivem ao real e, no caso da Fonte Mourisca de Assentiz, povoam o imaginário popular de histórias que se misturam com factos numa amálgama de deslumbramento que não deixa ninguém indiferente.
 
 
 
 
Diz a lenda que no local onde actualmente se situa a fonte, terá existido um antiquíssimo assentamento mouro que teia como função defender aquelas terras da investida dos Cristãos. E que, no fulgor da batalha empreendida pelo primeiro Rei de Portugal, terão os mouros fugido deste local, deixando atrás de si uma imensidão e tesouros que, apesar de nunca terem sido vistos, são desde logo pilares estruturais do imaginário popular. De acordo com esta história, existiria por ali, provavelmente aproveitando a nascente que alimenta a estrutura actual, uma gruta profunda que era utilizada como espaço para guardar material. E os mouros, perseguidos de forma indefectível pelo cavaleiros cristãos, optaram por utilizá-la para ali esconder as riquezas imensas que haviam conseguido alcançar durante a sua estada em terras de Portugal.
 
Ora, como é fácil de perceber, até porque a presença sarracena nestas terras se prolongou ao longo de muitos séculos, não se trata propriamente de uma utilização temporária de um espaço no qual as pilhagens serviam de instrumento único para a obtenção de riquezas sem igual. Pelo contrário. Os muitos séculos da presença islâmica indicam precisamente um assentamento longo e definitivo, com ciclos de vários gerações a explorar a terra e o espaço e a considera-lo como coisa sua definitivamente e em carácter de permanência final. Assim sendo, qualquer tesouro extraordinário que os Árabes tenham deixado em Assentiz derivaria da força do seu trabalho, da sua dedicação à terra e dos ciclos de riqueza que geracionalmente haveriam de resultar da pacatez da sua vida rural. Isso explica a herança ao nível das técnicas agrícolas, dos pressupostos linguísticos, dos usos e costumes, etc.
 
 
 
 
Por isso, e contrariando a voz popular, a haver tesouro, nunca ele poderia ser o manancial extraordinário de riquezas que a lenda faz por descrever…
 
O conjunto formado pela fonte com as suas três bicas, os tanques de lavagem de roupa e a mãe-de-água que os abastece foi totalmente recuperado nos últimos anos e apresenta-se hoje como um bom exemplo do que com o património se pode fazer. Ponto central da vida comunitária de Assentiz, uma vez que durante muitas décadas era ali que a população ia buscar a sua água e era também ali que se lavava a roupa de toda a gente, a fonte é hoje um ponto incontornável nas memórias da terra.
 
 
 
 
Os romanos e mais tarde os mouros, que certamente deambularam noutros tempos por estes espaços extraordinários do município de Rio, decerto teria dificuldade em reconhecer o Assentiz que hoje temos.
 
Mas, mais importante do que os factos que contrariam as lendas, é que neste dois monumentos ímpares de Rio Maior, estão concentrados os arquétipos ancestrais da Identidade deste concelho bem como os sonhos, as memórias e o ensejo das suas gentes.
 
E é isso o mais importante em qualquer terra!