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cascalenses

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A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo em Oeiras

João Aníbal Henriques, 20.06.25

 

por João Aníbal Henriques

Quem entra por mar na Barra do Tejo, provavelmente procurando chegar à sempre mítica Cidade de Lisboa, orienta a navegação através da interpretação dos sinais que vai vendo ao longo das margens. O primeiro e mais importante, definindo a rota que permite discernir a entrada na Grande Barra, é o Alto de Caspolima, onde hoje se ergue a Vila de Porto Salvo.

O próprio topónimo desta importante freguesia do Concelho de Oeiras é, aliás, a tradução linear dessa relação que aquele espaço tem com o mar e com o acesso a Lisboa através da Barra do Rio Tejo. Porque, diz uma das correntes que procura explicar a origem da localidade, os marinheiros entendiam o avistamento daquele morro como sinal da chegada em segurança ao Porto de Lisboa. E, dessa maneira, assumiram então que a inovação de Nossa Senhora de Porto Salvo seria aquela que melhor definiria o ensejo de chegar de forma segura ao seu destino.

 

 

 

Na sua versão mais romântica, provavelmente misturando os resquícios de uma lenda antiquíssima com a realidade vivida neste local desde tempos imemoriais, terão sido uns marinheiros da Carreira das Índias que, num dia particularmente difícil de grande temporal vivido angustiosamente no Cabo das Tormentas, terão feito um voto a Nossa Senhora prometendo construir uma pequena ermida no morro de Caspolima caso a sua protecção lhes permitisse regressar em segurança a Lisboa. Dessa maneira, seria essa a origem da construção da airosa capela que ainda hoje marca de forma charmosa a paisagem naquelas terras.

O topónimo antigo – Caspolima – terá então caído em desuso, à medida em que crescia a comunidade de devotos seguidores da protecção que Nossa Senhora de Porto Salvo sempre oferece a todos os navegadores que a invocam.

Segundo informação da própria Junta de Freguesia de Porto Salvo, era usual que os navios que procuravam chegar ao Porto de Lisboa disparassem sempre uma salva de 21 tiros quando avistavam a pequena capela, homenageando assim a padroeira da localidade e consagrando-lhe o sucesso das suas viagens. De acordo com aquela Autarquia, esse costume prolongou-se ao longo do Século XIX tendo progressivamente desparecido ao longo da centúria seguinte.

 

 

Vincadamente inserida na tipologia própria das antigas capelas rurais que proliferam nas imediações rurais do termo de Lisboa, a Capela de Porto Salvo apresenta, no entanto, características únicas que a demarcam das suas congéneres. Basicamente porque, com o crescimento desmesurado que conheceram as terras de Oeiras ao longo do Século XVIII, ela tenha sido reconstruída, ganhando detalhes decorativos que se afiguram deveras marcantes. É o caso dos painéis de azulejos que decoram a sua fachada e que retratam os milagres atribuídos a Nossa Senhora de Porto Salvo, de autoria atribuída a Oliveira Bernardes e datados de 1740, bem como a construção do alpendre adossado ao corpo principal que oferece ao lugar um toque de requinte que acompanha ao aumento exponencial do número de devotos que procuravam o espaço para expressar a sua Fé em Nossa Senhora.

Com origem definida para o Século XVI, consagrando assim a versão lendária da sua fundação e a ligação ao mar e ao grande empreendimento dos Descobrimentos Portugueses, a Capela de Porto Salvo foi alvo de dois grandes momentos de ampliação em épocas posteriores que alteraram de forma quase radical a simplicidade original da antiga ermida seiscentista.

 

 

O que não se alterou, senão no multiplicar devocional, foi a orientação primitiva que se associa a este espaço. O cunho mariano, onde Nossa Senhora, Mãe de Jesus, se assume como fulcro de Fé e fonte de protecção, está plasmado de sobremaneira nos várias elementos arquitectónicos que actualmente caracterizam este templo. No interior, ao longo da sua única nave, a capela integra uma interessantíssima descrição em azulejos azuis e brancos da Fuga para o Egipto, numa alusão, provavelmente algo velada, da forma como a intervenção da Mãe-Primordial é ela própria o garante da segurança dos seus filhos. E em todo o espaço sagrado, são as litanias a Nossa Senhora que melhor descrevem essa entrega devocional à Rainha de Portugal, na certeza bem vincada que quem se lhe dedica fica imediatamente protegido de maiores males.

O recinto da capela, envolvido por um murete que acompanha as práticas devocionais durante os períodos de festa em honra da padroeira, permite-nos perceber que a expressão simbólica da religiosidade local desde sempre foi acompanhada de uma movimentação expressivamente pagã, com festas e arraial que prolongava pela localidade a singeleza dos monumentos religiosamente mais relevantes.

 

 

A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo é actualmente marco efectivo da forma como se consolidou a vivência humana no território municipal oeirense. E, nas suas características formais, define com rigor a capacidade que localmente se criou de mesclar o paganismo ancestral às práticas religiosas cristãs e católicas, recriando um percurso de continuidade que afirma de sobremaneira o respeito pela diferença de opiniões e de crenças que permanentemente por aqui grassou.

É de visita obrigatória para quem pretende perceber a importância que o Termo de Lisboa teve no desenvolvimento renascentista de Portugal, e na forma como a devoção religiosa das suas gentes foi fundamental para formatar socialmente a sua estrutura comunitária.

 

 

Capela de Nossa Senhora da Piedade da Quintã em Porto Salvo

João Aníbal Henriques, 26.02.25
 

por João Aníbal Henriques

A primeira impressão que evoca a Capela de Nossa Senhora da Piedade, na estrada que liga Oeiras a Porto Salvo, é de enorme estranheza. Não só pelo contraste latente entre a beleza telúrica daquele espaço e o estado de abandono e ruína em que se encontra, como também pela notória qualidade da sua construção, bem visível nos enormes blocos de pedra que foram utilizados para a sua edificação.

A data de 1737, colocado na arcaria situada na fachada principal, terá sido porventura a data da sua construção original, apesar de a Junta de Freguesia de Porto Salvo nos informar que noutros tempos existiriam no seu interior magníficos painéis de azulejos datados do final do Século XVIII, e posteriores ao grande terramoto de 1755, que representavam Jesus Cristo a Caminho do Calvário e a Descida da Cruz.

 

 

O culto a Nossa Senhora da Piedade, aqui integrado no contexto agrícola da antiga Quinta da Quintã, onde a capela se integrava, surge perfeitamente em linha com outras obras existentes na área da grande Lisboa. E aqui, literalmente no enclave entre as grandes propriedades exploradas no Século XVIII pelo Marquês de Pombal, ganha especial relevo esta ligação teúrgica entre a ruralidade contextual do edifício e a própria vivência social das comunidades que habitavam nas imediações ou que ali trabalhavam sazonalmente.

A dependência relativamente aos ciclos da natureza, sempre incontornáveis na perspectiva prática e pragmática da vida, só pode amenizar-se através da Fé e da oração. E, quando assim é, em Porto Salvo como em todos os espaços onde a memória saloia perdura, são sempre os rituais marianos que enquadram a esperança comunitária.

A figura de Nossa Senhora, que piedosamente nos transporta para os planos mais elevados da espiritualidade, ganha, em contexto rural, um cunho quase mágico, transformando-se a Mãe de Jesus histórica, na personificação sempre presente da mãe espiritual de toda a comunidade. É dela que dependem as colheitas e a consequente fartura de alimentos. Ou, em situação inversa, o castigo dos maus anos agrícolas com o sempre presente registo de fome da comunidade. Como é evidente, sem que qualquer dessas situações dependesse da aplicação ou do trabalho do homem do campo, ficando inteiramente ao dispor da vontade de Deus.

 

 

Nossa Senhora da Piedade, a grande medianeira entre a Terra e o Céu, é igualmente uma figura mágica. Porque tem a capacidade de, estando junto de Deus, influenciar as suas decisões relativamente aos seus filhos. Por isso a prece aqui proferia é sempre especial, assumindo a imagem venerada o papel de uma verdadeira escada que permite ao Ser Humano subir até aos píncaros do Céu. Scala Coeli, a alquímica escada que faz das preces aqui conscientemente rezadas a verdadeira Ciência de Maria… alquimia… a capacidade de transformar terra, ar e água em pão e de assim alimentar a comunidade.

Também conhecida como Nossa Senhora da Esperança, a evocação deste templo transporta-nos assim para esse registo rural, em linha com aquilo que foi a génese política do Município de Oeiras e, de alguma forma, explicativa da  dedicação e cuidado que recebeu da parte da Família Pombal.

Bem visível na sua fachada está a estrela de oito pontas, que fazia parte do Escudo de Armas do Marquês de Pombal e que aqui representa a rosa dos ventos, numa ambígua alusão que fica implícita ao movimento incontrolado dos astros e à sua capacidade de influenciar os destinos humanos sobre a Terra. Imaginada para ser vista em movimento, até porque a vida é um jogo que os homens não dominam por completo, a estrela que decora a Capela de Nossa Senhora da Piedade vem reforçar essa ligação imensa entre o destino deste lugar e a sua dependência de Deus.

O estado de abandono e ruína em que esta capela se encontra, possivelmente derivada do facto de a antiga Quinta da Quintã ter sido totalmente esfacelada no final do Século XX com a construção da imensa rede viária que a retalhou em várias partes, resultará também da sua pouca acessibilidade. Quem a quer visitar é obrigado a contornar as rotundas e, sem se enganar, desviar prontamente para o pequeno acesso que permite entrar no velho adro. Não é fácil e normalmente a visita vai-se adiando…

Mas vale a pena! Porque a riqueza do seu significado e contexto ajuda a perceber o que foi, o que é e o que ainda poderá vir a ser o pujante e sempre magnífico Município de Oeiras.