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A Capela da Sagrada Família do Pisão e a Mestria do Arquitecto João de Sousa Araújo

João Aníbal Henriques, 11.03.25
 

 

por João Aníbal Henriques

Com a evocação da Sagrada Família, num apelo pungente à sua função de acompanhamento e reintegração social que acompanhou sempre a actividade do asilo da Quinta do Pisão desde a sua criação em 1950, a Capela do Pisão, construída entre 1952 e 1954 pelos internados naquela colónia, conforme se lê no painel de azulejos colocado na fachada do edifício, é um dos mais significantes monumentos religiosos de Cascais.

Essa importância, muitíssimo superior à própria morfologia do edifício, inteiramente integrada no traço modernista que resulta da época em que foi construída e da precariedade de recursos que foram dispensados para a sua conclusão, fica a dever-se ao seu profundo significado simbólico. Era ali, durante muitas décadas, que os utentes internados nesta colónia encontravam algum apoio espiritual, de forma a amenizarem as agruras terríveis dos tempos passados encarcerados naquele espaço. Foi, por isso, durante quase meio século, símbolo de luz, de paz e de esperança (quantas vezes o único!) que ajudava aqueles seres humanos a manterem-se vivos espiritualmente.

Foi porventura por esse motivo que o saudoso arquitecto e pintor João de Sousa Araújo, falecido em 2023, se interessou pela obra da Capela da Sagrada Família. E, devoto como era, lhe dedicou o seu tempo e a sua arte produzindo o conjunto artístico que decora o templo e que ainda hoje ali se pode ver. Os painéis da capela, produzidos localmente através de várias parcerias sociais, demonstram bem a sua permanente necessidade de colocar o seu génio e a sua arte a trabalhar a favor da comunidade. Foram os utentes que estavam internados no Albergue da Mendicidade da Mitra quem, sob a direcção do já então muito ilustre arquitecto Sousa Araújo, construíram a capela, concretizando artisticamente os esboços que ele havia preparado para o local.

 

 

Nascido em Lisboa em 1929 e falecido no Estoril em 2023, João de Sousa Araújo é figura incontornável na história artística de Portugal. Com uma obra ímpar ao nível da arte sacra, foi porventura o último dos grandes pintores portugueses nessa área, tendo dedicado a Deus uma parte essencial do seu génio artístico e do dom que sabia ter recebido do céu.

Formado em Arquitectura, Pintura e Escultura pela ESBAL (Escola Superior de Belas Artes de Lisboa), onde obteve uma média final de 20 valores, o Arquitector João de Sousa Araújo foi agraciado com diversos prémios desde o início da sua carreira.

Sendo igualmente professor, actividade que lhe permitia partilhar a excelência do seu traço, trabalhou no Banco de Portugal, tendo sido autor de várias maquetes que serviram, de base à criação de treze notas portuguesas.

Ao nível da arte sacra, para além de ter assinado projectos para várias igrejas e capelas um pouco por todo o Mundo, destaca-se o seu trabalho enquanto autor dos vitrais da nave central da Basília de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, bem como o painel do seu Altar-Mor. Entre 1968 e 1997, elabora para a Catedral de Nampula, Moçambique, os vitrais, o políptico da Capela do Santíssimo “Pacem in Terris”, e o políptico do Altar-Mor “Aparições de Fátima”.

Representado através dos seus trabalhos nas principais colectâneas de arte a nível mundial, destaca-se a presença das suas obras nas colecções particulares do Papa Paulo VI, do Rei Humberto II de Itália e do Imperador do Japão.

Através da ALA – Academia de Letras e Artes, foi autor do quadro monumental dedicado a Nossa Senhora da Aparecida, que foi oferecido ao Presidente do Brasil e que se encontra exposto no Palácio do Planalto, em Brasília.

Este ano de 2025, por iniciativa do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, e da Provedora da Santa Casa da Misericórdia, Isabel Miguéns, começa com o boa notícia do arranque das obras de recuperação das ruínas desta capela. A intervenção, que pretende repor integralmente as características do espaço original, integra ainda a recuperação do painel de azulejos produzido por Sousa Araújo para servir de fundo ao altar-mor da Igreja Matriz de Alcabideche e que, depois de ter ficado tapado pela construção do novo altar ali colocado no início do século, será recolocado na Capela da Sagrada Família, na Quinta do Pisão, resgatando assim a integridade artística da obra do pintor estorilense que desta maneira poderá ser vista pela primeira vez de forma completa no espaço em vias de recuperação.

Depois de muitos anos de pedidos, acções de sensibilização dos vários executivos que passaram pela edilidade ao longo dos últimos tempos, e de apelos que ultimamente sublinhavam já só estado de ruína avançada em que o monumento se encontrava, eis que a obra arrancou, incentivando a recuperação do significado profundo deste espaço e, sobretudo, contribuindo de forma decisiva para o resgate da Identidade Municipal!

Numa homenagem merecida e justa ao Arquitecto e Pintor João de Sousa Araújo, um dos maiores vultos de sempre da arte cascalense!

 

 

 

 

 

Câmara Municipal de Cascais devolve o Parque Natural aos Cascalenses – Novo Trilho da Ribeira das Vinhas

João Aníbal Henriques, 01.08.21

 

 

 

 

A Ribeira das Vinhas, com uma extensão de cerca de 9 kms entre a foz e a nascente, é uma das vias históricas mais importantes de Cascais. Durante muitos séculos, era por ali que chegavam à vila os produtos hortícolas produzidos no sopé da Serra de Sintra, bem como o leite que abastecia a população local. Com a recuperação do antigo trilho saloio, a Câmara Municipal de Cascais cumpre o desígnio ancestral de fazer chegar o Parque Natural de Sintra-Cascais à vila, devolvendo aos Cascalenses a possibilidade de viverem de forma plena e integral a excelência deste seu território…

por João Aníbal Henriques

A edilidade Cascalense chama-lhe a “revolução verde”, dando mote a um vasto conjunto de intervenções de requalificação ambiental que alteram radicalmente a paisagem municipal. Os parques urbanos, cruzados com a renaturalização de muitos cantos e recantos que acumulavam lixo e entulho há muitas décadas, juntam-se a um conjunto de projectos estruturantes desenvolvidos ao longo das principais ribeiras do concelho que, atravessando longitudinalmente o espaço municipal, minimizam os efeitos da diferenciação que existe entre o troço situado a Norte da A5 e aquele que acompanha a linha de costa.

 

 

No último fim-de-semana, cumprindo o programa de iniciativas previstas para o actual mandato autárquico, foi inaugurada a segunda fase do trilho saloio da Ribeiras das Vinhas. Com início simbolicamente colocado no pontão situado na Praia dos Pescadores, no coração da Vila de Cascais, o trilho prolonga-se ao longo de cerca de 8 kms até à Quinta do Pisão, já em plano parque natural, num circuito deslumbrante em termos paisagísticos mas pensado e delineado de forma a assegurar conforto e segurança a todos os que por ali desejem passar.

Com esta iniciativa, que permite calcorrear a pé, de bicicleta ou a cavalo uma das mais bonitas paisagens de Cascais, a Câmara Municipal recupera um dos caminhos mais antigos de Cascais.

 

 

De facto, desde tempos imemoriais que o trilho da Ribeira das Vinhas servia de via principal de acesso à vila. Era por ali, acompanhando o curso da água, que chegavam a Cascais os principais mantimentos hortícolas produzidos na zona saloia ao concelho. E era também pelo mesmo caminho que as lavadeiras carregavam a roupa suja dos cascalenses que era lavada e devolvida aos seus legítimos proprietários utilizando burros que faziam o trajecto sempre carregados.

Ao longo desta via, marcando a paisagem com o picotado branco da pedra calcária, moinhos e azenhas multiplicavam-se, utilizando sobretudo a força da água para a sua actividade alquímica de transmutar os cereais no pão que igualmente alimentava Cascais.

 

 

No que à coesão territorial diz respeito, o novo trilho agora inaugurado prova que é possível ultrapassar os muitos obstáculos artificiais que a urbanidade desregrada impôs a Cascais, gerando um desequilíbrio acentuado entre as várias comunidades que habitam neste espaço. O canal da A5, bem como a via-rápida designada como Terceira Circular, que até agora dividiam o território municipal em duas partes, são literalmente apagadas deste trajecto, oferecendo aos Cascalenses uma ponte natural que lhes abre as portas directamente para o melhor da excelência ambiental existente no espaço municipal.

A recuperação deste caminho, que altera o paradigma urbanístico em vigora há muitos anos e que coloca o parque natural dentro do casco urbano da vila, religa Cascais às suas origens, fomentando a criação de laços perenes entre a sua população e o território e consolidando a Identidade Local. Com uma força quase religiosa, porque recria laços de união que recuperam a génese do sentir municipal, este projecto é assumidamente o mais importante contributo para a qualidade de vida dos Cascalenses desenvolvido nos últimos anos.

 

 

Há um antes e um depois desta inauguração e Cascais revolucionou a sua paisagem com este excelente projecto. E os parabéns, na pessoa do Presidente da Câmara Municipal de Cascais, concentram-se igualmente na Vereadora Joana Pinto Balsemão que efectivamente lidera uma obra grandiosa que vai transformar radicalmente o futuro de muitas das próximas gerações de Cascalenses.

 

 

 

 

 

 

 

A Quinta do Pisão e o Casal de Porto Côvo em Cascais

João Aníbal Henriques, 09.03.15

 

 

 

por João Aníbal Henriques
 
Com uma situação extraordinária, nas faldas da Serra de Sintra e localizada a Sul da albufeira da Barragem do Rio da Mula, a Quinta do Pisão é um dos mais inesquecíveis recantos encantados de Cascais.
 
A sua História muito longa, que remonta (pelo menos) ao Calcolítico e à Idade do Bronze, pois existem vestígios de ambas as épocas na Gruta de Porto Côvo (ou do Rei), situada a Norte do antigo Casal de Porto Côvo, estende-se em ligação estreita aos ciclos da natureza e aos processos agrícolas mais tradicionais.
 
Desde sempre assente na fertilidade da terra, a exploração da Quinta do Pisão foi sempre a actividade primária naquele espaço no qual os cereais assumiram  especial importância. Como registo dessa actividade, que abastecia Cascais, restam ainda diversas estruturas agrícolas como eiras, moinhos e azenhas, associadas ao aproveitamento das águas que a atravessam de forma marcante vindas da serra. Paralelamente, principalmente nas zonas e lameiros que circundam o actual Centro Social, a horticultura aproveitava uma parte substancial dos solos da antiga quinta, actividade que era complementada com a produção de leite e com uma interessante exploração da rocha calcária que por ali abunda e que era utilizada como matéria-prima para a produção de cal, em vários fornos dos quais ainda subsistem vestígios no local.
 
Digna de uma nota especial, é ainda a presença da antiga Ermida de Nossa Senhora da Assunção (ver aqui a nota sobre a história e as memórias da Ermida de Porto Côvo), com raízes históricas que certamente serão pré-Cristãs e que, inserida no conjunto ritualístico matriarcal associado à Serra de Sintra (ou da Lua), era o espaço fulcral de uma devoção profunda que subsistiu até meados do Século XX e se inseria nos principais círios devocionais Cascalenses.
 
Actualmente reaproveitada como estrutura de lazer, a Quinta de Porto Côvo é um destino de excelência para passeios pedestres em família e, enquanto pólo aglutinador de uma biodiversidade extraordinária, um importante sustento para actividades pedagógicas a realizar pela comunidade educativa do concelho.