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O Cruzeiro do Calvário em Benavente

por cascalenses, em 03.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 

 

Localizado no antigo Rossio do Moinho de Vento, nas margens do Rio Sorraia e junto ao centro histórico de Benavente, o Cruzeiro do Calvário é uma das mais significantes obras da monumentalidade sagrada do Ribatejo. Construído em 1644 pela Irmandade dos Passos, num movimento assumido de caridade comunitária, representa os equilíbrios sócio-económicos que se geraram na localidade, mercê da influência que a Igreja Católica teve na definição dos arquétipos de pensamento ancestrais dos que ali habitavam. Em seu torno, depois de concretiza a ritualística que fomentava o espírito comunitário e agregava os benaventinos numa praxis comum, desenvolviam-se então as acções de apoio aos mais necessitados. Mas, ao contrário do que acontece com o mecenato comum nessa épocas nas grandes metrópoles urbanas, aqui o acto de partilha converge para um ritual de partilha que o cruzeiro atestava. A condição de vida, numa sujeição a Cristo que o Senhor dos Passos personificava, desenvolvia-se assim de forma natural como sendo parte integrante da própria existência. A diferenciação social, tão importante ainda hoje na definição social do Ribatejo, ressurge desta forma no seio da comunidade mas, ao contrário do que acontece noutros lugares, assumindo aqui uma cumplicidade cuja origem divina ninguém ousa questionar… Perdido actualmente nos limites da vila, numa entrega ao destino a que não é alheia uma paulatina anomia que vai grassando entre as novas gerações, o Cruzeiro do Calvário mantém incólume a sua importância, definindo-se como monumento maior para quem quiser conhece e perceber a História de Benavente. 

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publicado às 15:40

Santa Quitéria de Meca em Alenquer

por cascalenses, em 17.01.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A devoção a Santa Quitéria, perdida entre a lenda da mártir virgem que deu a vida para não entregar o corpo ao homem a quem o seu pai a tinha prometido em casamento contra a sua vontade e a ligação provavelmente pré-histórica aos cultos ligados à fertilidade e às tradições de origem agrícolas, encontra largo espectro no território português.
 
Em primeiro lugar porque, conforme reza a sua história, a virgem Quitéria, última das noves filhas a nascer de um único parto de Cálcia Lúcio e Lúcio Caio Otílio, o Governador Romano da Lusitânia de então, nasceu em Braga no ano 120. Depois porque, apesar de o seu martírio ter acontecido no actual território francês, ele vem cristianizar os antigos rituais ligados à protecção dos gados em ambiente rural, tendo sido adoptado na devoção popular com a santa cuja identidade aparece ligada ao combate à raiva.
 
 
 
 
Mas o mais estranho é que, a pouca distância de Lisboa, numa aldeia perdida no Concelho de Alenquer, a devoção principal se desenvolve numa desmesuradamente grande basílica situada na pequeníssima aldeia de Meca…
 
Quase parece, para quem ali chega pela primeira vez respondendo ao chamamento de visitar uma aldeia com o nome de uma das mais sagradas cidades muçulmanas, que a dita igreja é uma visão provocada por alucinações! Pela sua dimensão, pela qualidade da sua arquitectura, e pela localização privilegiada no centro do pequeno povoado rural, o templo parece ter sido transplantado para ali, depois de ser retirado de alguma sumptuosa cidade europeia.
 
Mas não foi. A Igreja de Santa Quitéria de Meca, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1949, foi construída no Século XVIII, com desenho do ilustre arquitecto Mateus Vicente e o alto patrocínio da Rainha Dona Maria I.
 
 
 
 
O local, escolhido por existir uma lenda que diz que ali apareceu uma imagem de Santa Quitéria nos idos de 1238 da era Cristã, é o mesmo onde terá existido uma pequena ermida dedicada à mesma santa e que terá sido construída em plena Idade Média para marcar o local do milagroso aparecimento. Em frente à igreja, no adro actualmente atravessado pela estrada nacional, existe ainda o cruzeiro em forma de redondel em torno do qual se realiza anualmente o ritual da bênção do gado. Como desde há milhares de anos, os agricultores das redondezas trazem para ali o seu gado, fazendo-o circular em torno do dito cruzeiro, onde são abençoados em nome de Santa Quitéria para evitar que contraiam a raiva.
 
Em termos arquitectónicos, a magnificência do traço de Mateus Vicente, o mesmo que sublinha as características da Basílica da Estrela, em Lisboa, da Igreja da Memória  e do Palácio de Mafra, terá respondido à devoção da rainha, que viabilizou a sua edificação, recuperando valores estéticos próximos do barroco tardio, definindo um quadro artístico que denota alguma continuidade relativamente ao que então se fazia em Portugal.  A Igreja de Santa Quitéria, com a sua fachada principal virada a Sul, ostenta uma placa gravada onde se refere que a construção foi terminada em 1799 e que o templo se tornou Igreja Matriz em 1847. É também aí que surge a menção ao lendário aparecimento da imagem da Santa no ano de 1238.
 
 
 
 
Mais interessante, mas de muito mais difícil explicação, é a designação toponímica da localidade onde a igreja foi erguida. Seguindo as orientações de alguns especialistas em fonética que se dedicaram ao estudo do nome de Alenquer, que terá derivado de uma palavra árabe, a ligação à cidade sagrada do Islão resultará da sacralidade da própria envolvência. Apesar de existirem poucos vestígios arqueológicos desse período no território em questão, a proximidade ao cone vulcânico de Alenquer, parte integrante do património geológico da Serra de Montejunto, terá determinado o desenvolvimento ancestral de sistemas complexos de ritualidade religiosa que perpetuaram no tempo as crenças mais antigas que dão forma aos arquétipos da humanidade.
 
O certo é que a aldeia de Meca, em Alenquer, carrega consigo a marca perene das festividades da Primavera que durante o período calcolítico foram peça angular na regulação das sociedades humanas que vieram a desenvolver-se no actual território de Portugal. Cultuada em Maio, em festivais de base religiosa marcados, até épocas muito recentes, pela presença das flores e do viço próprio que marca o final do Inverno, Santa Quitéria de Meca insere-se assim num conjunto de práticas religiosas que corporizam o principal alicerce cultural da Portugalidade.
 
 
 
 
Distando pouco mais de 50 quilómetros de Lisboa, num trajecto marcado pela passagem obrigatória pelo designado “presépio natural” de Portugal, ou seja, a Vila de Alenquer, impõe-se uma visita a Santa Quitéria de Meca. Pela sua beleza, pelo impacto que produz a quem se depara com a sua ostensiva e inesperada monumentalidade mas, sobretudo, pela estranheza e enorme interesse da sua história.

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publicado às 15:44

Nossa Senhora da Oliveira e a Igreja Matriz de Samora Correia

por cascalenses, em 30.11.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A inovação de Nossa Senhora da Oliveira, misto de várias lendas que congregam uma orientação devocional ancestral, surge em diversos recantos de Portugal. Sendo maioritariamente do Século XVIII, no que ao território nacional diz respeito, a lenda remete para histórias antigas que provavelmente conjugam práticas e rituais pré-Cristãos que foram sendo progressivamente integrados no culto Católico.
 
 
 
 
No caso de Samora Correia, onde a Senhora da Oliveira surge associado à lenda do aparecimento de Nossa Senhora a uma criança paraplégica a quem ajudou a curar-se, a lenda faz perdurar uma atípica ligação aos ritos relacionados com o sofrimento e a dor. De facto, Nossa Senhora da Oliveira é originariamente uma inovação que se fundamenta na Paixão de Jesus, na Palestina, onde o sofrimento extremo do Senhor é elemento indissociável da libertação da própria humanidade. E é esta inovação, que está amiúde relacionada com o sofrimento intolerável da Mãe de Cristo pelo calvário sofrido pelo seu Filho, que estabelece a relação sincrónica com a criança ribatejana bafejada com o dom da libertação do seu suplício precisamente pela Senhora da Dores (ou das Dores) simbolizada pela omnipresente oliveira.
 
 
 
 
A Mãe de Cristo, por extensão Mãe da Humanidade no seu todo, congrega no seu sofrimento a dor do seu Filho, reforçando dessa maneira a entrega total à causa da salvação da humanidade. Na Bíblia, Nossa Senhora surge descrita precisamente como o fruto privilegiado dessa árvore importantíssima para a qualidade de vida no médio-Oriente, dizendo-se mesmo que a sua glória é igual ao fruto da oliveira. A santidade de Nossa Senhora cumpre-se assim numa abordagem curativa, dela dependendo o povo para o desvanecimento das suas chagas.
 
A ligação a São Tiago, que também lendariamente terá trazido consigo a imagem de Nossa Senhora da Oliveira que se encontra em Guimarães, estabelece também ele relação com a invocação ribatejana, em virtude de a Igreja Matriz de Samora Correia, construída em 1721 pelo Padre Henrique a Silva Araújo, sobre as ruínas demolidas de um templo anterior, pertencer originalmente à Ordem e Santiago da Espada, cuja inovação surge em paralelo com a da Senhora da Oliveira.
 
Do espólio da igreja faz parte um importantíssimo património azulejar contemporâneo da sua construção que, apesar de bastante maltratado pelo terramoto de 1755 e, posteriormente, pelo grande terramoto que afectou a região do Ribatejo em 1909, apresenta ainda um nível artístico digno de uma atenção muito especial. Quase inteiramente dedicado a São Tiago, cujas armas da ordem militar se encontram pintadas no tecto da igreja, os painéis de azulejos foram assinados com a sigla P.M.P., retratando o “Mata Mouros” como monge-guerreiro, numa alusão directa ao esforço da reconquista Cristã e ao papel que ela teve na consolidação da Identidade Nacional.
 
 
 
 
Na fachada da igreja, a cerca de 14 metros de altura, nasceram (julga-se que de forma espontânea) uma oliveira e uma figueira, que do alto da sua vetustez, fazem parte da imagem de marca do monumento. Estando previsto o seu corte durante as obras de recuperação que recentemente tiveram lugar no templo, foi amplamente criticado pelo povo de Samora Correia que conseguiu que se mantivessem como parte integrante do mesmo.
 
Classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1957, a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira de Samora Correia, impõe-se na paisagem da cidade e no conjunto patrimonial ribatejano, apresentando um conjunto de incongruências ao nível da definição espacial e da sua localização que são bastante ilustrativas da realidade religiosa e comunitárias deste recanto de Portugal.
 
 
 
 

 

Parte integrante do antigo terreiro do Palácio dos Infantado, cuja fachada principal está para ela virada, a Igreja Matriz de Samora Correia é inultrapassável numa visita ao Ribatejo e é peça essencial na compreensão daquilo que foi sempre a enorme ligação de Portugal à figura de Nossa Senhora. 

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publicado às 17:39

Nossa Senhora do Castelo em Coruche

por cascalenses, em 12.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A devoção de Portugal a Nossa Senhora é ancestral e precede até o processo de formação da Nacionalidade. O culto sagrado à Virgem, personificada de diversas formas consoante a designação ritualística a que está inerente, é o fio condutor que unifica pensamentos, gerando um consenso alargado que transforma a Mãe de Deus na verdadeira força motriz que dá forma a Portugal.
 
Nossa Senhora, mãe de Jesus enquanto Deus vivo na Terra, consolida assim os laivos de sacralidade que acompanham o próprio acto da criação. A diferenciação do Homem das criaturas suas congéneres no mundo animal, faz-se pelo assumir desta capacidade simbólica de interpretar o universo. E Nossa Senhora, hoje padroeira e verdadeira Rainha de Portugal, já era pedra angular da fé daqueles que por aqui vivem, desde tempos anteriores ao próprio nascimento de Jesus Cristo. Num laivo de mistério profundo, apelando aos sentidos que impõem a disciplina à carne, foi a Virgem Ancestral, mãe verdadeira da humanidade, quem determinou os vínculos perenes que mais tarde se transformam na persistente entrega à causa maior da independência do nosso Pais.
 
 
 
 
Em Coruche, pequena e airosa vila situada nas margens do Rio Sorraia, no Ribatejo, a vinculação a Nossa Senhora surge marcada precisamente pelo processo de formação da Identidade Nacional. De facto, sendo estrategicamente crucial para o controle dos territórios envolventes, bem como essencial por se situar em pleno coração da ubérrima lezíria sorraiana, Coruche conheceu um processo histórico intrincado, marcado por sucessivas lutas de conquistas e reconquistas por parte dos diversos povos que a quiseram controlar.
 
Em 1166, quando Dom Afonso Henriques a conquista aos Mouros, a pequena vila era defendida por um castelo de composição rudimentar, cuja construção era essencialmente suportada por travejamentos de madeira e tijolo simples. Foi, aliás, o carácter muito precário desta fortificação, que servia basicamente de complemento na linha de defesa marcada pelas fortificações de Santarém e de Montemor-o-Novo, que determinou a sua reconquista pelos maometanos, ocorrida em 1180, o que obrigou o primeiro Rei de Portugal a um esforço redobrado para a colocar definitivamente sob domínio Nacional.
 
Ainda o Século XII, antes de estar encerrado o processo de Nacionalização de Coruche, a Coroa entrega a vila à Milícia da Ordem de São Bento, em Évora, mais tarde de Avis. Neste processo, cujo fulcro é colocado no cimo da colina onde se erguiam as paredes do velho castelo, assume sempre especial papel o culto Mariano a Nossa Senhora, concretizado a partir da velha ermida que por ali existia. A consolidação das fronteiras e a definitiva pacificação do território Nacional, determina a perda da importância da fortificação, recentrado todo o perímetro das paredes fortificadas para a componente sagrada do espaço de culto.
 
 
 
 
Embora se conheça muito pouco daquilo que foi a História antiga de Coruche, sabe-se que a sua importância estratégica foi atravessando as eras, explicando assim a manutenção da sua ocupação humana desde os primórdios da Pré-História. Depois de os Romanos terem estado lá por motivos idênticos, o longo período sob domínio muçulmano terá certamente culminado na criação de um conjunto de espaços de culto, sendo bastante provável que o alto da colina do castelo tenha sido ponto essencial na definição dessa dinâmica religiosa.
 
Coruche está, aliás, profundamente relacionada com estes processos de mudança e transmutação. A imagem de Nossa Senhora do Castelo, provavelmente de origem oitocentista, apresenta a Virgem Mãe com o seu filho em pé, ao seu lado, ao invés de a apresentar como é normal no resto do País, com o menino ao colo. Diziam os devotos populares de outros tempos, que tal se devia ao carácter muito milagreiros da Santa Mãe, explicando assim a sua importância da definição da própria identidade dos Coruchenses. Nas Memórias Paroquiais do Século XVIII, quando o pároco local apresentava às autoridades o ponto-de-situação em que ficou Coruche depois do grande terramoto de 1755, sublinha esse facto, explicando que todos os devotos que procuraram na imagem de Nossa Senhora do Castelo e nas paredes da sua ermida uma protecção contra o cataclismo, viram as suas casas salvas da ruína em que ficaram as restantes…  
 
 
 
 
É por isso o milagre, consubstanciado na intervenção de Nossa Senhora do Castelo em defesa dos seus devotos seguidores, o factor principal que permite perceber a importância deste espaço no contexto da devoção mariana Nacional, sendo certo que as especificidades territoriais desta Senhora, muito mais do que à comum definição lendária de aparições sucessivas, se ficam a dever a uma prática reiterada desde a ancestralidade, mostrando uma linha de culto comum que se perde nos laivos antigos de outros tempos.
 
O culto actual, organizado a partir da Carta-Ordem emitida em 1516 pelo então Mestre da Ordem de Santiago e Avis, D. Jorge de Lencastre, que definia a obrigatoriedade de se organizar uma procissão anual de acção de graças a Nossa Senhora, mistura-se ele próprio com a história extraordinária da enigmática Rainha Santa Isabel, a santa alquimista que teve a capacidade de transmutar a matéria transformando pão em rosas, já que a referida procissão anual decorreu durante muito tempo no dia 4 de Julho, precisamente o dia em que se celebra a Rainha Santa e o seu falecimento em Estremoz. Só mais tarde, quando o dia 15 de Agosto passa a estar consagrado à Assunção de Nossa Senhora, se altera a data da procissão, que passa a realizar-se nesse dia e associada a uma feira anual que animava (anima ainda) a Vila de Coruche.
 
 
 
 
Ambas as datas, como é evidente, são resquícios profundos de uma religiosidade marcada pela devoção a Nossa Senhora, consubstanciada num e noutro caso em pressupostos que estão muito para além do dogmatismo que é usual noutros lados.
 
Nossa Senhora do Castelo, a Virgem-Mãe que ainda hoje acompanha em permanência muitos milhares de Coruchenses, é muito mais do que a Mãe de Jesus ou do que a mera Assunção de Nossa Senhora. É marca viva de uma ancestralidade perdida dos biombos dos tempos, marca indelével que suporta a capacidade que Coruche tem de fazer parte da vida de todos os seus filhos e dos filhos deles.
 
Vale a pena subir ao castelo de Coruche e visitar a ermida da Senhora do Castelo. Porque ali se sente Portugal. 

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