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As Festas do Divino Espírito-Santo em Cascais

João Aníbal Henriques, 20.05.25
 

por João Aníbal Henriques

A ligação ancestral de Cascais à Igreja Católica, Apostólica e Romana existe desde tempos imemoriais. Logo em meados do primeiro século, quando os seguidores de Jesus abandonaram a designação de “Nazarenos” pela qual tinham ficado conhecidos, para assumirem a condição de Cristãos, que a palavra sagrada se espalhou rapidamente através da imensa rede de estradas que dava forma ao então Império Romano. E é crível, até porque a arqueologia nos oferece provas cabais da existência de redes comerciais entre o extremo Ocidental e a Cidade de Roma, que a nova doutrina tenha chegado depressa e sido estabelecida neste território.

Para além da Páscoa, numa extensão das práticas espirituais que vinham desde a época Judaica e que se adaptaram à nova religião que surgiu com a Morte e a Ressureição de Nosso Senhor Jesus Cristo, um dos momentos altos do calendário votivo entre os Cristãos era a comemoração do Pentecostes, ou seja, a celebração da descida do Espírito-Santo sobre os Apóstolos ao quinquagésimo dia após a Ressureição de Cristo.

Como refere João da Cruz Viegas num dos seus opúsculos sobre a História de Cascais, a “Páscoa do Espírito-Santo é festejada cinquenta dias depois da Páscoa Cristã e oito dias antes do Domingo da Santíssima Trindade, comemorando a descida do Espírito-Santo sobre os doze Discípulos de Cristo, pelas nove horas da manhã, quando estavam em oração com Maria Santíssima e outras santas mulheres no Cenáculo, casa situada no Monte Sião onde Jesus Cristo tinha celebrado a sua última Páscoa com os Apóstolos”.

 

 

De acordo com  as Sagradas Escrituras, o Espírito-Santo desceu sobre os doze Apóstolos como línguas de fogo, ganhando eles assim o dom de entender e falar vários idiomas simultaneamente, ganhando a graça de fazerem milagres e enchendo-se com a sensação avassaladora da imensa sabedoria que lhes foi entregue. Simbolicamente associado ao acontecimento, é a pomba branca que a Cristandade passou a utilizar para perpectuar na memória esta alteração paradigmática do rito fundacional daquela que haveria de se tornar na mais importante de todas as religiões professadas no Mundo durante dois mil anos.

Em Cascais, onde os primeiros templos Católicos acompanham a formação da própria nacionalidade, as festividades comemorativas do Pentecostes deverão ter existido pelo menos desde o Século XVI, quando no antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade se instalou uma comunidade Carmelita que tinha no culto ao Espírito-Santo um dos seus pilares de Fé. Originalmente com um cunho muito simples, organizado em torno de um grupo de cascalenses que percorria as ruas da vila com uma bandeira evocativa da efeméride e que recolhia os donativos dos moradores para o pagamento das despesas com o “bodo” destinado a alimentar condignamente os habitantes mais pobres, depressa evoluíram para rituais mais elaborados, como o atestam em termos comparativos os festejos que ocorriam simultaneamente noutras partes do País e, aqui mesmo ao lado, na aldeia serrana do Penedo, em plena Serra de Sintra.

Nessa segunda fase, uma vez mais em continuidade com os velhos rituais ancestrais e provavelmente pagãos que eram concretizados nestas paragens desde a época Pré-Histórica, juntou-se aos festejos a figura de um boi que, muito enfeitado, percorria as ruas da vila de forma a mostrar aos desfavorecidos a qualidade da oferta que iriam receber.

Este ritual de partilha, concertada sobre uma espécie de pacto-social em que participavam os mais abastados habitantes locais, que dessa forma partilhavam com os menos afortunados a sua prosperidade no âmbito de um ritual religioso que esbatia a ideia de uma “caridadezinha” que muitas vezes inibia por vergonha os que verdadeiramente necessitavam dessa ajuda para sobreviver, garantia que todos tinham acesso à quantidade mínima de nutrientes que são necessários para preservar a saúde e o bem-estar da comunidade, nomeadamente das proteínas que raramente chegavam ao prato da maior parte dos cascalenses mais pobres.

 

 

Escolhendo para coroar como Imperador a crianças mais humilde, pura e pobre que encontrassem na terra, e que simbolicamente, devido aos seus predicados, se tornava naquelas festividades o cerne de toda a devoção dos cascalenses, a festa do Espírito-Santo terminava sempre com um jantar onde participavam as mais importantes personalidades locais, que pagavam integralmente a sua refeição e que, dessa maneira, se associavam ao ritual de viabilização do bodo dos pobres que seguidamente lhes era oferecido.  Muitas das senhoras de Cascais, num acto de abnegada devoção, adquiriam doses do bodo para elas próprias oferecerem aos mais pobres e guardavam consigo porções de pão benzido que utilizavam ao longo do ano para consagrar as efemérides mais relevantes.

João da Cruz Viegas, no opúsculo atrás referido, menciona os cascalenses ilustres que no jantar de 1903 se juntaram no antigo “Hotel Globo”, situada por cima da Mercearia Pedada, cumprindo este ritual que tão importante era para a Identidade da Nossa Terra: “Comendador Manuel Vieira d’Araújo Viana, que era o juiz da festa naquele ano; Dom Fernando Castelo Branco (Pombeiro), Administrador do Concelho; Rodrigo Luís Caldeira, Secretário da Câmara Municipal; Francisco da Silva Vedras; António Mendes Lopes, farmacêutico; João Desidério Nunes; João Campos; Alexandre Inácio; Domingos Vardasca; Júlio Ovidio Morgado; Domingos Teixeira dos Santos; e Manuel Pereira Dias”.

Este último, que ainda em vida passou a Cruz Viegas estas informações, explicou-lhe ainda que nesse ano de 1903 foram vinte e três os festeiros encarregues de fazer cumprir a tradição e que a despesa acumulada, que serviu de base à preparação do bodo popular, ascendeu a um total de 284$000 Reis.

Interrompidos provisoriamente depois da implantação do regime republicano, os Festejos do Espírito-Santo foram retomados em Cascais ao longo da década de 40 do Século XX por iniciativa de José Florindo de Oliveira e de Eugénio da Assunção que, como em quase tudo o que acontecia na vila durante aquela época, contaram com a entusiástica participação de Armando Penin Gomes Villar, então Presidente da Propaganda de Cascais e de Alberto Mourato que com ele assumiu a responsabilidade de pagar um boi para compor o bodo seco oferecido à população.

 

 

Nas Festas de 1943 o bodo foi servido aos pobres de Cascais nas instalações do antigo hospital anexo à sede da Santa Casa da Misericórdia, numa cerimónia que foi presidida pela Senhora Dona Maria do Carmo Fragoso Carmona, mulher do então Presidente da República, coadjuvada pela D. Albertina de Melo e por Dona Rosa de Melo. O juiz da festa desse ano, Guilherme Cardim, juntou-se ao bodo com o tesoureiro, Pedro Valentim Nava, que com as senhoras degustaram sopa, cozido à portuguesa e vinho, ao som da banda filarmónica do Grupo Desportivo Estoril-Plage. Nesse dia fez-se distribuição de carne ao hospital da Santa Casa da Misericórdia, à Casa dos Pobres, à Casa de Trabalho de Nossa Senhora da Assunção, à Maternidade Maria Amália Vaz de Carvalho, e do bodo molhado aos dois únicos presos que estavam encarcerados na cadeia da vila. Para as crianças que frequentavam a Creche José Luís foi entregue arroz e massa, sendo que por toda a vila foi distribuído larga quantidade de pão bento.

No jantar final, ocorrido no dia 13 de Junho, estiveram presentes Guilherme Cardim, Pedro Valentim Nava, João da Cruz Viegas, Padre Moysés da Silva, Joaquim Nunes Ereira, João António Gaspar, Francisco Avelino de Sousa Amado, Frederico da Costa Pinto, Joaquim Canas Jardim, Dom António Castelo Branco, Professor Francisco Cruz, Alberto Mourato, António Santa, Eugénio Bernardino d’Assunção, António Ricoca, Pedro Aguiar, Abílio Maria, Carlos de Sousa, Júlio Pedro d’Assunção, Manuel Paulino, António da Silva Neves Júnior, Sebastião Bonifácio, Osvaldo Faria, Ventura Ledesma Abrantes, João Victor Gaspar, José Afonso Vilar Júnior, Filipe Nobre de Figueiredo, Francisco Silva, Aníbal Contreiras, António Ferreira dos Santos, Miguel dos Reis, José Cartaxo, Silvino Duarte, José Apolinário Duarte, António Miguel Muchacho, Joaquim António Gaiteiro, Domingos Nunes, Serafim Nunes, Gabriel Muchacho, Fernando José Dias e João Marinha Arraia.

A partir do ano de 1944, por iniciativa de Armando Villar, os festejos passaram a incluir uma comissão de “Mordomos de Honra” que, contribuindo materialmente para a festa, evitavam que a mesma decorresse sem a dignidade que todos consideravam essencial para o sucesso do evento. Nessa primeira edição foram “Mordomos de Honra” o Reverendo Padre Moysés da Silva; o Presidente da Câmara Municipal, José Raposo Pessoa; o Presidente da Junta de Turismo, Augusto Teles Abreu Nunes; o Presidente da Junta de Freguesia, D. José Avilez; o Administrador da Estoril Plage, Guilherme Cardim; Joaquim Nunes Ereira, pela Propaganda de Cascais; e João da Cruz Viegas. Fizeram ainda parte as senhoras D. Felícia Gonçalves Villar, D. Felismina Canas Cardim, D. Lucinda da Silva Abreu Nunes, D. Laura Carnoto d’Oliveira, D. Maria José Magalhães Pessoa, D. Maria Isabel Avilez, D. Rosalina Pedroso Muchaxo e D. Tomásia Canas Ereira.

 

 

Na edição de 1948, com Ricardo Espírito-Santo Silva como juiz e José Afonso Villar jr. como tesoureiro, os festejos contaram com a presença e apoio de Gabriel Muchaxo, Joaquim Sabino Pedroso, Silvino Duarte, António Silvestre Gonçalves, Alfredo Luiz Paulo, Francisco Casaleiro, Conde Murça, Condessa de Monte Real, Casa de Palmela, D. Nuno Almada, Condessa de Azambuja, Conde Jorge de Monte Real,  Condessa de Linhares, D. Maria Inez Carmona, Conde das Alcáçovas, Conde de Cabral, José Ribeiro Espírito-Santo Silva, Eduardo Guedes de Sousa e Dona Amélia de Melo. À festa juntaram-se ainda Armando Villar (então Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Cascais), o médico Dr. Álvaro de Lacerda e Melo, Amadeu Stoffel, António Casimiro d’Almeida, António Muchaxo, Guilherme Cardim, José Teixeira Roxo e Manuel Paulino.

As Festas do Divino Espírito-Santo de Cascais são uma das mais antigas tradições desta vila de Reis e de Pescadores, traduzindo a um só tempo a vivência religiosa e social da terra e das suas gentes. Conhecê-las e compreendê-las, integrando-as na dinâmica própria de cada momento da História de Cascais, é um passo importante para ajudar a projectar o futuro dinâmico e coeso pelo qual todos ansiamos.

 

Fotografias do Arquivo Histórico Municipal de Cascais e do Arquivo Histórico da Sociedade Propaganda de Cascais

 

A Capela da Sagrada Família do Pisão e a Mestria do Arquitecto João de Sousa Araújo

João Aníbal Henriques, 11.03.25
 

 

por João Aníbal Henriques

Com a evocação da Sagrada Família, num apelo pungente à sua função de acompanhamento e reintegração social que acompanhou sempre a actividade do asilo da Quinta do Pisão desde a sua criação em 1950, a Capela do Pisão, construída entre 1952 e 1954 pelos internados naquela colónia, conforme se lê no painel de azulejos colocado na fachada do edifício, é um dos mais significantes monumentos religiosos de Cascais.

Essa importância, muitíssimo superior à própria morfologia do edifício, inteiramente integrada no traço modernista que resulta da época em que foi construída e da precariedade de recursos que foram dispensados para a sua conclusão, fica a dever-se ao seu profundo significado simbólico. Era ali, durante muitas décadas, que os utentes internados nesta colónia encontravam algum apoio espiritual, de forma a amenizarem as agruras terríveis dos tempos passados encarcerados naquele espaço. Foi, por isso, durante quase meio século, símbolo de luz, de paz e de esperança (quantas vezes o único!) que ajudava aqueles seres humanos a manterem-se vivos espiritualmente.

Foi porventura por esse motivo que o saudoso arquitecto e pintor João de Sousa Araújo, falecido em 2023, se interessou pela obra da Capela da Sagrada Família. E, devoto como era, lhe dedicou o seu tempo e a sua arte produzindo o conjunto artístico que decora o templo e que ainda hoje ali se pode ver. Os painéis da capela, produzidos localmente através de várias parcerias sociais, demonstram bem a sua permanente necessidade de colocar o seu génio e a sua arte a trabalhar a favor da comunidade. Foram os utentes que estavam internados no Albergue da Mendicidade da Mitra quem, sob a direcção do já então muito ilustre arquitecto Sousa Araújo, construíram a capela, concretizando artisticamente os esboços que ele havia preparado para o local.

 

 

Nascido em Lisboa em 1929 e falecido no Estoril em 2023, João de Sousa Araújo é figura incontornável na história artística de Portugal. Com uma obra ímpar ao nível da arte sacra, foi porventura o último dos grandes pintores portugueses nessa área, tendo dedicado a Deus uma parte essencial do seu génio artístico e do dom que sabia ter recebido do céu.

Formado em Arquitectura, Pintura e Escultura pela ESBAL (Escola Superior de Belas Artes de Lisboa), onde obteve uma média final de 20 valores, o Arquitector João de Sousa Araújo foi agraciado com diversos prémios desde o início da sua carreira.

Sendo igualmente professor, actividade que lhe permitia partilhar a excelência do seu traço, trabalhou no Banco de Portugal, tendo sido autor de várias maquetes que serviram, de base à criação de treze notas portuguesas.

Ao nível da arte sacra, para além de ter assinado projectos para várias igrejas e capelas um pouco por todo o Mundo, destaca-se o seu trabalho enquanto autor dos vitrais da nave central da Basília de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, bem como o painel do seu Altar-Mor. Entre 1968 e 1997, elabora para a Catedral de Nampula, Moçambique, os vitrais, o políptico da Capela do Santíssimo “Pacem in Terris”, e o políptico do Altar-Mor “Aparições de Fátima”.

Representado através dos seus trabalhos nas principais colectâneas de arte a nível mundial, destaca-se a presença das suas obras nas colecções particulares do Papa Paulo VI, do Rei Humberto II de Itália e do Imperador do Japão.

Através da ALA – Academia de Letras e Artes, foi autor do quadro monumental dedicado a Nossa Senhora da Aparecida, que foi oferecido ao Presidente do Brasil e que se encontra exposto no Palácio do Planalto, em Brasília.

Este ano de 2025, por iniciativa do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, e da Provedora da Santa Casa da Misericórdia, Isabel Miguéns, começa com o boa notícia do arranque das obras de recuperação das ruínas desta capela. A intervenção, que pretende repor integralmente as características do espaço original, integra ainda a recuperação do painel de azulejos produzido por Sousa Araújo para servir de fundo ao altar-mor da Igreja Matriz de Alcabideche e que, depois de ter ficado tapado pela construção do novo altar ali colocado no início do século, será recolocado na Capela da Sagrada Família, na Quinta do Pisão, resgatando assim a integridade artística da obra do pintor estorilense que desta maneira poderá ser vista pela primeira vez de forma completa no espaço em vias de recuperação.

Depois de muitos anos de pedidos, acções de sensibilização dos vários executivos que passaram pela edilidade ao longo dos últimos tempos, e de apelos que ultimamente sublinhavam já só estado de ruína avançada em que o monumento se encontrava, eis que a obra arrancou, incentivando a recuperação do significado profundo deste espaço e, sobretudo, contribuindo de forma decisiva para o resgate da Identidade Municipal!

Numa homenagem merecida e justa ao Arquitecto e Pintor João de Sousa Araújo, um dos maiores vultos de sempre da arte cascalense!

 

 

 

 

 

Joaquim Baraona - A Coragem e a Determinação que Colocaram Cascais na Vanguarda da Tecnologia

João Aníbal Henriques, 14.12.20
 

No início de 1974, quando a revolução de Abril era ainda uma mera miragem, Cascais atravessava uma das maiores e mais transversais crises de sempre.

Nessa altura, a mais premente necessidade dos Cascalenses era um novo hospital e, não havendo vontade nem meios por parte do poder central para o construir, um jovem e destemido Provedor da Santa Casa da Misericórdia ousou contrariar tudo e todos e construir o hospital que considerava condigno para os Cascalenses. Chamava-se Joaquim Baraona e com este seu projecto colocou Cascais na vanguarda da tecnologia médica daquela época.

O velho Hospital de Cascais, construído em 1941 com um subsídio do Fundo do Desemprego ao qual se juntou uma parte importante do legado dos Condes de Castro Guimarães e um terreno doado pelo benemérito Marques Leal Pancada, estava completamente obsoleto. Os 29000 habitantes do Cascais de 1940 tinham aumentado para cerca de 92700 em 1970 e o antigo hospital, equipado com tecnologia do período da guerra, já não conseguia dar uma resposta cabal à população Cascalense. Em Abril de 1971, numa tentativa ousada para tentar resolver os problemas com os quais a instituição se debatia, é eleita uma nova direcção na Misericórdia.

O novo provedor, o ainda muito jovem empresário Joaquim Baraona, assume o desafio de resolver o problema, perante o cepticismo da mais tradicional sociedade Cascalense. Depois de tomar posse, com uma firmeza a que os Cascalenses não estavam habituados, Joaquim Baraona dedica-se por inteiro a sanar os problemas financeiros que impediam o trabalho daquela importante instituição e, antes do final desse ano, faz um anúncio bombástico que deixa Cascais boaquiaberto.

 

 

Numa entrevista concedida ao jornal “A Nossa Terra” o provedor promete iniciar de imediato as obras de remodelação do velho hospital e dotá-lo da mais moderna tecnologia existente nessa época. Considerando que o que existia não era compatível com a vocação turística que Cascais vivia, Baraona menciona os avanços técnicos e científicos que a medicina havia alcançado e refere como exemplo uma máquina denominada “auto-analizer”, existente em vários hospitais Norte-Americanos que era considerada um dos mais revolucionários equipamentos do seu tempo. E, perante a estupefacção do repórter que o entrevistava, desde logo promete que o Hospital de Cascais seria o primeiro a tê-lo em Portugal! E assim o fez! Procedendo a angariações de fundos e à captação de investimentos, o jovem provedor consegue rapidamente obter os meios para proceder à reconstrução do hospital, para o equipar com as mais modernas tecnologias e com o dito “auto-analizer” que de imediato adquiriu nos Estados Unidos.

 

 

 

Mas levantava-se um problema prático que o previdente provedor não tinha conseguido prever: o hospital era demasiadamente pequeno e não existia espaço físico onde se pudesse colocar este equipamento! E Joaquim Baraona uma vez mais não desistiu.

Procurando em redor do hospital espaços vazios onde fosse possível construir as instalações para montar o tão desejado “auto-analizer” encontra ali mesmo ao lado, num terreno que pertencia ao Estado e que se encontrava ocupado por um edifício onde tinha funcionado há algum tempo um posto de apoio à tuberculose, a tão desejada solução para o seu problema. Mas surpreendentemente foi muito mais fácil encontrar os meios para adquirir o equipamento do que obter as autorizações governamentais para o instalar no edifício devoluto já existente… Mas o provedor não desistiu. Com o apoio unânime da Mesa Administrativa da Misericórdia, o jovem provedor dirigiu-se ao prédio devoluto, arrombou a porta oficialmente selada e iniciou de imediato a instalação do equipamento.

 

 

 

 

Como seria de esperar, as vozes críticas de sempre logo se levantaram e as ameaças surgiram imediatamente.

Mas Baraona sabia que o espaço continuava legitimamente no domínio público e assim concretizou sem mais atrasos o seu projecto que contribuiu de forma imediata para uma melhoria significativa dos serviços médicos do hospital e que foi responsável pela vida de milhares de Cascalenses. O novo hospital foi inaugurado em Abril de 1974, dias antes da revolução, com a presença do Presidente da República e das mais altas individualidades do Estado e da sociedade desta terra. Noutra terra qualquer é mais do que certo que ainda hoje teríamos o “auto-analizer” por estrear e guardado numa arrecadação. Mas a coragem e a determinação de Joaquim Baraona foi essencial na defesa dos interesses legítimos de Cascais e dos Cascalenses, resultando numa benfeitoria que funcionou até 2010.

Porque a coragem faz parte dos genes dos verdadeiros Cascalenses...

 

Armando Vilar – A Força e a Determinação dos Grandes Cascalenses

João Aníbal Henriques, 21.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Cascais sempre foi uma terra especial e diferente. O seu charme resulta da sua inesquecível paisagem e dos extraordinários recantos que tem, mas também do carácter extraordinário das suas gentes. Mas esta diferença, visível nos grandes e nos pequenos acontecimentos que compõem o devir quotidiano da vila e do concelho, assenta na força, na determinação, na coragem e num amor inequívoco por Cascais por parte de alguns munícipes diferentes.
 
Desde 1364, quando Dom Pedro I a libertou do jugo administrativo de Sintra, que Cascais foi tendo figuras ímpares que, por amor a esta Nossa Terra, se entregaram totalmente à defesa das suas gentes. Alguns eram ricos, outros nem tanto; alguns eram politicamente poderosos, outros eram a antítese disso; alguns possuíam apelidos importantes, outros construíram-nos nestas terras; mas há algo que os define a todos de forma abrangente: a devoção por Cascais e pelos interesses dos Cascalenses.
 
Neste início de mais um Inverno, quando os dias de Natal já estão tão perto, dedicamos a nossa homenagem especial a um dos maiores Cascalenses de sempre. Armando Penin Gomes Vilar, nascido em Cascais em 1889, foi durante muitas décadas a pedra angular sobre a qual se construiu o Cascais em que vivemos.
 
Neto de João Gomes Vilar, o proprietário da conhecida Escola do Arco, que se situava na rua que acedia à Praia da Ribeira através de um arco ali existente, Armando Vila fez parte de uma as mais marcantes gerações de Cascalenses. Do seu grupo de colegas que frequentavam a escola do avô, faziam parte João de Avelar Lopes, que mais tarde fundaria o Registo Civil, Guilherme Cardim, fundador da tipografia com o mesmo nome que durante muitas décadas imprimiu quase tudo o que se produzia nesta terra, e Joaquim Nunes Ereira, fundador do Casino Estoril.
 
Foi aliás este último, que explorava uma casa de jogo situada junto ao mercado velho, quem desafiou Armando Vilar para uma sociedade que haveria de mudar radicalmente a face do velho burgo Cascalense. Depois de lhe ouvir contar os problemas que estava a ter na Câmara Municipal onde trabalhava como amanuense, Nunes Ereira propõe-lhe a criação de uma sociedade com o objectivo de explorarem o jogo nos casinos existentes no Monte Estoril. Juntamente com Guilherme Cardim, Joaquim Ereira e João Aranha, Armando Vilar reorganiza então o jogo no Casino Português, no Casino Internacional do Monte e, mais tarde, depois de arrendarem a Fausto Figueiredo o direito à exploração do jogo no Estoril, no primeiro casino construído no Parque Estoril.
 
A Sociedade Estoril Plage, ainda hoje existente e primeiro motor da actual Marina de Cascais, do Golfe do Estoril, das Termas do Estoril e de vários dos mais emblemáticos hotéis da região, nascia assim dando corpo ao desenvolvimento da marca internacional ‘Estoril’ e com ela ao nascimento da vocação turística municipal de Cascais.
 
Tendo sido dinamizador do Casino Estoril, Vilar foi um dos mais activos dirigentes da Junta de Turismo do Estoril, na qual, com Abreu Nunes, deu forma a várias décadas de propaganda que levaram a todo o Mundo o prestígio do Estoril e cujo sucesso marcou definitivamente o assumir de Cascais como principal gerador do turismo Português. Nesse âmbito, foi também fundador e Presidente da Sociedade Propaganda de Cascais, do Clube Naval de Cascais e de muitas outras instituições da sociedade civil.
 
 
 
 
Mas não foi só no jogo que Armando Vilar contribuiu para a construção da Nossa Terra. Depois de ter adquirido a Quinta das Patinhas e uma parte substancial dos terrenos situados no Vale da Ribeira das Vinhas, Armando Vilar recentrou as suas atenções no apoio aos mais desprotegidos e a todos os desfavorecidos pela sorte que abundavam nesta terra.
 
Conselheiro Municipal durante muitos anos, intervindo directamente na política de requalificação da habitação dos mais humildes cascalenses, foi um dos impulsionadores do movimento que levou à construção dos primeiros bairros sociais de Cascais que, com mote bem diferente do que hoje temos, pretendiam assegurar condições de vida condignas a todos os munícipes através de campanhas de sensibilização e recolha de fundos que envolviam todos os Cascalenses.
 
Na sua faceta social, foi um dos mais marcantes provedores da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, onde durante mais de duas décadas tudo fez para dotar a vila de toda a espécie de equipamentos. Foi a sua entrega à defesa intransigente de Cascais que permitiu a construção da Praça de Touros, do Hospital dos Condes de Castro Guimarães, e de muitas escolas, creches e equipamentos de apoio aos mais desfavorecidos que literalmente mudaram a face do Cascais do seu tempo.
 
Quando faleceu em 1989, já com cem anos feitos, Armando Vilar era ainda um dos mais activos defensores da Nossa Terra. Garboso no seu porte de grande senhor de Cascais, continuava a intervir amiúde na defesa dos interesses das suas gentes, mantendo a coragem e a força que tinha utilizado quando tinha vinte anos para orientar esta terra.
 
Armando Penin Gomes Vilar deixou-nos há já 27 anos mas, em cada canto e recanto de Cascais subsistem as memórias extraordinárias de quem ele foi e daquilo que fez. Apesar de ter sido agraciado com várias distinções importantes, como a Comenda da Benemerência, o grau de Oficial da Ordem de Cristo, a Medalha de Dedicação da Cruz Vermelha Portuguesa ou a Comenda de Mérito Civil de Espanha, importa relembrar às gerações vindouras a importância que teve na definição da Memória Colectiva e da Identidade Municipal dos Cascalenses.
 
No seu inultrapassável “Cascais Menino”, Pedro Falcão referia-se a Armando Vilar dizendo que “era de gente desta que nós precisávamos para orientar e defender a Nossa Terra…
 
E tinha razão. Cada vez mais à medida em que os anos vão passando.
 
A bem de Cascais!
 

Joaquim Baraona e o “Auto-Analizer” do Hospital Condes de Castro Guimarães

João Aníbal Henriques, 07.11.16

 

 
 
Numa época marcada pela entropia do politicamente correcto e pelo avassalador impacto dos interesses político-eleitorais dos partidos que nos vão governando, vale a pena recordar mais uma das histórias de coragem que dão forma à História de Cascais. Em 1974, quando Cascais atravessava uma das maiores crises de sempre, um jovem e destemido Provedor da Santa Casa da Misericórdia, ousou contrariar tudo e todos e construir o hospital que considerava condigno para os Cascalenses. E fê-lo, assumindo pessoalmente as consequências, tendo em conta somente o interesse dos Cascalenses…
 
No início da década de 70 do século passado, o velho Hospital de Cascais, construído em 1941 com um subsídio do Fundo do Desemprego ao qual se juntou uma parte importante do legado dos Condes de Castro Guimarães e um terreno doado pelo benemérito Marques Leal Pancada, estava completamente obsoleto. Os 29000 habitantes do Cascais de 1940 tinham aumentado para cerca de 92700 em 1970 e o antigo hospital, equipado com tecnologia do período da guerra, já não conseguia dar uma resposta cabal à população Cascalense.
 
 
 
 
Paralelamente, a Santa Casa da Misericórdia que geria o equipamento, debatia-se também ela com graves problemas financeiros, facto que impossibilitava o avançar do muito ansiado projecto de construção de um hospital moderno adaptado às necessidades desta terra.
 
Em Abril de 1971, numa tentativa ousada para tentar resolver os problemas, é eleita uma nova direcção na Misericórdia. O novo provedor, o ainda muito jovem empresário Joaquim Baraona, assume o desafio de resolver o problema, perante o cepticismo da mais tradicional sociedade Cascalense. Depois de tomar posse, com uma firmeza a que os Cascalenses não estavam habituados, Joaquim Baraona dedica-se por inteiro a sanar os problemas financeiras que impediam o trabalho daquela importante instituição e, antes do final desse ano, faz um anúncio bombástico que deixa Cascais boaquiaberto.
 
 
 
 
Numa entrevista concedida ao jornal “A Nossa Terra” o provedor promete iniciar de imediato as obras de remodelação do velho hospital e dotá-lo da mais moderna tecnologia existente nessa época. Considerando que o que existia não era compatível com a vocação turística que Cascais vivia, Baraona menciona os avanços técnicos e científicos que a medicina havia alcançado e refere como exemplo uma máquina denominada “auto-analizer”, existente em vários hospitais Norte-Americanos que era considerada um dos mais revolucionários equipamentos do seu tempo. E, perante a estupefacção do repórter que o entrevistava, desde logo promete que o Hospital de Cascais seria o primeiro a tê-lo em Portugal!
 
E assim o fez! Procedendo a angariações de fundos e à captação de investimentos, o jovem provedor consegue rapidamente obter os meios para proceder à reconstrução do hospital, para o equipar com as mais modernas tecnologias e com o dito “auto-analizer” que de imediato adquiriu nos Estados Unidos.
 
 
 
 
Mas levantava-se um problema prático que o previdente provedor não tinha conseguido prever: o hospital era demasiadamente pequeno e não existia espaço físico onde se pudesse colocar este equipamento!

Mas Joaquim Baraona não desistiu. Procurando em redor do hospital espaços vazios onde fosse possível construir as instalações para montar o tão desejado “auto-analizer” encontra ali mesmo ao lado, num terreno que pertencia ao Estado e que se encontrava ocupado por um edifício onde tinha funcionado há algum tempo um posto de apoio à tuberculose, a tão desejada solução para o seu problema. Mas surpreendentemente foi muito mais fácil encontrar os meios para adquirir o equipamento do que obter as autorizações governamentais para o instalar no edifício devoluto já existente…
 
E uma vez mais Joaquim Baraona não esmoreceu. Com o apoio unânime da Mesa Administrativa da Misericórdia, o jovem provedor dirigiu-se ao prédio devoluto, arrombou a porta oficialmente selada e iniciou de imediato a instalação do equipamento. Como seria de esperar, as vozes críticas de sempre logo se levantaram e as ameaças surgiram imediatamente. Mas Baraona sabia que o espaço continuava legitimamente no domínio público e assim concretizou sem mais atrasos o seu projecto que contribuiu de forma imediata para uma melhoria significativa dos serviços médicos do hospital e que foi responsável pela vida de milhares de Cascalenses. O novo hospital foi inaugurado em Abril de 1974, dias antes da revolução, com a presença do Presidente da República e das mais altas individualidades do Estado e da sociedade desta terra.
 
 
 
 
Com outro provedor é mais do que certo que ainda hoje teríamos o “auto-analizer” por estrear e guardado numa arrecadação qualquer. Mas a coragem e a determinação de Joaquim Baraona foi essencial na defesa dos interesses legítimos de Cascais e dos Cascalenses, resultando numa benfeitoria que funcionou até 2010.
 
Porque a coragem faz parte dos genes dos verdadeiros Cascalenses…

O Triste Estado do Forte da Cadaveira em São João do Estoril

João Aníbal Henriques, 17.10.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Conhecido oficialmente como Forte de São Teodósio ou da Cadaveira, o Forte d’Assubida, como popularmente é designado, situa-se a Nascente da Praia da Poça, em São João do Estoril, numa as margens da Ribeira da Cadaveira.
 
 
 
 
A estrutura, de cunho simples e desenhada com o objectivo de ser eficaz, foi erguida durante o período das Guerras da Restauração, logo depois de 1640. Integrando-se numa linha defensiva de larga escala contra as tentativas de reconquista do poder luso por parte dos exércitos espanhóis, o Forte de São Teodósio defendia a enseada da Praia da Poça, em fogo cruzado com o Forte Velho, situado na outra margem da ribeira. Deste plano de defesa da Costa de Lisboa, que se prolongava desde São Julião da Barra até ao Cabo da Roca, faziam parte mais de uma dezena de fortificações de várias dimensões, adaptando-se a orografia dos terrenos onde foram construídas.
 
O Forte da Cadaveira, com planta quadrangular semelhante às restantes, apresenta um pátio central a partir do qual se distribuíam os espaços interiores. Os quartéis e o paiol, sustentando um terraço de onde se obtém uma das mais extraordinárias vistas dos Estoris, viram a sua segurança reforçada, já em pleno Século XVIII, com a construção de três guaritas que passaram a permitir o patrulhamento nos principais ângulos de acesso à praia.
 
 
 
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público desde Setembro de 1977, o Forte da Cadaveira conheceu uma história atribulada e nada linear. Depois de ter sido desactivado das suas funções militares, em 1843, o edifício foi entregue à Santa Casa da Misericórdia de Cascais que, por sua vez, o cedeu a um particular. Este, por seu turno, devolveu-o à Misericórdia que em 1942, depois do início das obras de construção da Avenida Marginal, o entregou à Guarda Fiscal, que aí se instalou até época recente. Já neste século, o edifício veio parar às mãos da Câmara Municipal de Cascais que prontamente anunciou um projecto para o local. Mas, por qualquer motivo que possivelmente alguém conhecerá, foi agora completamente abandonado, com a porta aberta e o interior acessível a todo o tipo de destruição.
 
O cenário que hoje apresenta o Forte da Cadaveira é dantesco. A porta destruída abre o espaço para o pátio coberto de lixo e de restos de fogueiras. E os alojamentos, ainda há pouco tempo em excelente estado de conservação, estão agora completamente destruídos, alguns com sinais de incêndio e os restantes cobertos de lixo nauseabundo e de seringas usadas. A bateria, de onde é possível observar a passagem magnífica do local, está praticamente coberta de entulho e o cheiro a fezes, combinado com os restos de refeições já apodrecidos e com centenas de garrafas partidas, torna praticamente impossível visitá-la.
 
 
 
Não existem palavras para descrever o estado em que se encontra este edifício classificado e que faz parte do património Cascalense. Responsáveis pela situação actual haverão certamente. E é deles a responsabilidade pela destruição da memória e da identidade dos Cascalenses.