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O Papel Sagrado da Mãe em Santa Eufémia de Sintra

João Aníbal Henriques, 16.06.25

 

por João Aníbal Henriques

O papel de mãe é provavelmente o principal alicerce civilizacional que define o dealbar da nossa humanidade. E, no que a Portugal diz respeito, ele surge plasmado num dos recantos mais extraordinários da Serra de Sintra, carregando consigo os segredos descodificadores da própria portugalidade.

No topo das penhas verdejantes da Serra de Cinthya, numa sempre velada alusão à matriz lunar da nossa existência, a efemeridade temporal da vida transmuta-se na convincente eternidade da essência primordial. E, através de um secreto processo alquímico guardado de forma cuidada ao longo dos milénios, é ali que a poalha despojada dos resquícios do Ego ganha forma e vida, assumindo-se como cadinho de outras vidas sempre condenadas ao regresso ao eterno.

Santa Eufémia de Sintra, onde desde a Pré-História se venera a sacralidade da mãe-primordial, foi sempre pronto fulcral na perpetua demanda do Homem consciente do sentido da sua vida. Até porque, como acreditava o saudoso Rei Dom Fernando II, que na sua ancestral raiz dinástica de Saxe-Coburgo-Gotha, sabia que era ali que o Espírito se fundia com a matéria, reformatando a própria lógica dos padrões criacionais e dando-lhes a possibilidade de cair, experienciando assim as agruras que dão forma à própria vida.

A Mãe, figura basilar num Portugal que desde o seu início se define em torno da consagrada concepção de Maria, surge assim como o garante do resultado ascensional dos seus filhos. Como se de uma escola se tratasse, o calcorrear dos trilhos efémeros deste “vale de lágrimas” organiza-se nos ciclos reiteradamente assentes no binómio da dor e do prazer, sendo essencial que seja a Mãe a levantar os seus filhos quando eles acabam por se magoar, caindo ao longo do percurso que têm obrigatoriamente de completar inteiramente.

 

 

 

Qual Lei dos Contrastes, o bem e o mal debatem-se permanentemente e funcionam como motor que faz progredir o neófito na sua caminhada em direcção ao Pai. Até porque sem cair ninguém aprende a andar. E sem a noção experiencial da dor, do sofrimento e da angústia, não faria sentido algum a plenitude totalizante de um céu despojado das âncoras que sustentam o Ego.

Por isso é sagrado o papel da mãe. Dolorido e pejado de sofrimento, tanto maior quanto mais abarcante for o amplexo da responsabilidade que sempre surge associada ao conhecimento e ao crescimento. É a mãe que dá sentido à existência e, sendo ela própria a fornalha que conjuga as substâncias que permitem a vida, é também através dela que se melhor se expressa o caminho de regresso a casa, nem sempre fácil nem linear, antes marcado pelas vicissitudes necessárias ao crescimento daqueles que delas dependem.

Em Santa Eufémia de Sintra, como refere Vítor Manuel Adrião na sua “Sintra, Serra Sagrada”, as origens do culto a Santa Eufémia perdem-se nas origens do próprio tempo, estando relacionadas de forma directa com os cultos de fertilidade associados com a água, num apelo ancestral à Deusa-Mãe, Eufémia, origem simbólica de toda a ritualística Cristã da Senhora que concebe, ou seja, de Nossa Senhora da Conceição.

Ali, num enquadramento cénico que o romantismo novecentista reformatou, repetem-se as “aparições” marianas, associando-se a luz que delas emana aos milagres que através dela teimam em acontecer. A lenda que se confunde com a História deixa marcas nas pedras, aparentemente eternizando as provas de que é nesta sacralidade pura e primordial que está resguardado esse segredo maior que explica cada uma das nossas existências.

Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 2002, o Alto de Santa Eufémia, em Sintra, carrega consigo 6000 anos de vidas que por ali se misturam numa plêiade milagrosa de histórias cujo significado profundo urge desvendar. Porque nesse seu apelo ancestral à importância da Mãe, está a resposta à única dúvida importante que a Humanidade pode formular…

 

O Alto de Santa Eufémia em Sintra

João Aníbal Henriques, 25.01.22
 

por João Aníbal Henriques

Envolvida nas brumas do mito e de uma sacralidade mística que dá forma à própria identidade de Sintra, o Alto de Santa Eufémia, no pico nascente da Serra Sagrada, é um dos mais impressivos recantos daquela montanha ancestral. Os seus seis mil anos de História correm ao sabor de uma vivência sempre muito significante e integram os laivos primordiais que dão forma à essência espiritual de Sintra.

 

Com uma vivência histórica comprovada desde o 4º milénio A.C., o Alto de Santa Eufémia é tradicionalmente considerado como o berço de Sintra. O povoado neolítico ali existente, aproveitando e adaptando-se ao binómio formado pela riqueza do seu manancial de águas e pela situação estratégica do seu plano elevado em relação à envolvência, foi desde a sua origem um espaço fundamental para a definição daquilo que virá a ser a ocupação humana em toda a região Ocidental da península Ibérica.

De acordo com Vítor Manuel Adrião, investigador e historiador especialista na História de Sintra, as origens do culto a Santa Eufémia perdem-se nas origens do próprio tempo, estando relacionadas de forma directa com os cultos de fertilidade associados com a água, num apelo ancestral à Deusa-Mãe, Eufémia, origem simbólica de toda a ritualística Cristã da Senhora que concebe, ou seja, de Nossa Senhora da Conceição.

 

 

Sem grandes registos dos seus primeiros anos de História, até porque nunca se realizaram naquele espaço escavações arqueológicas de largo espectro que permitissem conhecer detalhadamente o que ali se passou ao longo dos muitos milénios de vida que o lugar conheceu, Santa Eufémia de Sintra volta a surgir na historiografia medieval quando o cruzado Osberno descobriu o espaço e a fonte de água que descreve no seu relato sobre a Conquista de Lisboa como sendo rica em propriedades curativas.

Embora não existindo vestígios dessa época, presume-se que a primitiva capela que terá existido no local será desta época, eventualmente ocupando o mesmo lugar onde em momentos anteriores terão existido espaços sagrados com outros cultos e diferentes formas de Fé.

Já no Século XVIII, por ordem do Capitão Francisco Lopes e Azevedo, a aparição no local da própria Santa Eufémia terá sido a razão que determinou a reedificação do templo medieval, readaptando a sua zona de banhos e reforçando o culto que se prolongou até à actualidade.

E sublinhando o carácter místico do espaço, quando o romantismo do Século XIX se impõe, nova intervenção é efectuada no espaço, promovendo a sua identidade estética e transformando-o basicamente naquilo que ele é actualmente. A lápide colocada sobre a porta principal da capela, indicando que as obras foram mandadas fazer anonimamente por um “estrangeiro devoto”, reforça esse secretismo mítico que o investigador Vítor Manuel Adrião atribui como possível obra do Rei Dom Fernando II, marido da Rainha Dona Maria II e membro da linhagem Saxe-Coburgo-Gotha do Norte da Europa.

 

 

Foi o Rei Consorte, aliás, quem recuperou cenicamente a Serra da Sintra, reconstruindo o antigo eremitério da Pena e construindo ali o Palácio que hoje é ex-libris essencial de qualquer visita sintrense. A sua reinterpretação do espaço, em linha com a sua formação cultural de base germânica, é a principal responsável pela recuperação de grande parte da sua lendária sacralidade.

A lenda de Santa Eufémia, com todos os traços de uma intemporalidade que é transversal a estas histórias, carrega consigo os arquétipos mais essenciais do pensamento cultural e religioso de Portugal.

 

 

Rezam as histórias que a tradição oral sintrense perpectuou, que naquele local terá vivido uma antiga princesa de nome Eufémia. No auge da sua juventude, e no fulgor romântico dos seus verdes anos, a Princesa Eufémia apaixonou-se por um rapaz pobre e humilde que vivia nas redondezas. E seu pai, austero do alto do seu poder, determinou a proibição daqueles amores, gerando junto dos nubentes um profundo desgosto que no caso do rapaz terá degenerado numa doença grave a ponto de colocar em risco a sua própria vida. A princesa, incapaz de lidar com a morte provável do seu amado, lembra-se de o levar à fonte ali existente e de o banhar nas águas benignas que tradicionalmente curavam todos aqueles que as utilizavam. E o resultado não se fez esperar. O rapaz recuperou rápida e totalmente das suas maleitas e a princesa, para que ninguém se esquecesse do acontecido, marcou com o seu pé uma das rochas existentes na fonte, deixando uma marca que ali se mantém até à actualidade.

Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 2002, o Alto de Santa Eufémia em Sintra é hoje um importante ponto de peregrinação fazendo parte dos calendários principais da Igreja Católica Romana. A romaria popular que ali acontece durante o mês de Maio, remetendo para as suas origens ritualísticas de índole vegetal, transporta-nos directamente para as linhas Marianas de pensamento, profundamente arreigadas no imaginário colectivo nacional.