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A Capela de Santo António e de Nossa Senhora das Mercês na Aldeia do Penedo (Sintra)

por cascalenses, em 19.05.19



 
 
por João Aníbal Henriques
 
Sítios especiais rimam geralmente com memórias únicas e inolvidáveis. É o que acontece na Aldeia do Penedo, junto a Colares, no Concelho de Sintra. Ali, no cimo de uma penedia vincada pelo guinchar permanente do vento, cruza-se a versão pagã original dos cultos anímicos ancestrais com a mística sagrada do Cristianismo mais recente… e se o touro morre às mãos do povo, é a sua carne que alimenta o corpo e a Alma do Imperador, Senhor do Espírito Santo. Vale a pena conhecer este recanto mágico de Portugal.
 
 
 
 
 
Perderam-se no tempos as informações fidedignas sobre a origem da Aldeia do Penedo, em Colares. A documentação histórica, marcada pelos tempos em que o registo já era prática comum, leva-nos directamente para o Século XVI, quando no primeiro numeramento oficial realizado em Portugal, se registava um total de 34 vizinhos a residir no Penedo.
 
Mas este número de habitantes, indicador potencial de uma aldeia já com certo peso histórico, contradiz de sobremaneira os sinais existentes no terreno, que denotam uma origem remota e muito longínqua para a generalidade das mais antigas construções que ali encontramos.
 
No ciclo das construções e das reconstruções, temos então uma Aldeia do Penedo cuja principal marca surge associada à documentação mas, não só pelas evidências arqueológicas como até pela etnografia do local, tudo aponta para uma origem muito mais antiga deste local.
 
A Capela do Penedo, com um duplo orago dedicado a Santo António e a Nossa Senhora das Mercês, foi instituída em 1547 por Francisco Nunes Dias e sua mulher Maria dos Anjos Gonçalves. Através desta instituição, procuraram apaziguar a ira dos deuses, através de um acto de entrega simbólica de uma parte substancial dos seus haveres aos irmãozinhos mais desafortunados pela vida que habitavam naquele lugar.
 
Com decoração opressivamente marcada pela azulejaria polícroma representando hagiograficamente o santo lisboeta, todo o interior do templo transparece da ligeireza formal dos templos de origem chã da região saloia. O Altar Mor, com as imagens de Santo António e de Nossa Senhora das Mercês, cumpre o duplo efeito de recuperar as principais memórias religiosas do povo que frequente o templo e, em épocas festivas, de servir de cenário para a coroação imperial votiva do Império do Espírito Santo.
 
Anualmente, num ritual também ele perdido nas brumas do tempo, uma criança impúbere do sexo masculino era escolhida e coroada como Imperador do Penedo, recebendo as honrarias próprias de quem comanda a terra dos seus. E, sendo notoriamente um papel que todas as famílias desejavam ocupar, era simultaneamente uma honra e uma responsabilidade que se cruzavam no ritual de alimentar os pobres da região…
 
 
 
 
As raízes provavelmente proto-históricas deste ritual, assente na lide à corda de um touro no espaço público, recuperam valores que desde sempre caracterizaram a população do local. Simbolizando a força e a determinação, obviamente imprescindíveis para quem quisesse sobreviver no topo fustigado pelas intempéries de uma Serra sempre especial, o touro é o animal que contrapõe a balança da singeleza imposta pela pureza original da criança coroada imperador. Se um é forte e possante, sendo lidado por todos para que a comunidade imponha a sua vontade aos deuses, quem manda verdadeiramente, ou seja, o próprio imperador, é escolhido e coroado sempre por ser o mais jovem, o mais puro e o mais desprotegido de todos os jovens da região, simbolizando a grandeza de quem é pequeno e a enormidade dos valores e princípios que mais tarde o Cristianismo plasmará no Sermão da Montanha de Jesus Cristo.
 
Antes de ser morto sem se saber exactamente por quem, encoberto por um véu de mistério que só a história permite desvendar, o touro é transportado à volta da capela três vezes. Uma primeira em honra do Pai, seguindo do Filho e, por fim, em honra do Espírito-Santo. E é depois desta terceira volta, quando é benzido pelo Prior local num holocausto místico em que todos participam também, que o animal é morto e esquartejado, sendo o seu corpo cozinhado em pleno largo da capela e a refeição servida aos pobres da zona como bodo cerimonial. 
 
 
 
 
Um culto ancestral, provavelmente muito mais antigo do que a própria capela que agora ali temos e que, num registo anímico de entrega à espiritualidade, recupera de um só ensejo a marca perene do paganismo pré-histórico em linha com os valores espirituais da cristianização galopante. A caridade que dali deriva, porque os mais desprovidos da materialidade ali obtêm as proteínas da carne de que tanto necessitam para viver, encobre-se ritualisticamente para não ser “caridadezinha”, partilhando de forma relevante ensinamentos essenciais para que verdadeiramente ali se cumpra o destino maior de Portugal.
 
Quadro maravilhoso que sobressai do cenário idílico da Serra de Sintra, a Aldeia do Penedo e a Capela de Santo António são visita obrigatória para quem deambula pela Alma de Portugal. Ali se encontram, num cruzamento sentido, as marcas maiores que fizeram coisa enorme deste país tão pequeno.
 
Porque quem sabe entende.
 
 

 

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publicado às 15:47

São Lázaro e a Gafaria de São Pedro de Penaferrim em Sintra

por cascalenses, em 22.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Lázaro, o personagem bíblico irmão de Marta e de Maria e que era amigo pessoal de Jesus, é uma das figuras cujo significado transcende largamente a sua história, carregando consigo o peso de representar a humanidade como um todo.
 
O seu nome, oriundo de uma antiga expressão grega cujo significado literal é “aquele a quem Deus ajudou”, conjuga-se com a excepcionalidade do que lhe aconteceu durante o processo de convivência íntima com o Deus Encarnado, na sua entrega total ao projecto de recuperar os homens dos seus pecados maiores. Tendo morrido de forma repentina antes de o amigo Jesus ter conseguido chegar a sua casa, na antiga aldeia da Betânia, Lázaro foi ressuscitado dos mortos pela intervenção directa do Filho de Deus, num acto que simboliza o poder maior e total que a expressão física da divindade possui sobre toda a matéria.
 
O homem Lázaro, perdido pela sua condição perante as leis da natureza e do homem, ultrapassa a corrupção da própria carne por ordem do Senhor. E o milagre maior, cujo sustentáculo se apropria da própria expressividade absoluta da Fé, conjuga-se no presente, não adiando para um tempo em que já não existirá tempo a resolução do problema que nos afecta actualmente.
 
É costume dizer-se que tudo tem solução excepto a morte. Mas Lázaro, do fundo da sua tumba e perante as testemunhas concretas que assistiram a toda a cena, comprova que nem a morte supera a força absoluta de Deus, oferecendo assim a toda a humanidade que sofre um testemunho pessoal e sentido de que é possível ultrapassar todos os percalços que  vida nos trás.
 
 
 
 
É certamente este o significado mais profundo que surge por detrás da construção da pequena Capela de São Lázaro, situada naquela que foi a antiga gafaria de São Pedro de Penaferrim, em Sintra. Sem se conhecer em concreto a data da sua fundação, mas que certamente precede o início da própria Idade Média, a gafaria de Sintra foi um dos mais importantes guethos para colocação de leprosos na Região de Lisboa, tendo acolhido milhares de doentes durante os seus muitos séculos de existência.
 
Perfeitamente circunscritos dentro da área protegida da gafaria, os doentes estavam proibidos de contactar o resto da população, vivendo em exclusão social até ao final dos seus tempos. Em Sintra, tal como acontecia com outras gafarias noutras zonas do País, os gafos podiam receber autorização para sair do espaço de retenção e para vaguear, quase sempre para irem pedir ajuda às casas mais ricas da região, desde que utilizassem um sino que os identificava como doentes permitindo ao resto da população evitar o contacto e o contágio da doença.
 
Em São Pedro de Sintra restam muito poucos vestígios da antiga gafaria que teria ocupado o espaço central da população actua, mas escavações realizadas recentemente no local, permitiram encontrar sepulturas na zona do actual terreiro da feira, o que ajuda a perceber que a zona residencial, o espaço de culto e o cemitério anexo se circunscreviam a uma zona muito restrita nas imediações da actual capela.
 
 
 
 
De planta muito simples e com uma espacialidade absorvida em absoluto pela sua única nave aberta para o adro que estava virado a Norte, ao contrário do que acontecia com outro tipo de espaços de culto de índole diversa, a Capela de São Lázaro actual será provavelmente do Século XVI, quando a Rainha Dona Leonor ali terá mandado efectuar uma campanha de obras com vista à sua renovação. São dessa época o escudo de Dona Leonor que encima a sua fachada e os bocetes que fecham a abóboda do Altar. Sabe-se, no entanto, que quando se procedeu a esta campanha de obras a capela já existiria e o Visconde de Juromenha, num dos seus trabalhos sobre Sintra, conclui que em 1409 “já excedia a memória dos homens a fundação desta gafaria”.
 
Sendo um exemplar único daquilo que foi o complexo social de São Pedro de Sintra, e ilustração privilegiada da preocupação e cuidados que a lepra lançou sobre Portugal, a Capela de São Lázaro de Sintra é um monumento de primeira importância na definição da memória histórica sintrense.
 
 
 
 
A ligação ao imaginário simbólico do Santo, partilhando com os viventes as agruras de uma existência sem esperança e um futuro muito incerto, conjuga-se neste recanto de forma excelente. Os antigos gafos sintrenses, de corpo corrompido pela doença e de Alma certamente acabrunhada pelo abandono social a que eram devotados, encontravam neste espaço de culto e na presença espiritual de São Lázaro, uma ponte emocional com a existência plena que auguravam alcançar quando chegassem ao céu. A capela de São Lázaro é assim, ao mesmo tempo, um espaço de culto e um portal que ajudava a ultrapassar as vicissitudes impostas pelo tempo.
 
Integrada no reduto manuelino e proto-medieval de São Pedro de Sintra, merece não só uma visita demorada como sobretudo um estudo mais aprofundado que permita estabelecer com rigor a dinâmica que determinou o devir histórico deste estranho e importante recanto da região.

 

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publicado às 16:55

Nossa Senhora da Peninha em Sintra

por cascalenses, em 08.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Reza a lenda que, algures durante o reinado de Dom João III, uma pastorinha muda e esfomeada nascida na localidade das Almoínhas Velhas (Malveira-da-Serra, Cascais), terá subido à Serra de Sintra com o seu rebanho onde encontrou Nossa Senhora. A figura com a qual falou, respondendo ao seu anseio de alimentos para si e para a sua família, disse-lhe para regressar a casa e abrir uma determinada arca onde encontraria o pão de que necessitava. Correndo de regresso para casa da mãe, a pastorinha recuperou a voz e disse à sua mãe onde procurar o tão almejado alimento. A velha imagem tosca de Nossa Senhora da Penha, colocada na arca, terá sido então colocada para veneração na velha Capela de São Saturnino, situada a poucos metros do local da aparição. Mas, teimosa, saia subrepticiamente do altar onde a colocavam e reaparecia no cimo dos rochedos situados atrás do templo. Tantas vezes se repetiu a travessura que se construiu em sua honra a capela actual no topo do monte da peninha.
 
Não se sabendo exactamente quando tudo isto aconteceu, e havendo várias notícia da existência de edifício que precederam aquele que actualmente ali se encontra, sabe-se, no entanto, que a Capela de Nossa Senhora da Peninha terá sido construída por um tal Pedro da Conceição, que tinha na altura somente 28 anos, e que se encontra sepultado junto ao monumento.
 
 
 
 
Nas inscrições lapidares de Sintra, vem descrita a indicação que se encontra na sepultura do fundador, dizendo que ali jaz o Ermitão Pedro da Conceição, falecido em 18 de Setembro de 1726, e que pede a todos os que por ali passem um Padre Nossa e uma Avé Maria pela Alma dos seus benfeitores. Numa das paredes do templo, existe uma segunda lápide confirmando a identidade do construtor original e afirmando que a obra foi efectuada em 1690. Sendo muitos e rocambolescos os episódios pelos quais passou o singelo templo sintriano, o certo é que foi alvo de muitas obras de construção e reconstrução que lhe conferiram o aspecto que hoje conhecemos.
 
Sabe-se ainda que no final do Século XIX, em 1892, a Peninha é comprada pelo Conde da Almedina que em 1918 a revende a António Augusto Carvalho Monteiro. O Monteiro dos Milhões, como ficou conhecido o construtor da Quinta da Regaleira, situada junto à Vila de Sintra, era na altura um dos mais conhecidos e ricos empresários lisboetas, com investimentos variados na banca de então que, do alto da sua prosperidade, adquire uma visão ecléctica do Mundo e das suas gentes.
 
Profundamente místico e grande conhecedor de tudo aquilo que dizia respeito ao destino de Portugal, Carvalho Monteiro pauta a sua vida por um conjunto de valores e de princípios que, apesar da distância que o separa do antigo Ermitão Pedro da Conceição, lhe são muito próximos e semelhantes.
 

Adossado às penhas que sustentam a capela, o proprietário projecta a construção de um palácio onde pretendia passar temporadas em meditação e em recolhimento. Projectado por Júlio da Fonseca em 1920, o palácio fica por acabar mercê da morte de Carvalho Monteiro, tendo posteriormente sido adquirido do advogado José Rangel de Sampaio que concluiu as obras e legou o palácio em testamento à Universidade de Coimbra.
 
 
 
 
Em 1991, pela importância de 90.000 contos, o imóvel é adquirido pelo Estado Português, através do Serviços de Parques e Conservação da Natureza, que efectuou algumas obras de restauro e conservação.
 
A Poente da Capela de Nossa Senhora da Peninha, subsiste em forma de ruína avançada, o que resta da velhinha Ermida de São Saturnino, originária do Século XII, e cuja importância em termos patrimoniais contrasta de forma evidente com a incúria em que tem sido deixada.
 
 
 
 
O conjunto patrimonial da Peninha, composto pela Capela, pelo palácio de Carvalho Monteiro e pela velha Ermida de São Saturnino, está inserido numa das mais impactantes paisagens da Região de Lisboa, abraçando em termos visuais desde a Ponte Sobre o Tejo, em Lisboa,  até ao Cabo da Roca.

A singeleza da lenda, apelando aos sentidos de pureza primordial e fazendo a apologia da pobreza extrema, enquadra-se no conjunto ritualístico próprio da Serra de Sintra, numa lógica cruzada de paganismo cristianizado e de apelo constante ao Quinto Império Português. A devoção pela Senhora que concebe, a Senhora da Conceição que tão linearmente devolve à pastorinha das Almoínhas Velhas (ou Almas velhas), a sua voz e lhe mata a fome, é concretizada pelo Ermitão, ou seja, pelo que assume a pobreza como fio condutor da sua vida, Pedro da Conceição, em ligação permanente ao culto ritual antigo.
 
Na Ermida Medieval, onde o culto é de São Saturnino, a linha orientadora é a mesma, apelando ao eterno retorno e ao culto obscurecido dos Mundos Internos, numa lógica que corre em linha com o útero materno, a Deusa-Mãe primordial, por aqui venerada desde tempos imemoriais.
 

 

Enfim… Nossa Senhora da Conceição. 

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publicado às 16:31

Cascais e o Estoril em 1989 na Revista "Cidades & Municípios"

por cascalenses, em 10.08.16

Cidades&Municipios1989.jpg

 

 

Há precisamente 27 anos, em Agosto de 1989, a revista “Cidades & Municípios” dedicava um dos seus números àquilo que designava como “as consequências do crescimento de Cascais e de Sintra”.

 

Abordando o turismo como vocação agregadora da região, basicamente por recuperar quase um século de uma história grandiosa sob a chancela da marca internacional “Estoril”, a revista apontava as grandes infra-estruturas que deveriam concretizar-se num futuro próximo. Da auto-estrada de ligação a Lisboa ao sistema de saneamento, muitos eram os desafios que em 1989 se colocavam a Cascais, nomeadamente na gestão da sua promoção internacional, nas acessibilidades, na consolidação ambiental e na habitação.

 

No ano em que foi publicada esta reportagem, Cascais vivia o início do período conturbado que mais tarde haveria de ser chamado “a betonização do concelho”. As mudanças que acabariam por chegar a partir da década de 90, como a já referida A5, o emissário submarino, a marina, o centro de congressos, a escola de turismo, etc., foram o mote para um complexo processo que desvirtuou definitivamente o devir quotidiano de Cascais e que gerou uma série de desequilíbrios dos quais o concelho ainda não conseguiu recuperar.

 

Os anos que se seguiram foram caóticos para a memória comunitária municipal. A destruição do património e a construção desenfreada, geraram novas realidades que os poderes locais demoraram demasiado tempo a entender e a começar a tratar.

 

27 anos depois, vale a pena reler esta reportagem, até porque muitos dos desafios ali elencados são ainda pertinentes na actualidade. Conhecer e perceber a história recente é um passo de gigante para evitar que voltem a cometer-se os erros do passado.

 

Leia AQUI a Reportagem “O Crescimento e o Turismo” da Revista Cidades & Municípios

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publicado às 15:32

O Convento dos Capuchos em Sintra

por cascalenses, em 17.11.14

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
São raros os espaços assim que, extraordinários e impactantes, não estão associados à monumentalidade das suas construções mas sim à singeleza levada ao extremo. É o que acontece no Convento dos Capuchos, em Sintra, onde a força da natureza de cruza com a vontade do homem para recriar um espaço que apela ao sonho e à vida, ao mesmo tempo que acorre aos desígnios que a carne impõe ao homem…
 
Embrenhado nas penhas antigas que dão forma à Serra da Lua, o Convento dos Capuchos, também conhecido como Convento da Cortiça, recria-se a partir da solicitação da pobreza extrema e do despojamento total que caracterizava os seus mais antigos habitantes.



 
 
Construído em 1560 por Dom Álvaro de Castro, em cumprimento de um voto formulado pelo seu pai D. João de Castro, Vice-Rei da Índia, que por ali adormeceu durante uma caçada e que terá sonhado com a criação de um pedaço de céu neste recanto inóspito da serra, o Convento dos Capuchos associa o fulgor da natureza, com as suas pedras e penhascos envolvidos em vegetação que romanticamente o envolve, com os mais profundos sonhos e anseios da humanidade.
 
Para lá entrar, passando um portal de sombra que nos verga perante a cruz, é necessário abandonar as paixões do mundo e das coisas, de forma a tornar possível abraçar por completo os desígnios mais profundos da divindade. Lá estão, aliás, o portal com a caveira e as duas tíbias cruzadas que, encimando a porta que sai do terreiro do sino para entrar no espaço conventual, simboliza a morte em vida e o triunfo desta última sobre as funestas sombras da morte…



 
 
E lá dentro, no estreito e obscuro corredor que dá acesso à luz interna, ficam as memórias daqueles que se enterraram vivos, entregando a Deus o seu insignificante corpo em busca da gloriosa apoteose da vida verdadeira, ou seja, daquela que é imortal e que surge livre das peias constrangedoras da carne.
 
Pobre, sombrio e frio, ao ponto de causar estranheza a possibilidade de se viver assim, o convento obriga-nos constantemente a baixar a cabeça. Fazemo-lo para entrar nas celas conventuais, na sala do capítulo, na sala de jantar ou nas cozinhas, num acto de reverência perante Deus e num ritual de humildade em linha com o ideário Franciscano que dá forma à Ordem que por ali prevalece.
 
Por todo o lado, cumprindo a sua obrigação de gritar bem alto que o crucifixo é uma realidade passageira, obviamente necessária para que a carne faça sentido, mas necessariamente transitória no percurso maior em direcção a Deus, lá está a rosa-cruz, espécie de roda em eterno movimento que grita bem alto a Boa Nova e a ressurreição de Cristo Nosso Senhor.



 
 
Mas são muitos e variados os motivos de interesse deste espaço excepcional. Desprovida das expressões mais vulgares da arte e da ostensiva presença de um espólio enriquecido pelos muitos séculos de boas-práticas que aquelas paredes já viram, a cerca é um autêntico cadinho de maravilhas naturais, numa simbiose perfeita entre a força da natureza e a vontade de Deus. Ninguém fica indiferente à decoração em cortiça, que enche por completo cada canto e recanto daquele espaço conventual, nem tão pouco à labiríntica disposição dos seus longos corredores, dispostos com naturalidade em torno da formulação das penhas ancestrais que a natureza por lá deixou.
 
Neste convento, perdido num tempo que se constrói a partir da inexistência do tempo, viveu durante muitas décadas o célebre e mítico Frei Honório que, de acordo com a lenda, se penitenciou durante trinta anos numa gruta inóspita existente na cerca, por ter cedido à tentação perante uma mulher que lhe havia sido enviada pelo maligno para o deter. A pé e água, lá terá sobrevivido até aos cem anos, tendo como companhia exclusivamente a paisagem magnífica da Várzea de Sintra e o frio cortante que constantemente bate o local, carregando as penas de quem por lá estiver. Mas era isso que procurava Frei Honório. A libertação do corpo em defesa de uma Alma pura e liberta das teias e tentações que a carne faz prevalecer.



 
 
É de deslumbramento total e permanente uma visita ao convento. Porque ali encontramos os arquétipos ancestrais que dão forma à nossa forma de ser e de pensar, ansiando na Terra pela descoberta do caminho em direcção ao céu. Filipe II de Espanha, o todo-poderoso rei que uniu Madrid e Lisboa num mesmo trono controlando um Mundo inteiro sob o seu ceptro, escreveu às suas filhas depois de visitar o convento dizendo que existiam duas maravilhas no seu reino: o Escorial, em Espanha, e o Convento dos Capuchos, em Sintra…
 
Pouco se pode dizer sobre esta preciosidade do património Português, até porque a singeleza que o caracteriza apela ao deslumbramento e à espiritualidade que é sempre superior às palavras e ao talento necessário para as transformar na montra que é necessário fazer. Mas é, certamente, um daqueles locais que vale a pena visitar nem que seja uma vez na vida, até porque quem lá entra, desde que o faça com a capacidade crítica de entendimento do espaço e de todos aqueles que por lá viveram, recuperará certamente uma vida nova em linha com a ideia de um paraíso terreal que todos gostaríamos de conhecer prevalecer.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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publicado às 13:28

António Capucho e a Democracia do PSD

por cascalenses, em 12.02.14



por João Aníbal Henriques

Sabendo-se de antemão que iria acontecer, até porque antes de iniciado o julgamento, os juízes já haviam anunciado a sentença que dele viria a resultar, não deixa de chocar a expulsão do Social-Democrata António Capucho do PSD.

A primeira grande questão que se coloca tem a ver com o próprio perfil de António Capucho. Fundador do PSD, onde esteve desde a primeira hora com Sá Carneiro, o ex-autarca de Cascais desempenhou ao longo das últimas quatro décadas cargos de grande destaque na vida política Nacional, dando corpo e cara pelo seu partido e, principalmente, pela ideologia Social-Democrata na qual acredita e que sempre defendeu. Foi Secretário-Geral do partido, deputado, secretário de estado, ministro e líder do grupo parlamentar, antes de ter decidido dedicar-se à sua terra, ganhando a presidência da Câmara Municipal de Cascais por três vezes e de ter sido um destacado membro do Conselho de Estado.

Ou seja, Capucho representou, defendeu e lutou pelo seu partido e pela Social-Democracia uma vida inteira e parece que o PSD sempre valorizou o que ele fez. Agora, sem apelo nem agravo, de forma cega e pela mão de “escravos dos estatutos” resolveu que já não lhes interessava tê-lo com eles. E das duas uma: ou mudou António Capucho – o que efectivamente é notório que não aconteceu – ou mudou o PSD…

Enquanto edil de Cascais, concorde-se ou não com todas as decisões tomadas por ele, António Capucho assumiu uma postura de grande rectidão no cumprimento daquilo que propôs aos munícipes que o elegeram, por três vezes e sempre com maioria absoluta… Foi capaz de se manter irredutível no travão à especulação imobiliária que grassava em Cascais, lutando contra poderes enormes e muito consolidados no Concelho e, depois, com um grau de respeito pelos outros e por quem pensa de forma diferente (coisa a que Cascais já não estava habituado), tratou sempre com consideração os cascalenses que a ele se dirigiram, ouvindo as suas ideias e propostas, aceitando algumas e recusando outras, mas sempre com o cuidado de explicar as suas decisões e de as transmitir com respeito por aqueles que as enviaram.

Esta prática foi, aliás, a mesma que o levou a deixar a Câmara de Cascais, entregando a herança do seu trabalho ao PSD e de, em linha com a decisão tomada pela Concelhia local do partido, apoiar e integrar a candidatura do partido em Sintra…

Mas o partido, esse que ele ajudou a criar e que sempre defendeu, já não se guiava pelos princípios de sempre e pela doutrina deixada por Sá Carneiro. A rectidão e a linearidade da sua prática, conjugada com a honestidade e a verdade que serviram de guia ao seu trabalho autárquico, chocavam de sobremaneira com os interesses instalados, com a prática suja que se havia institucionalizado e com um conjunto de gente que defendia ideias diferentes. Os novos dirigentes nacionais do partido, contrariando a vontade dos seus militantes de Sintra, os interesses de Sintra e dos Sintrenses e (pasme-se) até os interesses eleitorais do próprio PSD, decidiram pura e simplesmente anular a candidatura já anunciada e expulsar do partido aqueles que ousaram manter a rectidão da sua prática social-democrata.

Se, numa primeira perspectiva parece ser um problema interno do PSD, que deveria incomodar unicamente os militantes daquele partido e não a generalidade dos Portugueses, uma análise mais atenta permite verificar que o não é. Pelo contrário. Com a decisão que agora tomou, o PSD assume um paradigma de funcionamento assente em pressupostos que, dadas as responsabilidade que o partido teve, tem e terá ainda nos destinos de Portugal, extravasa de forma preocupante as suas fronteiras internas e implica gravemente no devir quotidiano dos Portugueses em geral.

Utilizando um guião de práticas que parece decalcado do que de pior se fez em Portugal há cem anos atrás, quando as eleições eram uma farsa na qual todos fingiam acreditar, a liberdade era uma utopia para artistas desolados e a democracia uma palavra vã que não servia para nada, o PSD voltou ao caciquismo trauliteiro que se rebola perante as revogações reiteradas das decisões irrevogáveis, sem laivo de vergonha, de princípios ou de confiança.

Este partido novo que agora governa Portugal, como infelizmente os restantes do dito arco do poder, vive encerrado sobre si próprio, sobre os seus líderes que fazem assentar o poder nos exércitos de apaniguados que se vão digladiando pelos lugares e pelas migalhas que o exercício rotativo do poder lhes vai deixando…

António Capucho já não cabe neste PSD, porque morreram as ideologias, os princípios, os valores, a educação e o respeito. Assuma-se que com eles também já morreu a liberdade e a democracia.

E se os Portugueses não forem capazes de lhes retirar o poder, vai morrer também Portugal. 

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publicado às 13:10


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