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O Palácio Real da Ajuda

por cascalenses, em 23.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Causa estranheza, para quem deambula desinteressadamente pelos arrabaldes de Belém, em Lisboa, o enorme palácio inacabado da Ajuda. Em primeiro lugar pela sua dimensão inesperada num ponto esquisito da cidade; Depois, porque a sua magnífica fachada neo-barroca contrasta de forma impactante com as traseiras inacabadas e em cenário de pré-ruína; e por fim, porque a alguns metros do monumental edifício, se ergue uma também ela monumental torre do relógio, com o seu galo de ferro forjado, que parece perdida no meio de um vasto e quase sempre vazio parque de estacionamento…
 
Mas a explicação para este estranho fenómeno monumental de Lisboa é simples e está directamente relacionada com uma série de azares e infortúnios que marcaram a vida da capital e a de todos os Portugueses.
 
O primeiro desses desastres foi provavelmente o maior cataclismo de sempre na História de Portugal: o grande terramoto de 1755. Na manhã do dia 1 de Novembro, quando a velha cidade medieval de Lisboa se preparava para devotamente assistir à Missa do Dia de Todos-os-Santos, a terra tremeu de forma tremenda, praticamente destruindo três quartos da área total da capital. Como se tal não bastasse, o cataclismo foi seguido de um maremoto inimaginável, que fez as água do Rio Tejo subir até ao actual Marquês de Pombal, que foi seguido de uma devastação brutal imposta por sucessivos incêndios.
 
 
 
 
Num cenário apocalíptico de destruição e ruína, Lisboa viveu muitos dias de medo. Os habitantes temiam a possibilidade de novas réplicas e, não só a instabilidade ao nível dos elementos, como a interpretação do fenómeno como tradutor da cólera divina perante os seus habitantes, pareciam combinar-se para gerar uma onda generalizada de refugiados que procuravam afastar-se o mais possível da cidade.
 
O Rei Dom José I e a Família Real, por um acaso que foi essencial na determinação daquilo que viria a ser o rumo da própria História de Portugal, tinha passado essa noite em idílico refúgio em Belém, local menos afectado pela onda sísmica, razão pela qual todos escaparam incólumes ao desastre. Mas, se escaparam sem ferimentos físicos à devastação trazida pela fúria da natureza, não conseguiram livrar-se da angústia perante o acontecido e, sobretudo, do medo que era comum a todos os súbditos que fugiam da cidade. Temente a Deus e cheio de medo de que tal cenário de catástrofe pudesse vir a repetir-se, terá o Rei indicado ao seu braço-direito, o Primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, que jamais voltaria a dormir numa casa de alvenaria!
 
E assim foi. Cumprindo as ordens reais, foi a Família real instalada num palácio construído precariamente em madeira numa velha quinta comparada por Dom João V na zona da Ajuda, que popularmente passou a ser conhecido como a “Real Barraca da Ajuda”, para onde se transferiram grande parte dos bens de outros palácios reais e nomeadamente aqueles que haviam escapado aos escombros do velho Paço da Ribeira.
 
 
 
 
A Real Barraca, plena de sumptuosidade e ocupando uma área maior do que aquela que ocupa o actual palácio, foi imaginada pelos melhores arquitectos de então, e decorada com o luxo que estava associado à importância e à riqueza da Casa Real Portuguesa. Petrone, Mazone e Veríssimo Jorge, foram apenas três dos personagens ilustres que ajudaram Dom José a transformar a estrutura precária num dos mais ilustrados palácios da Europa de então. À sua volta, por ordem do Marquês de Pombal, foi construído o primeiro Jardim Botânico de Lisboa, enquadrado na soberba paisagem fronteira ao Tejo e encabeçada pela construção também ela monumental de uma imensa Capela Real em madeira, cujo perfil marcou em definitivo o cenário régio da cidade.
 
Tendo ali vivido até à sua morte em 1777 o Rei Dom José, a real Barraca da Ajuda depressa alcançou o prestígio social de centro da Corte, dali se definindo toda a política que haveria de recriar a moderna Lisboa que hoje temos.
 
 
 
 
A perenidade da construção e a passagem do tempo, condicionaram então a Família Real a repensar o modelo precário da estrutura onde habitavam e começaram a surgir os primeiros planos para a construção de um imenso palácio barroco em pedra no mesmo local. Subsiste até hoje, por ter sido a única estrutura efectivamente construída em pedra nesse tempo, a velha torre sineira do galo, que durante essa época áurea, estava completamente envolvida pelo abarracamento da velha patriarcal de madeira e pelo vetusto palácio.
 
Depois da morte do Rei e mercê do facto de a sua filha e sucessora viver correntemente no recém adaptado Palácio de Queluz, onde encontrava acomodações e conforto substancialmente superior àquele que exista na Ajuda, ficou a velha barraca numa situação de cada vez mais precário abandono, tendo sido completamente destruída, mercê do infortúnio de um incêndio que acidentalmente a destruiu por completo, no ano de 1794. Tendo sobrado unicamente a velha torre do relógio, o Príncipe-Regente D. João ordenou o início da construção de um novo palácio, seguindo os traços e os projectos que desde há muito tempo se estavam a preparar para o local.
 
Com traço de Manuel Caetano de Sousa, o novo palácio barroco da Ajuda começa a ser construído logo nesse ano mas, mercê de vicissitudes diversas a que não é alheia a invasão francesa e a fuga da Família Real para o Brasil, as obras são suspensas provisoriamente, só recomeçando depois da crise, e depois de o projecto inicial ter sido modificado e modernizado por Francisco Xavier Fabri e José da Costa e Silva, ao sabor das mais modernas correntes de pensamento do início do Século XIX.
 
 
 
 
Não estando ainda terminadas as obras quando o novo Rei Dom João VI regressa a Lisboa, opta a família real por habitar o Palácio da Bemposta e o recém-renovado Palácio das Necessidades, deixando as obras da Ajuda num lento marasmo que se vai prolongar ao longo de muitos anos. Durante o curto reinado de D. Miguel, é na Ajuda que se assiste à sua proclamação e às principais cerimónias de Estado, sendo também ali que virá a ser aclamado o Rei Dom Pedro V, já em pleno período liberal.
 
Depois, quando o romantismo trazido da Alemanha pelo Rei-Consorte Dom Fernando II de Saxe-Coburgo-Gotha se concretiza no ambiente bucólico da Pena, em Sintra, o fausto só regressa ao Palácio Real da Ajuda pela mão da Rainha Dona Maria Pia de Sabóia, esposa do Rei Dom Luís, que se apaixonou pelo espaço e, para além de ter tentado concluir as obras sempre inacabadas das alas Norte e Poente do edifício, se encarregou pessoalmente do adaptar às necessidades do seu tempo e de o decorar de acordo com o seu requintado gosto italiano. Foi ela quem, aliás, ali viveu de forma ininterrupta depois da morte do Rei Dom Luís e durante todo o reinado do seu filho, D. Carlos e, depois, até à Implantação da República em Outubro de 1910.
 
Agora, cerca de 200 anos depois do início das obras, foi finalmente anunciada a conclusão da fachada Poente do palácio, num projecto apresentado em finais de 2016 pelo Primeiro-Ministro e com traço do Arquitecto João Carlos Santos.
 
 
 
 
Os esboços apresentados, cuja execução orça cerca de 15 milhões de euros, assumem uma linha de cisão muito controversa relativamente à traça original do edifício, implementando uma estrutura moderna em vidro que fechará definitivamente a História da Ajuda.
 
Inserida na mentalidade traumatizada da visão cultural do Portugal que hoje temos, o projecto que agora se apresenta deforma o Palácio Real da Ajuda e deturpa a visão que os Portugueses têm dele. Mas, pior ainda, dá corpo a uma abordagem de tal forma impressiva que, na dinâmica da arquitectura de cenário que a Ajuda sempre teve, configurará uma abordagem perfeitamente desenquadrada a ser concretizada pelas próximas gerações, num manancial de imposição egoísta de novos rumos e de novas abordagens que compromete toda a história deste local.
 
Assumindo a História de Portugal e a História de Lisboa, o Palácio Real da Ajuda deveria ser concluído seguindo o projecto inicial. Só assim, respeitando os ecos da História e a memória colectiva dos Portugueses, se poderia aspirar em manter a sua importante função de catalisadora da Identidade Portuguesa.

 

 

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publicado às 15:29

A Torre do Galo e a Real Barraca da Ajuda

por cascalenses, em 20.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Porque o destino sempre se impõe à realidade, o desastre fatídico que destruiu a cidade de Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755, não afectou directamente o Rei nem a Família Real. Por vicissitudes várias e naturalmente alheias ao terramoto, o Rei Dom José, a sua mulher e os filhos, encontravam-se no Palácio de Belém naquela ocasião terrível. O Paço Real, situado na zona fronteira ao Cais das Colunas, em pleno Terreiro do Paço, ficou exactamente no epicentro do sismo, tendo sido a zona mais destruída da Cidade de Lisboa.
 
Mas o monarca, que imediatamente visitou a cidade para tomar nota dos estragos produzidos, ficou bastante abalado psicologicamente pelo cataclismo. Regressado a Belém, zona considerada de menor actividade sísmica, afirmou categoricamente que nunca mais voltaria a viver em edifícios feitos de alvenaria e pedra. Para resolver a situação, e ainda com medo de eventuais réplicas que ainda devastassem mais a cidade, o Rei mandou construir, na Quinta da Ajuda, um enorme palácio real, feito de madeira e de materiais leves, cuja estrutura marcou de forma indelével a paisagem e o imaginário lisboeta durante muitos anos.
 
 
 
 
O palácio de madeira, conhecido popularmente como a Real Barraca, ocupava uma vasta zona sobranceira a Belém. Foi a sua estrutura, marcante do ponto de vista paisagístico mas também determinante para a consolidação urbana desta parte da cidade, quem ajudou a definir os novos arruamentos e o espírito urbanizador do novo bairro.
 
Agregado ao palácio abarracado, na denominada Quinta da Ajuda de Cima, foi também construída uma Capela Real, que tinha como principal função substituir a Igreja Patriarcal que tinha sido bastante abalada pelo terramoto. Também elaborada em madeira, com traço de Elias Sebastião Pope, a Capela Real integrava o único apontamento em alvenaria existente no conjunto original. A sua torre sineira, projectada pelo Arquitecto Manuel Caetano de Sousa, começou a ser construída em 1792, funcionando como Patriarcal de Lisboa até 1833, quando regressou à Sé de Lisboa.
 
 
 
 
Tendo perdido a sua funcionalidade, foi a antiga patriarcal de madeira mandada demolir no Século XIX, tendo restando unicamente a velha torre sineira.
 
Sendo hoje uma imagem de marca do Bairro da Ajuda, que conta com o galo em ferro forjado que encima a torre como seu símbolo heráldico, a Torre da Ajuda causa estranheza a quem dela se acerca sem conhecer a sua história. A sua monumentalidade, assente numa altura de muitos metros que a faz sobranceira ao próprio Palácio Nacional, a torre integra oito sinos que dão corpo à sua estrutura principal. Na cúpula, é o cata-vento em forma de galo, feito em ferro forjado, que lhe dá o cunho de estranheza que a torna tão imponente…
 
 
 
 
Em termos formais, a denominada Torre do Galo apresenta uma morfologia muito semelhante àquela que foi utilizada no Palácio das Necessidades e no Palácio de Mafra, sendo porventura um decalque do mesmo modelo que foi aproveitado para este efeito.  
 
Com a destruição da antiga Real Barraca por um incêndio e com a demolição da Capela Real, a velha torre ficou perdida no meio de um terreiro transformado em parque de estacionamento. Pelo que representa em termos da historiografia de Lisboa, pelo impacto que tem na paisagem da cidade e na definição do imaginário colectivo da Ajuda e de Belém, merecia que ali se concretizasse um projecto de valorização qualquer. Os escassos metros que a separam do palácio actual, com um murete de separação que regula o desnível produzido pelo terreno, não faz nenhum sentido, representando um verdadeiro atentado patrimonial à memória dos Portugueses.
 

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publicado às 16:47

Milagre de Novembro em Cascais

por cascalenses, em 11.11.16

 

 
 
 
Eu sou aquelle, que Cascaes já vi,
eu sou o que Cascaes não vejo já,
de quanto era dantes fumos dá,
e tudo he fumo o que contém em si.
 
Frei António do Espírito-Santo
Mestre de Filosofia do Convento de Nossa Senhora da Piedade em Cascais
1756
 
por João Aníbal Henriques

Eram 9h45 da manhã desse dia 1 de Novembro de 1755 quando a Vila de Cascais viveu o pior cataclismo da sua História. Depois de um início de dia calmo e ameno, que fez sair a população das suas casas para se dirigir às igrejas e capelas para assistir à Santa Missa do Dia de Todos-os-Santos, começaram a ouvir-se ao longe os rugidos tremendos oriundos das entranhas da terra e a sentir-se os primeiros tremores que anunciavam o terror que estava para vir.
 
 
 
 
Assustados, os Cascalenses de então refugiram-se na oração e, de dentro dos espaços sagrados de Cascais, assistiram incrédulos à completa destruição da sua terra. À medida que os abalos iam aumentando, fazendo cair pedras e as paredes velhas, aumentava o clamor do rugido que se ia misturando com a gritaria enlouquecida da população com a visão turvada pelo medo e pela morte. E como se não bastasse, porque a natureza foi especialmente truculenta naquele dia nefasto, num instante transbordaram as águas da Ribeira das Vinhas que encheram a vila e provocaram afogamentos sem igual. O mar, enraivecido também ele pelo desastre que se abatia sobre Portugal, galgara os rochedos e entrava livremente em Cascais, esmagando com a sua força muitos daqueles que procuravam sobreviver à desgraça geral.
 
Não tendo outro local para onde fugir, um grupo de Cascalenses refugiu-se dentro da frágil Capela de Nossa Senhora da Conceição, ali procurando a protecção divina contra a desgraça que imperava ao seu redor. Unidos pela sua Fé, fizeram um voto a Nossa Senhora dos Inocentes pedindo protecção contra o desastre que enfrentavam. E, tendo sido ouvidos pela Senhora da Conceição, que logrou salvar a singela capelinha dos fenómenos desastrosos que por todos os lados a atacavam, salvaram-se todos os que ali se tinham abrigado. Agradecidos pela mercê, criaram uma irmandade que tinha como principal objectivo o cumprimento do voto feito a Nossa Senhora, consignado numa Procissão que aconteceu anualmente até 1920, sempre com a presença de todo o povo de Cascais.
 
 
 
 
O milagre de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, perpectuado em Cascais através da singela presença do antigo templo, é marca perene da devoção ancestral dos Cascalenses à sacralidade primordial da Senhora da Conceição. Simbolicamente agregada aos arquétipos ancestrais da fertilidade, congregando em seu torno o papel de mãe e protectora que ilumina aqueles que têm Fé na sua mensagem, a ritualidade mística que envolve esta devoção é inquestionavelmente um dos alicerces principais da vivência sagrada da vila de Cascais.
 
 
 
 
Não se conhecendo com rigor a data de construção da capela, mas inferindo que o ano de 1609 que consta no cruzeiro construído ao seu lado poderá corresponder ao início da sua edificação, a Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, para onde se transferiu o culto religioso depois de o terramoto ter destruído quase por completo todas as restantes igrejas e capelas da vila, apresenta uma planta simples à qual foram adicionados, já em meados do Século XIX, os dois corpos laterais, em linha com aquilo que era a tradição mais antiga da religiosidade de raiz rural que proliferava junto da população.
 
Passando hoje bastante despercebida no caminho de veraneio para o paredão, a Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes carrega consigo uma das principais memórias de Cascais e aquela que é a pedra basilar da Identidade Municipal dos Cascalenses. O milagre de Novembro de 1755, quando se passaram já 261 anos desde aquela manhã faídica, é a prova cabal da ligação dos Cascalenses ao poder da Fé e à inequívoca capacidade que sempre demonstraram ter de viver de forma assumida os valores e os princípios que nortearam o seu devir existencial.
 
 

 

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publicado às 17:20

Cascais e o Terramoto de 1755

por cascalenses, em 01.02.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O cataclismo que se abateu sobre Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 deixou um rasto de destruição na Vila e no Concelho de Cascais. O terramoto e o posterior maremoto, foram acompanhados de incêndios e muitos dos principais edifícios que existiam foram completamente destruídos.
 
A face urbana da Vila de Cascais, com a monumentalidade própria de uma pequena vilória piscatória, sofreu enormes alterações e, mercê dos muitos interesses instalados nesta terra, terá sido porventura o terramoto o embrião da primeira operação de especulação que Cascais conheceu…
 
De facto, as Memórias Paroquiais, bem como as respostas dos reitores das igrejas às questões levantadas pelas autoridades depois do terramoto, apresentam-nos informações muito úteis para conhecer e compreender o que então aconteceu em Cascais. A menção à antiga torre-relógio, que desapareceu nessa manhã fatídica, e a organização espacial dentro das muralhas do velho castelo, estão bem expressas nas palavras do pároco de então: “Está esta vila sem relógio porque este, e sua grande torre feita pelos mouros, que sefes em cinzas. O palácio dos marqueses de Cascaes uq era de hua excelente perspectiva, e de exquisitas pinturas, com hua bella ermida, desconhecesse tudo pelo que foi, e já não hé (…). Nesta freguesia há hu castelo, cujo hoje está todo cheio de moradores e para nada serve mais, porem ahinda selhe conservão alguas amejas, cujo fica para abanda da ribeira, pegado com os palacios dos marqueses de Cascaes”.

 
Também Frei António do Espírito-Santo, um dos frades carmelitas do Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), dá-nos conta do estado do castelo após o terramoto de 1755: “cahio a torre com o seu mais especioso relógio nas sonoras vozes do seu sino, que fica olhando para norte, e matando 22 pessoas”.
 
Esta torre, bem identificada em muita da cartografia antiga que se conhece, corresponderia à torre que se situava na parte Nascente do Castelo, com frente para a área do antigo Rossio. Teria planta redonda, em linha com a tradição arquitectónica deste tipo de edifícios, facto ainda visível nas fotografias tiradas no início do Século XX por João da Cruz Viegas, D. António de Castelo-Branco e pelo Visconde de Coruche. De salientar que alguns dos torreões do antigo castelo, marcando os eixos que deram forma ao núcleo urbano inicial da Vila de Cascais, subsistiram até aos anos 60 do século passado, quando foram demolidas no âmbito do surto de construção que assolou Cascais nessa época.
Em termos religiosos, eram vários os edifícios que existiam em Cascais neste final do Século XVIII. Mas a maior parte, mercê das agruras do cataclisma, acabou por ficar muito danificado ou mesmo completamente destruído.

 
De acordo com o testemunho do Reitor da Igreja Matriz de Cascais, Padre Manoel Marçal da Silvejra, ao responder em 1758 aos inquéritos paroquiais, nada sobrou do terramoto e o que se manteve de pé estava em tais condições que a ele lhe parecia que mais valia destruir para construir novas edificações de raiz do que proceder ao seu restauro: “(…) a villa ficou toda arruinada até ao chão. Não há caza, wur ou não cahisse em terra, ou não ficase abalada, ameaçando ruína. Os templos, a ponte, a cidadela, e os eus quartéis, tudo está demolido, e feito em pó. A major parte da villa haita ahinda em barracas fora, e dentro do destricto, a ponte está com hu só arco em pee, e senaõ passa po rella, sem que se reparasse ahinda nada, somente alguas czas setem levantado, poucas, ao mesmo tempo, que outras, com as tempestades e ventos, se tem acabado de postrar”.
 
Do reitor da Freguesia da Ressureição, a segunda freguesia de Cascais e situada no espaço extra-muros, recebemos a informação de que foi esta uma das mais afectadas freguesias do país com a catástrofe do terramoto de 1755: “De todas as terras foi esta aq. Experimentou mayor ruina (conforme dizem todos) por causado ditto terramoto, pois todos os edifícios serruinarão, e quazi todos cahiram, e algum q. nan cahio de todo ficou inahabitavel, mas ao prezente is se acham muntos deles reedificados”.
 
Mas, se é certo que a destruição provocada pelo terramoto foi enorme, certa é também a dose de exagero patente em todos estes documentos, explicável possivelmente com a necessidade de chocar quem os lê-se para sensibilizar o poder nacional para a necessidade de recursos que Cascais sentia para proceder à sua recuperação urbana. De facto, tendo ruído a Igreja da Ressurreição, que se situava sensivelmente onde actualmente se encontra a estação de comboios, muitos outros monumentos civis, militares e religiosos se mantiveram de pé o foram reconvertidos e/ou recuperados e ainda hoje podem ser apreciados na Vila de Cascais.


 
 
A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, por exemplo, uma construção de meados do Século XVII que resistiu à força do terramoto, foi bastante alterada no seu exterior tendo sofrido várias alterações que lhe conferem a imagem que hoje apresenta. Na sacristia e no arco que suporte o coro, ainda são visíveis as sequelas do cataclisma, ao lado com uma pequena inscrição que informa que o templo havia sofrido obras de restauro em 1720 à custa dos irmãos pescadores.
 
Mais à frente, e para além dos muros antigos do castelo, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza de Nossa da Luz resistiram ao terramoto, tendo acontecido o mesmo com o Convento de Nossa Senhora da Piedade que, já no Século XIX, foi comprado em hasta pública pelo Visconde do Gandarinha que o adaptou a residência de veraneio. Quando essas obras foram efectuadas, estavam ainda em estado razoável de conservação a antiga sala do capítulo, a capela, o claustro, a cisterna e mesmo o friso de janelas viradas a Sul que ainda hoje se mantém.


 
 
Da mesma maneira, e para além das pequenas capelas de Nossa Senhora de Porto Seguro e de Nossa Senhora da Conceição, sobreviveram ainda as capelas de Nossa Senhora da Vitória, a Igreja da Misericórdia e a Igreja e Nossa Senhora dos Navegantes que foram reconstruídas depois da catástrofe.


 
 
Tendo exagerado de forma linear a verdade do que aconteceu, a documentação coeva dá-nos uma primeira imagem do que era Cascais naquela época. E, sabendo nós que o ímpeto de construção que se lhe segue fica a dever-se à generalizada informação de ruína eminente em que pretensamente Cascais se encontrava, fácil se torna perceber que naquela altura, como ainda hoje, foi sobre inverdades e premissas adaptadas às necessidades do momento, que se deu uma nova cara ao Cascais de sempre.
 

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publicado às 12:56

Os Paços do Concelho - Câmara Municipal de Lisboa

por cascalenses, em 14.11.13
por João Aníbal Henriques

 

Há espaços que parecem marcados pela falta de sorte… ao longo dos tempos que dão forma ao tempo, sobrevivem a custo às atrocidades que só acontecem de quando em vez. Menos ali, onde as probabilidades são reduzidíssimas mas as catástrofes teimam em acontecer ciclicamente.

 

É o que acontece nos Paços do Concelho de Lisboa. Instalada ali desde o final do Século XVIII, quando o esforço de recuperação da baixa depois do grande terramoto de 1755 permitiu a construção de um edifício condigno para as reuniões municipais, a Câmara Municipal de Lisboa estreou instalações de grande qualidade fruto do traço proeminente do arquitecto Eugénio dos Santos Carvalho.

 

Mas foi sol de pouca dura. No dia 19 de Novembro de 1863, menos de cem anos depois da inauguração, um violento incêndio destruiu por completo os Paços do Concelho, obrigando à construção do edifício actual.

 


A construção, que demorou desde 1865 e até 1880, integrou na fachada o grande frontão de linha neoclássica que, sendo da autoria do escultor Francês Anatole Calmels, veio alterar de forma significativa o projecto original assinado pelo arquitecto Domingues Parente da Silva. A decisão, tomada pelo engenheiro municipal Ressano Garcia, abriu caminho para uma intervenção estética mais alargada que transformou o edifício da Câmara Municipal num dos mais impactantes monumentos da renovada baixa Lisboeta.

 

No interior, em que intervieram José Pereira Cão, Columbano e Malhoa, foi reforçado o valor pictórico próprio do romantismo novecentista, facto que favoreceu a qualidade final do edifício e o interesse que o mesmo despertou junto dos munícipes de Lisboa.

 


Mas não ficaram por aqui as vicissitudes terríveis que afectaram este espaço. Em 1996, no dia 7 de Novembro, outro incêndio devastou o interior do espaço municipal, obrigando a nova intervenção de fundo que lhe conferiu o aspecto que actualmente conhecemos.

 

A opção mais recente, tomada pelo Arquitecto Silva Dias, que liderou a equipa que efectuou a recuperação, foi reaproximar o mais possível o edifício do projecto original de Parente da Silva, fazendo desaparecer muitos acrescentos e revisões impostas pelas necessidades que a História havia imposto aos serviços camarários. Nesta obra intervieram por convite da edilidade Lisboeta os arquitectos João de Almeida, Manuel Tainha, Nuno Teotónio Pereira, Daciano Costa e os artistas Sá Nogueira, Fernando Conduto, Maria Velez, Helena Almeida, Pedro Calapez e Jorge Martins.

 

Depois de o seu varandim ter servido de palco para inúmeras cerimónias que ali decorreram de forma oficial, o edifício da Câmara Municipal de Lisboa é hoje um monumento incontornável numa visita à cidade, marcado de forma muito perene pela Implantação da República que ali aconteceu no dia 5 de Outubro de 1910. 

 

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