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Livro "O Outro Cascais" - 30º Aniversário da Fundação Cascais em São Domingos de Rana

João Aníbal Henriques, 06.11.23

 

A gestão de um município, em linha com a ancestral tradição municipalista que dá forma a Portugal, conjuga-se no tempo futuro. É aí, perspectivando planos e projectos eivados pela ambição de oferecer melhor qualidade de vida aos munícipes, que se encontram plasmadas as potencialidades e as oportunidades de melhor fazer.

Mas, como dizia Santo Agostinho, a conjugação do tempo futuro concretiza-se no presente. Porque é agora que o futuro se prepara e é hoje que se definem os caminhos que preparamos para serem trilhados amanhã…

E todos sabemos que neste desafio que se pretende sustentado e sustentável, os alicerces estão obrigatoriamente no passado. Estão na Identidade, na Cultura, nos usos e nas tradições de um povo que herda geneticamente as qualidades dos seus antepassados acrescentando-lhes no presente os ímpetos de excelência que serão a marca do seu futuro!

Por isso, no âmbito das comemorações do 30º aniversário da Fundação Cascais, provavelmente a mais municipalista de todas as instituições criadas em Portugal, apresentei publicamente o meu livro “O Outro Cascais” numa cerimónia plena de simbolismo na mais significante sala da nossa terra.

Este livro representa um fechar de ciclo, na freguesia de Cascais que me faltava tratar de forma coerente: São Domingos de Rana. Não só porque foi ali que em 1993 demos os primeiros passos no sentido de trazer até à luz a excelência extraordinária daquele recanto de Cascais, como também porque é em São Domingos de Rana que se concentram as maiores e melhores oportunidades e potencialidades que garantem ao concelho um futuro congruente.

É um passeio que calcorreia os caminhos, os becos e as veredas das terras de Rana e, uma vez mais, se insinua por entre as histórias da História daquelas gentes. Porque o Outro Cascais, aquele que se pressente no presente de São Domingos de Rana, é o futuro que desponta já neste imenso presente. Mas é também um tempo dourado pelas memórias sentidas de gerações consecutivas que ali viveram.

Fecho este ciclo com os parabéns à Fundação Cascais, onde está muito da minha alma e coração. Na certeza de que estes 30 últimos anos serão o mote que definirá o futuro de todos os cascalenses. E um agradecimento muito especial à Câmara Municipal de Cascais, que nos permitiu juntar-nos no Salão Nobre dos Paços do Concelho, bem como a todos os que connosco lá estiveram e que tiveram a oportunidade de partilhar a emoção profunda que se associa a um livro de História de Cascais focado no futuro da Nossa Terra.

As fotografias são da autoria do Guilherme Cardoso, do Luís Bento e do Gonçalo Borges Dias a quem igualmente agradeço. Porque os rostos que eles registaram representam a esperança de um futuro ainda melhor para as futuras gerações de cascalenses!

A todos o meu agradecimento!

João Aníbal Henriques

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotografias de Guilherme Cardoso | Luís Bento | Gonçalo Borges Dias

 

 

O Museu do Mar, o Rei Dom Carlos e o Sporting Clube da Parada em Cascais

João Aníbal Henriques, 05.06.23

 

 

 

por João Aníbal Henriques

Diz Pedro Falcão na sua incontornável obra literária “Cascais Menino”, que é impossível falar de Cascais sem mencionar o Sporting Club da Parada. De facto, desde 1879, quando os terrenos da antiga parada militar da Cidadela de Cascais foram desanexados para se constituir o clube cascalense, que este se tornou no coração da vida social, cultural e política de Cascais e do Portugal de então.

O Sporting Club da Parada era um espaço exclusivo, num recinto murado e fechado, onde só entravam aqueles que pertenciam à elite local. Foi ali, mercê do empenho e espírito empreendedor de gente relevante das principais famílias tradicionais de Cascais, como os Avillez, os Ereira, os Falcões, os Pinto basto ou os Castelo-Branco, que se constituiu o núcleo pensante do Cascais da Monarquia, onde reside a génese do Cascais cosmopolita e visceralmente turístico onde hoje vivemos.

 

 

Mas há uma figura que se impõe na forma como nasceu, cresceu e se consolidou o Sporting Club da Parada e a própria Vila de Cascais. El-Rei Dom Carlos, que entre outros predicados possuía uma vastíssima cultura marítima e um amor incondicional ao mar de Cascais e a tudo aquilo que lhe diz respeito, foi peça fulcral na transformação da velha vila piscatória num burgo pujante e de referência no panorama português do final do Século XIX.

 

 


A sua ligação forte à Parada e à vida social que ali se consolidava, resulta de forma eficaz num catalisador que eleva Cascais às mais altas instâncias da aristocracia e do empresariado de então. As grandes figuras da nação e os grandes problemas políticos e económicos que ensombraram Portugal entre 1879 e 1950 passaram todos pelo escrutínio apetado dos cascalenses que fruíam da Parada de Cascais como fórum relevante para a discussão do futuro de Portugal.

E na área dos desportos, do ténis ao futebol, passando pelo cricket, pelo golfe ou pelo rugby, foi no velho recinto da Parada de Cascais que nasceram os seus embriões, catapultando o prestígio e a glória da vila cascalenses até paragens além-fronteiras. As primeiras gincanas automóveis aconteceram ali e foi dentro daquele recinto que as grandes figuras do ciclismo português deram os primeiros passos no sentido de colocar Portugal como referência nesse desporto a nível internacional.

A ligação forte do Rei Dom Carlos ao Clube da Parada, cruzada de forma permanente com a sua relação profícua com o mar, fizeram com que tenha sido ali que muitas vezes o monarca reunia as grandes figuras das artes plásticas nacionais para discutir posições e para definir caminhos novos para a cultura portuguesa. As suas pinturas, maioritariamente dedicadas ao mar, aos barcos e aos recortes pitorescos da costa de Cascais, conheceram ali a sua apoteose, quando o Rei, nos saraus magníficos ali organizados, os oferecia aos seus amigos frequentadores deste espaço indiscutivelmente essencial para a vida quotidiano de muitos portugueses.

 

 


Quando em 1974 aconteceu a revolução portuguesa, o Sporting Clube da Parada foi encerrado, ocupado e o seu espólio saqueado sem apelo nem agravo. E o espaço, outrora prenhe daquilo que era a génese social da vida nesta pequena terra, ficou abandonado até 1976, quando a edilidade resolveu adquiri-lo e adaptá-lo a museu.

O Museu do Mar, que a partir de 1997 ganhou o cognome do rei pintor, cientista e poeta, era uma aspiração antiga do povo cascalense. Com um impulso muito sentido da sociedade civil local, que se uniu em torno deste comum desiderato de adaptar os velhos pavilhões do Clube da Parada no Museu do Mar, depressa o museu do mar reassumiu a essência maior do recinto de outros tempos, recuperando a memória e a alma do Cascais de sempre.

Hoje existem outros museus extraordinários na nossa terra. Existem espaços culturais dotados de moderna tecnologia e de condições de visitação que mantêm Cascais na primeira linha da oferta cultural dos portugueses. Mas nenhum desses espaços tem, pela sua localização, pelos edifícios que o compõem, pela ligação anímica a Cascais e aos Cascalenses, a importância que o Museu do Mar vive quotidianamente.

 


Assim que entramos no portão, percorrendo a velha alameda que nos leva até ao pavilhão principal onde se situada a recepção do Museu do Mar, sentimos no ar as memórias muito vividas de um espaço onde nasceu e se afirmou o Cascais onde hoje vivemos. É ali, na frondosidade sombria das árvores enormes que enchem os espaços onde outrora se situavam os tanques e os campos de “lawn-tennis”, que ecoam ainda as vozes sempre subtis dos nossos avós que fizeram do Cascais de então a maravilha que actualmente temos.

Cada um daqueles cantos e recantos está cheio de encanto. E a magia maior de um Cascais que nasceu de cara virada ao mar é ali que se sente!

Dizia o já referido Pedro Falcão (Dom Simão do Santíssimo Sacramento Pedro Cotta Falcão de Aranha e Menezes), expoente máximo da cascalidade vivida e sentida, que “a Parada, onde se juntava a nobreza, estava para Cascais como anel de brazão está para quem o traz no dedo”.

E o Museu do Mar, congregando na sua imagética a Alma e a Espírito de Cascais é, por tudo isso, o mais importante de todos os museus cascalenses. Que dure para sempre! A bem de Cascais!

O Caminho do Silêncio na Ermida de São Saturnino da Peninha

João Aníbal Henriques, 22.05.23
 
por João Aníbal Henriques
 
Na busca incessante dos trilhos mais significantes de Alcabideche, urge desvendar aquela que é uma das mais impactantes lendas da freguesia. Saída directamente da encruzilhada que junto à Biscaia liga o Caminho das Almas à encosta de São Saturnino, a Poente da Ermida de Nossa Senhora da Peninha, a lenda que corporiza este espaço traduz na sua essência a amplitude milenar das convicções e das crenças de sempre dos Cascalenses. 
 
A subida desta encosta, atravessando o caminho de pé posto que começa nas Almoínhas Velhas e se estende até ao que resta do velho palacete ali construído por António Carvalho Monteiro, o conhecido “Monteiro dos Milhões” que viveu na Quinta da Regaleira e que, do alto da sua iniciação, traduzia na matéria os valores espirituais mais relevantes da Portugalidade, faz-se por entre o exotismo de uma flora artificialmente disposta como se de um cenário se tratasse, propiciadora, por seu turno, de uma fauna pujante que não deixa indiferente quem tem a sorte de por ali poder passear. 
 
 

 

 
Reza a lenda que, algures durante o reinado de Dom João III, uma pastorinha muda e esfomeada nascida na localidade das Almoínhas Velhas (Malveira-da-Serra, Cascais), terá subido à Serra de Sintra com o seu rebanho onde encontrou Nossa Senhora. A figura com a qual falou, respondendo ao seu anseio de alimentos para si e para a sua família, disse-lhe para regressar a casa e abrir uma determinada arca onde encontraria o pão de que necessitava. Correndo de regresso para casa, a pastorinha recuperou a voz e indicou à sua mãe onde encontrar o tão almejado alimento. A velha imagem tosca de Nossa Senhora da Penha, colocada na arca, terá sido então exposta para veneração na velha Capela de São Saturnino, situada a poucos metros do local da aparição. Mas, teimosa, saia subrepticiamente do altar onde a colocavam e reaparecia no cimo dos rochedos situados atrás do templo. Tantas vezes se repetiu a travessura que se construiu em sua honra a capela actual no topo do monte da peninha. 
 
Não se sabendo exactamente quando tudo isto aconteceu, e havendo várias notícias da existência de edifícios que precederam aquele que actualmente ali se encontra, sabe-se, no entanto, que a Capela de Nossa Senhora da Peninha terá sido construída por um tal Pedro da Conceição, que tinha na altura somente 28 anos, e que se encontra sepultado junto ao monumento. Nas inscrições lapidares de Sintra, vem descrita a indicação que se encontra na sepultura do fundador, dizendo que ali jaz o Ermitão Pedro da Conceição, falecido em 18 de Setembro de 1726, e que pede a todos os que por ali passem um Padre Nosso e uma Avé Maria pela Alma dos seus benfeitores. Numa das paredes do templo, existe uma segunda lápide confirmando a identidade do construtor original e afirmando que a obra foi efectuada em 1690. Sendo muitos e rocambolescos os episódios pelos quais passou o singelo templo Sintriano, o certo é que foi alvo de muitas obras de construção e reconstrução que lhe conferiram o aspecto que hoje conhecemos. Sabe-se ainda que no final do Século XIX, em 1892, a Peninha é comprada pelo Conde da Almedina que em 1918 a revende a António Augusto Carvalho Monteiro. 
 
 

 

 
O empreendedor e filósofo espiritualista, como ficou conhecido o construtor da Quinta da Regaleira, situada junto à Vila de Sintra, era na altura um dos mais conhecidos e ricos empresários lisboetas, com investimentos variados na banca de então que, do alto da sua prosperidade, adquire uma visão ecléctica do Mundo e das suas gentes. Profundamente místico e grande conhecedor de tudo aquilo que dizia respeito ao destino de Portugal, Carvalho Monteiro pauta a sua vida por um conjunto de valores e de princípios que, apesar da distância que o separa do antigo Ermitão Pedro da Conceição, lhe são muito próximos e semelhantes. Adossado às penhas que sustentam a capela, o proprietário prepara a construção de um palácio onde pretendia passar temporadas em meditação e em recolhimento. 
 
Projectado por Júlio da Fonseca em 1920, o palácio fica por acabar mercê da morte de Carvalho Monteiro, tendo posteriormente sido adquirido pelo advogado José Rangel de Sampaio que concluiu as obras e legou o palácio em testamento à Universidade de Coimbra Em 1991, pela importância de 90.000 contos, o imóvel é adquirido pelo Estado Português, através dos Serviços de Parques e Conservação da Natureza, que efectuou algumas obras de restauro e conservação. 
 
A Poente da Capela de Nossa Senhora da Peninha, subsiste em forma de ruína avançada, o que resta da velhinha Ermida de São Saturnino, originária do Século XII, e cuja importância em termos patrimoniais contrasta de forma evidente com a incúria em que tem sido deixada. O conjunto patrimonial da Peninha, composto pela Capela, pelo palácio de Carvalho Monteiro e pela velha Ermida de São Saturnino, está inserido numa das mais impactantes paisagens da Região de Lisboa, abraçando em termos visuais desde a Ponte Sobre o Tejo, em Lisboa, até ao Cabo da Roca. A singeleza da lenda, apelando aos sentidos de pureza primordial e fazendo a apologia da pobreza extrema e abnegada, enquadra-se no conjunto ritualístico próprio da Serra de Sintra, numa lógica cruzada de paganismo cristianizado e de apelo constante ao Quinto Império Português. 
 
 
 
 
A devoção pela Senhora que concebe, a Senhora da Conceição que tão linearmente devolve à pastorinha das Almoínhas Velhas (ou Almas velhas), a sua voz e lhe mata a fome, é concretizada pelo Ermitão, ou seja, pelo que assume a pobreza como fio condutor da sua vida, Pedro da Conceição, em ligação permanente ao culto ritual antigo. Na Ermida Medieval, onde o culto é de São Saturnino, a linha orientadora é a mesma, apelando ao eterno retorno e ao culto obscurecido dos Mundos Internos, numa lógica que corre em linha com o útero materno, a Deusa-Mãe primordial, por aqui venerada desde tempos imemoriais. Enfim… Nossa Senhora da Conceição. Os trilhos da Conceição, muito comuns através de todo o território municipal de Cascais, ganham uma importância acrescida e redobrada na área actualmente incluída na Freguesia de Alcabideche. 
 
Os mananciais de água que descem da serra em direcção ao mar, franqueando de forma livre as vastas charnecas que envolvem aquele lugar, deixam atrás de si um rasto de fertilidade que promove a vida, a saúde e o bem-estar daqueles que deles usufruem. A dependência directa destes mananciais, aqui como em qualquer outra parte do Mundo, ajuda a definir a estreita ligação que consistentemente se estabelece entre o quotidiano de cada comunidade e o seu profundo saber. A sabedoria popular, tão importante para a generalidade das tarefas do dia-a-dia, assume-se em Alcabideche como sustentáculo essencial para a formação da identidade local. E espraia-se, desde sempre, através de campos diversos que influem directamente nas escolhas que todos os dias, nos seus momentos de trabalho e de lazer, que os habitantes vão fazendo na sua vida. 
 

O Solar dos Falcões em Cascais

João Aníbal Henriques, 10.03.22

 

por João Aníbal Henriques

Marcada pelo ritmo austero da sua fachada, o Solar dos Falcões, situado no coração do núcleo urbano consolidado de Cascais, é um dos mais importantes e significantes edifícios da vila. Tendo sobrevivido ao grande terramoto de 1755, quando os danos que sofreu não impediram que tenha passado a ser utilizado como substituto da igreja paroquial que, ali mesmo ao lado, havia sido bastante danificada pelo cataclismo, é um dos mais antigos edifícios de Cascais, carregando consigo informações essenciais para compreendermos como era a vila antes das grandes transformações ocorridas a partir de 1870 quando Dom Luís I escolheu este local como estância de veraneio.

De salientar, até porque é bem demonstrativo desta importância, o papel que teve Manuel Rodrigues de Lima, o arrematando da hasta pública que vendeu esta casa e a capela anexa em 1864, na concretização desse projecto de trazer a corte para a vila. Esse seu proprietário, num acto inusitado de entrega ao bem comum, constrói no terreno do velho solar um magnífico teatro dedicado a Gil Vicente que, na magnificência do seu projecto, contrasta de forma evidente com a simplicidade chã que caracterizava Cascais naquela época. E, despertando nos seus contemporâneos a estranheza por tão grandiosa obra num espaço tão desinteressante, depressa se percebe que a mesma fazia já parte de um plano maior engendrado pelas mais importantes e influentes personalidades da vila, das quais faziam parte o dito Manuel Rodrigues de Lima mas também João de Freitas Reis e, principalmente, Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, que com um espírito muito empreendedor foram dotando a vila dos equipamentos necessários para que ela pudesse vir a ser escolhida pelo monarca como destino para o final das suas férias de Verão.

 

 

O Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré, em conjunto com o que resta do seu antigo jardim, apresentam a formulação urbanística que definiu o nascimento e crescimento do casco antigo da Vila de Cascais. A simplicidade dos volumes, contrastando de forma evidente com a riqueza da sua decoração interior, é demonstrativa da influência que teve a arquitectura popular tradicional da região saloia naquilo que foi a consolidação da vila enquanto cerne de afirmação do poder municipal.

O provável instituidor da capela e possível construtor do solar, terá sido Bernardino Falcão Pereira e sua mulher Antónia Felícia Gameiro Feyo que, algures ainda no Século XVII, assumiram este espaço como morada para a família e como jazigo privado.  Foram eles quem, depois de um processo de instalação no território municipal muito marcado ainda pela exploração dos recursos primários da vila, deram origem a uma linhagem familiar que foi determinante na recriação do Cascais da Corte cujas repercussões se sentiram até à actualidade. Pedro Falcão, o saudoso autor da mítica obra “Cascais Menino” era um dos orgulhosos descendentes destes primeiros Falcões, fazendo eco deste legado nas suas obras e nos vários momentos que determinam a sua profusa vida de cascalense.

 

 

Em termos artísticos o Solar dos Falcões possui um importante conjunto azulejar que, com data de 1729, foi pintado pelo Mestre António de Oliveira Bernardes e centra-se numa pintura figurativa de Nossa Senhora da Nazaré a ressuscitar um homem. Os símbolos marianos, que enchem a Capela-Mor, acompanham várias figuras infantis com ligação directa às litanias de Maria, compondo um quadro que complementa de forma evidente a abordagem mariana existente no vizinho Convento de Nossa Senhora da Piedade e o dogmatismo católico que caracteriza a abordagem pragmática expressa de forma visual na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção situada ali mesmo ao lado.

Em termos históricos, e para além da forma como o conjunto monumental evoluiu ao longo da sua longa existência, importa sublinhar a provável utilização desta casa para a assinatura da chamada “Convenção de Sintra”, na qual o General Francês Junot assina a sua rendição perante as tropas inglesas que na mesma altura estavam aquarteladas no edifício dos Condes da Guarda, actuais Paços do Concelho. Importante é ainda, entre 1741 e 1753, a breve ocupação do imóvel por padres da Ordem de São Francisco de Paula que pretendiam utilizar a casa para ali instalar o seu convento em Cascais, e do qual desistiram depois de se aperceberem da existência de condicionantes à posse plena da propriedade.

 

 

Estando a capela classificada desde 1978 como Imóvel de Interesse Público, e o solar como de Interesse Municipal desde 2009, o conjunto composto pelos dois monumentos faz parte integrante da matriz identitária de Cascais e recupera os valores mais importantes da génese de índole rural desta vila piscatória.

Integrada no quarteirão onde o Teatro Gil Vicente impera visualmente, dando o mote para que se perceba como evoluiu historicamente a vila desde meados do Século XIX até à actualidade, o Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré serão porventura as mais abrangentes peças do património cascalense.

O Espigão das Ruivas e o Porto de Touro na Sacralidade Devocional de Cascais

João Aníbal Henriques, 27.01.22
 

por João Aníbal Henriques

Existem espaços que, independentemente da sua História e/ou da sua monumentalidade, apresentam uma força extraordinária no imaginário colectivo das comunidades. Normalmente, quando assim acontece, a sua História efectiva, baseada nos factos incontornáveis ditados pela documentação existente ou pelos vestígios que a arqueologia recuperou, mistura-se com os mitos que resultam do impacto que o dito espaço tem nas gerações que se vão multiplicando em seu torno.

A sacralidade destes espaços, constrói-se a partir da interpretação que se faz deles. E as comunidades que os vivem, condicionando-os às suas necessidades e ensejos, traduzem normalmente nessas abordagens os resquícios mais profundos da sua própria existência…

O mítico Espigão das Ruivas, situado no limite Ocidental do território municipal de Cascais, em local próximo do Cabo da Roca e em estricta ligação física ao Rio de Touro, que ali desagua misturando-se com o próprio Oceano, é exemplo paradigmático desta realidade, impondo-se no imaginário das populações e reformatando a sua relação com a Serra de Sintra e o com o Atlântico.

 

 

O seu envolvimento plástico e cénico, com as arribas verdejantes ao fundo e em contraste profundo com o azul do mar, mistura-se amiúde com o vento forte que condiciona o acesso e impõe respeito a quem o quer visitar. Mítico, porque inacessível ao comum dos mortais, apresenta características morfológicas especiais que adensam o mistério e promovem essa perspectiva quase irreal de um sonho inconcretizado.

As principais linhas de interpretação do Espigão das Ruivas passam pelo mais básico alinhamento das reais necessidades da vida das suas gentes com os impressivos resquícios das vivências passadas. Os rituais da fertilidade, ancestrais na sua relação com a própria sobrevivência da espécie humana, conjugam-se aqui de forma telúrica com o cruzamento entre as águas do Rio Touro. Oriundo da Serra de Sintra, mais propriamente do planalto de São Saturnino, a Poente da lendária Peninha, onde António Carvalho Monteiro, conhecido como Monteiro dos Milhões, construiu o seu eremitério sagrado sobre as penhas velhas da Senhora da Conceição, o ribeiro desce a encosta de forma livre até se cruzar neste espaço quase inacessível, com as tradições lunares das Ruivas, espécie de ninfas que aproveitam a solidão daquele espaço para por ali prosperar.

A linha de abordagem positiva, aqui consignada à figura mitológica do touro, sinónimo de força, de pujança viril e de masculinidade, junta-se à linha matriarcal e feminina que a Lua lhe dá. E desta ligação natural, simbolicamente traçando o contraste de forças aparentemente antagónicas mas complementares, resulta o movimento que origina a própria vida.

 

 

Com base neste pressuposto, e não se sabendo com exactidão qual foi a origem efectiva da velha estrutura pétrea existente no topo da rocha e com vista directa para a praia, fácil se torna perceber a interpretação linear que dele faz a comunidade. Se a isto juntarmos a longevidade desta situação, porque os vestígios que foram encontrados junto à dita estrutura datam da Idade do Ferro, natural se torna perceber que a extrapolação dos factos converge para aquilo que define as angústias maiores da sobrevivência daqueles que por ali passam.

Ano após ano: século após século; e milénio após milénio, vai-se aprofundando a convicção de que o Espigão das Ruivas é o espaço onde se encontram as respostas efectivas às nossas principais necessidades. E na perspectiva mais devocional do termo, resulta natural o processo de sacralização de um espaço que se presta a uma vivência onde a simbologia impera e que dá sentido a cada um dos detalhes que compõem a nossa existência sagrada.

No choque de contrastes quase de índole eléctrica que este espaço gera, cria-se uma janela de esperança que ajuda de sobremaneira a definir formas alternativas de existência.

E hoje, seja para um passeio deslumbrante através de uma das paisagens mais marcantes de Cascais, ou como mote para uma introspectiva análise recatadamente elaborada a partir de um qualquer anseio, a descida ao Porto de Touro, conjugado com a subida ao Espigão das Ruivas, oferece a quem a faz uma perspectiva diferente do Cascais onde vivemos.

Qualquer que seja o mote, o ensejo, a crença, a fé ou a determinação de quem o faz, este é um passeio que vale mesmo a pena!

Câmara Municipal de Cascais devolve o Parque Natural aos Cascalenses – Novo Trilho da Ribeira das Vinhas

João Aníbal Henriques, 01.08.21

 

 

 

 

A Ribeira das Vinhas, com uma extensão de cerca de 9 kms entre a foz e a nascente, é uma das vias históricas mais importantes de Cascais. Durante muitos séculos, era por ali que chegavam à vila os produtos hortícolas produzidos no sopé da Serra de Sintra, bem como o leite que abastecia a população local. Com a recuperação do antigo trilho saloio, a Câmara Municipal de Cascais cumpre o desígnio ancestral de fazer chegar o Parque Natural de Sintra-Cascais à vila, devolvendo aos Cascalenses a possibilidade de viverem de forma plena e integral a excelência deste seu território…

por João Aníbal Henriques

A edilidade Cascalense chama-lhe a “revolução verde”, dando mote a um vasto conjunto de intervenções de requalificação ambiental que alteram radicalmente a paisagem municipal. Os parques urbanos, cruzados com a renaturalização de muitos cantos e recantos que acumulavam lixo e entulho há muitas décadas, juntam-se a um conjunto de projectos estruturantes desenvolvidos ao longo das principais ribeiras do concelho que, atravessando longitudinalmente o espaço municipal, minimizam os efeitos da diferenciação que existe entre o troço situado a Norte da A5 e aquele que acompanha a linha de costa.

 

 

No último fim-de-semana, cumprindo o programa de iniciativas previstas para o actual mandato autárquico, foi inaugurada a segunda fase do trilho saloio da Ribeiras das Vinhas. Com início simbolicamente colocado no pontão situado na Praia dos Pescadores, no coração da Vila de Cascais, o trilho prolonga-se ao longo de cerca de 8 kms até à Quinta do Pisão, já em plano parque natural, num circuito deslumbrante em termos paisagísticos mas pensado e delineado de forma a assegurar conforto e segurança a todos os que por ali desejem passar.

Com esta iniciativa, que permite calcorrear a pé, de bicicleta ou a cavalo uma das mais bonitas paisagens de Cascais, a Câmara Municipal recupera um dos caminhos mais antigos de Cascais.

 

 

De facto, desde tempos imemoriais que o trilho da Ribeira das Vinhas servia de via principal de acesso à vila. Era por ali, acompanhando o curso da água, que chegavam a Cascais os principais mantimentos hortícolas produzidos na zona saloia ao concelho. E era também pelo mesmo caminho que as lavadeiras carregavam a roupa suja dos cascalenses que era lavada e devolvida aos seus legítimos proprietários utilizando burros que faziam o trajecto sempre carregados.

Ao longo desta via, marcando a paisagem com o picotado branco da pedra calcária, moinhos e azenhas multiplicavam-se, utilizando sobretudo a força da água para a sua actividade alquímica de transmutar os cereais no pão que igualmente alimentava Cascais.

 

 

No que à coesão territorial diz respeito, o novo trilho agora inaugurado prova que é possível ultrapassar os muitos obstáculos artificiais que a urbanidade desregrada impôs a Cascais, gerando um desequilíbrio acentuado entre as várias comunidades que habitam neste espaço. O canal da A5, bem como a via-rápida designada como Terceira Circular, que até agora dividiam o território municipal em duas partes, são literalmente apagadas deste trajecto, oferecendo aos Cascalenses uma ponte natural que lhes abre as portas directamente para o melhor da excelência ambiental existente no espaço municipal.

A recuperação deste caminho, que altera o paradigma urbanístico em vigora há muitos anos e que coloca o parque natural dentro do casco urbano da vila, religa Cascais às suas origens, fomentando a criação de laços perenes entre a sua população e o território e consolidando a Identidade Local. Com uma força quase religiosa, porque recria laços de união que recuperam a génese do sentir municipal, este projecto é assumidamente o mais importante contributo para a qualidade de vida dos Cascalenses desenvolvido nos últimos anos.

 

 

Há um antes e um depois desta inauguração e Cascais revolucionou a sua paisagem com este excelente projecto. E os parabéns, na pessoa do Presidente da Câmara Municipal de Cascais, concentram-se igualmente na Vereadora Joana Pinto Balsemão que efectivamente lidera uma obra grandiosa que vai transformar radicalmente o futuro de muitas das próximas gerações de Cascalenses.

 

 

 

 

 

 

 

Anastasia Raykova apresenta a curta-metragem ELA em antestreia em Cascais

João Aníbal Henriques, 21.06.21
A realizadora russa Anastasia Raykova apresentou em Cascais a sua mais recente curta-metragem. O filme ELA, com Paulo Rocha e Anastasia Everall como protagonistas, foi gravado durante o Verão de 2020 na paisagem magnífica do Guincho. Nesta antestreia a realizadora sublinhou a excelência de Cascais enquanto cenário cinematográfico, agradecendo à Câmara Municipal o apoio concedido e que tornou possível a gravação do filme. 


Memórias do Turismo em Cascais com António Aguiar

João Aníbal Henriques, 21.06.21
O turismo é a vocação primordial de Cascais. Desde 1870, quando a Corte escolheu Cascais para o seu veraneio, que a vila se tem organizado em torno do imenso desafio que representa a criação daquele que é o mais excelente destino turístico do Sul da Europa. Nesta "Conversa de Cascais", tendo a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz como cenário, João Aníbal Henriques conversa com António Pinto Coelho d'Aguiar, relembrando episódio impactantes passados nos principais hotéis da região durante o período difícil da revolução de 1974...


Villa Romana de Freiria: Devolver aos Cascalenses a Memória Municipal

João Aníbal Henriques, 10.12.20
Devolver a Cascais uma herança com 2000 anos. Sabendo que a vocação turística de Cascais se consolida no devir quotidiano dos Cascalenses do Século XXI estamos a recuperar o mosaico romano da Domus Senhorial de Titus Curiatius Rufinus na Villa Romana de Freiria, em São Domingos de Rana. Com um impacto extraordinária no reforço da qualidade de Cascais enquanto destino turístico de excelência na Europa, Freiria é agora mais oportunidade para conhecer e reconhecer as origens e a Identidade de Cascais.