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Montemor-o-Velho e a Igreja de Santa Maria da Alcáçova

por cascalenses, em 10.11.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Montemor significa que é o monte maior… aquele que emerge da paisagem e se impõe perante quem passa. É simultaneamente um lugar visível, pela sua dimensão, e a partir do qual tudo se vê nas redondezas, sublinhando a sua importância estratégica na defesa daquele que ali vivem o quotidiano. Montemor-o-Velho, por ter sido um dos primeiros bastiões na defesa do recém-nascido Portugal, tem uma História extraordinária e um conjunto de histórias que não deixam ninguém indiferente. É porventura a pérola maior na consolidação da Portugalidade!
 
 
Fundado oficialmente algures em meados do Século IX, basicamente porque existem provas documentais da sua conquista em 848 pelo Rei Asturiano Ramiro I, o Castelo de Montemor-o-Velho foi sempre um dos mais importantes espaços na definição estratégica da ocupação humana do território onde se insere.
 
 
 
 
A elevação natural, conferindo potencialidades únicas ao nível da defesa contra-ataques inimigos, fez convergir para ali muitas comunidades humanas, possivelmente desde que os primeiros Seres Humanos ali se instalaram nos rocambolescos tempos do Paleolítico Superior. Os vestígios que ficaram dessas ocupações remotas, provavelmente sem construções de carácter permanente como acontece com o actual castelo, foram-se esbatendo paulatinamente à medida em que outras comunidades e outras civilizações foram ocupando o espaço e nele deixando a impressão perene da sua forma de ser e de viver.
 
Antes da Cristandade que dará forma a Portugal, também os Romanos, os Visigodos e os Muçulmanos fizeram desde monte maior a sua casa, ali construindo (e também sucessivamente destruindo os vestígios dos que os antecederam) os seus aglomerados habitacionais.
 
Com uma História que se confunde com o desenvolvimento da metalurgia em terra da Beira Alta, porque metais como o estanho eram extraídos da terra e transportados para a capital através das águas nem sempre serenas do Rio Mondego, o Castelo de Montemor-o-Velho foi sempre peça-chave na defesa de quem ali passava, cadinho de conforto e refúgio transitório para quem deambulava por aquelas terras em épocas de grande agitação e nenhuma segurança.
 
Um dos momentos mais impactantes da sua longa História prende-se com a sua conquista por parte de Almançor. Ainda antes do arranque do novo milénio, quando D. Urraca se entretinha a redefinir as estruturas de defesa Cristãs da Linha do Mondego, o chefe muçulmano conquista a fortaleza e altera de forma radical a sua estrutura de implantação no espaço, reformatando a sua lógica de defesa e preparando-a para uma ocupação longa e profícua por parte da direcção Islâmica. E, até 1006, quando Mendo Luz a reconquistou para a Cristandade, assim se manteve Montemor-o-Velho e o seu velho paço real, coadjuvados em termos espirituais por uma vetusta mesquita que terá ocupado o espaço que hoje é sensivelmente o mesmo da Igreja da Alcáçova.
 
 
 
 
O Templo, com invocação de Nossa Senhora da Assunção, refulge com a pujança que lhe foi atribuída por D. Jorge d’Almeida no Século XVI, conferindo-lhe a face renascentista que ainda agora apresenta. A estatuária, decalcando simbolicamente o antigo espaço da mesquita muçulmana, assenta numa curiosa figura da Senhora do Ó, marcada com o sinal perene do sangue, numa invocação extraordinária das histórias maiores que deram corpo às vicissitudes maiores da História da localidade…
 
 
 
Reza a lenda que algures no Século IX, o contingente militar Cristão que defendia o espaço foi atacado por um poderoso exército muçulmano que, com uma grande superioridade militar, não deu aos defensores qualquer possibilidade de sobrevivência. E estes, denotando um desespero imenso, tomaram a decisão de degolar todos os Cristãos que ali habitavam, inclusivamente os seus familiares, numa tentativa de evitar que os mesmos fossem literalmente chacinados e sodomizados pelos muçulmanos. Mas, com a força redobrada pelo misterioso martírio, e também possivelmente porque já nada tinham a perder, acabaram por ser eles próprios a atacar os muçulmanos e o seu ensejo foi tal que surpreendentemente ganharam a peleja e desbarataram os invasores. E quando regressaram da batalha, terão sido eles próprios surpreendidos com a recepção que lhes foi feita pelos compatriotas mortos que, mercê de um milagre divino, terão sido libertados dos esteios da morte e ressuscitado para agradecer ao contingente…
 
Independentemente da veracidade da lenda, em linha com muitas outras que corporizam de forma quase mágica o nascimento de Portugal, o certo é que o Castelo de Montemor-o-Velho e a sua velha capela, depressa se tornaram num eixo estruturante e fundamental para a afirmação da reconquista Cristã, tendo sido palco, ao longo das décadas seguintes, de grande parte dos mais importantes episódios da História Nacional.
 
Terá sido aqui, no dealbar de 1355, que Dom Afonso IV se reuniu com os seus conselheiros e decidiu a morte de Inês de Castro, num episódio que manchou com o sangue da pobre mulher a longa História deste local.
 
 
 
 
E terá sido também aqui que, já no Século XIX, as tropas francesas se aquartelaram aquando das invasões napoleónicas, que com a derrota sofrida infligiram importantes perdas à localidade e ao seu património histórico-cultural, acentuando de forma muito evidente a perda da sua importância estratégica e encetando um período de declínio que se arrastou durante muitos anos.
 
Independentemente de tudo isso, e até de algum desleixo que Montemor-o-Velho conheceu depois da extinção das Ordens Religiosas, cada cantos e recanto desta localidade denota o fulgor da sua História. E as pedras das suas paredes, muitas delas para ali transportadas há mais do que um milénio, carregam consigo as memórias fortes de episódios que são basilares para a compreensão do que é Portugal e da importância enorme que a Identidade Nacional tem para o futuro de todos os Portugueses.
 
 
 
A sua linha de afirmação religiosa (não é possível esquecer que este castelo foi propriedade essencial no domínio Templário do centro de Portugal) surge aqui de forma quase inusitada nos interstícios das suas lendas e histórias. E a Senhora da Assunção que ali se venera, num apelo inclemente às agruras da vida em antagonismo à plenitude do Céu, representa Ela própria um caminho de ascenção que este espaço soube fornecer.
 
Assumido Altar na triangulação que a reconquista impôs entre Coimbra, Lisboa e Santarém, é aqui que se centram as decisões estrategicamente essenciais para a afirmação de Portugal. E a partir deste espaço, bem implantado na companhia das águas cálidas do Mondego, se organizam quase todas as actividades que vão permitir à Cristandade a continuidade do esforço de reconquista e, em última instância, a actual configuração de Portugal.
 
 
 
 
Conhecer Montemor-o-Velho, o seu ancestral castelo e a Igreja de Santa Maria da Alcáçova é, por isso, essencial para quem pretender conhecer – e compreender – Portugal. Visita obrigatória.
 

 

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publicado às 15:16

Castelo Rodrigo – Memórias Urbanas da Nossa História

por cascalenses, em 06.11.19

 

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
 
Beira Alta rima com pedra. Os aglomerados gigantescos de granito que cobrem as encostas das serras e que dão forma às ruas, aos monumentos e às casas, corporizando um cenário virtualmente dantesco e prenhe de beleza, no qual as forças telúricas se pressentem em cada detalhe, são aqui causa e consequência da própria história. E se os vestígios da acção do homem conspiram entre si para ganhar o ensejo da eternidade, as eras e os tempos impõem-se como causa maior de um destino que o vento carrega consigo e nos deixa impunes perante a nossa natural ineficiência. É isto que acontece em Castelo Rodrigo, onde em cada recanto da calçada ainda ecoam os passos dos nossos avós.
 
 
Castelo Rodrigo é uma povoação mais antiga do que a própria História. Quando, no Século XII, se formava o Portugal Moderno, já esta localidade expunha milhares de anos de História, num exercício cíclico em que a passagem dos séculos e das eras se perpectuava no tempo.
 
As suas origens, muito provavelmente contemporâneas do próprio surgimento do Homem na Terra, estão atestadas documentalmente a partir do período Paleolítico, uma vez que nas suas imediações, provavelmente aproveitando as características morfológicas do espaço, existem diversos vestígios de pinturas rupestres datadas dessa época.
 
 
 
 
Composta por sociedades de caça-recolecção, nas quais o território era mero cenário no qual se desenvolvia tudo aquilo que era necessário fazer para garantir a sobrevivência, a zona onde actualmente se localiza Castelo Rodrigo dispunha de meios únicos em termos de fauna e flora para sustentar de forma coerente e suficiente os pequenos grupos humanos que então existiam. E eles, materializando em pedra e nos demais materiais que lhes eram propiciados pela natureza as mais profundas essências dos seus sonhos, não se coibiram de transpor para a eternidade os posicionamentos fortes que já então tinham e a força básica dos seus pensamentos.
 
Daí por diante, à medida em que se aperfeiçoavam as técnicas e em que o acumular da experiência impunha novos destinos ao próprio destino, o caminho fez-se através do aprofundar desta linear relação de dependência entre o homem e o espaço. E nesta altura, com a bitola paulatina da sobrevivência sempre presente, surgem as primeiras necessidades de adaptação da natureza para responder melhor às cada vez maiores necessidades específicas que as comunidades iam apresentando.
 
 
 
A linha de horizonte de Castelo Rodrigo vive por inteiro, provavelmente como mais nenhuma em Portugal, os altos e baixos da sua longuíssima História. E o recorte ambíguo da sua forte muralha, num plano de continuidade que nos transporta ao longo da sinuosidade dos velhos arruamentos até ao espaço do castelo, surge pontilhada pelas cores das casas, dos telhados e das cantarias estruturantes dos postigos e janelas.
 
A mistura de estilos, a profusão de cores e mesmo a imensa panóplia de características díspares que caracterizam a população fica desta forma a dever-se por um lado à longuíssima linha de tempo que acompanha a localidade e a sua História e, por outro, ao facto de a mesma ter sido construída e reconstruída em registos civilizacionais completamente diferente entre si.
 
 
 
 
Depois dos povoamentos ancestrais, dos quais nos chegaram os sinais artísticos deixados pelos nossos pré-históricos avoengos, estiveram naquela que é agora a localidade de Castelo Rodrigo os Túrdulos e os Romanos, antes de a mesma ter sido bastião da urbanidade muçulmana que antecedeu de forma imediata a recristianização nos primórdios da medievalidade Ibérica.
 
Nessa época, mercê das lutas de conquista e de reconquista, assistimos a um declínio enorme da antiga pujança de Castelo Rodrigo, visível na maior precariedade e na insegurança que resultava da sua estratégica situação no nóvel País acabado de nascer, condicionando assim a sensação de longevidade e de bem estar que são necessários a quem corajosamente investe os seus meios na construção e na reconstrução dos seus alojamentos.
 
Mercê da sua localização em plena rota da peregrinação Ibérica a Santiago de Compostela, conheceu novo alento a partir do renascimento com o reforço da sua oferta religiosa que, como é natural, significou um aumento da pujança económica do sítio, o enriquecimento eos seus principais habitantes e novo reforço das estruturas construídas então. É esse fenómeno que explica grande parte das estruturas renascentistas que por ali ainda se encontram, nomeadamente as muitas janelas extraordinárias que ostentam em si a magnificência de um País ele próprio pujante e muito empenhado em alargar as fronteiras do Mundo de então.
 
 
 
 
A Igreja Matriz de Castelo Rodrigo, construída no Século XIII, foi dedicada a Nossa Senhora de Rocamador, em linha com a sua entrega a uma Ordem de Frades Hospitalários que se dedicavam a ajudar os peregrinos que ali passavam em direcção a Compostela.
 
Muito interessante, até porque reforça a conflituosa identidade de castelo Rodrigo no seio do seu papel estruturante na definição da própria História de Portugal, é o antigo brasão da localidade com o seu escudo invertido e a inusitada disposição dos vários elementos que lhe dão forma. E a explicação, resultante de uma decisão Real tomada por Dom João I aquando da sua aclamação como Rei de Portugal, deriva do apoio que a povoação e os seus habitantes deram a Dona Beatriz, herdeira legítima da Coroa mas casada com o Rei de Castela, que definiu a grande crise dinástica de 1383-1385 e determinou o início da nova Dinastia de Aviz ao poder. Por castigo Real, as armas de Portugal eram ali ostentadas de pernas para o ar!
 
 
 
 
Castelo Rodrigo, depois da desgraça política que lhe aconteceu, instada também pelo declínio natural que toda a região conheceu em época mais recente, acabou definitivamente por perder a importância que sempre teve e viu-se desagrada em termos municipais com a construção de Figueira de Castelo Rodrigo uns quilómetros ao lado.
 
Ficou a pujança de um sítio único. Ficou a sua beleza sem igual… e a harmonia que dela emana como cadinho especial e único de toda a excelência que traduz a Identidade Nacional. A visita é obrigatória.
 

 

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publicado às 16:26

A Igreja de Nossa Senhora da Graça em Évora

por cascalenses, em 20.10.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
 
Os “Meninos da Graça” como é conhecida em Évora a Igreja Renascentista de Nossa Senhora da Graça, são míticas figuras Atlantes. E, cumprindo o desígnio maior de zelar pela memória de Portugal, estão ali na qualidade de guardiões das quatro partes do Mundo descobertas pelos Portugueses. Todo o templo, resquício inesperado do substracto místico e mítico de Portugal, transparece em lendas e em mistério, rendendo homenagem maior aos feitos enormes que noutras eras e noutros tempos caracterizaram este País tão especial…
 
 
Considerada por muitos como o mais antigo templo renascentista do Alentejo, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, situada no coração da egrégia cidade de Évora, é um dos mais interessantes monumentos de Portugal.
 
Integrando o antigo Convento dos Frades Eremitas Calçados de Santo Agostinho, a igreja que agora conhecemos foi construída depois da instalação da Ordem em Portugal, no ano de 1511, com traço de Miguel de Arruda e esculturas de Nicolau de Chanterene.  Terá vindo ocupar o lugar de um templo de menores dimensões e de pouca exigência arquitectónica que os frades construíram naquele lugar logo depois da sua chegada a Évora, sendo provavelmente sido na década de 1520 que se iniciaram as obras que lhe conferem o aspecto actual.
 
 
 
 
Integrando de forma sublime todos os detalhes que definem o período renascentista em Portugal, a Igreja da Graça leva quase ao extremo a sua inquietante demanda pelos símbolos maiores da nacionalidade, apelando de forma directa ao alicerce raramente assumido do inconsciente colectivo de Portugal. A temática marítima, em voga na época em que a igreja foi edificada, cruza-se com as lendas maiores do Globo Terrestre, espécie de brinquedo temático que se consagra por inteiro a Portugal, como se o Universo todo conspirasse de uma forma global para canalizar para este recanto encantado os destinos maiores da humanidade em geral. Resultam daí as escapadelas ao ideário Atlante, numa sede quase mística do desconhecido e do inexplorado, um pouco em linha com a mítica demanda do Santo Graal e, em Portugal, com a espera eterna pelo Rei Desejado.
 
Este caminho, feito nas sombras visíveis de uma sociedade ainda maioritariamente dependente dos equilíbrios e das certezas medievais, assume especial relevo se nos reportarmos ao Alentejo de então. A região, marcada de forma telúrica por uma dependência extrema relativamente às agruras da natureza, sustenta o seu edifício simbólico no tronco maior que dá relevo à inovação da Senhora da Graça, ou seja, àquela que contra tudo e contra todos, se materializa na miraculosa capacidade de tudo fazer.
 
 
 
 
A Atlântida, continente mítico elevada de forma eterna à plenitude maior do saber e da sabedoria, consubstancia-se na Igreja da Graça através de toda a simbologia que dá forma ao edifício. Mas também, porque o Céu e a Terra são ambos necessários para a compreensão integral de Deus, nas práticas seguidas e cumpridas de forma sentida pelos frades que ocuparam este convento durante muitas gerações. É a eternidade, composta pela mistura integral entre o finito e o infinito, que nos surpreende quando nos deparamos com a fachada granítica e imponente desta igreja. Uma eternidade que é sustentada pelo conhecimento superior e pela sabedoria daqueles que regressaram de um lugar diferente. O ideal celeste, condicionado pelas necessidades próprias da vida terrena, resulta aqui numa amálgama de símbolos que se interligam num plano de consciência que tem necessariamente de estar alterada para ser verdadeiramente entendida e compreendida.
 
 
 
 
O ímpeto cenográfico da Igreja da Graça, de carácter fortemente impactante na pujante vida cultural eborense da época renascentista, dá corpo ao reforço deste movimento arquitectónico e artístico em Portugal. Na sua evolução para o maneirismo, o templo congrega o carácter humanista profundo que enforma a acção dos seus mecenas originais, El-Rei Dom João III e o seu primo o Bispo Dom Afonso de Portugal.  São eles, mercê da formação que tiveram no contexto da Europa em que viveram, que canalizam para este espaço de Évora os meios que permitem a construção de um tão vetusto templo. E com esse acto, aparentemente singular, dão um contributo extraordinário para a viragem cultural que definirá Portugal ao longo dos séculos seguintes.
 
A importância da Igreja da Graça é, por isso, muito superior ao seu valor patrimonial. Ela é o testemunho mais evidente da forma como Portugal, assente num conjunto de valores espirituais profundamente difundidos por todo o território, foi capaz que os plasmar na sua realidade física, social e política e, dessa maneira, concretizar o sonho imenso dos descobrimentos. Atesta, numa linha de continuidade que nos carrega até à actualidade, que o espírito transcende de facto a matéria, tornando possíveis os milagres e enfatizando que as fronteiras são pouco mais do que meros obstáculos que se interpõem durante a vida de cada um.
 
 
 
 
Única na sua formulação física e patrimonial, mas também na mensagem que carrega, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora, é pilar axial essencial para compreender a Portugalidade.

 

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publicado às 18:00

A Senhora da Conceição em Piódão

por cascalenses, em 19.10.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Vive-se de contrastes em Piódão. O azul do céu, reflectindo de forma insana o verde das escarpas da serra, abre caminho para o negro do xisto, em contraste profundo com o branco e o azul celestial da Igreja Matriz. É terra de todos e de ninguém, alcandorada nas lembranças rudes da Serra da Estrela e nos sonhos inexpressivos das curvas e contra-curvas desérticas que temos de atravessar para chegar até ela. Mas impõe-se à vista e aos sentidos, quando sob a égide maior da Senhora que Concebe, se abrem as janelas da Alma para um transbordar imenso do suor de Portugal. Está prenhe de Portugal. Está plenamente cheia do contraste enorme que dá forma à Nação e que à sua volta congrega a vontade maior de todos os portugueses. Uma preciosidade!
 
Miguel Torga, citado numa das pedras lavradas que se encontram à entrada desta Aldeia Histórica de Portugal, descreveu o Piódão como sendo o “ovo primordial de Portugal”. Ali, segundo o próprio, reencontrou a essência maior de uma País que espartilha desde há quase 900 anos uma gigantesca Nação. O Portugal do Piódão não é aquele que vem nos livros e nos enche as horas intermináveis das lições nas escolas. É um Portugal suado e vivido, assente na interpretação da natureza e na fusão quase perfeita entre a vontade de Deus, expressa na força física que a envolve, e a do Homem, traduzida no azul quase grotesco que lhe acentua as formas.
 
 
 
 
As suas origens, perdidas no meio das imensas nascentes de águas que fertilizam aqueles socalcos, fundam-se directamente na pujança física do território em que se insere. As primeiras comunidades humanas que ali se instalaram, algures nos idos longínquos do Neolítico mais remoto, interpretaram o carácter úbere daquelas terras e nele alicerçaram a sua vida e a sua sobrevivência numa rotina cíclica de interdependência sadia que perdurou ao longo de milhares de anos e de centenas de sucessivas gerações.
 
É daí que vem, muito provavelmente, a ligação mítica e mística aos mais ancestrais arquétipos sociais e religiosos que mais tarde hão-de consolidar a própria Nacionalidade, eivados da certeza (mais do que unicamente dos laivos periclitantes da Fé) de que a Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, era ali a força palpável e viva que determinava a própria existência.
 
 
 
 
Em termos decorativos, a formulação primordial de Piódão surge da confrontação aos opostos. O preto do xisto, determinante por resultar do aproveitamento natural e consistente dos recursos existentes, aparece aos nossos olhos sublinhado pelo azul cobáltico que delimita as portas e janelas, como se se tratasse de uma quase humanização do espaço, das coisas e das casas que ali foram sendo construídas. Mas o contrates maior, sobressaindo em harmonia plena da paisagem de conjunto do povoado, aparece em linha com a fachada inesperada e magnânima da sua Igreja Matriz dedicada precisamente a Nossa Senhora da Conceição.
 
Sendo recente, porque o actual templo que detém esta configuração somente desde o Século XIX, quando o Cónego Manuel Fernandes Nogueira ali instalou o seu colégio de preparação para a formação dos seminaristas e reformatou a velha igreja ao sabor de um estilo neo-barroco que interpretou o sentir da população e o traduziu no monumento pujante de impacto que hoje conhecemos, a Igreja Matriz de Piódão carrega consigo dois segredos que ajudam a contextualizar e a perceber a própria povoação. Em primeiro lugar, sabe-se que foi o estado de ruína eminente em que a igreja se encontrava que determinou a intervenção do clérigo já mencionado que, segundo reza a lenda, terá recolhido junto dos seus conterrâneos uma quantia insuspeita de dinheiro em volume suficiente para aquela imensa construção. Por isso, no mesmo lugar e provavelmente com contornos substancialmente diferentes, terá existido outro templo cuja origem está situada em pleno Século XVII.
 
Mas, tendo a mesmo orago, uma vez que existe ainda hoje uma imagem de Nossa Senhora da Conceição datada do Século XVI, ela própria reinterpretava realidade mais antiga, como se a força da Fé dos que ali habitavam fosse crescendo ao ritmo da passagem paulatina das gerações que se iam sucedendo…
 
 
 
De qualquer maneira, os ciclos de construção e de reconstrução do templo, mantendo a devoção original à Senhora que Concebe, reforçam a convicção de que o culto que lhe dá forma se centra na própria ancestralidade da ocupação do espaço, consolidado a partir de um movimento de cristianização que consolida os saberes e que denota um reforço permanente e sucessivo das certezas primordiais que caracterizam a própria comunidade. A Senhora da Conceição, na sua origem assente na imagem do Crescente que tem aos pés, carrega consigo a significância maior de uma tradição milenar. Mais do que os dois mil anos de História do Cristianismo, esta é um alicerce simbólico profundíssimo que reforça a certeza de que a natureza e os homens, quase sempre em uníssono, são capazes de conjugar as suas existências num plano de eternidade onde o sentido se perde no que somos, no que fazemos, no que dizemos e no que pensamos.
 
Nossa Senhora da Conceição, orago maior de um Piódão que não deixa indiferente ninguém que o visite, representa a reconfortante certeza de que os ciclos são eternos e que a vida, que o peso do corpo físico nos obriga a carregar durante um período muito curto de tempo, é afinal um mero interregno num caminho sinuoso mas profícuo de eternidade!
 
 
 
 
Visitar o Piódão e conhecer a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição é, assim, o mesmo que mergulhar de forma profunda na Alma de Portugal. E o ovo primordial que Torga descreve, um verdadeiro recomeço para todos aqueles que ousem perder-se por completo na amálgama de emoções que este espaço desperta.
 
Vale a pena. Mesmo!

 

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publicado às 17:20

A Igreja Paroquial de Santiago (ou de São Tiago) em Évora

por cascalenses, em 05.10.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Situada no coração da cidade e envolvida de perto pelas principais atracções turísticas de Évora, a Igreja de Santiago passa normalmente despercebida a quem por ali deambula. Mas não deveria ser assim… o templo, de origens ancestrais, é um dos mais interessantes repositórios das memórias e das histórias desta urbe alentejana, sendo bem demonstrativo da forma como as eras, as culturas e as gentes aqui confluíram numa amálgama de vida que não pode deixar ninguém indiferente.
 
A documentação histórica aponta o ano de 1302 como o da fundação do primeiro templo Cristão no local onde hoje se ergue a Igreja de Santiago. Cercada pelas antigas muralhas da cidade, bem perto do antigo fórum romano e da principal via estruturante da economia da região é provável, no entanto, que naquele espaço tenham existido outras construções que a precederam e que são responsáveis pelos muitos vestígios que se podem ver no local.
 
 
 
 
Desde a colunata de origem romana até à própria formulação espacial ao templo, que denota claramente uma influência de origem islâmica, são muitas as pistas que nos permitem suspeitar da ancestralidade maior da origem sacra deste espaço tão especial, marcado de forma impactante pela profusão de estilos decorativos e de cores que se cruzam e se sobrepõem em camadas bem ilustrativas daquilo que foram os seus mais de 800 anos de História que se sobrepõem em camadas sucessivas de memórias.
 
Na sua componente Cristã, Católica, Apostólica e Romana, a Igreja de Santiago de Évora nasce por isso no Século XIV, permanecendo sem grande história durante cerca de 200 anos. Durante esse período foi, muito provavelmente, somente um dos muitos templos que servia a prática religiosa dos eborenses, num plano de discrição que resulta naturalmente do recato que a sua localização impõe. Apesar disso, enquanto espaço de morte, foi permanentemente destino privilegiado de vários habitantes ilustres da cidade, nomeadamente ligados ao Clero, tal como o atestam as muitas lápides sepulcrais que subsistem no seu interior, em linha com a ligação sempre perene à cúpula organizativa da própria Ordem de Santiago da Espada.
 

 

 
 
Mas o principal foco de interesse para quem visita esta igreja, marcante do ponto de vista estético e fulcral na definição daquilo que foram as principais intervenções efectuadas no seu interior, são as paredes repletas de pinturas murais polícromas, que fecham uma intervenção maior que reformatou o espaço interior e dotou o templo de uma cabeceira estrutural de grandes dimensões e que define hoje o monumento.
 
São desta época também os painéis de azulejos que cobrem as laterais do Altar-Mor e da nave principal da igreja, da autoria de Gabriel del Barco e de Oliveira Bernardes, que ajudam a enquadrar o mote barroco que passou a caracterizar a essência decorativa do espaço. Importa destacar, pela implicação de enquadramento cénico que tem, sublinhado pelo carácter de província da igreja, a talha dourada dos altares, que se mistura com o esplendor das evocações artísticas de âmbito semi-profano que dão corpo à estrutura decorativa da mesma, num apelo quase herético a realidades que aparentemente se supõem longínquas do Alentejo da época em questão.
 
 
 
 
O apelo à Força, simbolicamente associada à exaltação do Altíssimo, surge misturado numa verdadeira amálgama figurativa onde as figuras Atlantes assumem papel de destaque enquadratório. Talvez seja por isso, na senda da já referida tradição maior que transparece da evolução das épocas e das gentes que fruíram daquele espaço, que o epitome maior que desde sempre surge como uma espécie de sina desta igreja, seja o da ritualidade da morte, ainda hoje marcante para quem habita em Évora, e que ali se consubstancia num conjunto bastante vasto de referências culturais, religiosas e simbólicas numa simbiose que se próxima de sobremaneira da estrutura de pensamento do Alentejo de todos os tempos.
 
 
 
 
O balcão fronteiro ao templo, num varandim de pequenas dimensões que compacta a sacralidade do lugar ao pouco espaço existente naquele recanto da cidade, contribui também ele para reforçar esse ideia inicial, sendo maioritariamente um apelo à visita ao espaço interior, ao mesmo tempo que faz prevalecer o absurdo deleite pelo contraste e pelo oposto. Esta dualidade, também ela visível na estrutura pétrea do templo, associa a ideia do equilíbrio como parte essencial da preservação do carácter sagrado da vida, aqui se espelhando na forma como o crescimento comunitário de quem por ali cumpriu os seus ritos de Fé, se foi construindo a partir de uma continuidade que obrigava a cedências de princípio na dogmática que dá forma a cada uma das épocas em que o templo existiu.
 
A Igreja de Santiago, mais do que mais um mero templo desta mítica Cidade Alentejana, é acima de tudo um monumento que estabelece pontes entre as várias eras e os tempos que a sua História atravessou. Acolhe no seu seio a singularidade de um espaço de características intrinsecamente chãs mas, por outro lado (e até em antagonia) de um local onde a complexidade da vida se espraia em cada elemento.
 
 
 
 
O seu estado de conservação muito precário também ele contradiz a importância  e o interesse desta igreja. Urge uma intervenção prévia de consildação e interpretação do espaço, antes da definição de uma intervenção de fundo que garanta a recuperação dos seus elementos estruturantes mais importes.
 
Até lá, tal como vem acontecendo ao longo de (pelo menos) o último milénio, acolhe diariamente as naves que transportam os eborenses à sua última morada e que ali recolhem os últimos raios de uma luz que certamente foi ensejo daqueles que a foram construindo ao longo do tempo!...  

 

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publicado às 18:22

O Hotel Miramar no Monte Estoril: uma questão de vocação

por cascalenses, em 06.06.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem construções que transcendem o imenso valor que se associa ao seu uso e que, pelas suas características intrínsecas, se impõem na paisagem definindo com precisão a vocação das localidades onde foram construída. É o que acontece com o Chalet Almeida Pinheiro, mais conhecido como Hotel Miramar, em pleno coração do Monte Estoril…
 
O Chalet Almeida Pinheiro, situado em pleno coração do Monte Estoril, é uma das peças mais emblemáticas da arquitectura de veraneio em Portugal. Concebido para cumprir a dupla função de ostentar a riqueza, o poder e a diferença da sua primeira encomendadora, uma “excêntrica africanista” de acordo com a descrição do Engenheiro Almeida Pinheiro que o construiu, e de servir como habitação de luxo para a mesma, a casa apresentava uma volumetria excepcional, impondo-se na paisagem e no registo de veraneio que caracterizava as casas existentes na sua envolvência.
 
De acordo com as descrições da época, a dimensão do Chalet Almeida Pinheiro era de tal forma inusitada que a casa fazia lembrar uma enorme praça de touros colocada estrategicamente dentro de um grande e frondoso jardim que, encobrindo tenuamente alguns dos seus detalhes, despertava a curiosidade e o interesse de quem por ele passava naqueles tempos. Deixava implícita uma certa descrição, apesar de o apelo maior seguir na linha da ostentação, apelando à imaginação e ao enleio.
E desde logo, quando ainda era uma construção muito recente no autêntico emaranhado de egos que deu forma ao desenho arquitectónico do Monte Estoril original, se transformou no cadinho maior da identidade monte estorilense assumindo papel fulcral na definição estética do que haveria de vir a ser aquela localidade enquanto berço primária da vocação turística municipal.
 
 
 
 
Os principais elementos definidores da importância arquitectónica do Chalet Almeida Pinheiro tiveram uma função estética e decorativa. 
 
Os torreões, altaneiros mas propositadamente desnivelados, recriavam em pleno romantismo a ideia de coisa velha e antiga, lançando em quem o observava a dúvida sobre a verdadeira origem daquela construção. No final do Século XIX, quando a casa foi construída, não havia no horizonte possibilidade alguma de uma enorme batalha em terras estorilenses, nem tão pouco se augurava a possibilidade de construir um castelo com pretensões funcionais. A ideia subjacente ao projecto, mais do que dependente da realidade vivida de forma efectiva, pretendia reforçar o vínculo identitário com o revivalismo decorativo do romantismo grassante, recriando cenários plenos de imaginação e ficcionando uma realidade que se assumia como cenário maior no qual os seus proprietários representavam o papel da sua vida. Como é evidente, os torreões do Chalet Almeida Pinheiro nunca defenderam nada nem ninguém, apesar de as mísulas de cantaria fazerem lembrar velhos merlões de castelos que outros sítios têm a sorte de ter. Mas, em termos da sua funcionalidade estética, cumpriram religiosamente o seu papel de sublinhadores da importância da já referida “excêntrica africanista” no contexto social romântico do Monte Estoril de então e, por outro lado, reforçaram os vínculos entre a nova construção que viu a luz do dia somente em 1899 e as restantes casas torreadas que davam forma à identidade estética e arquitectónica daquela que era considerada a “pérola de Portugal”.
 
A arcaria que suportava o alpendre situado na fachada principal, encimada mais tarde pela propaganda ao Hotel Royal e ao Hotel Miramar que o substituiu, recupera também ela a formulação estética daquilo que mais tarde vem a ser a “Casa Portuguesa”. A encomendadora, que teria enriquecido em África e que era de origens humildes de uma das aldeias provincianas do interior Português, precisava avidamente de se mostrar aos seus pares e, sobretudo, de o fazer de forma linear e inquestionável. E a casa, repositório maior dos seus anseios, surge no Monte Estoril do Século XIX como memória maior do velho solar de província que assenta os seus alicerces em laços de sangue antigos e perenes cujas origens se perdem nos princípios do próprio tempo…
 
Por fim, recriando-se enquanto cenário enquadrador do alpendre profundamente prenhe dos valores ancestrais da Portugalidade e do torreão altaneiro em guarda perante uma invasão que simplesmente se ousava imaginar, o muro delimitador da propriedade rematava a paisagem com um apelo quase rude às memórias da pedra solta de uma qualquer casa rural na várzea sintrense. Naquela altura, como é evidente, poder-se-ia ter colocado ali um muro de emparelhamento regular e com corte rectilíneo dando foco à casa e cumprindo a função de segurança que um qualquer muro deve ter. Mas não foi assim. Em linha com tudo o resto, o muro é também ele próprio elemento estruturante da paisagem e reforço emblemático da força da casa no contexto do Monte Estoril que estava a nascer. Pretendia transparecer a ideia de coisa antiga e forte, em linha com a ambição social de quem o concebeu.
 
 
 
 
Num dos seus artigos mais emblemáticos sobre o Monte Estoril, a Professora Raquel Henriques da Silva caracteriza o esquema quase “esquizofrénico” do local para sublinhar o seu carácter único e excepcional. De facto, o caso do Chalet Almeida Pinheiro, com a sua imensa excentricidade e pujança, só podia ter surgido naquele local e naquela época, num Monte Estoril onde tudo transbordava de romantismo e de sonho. O carácter onírico da localidade, onde os telhados de duas águas aguardam eternamente os nevões enormes que se sabe de antemão que nunca chegarão, e os castelos medievais construídos já em pleno Século XX sem nenhuma funcionalidade nem utilidade prática que não fosse a de servirem inocentemente de cadinho de esperança para o carácter mas sonhador dos seus habitantes, sobrepõem-se a todos os resquícios de lógica e de discernimento. Ali, num espaço de sonho em que se sonha, tudo é de facto passível de acontecer e, em linha com esse pressuposto, o custo de cada uma destas excentricidades é tido como um investimento.
 
No Monte Estoril de 1899 o Chalet Almeida Pinheiro é muito mais do que uma casa qualquer. É símbolo maior de uma movimento arquitectónico recriado de raiz a partir daquele que será porventura o primeiro masterplan Português. Aqui vale tudo e tudo faz sentido fazer, até porque sendo palco de excêntricos, era simultaneamente uma ponte maior entre as agruras da vida real e o sonho maior que todos afincadamente desejamos viver. Foi esse pressuposto, mais do que qualquer preciosismo canónico que a arquitectura de então pudesse ter, que fez desta uma localidade total e completamente diferente. E foi essa diferença, marcada pela igualmente diferente maneira de ali se viver, que recriou a identidade coesa, forma, determinante e determinada que perdurou (contra tudo e contra todos) até época muito recente.
 
Mas como todos os sonhos são frágeis e inconsistentes, também este clima de quase-loucura que o Monte Estoril teve o ensejo de desenvolver, se debateu com problemas estruturais que o pragmatismo da vida normal sempre tem a capacidade de oferecer. E, logo na abertura do novo Século, quando Portugal se envolveu nos períodos negros das revoltas políticas e a Corte de sangue azul desapareceu para sempre, os castelos de cartas que os sonhadores de outros tempos haviam ousado empreender, desmoronaram-se sucessivamente ao sabor do um vento que rapidamente os fez tremer.
 
E as casas, castelos e torreões, despidos de utilidade prática, tiveram de ser reconvertidos e reconfigurados perante a nova lógica funcionalista que acabava de nascer. Vendidos e restruturados, acabaram quase todos por assumir novas funções e por desempenhar papéis diferentes num Portugal novo que a Implantação da República acabou por trazer. Como peças únicas que eram, e com custos de produção incomportavelmente altos para a época de crise que o novo regime consolidou por muito tempo, tornaram-se cada vez mais motivo acrescido de interesse por parte de todos aqueles que desejavam deslumbrar-se com a pujança artística que estas construções acabavam por ter.
 
Ao Monte Estoril, primeiro de Lisboa e arredores e depois de todos os cantos e recantos do Mundo, vinham muitos para passear nas ruelas pseudo-medievais, para se deslumbrarem com os castelos fugazes e com os muros de pedra, e para apreciarem os jardins imensos onde cresciam pretensamente livres espécies vegetais que haviam sido plantadas ali depois de terem sido trazidas de origens inóspitas somente com o intuito de fazerem diferença e de acentuarem o cenário de exclusividade que o Monte Estoril conseguiu ter.
 
 
 
 
Nasce assim o turismo em Portugal. E nasce no Monte Estoril porque ser aquele um local único no Mundo inteiro. Nasce no Monte Estoril porque ali era possível usufruir dos bons ares da praia, da vida excelente que se afagava com o tom azulado dos sangues dos que ali viviam sempre, e também da paisagem marcante e marcada pela  força bruta e inesperada de imóveis como este.
 
Quando em 1906 o Engenheiro Almeida Pinheiro vendeu a sua casa a uma sociedade de empreendedores, nasce na velha mansão o mítico Royal Hotel e em 1914, depois de se afirmar no contexto da Primeira Grande Guerra, é novamente vendido a Ricardo Allen, Salvador Villanova e Ventura Garcia que o adaptam funcionalmente a um novo registo de hotel, e o rebatizam com o nome de Hotel Miramar.
 
Funciona assim, já perdido nas suas origens mais remotas e no sonho inalcançado a velha africanista de outras eras e de outros tempos, até 1975 quando é destruído por um incêndio.
 
Passaram-se muitas décadas desde que o Chalet Almeida Pinheiro desapareceu fisicamente da praxis urbana monte estorilense. Mas a pujança da sua força, o carácter enorme do seu torreão e o enquadramento cénico dos seus muros ancestrais, sobreviveu até hoje, mostrando que mais do que a sua funcionalidade, é a sua presença física que serve de fulcro identitário maior da comunidade onde se insere. Apesar do estado avançado de ruína, ele continua a fazer parte da estrutura cénica do Monte Estoril que ainda temos.
 
 

 

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publicado às 15:48

A Capela de Santo António e de Nossa Senhora das Mercês na Aldeia do Penedo (Sintra)

por cascalenses, em 19.05.19



 
 
por João Aníbal Henriques
 
Sítios especiais rimam geralmente com memórias únicas e inolvidáveis. É o que acontece na Aldeia do Penedo, junto a Colares, no Concelho de Sintra. Ali, no cimo de uma penedia vincada pelo guinchar permanente do vento, cruza-se a versão pagã original dos cultos anímicos ancestrais com a mística sagrada do Cristianismo mais recente… e se o touro morre às mãos do povo, é a sua carne que alimenta o corpo e a Alma do Imperador, Senhor do Espírito Santo. Vale a pena conhecer este recanto mágico de Portugal.
 
 
 
 
 
Perderam-se no tempos as informações fidedignas sobre a origem da Aldeia do Penedo, em Colares. A documentação histórica, marcada pelos tempos em que o registo já era prática comum, leva-nos directamente para o Século XVI, quando no primeiro numeramento oficial realizado em Portugal, se registava um total de 34 vizinhos a residir no Penedo.
 
Mas este número de habitantes, indicador potencial de uma aldeia já com certo peso histórico, contradiz de sobremaneira os sinais existentes no terreno, que denotam uma origem remota e muito longínqua para a generalidade das mais antigas construções que ali encontramos.
 
No ciclo das construções e das reconstruções, temos então uma Aldeia do Penedo cuja principal marca surge associada à documentação mas, não só pelas evidências arqueológicas como até pela etnografia do local, tudo aponta para uma origem muito mais antiga deste local.
 
A Capela do Penedo, com um duplo orago dedicado a Santo António e a Nossa Senhora das Mercês, foi instituída em 1547 por Francisco Nunes Dias e sua mulher Maria dos Anjos Gonçalves. Através desta instituição, procuraram apaziguar a ira dos deuses, através de um acto de entrega simbólica de uma parte substancial dos seus haveres aos irmãozinhos mais desafortunados pela vida que habitavam naquele lugar.
 
Com decoração opressivamente marcada pela azulejaria polícroma representando hagiograficamente o santo lisboeta, todo o interior do templo transparece da ligeireza formal dos templos de origem chã da região saloia. O Altar Mor, com as imagens de Santo António e de Nossa Senhora das Mercês, cumpre o duplo efeito de recuperar as principais memórias religiosas do povo que frequente o templo e, em épocas festivas, de servir de cenário para a coroação imperial votiva do Império do Espírito Santo.
 
Anualmente, num ritual também ele perdido nas brumas do tempo, uma criança impúbere do sexo masculino era escolhida e coroada como Imperador do Penedo, recebendo as honrarias próprias de quem comanda a terra dos seus. E, sendo notoriamente um papel que todas as famílias desejavam ocupar, era simultaneamente uma honra e uma responsabilidade que se cruzavam no ritual de alimentar os pobres da região…
 
 
 
 
As raízes provavelmente proto-históricas deste ritual, assente na lide à corda de um touro no espaço público, recuperam valores que desde sempre caracterizaram a população do local. Simbolizando a força e a determinação, obviamente imprescindíveis para quem quisesse sobreviver no topo fustigado pelas intempéries de uma Serra sempre especial, o touro é o animal que contrapõe a balança da singeleza imposta pela pureza original da criança coroada imperador. Se um é forte e possante, sendo lidado por todos para que a comunidade imponha a sua vontade aos deuses, quem manda verdadeiramente, ou seja, o próprio imperador, é escolhido e coroado sempre por ser o mais jovem, o mais puro e o mais desprotegido de todos os jovens da região, simbolizando a grandeza de quem é pequeno e a enormidade dos valores e princípios que mais tarde o Cristianismo plasmará no Sermão da Montanha de Jesus Cristo.
 
Antes de ser morto sem se saber exactamente por quem, encoberto por um véu de mistério que só a história permite desvendar, o touro é transportado à volta da capela três vezes. Uma primeira em honra do Pai, seguindo do Filho e, por fim, em honra do Espírito-Santo. E é depois desta terceira volta, quando é benzido pelo Prior local num holocausto místico em que todos participam também, que o animal é morto e esquartejado, sendo o seu corpo cozinhado em pleno largo da capela e a refeição servida aos pobres da zona como bodo cerimonial. 
 
 
 
 
Um culto ancestral, provavelmente muito mais antigo do que a própria capela que agora ali temos e que, num registo anímico de entrega à espiritualidade, recupera de um só ensejo a marca perene do paganismo pré-histórico em linha com os valores espirituais da cristianização galopante. A caridade que dali deriva, porque os mais desprovidos da materialidade ali obtêm as proteínas da carne de que tanto necessitam para viver, encobre-se ritualisticamente para não ser “caridadezinha”, partilhando de forma relevante ensinamentos essenciais para que verdadeiramente ali se cumpra o destino maior de Portugal.
 
Quadro maravilhoso que sobressai do cenário idílico da Serra de Sintra, a Aldeia do Penedo e a Capela de Santo António são visita obrigatória para quem deambula pela Alma de Portugal. Ali se encontram, num cruzamento sentido, as marcas maiores que fizeram coisa enorme deste país tão pequeno.
 
Porque quem sabe entende.
 
 

 

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publicado às 15:47

A Porta da Ravessa no Redondo

por cascalenses, em 25.05.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Parte integrante do antigo Castelo do Redondo, no Alentejo, a Porta da Ravessa é, mercê de uma acção de marketing associada a uma marca de vinhos, um dos mais conhecidos e procurados monumentos históricos daquela região.
 
Marcando inicialmente a linha da frente na defesa das fronteira nacionais, num sistema complexo que integrava ainda os castelos de Estremoz, Monsaraz e Portel, o Castelo do Redondo apresenta uma formulação espacial simples, promovendo a integração do núcleo urbano mais antigo da localidade. Tendo feito parte do conjunto de fortalezas recuperadas pelo Rei Dom Dinis no Século XIV, terá tido a sua origem em período muito mais recuado, provavelmente durante o domínio muçulmano , aproveitando uma possível estrutura defensiva de carácter mais precário que ali havia sido construída pelos romanos.
 
 
 
 
A estrutura actual, no entanto, mantendo basicamente inalterada a traça original, deverá bastante mais recente, reforçando a convicção generalizada de que a povoação que hoje temos resulta de um processo histórico marcado pela consolidação da nacionalidade já no final da Idade Média.
 
A Porta da Ravessa, localizada a Norte do recinto amuralhado, também é conhecida como Porta do Sol, definindo a protecção do eixo viário que ligava Évora a Badajoz. Nela se centrava, pelo enquadramento urbano de que é peça central, a estrutura administrativa da localidade, facto ainda hoje visível na presença das marcas da vara e do côvado que fomentam a celebridade deste monumento.
 
Expressão maior das potencialidades do Alentejo, a Porta da Ravessa é um bom exemplo da forma como o património histórico se afigura essencial na determinação da Identidade e da Cidadania, num processo mais amplo e pragmático que determina a condição essencial da própria democracia. 

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publicado às 16:03

O Castelo de Noudar em Barrancos

por cascalenses, em 12.05.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem poucos monumentos em Portugal como o Castelo de Noudar, situado no Concelho de Barrancos, no Alentejo profundo. A sua situação geográfica, situada estrategicamente junto à raia Espanhola, associada a um cenário paisagístico profundamente impressivo e impactante, fazem deste recanto um dos mais encantados monumentos de Portugal.
 
Com uma história muito longa, que os vestígios arqueológicos comprovam ter-se iniciado ainda durante a Pré-História e durante o período da primeira ocupação humana no actual território português, o Castelo de Noudar que hoje vemos é o resultado de sucessivas campanhas de construção e reconstrução que remontam à ocupação romana e que os Visigodos e mais tarde os Muçulmanos, vieram a adaptar às suas necessidades.
 
 
 
 
Situado na confluência da ribeira de Múrtega e do Rio Ardila, numa elevação do terreno que lhe confere enorme visibilidade sobre o território envolventes, o castelo é uma espécie de sentinela avançada de Portugal, representando um papel essencial na definição do controle territorial nacional perante as constantes investidas do país vizinho.
 
Constantemente alvo de ataques e de contra-ataques, numa luta permanente pela independência, nunca foi fácil a via em Noudar. A vila nascida dentro das suas muralhas, detentora de um poder civil amplamente reconhecido pela Coroa Nacional, foi sempre reforçando a sua importância política, facto que explica a elevada taxa populacional que foi sempre apresentando ao longo dos seus muitos séculos de história.
 
 
 
 
Em termos urbanísticos, com a sua estrutura simples, Noudar configura-se em torno da sua torre de menagem e dos edifícios de cariz oficial que governavam o seu território. A cadeia, ainda hoje um ex-libris da velha povoação, assume especial importância sobre tudo num espaço no qual a força da Lei era imperativo maior na manutenção da qualidade de vida dos cidadãos, apesar da distância quase absurda que medeia entre aquele lugar e os principais pontos do poder administrativo Nacional.
 
A antiga alcáçova, aberta na zona mais central da antiga localidade, compõe um quadro romântico que se acentua pelo cenário de ruínas que actualmente caracteriza o povoado.
 
Quando Gonçalo Mendes da Maia, conhecido historicamente como o “lidador”, a conquistou em 1167, Noudar era uma povoação essencial para o reforço da autonomia nacional. O controle da estrada que ligava a sede episcopal em Beja com a centralidade política espanhola, fazia da povoação um dos pontos-chave na estratégia de definição territorial Cristã, recriando em seu torno um complexo sistema de rentabilização económica do espaço que não deixa indiferentes os principais poderes políticos daquela época. É, por isso, apetecível a ocupação de Noudar, assim se mantendo durante muitos séculos.
 
Em 1644, por ocasião da Guerra da Independência, o usurpador Espanhol manteve Noudar sobre a sua tutela. E a libertação da localidade, acontecida somente em 1715 no âmbito do Tratado de Utrecht, concretiza-se depois de uma acção de destruição massiva das principais estruturas da povoação. Este facto, aliado a uma pretensa epidemia de natureza desconhecida que afectou simultaneamente a população, terá determinado a extinção oficial da vetusta vila, facto que dará origem a um processo paulatino de despovoamento que se prolongará durante algumas décadas e do qual, por exclusão de partes, resulta o florescimento da vizinha Vila de Barrancos da qual este território faz actualmente parte.
 
 
 
 
Noudar é actualmente uma espécie de Castelo Encantado perdido nos alvores da modernidade Portuguesa. Desde o Século XVIII, quando a sua extinção administrativa aconteceu, não mais foi alvo de intervenções que ali tenham construído novas edificações. Mantém, por isso, os traços antigos de um espaço perdido no tempo, assumindo-se como ruína romântica de uma era longínqua cuja memória se foi perdendo ao longo dos tempos…
 
Da sua memória mais ancestral, provavelmente reforçada com a aura misteriosa que o seu abandono configurou, faz parte uma lenda maior do Alentejo marcante e profunda onde a mesma sua desenvolve. Ainda hoje, tantos séculos depois de se ter transformado numa imensa ruína perdida no tempo, há quem afirme convictamente que em certas noites do ano, quando o calor do estio se prolonga noite adentro, é possível ver, no topo da sua torre de menagem, a figura esbelta de uma cobra altiva que, com um toutiço na cabeça, vai dançando fantasmagoricamente à luz do luar!
 
E essa cobra, que a sabedoria popular diz que é uma princesa moura encantada, encaixa de forma perfeita na estória da lendária moura Salouquia cuja vida terminou de forma abrupta quando, no calor imenso das guerras da reconquista, se terá suicidado atirando-se para a morte do alto da torre do Castelo de Moura. A princesa encantada, maravilhosa na formulação que dela faz o imaginário popular, não morreu como era a sua vontade a fugir dos atacantes Cristãos que se preparavam para tomar a sua cidade. Por artes mágicas, ter-se-á transformado numa cobra ao tocar no chão e, dessa maneira, contornando a perniciosa forma da morte, fugiu rastejando através dos plainos férteis do Alentejo até Noudar, onde ainda hoje se prepara todas as noites para receber o seu noivo oriundo do território do Islão!
 
 
 
 
Qualquer que seja a verdade associada a esta história lendária, o certo é que o Castelo de Noudar, classificado como Monumento Nacional desde 1910, carrega consigo o encantamento que o deslumbre da sua monumentalidade deixa transparecer. As suas muralhas velhas, gemendo ano após ano as agruras terríveis do frio do Inverno e o calor insuportável do Verão alentejano, ainda ecoam de forma sublime as vozes avoengas dos que nos precederam, toldando com a sua aura de mistério alguma razão de que pudéssemos fazer uso quando as visitamos. A impressão causada pela antiga vila abandonada de Noudar é de tal forma grande, com o peso ancestral da sua História e das suas estórias, que se torna difícil (senão impossível) manter o discernimento do que é real naquela amálgama de emoções que o espaço transparece.
 
 
 
 
Visitar Noudar, agora que as intempéries determinaram um triste fim para as ruínas que subsistiram ao longo de tantos séculos, é recuar muitas centenas de anos no tempo, pisando de forma sensível as mesmas pedras tal como outrora outros fizeram e recuperando memórias de outras eras.
 
É, enfim, uma autêntica máquina do tempo que, com a magia própria que emana das coisas verdadeiras, representa uma experiência sensorial irrepetível, prenhe daquilo que enche a Alma de qualquer Português.

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publicado às 16:53

A Vila da Marmeleira em Rio Maior

por cascalenses, em 30.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A inscrição patente na Igreja de São Francisco de Assis, na Vila da Marmeleira, Concelho de Rio Maior, marca a data terrível de 1755. Mas, contrariamente ao que se possa apensar, nada tem a ver com o grande terramoto que afectou Lisboa e arredores nesse mesmo ano. Pelo contrário, o ano de 1755 marca para a Vila da Marmeleira o apogeu de um processo de crescimento que culmina na sua emancipação em relação a Assentiz e a sua afirmação enquanto comunidade de grande importância no devir histórico e administrativo do concelho.
 
De facto, com raízes históricas que se perdem no tempo, Marmeleira deve o seu nome a uma árvore com o mesmo nome que terá sido lendariamente trazida da Índia por António Faria no Século XVI. Mas já existira certamente muito antes disso, uma aglomerado habitacional neste espaço, tal como o atestam os achados arqueológicos no monte de São Gens e, sobretudo, as provas de ocupação do período muçulmano que abundam nas redondezas.
 
 
 
 
A Igreja da Marmeleira, dedica a São Francisco de Assis, terá sido construída originalmente no Século XVII pelo Abade de Alcobaça como resposta aos muitos problemas que as cheias periódicas que afectavam o Concelho de Rio Maior traziam aos seus habitantes. De facto, o riacho que vem de São João da Ribeira e que atravessa a actual freguesia em direcção ao Rio Maior, transbordava várias vezes ao ano, impedindo os moradores da Marmeleira de chegarem à igreja para assistirem à Missa. Por isso, o novo templo, em forma de pequena ermida rural, terá sido edificado nessa altura, atestando a importância da localidade e dos seus moradores .
 
A referida data de 1755, que ainda hoje se mantém na fachada da igreja, refere-se assim a campanhas de obras efectuadas nessa data, sendo que as mesmas terão sido refeitas, já no Século XX, dotando a igreja da sua actual configuração. Do templo original, singelo na sua formulação chã e em linha com aquilo que terá sido, desde sempre, a principal estrutura económica do local, sobra somente um pequeno altar, agora dedicado a Nossa Senhora da Conceição, que se mantém incólume no interior da igreja.
 
 
 
 
São Francisco de Assis, a quem o templo foi dedicado, é agora a figura-mãe da devoção religiosa do povo da Marmeleira. As suas festas anuais, que misturam a ligação ancestral à Rainha e Padroeira de Portugal com a apologia da pobreza preconizada por São Francisco, são tradutoras privilegiadas do linear percurso histórico desta recanto de Portugal, denotando a ligação eminente e profunda à natureza e aos seus ciclos agrícolas, bem como ao despojamento efectivo perante a grandiosidade e a pujança de Deus. Os Marmelenses, vocacionados para uma vida devotada à terra e aos seus frutos, constituem assim a referência primeira de uma localidade que se concretizou a partir das exigências e as vicissitudes impostas pela água e pelas agruras do tempo, mas que delas depende para o esforço quotidiano da sobrevivência e da existência humana.
 
 
Isto é bem visível na própria localização da povoação, colocada de forma segura a uma altitude de cerca de 100 metros para evitar possíveis influências nocivas da subida dos níveis das águas, bem como na sua relação com a paisagem envolvente.
 
Dos equipamentos que hoje compõem o património da Vila da Marmeleira, para além da Igreja de São Francisco de Assis, fazem parte o miradouro, o tanque de lavagens comunitárias e a fonte de chafurdo. Todos eles, atestando a antiguidade da ocupação humana do território e a sua vinculação agrícola, se situam em planos de inferioridade relativamente ao centro da povoação, mostrando que o seu crescimento de faz a partir desse esforço de sobrevivência e explicando o apelo à singeleza que todo o conjunto urbano nos oferece.
 
 
 
 
Digno de nota especial, pela importância iconográfica que possui, é o painel de azulejos neo-clássicos que decora o espaço da Fonte dos Namorados. Este manancial de água, provavelmente nascente natural que terá sido aproveitada pelo menos desde a época romana, é de crucial importância na definição dos principais eixos de crescimento da Vila da Marmeleira. O veio principal, oriundo do pequeno morro onde se ergue a igreja, será provavelmente o que resta da antiga fonte de chafurdo que terá abastecido a região.
 
Na iconografia que ilustra este espaço, que até pelo seu nome indica a importância que enquanto espaço central de sociabilização, é possível ver as juntas de bois, os lavradores e as lavadeiras que noutros tempos deram corpo à sociedade Marmelense. Apesar de simbólica, esta recuperação daqueles que terão sido os estereótipos principais n localidade permite-nos compreender a forma como é dessa componente rural, miscenizada provavelmente com a componente militar que resulta da posição de grande importância estratégica que toda esta região teve noutros períodos da História, que depende o devir quotidiano das comunidades, num acto de entrega aos redutos primevos da natureza que se espraia na forma como se definem os arruamentos, se constroem as casas e se criam os espaços de uso colectivo.
 
 
 
 
Nos lavadouros públicos, situados a poucos metros da Fonte dos Namorados e aproveitando o manancial de água que ali é captado, encontram-se presentes os mesmos motivos iconográficos, sendo que o painel azulejar, de fábrica mais recente e marcado com a data de 1934, nos aponta precisamente a simpatia como o principal epíteto da Vila a Marmeleira.
 
Elevada à categoria de vila em 1927, pela mão do então Presidente da República Marechal Carmona, a Marmeleira é freguesia desde 1878. O final do Século XIX, com a autêntica revolução que se concretiza na agricultura Portuguesa, é o início do período de maior fulgor da História da Marmeleira, acompanhando o crescimento da antiga freguesia a partir da consolidação das novas práticas agrícolas e dos produtos que se foram afirmando comercialmente na região.
 
 
 
 
Airosa, bonita e simpática, a Vila da Marmeleira é actualmente um dos mais encantados recantos do Ribatejo, preservando o carácter rural do seu nascimento mas incluindo uma série de benefícios urbanos dignos de povoação com maior dimensão e mais fama. O largo do corte, situado nas traseiras da igreja, dá conta de uma vivência comunitária que se mantém activa,  ao mesmo tempo que nos oferece pistas importantes para compreender aquilo que foi a evolução da freguesia desde o início do século passado. De salientar, pela importância que tem na compreensão deste devir, a placa epigrafada colocada junto ao miradouro, que sublinha precisamente o facto de as obras terem sido feitas em 1969 por iniciativa da comissão local de festas com o apoio da Junta de Freguesia e da Associação dos Amigos da Marmeleira.
 
Vale a pena estacionar o carro num dos muitos espaços existentes no centro da localidade e, com máquina fotográfica nas mãos, percorrer a pé os cantos e recantos deste espaço tão especial. Ali se encontrarão, para deleite de quem já pouco sabe sobre as raízes rurais de Portugal, os vestígios ainda bem vivos de uma prática em que homem e natureza convivem em sã harmonia, num pleito de simpatia cuja índole pacífica se perpetua no espaço e no tempo.
 

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publicado às 16:55

A Torre do Galo e a Real Barraca da Ajuda

por cascalenses, em 20.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Porque o destino sempre se impõe à realidade, o desastre fatídico que destruiu a cidade de Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755, não afectou directamente o Rei nem a Família Real. Por vicissitudes várias e naturalmente alheias ao terramoto, o Rei Dom José, a sua mulher e os filhos, encontravam-se no Palácio de Belém naquela ocasião terrível. O Paço Real, situado na zona fronteira ao Cais das Colunas, em pleno Terreiro do Paço, ficou exactamente no epicentro do sismo, tendo sido a zona mais destruída da Cidade de Lisboa.
 
Mas o monarca, que imediatamente visitou a cidade para tomar nota dos estragos produzidos, ficou bastante abalado psicologicamente pelo cataclismo. Regressado a Belém, zona considerada de menor actividade sísmica, afirmou categoricamente que nunca mais voltaria a viver em edifícios feitos de alvenaria e pedra. Para resolver a situação, e ainda com medo de eventuais réplicas que ainda devastassem mais a cidade, o Rei mandou construir, na Quinta da Ajuda, um enorme palácio real, feito de madeira e de materiais leves, cuja estrutura marcou de forma indelével a paisagem e o imaginário lisboeta durante muitos anos.
 
 
 
 
O palácio de madeira, conhecido popularmente como a Real Barraca, ocupava uma vasta zona sobranceira a Belém. Foi a sua estrutura, marcante do ponto de vista paisagístico mas também determinante para a consolidação urbana desta parte da cidade, quem ajudou a definir os novos arruamentos e o espírito urbanizador do novo bairro.
 
Agregado ao palácio abarracado, na denominada Quinta da Ajuda de Cima, foi também construída uma Capela Real, que tinha como principal função substituir a Igreja Patriarcal que tinha sido bastante abalada pelo terramoto. Também elaborada em madeira, com traço de Elias Sebastião Pope, a Capela Real integrava o único apontamento em alvenaria existente no conjunto original. A sua torre sineira, projectada pelo Arquitecto Manuel Caetano de Sousa, começou a ser construída em 1792, funcionando como Patriarcal de Lisboa até 1833, quando regressou à Sé de Lisboa.
 
 
 
 
Tendo perdido a sua funcionalidade, foi a antiga patriarcal de madeira mandada demolir no Século XIX, tendo restando unicamente a velha torre sineira.
 
Sendo hoje uma imagem de marca do Bairro da Ajuda, que conta com o galo em ferro forjado que encima a torre como seu símbolo heráldico, a Torre da Ajuda causa estranheza a quem dela se acerca sem conhecer a sua história. A sua monumentalidade, assente numa altura de muitos metros que a faz sobranceira ao próprio Palácio Nacional, a torre integra oito sinos que dão corpo à sua estrutura principal. Na cúpula, é o cata-vento em forma de galo, feito em ferro forjado, que lhe dá o cunho de estranheza que a torna tão imponente…
 
 
 
 
Em termos formais, a denominada Torre do Galo apresenta uma morfologia muito semelhante àquela que foi utilizada no Palácio das Necessidades e no Palácio de Mafra, sendo porventura um decalque do mesmo modelo que foi aproveitado para este efeito.  
 
Com a destruição da antiga Real Barraca por um incêndio e com a demolição da Capela Real, a velha torre ficou perdida no meio de um terreiro transformado em parque de estacionamento. Pelo que representa em termos da historiografia de Lisboa, pelo impacto que tem na paisagem da cidade e na definição do imaginário colectivo da Ajuda e de Belém, merecia que ali se concretizasse um projecto de valorização qualquer. Os escassos metros que a separam do palácio actual, com um murete de separação que regula o desnível produzido pelo terreno, não faz nenhum sentido, representando um verdadeiro atentado patrimonial à memória dos Portugueses.
 

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publicado às 16:47

A Igreja de Nossa Senhora dos Remédios em Carcavelos

por cascalenses, em 16.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O orago de Nossa Senhora dos Remédios remete-nos para as memórias mais ancestrais da humanidade De facto, a Senhora que cura e cuida dos seus filhos, reminiscência simbólica das práticas de sociabilização que acompanham o nascimento do conceito de família, tem o seu apogeu nos primórdios do período Neolítico, quando os primeiros assentamentos humanos abandonam nomadismo e adoptam estilos de vida marcados pela sedentarização.
 
A Senhora dos Remédios, que o lendário Português associa directamente aos perigos e perseguições sofridas pelos primeiros Cristãos durante o descalabro que acompanhou a queda do Império Romano, é assim simultaneamente a histórica Mãe de Jesus e a figura épica da Senhora da Conceição, eixo primordial da Fé e da espiritualidade antiga naquele que é hoje o território de Portugal. A ligação estreita entre ambos os oragos, num displicente apelo à figura que centra em si a capacidade de apoiar o ser humano nesta sua aventura terrena, conjuga-se nas práticas Cristãs como repositório dos valores absolutos da bondade inequívoca e da entrega total à vontade de Deus, consubstanciado de forma completa no papel desempenhado por Nossa Senhora enquanto cadinho alquímico da transformação da divindade pura em carne e em sangue.
 
 
 
 
É, pois, o sofrimento geral que acompanha a vida humana neste recanto inóspito do fim-do-mundo romano, marcado pela angústia que resulta da dúvida sistemática em relação ao que o futuro nos reserva e à incerteza em relação à vontade de Deus, quem determina a devoção ancestral que liga a Senhora dos Remédios a Carcavelos, num pleito de harmonia profunda entre as vicissitudes próprias da antiga comunidade rural que subsistia neste local e os ventos mais recentes de um impulso regenerador e progressista que os tempos recentes vieram trazer. Remedia Nossa Senhora aqueles que são ais desafortunados…
 
A faceta saloia de Carcavelos, dependente em permanência da terra e das instáveis vontades da natureza, recria uma forma muito própria de viver a espiritualidade. Aqui, mais do que em qualquer outro local da periferia de Lisboa, sente-se no ar a dúvida permanente entre o valor da matéria e o bem geral da comunidade… Será isso, possivelmente, o que explica a decoração singela da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, na qual a nave única se enche da policromia própria dos painéis azulejares do Século XVI, prescindindo da opulência vistosa dos dourados barrocos que algum tempo depois hão-de transformar-se na principal marca dos templos e das igrejas de Portugal.
 
 
 
 
Mas, se no Século XVI, foi a génese saloia e rural da actual Freguesia de Carcavelos, quem determinou a estrutura do templo, obviamente enquadrado naquilo que eram as práticas arquitectónicas comuns na sua época, a partir daí foram muitos os problemas que vieram a afectar a igreja, condicionando a sua formulação e até a própria implantação no espaço, naquele que é o coração da localidade.
 
De facto, pouco tempo depois da sua construção, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios foi bastante danificada pelo terramoto de 1755. E se, noutros lugares, a recupeação foi possível e decorreu de forma célere, em Carcavelos o processo foi moroso e difícil, em linha com a pobreza que nessa altura caracteriza aquele espaço. Ao longo do Século XVIII e, mais tarde, durante todo o Século XIX, a situação financeira da Igreja e da Paróquia de Carcavelos foi-se agravando, ao ponto de, por ocasião da implantação da república, a igreja ter sido encerrada por falta de recursos. E daí por diante, mercê da laicização progressiva da sociedade e das influências republicanas sentidas nesta zona Nascente do Concelho de Cascais, a situação foi-se agravando ainda mais, ao ponto de a igreja ter sido mesmo transformada numa escola depois de ter sido desmantelado e vendido todo o seu recheio.
 
Mas a devoção a Nossa Senhora dos Remédios, a senhora que ajuda quem dela mais precisa, acabou por ser determinante na história da própria localidade. Logo depois da implantação da república, é o administrador do Concelho de Cascais quem toa a iniciativa de defender o património da igreja, proibindo a retirada e a venda dos seus painéis de azulejo. E é também ele quem, ao proteger os bens daquele importante templo, recria as condições essenciais para que mais tarde se recupere a paróquia e o culto seja devolvido a Carcavelos.
 
 
 
 
Em termos iconográficos, como consequência da história associada à Ordem Hospitalar da Santíssima Trindade, que foi a principal responsável pelo orago de Nossa Senhora dos Remédios, a imagem devocional da igreja apresenta uma Nossa Senhora com o menino no braço esquerdo e uma bolsa de dinheiro na mão direita. Cumpria-se, assim, a ajuda da Virgem aos seus devotos, numa entrega de bens que suprem as necessidades mais prementes daqueles que a Ela apelam. E a Senhora dos Remédios, remedei-a assim os mais necessitados, num desapego perante a materialidade que é essencial no percurso espiritual daqueles que seguem o seu exemplo.
 
Será certamente este valor potencial que determina a amplitude devocional em Carcavelos. Dentro da igreja, venerados pelos paroquianos, existe uma outra imagem de Nossa Senhora, esta feita do Carmo, que complementa em termos simbólicos a força que emana no órgão principal. Nossa Senhora do Carmo, possivelmente denotando a relação com o Convento do Carmo existente desde o Século XVI em Cascais, apresenta-se com o escapulário próprio da ordem e representa a total entrega à vontade de Deus.
 
 
 
 

 

A visita à Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, em Carcavelos, é pois o sinónimo desta entrega absoluta à divindade. A singeleza da sua formulação estética, marcante do estilo chão que sempre caracterizou a via em Carcavelos, impõe-lhe uma beleza sem par. Vale a pena, desta maneira, passar os antigos portões de Carcavelos e visitar esta igreja tão especial. 

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publicado às 14:13

A Igreja de Santa Maria da Porta em Melgaço

por cascalenses, em 22.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Dizem que santos de porta não fazem milagres… basicamente porque depois do Concílio de Trento, a disposição das figuras sacras dentro de uma qualquer igreja ou espaço religioso passou a obedecer a regras bem definidas, nas quais a hierarquia celeste ia crescendo na medida em que nos vamos aproximando do Sacrário.
 
 
 
Mas Santa Maria da Porta, orago da principal igreja de Melgaço, no Minho, representa a mais profunda contradição relativamente a este princípio. De facto, assente na profundidade escatológica que acompanhou a formação de Portugal, o orago minhoto integra a generalidade dos arquétipos essenciais que deram corpo à nacionalidade, representando porventura um dos melhores exemplos que subsiste da criação de ponte relacionais com a cultualidade ancestral nesta parte da Península Ibérica.
 
A Senhora da Porta, ou seja, aquela que guarda as entradas e as saídas de um determinado espaço, é simultaneamente causa e consequência do porvir quotidiano de uma comunidade. É dela que dependem os habitantes do local, sendo do seu carácter sacro, bem como da sua capacidade alquímica de transmutar as almas, que resulta o processo de passamento final dos mundos, num trâmite que não se concebe senão à luz das consequências sempre nefastas do pecado original.
 
 
 
 
Para os habitantes de Melgaço – Melgazo na sua grafia original -, Santa Maria maior ficava à porta, sendo para ela que convergiam as dinâmicas sociais de criação da própria localidade. No Século XII, quando surgem documentalmente as primeiras referências do povoado, marcava a sua diferença relativamente à outra igreja local, esta dedicada a Santa Maria do Campo, reformatando a ligação entre os seus fiéis e as novas práticas trazidas ao dia-a-dia do burgo em consequência do processo de independência de Portugal. A imagem de Nossa Senhora, simultaneamente mãe de Jesus e padroeira maior de Portugal, reforçava assim os seus vínculos milenares (provavelmente pré-Cristãos) com a Fé avoenga das terras nortenhas.
 
Construída à porta do antigo castelo, e marcada pelo estilo arquitectónico coevo, de um românico prenhe de apelos telúricos à força da pedra e ao peso das tradições ancestrais, a igreja nasceu por iniciativa do Arcediago de Valares, D. Garcia, que guardou para si, com autorização do Abade de Fiães, com a terça parte do padroado.
 
 
 
 
Muito desvirtuada na sua formulação estética em consequência das muitas intervenções de que foi alvo ao longo dos seus quase 900 anos de história, a Igreja de Santa Maria da Porta representa de forma muito evidente o carácter vincadamente significante que Melgaço sempre representou na estratégia de defesa das fronteiras de Portugal. A fragilidade dos primeiros tempos de nacionalidade, associados à proximidade da fronteira e às constantes investidas das tropas inimigas, fez de Melgaço um bastião essencial na defesa do reino, facto que terá condicionado de forma cabal a sua estrutura urbanística, e sobretudo a eminente necessidade de reforço e resguardo do seu castelo e da sua cinta de muralhas.
 
Singela na forma como se apresenta perante o visitante, a igreja é ela própria um testemunho vivo da força e da determinação daqueles que ao longo de muitos séculos ousaram viver neste lugar, sofrendo na pele as vicissitudes de decisões emanadas de muitos quilómetros de distância. Do alto do seu campanário, espécie de torre de vigia coeva dos primeiros anseios de Portugal, é possível vislumbrar aquilo que terá sido o Minho nessa época tão importante. Na torre sineira, colocada de forma recuada relativamente à fachada principal, é possível ainda hoje ler as assinaturas dos Portugueses de antanho que modelaram a pedra para construir esta igreja sem igual.
 
 
 
 
De nave única, marcada hoje pelo telhado de madeira que nos leva até ao altar principal, tem no seu Altar-Mor a imagem de Nossa Senhora da Conceição, provavelmente original do Século XVII, cujos contornos assentam de forma perfeita no estereótipo principal da criação do próprio Portugal. De facto, em parceria com Nossa Senhora do Campo, de cuja essência saiu para assumir o seu papel de guardiã da porta do castelo, Nossa Senhora da Porta não é mais do que a mãe-primordial dos Portugueses, numa recuperação simbólica de pressupostos de Fé que antecedem a própria ideia de Portugal.
 
Situada num dos mais belos recantos de Portugal, numa vila que sustenta o charme das suas vetustas muralhas, a Igreja de Santa Maria da Porta e a própria localidade de Melgaço, são pormenor incontornável em qualquer visita que se faça ao Norte de Portugal. Ali, pelo que subsiste da sua gloriosa história, é possível sentir e entender aquele que é o alicerce maior da Alma de Portugal. 

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publicado às 16:20

Dom Fuas Roupinho no Castelo de Porto de Mós

por cascalenses, em 13.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Ao contrário do que é comum afirmar-se, a matemática nem sempre produz resultados absolutos. Por vezes, a soma de duas partes não origina a multiplicação linear do resultado, antes desenvolvendo um factor potenciador que reforça o carácter inesperado desse mesmo resultado...
 
É o acontece na Cidade de Porto de Mós, na Região Centro de Portugal, onde o horizonte surge bem vincado pelo perfil inesperado do seu castelo. Tendo ficado a história da sua origem definitivamente perdida no tempo, até porque não se conhece com exactidão a data que marca a construção da estrutura actual, o Castelo de Porto de Mós ocupa um local estrategicamente essencial para a defesa da povoação circundante e de todo o território Nacional. Antes dele, existiria no mesmo sítio uma antiga fortificação de origem árabe, que foi conquistada logo em 1148 pelos exércitos chefiados por Dom Afonso Henriques, e que, por seu turno, veio sobrepor-se a uma estrutura anterior, provavelmente remontando ainda ao período neolítico.
 
 
 
 
O castelo que hoje ali vemos, cuja base estrutural foi definida durante o reinado de Dom Sancho I, é o resultado da soma de diversos contributos de várias civilizações que nos antecederam e, também, de vários estilos arquitectónicos e artísticos. Mas, tal como acontece com a matemática, a soma de todos estes contributos é amplamente maior do que cada uma das partes que o compõem…
 
Reza a lenda que o Castelo de Porto de Mós foi entregue, logo em 1148, ao ilustre fidalgo Dom Fuas Roupinho. Desconhecido documentalmente (ainda) o fidalgo Português foi um dos principais conselheiros do fundador da Nacionalidade, tendo simultaneamente assumido o papel de primeiro Almirante da Esquadra Portuguesa. Fernão Gonçalves Churrichão de seu nome verdadeiro, entrou na História devido à sua participação no denominado ‘Milagre da Nazaré’, consolidando o prestígio e o poder que já detinha por ter sido membro activo e importante da Ordem dos Cavaleiros do Santo Sepulcro, ou seja, dos Cavaleiros Templários.
 
Quando caçava na Nazaré, durante o período em que assumiu funções como Senhor de Porto de Mós, Dom Fuas Ropuinho terá sido envolvido por uma espessa cortina de nevoeiro que, toldando a sua vista, o impediu de perceber que cavalgava de forma intrépida em direcção ao precipício que exista junto às falésias. Ao dar conta da desgraça eminente, e ao perceber que estava num local muito próximo da uma gruta onde se venerava uma imagem de Nossa Senhora, terá pedido a sua ajuda e intervenção que foi imediatamente concedida. A Virgem fez estancar o cavalo à beira do precipício, onde deixou uma marca bem visível na rocha, evitando a morte certa do fidalgo Português. A devoção que desenvolveu por essa imagem, bem como a Fé profunda que tinha no seu poder junto da sua própria vida, fez com que ali mandasse construir uma capela dedicada a Nossa Senhora da Nazaré, que se situa precisamente sobre a velha gruta onde o cavalo foi mandado parar pela mãe de Jesus.
 
O veado que Dom Fuas caçava naquele importante dia da sua vida enquanto Senhor de Porto de Mós, é interpretado em termos simbólicos como sendo a própria figura do Demo, num impulso de tentação com o qual terá tentado destruir o piedoso Templário. É, por isso, uma luta prolixa entre o bem e o mal aquilo que trata esta lenda, cujas reminiscências mais profundas, perdidas provavelmente para sempre no devir histórico de Portugal, alavancam a lei dos contrastes que explica e enriquece a Identidade Nacional.
 
 
 
É, por isso, num cenário miraculoso que o Cavaleiro Templário faz nascer a sua lenda e é sobre ela, assente num imaginário colectivo que carrega consigo velhas tradições ancestrais, que Dom Fuas Roupinho dá corpo ao mais profundo, significante e importante legado que corporiza a formação da Nacionalidade, resgatando das profundezas das antigas tradições da sabedoria a chama com a qual aquece o caldeirão alquímico sobre o qual se construiu Portugal. De facto, o novo País nasce em ligação estreita e profunda com o ideário mariano de matriz Cristã. Mas, na sequência daquilo que foi a cristianização do actual território Nacional, grande parte dos valores, doutrinas e ritualísticas associados à nova práxis religiosa, são afinal resultado da evolução natural de várias ideias arquétipas que, mesmo sendo Pré-Cristãs, integram em si precisamente os mesmos princípios que hão-de orientar o surgimento da mais revolucionária das religiões Ocidentais. Entre o Cristianismo e as religiões que o antecederam, tal como entre o Castelo de Porto de Mós e as fortificações e construções que antes dele ali existiram, existe uma linearidade evolutiva que ao contrário do que é comum dizer-se, pautou-se pelo respeito e pela confiança, num cenário de evolução no qual a palavra cisão não fazia qualquer sentido.
 
A soma das partes, também na vida de Dom Fuas é maior do que as partes em si próprias, fomentando um potencial de significado que transcende largamente a história da sua própria vida.
 
No caso de Porto de Mós, diz a lenda que Dom Fuas Roupinho não teve tarefa fácil. Depois de receber o encargo de defender a localidade de eventuais investidas inimigas, não conseguiu evitar que os exércitos muçulmanos viessem a recuperar o domínio da sua fortificação. Mas ele, provavelmente fazendo uso dos conhecimento que detinha pela sua condição de Cavaleiro Templário, terá encontrado um estratagema que lhe permitiu recuperar a praça pouco tempo depois do malogrado acontecimento, num laivo miraculoso cujos ecos perduram ao longo do tempo…
 
 
 
Em termos estruturais, o Castelo de Porto de Mós que hoje vemos já pouco tem a ver com a estrutura medieval inicial. Sucessivas campanhas de obras, que assumem o cenário idílico onde o mesmo se ergue, com vista sobre a serra e o Vale do Lena, vão progressivamente retirando à edificação a sua carga militar e transformando o velho castelo num magnífico palácio onde se privilegiava a apreciação das artes e das letras. A sua fachada actual, com os torreões cobertos de telha verde que se transformou no ex-libris da localidade, foi construída no Século XV pelo 4º Conde de Ourém, filho dos primeiros Duques de Bragança. E é novamente nessa ligação quase genética ao imaginário Nacional, que Porto de Mós recupera o carácter vincado da sua importância simbólica e a originalidade de uma existência onde a lenda se volta a misturar com a realidade.
 
Isto porque, em 1385, Porto de Mós tomou partido pelo Mestre de Avis. E, em consequência disso, foi ali que estiveram aquarteladas as tropas nacionais nas vésperas de seguirem para Aljubarrota, onde por intercessão de Nossa Senhora, e sob a orientação estratégica de Dom Nun’Álvares Pereira, alcançaram uma das mais significantes vitórias militares em toda a História de Portugal. Por reconhecimento ao seu Condestável, o novo Rei Dom João I, simultaneamente Mestre de Avis e pai da Ínclita Geração que haveria de dar novos mundos ao Mundo e oferecer a Portugal a sua vocação hermética, oferece Porto de Mós a Nun’Álvares Pereira que ele, enquanto Grande-Construtor de universos, lega por seu turno à sua filha e genro, precisamente os primeiros Duques de Bragança. Mantém-se visível e actuante, desta maneira, a consagração de Porto de Mós à mais profunda tradição iniciática de Portugal, reconvertendo a sua linha de cenário num objecto pleno de importância para quem quiser compreender verdadeiramente a razão de ser da própria existência deste País sem igual.
 
 
 
 
O sinal marcante deste processo de consolidação estrutural surge perfeitamente identificado com a Cruz de Cristo e, por isso, com a própria Alma de Portugal. É ela que encabeça o esforço inicial de Roupinho na sua faceta Templária e é ela também quem surge enfunada nas velas que movem as naus que farão os Descobrimentos de Portugal. Diferente da latina, a Cruz de Portugal que se corporiza em Porto de Mós é praticamente a mesma que marca o ‘Centro do Universo’ na milenar Cidade Proibida de Pequim, da mesma forma que é semelhante em termos físicos e de significado, às cruzes Coptas pré-Cristãs que se encontraram na antiga Abissínia.
 
Depois de ter sido bastante destruído pelo grande terramoto de 1755, o Castelo de Porto de Mós foi sucessivamente alvo de várias campanhas de obras que consolidaram a sua vocação palaciana.
 
Actualmente, numa cenografia arquitectónica definida pelo apelo à beleza e à arte, Porto de Mós é uma espécie de capital espiritual de Portugal. O seu castelo, outrora essencial para defender militarmente a independência do País, defende agora (e é essencial) a própria Alma de Portugal.
 

 

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publicado às 17:27

O Castelo de São Mamede em Guimarães

por cascalenses, em 10.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando a História se cruza com a lenda, recriando um cenário onírico onde fantasia e realidade compõem um espaço único que calcorreamos, criam-se as condições para que um determinado lugar assuma laivos de deslumbramento que perduram ao longo dos anos.
 
É o que acontece na Cidade de Guimarães, comummente aceite como “Berço de Portugal”, no topo da sua colina de Nossa Senhora da Oliveira onde se ergue o seu altaneiro castelo. A construção, que quase parece ter sido esculpida como se de um cenário de teatro se tratasse, impõe-se na paisagem da cidade e define de forma evidente o imaginário colectivo dos vimaranenses e representa a própria identidade de Portugal.
 
 
 
 
De acordo com a documentação histórica, o Castelo de Guimarães foi começado a construir pela Condessa Mumadona Dias, viúva do poderosíssimo Conde Hermenegildo Gonçalves que governou o Condado Portucalense no final do Século X. No ano de 968, para defesa de uma comunidade monástica que havia criado no sopé do monte de Guimarães, a condessa emite um documento de doação do castelo à comunidade religiosa com vista à sua protecção contra os gentios. Nesse documento, é mencionado expressamente que as obras de construção já estavam terminadas e que a designação oficial da fortaleza era São Mamede. Será, porventura, um dos mais antigos documentos de fundação existentes em Portugal e, com a clareza notarial que apresenta, é por certo o principal atestado que nos permite conhecer e perceber o processo que conduziu à formação da nossa identidade e, posteriormente, a conquista da independência nacional.
 
Depois da conturbação normal que resulta da morte da condessa e do processo de posse pelo qual lutaram os seus descendentes, o Castelo de Guimarães volta a intervir directamente no devir nacional quando é entregue, por ordem do Rei Afonso VI de Leão e Castela, ao Conde Dom Henrique. A doação real, resultante do casamento do nobre borgonhês com a filha segunda do monarca, D. Teresa, acompanha o processo de criação formal do Condado Portucalense e, segundo reza a lenda, é a principal responsável pelo facto de ali ter nascido Dom Afonso Henrique que, mais tarde, virá a ser o primeiro Rei de Portugal.
 
 
 
A ligação de Dom Afonso Henriques a Guimarães, eivada dos mistérios próprios das histórias que se criam e desenvolvem no imaginário popular, relaciona-se por sua vez com a célebre Batalha de São Mamede, na qual o futuro monarca derrota a sua mãe e assume oficialmente os destinos do país emergente. Ali, no ímpeto de uma das batalhas mais significantes da História de Portugal, o auto-proclamado rei desfere o golpe final contra a sua mãe. Em termos simbólicos, é este o momento decisivo na cisão definitiva entre a lealdade jurada ao rei estrangeiro e o assumir de um caminho novo, marcado pela protecção divina e até pela presença do Filho de Deus junto do novo rei, num episódio cujos contornos surgem enublados pela passagem do tempo, entrando numa zona de não-tempo e não-espaço onde desaparecem os indícios daquilo que é real e do que é imaginário.
 
São Mamede, o mártir Cristão que lendariamente nasce envolvido pela desgraça e que ao longo da vida se concentra numa relação de dependência profunda e directa da mercê de Deus, personifica a concretização do impossível e a o apelo à força de uma Fé que supera a própria existência do real. Tal como Dom Afonso Henriques fará em meados do Século XII, Mamede de Cesareia está marcado pelo destino. A ele compete zelar pelos fracos e pelos desprovidos de sorte, garantindo-lhes o estabelecimento de pontes directas com o céu. No cimo da colina do castelo, depois de ultrapassada a Capela de São Miguel, chega-se então ao portão daquele espaço especial, e cruzando-se a sua entrada, deparamo-nos com o cenário mais linear do que foi o próprio nascimento de Portugal.
 
O mártir São Mamede, depois de atacado no estômago pelo rei pagão, sobreviveu graças à intervenção de Deus Pai. Directamente do céu, foi a própria divindade quem lhe colocou um estômago novo, permitindo-lhes resistir ao ataque e sobreviver para continuar a promover a sua Fé. Mas, quando tudo parecia indicar um desfecho oposto, Deus dirige-se a Mamede e diz-lhe que os seus dias na Terra chegaram ao fim… e ele aceita, numa entrega consubstancial à vontade do seu Pai, e entrega prazeirosamente a Alma ao Criador, sabendo de antemão que o milagre que deu forma à sua curta vida era, ele mesmo, a pedra angular que reforçaria a Fé de tantos que haveriam ainda de nascer num futuro que ele não sonhava e nem sequer concebia.
 
Ao fundar Portugal, o Rei Afonso Henriques cumpre destino idêntico. Dá forma, corpo e vida ao novo Estado de Portugal, numa entrega absoluta à vontade de Deus e antecipadamente disposto a sacrificar a sua vitória em prol de um outro qualquer desígnio. A subida do monte em Guimarães, tendo como horizonte da Senhora da Oliveira cuja orientação assegurava o bom carácter do seu trajecto, fê-la de forma totalmente desligada da matéria, numa quase absurda ingenuidade de sentimentos que o afastavam do tempo e do espaço em que viveu. Por isso Ourique foi algures em Portugal, embora tenha sido palco privilegiado da visita do próprio filho de Deus! E, sem tempo e sem espaço, foi em todo o território de Portugal que isso aconteceu.
 
 
 
 
Como para poder nascer é necessário morrer, numa inversão completa da lógica de pensamento que constrange a cultura Ocidental, Afonso Henriques gera o novo reino num registo de imaterialidade que permite ao improvável país novo a sobrevivência num cenário em que nada o deixaria antever. Foi um milagre o nascimento de Portugal e milagre maior ainda a sua sobrevivência durante tantos séculos. Tudo foi possível, soba égide de São Mamede, porque em Guimarães, cadinho sagrado da Alma de Portugal, Afonso foi capaz de viver em pleno a consagração e de concretizar o irrealizável aos olhos dos homens por exclusiva vontade de Deus…
 
Depois de obras profundas realizadas no castelo pelo Rei Dom Dinis, o mesmo que foi casado com a alquímica Rainha Santa que transmutava a matéria aos olhos do povo e do seu Rei, o Castelo de São Mamede ganha a fora que hoje ainda tem. Passam-se depois vários séculos de paulatino abandono, mercê da estabilização territorial que torna inútil o altaneiro castelo, processo que culmina com a sua classificação como Monumento Nacional em 1908, que virá a desencadear uma intervenção profunda realizada em pleno Estado Novo pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Deste período ficou o aspecto cenográfico das suas muralhas, apimentadas com as ameias neo-medievais, que o retiraram do desinteressante e pouco edificante papel de fortaleza principal do Reino, para lhe conferir o título onírico de Berço de Portugal.
 
Em Guimarães ainda hoje se sente no ar o perfume fugidio desse sonho de antanho. As pedras das casas e das velhas capelas, erguidas à sombra do portentoso castelo e das imensas lendas que sempre o rodearam, vão refulgindo num brilho obscuro que acompanha os momentos bons e maus de Portugal.
 
É obrigatório visitar, explorar a fundo e conhece cada detalhe deste castelo excepcional. Até porque ali (ali mesmo naquele recanto sombrio do velho recinto amuralhado) nasceu Portugal!

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publicado às 16:37

A Igreja de Safara e a Assunção de Nossa Senhora

por cascalenses, em 08.02.17

 

 

por João Aníbal Henriques
 
Em 1950, depois de muitos séculos de polémicas discutidas de forma aguerrida no seio da Igreja, o Papa Pio XII decreta oficialmente o dogma da Assunção de Nossa Senhora aos Céus. Pondo fim à problemática Dormição da Virgem, cujo entendimento mais antigo inferia que Nossa Senhora havia morrido naturalmente sendo posteriormente elevada para os céus, o Papa contraria a ortodoxia vigente e assume mais um dos ancestrais mistérios da Cristandade.
 
Nossa Senhora, denominada Teotóco na tradição primeva dos primeiros anos do cristianismo, numa ambígua significação que identifica simultaneamente a mulher Maria e a “portadora de Deus”, é figura maior na definição arquétipa do pensamento Português, dela emanando grande parte do “sopro divino” que orienta a Fé e a identidade do povo de Portugal. De facto, da cultualidade antiga que desemboca nos cultos marianos Cristãos, derivam grande parte das práticas rituais da Igreja Lusitana, representando tantas vezes (quase sempre em momentos cruciais da vivência religiosa Cristã) posicionamentos profundamente heréticos face àquelas que são as directrizes principais da Igreja Romana.
 
Muitos anos antes do decreto papal que determina a Assunção de Nossa Senhora, comemorada de forma simbólica no dia 15 de Agosto de cada ano, já em Portugal existia uma Fé profunda neste mistério ancestral, concretizada em obras, práticas e intenções que, mais do que fruto das desventuras do quotidiano, representavam um sólido alicerce para o corpo divino de sabedoria que sempre acompanhou a existência do País. Proliferando em todo o território nacional, em capelas, ermidas e igrejas que condicionam de forma eficaz as dinâmicas de Fé de Portugal, são muitos os vestígios arcaizantes da presença deste culto, representando a manutenção adaptada de ancestrais cultos relacionados com a fertilidade.
 
 
 
Num dos mais profundos recantos do Alentejo, ali onde a brancura do casario se assume como única arma na luta incansável contra o calor do Estio, ergue-se de forma sublime e inesperada um das mais impactantes igrejas dedicas à Senhora da Assunção. Na localidade de Safara, a poucos quilómetros de distância de Moura e de Barrancos, a pequenez cálida da pequena povoação contrasta de forma evidente com a imensidão monumental da sua igreja Matriz, num plaino de abandono da lógica que não permite perceber de imediato a razão de ser da existência de tão estranho monumento.
 
Construída de raiz algures entre 1500 e 1604, aprofundando o conceito de igreja-salão, a Igreja Matriz de Safara tem inovação de Nossa Senhora da Assunção e utiliza na sua decoração a substância primordial do Manuelino tardio Português. Austera no assumir dos valores patentes na tratadística Serliana, na qual o espaço para a humildade se compõe a partir dos valores tradicionais da arquitectura envolvente, a igreja assume o contraste entre a sua eminente monumentalidade e a pequenez antiga da povoação onde se insere.
 
Com três naves com cinco tramos que estendem o espaço de oração reservado aos fiéis, conjuga a simplicidade da sua planta com a qualidade extrema da decoração. De facto, associada à azulejaria, as paredes laterais cobrem-se de frescos polícromos pintados directamente na argamassa, em composições estranhas que lembram aos fiéis as chamas eternas do inferno final…
 
 
 
 
Submissa aos cânones de Roma, facto evidente na formulação canónica do seu espaço principal, a Igreja de Safara desenvolve abordagem de cunho onírico em várias das suas componentes. Na fachada principal, por exemplo, cruzam-se as notícias do pecado original, associado à presença da cobra que enche o imaginário colectivo da região, com o carácter arredio da simbólica da cruz quase taoista que dá forma ao corpo principal. Tendo sido constituída como Priorado da Ordem de Avis, logo no início da segunda metade do Século XII, mais se estranha esta imagética que delega no povo a responsabilidade ancestral pelo pecado e pelo apelo à sua expiação.
 
Será provavelmente essa a explicação para a incomensurável amálgama de contradições que o templo ostenta, relevando para um segundo plano a temporalidade associada a cada concretização. Tendo sido edificada sobre uma provável ermida antiquíssima que por ali já havia existido, é natural que o edifício incorpore valores estéticos e decorativos que resumem essa sobreposição, relevando assim os traços associados a uma continuidade vivencial da Fé, ao invés da sempre desagradável crispação que resulta da quebra na estrutura local de crenças e costumes. E será também essa a razão, porque a presença árabe na zona de Safara é muito evidente, que explicará alguns traços de uma anterior mesquita que terá partilhado o cunho sagrado deste importante lugar.
 
Certo é, pela observação directa daquilo que hoje vemos em Safara, que a Igreja Matriz dedicada a Nossa Senhora da Assunção parece não caber naquela localidade. Não só pela dimensão excessiva do seu corpo principal, cuja notoriedade se espraia por todo este trecho do Alentejo Interior, como pela formulação da sua composição decorativa. Assumindo a teatralidade da sua fachada recuada, como se se tratasse de um novo começo (ou de um recomeço) ao nível da nossa capacidade de interpretar a realidade que ali somente transparece, é Nossa Senhora da Assunção que, da dormição sagrada que lhe aconchegou os sentidos depois dos anos difíceis da sua travessia terrestre, se prepara para se elevar aos céus…
 
 
 
 
Da mesma forma que a morte se apresenta como o castigo latente para o pecado de todos os dias, a concepção imaculada de Nossa Senhora livram-na do flagelo da morte física, num plano de transmutação da matéria que se afigura profundamente alquímico. A Mãe de Jesus, venerada no actual território Português desde muitos milénios antes do seu próprio nascimento (?) concebeu de forma miraculosa, transformando espírito em carne e permitindo (e aceitando) que essa mesma carne se transmutasse também ela em espírito. Por isso, nada mais natural do que a elevada concepção da subida aos céus em corpo e Alma, num exercício de fruição da sacralidade extrema associada à própria existência de Nossa Senhora.
 
A Senhora da Conceição, padroeira e Rainha de Portugal, que foi concebida e concebeu sem a mácula do pecado original, contorna as leis da física e da vida para assumir a sua divindade através da capacidade de controlar de forma consciente o acto da criação com o qual a humanidade cresceu. Mas, ao contrário do que é mote na devoção popular, nunca Nossa Senhora se multiplicou nas devoções imensas que o seu povo lhe ofereceu. Pelo contrário. A evolução natural do seu estado superior, numa entrega que alcança a sublimidade maior por ser ela própria maior do que a vida e do que o próprio universo no seio do qual foi erigida, concretização pela transmutação dos seus estados de consciência, num exercício no qual Ela é sujeito passivo e totalmente entregue nas mãos e à vontade de Deus.
 
Nossa Senhora da Assunção de Safara é assim enorme. Basicamente porque só assim se pode entender a dimensão incomensurável do milagre sagrado da sua Assunção dos céus, numa prática ancestral que ficou como herética até praticamente à segunda metade do Século XX... 
 
É este o mistério maior de Portugal. E em Safara, no coração do Alentejo, ele vê-se, vive-se e sente-se. 

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publicado às 15:04

Os Paços do Concelho de Benavente

por cascalenses, em 03.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando a Ordem Militar de Calatrava, em 1199, instalou nos limites da cerca do seu Castelo de Coruche um novo povoado, criando assim condições para albergar condignamente os povoadores estrangeiros que eram essenciais à consolidação da Independência Nacional, estava longe de imaginar que a futura vila viesse a assumir um papel preponderante na afirmação arreigada da cultura ribatejana.
 
Situada nas margens do Rio Sorraia, afluente do Tejo que funcionou até época recente como uma das principais vias de comunicação de ligação a Lisboa, a Vila de Benavente fez assentar o seu devir quotidiano na sua localização estratégica e na imensa fertilidade das suas terras. Com uma economia assente na produção agrícola, canalizando para a capital a generalidade dos bens alimentares que produz, o concelho flui historicamente a partir dos ciclos da natureza e dos ritmos impostos pela exploração da terra.
 
Os touros, desde sempre presentes no ideário comunitário do lugar, são acrescento com um cunho de sacralidade ancestral, à produção hortícola, com ensejo especial para o tomate e melão, e sobretudo à produção de cereais que durante muitos séculos representaram a grande riqueza municipal. A Identidade Local, essencialmente vincada no milenar orgulho de ser ribatejano, espraia-se na forma como se organiza o povoado, determinando a construção dos principais edifícios e a colocação de monumentos e equipamentos públicos.
 
 
 
 
Foi o que aconteceu, depois da demolição do velho edifício onde se situavam os Paços do Concelho, com a construção do edifício da Câmara Municipal. Espacialmente projectado para recriar um largo fronteiro suficientemente amplo para que nele se pudessem continuar a correr os touros, o actual edifício, onde se instalaram também o tribunal, a cadeia e outras repartições públicas, define-se pela enorme impacto que tem na povoação, assumindo a sua arquitectura de cenário para reforçar a sensação de poder e ordem que dele emana.
 
Num primeira fase, logo após a sua construção, em 1875, o velho Pelourinho de Benavente, construído por ocasião da entrega à Vila da Carta de Foral manuelina, foi recolocado em posição descentrada relativamente ao edifício municipal, mantendo assim limpa a linha de horizonte que permitia usufruir do traço neoclássico da sua fachada e assegurando a existência de espaço suficiente para que ali se continuassem a realizar os espectáculos taurinos. Depois, quando perdeu o seu uso como espaço de administração de justiça, acabou por verem-lhe retiradas as ferrarias que sustentavam o suporte onde se colocavam as balanças oficiais para garantir a justiça nas actividades comerciais que evoluíam nas imediações.
 
 
 
 
Em 1909, quando aconteceu o grane sismo que praticamente destruiu por completo o casario da velha vila, o edifício municipal sofreu danos avultados cuja recuperação determinou a realização de obras de reconstrução que alteraram algumas das suas características originais. No exterior, foi nessa altura construída a torre metálica que ostenta o relógio e que, pela sua singeleza, é hoje um dos símbolos mais conhecidos de Benavente.
 
 
 
 
Marca primeira na definição espacial da vila, o edifício dos Paços do Concelho orienta desta forma a própria estrutura de Benavente. Na medida em que se ia processando a reconstrução da localidade depois do enorme cataclismo que representou o terramoto, as gentes locais, que foram sendo alojada provisoriamente em barracas montadas no actual terreiro da Igreja Matriz, era para ele que convergiam as atenções daqueles que procuravam fazer valer os seus direitos e dos que defendiam as suas propriedades. Símbolo maior da justiça, é nele que se determinam as novas dinâmicas sociais que hão-de dar corpo à Benavente da actualidade.
 
As alterações impostas por este acontecimento, num ano funesto em termos daquilo que foram as mudanças políticas que caracterizaram a vida em Portugal entre 1910 e meados dos aos 30, trazem a Benavente uma nova forma de ser e de estar que lhe garantirá a diferença e a capacidade de adaptação às adversidades que há-de ser essencial na modernização da vila e do seu concelho.
 
Visitar Benavente na actualidade, mais do que um exercício exploratório da beleza singela da vila ou sua modesta monumentalidade, é sobretudo um desafio ao nível da capacidade de entendimento das suas gentes, numa mescla em que a tradição se mistura com a modernidade, definindo uma forma completamente diferente de estar e de viver. O edifício dos Paços do Concelho, tal como o Cruzeiro do Calvário, são testemunhas inultrapassáveis desse estado!
 
 

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publicado às 15:46

O Cruzeiro do Calvário em Benavente

por cascalenses, em 03.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 

 

Localizado no antigo Rossio do Moinho de Vento, nas margens do Rio Sorraia e junto ao centro histórico de Benavente, o Cruzeiro do Calvário é uma das mais significantes obras da monumentalidade sagrada do Ribatejo. Construído em 1644 pela Irmandade dos Passos, num movimento assumido de caridade comunitária, representa os equilíbrios sócio-económicos que se geraram na localidade, mercê da influência que a Igreja Católica teve na definição dos arquétipos de pensamento ancestrais dos que ali habitavam. Em seu torno, depois de concretiza a ritualística que fomentava o espírito comunitário e agregava os benaventinos numa praxis comum, desenvolviam-se então as acções de apoio aos mais necessitados. Mas, ao contrário do que acontece com o mecenato comum nessa épocas nas grandes metrópoles urbanas, aqui o acto de partilha converge para um ritual de partilha que o cruzeiro atestava. A condição de vida, numa sujeição a Cristo que o Senhor dos Passos personificava, desenvolvia-se assim de forma natural como sendo parte integrante da própria existência. A diferenciação social, tão importante ainda hoje na definição social do Ribatejo, ressurge desta forma no seio da comunidade mas, ao contrário do que acontece noutros lugares, assumindo aqui uma cumplicidade cuja origem divina ninguém ousa questionar… Perdido actualmente nos limites da vila, numa entrega ao destino a que não é alheia uma paulatina anomia que vai grassando entre as novas gerações, o Cruzeiro do Calvário mantém incólume a sua importância, definindo-se como monumento maior para quem quiser conhece e perceber a História de Benavente. 

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publicado às 15:40

A Cabra, o Cabrão e o Balão na Tradição Académica de Coimbra

por cascalenses, em 19.01.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem tradições que ainda são o que eram. Em Coimbra, o ritual diário das aulas na sua avoenga universidade é marcado desde há muito pelo som produzido pelo balir da cabra e do cabrão, numa vivência profundamente marcada na identidade da cidade e impregnada do sabor firme da Portugalidade.
 
A torre da Universidade de Coimbra, construída entre 1728 e 1733, com projecto de António Canevari, vem substituir as instalações mais antigas e mais baixas que tinham sido projectadas por João de Ruão. A sua função de orientadora da cidade universitária, integra-se na fachada do pórtico principal, ostentando de forma gloriosa um dos símbolos-máximos da Cidade de Coimbra e de Portugal.
 
 
 
A lenda da Cabra, necessariamente anterior à construção do sino actual, está intimamente ligada à criação das principais rotinas no seio da universidade coimbrã e o seu toque, desde logo associada ao cumprimento de obrigações por parte dos milhares de alunos que por ali passaram ao longo dos séculos, assume-se como verdugo que impõe disciplina quando assim deve ser. É, por isso, um misto de raiva académica aquele que acompanha o som compassado do velho sino, no qual se mistura a nostalgia que a vida de estudante sempre acarreta.
 
As praxes e os rituais, hoje tão polémicos pelas implicações que traduzem, mas geralmente mito menos exigentes e cruéis do que aqueles que deram forma à academia coimbrã noutros tempos, são organizados ao toque da cabra que, do alto da torre setecentista, se espraia pelos cantos e recantos da cidade.
 
Ao nascer do dia, quando toca pela primeira vez o sino instalado com a face virada para a baixa da cidade e para o rio, a cabra toca acompanhada de um outro sino mais recente. De som mais grave e num compasso diferente, o cabrão anuncia os tempos novos que o novo dia que vai começar vai trazer. Datado de 1824, o cabrão acompanha ainda o sino virado a nascente, denominado balão e datado de 1561.
 
 
 
 
O designativo de “cabra”, atribuído pela turba estudantil mercê das implicações restritivas que o toque do sino tem na sua vida quotidiana, acompanha de forma inexoravelmente a mística da universidade e os próprios desígnios da Cidade de Coimbra. Provando que a tradição é por vezes muito mais importante do que a própria realidade, e que dela depende a identidade mais profunda e os próprios arquétipos de pensamento de uma determinada comunidade, o toque da cabra confere à comunidade que por ali passou um laço firme de coesão que o passar dos anos não consegue esbater.
 
Subir os quase trinta e quatro metros de altura da torre da Universidade de Coimbra, vindo de perto o conjunto sineiro da Cabra, do Balão e do Cabrão, é uma experiência única que altera a percepção que temos da universidade, apresentando aos olhos do visitante o esplendor soberbo de uma paisagem marcada de forma profunda e inabalável pela saudades.
 
 
Coimbra e o Choupal, prenhes de histórias que compõe a própria História de Portugal, é hoje ponto de visita obrigatório para quantos queiram conhecer e perceber este país tão especial. 

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publicado às 16:44

Santa Quitéria de Meca em Alenquer

por cascalenses, em 17.01.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A devoção a Santa Quitéria, perdida entre a lenda da mártir virgem que deu a vida para não entregar o corpo ao homem a quem o seu pai a tinha prometido em casamento contra a sua vontade e a ligação provavelmente pré-histórica aos cultos ligados à fertilidade e às tradições de origem agrícolas, encontra largo espectro no território português.
 
Em primeiro lugar porque, conforme reza a sua história, a virgem Quitéria, última das noves filhas a nascer de um único parto de Cálcia Lúcio e Lúcio Caio Otílio, o Governador Romano da Lusitânia de então, nasceu em Braga no ano 120. Depois porque, apesar de o seu martírio ter acontecido no actual território francês, ele vem cristianizar os antigos rituais ligados à protecção dos gados em ambiente rural, tendo sido adoptado na devoção popular com a santa cuja identidade aparece ligada ao combate à raiva.
 
 
 
 
Mas o mais estranho é que, a pouca distância de Lisboa, numa aldeia perdida no Concelho de Alenquer, a devoção principal se desenvolve numa desmesuradamente grande basílica situada na pequeníssima aldeia de Meca…
 
Quase parece, para quem ali chega pela primeira vez respondendo ao chamamento de visitar uma aldeia com o nome de uma das mais sagradas cidades muçulmanas, que a dita igreja é uma visão provocada por alucinações! Pela sua dimensão, pela qualidade da sua arquitectura, e pela localização privilegiada no centro do pequeno povoado rural, o templo parece ter sido transplantado para ali, depois de ser retirado de alguma sumptuosa cidade europeia.
 
Mas não foi. A Igreja de Santa Quitéria de Meca, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1949, foi construída no Século XVIII, com desenho do ilustre arquitecto Mateus Vicente e o alto patrocínio da Rainha Dona Maria I.
 
 
 
 
O local, escolhido por existir uma lenda que diz que ali apareceu uma imagem de Santa Quitéria nos idos de 1238 da era Cristã, é o mesmo onde terá existido uma pequena ermida dedicada à mesma santa e que terá sido construída em plena Idade Média para marcar o local do milagroso aparecimento. Em frente à igreja, no adro actualmente atravessado pela estrada nacional, existe ainda o cruzeiro em forma de redondel em torno do qual se realiza anualmente o ritual da bênção do gado. Como desde há milhares de anos, os agricultores das redondezas trazem para ali o seu gado, fazendo-o circular em torno do dito cruzeiro, onde são abençoados em nome de Santa Quitéria para evitar que contraiam a raiva.
 
Em termos arquitectónicos, a magnificência do traço de Mateus Vicente, o mesmo que sublinha as características da Basílica da Estrela, em Lisboa, da Igreja da Memória  e do Palácio de Mafra, terá respondido à devoção da rainha, que viabilizou a sua edificação, recuperando valores estéticos próximos do barroco tardio, definindo um quadro artístico que denota alguma continuidade relativamente ao que então se fazia em Portugal.  A Igreja de Santa Quitéria, com a sua fachada principal virada a Sul, ostenta uma placa gravada onde se refere que a construção foi terminada em 1799 e que o templo se tornou Igreja Matriz em 1847. É também aí que surge a menção ao lendário aparecimento da imagem da Santa no ano de 1238.
 
 
 
 
Mais interessante, mas de muito mais difícil explicação, é a designação toponímica da localidade onde a igreja foi erguida. Seguindo as orientações de alguns especialistas em fonética que se dedicaram ao estudo do nome de Alenquer, que terá derivado de uma palavra árabe, a ligação à cidade sagrada do Islão resultará da sacralidade da própria envolvência. Apesar de existirem poucos vestígios arqueológicos desse período no território em questão, a proximidade ao cone vulcânico de Alenquer, parte integrante do património geológico da Serra de Montejunto, terá determinado o desenvolvimento ancestral de sistemas complexos de ritualidade religiosa que perpetuaram no tempo as crenças mais antigas que dão forma aos arquétipos da humanidade.
 
O certo é que a aldeia de Meca, em Alenquer, carrega consigo a marca perene das festividades da Primavera que durante o período calcolítico foram peça angular na regulação das sociedades humanas que vieram a desenvolver-se no actual território de Portugal. Cultuada em Maio, em festivais de base religiosa marcados, até épocas muito recentes, pela presença das flores e do viço próprio que marca o final do Inverno, Santa Quitéria de Meca insere-se assim num conjunto de práticas religiosas que corporizam o principal alicerce cultural da Portugalidade.
 
 
 
 
Distando pouco mais de 50 quilómetros de Lisboa, num trajecto marcado pela passagem obrigatória pelo designado “presépio natural” de Portugal, ou seja, a Vila de Alenquer, impõe-se uma visita a Santa Quitéria de Meca. Pela sua beleza, pelo impacto que produz a quem se depara com a sua ostensiva e inesperada monumentalidade mas, sobretudo, pela estranheza e enorme interesse da sua história.

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publicado às 15:44

Santa Maria de Pitões das Júnias no Coração da Portugalidade

por cascalenses, em 09.01.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A monumentalidade do património Português, mercê da grandiosidade dos estilos arquitectónicos e da riqueza do património artístico, assenta sobretudo na ânsia permanente que o Homem sente na sua busca pela eternidade. As grandes obras, definidas pelo carácter que resulta do impacto que se imagina que terão sobre as gerações vindouras, é quase sempre uma espécie de manobra desleal para enganar o tempo, eternizando na pedra, nas cores e nos sons as memórias daqueles que a nós se seguirão na implacável caminhada pelo Mundo que todos fazemos. Procura-se ficar marcado, na ilusão de que as obras monumentais são a melhor forma de fugir ao inexorável esquecimento imposto pela passagem do tempo.
 
Mas existem outros monumentos, provavelmente imaginados e construídos por gente especial, que fogem a este estereótipo. E, por vezes, nem por isso são menos eficazes na geração do carácter extraordinário do impacto que provocam naqueles que os vão visitar.
 
 
 
 
É precisamente isto o que acontece com o Monteiro de Santa Maria de Pitões das Júnias, situado no Concelho de Montalegre na Serra do Gerês. A magnificência da paisagem envolvente, aliada ao carácter minimalista do monumento, define um cenário de profundo significado simbólico que, por sua vez, gera um impacto desmesurado sobre os seus visitantes.
 
Construído originalmente no Século VIII, ainda antes da formação da nacionalidade, o Mosteiro de Santa Maria de Pitões das Júnias seguia originalmente os parâmetros de simplicidade da Ordem Beneditina. Os afloramentos graníticos onde se insere, conjugados com a força telúrica das águas que o envolvem e do verde imposto pela vegetação ali existente, conjugam-se num quadro de grande isolamento, promovendo a interioridade e a ligação directa à vontade de Deus.
 
Em Pitões das Júnias, nos primeiros tempos após a sua construção, os frades que ali residiam dedicam-se exclusivamente à pastorícia, dela dependendo para a sua mais basilar sobrevivência. Perdidos nas penedias enormes que se erguem por aqueles ermos, os religiosos entregam literalmente o corpo e a Alma à vontade do Pai, numa ânsia de ascensão em cuja brutalidade dos elementos e da natureza encontravam pistas que lhes permitiam desvendar os segredos do Universo. Era pois das virtudes interiores, ressurgidas através dos exercícios espirituais que a envolvência do mosteiro naturalmente promovia, que se consagrava aquele espaço, do qual estavam apartados todos os apelos mais basilares dos instintos e, inclusivamente, a humanizada vontade perene de perpetuação no tempo, cujo mote servia de motor à religiosidade de outros lugares.
 
São os valores essenciais do trabalho, da humildade e da oração, pilares estruturais da prática de São Bento, quem melhor define o carácter pétreo deste extraordinário mosteiro. Mesmo depois de ter passado a seguir a regra de Císter, seguindo a mesma lógica de combate ao abandalhamento espiritual que Cluny estava a impor na Europa do seu tempo, é na singeleza do assumir a pobreza e no desapego relativo à materialidade, que os monges de Pitões das Júnias constroem o seu legado, bem patente nas obras de remodelação da sua igreja e no carácter místico do seu adro. Ainda hoje, quase mil anos depois desses tempos que nunca chegaram a passar, se sente por ali o sopro fecundo do vento da montanha, recriando um som de fundo que quase obriga ao recolhimento imediato. Sendo o mesmo que ouviram os monges que ao longo de muitos séculos por ali deambularam, limpando-se das negras memórias pessoais que cada um transportava e apelando em conjunto à misericórdia imensa de Deus Pai, é crível que a eternidade se tenha imposto a este lugar. Nas lajes que formam o seu chão antigo, ouvem-se ainda os passos de todos os que por ali circularam. E nas paredes pétreas das ruínas de sobreviveram à história longa pela qual passaram, ecoam os cânticos e o sopro sibilino das orações que ali foram rezadas…
 
 
 
 
A invocação a Santa Maria, neste caso específico à Senhora da Conceição, padroeira e Rainha de Portugal, conflui da mesma maneira para um apelo quase herético à ritualidade mais ancestral. De facto, se nos ativermos ao carácter profundo e simbólico desta construção, depressa percebemos que o segredo mais perene daquelas paredes enegrecidas pelo tempo, assenta num esforço de abdicação das causas comuns do Homem para tornar possível a consagração dos rituais de limpeza que abrem a Alma e permitem ascender à sabedoria divina. O caminho, mais do que o destino final, são aqui assumidos como pedra angular, sendo que a evocação à Senhora da Conceição, rosa crucificada pela entrega do seu próprio Filho aos desígnios do seu Pai, alimenta uma dinâmica de Fé cuja sabedoria intrínseca aponta para a dualidade essencial da existência da própria Alma humana. Com carácter profundamente individual, este caminho é feito na rota da transitoriedade, tal como a vida e a morte, num jogo do qual nenhum de nós se pode alhear, dita destinos para cada um individualmente, que são transformados pela duração sempre curta da caminhada que todos por cá teremos de concretizar.
 
Simples na sua formulação espacial, até pelo carácter firme de São Bento e de Císter, é o isolamento que mais marca a monumentalidade do espaço. Construído em estaleiros que aproveitaram os materiais existentes no local, aprofunda o ascetismo primário dos que o imaginaram e criaram, sublinhando o valor da entrega e a pobreza que transversalmente caracterizou todos aqueles que por ali habitaram.
 
Abandonado no Século XIX, quando foram extintas das ordens religiosas, o antigo mosteiro passou a ser utilizado pela população local como Igreja Paroquial, perdendo progressivamente o carácter simbólico que o transformava num sítio muito especial. A agrura do clima, complementado com o carácter inócuo do comportamento da ribeiro que o atravessa, foram paulatinamente degradando o espaço que é hoje uma mera ruína que palidamente consegue traduzir a grandiosidade do que ali se passava.
 
 
 
 
O Mosteiro de Santa Maria de Pitões das Júnias, ao qual se chega depois de uma caminhada de poucos mais de dois quilómetros desde a povoação que lhe dá o nome, é uma das mais extraordinárias pérolas do Património Nacional,  sendo um dos mais inesquecíveis e impactantes recantos encantados de Portugal.
 
Pena é (ou se calhar não) que se mantenha tão longe das rotas normais dos muitos que visitam o Parque Nacional da Peneda-Gerês e, sobretudo, da memória colectiva que corporiza da Identidade de Portugal. 

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publicado às 16:03

Nossa Senhora da Boa Viagem na Ericeira

por cascalenses, em 04.01.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O deslumbrante recanto onde se situa a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, na Ericeira, envolvendo com a perspectiva de um olhar a pitoresca Praia dos Pescadores e impondo-se sobranceiramente à singeleza do casario branco pontilhado de riscas azuis, é por si só um dos mais emblemáticos espaços daquela vila piscatória. Dividindo o Norte e o Sul, quase como se do verdadeiro axis mundi se tratasse, servia igualmente de elemento de orientação à navegação, salvaguardando a boa viagem dos pescadores locais.
 
 
 
 
A devoção a Nossa Senhora da Boa Viagem, comum nas comunidades de homens do mar que se foram instalando em todo o território de Portugal, ganha na Ericeira foros de grande dignidade, facto que se consubstancia na antiguidade da confraria existente no local e no elevado número de devotos que anualmente a procuram para protecção nas suas viagens.
 
Existente de forma comprovada desde o Século XVII, quando ali se realizaram obras de recuperação que ficaram gravadas junto à porta situada na fachada principal, é provável que a capela fosse mais antiga e que tenha ali existido pelo menos desde o Século XV. Ao longo da sua história, foi alvo de diversas obras e intervenções que a dotaram do aspecto actual.
 
Simples na sua configuração interna e utilizando o estilo chão próprio das comunidades piscatórias mais pobres que habitaram a região de Lisboa, a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem possui ainda um segundo orago dedicado a Santo António. A devoção ao santo taumaturgo, centrada numa confraria que lhe era dedicada e na qual tinham lugar todas as raparigas solteiras das redondezas, é responsável pela designação popular que ainda hoje subsiste e que a atribui ao santo lisboeta.
 
 
 
 
Em Outubro de 1910, depois de uma última noite passada no Palácio de Mafra, o Rei Dom Manuel II e a Família Real, embarcaram para o exílio na praia situada junto a esta capela. O último vislumbre que tiveram da Pátria, num acto de entrega ao destino que foi adverso às mais antigas tradições de Portugal, foi precisamente o da Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, numa reviravolta insalubre da sua estratégia de inverter o ciclo negativo que afectava o desígnio Nacional.
 
Nossa Senhora da Boa Viagem, iconicamente ligada à faina do mar, carrega consigo a atitude de dependência profunda perante as forças da natureza que os pescadores da Ericeira sempre mostraram. Nela converge o plaino da Fé dos homens do mar e para ali são dirigidas as preces assustadas das mulheres que ficam a guardar as suas casas.
 
 
 
 

 

Certamente por desígnio do destino, é também nesta capela que se venera Santo António, também ele ligado de forma marcante aos peixes e à força das águas, num discurso em que a posição de fulcro, para onde convergem os opostos e os contrastes, se dissolve numa amálgama sentida dos laivos da vida e da morte que ditam a condição humana. 
 
É, pois, de humanidade que nos fala esta singela capela. No seu espaço de luz, sobranceira à extraordinária vontade de Deus e dos homens, dela emanam as indicações que permitem o regresso a casa. Seja ela a casa de família do devir quotidiano, ou seja ela a casa do Pai. 

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publicado às 17:44

O Forte de São Pedro da Poça no Estoril

por cascalenses, em 15.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Tal como acontece com os restantes fortes e fortificações construídos na linha defensiva da Costa do Estoril, o Forte de São Pedro da Poça, situado a Poente do Vale da Poça, junto ao edifício dos antigos banhos, apresenta uma localização privilegiada num ponto no qual a importância estratégica no cruzamento de fogo com os seus congéneres se alia a uma paisagem profundamente impactante e deslumbrante.
 
E, infelizmente, tal como acontece com os restantes, encontra-se num estado de ruína inaceitável, com a sua importância patrimonial posta em causa pela incúria das entidades ditas competentes.
 
 
 
 
Construído depois da Restauração da Independência Nacional em 1640, numa estratégia de refortificação da entrada marítima de Lisboa, o Forte de São Pedro foi projectado pelo Arquitecto Mateus do Couto, utilizando como planta o desenho geral utilizado noutras fortificações de características semelhantes. As obras, que decorreram entre o dia 5 de Abril de 1642 e o início de 1643, compuseram o espaço a partir do estabelecimento de uma cortina de artilharia que atravessava a praia e estabelecia a protecção cruzada necessária perante qualquer desembarque tentado pelas forças Espanholas em terras de Portugal.
 
O pátio central, que distribuía o espaço interno de forma muito simples, cumpria a dupla função de facilitar o acesso às diversas frentes do forte, ao mesmo tempo que assumia a sua componente residencial, oferecendo um espaço ao ar livre para usufruto de quem ali morava.
 
 
 
 
Depois de vários períodos de semi-abandono, que exigiam novas obras de remodelação, o forte atingiu uma situação de pré-ruína em meados do Século XIX. Mas, durante a Guerra Civil, readquiriu uma parte da sua importância estratégica e, nesse âmbito, foi novamente remodelado de forma a adaptar-se às modernas técnicas militares desse tempo. É desse período, numa obra que muitos consideram nunca ter sido acabada, o paiol que se localizava no piso subterrâneo e a linha de fuzilaria que ligava o forte ao seu congénere da Cadaveira, do outro lado da praia.
 
Depois de vicissitudes diversas, que passam pela sua entrega à Santa Casa da Misericórdia e o seu posterior arrendamento à sociedade que explorava os Banhos da Poça, foi o forte transformado em casa de chá, já em 1954, por iniciativa da Junta de Turismo de Cascais e, mais tarde, na primeira discoteca Portuguesa.
 
 
 
 
Congregando em torno da sua imagem, um dos recantos oníricos dos Estoris, que para ali convergiram de forma massiva durante os agitados anos 60 do Século XX, o Forte de São Pedro foi paulatinamente perdendo as suas características militares de que agora só restam as suas duas guaritas. Na fachada virada a nascente, completamente desvirtuada pela intervenção de adaptação às funções turísticas atrás mencionadas, a bateria que cobria a praia foi substituída por uma inestética parede de vidro que se encontra actualmente emparedada e totalmente destruída por actos de vandalismo. Aberto o interior, está também ele em avançado estado de degradação, sendo virtualmente impossível perceber se existe alguma possibilidade de ser recuperado na sua formulação espacial original.
 
O Forte de São Pedro da Poça, no Estoril, situa-se no coração da mais antiga e pujante região de turismo de Portugal. A evidência da sua localização, perto a praia, do paredão e da entrada nobre do Estoril, faz convergir na sua direcção o olhar de todos aqueles que por ali passeiam e, mais grave ainda, o dos milhares de turistas que procuram na Região do Estoril o charme de outros tempos.
 

 

Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1977, o seu abandono e estado de ruína eminente é, em termos da memória de Cascais e da Identidade Municipal dos Cascalenses, um autêntico crime que lesa os interesses deste concelho. Inadmissível nos tempos em que vivemos!
 
 
 

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publicado às 15:16

A Lenda da Boca do Inferno

por cascalenses, em 07.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A dicotomia entre o mal e o bem, num jogo em que as memórias efectivas se misturam amiúde com as entoações próprias dos sonhos, assume especial importância na Boca do Inferno, em Cascais, um recanto encantado no qual se conjuga uma paisagem extraordinária com uma inesquecível história.
 
Diz a lenda que naquelas paragens, num castelo cujas memórias pétreas nunca chegaram a olhos humanos, vivia um gigante maligno que padecia do maior dos males que afectam a humanidade: o amor. Profundamente apaixonado por uma donzela maravilhosa que não o correspondia, resolveu tomar medidas drásticas e consumar o seu amor de forma subliminar. Montado no seu cavalo, atacou o palácio onde a donzela vivia com o seu pai e raptou-a levando-a para o seu castelo de Cascais.
 
 
 
 
A donzela, apaixonada por seu turno por um ilustre cavaleiro que há muito a cortejava, não cedeu às intenções do gigante. E este, para apaziguar o seu ímpeto, fechou-a no alto da maior torre do seu castelo, prendendo-a até que ela se convencesse da necessidade de claudicar ao amor que ele lhe queria dar.
 
Mas o noivo apaixonado, tomado da força que só o amor consegue despoletar, insinuou-se no castelo e conseguiu libertou a sua amada, fugindo dali numa cavalgada desenfreada no seu magnífico cavalo branco que quase parecia voar.
 
 
 
O gigante, quando deu conta da fuga da donzela ficou furioso. Com artes mágicas que só ele conhecia e os ímpetos malignos que a fúria imensa havia despertado, lançou uma praga sobre os fugitivos e sobre eles fez crescer uma enorme tempestade.
 
Apanhados pela intempérie nuns rochedos junto ao mar, o casal de apaixonados tudo fez para conseguir fugir da influência do seu maléfico perseguidor. Mas, provocando um sismo que partiu as arribas e fendeu o chão, o gigante fez abrir sob os seus pés um enorme buraco onde ambos caíram com o seu cavalo e onde desapareceram para sempre sem eixar rasto.
 
Estava aberta a porta para o inferno e esta jamais se voltaria a fechar…

 

 
 

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publicado às 11:36

O Palácio do Infantado em Samora Correia

por cascalenses, em 28.11.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O Ribatejo, com a sua lezíria verdejante e as águas pressentidas do Tejo sempre no horizonte, exerce um ancestral atractivo sobre as comunidades humanas. Desde tempos imemoriais, provavelmente desde que existe um homem sobre a Terra, que a actual província do Ribatejo é habitada, nela tendo ficado os vestígios e as marcas de muitos milhares de anos e de gerações sobre gerações que nela se deleitaram ao longo do tempo.
 
É, pois, essa mesmo a explicação para o nascimento de Samora Correia. Elevada à categoria de cidade em 2009, e mantendo-se como cabeça de uma das principais freguesias do Concelho de Benavente, Samora Correia acompanha o processo de reestruturação e açoreamento do Rio Tejo, em cuja margem esquerda está implantada, alcançando assim as condições que permitem u assentamento humano mais permanente. A partir do Século XII, quando Dom Sancho I entregou o seu território nos domínios da Ordem Militar de Santiago da Espada, Samora Correia conheceu as suas primeiras grandes construções, nomeadamente o Baluarte de São João Baptista e a primeira versão daquela que é hoje a sua Igreja Matriz.
 
 
 
 
As terras de Samora eram, naqueles idos antigos em que Lisboa era ainda uma miragem longínqua afastada pelas águas do rio, basicamente reserva de caça dos grandes senhores de Portugal, que durante bastante tempo foram a razão de ser da importância daquela terra.
 
A criação da Casa do Infantado, no tempo de Dom João IV, com o objectivo de garantir rendimento para os filhos segundos do monarca, marca o principal ponto de viragem na História de Samora Correia. A partir dessa altura, o seu território passa a receber a visita constante das principais figuras da vida Nacional, tornando-se espaço incontornável na definição da Identidade de Portugal.
 
O Palácio do Infantado, também conhecido como Palácio de Dom Miguel ou Palácio da Companhia das Lezírias, é o principal monumento de Samora Correia, representando de forma óbvia o devir quotidiano da terra e das suas gentes.
 
 
 
 
Construído na segundo metade do Século XVI por iniciativa de Dom Francisco de Bragança (1691-1742), filho do Rei Dom Pedro II, o palácio era sobretudo um porto de abrigo para os dias de caçada real de que tanto gostava o infante. Embora apresentasse uma formulação espacial diferente daquela que ostenta hoje, com um único piso que se prolongava em frente da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, o palácio era já o pólo central do processo determinante de exploração do actual território ribatejano, consolidando uma estratégia de ocupação e de exploração do solo que culminará, alguns anos depois, com a criação das lezírias tal como hoje conhecemos.
 
Tendo sobrevivido ao terrível terramoto de 1755, que praticamente devastou a região de Lisboa, o palácio surge nas memórias Paroquiais como tendo sido a morada principal do Infante D. Francisco.
A ligação ao partido conservador e absolutista de Dom Miguel, também ele um apreciador do cenário de caça propiciado por Samora Correia, surge já em pleno Século XIX, quando as forças do Remexido chegam ao local onde são presas pelos defensores do novo regime constitucional.
 
 
 
 
Em termos de cataclismos, o Palácio do Infantado sobreviveu ainda ao terramoto de 1909, que arrasou quase por completo as habitações muito precárias do povo de Samora Correia, tendo sido posteriormente destruído por um enorme incêndio que nele lavrou no ano de 1976. Depois dessa data e de uma série de campanhas de obras que se prolongaram até 1998, foi totalmente reconstruído tendo angariado a forma que hoje se lhe conhece.
 
Pólo central da vida cultural da Cidade de Samora Correia, o Palácio do Infantado, com a sua localização privilegiada no largo fronteiro à Igreja Matriz e em pleno coração do núcleo histórico consolidado da povoação, é hoje espaço incontornável numa visita do Ribatejo, ali sendo possível perceber com mais rigor a forma como se consolidou toda aquela tradicional região.  

 

 

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publicado às 13:32

O Castelo de Arraiolos no Alentejo

por cascalenses, em 15.11.16

 

 
por João Aníbal Henriques
 
Quando se chegada à Vila de Arraiolos, num qualquer final de tarde estival, é impossível ficar imune à beleza do recorte extraordinário do horizonte que envolve a sua paisagem. Por detrás do casario, que parece ouvir-se chiar mercê do calor imenso que a inclemência do Sol teima em provocar, vislumbram-se as sombras inquietas do velho castelo medieval, erguido numa época longínqua quando Portugal ainda não sabia o quanto iria durar.
 
O Castelo de Arraiolos, prenhe de História e de histórias, ocupa o alto da colina de São Pedro que estrategicamente serve de miradouro à localidade. Ali, desde tempos imemoriais que se acoutaram homens procurando discernir e prevenir ao longe os ataques e investidas dos inimigos que a sua condição os havia feito ganhar. Foi dali, em assentamentos que a arqueologia já provou que se prolongam desde a Pré-História, que os primeiros homens se dedicaram a estudar a natureza, fermentando as ideias que hão-de gerar o sedentarismo que hoje vivemos.
 
 
 
 
As muralhas velhas que hoje ali vemos, e que testemunham os últimos anos desta história extraordinária, são originárias do Século XIII, quando o Rei Dom Afonso II efectua a doação da chamada ‘Herdade de Arraiolos’ ao Bispo de Évora. Nesse documento, provavelmente motivado pelo clima de crescente animosidade vivida com os vizinhos Castelhanos, surge pela primeira vez a menção à necessidade de ali ser construído um castelo.
 
Não se sabendo se esta ordem de construção foi cumprida, ou pelo menos em termos parciais, mas sabe-se, no entanto, que durante o reinado de Dom Dinis o monarca determina a construção de novas muralhas com o intuito de reforçar a segurança do lugar e, dessa maneira, de motivar a instalação de novos habitantes que o viessem povoar. Em 1306, o Rei concedeu à povoação uma verba de 2000 libras para o início dos trabalhos, tendo escolhido o Mestre João Simão para as planificar.
 
A confirmação do Foral de Arraiolos, no ano de 1310, veio encontrar o novo castelo já terminado, fazendo menção à existência da Igreja Matriz do Salvador, pitorescamente colocada no ponto mais alto do lugar.
 
 
 
 
No tempo de Dom João I, depois da grave crise de 1383-85, o novo Rei oferece Arraiolos ao seu braço-direito, D. Nun’Álvares Pereira, a quem é entregue o título de Conde de Arraiolos. O Condestável, firmemente decidido em contribuir para o sucesso do projectado Portugal, entrega-se ali aos desígnios do céu e será a partir da Igreja do Salvador, num acto profundamente vincado pela Fé que corporiza a sua intervenção militar, que prepara as muitas incursões que chefiará contra Castela que virão a traduzir-se de forma cabal nos mais importantes argumentos a apoiar a causa Nacional.
 
O Santo Condestável, mais tarde convertido por completo à regra do claustro, preparará em Arraiolos o seu percurso de iniciação religiosa, ali bebendo, provavelmente das fontes árabes que se foram conservando, os ensinamentos e a sabedoria que culminará na sua entrada no Convento do Carmo, em Lisboa, e na completa e total abdicação da materialidade.
 
No que concerne ao castelo, a principal nota da sua longa história prende-se com a reiterada queixa por parte dos moradores de diversas eras relativamente ao desconforto dos ventos que o fustigavam. Ainda no esplendor da Idade Média, quando as paredes estavam novas e ofereciam a segurança que a população desejava, foram muitas as queixas daqueles que alegavam ser difícil passar as noites no cimo do monte. Mesmo depois de se fecharem as portas, correndo o risco de desagradar aos moradores do espaço situado fora das muralhas que ficavam à mercê dos acontecimentos, a generalidade da população acordava em que era impossível ficar lá dentro.
 
 
 
 
Terá sido esse o motivo, aliás que terá determinado um progressivo abandono do espaço amuralhado em prol do assentamento nas imediações do castelo, formando aquilo que é a Vila de Arraiolos que hoje conhecemos. A população, transportando consigo as pedras das suas casas antigas, desce da colina em direcção à planície circundante, fazendo da nova povoação uma espécie de cópia directa do povoamento original.
 
Dentro das muralhas, no perímetro mais antigo, subsistem actualmente a Igreja de São Salvador e os restos do Paço dos Alcaides que o terramoto de 1755 acabou por arruinar definitivamente.
 
 
 
 
No início do Século XX, quando o Rei Dom Carlos visitou Arraiolos, eram já as ruínas muito destruídas do velho castelo que ele vai encontrar, não se conhecendo desde essas altura campanhas de obras dignas desse nome que tivessem o objectivo de o recuperar.
 
Arraiolos, com o seu castelo altaneiro, é hoje um dos quadros mais impressivos do Alentejo. A beleza do seu horizonte, mesclado com o colorido das casas, tem o condão de nos transportar para outras eras e para outro tempos, se sair do mesmo lugar.
 
Vale mesmo a pena passar um dia inteiro por lá!

 

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publicado às 13:51

Nossa Senhora da Conceição da Abóboda em Cascais

por cascalenses, em 03.10.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O dogma da Imaculada Conceição faz parte dos mais ancestrais arquétipos da Portugalidade. Praticamente desde a fundação da nacionalidade, provavelmente recuperando laivos de Fé que nos chegam desde o princípio dos tempos, que a Senhora da Conceição está directamente ligada aos mais importantes acontecimentos que regem a História de Portugal.
 
 
 
 
Em termos oficiais, foi no dia 8 de Dezembro de 1325, a pedido da Rainha Santa Isabel e por proposta do Bispo Dom Raimundo de Coimbra, que Nossa Senhora da Conceição foi decretada Padroeira de Portugal. Anos mais tarde, depois da Restauração da Independência Nacional, o Rei Dom João IV consagrou Portugal a Nossa Senhora da Conceição, sendo que desde essa altura, num reconhecimento perene à sua intervenção relativamente ao destino de Portugal, nenhum monarca Português voltou a usar a Coroa, colocada na imagem venerada em Vila Viçosa.
 
Também em 1385, na chegada ao trono da Dinastia de Avis, é Nossa Senhora da Conceição que corporiza a devoção principal de Portugal. Dom João I, Mestre de Avis, bem como o seu braço direito, o Condestável D. Nun’Álvares Pereira, dedicam a Nossa Senhora as suas vitórias e consagram-lhe o País numa profunda devoção. O Mosteiro de Santa Maria da Batalha, por um lado, e o Convento do Carmo, por outro, utilizam como sustentáculo de Fé precisamente o despojamento total relativamente à materialidade e uma entrega plena à Divindade. O Condestável, do alto do imenso poder político e económico que havia conquistado, entrega mesmo a sua vida, os seus bens e a sua própria identidade a Nossa Senhora, tendo morrido como simples Frei Nuno de Santa Maria, num exercício de despojamento total que representa a consagração profunda de Portugal ao seu novo estado.
 
 
 
 
Em Cascais, são vários os espaços de culto dedicados a Nossa Senhora da Conceição e geralmente relacionados com espaços de raiz rural, nos quais a memória colectiva preserva lembranças de antigos milagres onde a principal marca é a transmutação da matéria. Numa abordagem eminentemente alquímica relacionada com a importância de Nossa Senhora na defesa dos mais pobres e dos mais desesperados, numa linha que entronca nos milagres atribuídos à Rainha Santa, simultaneamente mulher do Rei Dom Dinis e zeladora dos interesses (leia-se conhecimentos) templários preservados em Portugal através da Ordem de Cristo, Nossa Senhora da Conceição intervêm directamente junto da comunidade Cascalense, interferindo positivamente no seu quotidiano e provocando alterações profundas na prática religiosa desta Nossa Terra.
 
Na localidade da Conceição da Abóboda, junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, Nossa Senhora apareceu a uma pobre e esfomeada pastora que por ali andava a tomar conta do seu rebanho. Pedindo-lhe que se dirigisse à vizinha localidade de Freiria, enquanto ela própria zelava pelos animais do rebanho, Nossa Senhora indicou à pastora um forno de pão ao qual se deveria dirigir para pedir alimento. Ali chegada, a pastorinha explicou à forneira que a Senhora lhe tinha aparecido e pedido que colocasse para si um pouco de pão no forno. Esta, zombeteira e não acreditando na criança, põe no forno uma bola minúscula de massa que, depois de cozer se transforma num enorme pão. Não o querendo entregar, repete a operação com uma quantidade de massa ainda mais reduzida, mas o fenómeno volta a repetir-se de igual maneira. E numa terceira tentativa, colocando no forno uma míseras migalhas de farinha que dão origem ao maior pão jamais cozido naquele forno, a padeira apercebe-se da estranheza do que estava a acontecer e convence-se de que fora efectivamente a Senhora da Conceição que ali estava a intervir.
 
Simultaneamente, perto do local onde havia ficado o rebanho, um fidalgo local andava a caçar lebres. Um acidente, no entanto, fez com que a sua espingarda tivesse rebentado com um tiro mas, milagrosamente, sem lhe provocar qualquer espécie de ferimento. Tentando perceber o que se passava, o senhor encontra a pastorinha e a forneira que lhe contam o que se havia passado, tendo ele mandado erguer uma pequena ermida no local onde aparecera Nossa Senhora, como agradecimento pela sua intervenção miraculosa no acidente que sofreu.
 
 
 
 
A Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda é, assim, um testemunho físico extraordinário da ligação precoce que o povo de Cascais tem à Padroeira de Portugal, numa expressão de singeleza profunda que segue em linha com o apelo ao despojamento que o culto mariano expressa na sua origem sagrada.
 
De linhas simples e com elementos decorativos de índole profundamente rural, a capela apresenta uma só nave, onde sobressai a pedra tumular datada de 1579 mandada construir por Frei Gonçalo de Azevedo e o remate do arco de acesso ao Altar no qual se podem ver as cruzes da Ordem de Malta, à qual pertencia o frade fundador. No corpo da capela, merece especial destaque a imagem de Nossa Senhora do Ó, de origem desconhecida mas certamente de origem ainda medieval, entroncando no culto provavelmente pré-Cristão que evolui até chegar precisamente à Senhora da Conceição.
 
 
 
 
A singeleza da velhinha Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda contrasta de forma extraordinária com a grandeza do significado profundo que ela agrega e, sobretudo, com a sua importância na definição da Identidade Cascalense. Assumindo que a própria Nacionalidade depende das bases de sustentação ao nível da cultura e da espiritualidade, facilmente se percebe que a Capela da Abóboda é peça essencial do património municipal de Cascais.
 
Deve ser conhecida, reconhecido e valorizada.
 
A bem de Cascais!

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publicado às 18:14

Dom Fuas Roupinho e o Castelo de Torres Vedras

por cascalenses, em 28.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Situado em plenas Linhas de Torres, conjunto de fortificações montado para proteger Lisboa durante a denominada Guerra Peninsular, o Castelo de Torres Vedras é uma das mais interessantes peças patrimoniais de Portugal.
 
Com origem marcada pela chegada dos Romanos, há mais de 2000 anos, a ocupação da colina onde a fortificação se situa representa um passo significativo na definição do fluxo territorial daquela zona. Aproveitando a topografia natural do local, altaneira relativamente ao espaço onde se viria a espraiar a cidade, o castelo define-se na paisagem, apresentando características que lhe advêm de uma história longa e pouco linear.
 
Do tempo dos romanos, quando um certo clima de paz imperava nesta região, são certamente as duas cisternas existentes dentro do espaço fortificado, não se sabendo ainda se existiriam panos de muralhas a envolver estes equipamentos. Sabe-se, no entanto, que durante a ocupação árabe terá sido construído o conjunto de muralhas que lhe concedeu a forma actual, muralhas essas que foram sucessivamente destruídas e reconstruídas devido a ataques, cataclismos naturais e necessidades práticas de adaptação da vida das comunidades que por ali habitaram.
 
De facto, a cidade de Torres Vedras foi conquistada por D. Afonso Henriques, em 1148, logo após a conquista de Santarém. O primeiro Rei de Portugal tê-la-á entregue a D. Fernão Gonçalves Churrichão, que ficou conhecido na História como Dom Fuas Roupinho, que reorganizou o espaço e reconstruiu as antigas muralhas.
 
 
 
 
O lendário nobre Português, de quem se conhece muito pouco a biografia, seria certamente um dos mais próximos companheiros do Rei conquistador e terá estado com ele nos primeiros passos da formação da Nacionalidade. Pensa-se ainda, pela forma como organizou a sua vida pública, que seria Cavaleiro Templário e que terá sido nessa condição que colaborou com o exército lusitano no processo de reconquista Cristã da Península Ibérica.
 
Dom Fuas Roupinho terá sido também o protagonista do chamado “Milagre da Nazaré”. Quando andava a caçar montado no seu cavalo ao longo da costa Oeste de Portugal, o fidalgo ter-se-á entusiasmado com um veado e perdeu completamente a noção do perigo que está associado àquele espaço de falésias. Num laivo de desespero, ao sentir-se condenado a cair pela arriba abaixo, terá apelado a Nossa Senhora em oração e em resposta Ela terá travado o cavalo já mesmo no limite da escarpa, salvando o nobre português de uma morte certa. Agradecido pela graça que lhe foi concedida, Dom Fuas Roupinho mandou erguer no local a Capela da Memória e, quando se preparava para iniciar as obras de construção do altar, os operários ter-se-ão deparado com uma antiga arca contendo as relíquias de São Brás e de São Bartolomeu e uma imagem de Nossa Senhora sentada num banco a amamentar o seu filho Jesus.
 
O impacto desta descoberta, principalmente devido ao facto de a imagem ter sido identificada como uma das mais antigas imagens da Virgem Maria, transportada até ao actual território Português algures no início do Século V, terá sido de tal forma grande que diversos monarcas Portugueses terão peregrinado até à Nazaré, mandando melhorar sucessivamente as edificação originais de Dom Fuas Roupinho e contribuído para o rápido alastramento da devoção ao Sítio da Nazaré.
 
 
 
 
Em Torres Vedras, depois de sofrer vários ataques por parte das forças muçulmanas, o castelo, depois das campanhas de consolidação levadas a cabo pelo senhor, terá conseguido sempre repelir o inimigo, sublinhando assim a sua importância no contexto da formação da própria Nacionalidade. Dom Dinis e posteriormente Dom Fernando, em linha com o que fizeram noutras cidades com importância para a defesa de Portugal, terão mandado efectuar obras de alargamento das muralhas de Torres Vedras, configurando o castelo com as mais modernas tecnologias de guerra que existiam na sua época.
 
Ao longo da sua história, muitos foram os episódios extraordinários que por ali se passaram. Mas dos mais importantes terá sido certamente o facto de ter tomado partido pela forças de Dona Beatriz, durante a crise de 1383-85, facto que levou o exército de Dom João I a atacar a cidade de forma a garantir a sua posse para a Coroa Portuguesa. Depois dessa vitória, o monarca terá escolhido precisamente o castelo como seu local de residência temporária, tendo sido dali que emitiu grande parte das ordens que tornaram possível o nascimento do Portugal moderno. Na “Crónica de Dom João I”, da autoria de Fernão Lopes, o cronista descreve o Castelo de Torres Vedras como sendo uma perfeita fortificação natural, dado que aproveita a topografia e o declive natural do terreno, complementados com as muralhas construídas, tornando-se um espaço quase totalmente inexpugnável: "Este lugar de Torres Vedras é uma fortaleza assentada em cima duma formação mota, a qual a natureza criou em tão ordenada igualdade como se a não fosse feita, artificialmente; a vila com a sua cerca a redor do monte, e na maior alteza dele está o castelo".
 
 
 
Do período Manuelino, quando Torres Vedras recebeu o seu segundo Foral, serão datadas as obras de modernização dos panos defensivos, bem como a porta de entrada no castelo, em forma ogival muito marcante e adornada com a esfera armilar, as armas de Portugal e a cruz da Ordem de Cristo.
Digno de uma nota especial, não só pelo facto de ser ilustrativa da importância estratégica da Cidade de Torres Vedras no contexto Nacional, como também por consolidar a sua relação próxima com os principais mentores do chamado espírito messiânico de Portugal, é também a sua conquista, em 1589, em pleno período filipino, pelas forças apoiantes de El-Rei D. António, conhecido por Prior do Crato. O Rei Português, com o apoio de forças Britânicas, terá desembarcado em Peniche com o intuito de reconquistar Lisboa para a Causa Nacional. Chegado a Torres Vedras já de noite, o monarca ter-se-á instalado no castelo, ordenando aos seus soldados que não se fizessem quaisquer saques junto da população. Estas, no entanto, dado o visível abandono da cidade, que se encontrava praticamente deserta, acabaram por beber bastante vinho, facto que, segundos as crónicas de então, terão provocado várias doenças e mesma a morte a alguns dos soldados sitiantes. O exército Português terá sido derrotado no dia seguinte, mercê do péssimo estado de saúde dos seus homens, quando o Senhor Dom António se dirigia à cidade de Lisboa. A Cidade de Torres Vedras foi então reconquistada sem esforço pelas forças fiéis aos Espanhóis.
 
 
 
 
Depois da destruição massiva provocada pelo grande terramoto de 1755, que fez ruir grande parte dos principais troços de muralha, o castelo de Torres Vedras só volta a ver o seu esplendor recuperado precisamente durante a já mencionada Guerra Peninsular, quando foi integrado nas chamadas Linhas de Torres e representou importante papel na defesa da capital contra os ataques dos exércitos franceses.
 
Durante os Séculos XIX e XX o castelo entrou na posse da autarquia e foi sofrendo várias obras de conservação. Hoje, mantendo o seu carácter altaneiro sobre a paisagem formada pelo casario torreense, faz jus à sua fama de inexpugnável, ostentando as características ameias ali colocadas pela Direcção Geral do Património nos idos dos anos 40.
 
 
 
 
Torres Vedras, ou sejam, as torres velhas do antiquíssimo castelo romano que dão corpo ao seu topónimo, é uma cidade que vale a pena visitar. Porque para além do seu castelo e demais peças extraordinárias de património, mantém bem viva a sua ligação umbilical à (sempre difícil) demanda de Fé que a Ordem de Cristo foi capaz de consubstanciar.

 

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publicado às 16:38

Pax Júlia e o Castelo de Beja

por cascalenses, em 19.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
São muito raras as cidades, sejam elas situadas no actual território Português ou fora dele, que podem orgulhar-se de ostentar um topónimo tão significativo como Beja. O actual nome da cidade, recuperando o topónimo ancestral (provavelmente pré-histórico) do local, deriva da palavra baja, ou seja, lama ou lodo, trazendo à memória a fertilidade excepcional dos terrenos agrícolas que envolvem a cidade. Mas, durante o processo de romanização, iniciado provavelmente no primeiro século antes de Cristo, adquiriu a designação latina de Pax Julia. O pax reverte para o processo de pacificação das populações célticas que foram invadidas pelos romanos, e o epíteto Julia tem a ver com o nome do Imperador que deu forma a esse processo de paz: Júlio César.
 
Beja é, por isso, cidade simultaneamente de paz e de fertilidade, ou seja, tem tudo aquilo de que o Ser Humano necessita para viver bem e usufruir da sua vida! A planície alentejana, dourada pelo restolho quente que dá forma e corpo ao ciclo agrícola, perpetua no tempo os valores antigos de gerações e gerações de Portugueses que se vão substituindo umas às outras neste espaço imenso.
 
E a História de Beja é longa e profícua. Inicia-se provavelmente durante a pré-História, como o indicam os muitos vestígios arqueológicos existentes nas redondezas, e afirma-se de forma peremptória durante o calcolítico quando ali foi construído um povoado fortificado que ocupava o espaço onde hoje se situa o castelo.
 
 
 
Quanto a este, altaneiro a partir das suas muralhas antigas, é produto da evolução dos tempos e das necessidades pelas quais foram passando os muitos pacenses que foram habitando o lugar. Se as primeiras pedras foram colocadas ainda antes da História, tendo-se perdido o seu rasto nos complicados repositórios da memória popular, certo é que os laivos da fortificação mais resistente serão de origem romana. André de Resende, o historiador quinhentista de Évora, assegura, embora sem fontes fidedignas que o atestem, que o local onde hoje se situa o castelo de Beja foi outrora ocupado por um oppidum romano, ou seja, uma fortificação de carácter simples e planta circular, cuja principal função seria a de proteger aqueles que governavam a cidade.
 
O próprio Júlio César, cumulado de glória por ter conseguido conquistar os anteriores habitantes do local, subjugando-os pela força do seu exército mas também pelo carácter imperioso da cultura que o Império Romano representava, terá estado ali para formalizar a paz que conseguira assegurar. O período romano, foi assim uma época de grande prosperidade para a cidade, que foi simultaneamente sede de convento – o Conventus Pacencis – e sede de uma das chancelarias da Lusitânia. Por ali passava uma das principais vias romanas, que permitia a ligação directa à capital do Império, corporizando um impulso urbanístico cujos vestígios são ainda hoje visíveis um pouco por toda a cidade.
 
 
 
O declínio do Império Romano e a sua progressiva desagregação, sendo sinónimo de uma diminuição paulatina do poder detido pelos invasores, representou também ele o início de um período de maior instabilidade no actual território alentejano e, por extensão, na própria cidade de Pax Julia. Os ataques dos bárbaros, sistemáticos e sucessivos ao longo de vários séculos, traduziram-se em várias conquistas e reconquistas que, como facilmente se percebe, significaram também saques e destruição, delapidando as muitas riquezas que existiam na cidade. Será porventura dessa época o período de maior destruição das muralhas do castelo. Sem tempo nem estabilidade para serem reconstruídas, o processo natural de erosão das mesmas e a incapacidade de se proceder a obras de reconstrução, gerou um processo de ruína acentuado, do qual não escaparam as necessidades práticas e quotidianas de pedras para utilização noutros equipamentos e em casas que foram sendo edificadas. É ainda hoje muito fácil encontrar nas ruas de Beja, casas e muros onde são notórias as grandes pedras retiradas da anterior fortificação da cidade e que, século após século, foram dando forma à urbe que hoje ali encontramos.
 
Já na idade média, durante o domínio árabe, foi Beja novamente retransformada numa das mais importantes cidades do Alentejo. Os ocupantes muçulmanos, ali chegados no ano de 711, propuseram-se recuperar o traçado urbano antigo e é dessa época a transição do topónimo romano – Pax Julia – para a ancestral Baja. No entanto, quer pelas guerras internas, quer possivelmente pelas alteração dos eixos estratégicos dentro do território, não voltou Beja a recuperar a grandiosidade de outros tempos.
 
As notícias mais recentes na História da Cidade e do seu castelo são assim do século XII, quando Fernão Gonçalves, chefiando um grupo de populares oriundos de Santarém, ataca a cidade de surpresa alcançando uma vitória retumbante. Embora tivesse sido sol de pouca dura, porque logo depois os inimigos muçulmanos conseguiram voltar a recuperar a cidade, o certo é que até este primeiro esforço de reconquista mostra bem o estado lastimoso em que Beja se encontrava. Um grupo mal armado e mal preparado, naturalmente motivado pela possibilidade do saque a que a vitória do seu ataque daria direito, avança de forma amadora e despreparada sobre as velhas muralhas e facilmente as consegue conquistar.
 
O regresso ao controle cristão não está devidamente documentado, mas um estudo comparativo com o que aconteceu nas redondezas, permite supor que Beja terá regressado à Coroa Portuguesa algures entre 1232 e 1234, dado terem sido estas as datas em que tal processo aconteceu com as vizinhas cidades de Moura, Serpa e Aljustrel. Mas o seu velho castelo, destruído por sucessivos séculos de ataques e de abandono, só virá a conhecer obras de recuperação com o Rei Dom Afonso III que em 1234 atribuiu o foral à cidade.
 
 
 
O Rei Dom Dinis, depois de confirmar o foral inicial, dedicou-se também à reconstrução do castelo, sendo da sua responsabilidade a generalidade dos amuralhamentos que ali hoje vemos. Foi também ele quem, por necessidades práticas associadas à consolidação da fronteira Nacional, mandou edificar a torre de menagem que é hoje um símbolo de Beja. Com cerca de 40 metros de altura, o que faz dela a mais alta de Portugal, foi concebida de forma similar àquela que existe no Castelo de Estremoz, tendo sido concluída provavelmente durante o reinado de D. João I, o fundador da Dinastia de Avis, à qual Beja se manteve firmemente fiel durante o conturbado processo político de 1383-1385.
 
Depois deste período, novamente no Século XVI se realizam obras no castelo, desta vez para o adaptar às modernas exigências técnicas da guerra, que já não se compadecia com a formulação eminentemente medieval da velha fortificação. Apesar deste esforço modernizativo, Beja foi completamente destruída pelas tropas napoleónicas durante as invasões francesas, tendo depois disso mantido o seu carácter humilde de cidade de província, estatuto que manteve até ao final da primeira metade do Século XX.
 
 
 
 
A partir daí, fruto de uma grande aposta do Estado, Beja conheceu um novo período de crescimento. Viu construídas várias escolas e um grande hospital, tendo recuperado alguma das suas antiga pujança. Para surpresa de muitos, ali se construiu um aeroporto internacional, nos idos de 2011, que apesar de não apresentar movimento (!?) é hoje o ex-libris das modernas obras públicas na cidade!
 
Mantendo nas suas armas municipais a figura do touro, recuperado da velha lenda que nos conta a forma como Beja conseguiu matar uma cobra venenosa que aterrorizava os habitantes da cidade, a urbe é hoje um símbolo muito firme da força e da perseverança que sempre caracterizou as suas gentes, sendo capaz de se afirmar como um espaço de excepcional importância para compreender Portugal e para perceber as origens da identidade Portuguesa.
 
A paz que a cidade ostenta, cobrindo de glória os muitos motivos de interesse para uma visita e a inesgotável fonte de História e de história que a cada canto e recanto representam, são marca indelével de um sentido de Portugalidade que é urgente compreender.

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publicado às 17:13

A Ermida de São Sebastião e as Grutas Mouras do Alvito

por cascalenses, em 13.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A origem mourisca da cultura Portuguesa, assente na recuperação de valores estéticos, artísticos e mesmo religiosos dos ocupantes maometanos que estiveram na Península Ibérica a partir do ano de 711, é ainda hoje visível em usos e costumes um pouco por todo o País.
 
No Alentejo, que durante mais tempo sentiu a influência árabe, grande parte das localidades, na sua vertente de distribuição urbanística e também na componente estética das suas casas, apresenta características desse período, integrando elementos que foram criados nessa época e fazendo o aproveitamento de técnicas de construção que os mouros delinearam.
 
No Alvito, no coração da província Alentejana, é precisamente a memória moura que determina o carácter extraordinário da povoação. Ele vive-se e sente-se em cada canto e recanto, numa profusa amálgama de pequenos detalhes que deslumbram quem ali chega.
 
No Rossio de São Sebastião, aproveitando o topónimo que o consagra, ergue-se a velha ermida com o mesmo nome e, para espanto de todos aqueles que questionam os locais sobre o que é a porta enorme que existe nas suas traseiras, uma autêntica “fábrica de mós”.
 
 
 
 
A ermida de cunho mudéjar bem definido, foi construída algures no Século XVI, sendo dessa data as primeiras referências documentais que se conhecem, provavelmente aproveitando quaisquer vestígios mais antigos que tenham subsistido do período de domínio muçulmano. Inserida no gótico final alentejano, que procura o deslumbramento de quem a visita, a ermida é um edifício simples, como o são quase todos aqueles que a pobreza que se vivia no Alentejo nessa época determinava, mas possui no seu interior um conjunto de inestimável valor de pintura mural, em forma de frescos, pintados provavelmente por José Escobar em 1611.
 
A dedicação a São Sebastião, cruzada com a localização na entrada da localidade, dever-se-á ao carácter protector deste santo relativamente às pestes. Com a colocação neste local, os seus construtores terão pensado que conseguiriam travar a entrada da peste no Alvito, ao mesmo tempo que recriavam uma barreira perante possíveis invasões que pudessem chegar daquele lado.
 
Mas o mais interessante, ainda para mais com uma datação que precede bastante a construção da própria ermida, é a existência, nas traseiras da mesma, de um conjunto vastíssimo de grutas artificiais, denominadas oficialmente como “Grutas do Rossio”. Estas galerias, escavadas na rocha-mãe que suporta os alicerces da própria ermida, surgem na documentação como sendo antigas minas de exploração de calcário no Século XIII. Mas notas documentais indirectas, que foram encontradas recentemente, apontam para a utilização dos túneis como saídas alternativas do velho castelo mouro e dos demais edifícios importantes existentes na velha vila alentejana.
 
A tradição popular, ainda hoje transmitida pelos habitantes do local a quem os visita, é que aquele é um espaço assombrado pelos mouros, sendo autênticos viveiros onde cresciam mós!
 
 
 
 
Mas nas crónicas templárias medievais, cujo conteúdo se dedica sobretudo à reconquista das terras alentejanas, o sistema de túneis do Alvito é explicado como sendo um conjunto de pedreiras onde os mouros exploravam a pedra calcária, tendo sido escavadas por mão-de-obra escravizada durante as muitas batalhas que aconteceram na região. 
 
O certo é que entre 1190 e 1191, depois de o Rei Dom Sancho I ter chegado a Silves, no Algarve, o contra-ataque mouro redobrou a sua força. Sob a liderança de Ya’qub Al-Mansur, o exército árabe terá retomado o controle de vastas áreas na região do Alentejo interior, das quais fazia parte a actual Vila de Alvito, transformando o seu castelo no ponto de referência na defesa das suas fronteiras. Em virtude dessa decisão, terão sido canalizados para ali os muitos escravos Cristãos capturados durante as batalhas, tendo-lhes sido dada a incumbência de escavar as minas e de criar os túneis que hoje conhecemos.
 
D. Frei Pedro Álvares, oitavo Mestre do Templo em Portugal, terá então liderado um ataque às posições mouras sediadas no Alvito, tendo conseguido ludibriar o inimigo e libertado a totalidade da população escrava que estava encerrada naqueles espaços subterrâneos.
 
Por isso, é ainda hoje cognominado como o “Herói do Alvito”, mantendo aquele espaço o cunho indestrutível de bastião templário de Portugal!

 

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publicado às 15:53

A Ermida de Nossa Senhora do Pranto na Chamusca

por cascalenses, em 12.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Se existe terra onde a tradição ribatejana impera, é na Chamusca que isso mais se sente. Localizada junto à margem do Rio Tejo, do qual depende de forma directa a vila tem uma história longa de velhas práticas agrícolas, nas quais o gado assume especial importância.
 
Talvez por isso, num contexto em que a importância da terra se impõe, a dicotomia é grande e concretiza-se na diferença marcante entre a arquitectura chã das suas habitações mais humildes e a opulência grandiosa das velhas casas senhoriais que davam guarita às famílias mais importantes ligadas à posse dos terrenos de cultivo existentes nas redondezas. A paisagem chamusquense é assim de casario branco em correnteza, dando lugar, aqui e li, ao surgimento das habitações veneráveis de uns quantos.
 
A dependência próxima do rio e dos ciclos agrícolas que derivam do mesmo, sente-se em cada esquina, até porque as margens do Tejo são factor de destaque na paisagem, sendo que o verde da primeira linha de água, indicando o carácter fértil daquele lugar, se mantém suficientemente afastado da localidade para precaver possíveis cheias quando as águas sobrem e galgam as margens saindo do leito.
 
 
 
 
Um dos mais bonitos monumentos da Chamusca, situado no topo de uma das colinas adjacentes, é a Ermida de Nossa Senhora do Pranto. Com uma vista única sobre a Vila da Chamusca e sobre a lezíria, a singela ermida integra-se na tipologia simples dos espaços rurais onde foi construída, integrando um conjunto em que se destaca um enorme cruzeiro calcário e um pequeno adro ladrilhado de onde é possível perceber bem a dinâmica histórica do local onde se insere.
 
Apesar de a sua origem remontar ao Século XVII, sendo dessa altura a capela de São José que a integra, o corpo principal é muito mais recente. Para além das obras de conservação e adaptação que foi sofrendo, e que lhe conferiram a imagem que hoje tem, a ermida foi ainda integrando elementos decorativos que possivelmente terão resultado de aproveitamentos oriundos de espaços análogos que eventualmente tenham desaparecido nas redondezas. É o caso do velho cruzeiro que está incrustado na sua parede, e que terá precedido, junto ao adro, o actualmente existente, alguns retábulos, bem como alguns dos maravilhosos painéis de azulejos que por dentro a revestem.
 
A Ermida do Pranto, numa devoção que conta com quase 200 anos de história, está intimamente ligada a um dos acontecimentos mais marcantes da História recente de Portugal: as invasões francesas. Reza a lenda que quando os exércitos napoleónicos chegaram ao Ribatejo, aquartelando-se na Golegã e preparando um assalto às terras da Chamusca, um conjunto de populares se refugiou na velhinha Capela de São José, no cimo do monte, para daí verem com mais cuidado o avanço das tropas na outra margem do rio. Apavorados com o que estava a acontecer, e em pranto por saberem quais seriam as consequências que iriam sofrer caso os Franceses chegassem à sua terra, os Chamusquenses terão rezado a Nossa Senhora e solicitado a sua intercessão para os salvar do desastre. Prometeram ainda, caso se salvassem deste acontecimento nefasto, a construção de uma nova capela em honra da Senhora do Pranto.
 
 
 
 
Como que por milagre, quando os Franceses se preparavam para atravessar o rio, as águas terão subido subitamente impedindo a travessia e salvado a Chamusca da mesma destruição que outras terras conheceram. Os Chamusquenses, gratos a Nossa Senhora, terão então remodelado a Capela de São José, construindo em seu torno a actual Ermida do Pranto!...
 
Ainda existe, guardada na sacristia da velha Capela de São José, uma das balas que os Franceses dispararam contra a Chamusca em desespero por não conseguirem chegar a ela durante a primeira invasão napoleónica a terras Portuguesas.
 

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publicado às 15:07

Nossa Senhora do Castelo em Coruche

por cascalenses, em 12.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A devoção de Portugal a Nossa Senhora é ancestral e precede até o processo de formação da Nacionalidade. O culto sagrado à Virgem, personificada de diversas formas consoante a designação ritualística a que está inerente, é o fio condutor que unifica pensamentos, gerando um consenso alargado que transforma a Mãe de Deus na verdadeira força motriz que dá forma a Portugal.
 
Nossa Senhora, mãe de Jesus enquanto Deus vivo na Terra, consolida assim os laivos de sacralidade que acompanham o próprio acto da criação. A diferenciação do Homem das criaturas suas congéneres no mundo animal, faz-se pelo assumir desta capacidade simbólica de interpretar o universo. E Nossa Senhora, hoje padroeira e verdadeira Rainha de Portugal, já era pedra angular da fé daqueles que por aqui vivem, desde tempos anteriores ao próprio nascimento de Jesus Cristo. Num laivo de mistério profundo, apelando aos sentidos que impõem a disciplina à carne, foi a Virgem Ancestral, mãe verdadeira da humanidade, quem determinou os vínculos perenes que mais tarde se transformam na persistente entrega à causa maior da independência do nosso Pais.
 
 
 
 
Em Coruche, pequena e airosa vila situada nas margens do Rio Sorraia, no Ribatejo, a vinculação a Nossa Senhora surge marcada precisamente pelo processo de formação da Identidade Nacional. De facto, sendo estrategicamente crucial para o controle dos territórios envolventes, bem como essencial por se situar em pleno coração da ubérrima lezíria sorraiana, Coruche conheceu um processo histórico intrincado, marcado por sucessivas lutas de conquistas e reconquistas por parte dos diversos povos que a quiseram controlar.
 
Em 1166, quando Dom Afonso Henriques a conquista aos Mouros, a pequena vila era defendida por um castelo de composição rudimentar, cuja construção era essencialmente suportada por travejamentos de madeira e tijolo simples. Foi, aliás, o carácter muito precário desta fortificação, que servia basicamente de complemento na linha de defesa marcada pelas fortificações de Santarém e de Montemor-o-Novo, que determinou a sua reconquista pelos maometanos, ocorrida em 1180, o que obrigou o primeiro Rei de Portugal a um esforço redobrado para a colocar definitivamente sob domínio Nacional.
 
Ainda o Século XII, antes de estar encerrado o processo de Nacionalização de Coruche, a Coroa entrega a vila à Milícia da Ordem de São Bento, em Évora, mais tarde de Avis. Neste processo, cujo fulcro é colocado no cimo da colina onde se erguiam as paredes do velho castelo, assume sempre especial papel o culto Mariano a Nossa Senhora, concretizado a partir da velha ermida que por ali existia. A consolidação das fronteiras e a definitiva pacificação do território Nacional, determina a perda da importância da fortificação, recentrado todo o perímetro das paredes fortificadas para a componente sagrada do espaço de culto.
 
 
 
 
Embora se conheça muito pouco daquilo que foi a História antiga de Coruche, sabe-se que a sua importância estratégica foi atravessando as eras, explicando assim a manutenção da sua ocupação humana desde os primórdios da Pré-História. Depois de os Romanos terem estado lá por motivos idênticos, o longo período sob domínio muçulmano terá certamente culminado na criação de um conjunto de espaços de culto, sendo bastante provável que o alto da colina do castelo tenha sido ponto essencial na definição dessa dinâmica religiosa.
 
Coruche está, aliás, profundamente relacionada com estes processos de mudança e transmutação. A imagem de Nossa Senhora do Castelo, provavelmente de origem oitocentista, apresenta a Virgem Mãe com o seu filho em pé, ao seu lado, ao invés de a apresentar como é normal no resto do País, com o menino ao colo. Diziam os devotos populares de outros tempos, que tal se devia ao carácter muito milagreiros da Santa Mãe, explicando assim a sua importância da definição da própria identidade dos Coruchenses. Nas Memórias Paroquiais do Século XVIII, quando o pároco local apresentava às autoridades o ponto-de-situação em que ficou Coruche depois do grande terramoto de 1755, sublinha esse facto, explicando que todos os devotos que procuraram na imagem de Nossa Senhora do Castelo e nas paredes da sua ermida uma protecção contra o cataclismo, viram as suas casas salvas da ruína em que ficaram as restantes…  
 
 
 
 
É por isso o milagre, consubstanciado na intervenção de Nossa Senhora do Castelo em defesa dos seus devotos seguidores, o factor principal que permite perceber a importância deste espaço no contexto da devoção mariana Nacional, sendo certo que as especificidades territoriais desta Senhora, muito mais do que à comum definição lendária de aparições sucessivas, se ficam a dever a uma prática reiterada desde a ancestralidade, mostrando uma linha de culto comum que se perde nos laivos antigos de outros tempos.
 
O culto actual, organizado a partir da Carta-Ordem emitida em 1516 pelo então Mestre da Ordem de Santiago e Avis, D. Jorge de Lencastre, que definia a obrigatoriedade de se organizar uma procissão anual de acção de graças a Nossa Senhora, mistura-se ele próprio com a história extraordinária da enigmática Rainha Santa Isabel, a santa alquimista que teve a capacidade de transmutar a matéria transformando pão em rosas, já que a referida procissão anual decorreu durante muito tempo no dia 4 de Julho, precisamente o dia em que se celebra a Rainha Santa e o seu falecimento em Estremoz. Só mais tarde, quando o dia 15 de Agosto passa a estar consagrado à Assunção de Nossa Senhora, se altera a data da procissão, que passa a realizar-se nesse dia e associada a uma feira anual que animava (anima ainda) a Vila de Coruche.
 
 
 
 
Ambas as datas, como é evidente, são resquícios profundos de uma religiosidade marcada pela devoção a Nossa Senhora, consubstanciada num e noutro caso em pressupostos que estão muito para além do dogmatismo que é usual noutros lados.
 
Nossa Senhora do Castelo, a Virgem-Mãe que ainda hoje acompanha em permanência muitos milhares de Coruchenses, é muito mais do que a Mãe de Jesus ou do que a mera Assunção de Nossa Senhora. É marca viva de uma ancestralidade perdida dos biombos dos tempos, marca indelével que suporta a capacidade que Coruche tem de fazer parte da vida de todos os seus filhos e dos filhos deles.
 
Vale a pena subir ao castelo de Coruche e visitar a ermida da Senhora do Castelo. Porque ali se sente Portugal. 

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publicado às 12:54

Nossa Senhora da Peninha em Sintra

por cascalenses, em 08.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Reza a lenda que, algures durante o reinado de Dom João III, uma pastorinha muda e esfomeada nascida na localidade das Almoínhas Velhas (Malveira-da-Serra, Cascais), terá subido à Serra de Sintra com o seu rebanho onde encontrou Nossa Senhora. A figura com a qual falou, respondendo ao seu anseio de alimentos para si e para a sua família, disse-lhe para regressar a casa e abrir uma determinada arca onde encontraria o pão de que necessitava. Correndo de regresso para casa da mãe, a pastorinha recuperou a voz e disse à sua mãe onde procurar o tão almejado alimento. A velha imagem tosca de Nossa Senhora da Penha, colocada na arca, terá sido então colocada para veneração na velha Capela de São Saturnino, situada a poucos metros do local da aparição. Mas, teimosa, saia subrepticiamente do altar onde a colocavam e reaparecia no cimo dos rochedos situados atrás do templo. Tantas vezes se repetiu a travessura que se construiu em sua honra a capela actual no topo do monte da peninha.
 
Não se sabendo exactamente quando tudo isto aconteceu, e havendo várias notícia da existência de edifício que precederam aquele que actualmente ali se encontra, sabe-se, no entanto, que a Capela de Nossa Senhora da Peninha terá sido construída por um tal Pedro da Conceição, que tinha na altura somente 28 anos, e que se encontra sepultado junto ao monumento.
 
 
 
 
Nas inscrições lapidares de Sintra, vem descrita a indicação que se encontra na sepultura do fundador, dizendo que ali jaz o Ermitão Pedro da Conceição, falecido em 18 de Setembro de 1726, e que pede a todos os que por ali passem um Padre Nossa e uma Avé Maria pela Alma dos seus benfeitores. Numa das paredes do templo, existe uma segunda lápide confirmando a identidade do construtor original e afirmando que a obra foi efectuada em 1690. Sendo muitos e rocambolescos os episódios pelos quais passou o singelo templo sintriano, o certo é que foi alvo de muitas obras de construção e reconstrução que lhe conferiram o aspecto que hoje conhecemos.
 
Sabe-se ainda que no final do Século XIX, em 1892, a Peninha é comprada pelo Conde da Almedina que em 1918 a revende a António Augusto Carvalho Monteiro. O Monteiro dos Milhões, como ficou conhecido o construtor da Quinta da Regaleira, situada junto à Vila de Sintra, era na altura um dos mais conhecidos e ricos empresários lisboetas, com investimentos variados na banca de então que, do alto da sua prosperidade, adquire uma visão ecléctica do Mundo e das suas gentes.
 
Profundamente místico e grande conhecedor de tudo aquilo que dizia respeito ao destino de Portugal, Carvalho Monteiro pauta a sua vida por um conjunto de valores e de princípios que, apesar da distância que o separa do antigo Ermitão Pedro da Conceição, lhe são muito próximos e semelhantes.
 

Adossado às penhas que sustentam a capela, o proprietário projecta a construção de um palácio onde pretendia passar temporadas em meditação e em recolhimento. Projectado por Júlio da Fonseca em 1920, o palácio fica por acabar mercê da morte de Carvalho Monteiro, tendo posteriormente sido adquirido do advogado José Rangel de Sampaio que concluiu as obras e legou o palácio em testamento à Universidade de Coimbra.
 
 
 
 
Em 1991, pela importância de 90.000 contos, o imóvel é adquirido pelo Estado Português, através do Serviços de Parques e Conservação da Natureza, que efectuou algumas obras de restauro e conservação.
 
A Poente da Capela de Nossa Senhora da Peninha, subsiste em forma de ruína avançada, o que resta da velhinha Ermida de São Saturnino, originária do Século XII, e cuja importância em termos patrimoniais contrasta de forma evidente com a incúria em que tem sido deixada.
 
 
 
 
O conjunto patrimonial da Peninha, composto pela Capela, pelo palácio de Carvalho Monteiro e pela velha Ermida de São Saturnino, está inserido numa das mais impactantes paisagens da Região de Lisboa, abraçando em termos visuais desde a Ponte Sobre o Tejo, em Lisboa,  até ao Cabo da Roca.

A singeleza da lenda, apelando aos sentidos de pureza primordial e fazendo a apologia da pobreza extrema, enquadra-se no conjunto ritualístico próprio da Serra de Sintra, numa lógica cruzada de paganismo cristianizado e de apelo constante ao Quinto Império Português. A devoção pela Senhora que concebe, a Senhora da Conceição que tão linearmente devolve à pastorinha das Almoínhas Velhas (ou Almas velhas), a sua voz e lhe mata a fome, é concretizada pelo Ermitão, ou seja, pelo que assume a pobreza como fio condutor da sua vida, Pedro da Conceição, em ligação permanente ao culto ritual antigo.
 
Na Ermida Medieval, onde o culto é de São Saturnino, a linha orientadora é a mesma, apelando ao eterno retorno e ao culto obscurecido dos Mundos Internos, numa lógica que corre em linha com o útero materno, a Deusa-Mãe primordial, por aqui venerada desde tempos imemoriais.
 

 

Enfim… Nossa Senhora da Conceição. 

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publicado às 16:31

O Castelo de Mourão no Alentejo

por cascalenses, em 08.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
É extremamente impactante a impressão que produz uma primeira visita ao Castelo de Mourão. Por um lado, a inexplicável linha de horizonte, misturando os resquícios antigos da paisagem seca do Alentejo de outros tempos com os panos de água do Grande Lago, que lhe conferem a singeleza subtil de uma frescura imaginária que o corpo não sente. Por outro, o estado de imensa degradação, num laivo que roça os travos amargos do abandono  e da ruína, dando conta do enorme desprezo pelas mais importantes peças da memória e da História de Portugal…
 
O Castelo de Mourão, cuja actual construção se iniciou em 1343 com traço de Mestre João Afonso e por ordem d’El-Rei Dom Afonso IV, é uma fortificação de cariz militar situada a poucos minutos da raia fronteiriça. É, aliás, esta condição, que representa a sujeição ao clima de permanente instabilidade que resulta da sua inclusão numa zona de fronteira, que determina a sua importância, bem como muitos dos rocambolescos episódios que a constrangeram ao longo do tempo.
 
 
 
 
Essa proximidade, é também ela determinante para definir os antecedentes da história do local, uma vez que dificilmente se concebe a conflituosidade permanente que existiu neste local desde (pelo menos) a fundação da Nacionalidade, sem que nela tenha existido uma fortificação condigna. Muitas das informações existentes sobre este espaço apontam para a existência de vários momentos de construção anteriores à data apontada, sendo certo que, pela sua localização geograficamente relevante e profundamente simbólica em termos estratégicos, seja razoável aceitar que terá existido por ali alguma construção defensiva pelo menos desde a ocupação muçulmana.
 
Na primeira Carta de Foral atribuída à vila alentejana, datada de 1226, O Rei Dom Sancho II doa Mourão aos Cavaleiros da Ordem dos Hospitalários precisamente com o intuito expresso de “incentivar o seu povoamento e defesa”. Em linha com esta indicação, fácil se torna perceber a importância militar que o local possuía e a natural decisão de ali construir ou reconstruir um baluarte defensivo que pudesse contribuir para a consolidação da Causa Nacional.
 
 
 
 
De qualquer forma, existe uma lápide epigrafada colocada na Torre de Menagem, que indica expressamente a data de 1343 para a construção desta estrutura: "ERA DE MIL CCC OITENTA E 1 ANOS PRIMO DIA DE MARÇO DOM AFONSO O QUARTO REI DE PORTUGAL MANDOU COMEÇAR E FAZER ESTE CASTELO DE MOURÃO E O MESTRE QUE O FAZIA HAVIA NOME JOÃO AFONSO QUAL REI FOI FILHO DO MUI NOBRE REI DOM DENIS E DA RAINHA DONA ISABEL AOS QUAIS DEUS PERDOE O QUAL REI É CASADO COM A RAINHA DONA BEATRIZ E HAVIA POR FILHO HERDEIRO O INFANTE DOM PEDRO”.
 
Uma das histórias mais interessantes, acontecida pouco tempo antes do início das obras do castelo, decorreu em 1313, quando o Rei Dom Diniz, num esforço hercúleo para consolidar as fronteiras, entrega a Vila de Mourão a Dom Raimundo de Cardona com a indicação expressa de este não construir ali uma fortificação. Terá tal decisão resultado do facto de já existir por lá uma estrutura defensiva suficiente para os projectos reais? Ou terá somente resultado de um pensamento estratégico por parte do Rei, percebendo que era ainda volátil a linha de fronteira e que não convinha estar a construir estruturas que posteriormente pudessem vir a ser utilizadas contra Portugal? Não se sabe ao certo. Mas, como o inesperado quase sempre impera nestas terras de deslumbramento, falta dinheiro ao novo Senhor de Mourão e a opção que este toma, em claro desobedecimento à vontade do Rei, passa pela venda em leilão da vetusta vila raiana. O comprador, um tal Martim Silvestre, natural de Monsaraz, adquire Mourão pela singela importância de 11.000 Libras em 19 de Abril de 1317. Mas poucos dias depois, a 15 de Maio desse mesmo ano, o feliz comprador recebe ordem Real para que lhe revenda a vila pelo mesmo valor pela qual a comprou, determinando que Mourão tem uma importância definitiva na determinação da linha de fronteira da qual dependia a própria independência de Portugal.
 
Depois de vicissitudes diversas que dão forma ao devir histórico de Mourão, e de diversas intervenções que vão actualizando a componente militar da estrutura defensiva, o castelo vai conhecendo uma progressiva perda da sua importância estratégica, facto que se reforça depois da consolidação da restauração da independência Nacional em 1640. São dessa época a adaptação dos seus panos de muralha às novas exigência da moderna artilharia, e pouco tempo depois, a destruição visível causada pelo grande terramoto de 1755.
 
 
 
 
Daí até agora, e apesar de continuar a existir um conjunto de vestígios que vale a pena visitar, como a antiga Casa dos Guardas e os antigos Paços do Concelho, para além da velha cisterna que resiste sob os pés dos visitantes, a marca maior do Castelo de Mourão é o abandono e a ruína.
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público em Julho de 1957, só vinte anos depois, em 21 de Junho de 1977, é o castelo doado por escritura pública ao Município de Mourão pelo seu então proprietário Marcos Lopes de Vasconcelos Rosado.
 
Mas apesar disso, e de obras pontuais efectuadas para reforçar a estrutura e impedir a sua completa ruína, o Castelo de Mourão é hoje pouco mais do que um espectro semi-derruído daquilo que foi noutros tempos. Ressalva especial para o enquadramento cénico que a Barragem do Alqueva lhe trouxe e para a maravilhosa e mística paisagem que o que dele resta impõe a quem o visita.
 
Que pena Portugal não perceber a importância de um património riquíssimo como este! 

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publicado às 12:27

A Capela do Espírito-Santo de Teira e o Castro de São Martinho em Alcobertas

por cascalenses, em 06.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem espaços e monumentos de tal maneira simples na sua formulação estética, que dificilmente deixam antever a complexidade que traduzem e a importância que têm no registo histórico ao qual pertencem.
 
A sua singeleza, normalmente associada à pureza extraordinária das comunidades que os construíram, traduz assim um apelo quase inaudível aos sentidos, obrigando o visitante a um exercício quase onírico para os perceber…
 
É o que acontece na Freguesia das Alcobertas, no Concelho de Rio Maior, com a singelíssima Capela do Espírito-Santo e, um pouco mais adiante, com o que resta do maltratado Castro chamado de São Martinho.
 
 
 
 
A capela, simples na sua forma chã e pragmaticamente inserida na tipologia própria da arquitectura de índole religiosa das zonas rurais Portuguesas, integra-se num largo de bonitas proporções no qual assumem especial importância um grande crucifixo construído em 2001, e o painel de azulejos onde consta uma perspectiva do antigo Castro de São Martinho, profundamente marcante na definição sagrada do templo Alcobertense.
 
Datada do Século XX, a capela vem substituir uma antiga ermida dedicada a São Martinho que existia no topo do monte onde outrora se ergueria o antigo castro neolítico. Tendo lendariamente sido destruída por um raio, a imagem do santo foi transportada monte abaixo até à nova capela construída no centro da povoação de Teiras. Diz ainda a lenda que a dita imagem, durante muito tempo e por vontade própria, se escapulia durante a noite para o local onde outrora se erguia a sua capela, teimando em não ficar na nova capela do Espírito-Santo onde reiteradamente a colocariam.
 
Com fachadas brancas a condizer com o apelo à simplicidade que o culto do Espírito-Santo obriga, a capela apresenta uma só nave, também ela de aspecto singelo, e um único óculo colocado sobre a porta principal, deixando uma nota de luz no seu interior. O sino, colocado num suporte simples de pedra calcária, completa o conjunto, dando um carácter airoso ao enquadramento simbólico deste espaço sagrado.
 

São Martinho e o Espírito Santo

 
 
Na memória colectiva associada a este espaço, numa linha de continuidade que assenta numa profunda sabedoria popular, possivelmente de tradição oral e que se perpectua ao longo de várias gerações, existe uma forte ligação aos cultos ancestrais que outrora foram desenvolvidos no velho castro.
 
 
 
Se a devoção actual ao Espírito-Santo, numa lógica de Quinto Império Sebastianista, apela ao desapego material, reiterando a máxima de que a Portugalidade exige despojamento das vestes sujas pelas agruras da vida para que seja possível vestir os trajes iluminados de uma existência situada em planos etéreos muito superiores, por outro lado, a devoção ancestral a São Martinho, o tal santo cujo mal-estar por estar colocado na nova capela é por demais  evidente, aponta também ela para uma ritualística de pobreza que, dadas as condições naturais do local onde estes monumentos se encontram, parece ter sido a pedra angular as muitas vidas que por aqui se sucederam ao longo de muitos séculos.
 
Diz a lenda de São Martinho que, sendo ele soldado romano em trânsito por uma estrada gelada numa das imensas serranias do império, terá sido interpelado por um paupérrimo pedinte que, transido de frio, lhe pediu ajuda para sobreviver ao Inverno. O Santo, sem pensar duas vezes, despiu as suas vestes e colocou-as sobre o corpo do desgraçado, ficando ele próprio sujeitos às inclemências do tempo. Mas Deus, reconhecendo o gesto nobre daquele soldado, terá mudado a estação e recriado uns dias de calor estival, dando assim condições a São Martinho para poder regressar são e salvo à sua terra.
 
É esta a origem do denominado “Verão de São Martinho”, bem como do quadro geral de despojamento que caracteriza o culto do Espírito Santo na capela de Teira.

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publicado às 15:22

O Chafariz de São Francisco e a Porta dos Cavaleiros em Viseu

por cascalenses, em 31.08.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A cidade de Viseu, capital da Beira Alta, é um dos mais extraordinários repositórios de História em Portugal. Em cada canto e esquina, atravessando as ruelas de traçado tortuoso que dão forma ao seu centro histórico, encontram-se os ecos de outros tempos, como se certos espaços da cidade, por artes mágicas vindas sabe-se lá de onde, preservassem de forma sentida as memórias das muitas vidas e das muitas eras que sobre elas se cruzam.
 
Viseu, mercê de tudo isto, alia a modernidade de uma vida já bastante cosmopolita, assente num comércio que sempre foi activo e florescente, com um cunho de tradição que é difícil de encontrar noutros lugares.
 
É o que acontece, por exemplo, com o Chafariz de São Francisco, no início da Rua do Arco, para onde concorrem os desígnios mais profundos de um romantismo que ainda hoje caracteriza a cidade. Em conjunto com a Porta dos Cavaleiros, que é um dos poucos restos da antiga muralha Afonsina, o recanto enche o olhar do visitante com a beleza do trabalho em pedra mas, sobretudo, com as memórias imaginadas por Camilo Castelo Branco que, no seu “Amor de Perdição”, situa ali a cena de pugilato em que Simão Botelho se batia pelo amor de D. Teresa de Albuquerque...
 
 
 
 
De facto, construído no Século XVIII, aproveitando um manancial natural que por ali existia, o chafariz utiliza a formulação estética barroca e entrega-se à cidade sob a égide sagrada de São Francisco, opondo a singeleza da devoção deste santo, à opulência quase majestática que caracteriza este espaço. Compondo-se como se fosse uma espécie de cenário, no qual o chafariz nada mais é o que o fundo de palco no qual brilham os restos antigos da velha muralha com a sua porta histórica e o palacete beirão dos Albuquerques, a fonte aproveita o espaço de uma estrutura anterior que terá sido demolida por António de Albuquerque, o seu construtor.
 
Relativamente à porta, é um dos últimos vestígios da medievalidade viseense, tendo resultado de um dos derradeiros esforços de amuralhamento para protecção da cidade. Digna de um realce especial, é a lápide existente no exterior da velha porta, dando conta da devoção do Rei Dom João IV a Nossa Senhora da Conceição (muitos anos antes de o dogma ter sido aceite pela Santa Sé, em 1854), em linha com uma tradição popular antiga que considera Nossa Senhora da Conceição como Rainha de Portugal. A Senhora da Conceição, ritualisticamente cultuada no território Nacional desde antes da fundação da nacionalidade, é provavelmente o resultado da aculturação das velhas crenças pagãs, cruzadas sobre uma enorme amálgama de pressupostos que resultam das vicissitudes do devir histórico, resultando aqui, neste recanto de Viseu, como uma espécie de eixo estrutural de uma Fé que é transversal em termos políticos e sociais a todos aqueles que vivem no País, e que conjuga, agregando vontades, o todo Nacional a partir de um elemento devocional que todos aceitam como peça essencial da existência de Portugal.
 
Em Viseu, o Chafariz de São Francisco e a Porta dos Cavaleiros, compõem um todo turístico que valoriza a cidade, principalmente se interpretados a partir da sua integração na riquíssima história local.

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publicado às 15:54

Henrique Felgar e a Irmandade de Santa Cruz e Passos de Viseu

por cascalenses, em 30.08.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Em 1907, no final de um quente dia primaveril, foi solenemente recriada a Irmandade de Santa Cruz e Passos de Vizeu, cujo compromisso foi assinado no ano seguinte em cerimónia que decorreu na mesma cidade beirã.
 
O fundador da instituição foi o Bispo Gonçalo Pinheiro, natural de Setúbal, que foi nomeado para a capital da Beira Alta em 1553, onde ficou até ao ano da sua morte, que aconteceu aos 77 anos em 1567.
 
Durante este longo lapso de tempo, Sua Eminência notabilizou-se por várias obras de índole religioso e social em Viseu, tendo deixado marca indelével nos contornos da cidade que hoje conhecemos.
 
 
 
Preparando a sua morte, concebeu e mandou construir uma capela funerária, na Sé de Viseu, que destinou para seu túmulo pessoal. Para tal, alterou a configuração original do templo e mandou reedificar com o nome de Capela da Cruz a antiga capela de São Sebastião. Mas, tendo falecido antes da conclusão das obras, foi já o seu sobrinho, Miguel Cabedo de Vasconcellos, desembargador da Casa da Suplicação, quem se encarregou da finalização dos trabalhos, para ali tendo transportado o caixão onde descansava o corpo do tio. Pouco tempo depois, foi também ele o responsável pela criação original da Irmandade de Santa Cruz e Passos, cuja sede ficou instalada na dita capela funerária onde ficara o antigo Bispo da cidade.
 
Cerca de três séculos depois, já em 1855, foi restabelecida a irmandade e criado novo compromisso que determinava a transladação da veneranda imagem do Senhor dos Passos desde a antiga Capela da Cruz para a renovada Igreja de São Miguel, que havia sido cedida à irmandade pelo então Cabido da Sé de Viseu.
 
Na cerimónia de recriação do acto, efectuada a 11 de Abril de 1907, foi assinado o compromisso definitivo, pelos 246 Irmãos presentes, tendo sido eleitos os corpos directivos da instituição. Como Provedor foi eleito Luiz Ferreira de Figueiredo; como Secretário, José de Almeida Marques; como Tesoureiro, António Gião Guimarães; como Procurador, António Augusto da Costa e Liz; como Mordomo, António de Figueiredo Caessa; e como Deputados, José Ferreira Baptista e João Maria d’Almeida.
 
 
 
 
Henrique Simões Felgar, industrial têxtil sedeado na Ribeira de Viseu, tomou posse como Irmão da Irmandade de Santa Cruz e Passos de Vizeu, com o número 1541, tendo, de acordo com os estatutos em vigor nessa época, tomado igualmente posse a sua mulher, D. Maria Ermelinda Queiroz.  
 
Com este acto solene, a que não era estranha a imensa devoção de Henrique Felgar pelo significado profundo da Santa Cruz e pelo peso institucional do Senhor dos Passos, em cuja procissão anual participava activamente, reforçaram-se os laços entre o industrial Poiarense e a cidade onde se estabeleceu.

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publicado às 18:07

A Igreja do Espírito-Santo ou da Misericórdia de Rio Maior

por cascalenses, em 08.08.16

 

 
por João Aníbal Henriques
 
Solene e simples, quase perdida no intricado labirinto de ruelas que dão forma ao centro histórico da Cidade de Rio Maior, a Igreja da Misericórdia é um dos mais interessantes monumentos religiosos da região do Ribatejo.
 
Tendo como orago original a Assunção de Nossa Senhora, que terá adquirido já no Século XIX quando a antiga Igreja Matriz fica em ruínas e a Coroa a entrega à Irmandade da Misericórdia, era anteriormente dedicado ao Espírito-Santo, num repto de singeleza que é bem visível nos pormenores construtivos que lhe dão forma.
 
 
 
 
O culto do Espírito-Santo, expressão sagrada de primeira importância na definição dos mais profundos preceitos da irmandade Cristã, pressupõe práticas de abnegação e de entrega ao próximo que estão em linha com o facto de este templo ter sido inicialmente espaço de culto privativo do antigo hospital da localidade.
 
Por vicissitudes diversas, a maior parte das quais relacionadas com a grande dependência que as populações locais sempre tiveram relativamente à agricultura e aos ciclos da natureza, o carácter ecléctico deste templo foi-se adaptando ao ritmo de vida das comunidades locais, adoptando e perdendo sucessivamente muito do seu espólio decorativo.
 
 
 
 
 Para além de ter recebido, em consequência da ruína e da desafectação ao culto de outras igrejas da região, várias peças que outrora haviam estado nesses locais, como acontece com algumas imagens e alfaias religiosas, a Igreja da Misericórdia foi alvo de acrescentos inesperados que lhe dão um carácter de excepção no contexto local e que reforçam o seu interesse por parte de quem a visita.
 
No altar colateral direito, actualmente dedicado a Nossa Senhora de Fátima, é notória a adaptação que sofreu o nicho envolvente, no qual foi inserido um conjunto decorativo do qual sobressai a dedicatória ‘Avé Maria’, sobre uma moldura na qual assume especial importância o crescente lunar invertido. Normalmente associado a Nossa Senhora da Conceição, numa prática hermética que remete para uma cultualidade ancestral e certamente pré-Cristã desta área do actual território Português, tem por significado simbólico a destruição do mal aos pés da Senhora, sendo ela, na sua versão oriental, a Imperatriz que gere as ligações entre o Mundo onde vivemos e o céu. Neste caso específico, provavelmente desenquadrado em termos rituais, até porque a inovação da Senhora de Fátima é bastante recente, julga-se que a definição mais profunda da inovação da igreja venha a ser resultado do cruzamento entre o culto original ao Espírito-Santo e o milagre alquímico associado à figura da Rainha Santa Isabel que é, como se sabe, a rainha da misericórdia. Foi esta Rainha-Santa quem, aliás, desencadeou o processo de escolha da Nossa Senhora da Conceição como rainha e padroeira de Portugal, num processo que deu corpo à assumpção, bastante mais tarde, do dogma da Imaculada Conceição por parte da Igreja Católica.
 
 
 
 
Depois da construção da nova Igreja Matriz de Rio Maior, já na segunda metade do Século XX, a Igreja da Misericórdia volta a perder a dignidade de igreja primaz do concelho, facto que veio a alterar profundamente a dinâmica devocional da cidade. A nova igreja matriz recebeu como devoção a Senhora da Assunção, que até aí tinha estado neste espaço, e recebeu como orago precisamente a Rainha Santa Isabel.
 
De salientar no corpo da igreja o altar-mor em talha dourada de inspiração barroca, a bonita capela baptismal e a imagem da Rainha Santa, junto ao altar lateral onde está a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia. Ara além da singela nave única, em linha com a planificação espacial típica deste tipo de templos e origem ruralizante, o coro alto, preparado para receber a irmandade, que impõe uma linha geral de sobriedade ao espaço.

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publicado às 16:36

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Cercal do Alentejo

por cascalenses, em 01.08.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Sendo provável que o actual edifício tenha substituído um anterior espaço de culto, nada se saber sobre o que existia no local onde agora se ergue a Igreja Matriz do Cercal do Alentejo, com dedicação a Nossa Senhora da Conceição, antes do Século XVIII.
 
De facto, o templo apresenta características vincadas ao período em questão e cumpre integralmente o normativo imposto pela Ordem de Santiago da Espada para a construção deste tipo de estruturas.
Com uma tipologia assente nos princípios basilares da arquitectura vernácula Portuguesa, onde a simplicidade das linhas contrasta com a efusiva decoração rococó, a igreja prima pela sua funcionalidade bem integrada na existência eminentemente rural do Cercal do Alentejo.
 
 
 
 
Na sua fachada, marca presença a espada da Ordem de Santiago, como sempre envolvida pela sugestiva inclusão da flor-de-lis, simbolizando a pureza original e também a singeleza da existência, num ímpeto de criatividade que vem ajudar a distorcer o quotidiano agrícola da população que a frequenta.
 
Localizada no centro da povoação, reformatando a planta geral da localidade a partir do seu eixo devocional, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Cercal do Alentejo, recupera um dos mais ancestrais arquétipos da Portugalidade, assumindo a Conceição de Nossa Senhora como ponto de partir para a viagem simbólica em direcção às origens primordiais da própria humanidade. A senhora que concebe, imaculada por intervenção divina, sendo um dogma recente do Catolicismo, foi desde sempre o principal elemento propulsor da religiosidade Portuguesa, recriando mitos antigos, bem visíveis, por exemplo, na generalidade dos sítios arqueológicos megalíticos, e dando forma a uma noção do sagrado que transcende o próprio real.
 
 
 
 
Na sua origem profunda, o culto à Senhora da Conceição, rainha e senhora de Portugal, transporta-nos para as origens desconhecidas dos antigos cultos pagãos (e mesmo pré-históricos), nos quais a senhora prenha, responsável pela fertilidade das terras e das gentes, se associa sempre á dependência profunda dos ciclos agrícolas e dos desmandos da própria natureza.
 
Singela e simples, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Cercal é monumento angular que nos oferece as pistas necessárias para conhecer e compreender Portugal.

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publicado às 16:02

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Viseu

por cascalenses, em 27.07.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, situada na zona da Ribeira de Viseu, é um dos mais interessantes monumentos da Capital da Beira Alta.
 
O carácter singelo da sua fachada, ostentando a traça típica do Século XVIII e o carácter chão que enquadra a generalidade dos imóveis que se situam junto às margens do Rio Pavia, em Viseu, foi profundamente alterado com a construção, já em pleno Século XX, do seu adro de grandes dimensões e das escadarias monumentais que lhe dão acesso.
 
 
 
 
O carácter sagrado do local onde se situa está bem patente na sistemática reutilização sempre cultual que o mesmo tem. No Século XVI, ali se situava uma antiga capela dedica a São Luís, Rei de França, cuja imagem continua num dos altares laterais da nova igreja. Nos materiais utilizados para a sua construção, encontram-se ainda muitos vestígios reutilizados de outros templos existentes neste local e de antigas capelas entretanto demolidas nas vizinhanças. É o caso das cantarias da antiga Capela de São Jorge da Cava, simbólicas pela conotação eminentemente simbólica da sua evocação, bem como de diversas peças escultóricas ali colocadas e que denotam a importância deste edifício na definição das dinâmicas de culto da Cidade de Viseu.
 
São ainda de salientar, pelo enquadramento cénico que proporcionam, a imensa escadaria colocada junto à fachada e que dá acesso ao adro, numa obra monumental que data do início do Século XX, e o interessante gradeamento que a envolve e que foi oferecido por um devoto Portuense de Nossa Senhora da Conceição. Em 1907 foi colocado no nicho desta escadaria uma imagem antiga do Senhor da Boa Fortuna, cuja proveniência se perdeu.
 
 
 
 
A sua situação geográfica, entre a margem do Rio Paiva e o início de um dos oito troços da Cava do Viriato, faz desta igreja um dos pontos fulcrais numa visita a Viseu, ajudando a perceber a sua permanente ligação à vivência rural das beiras e à singeleza mística de um povo que, apesar de materialmente pobre, foi sempre riquíssimo em termos culturais.
 
 
 
 

 

 

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publicado às 17:49

Deu Lá Deu e o Eterno Feminino de Monção

por cascalenses, em 07.09.15

 

 
por João Aníbal Henriques
 
Existem poucas terras assim! Monção, vila minhota situada no extremo Norte de Portugal, junto na margem do Rio Minho e a um passo da Galega Salvaterra del Miño, teve sempre uma história conturbada e marcada por constante ataques e contra-ataques oriundos do país vizinho.
 
Mas, no furor bélica dos muitos episódios que dão corpo à sua existência, são vários os momentos em que a defesa da localidade e, por consequência, a defesa de Portugal, foram empreendidas com muito êxito por mulheres.
 
Aconteceu no Século XVII, com as intervenções da Condessa de Castelo Melhor e de D. Helena Peres que, em ocasiões diferentes e separadas por um hiato temporal de quinze anos, tomaram em mãos o encargo de defender a sua terra.
 
Mas a mais célebres das Monçanenses, sepultada actualmente na sua Igreja Matriz e oferecendo o seu nome para topónimo da praça principal daquela vila verdejante, foi Deu-la-Deu Martins, casada com D. Vasco Rodrigues de Abreu, o Alcaide-Mor de Monção.
 
Reza a lenda que em 1368, durante a guerra entre o monarca Português Dom Fernando I e o rei castelhano Dom Henrique de Trastâmara, foi montado cerco à vila minhota. A capacidade das forças atacantes era brutal e a duração do cerco foi fazendo mossa nas já muito depauperadas reservas nacionais, a tal ponto que se perspectivava uma rápida capitulação por falta de víveres, água e mantimentos.
 
Num laivo de genialidade a que certamente não é alheio a capacidade estratégica da heroína, a mulher do alcaide decide juntar todos os poucos víveres que restavam e, perante o espanto e certamente a incompreensão dos seus conterrâneos, manda lança-los por terra das muralhas altaneiras que protegem a vila.
 
Os castelhanos, convencidos da prosperidade que se vivia lá dentro, reforçada pelo facto de verem atirar fora mantimentos que eles consideravam essenciais à sobrevivência da população, resolverem então desistir do cerco e abandonar a cidade que desta forma sobreviveu.
 
 

 

Praça Deu Lá Deu - Monção

 

 

Igreja dos Capuchos - Monção

 

 
 

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publicado às 17:23

A Capela de Santo António de Ponte da Barca

por cascalenses, em 02.09.15

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por João Aníbal Henriques

 

Quase parece um contra-senso, num Minho cuja beleza extrema e a opulência da paisagem nos oprimem os sentidos, chamar a atenção para a singela Capela de Santo António, em Ponte da Barca, na qual o principal motivo de interesse é precisamente a forma simples como se integra no espaço envolvente.

 

Datada de finais do Século XVII e princípios do Século XVIII, a capela de Santo António apresenta uma planta simples, de formulação quadrangular, com um alpendre em colunata neoclássica no adro frontal que lhe confere um traço arreigadamente Português.

 

No interior, expectavelmente simples, são de salientar as pedras sepulcrais epigrafadas, contemporâneas do período de construção do templo, que se conjugam com a ostentação envolvente do altar em talha dourada, de formulação evidentemente barroca, mas envolvido pelos traços decorativos que pendem para o maneirismo tradicionalmente Português. O trabalho de Mestre Frutuoso de Azevedo, dourador de relevo que aqui deixou uma das suas obras mais significantes, transporta-nos para uma ambiência radicalmente diferente daquela que caracteriza a Vila de Ponte da Barca, num laivo arrematado de ostentação que define com clareza os objectivos práticos que levaram à construção do próprio templo.

 

Simples sem ser humilde, a Capela de Santo António de Ponte da Barca é indiscutivelmente um dos motivos inultrapassáveis de interesse numa visita ao verdejante Minho Português.

 

 

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publicado às 16:02

O Castelo de Castro Laboreiro (Parque Nacional da Peneda Gerês)

por cascalenses, em 25.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem lugares que estão prenhes de memórias e de vida. Neles subsistem memórias ancestrais, marcadas nas rochas firmes que as sustentam, em laivos de ritos que se repetem milenarmente e que quase tocam a eternidade. Castro Laboreiro, no Concelho de Melgaço, no Norte de Portugal, é um excelente exemplo de um espaço assim. Nele convivem muitas gerações que se cruzam nos seus quereres, nos seus sonhos e nas suas emoções, repetindo-se num monumento cíclico eterno que surge perenes nas paredes, no chão e nas rochas do lugar.
 
Com uma história ancestral, provavelmente contemporânea do nascimento da espécie humana na Terra, Castro Laboreiro ganha o seu topónimo do seu velho e vetusto castelo – ou castro – que estrategicamente colocado no topo do morro nos deixa perceber que importância teve este lugar na definição dos limites territoriais do nosso País.
 
 
 
 
O castelo ou castro, atribuído na literatura mais antiga ao período romano, surge durante o romantismo como sendo de origem árabe, facto que se sustenta na efectiva influência que os norte-africanos tiveram na consolidação do espaço territorial do El-Andaluz. Sabe-se hoje, no entanto, que o castelo é muito mais velho do que isto e que, no deambular transumante da pré-história, seria já um local de extrema importância, pelo menos durante o período de veraneio.
 
As suas raízes celtas, imbuídas no espírito das muitas tribos que aqui estavam sedeadas e que se digladiavam de forma permanente protegendo-se nos fortes e contra-fortes que as serranias proporcionavam, é uma certeza inultrapassável que ajuda a percebe melhor a forma consentânea que o espaço apresenta quando relacionada com a existência ambígua dos seus primeiros ocupantes.
 
Hoje, milhares de anos depois desse período áureo de Castro Laboreiro, a população continua a viver de forma cruza entre as   “inverneiras”, ou seja, os espaços de habitação situados nos vales que envolvem o lugar, como Bico, Cailheira, Curveira, Bago de Cima e Bago de Baixo, Ameijoeira, Laceiras, Ramisqueira, João Lavo, Barreiro, Acuceira, Podre, Alagoa, Dorna, Entalada, Pontes, Mareco, Ribeiro de cima e Ribeiro de Baixo e as “brandas” os espaços ocupados durante o período estival e situados na regiões mais altas que envolvem a localidade. As principais “brandas” são Vila, Várzea Travessa, Picotim, Vido, Portelinha, coriscadas, Falagueiras, Queimadelo , Outeiro, Adofreire, Antões, Rodeiro, portela, Formarigo, Teso, Campelo, Curral do Gonçalo, Eiras, Padresouro, Seara, e Portos. O ritual de passagem de trecos e tarecos entre as duas casas pelas famílias castrejas, repete-se ainda hoje numa espécie de ritual cíclico que perpetua a própria Alma Lusitana neste lugar tão especial.
 
 
 
Os dólmenes situados junto à localidade, ainda hoje motivo que redobra o interesse por uma visita, atestam e testemunham a herança simbólica e sagrada de um espaço que provavelmente só assim explica a sua longevidade.
 
De facto, com uma situação geográfica extrema, Castro Laboreiro viveu durante milénio num isolamento muito profundo, facto que contextualiza a excelente preservação dos seus monumentos mas, também, a manutenção quase se poderia dizer inusitada de uma estrutura de pensamento que se consolida à medida em que os séculos vão passando.  Certo, no entanto, é que as agruras do tempo e do clima e até a própria produtividade da terra são insuficientes para explicar a  teimosia humana em permanecer por aqueles lados, isto se não tivermos em linha de conta a beleza natural que envolve todo o espaço e que é de tal forma impactante que se torna difícil de descrever.
 
Situada em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, que seria por si só motivo que chegaria para explicar o interesse de a visitar, a localidade de Castro Laboreiro vale ainda a pena pelos seus excelentes restaurantes e magnífica gastronomia que oferecem aromas e sabor a uma visita ao local.
Mas no alto, alcandorado nas penhas que protegem a fronteira, o castelo sobrevive ainda, assente nas ruínas que sobreviveram a um raio que o destruiu por completo no Século XIV e que Dom Dinis mandou reconstruir.
 
O caminho íngreme e difícil, num acesso que só é possível fazer-se durante o Verão, transporta-nos até a mais de 1000 metros de altura, deixando antever, aqui e ali, pequenos panos das antigas muralhas. Só quando chegamos lá acima, já bem perto das enormes rochas onde está alicerçada a entrada principal, começamos a perceber o assombroso daquele local. Uma paisagem sem fim, num conjunto de planos infinitos que reforçam a sensação de pequenez e de insignificância que este tipo de locais sempre nos trás.
 
 
 
Classificado como Monumento Nacional desde 1944, o Castelo de Castro Laboreiro foi conquistado por Dom Afonso Henriques em 1141 que lhe terá construído uma torre de menagem isolada que lhe conferiu a configuração tradicional dos castelos românicos.
 
Depois de consolidada a Nacionalidade e de terminadas as lutas fratricidas que deram corpo à independência de Portugal, Castro Laboreiro nunca perdeu da sua importância estratégica, facto que se percebe através de uma análise linear à forma como se situa a sua muralha relativamente à fronteira galega. No seu interior, abaixo do marco geodésico que ocupa o espaço onde estava outrora a torre medieval, existe ainda o redil onde se juntava o gado das redondezas, protegido pelos muros grossos das investidas sempre terríveis de inimigos e animais selvagens.  
 
Em suma, Castro Laboreiro e o seu velho castelo são uma das pérolas inesquecíveis de Portugal. Valem a distância necessária para lá chegar e justificam por si só o passar por lá uns dias de férias.
 
 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 17:10

Alcácer do Sal e a Igreja de Santa Maria do Castelo

por cascalenses, em 19.08.15

 

 
João Aníbal Henriques
 
O exercício cénico que resulta do horizonte verde que se espalha para lá do rio é realidade recente, do Século XIX, quando o arroz substituiu o sal enquanto gerador da riqueza de quantos habitavam naquele espaço. Mas, algures por entre as pedras antigas alcandoradas no topo da colina do castelo, sente-se no ar uma paz desconcertante que contrasta de forma ávida com a guerra que permanente assolou a cidade de Alcácer do sal.
 
Situada no Distrito de Setúbal, a História de Alcácer faz-se de um conjunto muito rocambolesco de rocambolescos episódios que se sucederam de forma sucessiva na construção daquele espaço. Habitada desde a pré-história, quando o local onde hoje se situa a Pousada Dom Afonso II era já um espaço amuralhado para defender o precioso sal, a cidade foi descendo a colina até à beira-rio, à medida que se apaziguavam os ânimos e se estabeleciam os poderes definitivos que lhe conferiram a formulação espacial que hoje nos apresenta.
 
Salacia Imperatoria Urbs, dando corpo e fazendo jus à riqueza de sempre de Alcácer do Sal, foi sempre ponto de referência neste troço final do Rio Sado, impondo-se à realidade nativa pré-existente e abrindo caminho para a magnificência imperial que os Árabes souberam aproveitar.
 
 
 
 
Embora não esteja ainda provado, pois as campanhas arqueológicas ainda seguem inconclusivas, parece que o local onde se situa a actual Igreja Matriz, teria sido anteriormente a Mesquita Maior do tempo dos Árabes. O certo, porque subsistem hoje vários elementos dessa época integrados na arquitectura cristã e tardo-românica que a caracteriza, é que há cerca de dois mil anos,  a Igreja de Santa Maria do Castelo seria um templo romano. E, mais importante ainda, as colunas que estão visíveis na estrutura actual comprovam que o edifício romano subsistia quando se procedeu à reforma da Igreja, nos idos do Século XIII, que lhe conferiu o aspecto actual.
 
Reconquistada em definitivo para a cristandade em época já tardia e quando reinava Afonso II, depois de um processo muito complicado de conquistas e reconquistas que se prolongou praticamente desde a fundação da Nacionalidade, a cidade foi-se aglomerando inicialmente dentro do perímetro amuralhado, principalmente no espaço situado junto à igreja, e só posteriormente se alastrou ao declive que nos leva até ao Sado.
 
A Igreja Matriz, espécie de sentinela altiva guardando as memórias dos tempos e das eras que por ali deixaram marcas, foi classificada como Imóvel de Interesse Público em 1951 e partilha a sua localização privilegiada com o antigo paço real onde actualmente funciona a pousada (e onde se diz que será criado um espaço museológico para expor os muitos materiais de grande interesse e importância que foram sendo recolhidos na região).
 
 

 

 

 

 
 

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publicado às 13:24

A Capela de Nossa Senhora da Conceição em Arcos de Valdevez

por cascalenses, em 13.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem locais que transcendem o tempo com a sua capacidade de atravessar incólumes as eras pelas quais a humanidade vai passando. É o que acontece num dos recantos menos conhecidos mas mais emblemáticos de Arcos de Valdevez na antiquíssima capela de Nossa Senhora da Conceição.
 
O vetusto monumento, erigido provavelmente ainda no Século XIV quando Dom Fernando, o Formoso, ainda respirava saúde e a Rainha Leonor Teles, a Aleivosa, se entretinha com o estrangeiro João Fernandes  Andeiro, é um dos mais interessantes exemplares da arquitectura românica do Norte de Portugal.
 
Essencialmente com cunho funerário, remetendo para os ancestrais arquétipos da Senhora da Conceição, a que concebe, a capela apresenta uma formulação espacial sóbria ao gosto da sua época, apesar das alterações impostas na transição para o período gótico, como o arco da frontaria principal e, mais recentemente, pelo altar de orientação “quase” barroca e já de finais do Século XVIII.
 
Na sua intemporalidade solidamente arreigada ao poder das grossas cantarias que a sustentam, a Capela de Nossa Senhora da Conceição de Arcos de Valdevez remete-nos para um imaginário profundamente ligado ao período de consolidação da nacionalidade, no qual a memória antiga associada à Identidade de Portugal se mostra no seu total esplendor, oferecendo um espectáculo emocionante no qual os princípios de uma religiosidade católica muito profundamente sentida se misturam com os laivos distantes de uma espiritualidade ainda bárbara mas significante.
 
 
 
 
A Senhora da Conceição, venerada aqui através de um monumento que deixa antever a orientação sagrada da própria localidade, assume simultaneamente a sua fácies Cristã e pagã, num esforço de gerar consensos que estabeleçam pontes entre o passado e o futuro daqueles que por ali lutam quotidianamente por uma sobrevivência sã. A morte e a vida, partilhando aqui uma espécie de universo místico que contrasta de forma evidente com a vida quotidiana que se vive lá fora, dão o mote para o choque dual entre os contrastes formados pela luz e pela sombra, pelo calor e pelo frio e pela magia e misticismo que se impõe à religiosidade canónica da comunidade envolvente.
 
São emoções únicas que valem a pena conhecer em Arcos de Valdevez.
 
 

 

 

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publicado às 11:12

O Forte do Pessegueiro em Porto Côvo

por cascalenses, em 12.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O Forte do Pessegueiro, situado junto à praia homónima no Lugar de Porto Côvo, Concelho de Sines, resultou da adaptação de uma antiga fortificação marítima construída pelo Arquitecto Italiano Filipe Terzio em 1588 a mando do então Governo Espanhol.
 
Cruzando fogo com a Ilha do Pessegueiro, faixa de terra de sabor romântico situado em frente ao lugar de Porto Côvo e onde existiam duas batarias de defesa de costa, o forte também é designado por Forte de Nossa Senhora do Queimado, por Forte da Ilha de Dentro ou por Forte de Santo António do Pessegueiro. Desta maneira, um pouco ao sabor dos rocambolescos episódios que deram forma à história de Portugal naquele final do Século XVI, a fortificação servia de garante contra desembarques indesejados nas enseadas amenas que existem no local e impedia o aproveitamento dos extensos areais por eventuais tropas invasoras que pretendessem retomar a defesa de Portugal.
 
Em 1590, já com nova plataforma construída a partir de desenhos de Alexandre Massai, o forte foi adaptado com a colocação de quatro peças de artilharia que reforçavam o seu poder de fogo e a sua capacidade de actuação em possíveis cenários de invasão.
 
De resto, depois da restauração da independência, em 1640, o forte esteve sujeito a um período de abandono do qual só recuperou já em 1690 quando o engenheiro militar João Rodrigues Mouro projectou uma nova construção de raiz no mesmo local mas que fez desaparecer por completo os vestígios das construções anteriores.
 
Peça essencial na defesa costeira de Portugal, o forte integra ainda uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Queimada, tendo desempenhado papel de extraordinário relevo ao contribuir para o reforço da independência nacional ao longo das muitas tentativas de recuperação do poder por parte dos invasores espanhóis.
 
São de realçar, para além dos baluartes triangulares que lhe emprestam o ar austero que ainda ostenta, o enorme fosso que o envolvia, obrigando à construção de uma ponte que transforma a frontaria e a porta de entrada numa espécie de castelo medieval. Vale a pena a visita pela extraordinária integração na paisagem e pelo impacto visual conferido pela maravilhosa Ilha do Pessegueiro.
 

 

 

 

 

 

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publicado às 17:36

至尊旅行 in Beijing, Shanghai and Guangzhou

por cascalenses, em 27.05.15

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葡萄牙是克里斯蒂亚诺·罗纳尔多(C罗)的故乡,距离当初这里的水手们奔向大海的怀抱,创造连接东西方的历史,已经有超过五百年的时间了。我们的“至尊旅行”将会为您提供一次难忘的葡萄牙之旅,那里是太阳落下的地方,是欧洲最靠西的边缘,在那个美丽的地方,交织着令人难忘的历史遗迹与最引人注目的风景。它会让你觉得正在走进一个历史厚重,传统丰富的国度。现如今,它已经成为欧洲一个时尚的旅行地,一个阳光和魅力交相辉映的国际大都市。  
 
我们的“至尊之旅”,会为您提供一位时刻陪伴左右的中国导游,他将同时担任您的翻译。在旅行中,不仅有中国传统的美食,我们还为您提供了葡萄牙最好的美食与美酒与之互补,并有欧洲最负盛名的商业空间可供参观。在“至尊之旅”的合作酒店中,会对中国旅客提供特殊的照顾,有传统的中式早餐、中国人常穿的拖鞋以及普通话的电视频道。相信这一切,都是让您下一次旅行成为一场至尊之旅的必备要素。

 

 

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publicado às 10:23

As Duas Arcas do Castelo de Montemor-o-Novo...

por cascalenses, em 27.04.15


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por João Aníbal Henriques

Há muitos anos, durante o domínio árabe, vivia no Castelo de Montemor-o-Novo um castelão muito rico que tinha uma filha formosa e casadoura. Enquanto ele procurou encontrar um noivo rico para desposar a menina, ela apaixonou-se por um simples e pobre soldado malgrado a oposição do pai. Sem dele conseguir obter a aprovação de que necessitava para casar com o seu apaixonado, a menina resolve fugir do castelo abandonando definitivamente o seu lar. O castelão, apesar dos muitos esforços que fez para recuperar a sua filha, chegou ao fim da vida roído pelo desgosto de não a voltar a ver. Na hora da morte, ao dispor dos seus bens, resolveu deixar-lhe tudo o que tinha, pedindo encarecidamente que a encontrassem e a informassem desta sua derradeira decisão. Mas não foi linear na forma como o fez… depois de encher uma arca com toda a sua riqueza, encheu uma segunda arca, absolutamente igual à primeira, com uma enorme maldição, instando a filha a escolher bem aquela que desejava abrir em primeiro lugar. Quando chegou ao castelo para recolher a sua herança, a filha foi informada deste desígnio e, com medo de abrir em primeiro lugar a terrível maldição, não ousou escolher, tendo optado por deixar no castelo ambas as arcas, uma com um grande tesouro e a segunda com uma terrível maldição. Reza a lenda que ainda hoje, passados muitos séculos desde este nefasto acontecimento, estão enterradas algures no Castelo de Montemor-o-Novo as arcas em questão. Resta encontra-las e ter a coragem de arriscar ser tocado pela ancestral maldição!

 

 

 

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publicado às 17:08

Quando o Estoril era um Destino Turístico de Excelência

por cascalenses, em 08.04.15

 

 
 
Noutros tempos as prioridades eram diferentes. Cascais criou e desenvolveu a marca 'Estoril' queservia de base à sua promoção internacional. O Estoril logo se tornou numa referência mundial em termos de turismo de qualidade e, quando o poder político actual decidiu extingui-lo, era o terceiro destino turístico mais pujante de Portugal... São opções que põem em causa os interesses de Cascais e dos Cascalenses.
 
 

 

 

 

 

 

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publicado às 12:05

A Quinta do Pisão e o Casal de Porto Côvo em Cascais

por cascalenses, em 09.03.15

 

 

 

por João Aníbal Henriques
 
Com uma situação extraordinária, nas faldas da Serra de Sintra e localizada a Sul da albufeira da Barragem do Rio da Mula, a Quinta do Pisão é um dos mais inesquecíveis recantos encantados de Cascais.
 
A sua História muito longa, que remonta (pelo menos) ao Calcolítico e à Idade do Bronze, pois existem vestígios de ambas as épocas na Gruta de Porto Côvo (ou do Rei), situada a Norte do antigo Casal de Porto Côvo, estende-se em ligação estreita aos ciclos da natureza e aos processos agrícolas mais tradicionais.
 
Desde sempre assente na fertilidade da terra, a exploração da Quinta do Pisão foi sempre a actividade primária naquele espaço no qual os cereais assumiram  especial importância. Como registo dessa actividade, que abastecia Cascais, restam ainda diversas estruturas agrícolas como eiras, moinhos e azenhas, associadas ao aproveitamento das águas que a atravessam de forma marcante vindas da serra. Paralelamente, principalmente nas zonas e lameiros que circundam o actual Centro Social, a horticultura aproveitava uma parte substancial dos solos da antiga quinta, actividade que era complementada com a produção de leite e com uma interessante exploração da rocha calcária que por ali abunda e que era utilizada como matéria-prima para a produção de cal, em vários fornos dos quais ainda subsistem vestígios no local.
 
Digna de uma nota especial, é ainda a presença da antiga Ermida de Nossa Senhora da Assunção (ver aqui a nota sobre a história e as memórias da Ermida de Porto Côvo), com raízes históricas que certamente serão pré-Cristãs e que, inserida no conjunto ritualístico matriarcal associado à Serra de Sintra (ou da Lua), era o espaço fulcral de uma devoção profunda que subsistiu até meados do Século XX e se inseria nos principais círios devocionais Cascalenses.
 
Actualmente reaproveitada como estrutura de lazer, a Quinta de Porto Côvo é um destino de excelência para passeios pedestres em família e, enquanto pólo aglutinador de uma biodiversidade extraordinária, um importante sustento para actividades pedagógicas a realizar pela comunidade educativa do concelho.
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

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publicado às 13:08

O Beco do Chão Salgado e o Processo dos Távoras em Belém

por cascalenses, em 24.02.15

 



 
No meio das mais macabras estórias que dão forma à História de Portugal, o processo que culminou com a execução da Família Távora, em Lisboa no tempo do Rei Dom José, é certamente um dos mais rocambolescos e enigmáticos, tendo deixado vestígios que sobrevivem passados mais de duzentos e cinquenta anos.
 
por João Aníbal Henriques
 
Estando situado numa das zonas mais movimentadas de Belém, a poucos metros do Mosteiro dos Jerónimos e dos afamados Pastéis de Belém, o Beco do Chão Salgado é desconhecido e passa despercebido da maioria dos muitos visitantes que por ali deambulam.
 
O pequeno beco, apinhado de casario que foi enchendo o antigo terreiro no qual havia sido proibido construir, está marcado por um obelisco em pedra que perpetua um dos mais significantes momentos da nossa história.
 
 
 
 
Depois do terramoto de 1755, que destruiu a Baixa de Lisboa e o palácio real que se situava no antigo Terreiro do Paço, o Rei Dom José e a Corte ficaram provisoriamente instalados na Ajuda, num conjunto de barracas montadas para o efeito e para onde foram transportados todos os luxos e mordomais da Casa Real.
 
Numa das suas incursões à cidade, dizem as más línguas que para visitar umas amigas, o rei terá sido alvo de um atentado em 1758, quando regressava à Ajuda, desencadeando um processo judicial complexo e pouco transparente que alterou por completo a História Moderna de Portugal e do qual ainda hoje não se conhecem nem os contornos, nem a substância e muito menos a realidade efectiva do que aconteceu.
 
O Marquês de Pombal, aproveitando a oportunidade para resolver o problema político que mais o apoquentava na época, ou seja, as permanentes tentativas por parte da velha nobreza para condicionar o poder e para impedir o absolutismo real, conseguiu que a acusação incidisse sobre a Família Távora que foi condenada, sem provas, pelo atentado à vida do rei.
 
 
 
 
Logo depois do atentado foram presos dois homens que, em declarações prestadas à polícia sob tortura, acusam os Távoras de lhes terem pago para perpetrar o crime, com o objectivo de colocar o Duque de Aveiro no trono.
 
Embora negando a autoria do atentado, toda a Família Távora foi condenada à morte, inclusivamente mulheres e crianças, num espectáculo público de execução a que assistiram milhares de Lisboetas. Por intercessão da rainha e da princesa herdeira, muito marcadas pelo carácter macabro do caso, as crianças acabaram por ser poupadas, sendo que não foram capazes de salvar a Marquesa de Távora que foi executada juntamente com os homens da sua família.
 
Depois de terem as mãos e pés partidos para deleite do rei, que assistiu a todo o macabro espectáculo, e de terem sido massacrados perante o resto da corte e da demais nobreza do reino que assistiu perplexa a um acontecimento encenado para deixar bem claro quem mandava em Portugal, todos os membros da família foram decapitados e queimados, sendo as suas cinzas deitadas ao Rio Tejo.
 
 
 
 
Depois de os seus bens terem sido confiscados e as famílias apagadas dos registos da nobreza Portuguesa, o Palácio do Duque de Aveiro, em Belém, foi demolido, tendo todo espaço sido coberto de sal e decretada a impossibilidade de se voltar a construir por ali o que quer que seja. No local foi construído um obelisco com vários círculos concêntricos simbolizando cada um dos elementos da família que foram executados, com a seguinte inscrição: "Aqui foram arrasadas e salgadas as casas de José Mascarenhas, exautorado das honras de Duque de Aveiro e outras condemnado por sentença proferida na Suprema Junta de Inconfidência em 12 de Janeiro de 1759, justiçado como um dos chefes do bárbaro e execrando desacato que na noite de 3 de Setembro de 1758 se havia cometido contra a Real e Sagrada pessoa de Dom José I. Neste terreno infame se não poderá edificar em tempo algum".


 
 
Simbolizando a devastação total e o apagar completo da memória daquelas gentes, o Beco do Chão Salgado foi, até à morte do rei Dom José e a chegada ao trono da Rainha Don Maria I, que nunca apoiou nem teve simpatia pelo Marquês de Pombal, um dos mais impactantes símbolos do poder político em Portugal.
 
Dois séculos e meio depois, são poucos os Portugueses que conhecem a história e muito menos aqueles que já visitaram este sítio tão especial. A memória do Chão Salgado, naquele recanto escuro de Belém, é a prova-viva de que, ao contrário do que se costuma dizer, os brandos costumes dos Portugueses nem sempre são para levar à letra…
 
 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 17:05

O Milagre Alquímico de Estremoz

por cascalenses, em 01.12.14

 

 

Existem cidades que são mais do que uma mera cidade. Estremoz, assente na brancura imaculada do seu mármore de qualidade conhecida e reconhecida internacionalmente, é um desses espaços especiais. Conjuga uma história milenar com um vastíssimo rol de histórias e lendas que, oferecendo-lhe a grandiosidade das grandes capitais, a envolvem num laivo de glamour que envolve quem tem a sorte de nela se perder.
 
por João Aníbal Henriques
 
Estremoz é uma cidade especial. Dividida em duas partes que se conjugam operando como dois pólos de atracção junto daqueles que a visitam, a cidade comporta um intrincado e emaranhado conjunto de ruelas antigas que dão forma ao seu espaço medieval, compartimentado dentro das muralhas do seu ancestral castelo, e o amplo espaço moderno, que se espraia ao longo da planície, com as suas praças bem delineadas e os monumentos que valorizam cada esquina.


 
 
Quem entra em Estremoz pela primeira vez, fica imediatamente marcado pelo impacto que resulta da sua torre medieval. Do alto da colina onde assenta o núcleo mais antigo do burgo, a torre é possivelmente o mais antigo monumento da cidade, uma vez que o palácio real, bem como todo o quarteirão envolvente, foi completamente destruído por uma misteriosa explosão acontecida durante uma noite de Inverno no Século XVII.  À sua volta, com aquele tom intimista que a cidade ainda tem, tudo o resto são reconstruções mais recentes, sendo que a grande maioria foi construída durante o reinado de Dom João V e com o apoio da Casa Real.
 
Apesar de aparentemente não fazer qualquer sentido, pois sendo cidade pequena quando comparada com as capitais de Évora, Portalegre e Beja que a envolvem, a monumentalidade e a grandeza de Estremoz prende-se com o carácter simbólico que subjaz da sua história muito especial.
 
O primeiro personagem grande da História de Estremoz, depois de uma longa ocupação humana que se pressupõe ter começado ainda na Pré-História mas que teve momentos de grande fulgor durante o período Romano e, mais tarde, sob domínio Muçulmano, é Geraldo o Sem Pavor, herói mítico do Alentejo que, sob ordens de Dom Afonso Henriques, terá reconquistado para a Cristandade grande parte das cidades do Sul de Portugal. Sabe-se que Geraldo conquistou Estremoz em 1185 e que, mercê do período conturbado que então se vivia, ela foi perdida e reconquistada muitas vezes até ter entrado em definitivo na posse dos Reis de Portugal. Em 1258, pela mão de Dom Afonso III, recebeu o seu primeiro foral, facto que sustenta e comprova a importância que tinha no contexto da consolidação política nacional.
 
De entre outros, foi Dom Dinis um dos principais impulsionadores dessa importância relativamente à cidade. Foi ele quem, possivelmente por gosto pessoal relativamente ao espaço e à paisagem, mandou edificar o Paço Real e a torre de menagem atrás mencionada, que passaram a funcionar como baluarte da defensão do reino nas paragens longínquas do Alentejo.


 
 
O seu topónimo – Estremoz – é, aliás, um repositório importante dessa situação extrema em que se encontra a cidade, localizada numa zona de fronteira e sempre sujeita às vicissitudes e às pressões que dela derivavam.
 
A Rainha Santa Isabel, ligada de forma indelével e permanente aos destinos de Estremoz, onde aliás morreu em 1336, vê reforçados os seus laços com a urbe como consequência desse facto. A sua santidade, mais do que ao milagre das rosas, que lhe dá fama, fica a dever-se ao trabalho que efectivamente fez pela paz no reino de Portugal e que, por vicissitudes diversas, a traz amiúde até estas paragens.
 
Filha do Rei de Aragão e de uma princesa Italiana, Isabel casou com Dom Dinis e sofreu em vida as amarguras de um casamento do qual parece que resultou pouca afeição. O rei, conhecido admirador do belo sexo, dedicava-se pouco à sua santa esposa e procurava amiúde o folguedo junto das damas da região. Conhecida pela sua bonomia, a rainha terá sido conivente com tal situação, recebendo no paço, onde lhes facultava condições de vida e uma educação semelhante à que dava aos seus filhos naturais, os vários bastardos reais.


 
 
O futuro Dom Afonso IV, seu filho primogénito e legítimo herdeiro do trono, foi ele próprio alvo dessa situação, dado que o seu pai, tendo preferência por um dos seus filhos bastardos, teimou em deixar-lhe por herança o reino de Portugal. O príncipe, defendendo os seus direitos, terá dado início à primeira guerra civil da nossa história, que teria sido muito mais sangrenta se não fosse a intervenção permanente da sua mãe a Rainha Santa Isabel.
 
Em 1336, a antiga rainha que havia professado em Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, onde desejava passar os seus últimos dias ajudando os pobres, vê-se obrigada a nova e derradeira viagem a Estremoz para evitar uma nova guerra do seu filho agora já rei com o seu cunhado Rei de Castela. Deixando Coimbra carregada de peste, a rainha sucumbe em Estremoz, não sem antes evitar novo derramamento de sangue e de ter deixado expressa a sua vontade de ser sepultada em Coimbra conforme havia planeado fazer.
 
O cortejo fúnebre, que se alongou durante vários dias sob o calor tórrido do Julho no Alentejo, transportou os restos mortais da rainha de Estremoz até Coimbra. O caixão, levado em ombros pelas principais personagens do reino, acabou por rebentar durante o percurso, deixando sair um líquido viscoso que se ia espalhando ao longo do trajecto. Mas, para surpresa e gáudio dos que tiveram a sorte de participar neste triste evento, o líquido que saia deixava no ar um forte aroma a flores que reforçou a aura de santidade que já se atribuía à rainha. Não se sabendo com exactidão quanto haverá de lenda e de realidade nesta história, o certo é que, muitos séculos depois, quando o caixão voltou a ser aberto quando se procedeu à transladação do corpo de Santa Clara-a-Velha para Santa Clara-a-Nova, se encontrou incorrupto o corpo da rainha, sendo que ainda hoje, quase setecentos anos depois da sua morte, se expõe a sua mão à devoção dos Portugueses.


 
 
Mas para além de Geraldo – o sem pavor, de Dom Dinis – o plantador de naus a haver, e da rainha Santa Isabel, também por Estremoz passaram outras ilustres figuras que ajudam a perceber a real importância desta cidade única de Portugal. Em 1367 morreu em Estremoz o Rei Dom Pedro I, muitos anos depois dos míticos e românticos amores com a sua eterna apaixonada Inês; Em 1385, foi Estremoz das poucas praças que sem vacilar apoiou a Causa Nacional durante a crise que levou ao trono o Mestre de Avis e que deu forma à Ínclita Geração, tendo sido dali que Dom Nuno Álvares Pereira, o Condestável Santo que fez nascer a Casa de Bragança e aquela que virá a ser a última das dinastias no trono de Portugal, saiu para as batalhas dos Atoleiros e de Aljubarrota, dando corpo a uma defesa total e intransigente do interesse Nacional. Da mesma maneira, alguns anos depois, é a Estremoz que o rei Dom Manuel I se dirige para entregar a Vasco da Gama a importante tarefa de descobrir o caminho marítimo para a Índia e de estabelecer o contacto com o Prestes João…
 
Não se percebendo bem de onde vêm tão ilustres pergaminhos, perdidos no sem-sentido que dá forma à história local, o certo é que Estremoz conjuga em si própria os encantos maiores do Sul de Portugal. Tal como o País vai sobrevivendo quase incólume às muitas desgraças que dão forma à sua história maior, também Estremoz reafirma a sua Portugalidade em torno de feitos e acontecimentos que se conjugam no plano das ideias ara dar forma ao desígnio maior da nação.
 
 
Visitar Estremoz, subindo ao amplo terraço que se encontra no topo da Torre de Menagem, é ser capaz de reviver os passos difíceis que por ali deram os nossos ancestrais avós, abarcando com a vista a amplitude infinita da paisagem alentejana. Deslumbrante e avassaladora, a brancura de Estremoz acompanha a beleza extraordinária do seu mármore que, depois de um processo alquímico associado à purificação maior das impurezas que o compõem, se transforma na pedra maior que dá forma ao que de melhor se construiu em Portugal. Está por todo o lado, nas asas, nas ruas e nos lambris dos passeios. Mostra-nos a altivez, o charme e a riqueza deste recanto mágico de Portugal.  








 

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publicado às 16:36

Sem Mãos em Vouzela e os Símbolos de Portugal

por cascalenses, em 27.11.14

 

 
 
A honra e a glória andam quase sempre a par nos momentos mais marcantes da História de Portugal. Gente houve que, virando as costas ao sofrimento e à morte, ofereceram as mãos, os braços e a própria vida para salvar Portugal. Foi o que aconteceu com Duarte d’Almeida, o decepado de Toro, que recebeu o Paço de Vilharigues como prova do reconhecimento real pelos membros que deixou em terras de Castela.
 
por João Aníbal Henriques 
 
O heroísmo faz parte da História de Portugal. Num país que quando analisado de forma cuidadosa se percebe de imediato que não tem nenhuma razão pragmática que explique a sua independência e o facto de ter conseguido sobreviver a estes quase 9 séculos, assumem especial importância os actos heróicos de gente que foi capaz de superar os limites da existência e da racionalidade prática que dá forma à vida em sociedade. Foram eles quem tornou possível a existência de Portugal, concretizando autênticos milagres que são essenciais para se perceber este País extraordinário.
 
Em Vouzela sobrevivem hoje os resquícios únicos de um desses milagres excepcionais. O Paço de Vilharigues e a lendária estória do Decepado de Toro, o porta-estandarte do exército Português que, em 1476, ofereceu as mãos os braços para salvar a bandeira Nacional, são o presente de reconhecimento que a coroa entregou ao herói que deu forma a um dos mais marcantes (e desconhecidos) episódios da História de Portugal. Não existem provas da presença de Duarte d’Almeida neste lugar. Mas o que importa isso perante o valor tão grande deste símbolo excepcional?
 
No centro da Cidade, ali mesmo onde a solidez da pedra se impõe na arquitectura românica da Igreja Matriz de Vouzela, sente-se o peso de vários milhares de anos de História.
 
Vouzela sempre foi uma cidade importante. Embora seja dos Romanos que resta o maior número de vestígios, bem documentados através dos marcos miliares que nos permitem conhecer o emaranhado de muitas estradas que ligavam a cidade directamente a Roma, são pré-Históricas as origens deste espaço, carregando consigo os episódios rocambolescos que várias gerações foram acrescentando à História do lugar.
 
Apesar disso, o desígnio de Vouzela é uma lenda, perdida nos tempos e na tradição popular. Duarte d’Almeida, o decepado alferes-mor de Dom Afonso V, que está indelevelmente ligado a cada canto e recanto da localidade. Não se sabendo se existiu de facto, é ele o mítico senhor da região de Dão-Lafões que perdura nas memórias do povo e que transborda nas pedras duras que dão forma às casas, aos monumentos e à fácies da cidade.
 
A partir do alto da Senhora do Castelo, onde ainda se vislumbram os restos de um antigo castro que defendia as populações locais durante o conturbado período do neolítico, percebe-se bem a grandeza das terras de Vouzela. A Senhora do Castelo, ou da Esperança, conforme surge em alguns documentos medievais, dá o mote a um espaço com ocupação comprovada desde a pré-História e desde sempre de importância estratégica na salvaguarda e na segurança da cidade situada no sopé do monte. As duas interessantes sepulturas antropomórficas existentes no local, escavadas na rocha que também serviu para construir as muralhas que deram forma ao castro e que serviram pelo menos até à época medieval, mostram bem a ligação quase irracional que existe entre a vida e a morte neste local. Interagindo, o espaço dos vivos e o espaço dos mortos complementam-se, da mesma forma como se complementam os sonhos e os anseios da população actual com os vestígios, reais e imaginários – o que importa? – dos antigos que por lá viveram.
 
Reza o ditado popular que “triste é o povo que precisa dos seus inimigos para honrar os seus heróis”… e é isso precisamente que representa o Paço de Vilharigues, em Vouzela, tradicionalmente apontado como a casa do alferes-mor de Dom Afonso V, Duarte d’Almeida, conhecido como o “decepado” por ter perdido as mãos e os braços na batalha de Toro.
 
A armadura do alferes-mor Português, entendido pelos “inimigos” espanhóis como um herói corajoso e intrépido que foi capaz de se entregar pela causa que representava, está exposto em lugar de grande destaque na Capela de Santiago (Patrono de Espanha), na Catedral de Toledo, homenageando o herói nacional.
 
Responsável pelo pendão Nacional naquela batalha, Duarte d’Almeida foi perseguido pelo inimigo que lhe cortou a mão com a qual segurava o símbolo de Portugal. Continuando a lutar, o alferes-mor passou a bandeira para a outra mão que lhe foi cortada de seguida. E antes de cair, num espectáculo de sangue e sofrimento que serviu para preservar a honra de Portugal, ainda conseguiu segurar a bandeira com a boca para a entregar a um compatriota que a colocasse a salvo.
 
 
Em Espanha é homenageado como herói. Em Portugal ninguém sabe que ele foi nem que entregou a própria vida para salvar Portugal…

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publicado às 12:09

Gestão Pública e Privada na História do Monte Estoril

por cascalenses, em 21.08.14

 

 
 
por João Aníbal Henriques
No Monte Estoril, foi criada de raiz a partir de 1880 uma estância habitacional e turística que funcionou como motor de um estereótipo urbano que, após ter sido importado das mais cosmopolitas cidades europeias, se adaptou perfeitamente ao devir social e histórico das localidades cascalenses.
A Companhia Mont’Estoril, que em 1890 tinha como principais accionistas o Conde de Moser, Carlos Pecquet Ferreira dos Anjos, a Sociedade Agrícola e Financeira de Portugal e o Banco Lisboa & Açores foi sempre, desde a sua fundação, o exemplo ideal de um projecto global de urbanização que se deparou com os problemas resultantes das muitas questiúnculas de pequena importância que impedem o excelente cumprimento do desiderato que inicialmente se propõe. De facto, quando foi criado, a Companhia Mont’Estoril pretendia unicamente transformar o Pinhal da Andreza, espaço vazio onde, segundo Branca Colaço e Maria Archer, se ouvia somente o sussurrar permanente do pinheiral, numa estância de renome internacional na qual a qualidade de vida urbana, assumidamente assente na vertente privada de todas as componentes urbanas do empreendimento, se assumia como principal objectivo.
 
 
Para o cumprir, os primeiros impulsionadores deste projecto, utilizando o prestígio social e profissional de cada um, recorreram a capitais privados para adquirir toda a área de implantação do actual Monte Estoril [excepção feita ao Monte Palmela]. Posteriormente, e dando mostras de uma larga criatividade que transcendia de forma absurdamente extraordinária tudo aquilo que se afigurava como procedimento normal em Cascais ou em Portugal, entenderam ser essencial que se procedesse a uma planificação prévia e minuciosa de tudo aquilo que se pretendia fazer. No âmbito desta actividade, foram projectados os arruamentos, a distribuição de água, as infra-estruturas primárias  como esgotos, iluminação, etc., as construções, e mesmo os pormenores decorativos de cada um dos equipamentos que haveriam de servir a nova localidade.
 
 
Como é evidente, sobretudo se pensarmos que no local onde a Companhia Mont’Estoril pretendeu erguer a sua novíssima estância, existia um espaço sem uso que envolvia uma das mais agradáveis zonas costeiras do Concelho de Cascais, fácil se torna perceber que a sua utilização como passagem pública seria óbvia, evidente e natural. De facto, povoações situadas a Norte do Monte Estoril, como a Amoreira, o Casal do Giraldo, Alcabideche ou Alcoitão, serviam-se de caminhos milenares que atravessavam o Pinhal da Andreza para aceder aos seus lares. Quando a nova companhia se instalou, dando início ao processo de urbanização, jamais se pensou em coarctar os direitos de atravessamento que ali existiam, nem tão pouco em privar as populações das redondezas daquilo que haviam sido as principais linhas que orientaram até aí a sua existência.
Apesar de tudo, e como consequência de um conjunto de querelas levantadas por parte de alguns dos inquilinos das propriedades da Companhia, no ano de 1900, o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Jayme Arthur da Costa Pinto, envia aos Directores da Companhia Mont’Estoril um ofício indicando que a pedido de um grupo de moradores da localidade, a edilidade iria proceder a uma vistoria coerciva à urbanização com o intuito de garantir que fica salvaguardado o livre trânsito e os direitos de propriedade dos requerentes.
Como resposta a esta missiva, e demonstrando que a legitimidade inerente ao carácter privado do empreendimento e ao conjunto de espaços de uso público que o integravam, se via reforçada com esta forma de gestão urbana, os administradores da Companhia Mont’Estoril, Arthur de Souza Tavares Perdigão e Carlos da Costa Osório, sublinham junto do Presidente que a edilidade não tem qualquer espécie de direitos nos terrenos pertencentes àquela entidade, tendo sido, por isso, ilegal, a vistoria que haviam anteriormente anunciado. Em termos que podemos considerar pouco próprios para lidar com uma instituição de sublinhada legitimidade como era a edilidade cascalense, os dois responsáveis indicam à câmara que, caso seja necessário, enviarão para a justiça este tipo de procedimentos: “Não reconhecendo direitos alguns à Câmara Municipal de Cascaes, ou a qualquer particular, contra a posse e propriedade da Companhia, e estranhando o procedimento havido, «por acto particular», sem processo judicial nem ordem de juiz, invadindo propriedade alheia, esta Companhia expoz sua situação legal e protestou contra o que se pretendia praticar. [...] Todos estes actos são até previstos e punidos no Código Penal”.
 
 
 
O ilustrado Presidente da Edilidade, remetendo para o uso milenar daqueles acessos por parte da população circunvizinha, responde aos proprietários que se não podem tolerar interferências de particulares na gestão corrente dos espaços públicos municipais: “Acusando a recepção do ofício de V.Exªs. de 11 do corrente, cumpre-me , em nome da Câmara da minha presidência, declarar que, as Ruas e Avenidas do Mont’Estoril, há anos abertas ao trânsito e ao serviço público, não estão, nem podem estar sujeitas aos caprichos ou interesses de qualquer particular, tanto mais, que, algumas daquelas vias públicas, são apenas variantes dos antigos caminhos para os lugares da Amoreira, Alcabideche e outros”.
 
 
 
A dualidade entre o público e o privado, contrapondo decisões consideradas essenciais pela administração da estância turística do Monte Estoril com necessidades de gestão corrente da edilidade, ficou cada vez mais evidente, à medida em que se foram esbatendo as características privativas e elitistas da Companhia que, com a proibição do jogo, viu altamente prejudicada a procura aos seus serviços e se viu constrangida a vender largas parcelas da sua enorme propriedade inicial. Na querela levantada por um grupo de moradores e/ou proprietários de lotes no Monte Estoril junto da Câmara Municipal, é visível a perda progressiva da força urbana da Companhia, bem como a diluição dos rígidos princípios doutrinários que haviam enformado a criação daquela nova localidade e que, como todos bem sabemos, haviam sido os principais responsáveis pelo elevado índice de qualidade até aí apresentado. No conjunto de correspondência trocada entre as duas instituições, o edil Jayme Arthur da Costa Pinto chega ao ponto de ostensivamente sugerir o recurso aos tribunais para a resolução do problema, colocando-se numa posição de vantagem perante o conjunto de pretensões dos outros litigantes: “A própria Companhia que V.Exªs. dirigem, compreenderá decerto, que esta Câmara não podia ficar indiferente perante a ameaça, em parte realizada, de se privar o público da livre passagem das ruas em que V.Exªs. mandaram colocar marcos; procedimento este, que alarmou os proprietários do Mont’Estoril, os quais, em representação legal, vieram à Câmara pedir providências urgentes afim de não serem esbulhados os seus direitos”.
Com as duas partes em litígio, ou melhor, com a penosa disputa que se estabeleceu entre uma entidade que pela primeira vez em Portugal procedeu à criação de uma urbanização ampla e previamente planeada, e o grupo de proprietários que, após terem adquirido lotes ou edificações no seu seio, acabaram por sentir que o conjunto de obrigações impostas pela entidade vendedora, e que se destinavam a garantir que os parâmetros de qualidade se atingiam e se mantinham eram demasiadamente onerosas, o Monte Estoril acabou por se tornar no primeiro exemplo daquilo que mais tarde se vai tornar o dia-a-dia do urbanismo no Concelho de Cascais: excelência, beleza e qualidade, na generalidade dos panfletos propagandísticos que promovem as novas urbanizações, mas um desesperante e abandonado caos urbanístico a caracterizar a dura realidade que posteriormente se implementa.
 
 
 
O princípio do fim da excepcionalidade do Monte Estoril, ao contrário do que pretendem fazer crer alguns investigadores, não se ficou a dever ao complicado processo de falência da Companhia. Pelo contrário!... O processo de insolvência da Companhia Mont’Estoril, bem visível, por exemplo, nos relatórios de contas relativos aos anos de 1908, 1909 e 1910, foi somente a primeira consequência daquilo que poderíamos considerar como a transição de uma gestão privada para uma gestão pública do espaço global do povoado.
Enquanto a Companhia Mont’Estoril controlou a totalidade dos elementos urbanos do povoado, desde os esgotos, à iluminação, passando pela distribuição de águas e pela limpeza dos arruamentos, a generalidade das despesas era assumida pela sua administração, que recolhia essas verbas do exercício das suas funções e das participações várias vezes solicitadas aos seus accionistas privados. No decorrer desse período, e pese embora o conjunto de pesados encargos que cabiam aos proprietários, a excelência era uma questão de honra no Monte Estoril, e a vida no povoado, em todos os pequenos pormenores que caracterizam o dia-a-dia, afigurava-se radiosamente fantástica.
Quando alguns proprietários, sentindo ser muito mais confortável e menos dispendioso, fazer transitar para a edilidade o conjunto de compromissos que haviam assumido junto da Companhia, e que eram as suas obrigações pessoais na manutenção dos parâmetros de qualidade que, inclusivamente, os havia impelido a adquirir as suas novéis propriedades, o processo de descalabro torna-se irreversível, e a qualidade urbana de outros tempos inicia uma fase de desmoronamento que se mantém até hoje.
 
 
 
Em 1911, quando o próprio Conselho de Administração, provavelmente bafejado com as interessantes e apelativas ideias de uma República recém-instituída, se resigna a esta passagem de testemunho, escreve-se então a primeira página do livro que leva à falência da Companhia, e que fará do Monte Estoril aquilo que ele é hoje: um monte em ruínas, envolto em betão, e sem qualquer espécie de resquícios de uma qualidade urbana que o caracterizou noutros tempos. O texto que o Conselho de Administração insere no relatório de actividades atrás mencionado é exemplificativo desta inversão de princípios orientadores (21): “Na ocasião de elaborarmos este relatório, uma comissão da qual fazem parte alguns dos mais distintos moradores do Mont’Estoril e que tomou sobre si a generosa iniciativa de promover melhoramentos locais para levantar o Mont’Estoril à altura a que a sua fama lhe dá direito, substituindo-se a esta administração para, entre outros trabalhos, conseguir a transferência das nossas ruas para a Câmara Municipal de Cascaes, transacção essa que se impõe pela necessidade de nos libertarmos dessa responsabilidade, dada a redução das nossas receitas e ainda pelo facto de o uso dessas ruas somente aproveitar ao Município. Além dessa circunstância existe ainda a de a transferência referida representar a vontade de todos os habitantes do Mont’Estoril que muitos são, pois entendem que esta Companhia já fez o mais que pode, de modo a reconhecerem a sua ausência de direitos para reclamarem contra o mau estado das ruas cuja reparação deve pertencer de facto ao Município que do Mont’Estoril cobra farta percentagem das receitas do Estado que incidem sobre a propriedade daquela estância”.
Mais à frente, deixando denotar alguma arbitrariedade na forma como altera a sua postura sobre os poderes públicos vigentes, e possivelmente deixando antever um cansaço que ficou a dever-se a mais de duas décadas de luta permanente com um conjunto de proprietários que permanentemente se inibe de investir nas suas propriedades como forma de contribuir para o bem comum da povoação, o mesmo Conselho de Administração apresenta uma espécie de rol de equipamentos urbanos que deveriam transitar para o poder público e que, pela sua actualidade e valor, são demonstrativos do estado de desenvolvimento que o Monte Estoril conheceu na sua faceta urbana, enquanto esteve dependente da iniciativa privada, em comparação com outras zonas do Concelho de Cascais que, dependendo sempre da gestão pública, ainda hoje não possuem este tipo de equipamentos que os monte-estorilenses do início do Século XX já há muito conheciam: “Entregaríamos, portanto, as ruas com as suas colunas e candeeiros de iluminação, bancos, arvoredo, e marcos, assim como o colector geral, que constitui actualmente o nosso único domínio de subsolo e transferiríamos para a Câmara, o contrato de iluminação das ruas que em tempos firmámos com as Companhias Reunidas Gaz e Electricidade. Entendemos que todo o nosso cuidado deve incidir sobre o legítimo respeito e observância dos contratos em tempos celebrados entre esta Companhia e Carlos Pecquet Ferreira dos Anjos, as Companhias Reunidas Gaz e Electricidade e Geral de Águas”.

 

O grau de aperfeiçoamento urbano do Monte Estoril era de tal maneira que, quando comparamos o projecto que enformou a concepção da localidade, ainda algum tempo antes do final do Século XIX, com aquilo que os partidos políticos da actualidade incluem nos seus programas eleitorais, ficamos deveras surpreendidos por encontrarmos como coisa concreta naquele lugar desde há mais de cento e vinte anos, coisas que noutras partes do Concelho de Cascais, continuam a ser miragens por concretizar em pleno Século XXI... A criação de uma rede de esgotos adaptada às necessidades da povoação; a preocupação permanente de gerir com qualidade o sistema de águas, por forma a garantir um fornecimento ininterrupto aos habitantes; a iluminação pública como sinónimo de conforto urbano e de segurança dos transeuntes; os bancos públicos; as árvores; e os marcos informativos e delimitadores de propriedade; são apenas alguns exemplos de equipamentos que existiam já no Monte Estoril em 1910 (serão provavelmente os mesmos que ainda hoje lá se encontram), e que, sendo assumidamente essenciais para a qualidade de vida diária das populações, teimam em continuar a não existir em vastas zonas habitacionais do Concelho de Cascais que sempre dependeram em exclusivo dos poderes públicos.

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publicado às 13:04

Lisboa e o Tejo: Perspectivas de uma Intervenção Patrimonial

por cascalenses, em 17.07.14
por João Aníbal Henriques
 
Aproveitando o ensejo da cerimónia de entrega das medalhas de mérito municipal, a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou a renovada frente ribeirinha entre o Cais do Sodré e o Terreiro do Paço.
 
As obras, com orientação de um projecto assinado pelos arquitectos João Nunes e João Gomes da Silva, deram forma a um projecto ambicioso e de extraordinário alcance que muda de forma muito eficaz a relação sempre difícil de Lisboa com o Rio Tejo. Depois de concluído, o projecto recria uma zona de grande conforto urbano, suportado por uma linha de paisagem verdadeiramente extraordinária, que vem reforçar a face turística da cidade, recebendo desde logo largos milhares de turistas que ali sentem e percebem a excelência que configura este recanto único da capital.
 
 
Integrado no mesmo projecto, ficam também as obras de recuperação das Antigas Doca Seca e Doca da Caldeirinha que, retomando a sua ligação com o edifício do Arsenal, permitem perceber melhor como era a cidade durante o período áureo dos Descobrimentos Marítimos.
 
Por decisão da câmara procedeu-se também à  “semi-pedonalização” de todo o trajecto, com condicionantes acrescidas à circulação automóvel que, pecando pelo “semi”, deveria ter assumido de forma corajosa e definitiva o carácter exclusivo daquele espaço. Actualmente, e com imensas excepções para os veículos oficiais, que por ali circulam livremente condicionando o usufruto turístico a zona e comprometendo a qualidade cénica o espaço, a Ribeira das Naus está interdita ao trânsito automóvel durante o período das férias escolares e durante os fins-de-semana, sendo atravessado livremente nos restantes períodos.
 
Não se percebe (nem pode aceitar-se), aliás, que no próprio Terreiro do Paço – espaço de excepção e cara efectiva da Cidade de Lisboa – se mantenha um parque automóvel oficial que ali permanece estacionado! Havendo alternativas de estacionamento, motoristas que podem deixar as figuras importantes que por ali “trabalham”, porque motivo se compromete a face mas importante do turismo de Lisboa com uma fila de caros parados em frente ao Tejo?
 
 
 
 
Inexplicável é também, provavelmente por ter sido adiada para depois da inauguração, a inexistência de placas informativas ao longo do espaço que, explicando o que são as duas docas agora desenterradas e contextualizado a expressão de tempos antigos que mudaram a cidade e o Mundo, permitissem aos visitantes (Lisboetas e turistas) a compreensão efectiva da importância e o alcance da obra que ali foi concretizada. Actualmente, perguntando a quem passe uma explicação sobre o que estão a ver, os milhares de turistas que circulam pela Ribeira das Naus dificilmente encontram quem lhes explique o que estão a ver. E não é isso que queremos com o investimento brutal que ali foi feito!
 
 
 
 
Não ficando diminuída a importância desta obra e as consequências extraordinárias que tem no reforço da atractividade turística da capital, o certo é que parece ter havido pressa na pompa e no foguetório da inauguração.
 
E como o espectáculo já acabou, importa agora não perder tempo e tratar rapidamente de todos os pequenos pormenores que ficaram por fazer. Porque foram os Lisboetas – e os Portugueses em geral – quem pagou as obras em questão. 
 

 

 

 

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publicado às 15:36

As Dunas do Guincho: Um Apelo Sentido de Todos os Cascalenses

por cascalenses, em 16.02.14

Quando a Câmara Municipal de Cascais inaugurou, em Julho de 2011, os passadiços de madeira nas Dunas do Guincho (Praia da Cresmina), ainda sob a presidência de António Capucho, foi grande o júbilo dos Cascalenses.

Apesar de os projectistas se terem “esquecido” de integrar no percurso maravilhoso as três peças do património de Cascais que lhe estão adjacentes (a mãe-de-água da Cresmina, o Aqueduto Romano e o Povoado dos Casais Velhos) e de ter perdido a oportunidade para os recuperar, esta intervenção oferecia ao turismo do Estoril uma nova e extraordinária ferramenta de trabalho que, para além de permitir o acesso a um dos mais bonitos recantos do Concelho de Cascais, deslumbrando todos aqueles que tivessem a sorte de saber da sua existência, também servia como contributo importante para preservar (e recuperar) as dunas da Cresmina.

Mas agora, em 2014, depois de se ter mudado a presidência da C.M.C. e de as eleições terem sido ultrapassadas, a situação em que se encontra este equipamento é muito diferente.

Fruto da incúria e do desleixo, a degradação tomou conta do passadiço e, em alguns troços, para além de ter desaparecido a corda que marcava o percurso e que protegia as dunas consolidadas, existem sinais evidentes de destruição da própria estrutura em madeira.

Agora, são muitos aqueles que voltaram a pisotear e a destruir os habitats naturais e as próprias dunas, em linha com o ar de abandono em que se encontra toda a estrutura, destruindo assim uma parte substancial da riqueza natural de Cascais e das potencialidades turísticas do local.

Mais preocupante ainda, dado tudo isto ter sido feito e pago com verbas públicas, ou seja, dinheiro que pertence a todos os Cascalenses, é percebermos que se a recuperação da estrutura não vier a acontecer num curto espaço de tempo, e não for seguida de um esforço continuado de manutenção, perderemos definitivamente mais este equipamento.

 

Agora que as eleições autárquicas já passaram, esperemos que as europeias que aí vêm e as legislativas que se lhes seguem, sejam argumentos suficientes para que a Autarquia tome em mãos a resolução do problema... 

 

 

 

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publicado às 16:51

O Castelo de Montemor-o-Novo e a Vergonha de Portugal...

por cascalenses, em 15.01.14
 
 
 
por João Aníbal Henriques
 
Ligado, de forma perene, às memórias de Vasco da Gama e à preparação da viagem marítima para a Índia, o Castelo de Montemor-o-Novo é um dos mais emblemáticos e maiores castelos de Portugal.
 
Situado no alto e um morro sobranceiro à planície alentejana, o castelo tem uma História antiga que provavelmente se perde nas brumas antigas da pré-História. Ali terá existido um castro que foi mais tarde romanizado, transformando-se então no centro de uma das mais importantes malhas viárias do império. Nele convergiam as Estradas de Évora e Mérida e, por outro lado, as que levavam a Olissippo e ao estuário do Rio Tejo, chamando-se nessa época Castrum Malianum. É esse facto, aliás, que explica o reforço do amuralhamento primitivo da cidade, reforçando a importância estratégica da sua localização.

 
 
 
O carácter de Montemor-o-Novo reforçou-se ainda nos inícios da Idade Média quando o território foi conquistado pelos Muçulmanos. É neste período que  a cidade conhece a presença de Almansor que, mais tarde, acabaria por ficar definitivamente marcado na toponímia do local, dando nome ao ribeiro que ainda hoje corre no local.

 
 
 
Em termos de desenvolvimento urbano, a importância de Montemor-o-Novo é bem patente no rápido e fulgurante aumento da população que, extravasando as muralhas do seu castelo, rapidamente de estende pelas colinas que o envolvem. Desde meados do Século XIX, com a pacificação do território e a progressiva degradação das condições de salubridade dentro das muralhas, foi a povoação medieval quase completamente abandonada em prol da afirmação da nova cidade extra-muros.
 
No seu regresso à Portugalidade, Montemor-o-Novo  foi reconquistado definitivamente pelo Rei Dom Sancho , em 1201, depois de Dom Afonso Henriques a ter reconquistado uma primeira vez em 1160. Trinta anos depois, em 1190, a cidade foi novamente tomada pelos Árabes que aí se mantiveram até à sua expulsão definitiva.
 
Para assegurar o seu repovoamento e defesa, o rei conquistador concedeu-lhe o primeiro Foral em 1203, documento esse que foi reconfirmado pelo Rei Dom Manuel I já no Século XVI (1503).
 
 
 
 
Palco de cortes por diversas vezes, foi em Montemor-o-Novo que o Rei Dom Manuel I tomou a decisão de enviar Vasco da Gama na sua viagem marítima até à Índia, sendo, por isso, aí que reside aquela que será porventura uma das decisões mais importantes para o devir histórico da própria humanidade. Como se diria mais tarde “de Montemor-o-Novo se mudou o Mundo e as suas gentes”…
 
Foi também em Montemor-o-Novo que nasceu São João de Deus (1495-1550), fundador da Ordem dos Hospitalários que ainda hoje se encontra espalhada por todo o Mundo.
 
 
 
 
Em termos de património, foi a cidade alvo de diversas campanhas de recuperação e actualização que, para além de alterarem de forma profunda a sua paisagem, acabaram por determinar o galopante estado de degradação que o terramoto de 1755 acabaria por acentuar.
 
Apesar disso, a Praça de Montemor-o-Novo resistiu ao ataque de Junot, durante as Invasões Francesas, tendo sido quartel-general das hostes liberais durante a Guerra Civil que opôs Portugueses contra Portugueses em pleno Século XIX.
 
Classificado como Monumento Nacional desde 1951, e apesar da sua extraordinária importância na percepção de Portugal e da sua História, o Castelo de Montemor-o-Novo continua num estado de degradação que é, de todo, incompatível com as potencialidades que apresenta.
 
 
 
 
Continuamente apresentado como palco de grandes campanhas de estudo e de intervenções arqueológicas, quase sempre acompanhadas de projectos para recuperação e musealização do espaço, o certo é que as muralhas continuam a apresentar um estado de ruína e de abandono que representam uma autêntica vergonha Nacional.
 


Dentro do recinto, e para além da recuperada Igreja de Santiago, faz dó visitar as ruínas do Paço Real, da Igreja de São João Baptista ou da Igreja de Santa Maria do Bispo… Uma verdadeira tristeza… 
 
 
 

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publicado às 12:12

Posto Marítimo de Desinfecção do Porto de Lisboa

por cascalenses, em 07.01.14
por João Aníbal Henriques 

 

Corria o ano de 1906, mais propriamente o dia 5 do mês de Março, quando Lisboa assistiu, com toda a pompa e circunstância, à inauguração do Posto Marítimo de Desinfecção, pelo Rei Dom Carlos e pelo Presidente do Conselho e Ministro do Reino Hintze Ribeiro.

O novo posto, situado em plena Rocha do Conde d’Óbidos, no final do aterro que ligou o litoral da cidade entre Santos e o Cais d Sodré, a obra pretendia defender “a saúde pública, as relações internacionais e os interesses gerais do País”.

 

A partir desta altura, os navios que pretendiam entrar no Porto de Lisboa deixam de ter de ficar fundeados ao largo durante o período de quarentena, passando a usufruir de serviços médicos integrados que valorizaram o porto e a própria cidade, cumprindo assim o objectivo do Rei Dom Carlos de transformar Lisboa num dos mais conceituados e atractivos destinos marítimos da Europa.

 

Outros tempos…

 

 

 

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publicado às 15:36

A Igreja de Santos-o-Velho em Lisboa

por cascalenses, em 06.12.13

 

por João Aníbal Henriques

Envolvida por lendas, estórias e muitos mistérios, a Igreja de Santos-o-Velho, em Lisboa, é provavelmente um dos mais extraordinários e interessantes recantos da cidade. Situada no final da Rua das Janelas Verdes, junto à Lapa, o templo assume uma privilegiada posição sobre o Rio Tejo, marcando de forma definitiva a antiga entrada de Lisboa.

Fazendo jus ao seu nome e sublinhando a antiguidade da sua longa História, a igreja possui na fachada principal um baixo-relevo com as figuras de três mártires-crianças do Cristianismo, Veríssimo, Júlia e Máxima que, segundo reza a lenda, terão sido condenados à morte no ano de 308 pelo poder político Romano.


O templo original, construído sobre o túmulo dos mártires, serviu para tornar perene na memória de quem por ali passa, a Fé extraordinária destas três antigas crianças lisboetas e foi erigido no período tardo-romano, em pleno Século IV. Destruído posteriormente, possivelmente durante a ocupação Muçulmana da Península Ibérica, foi reconstruído depois da Conquista de Lisboa, em 1147, por Dom Afonso Henriques. O seu filho, Dom Sancho I, ter-lhe-á dado uma nova dignidade, aumentando o templo, elevando-o à condição de igreja e juntando-lhe o edifício do convento, onde hoje funciona a Embaixada de França.  

A sua forma actual, no entanto, resulta de intervenções efectuadas no Século XVII, pelo Arquitecto João Antunes, que lhe acrescentou o típico frontispício que ainda hoje se vê, e que tapa a antiga fachada da igreja medieval. Foi também nesta altura que lhe foram acrescentados os torreões que dão forma à fachada actual.

No Século XIX, novas intervenções de fundo, com o acrescento da Capela-Mor, construída depois da doação do terreno pelos Marqueses de Abrantes, vieram complementar a grandeza do templo que definitivamente se transformou num dos principais locais de culto da Cidade de Lisboa.

O convento, entretanto entregue à Ordem de Santiago, foi também espaço de relevo em diversos momentos da nossa História, tendo ficado indelevelmente ligado à desgraçada saga Nacional de 1578, quando pela mão do Rei Dom Sebastião, Portugal se perdeu na Batalha de Alcácer Quibir.

Diz ainda a lenda que o rei, que muito gostava de passar temporadas neste espaço, ali ouviu Missa pela última vez antes de embargar para a sua derradeira viagem e que terá sido ali mesmo, algum tempo antes, que terá tomado a decisão que acabou por resultar na perda da independência de Portugal.

Tendo sido vendido posteriormente à família Lencastre, o antigo convento e a igreja foram revendidos ao Estado Francês já no Século XX, ali funcionando a dependência diplomática daquele País.
Aberta ao público a Igreja Paroquial de Santos-o-Velho é um dos espaços que merece uma visita atenta na Cidade de Lisboa. Para além do túmulo da Família Abrantes que ali descansa como contrapartida da oferta do terreno onde se construiu a Capela-Mor, importa ver também o túmulo das crianças-mártires e a impactante nave central.

 

Mescla de estórias e de História, a Igreja de Santos-o-Velho é um repositório inesquecível da História de Lisboa, carregando uma patine antiga que deriva da sua participação directa nos principais acontecimentos da História de Portugal. 

 

 

 

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publicado às 16:17

Palácio do Conde de Verride: Um Escadote Social na Cidade de Lisboa

por cascalenses, em 29.11.13



por João Aníbal Henriques


As casas e as ruas de uma cidade, para além das suas funções práticas, relacionadas com a circulação e a residência, desempenham outros tipos de funções que enquadram formas alternativas de organização dos espaços e das comunidades que as habitam. 


 A componente estética, com as implicações que tem na forma como se vive a cidade, conjuga-se com uma funcionalidade de âmbito social, tantas vezes preterida nas análises que se fazem ao espaço urbano, mas que, em contraponto com as componente relacionadas com o devir diários dos seus habitantes, pressupõe uma intervenção de fundo ao nível da organização dos grupos, das gentes e das relações interpessoais. As casas são, por vezes, autênticos escadotes que os seus proprietários utilizam para se afirmar perante os outros, assumindo que a componente estética, associada a uma verdadeira arquitectura de cenário, desempenha o mais importante papel na forma como foi concebida, pensada e edificada. 


 É o que acontece, por exemplo, com o Palácio do Conde de Verride, também conhecido como Palácio Santiago-Prezado, situado no Alto de Santa Catarina, junto ao espaço onde se situava a antiga Igreja Paroquial de Santa Catarina, destruída por completo pelo terramoto de 1755. 


 Construída na primeira metade do Século XVIII, o palácio foi residência do Barão e Visconde de Molelos, Francisco de Paula Silva Tovar, que dá origem a um processo complexo de venda e revenda sucessiva do imóvel que vai passando pela mão de vários proprietários.


 Da política, às finanças, passando ainda pela fina flor da aristocracia Portuguesa do final do Século XIX, o Palácio de Verride serviu sempre como forma de os seus proprietários consolidarem a sua posição no seio da sociedade Lisboeta. Adquirida em 1910 por João Lobo Santiago Gouveia, o palácio vem consolidar, na época conturbada da implantação da república, a recém nobilitação do seu novo proprietário que havia sido feito Conde de Verride em 1901. 


 Com uma localização única num dos mais extraordinários recantos de Lisboa, o Palácio de Verride encontra-se encerrado e é actualmente propriedade da Caixa Geral de Depósitos.

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publicado às 16:15

O Palacete de Santa Catarina / Museu da Farmácia

por cascalenses, em 29.11.13
por João Aníbal Henriques

Construído em 1862 por José Pedro Colares Pereira, o Palacete de Santa Catarina, situado no largo com o mesmo nome junto de um dos mais extraordinários miradouros de Lisboa, é hoje o Museu da Farmácia, onde possível conhecer o percurso e a história das farmácias em Portugal.

O imóvel, que se encontra em excelente estado de conservação, foi vendido no final do Século XIX a industrial Alfredo da Silva, fundador da CUF, que o deixou em herança ao seu genro D. Manuel da Silva.

 

Com uma localização privilegiada num dos recantos com mais impacto visual da Cidade de Lisboa, o Miradouro de Santa Catarina, o palacete ocupa o espaço onde outrora se encontrava a Igreja Paroquial de Santa Catarina que ruiu com o terramoto de 1755.

 

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publicado às 15:48

A Basílica a Estrela - Convento do Santíssimo Coração de Jesus

por cascalenses, em 28.11.13



Por João Aníbal Henriques


Construída na sequência de um voto formulado pela Princesa Dona Maria (futura Rainha Dona Maria I) de que ergueria uma igreja e um convento no caso de conseguir ter um filho primogénito varão, a basílica da Estrela, também conhecida poe ‘Real Basílica’ ou ‘Convento do Santíssimo Coração de Jesus’ é um dos mais expressivos e impactantes monumentos da Cidade de Lisboa.


Com traço do Arquitecto Mateus Vicente de Oliveira, o templo era um misto de residência real, onde a rainha Dona Mara se recolhia envolvida em pompa e em fausto que contrastava com a natureza conventual que lhe havida dado forma, a Basílica da Estrela foi a primeira igreja do Mundo dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, tendo servido como convento Carmelita até à extinção das Ordens Religiosas, em 1834.





O carácter único do espaço, bem expresso neste misto de palácio e convento, que ainda hoje é visível no contraste profundo entre a pobreza assumida que existia nas celas clausurais e a ostentação das zonas reservadas ao uso da rainha, consolida-se com a existência no seu interior do mausoléu que alberga os restos mortais da própria Dona Maria. A rainha é, aliás, a única monarca da Dinastia de Bragança que não está sepultada no Panteão Nacional, descansando na Estrela pela sua expressa vontade.





A cerimónia de consagração da basílica, ocorrida em 1799, foi marcada pela presença das mais importantes figuras e famílias do Reino, tendo ficado eternizada nas memórias de muitos daqueles que tivera a oportunidade de estar presentes.


Uma das mais interessantes versões desta cerimónia, em linha com a vontade da rainha de recentrar na Estrela o culto Católico em Lisboa, encontra-se nas memórias da Marquesa de Alorna, da Família Távora, que descreve com rigor o ambiente de fausto que se viveu nesse dia.






Para além da monumentalidade do edifício, e das especificidades arquitectónicas, existe ainda outros motivos de interesse que reforça a premência de uma visita: o Presépio de Machado de Castro e o pequeno terraço situado no topo do torreão, do qual se desfruta de uma das mais extraordinárias (e menos conhecidas) vistas da Cidade de Lisboa. 


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publicado às 16:46

O Palácio de São Bento - Assembleia da República

por cascalenses, em 27.11.13
por João Aníbal Henriques

 

Marcado por uma História longa que se iniciou no final do Século XVI, o Palácio de São Bento foi originalmente um Convento Beneditino, designado Convento de São Bento da Saúde, construído em estilo neoclássico com projecto de Afonso Álvares.

 

O arquitecto, que foi também responsável pelos projectos das Sés de Leiria e Portalegre, bem como pela Igreja Lisboeta de São Roque e o Aqueduto da Amoreira, em Elvas, optou por vencer o desnível do terreno aproveitando de forma harmoniosa a localização privilegiada do edifício principal que, colocado centralmente, permitia reforçar o carácter cénico e monumental da sua enorme estrutura.

 

Tendo sido dos poucos edifícios da Cidade de Lisboa que não sofreu ruína com o Terramoto de 1755, manteve-se em funções até à Extinção das Ordens Religiosas, em 1834, altura em que o Arquitecto Possidónio da Silva foi responsável pelas primeiras obras de adaptação do edifício, depois de o mesmo ter sido confiscado pelo Estado. 

 

O antigo convento funcionou como sede das cortes desde então, e ardeu por completo em 1895 como consequência de um incêndio que fez desaparecer todo o recheio e a estrutura interior. Foi nessa altura, num processo de obras moroso que o transformaram naquilo que hoje conhecemos, que o Arquitecto Ventura Terra projectou as enormes escadarias monumentais que enformam a fachada e que foram construídas somente em 1933, quando o espaço passou a ser conhecido como Assembleia Nacional.

 

Sede do poder legislativo desde 1974, o Palácio de São Bento é hoje o coração da via política Portuguesa, sendo ali que funciona a Assembleia da República.

 

 

 

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publicado às 15:45

O Palácio das Janelas Verdes / Museu Nacional de Arte Antiga

por cascalenses, em 06.11.13





por João Aníbal Henriques


As estórias que dão forma à História de Lisboa, tantas vezes passadas oralmente e transcritas no imaginário colectivo da cidade, surgem por vezes associadas a espaços, a edifícios e a monumentos que, contrariando a curva do tempo, perpectuam para a posteridade as memórias mais impactantes da Capital de Portugal.


É o que acontece com o Palácio das Janelas Verdes, onde actualmente funciona o Museu Nacional de Arte Antiga, situado na Rua das Janelas Verdes, em Santos.


Construído em 1690 por Dom Francisco de Távora, Conde de Alvor e antigo Vice-Rei da Índia, o Palácio das Janelas Verdes aparece sobranceiramente sobre o Rio Tejo, num espaço partilhado com a Rocha de Conde de Óbidos e o palácio com o mesmo nome.


A sua ligação à Família Távora, que aparece bem vincada nas memórias da cidade é, no entanto, muito breve, pois em 1759, com o controverso “Processo Távora”, a família foi executada publicamente e o palácio confiscado e vendido em hasta pública.


Por ironia do destino (ou não) foi adquirido por Paulo de Carvalho e Mendonça, irmão de Sebastião de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e… Marquês de Pombal. E para agravar a situação, foi precisamente o Primeiro-Ministro de Dom José e principal algoz dos Távoras quem, por morte do irmão e proprietário do edifício, acabou por herdá-lo e por o integrar no  seu património particular.


Em 1884 o palácio foi alugado pelo Estado Português, e ali se instalou o Museu Nacional das Belas Artes. Mais tarde, já durante a vigência do Estado Novo, foi demolido o antigo Convento das Albertas, situado a Poente das Janelas Verdes, e alargado o espaço do museu. Foi nessa altura que assumiu a identidade que hoje conhecemos – Museu Nacional de Arte Antiga – tendo-lhe sido acrescentado o corpo quadrangular que hoje serve de fachada ao museu e que foi inaugurado com a grande exposição sobre os “Primitivos Portugueses”.









Bem preservado e enriquecido com o espólio deste extraordinário museu, o Palácio das Janelas Verdes é um dos bons exemplos da preservação das memórias da Cidade de Lisboa e de Portugal continuando a contribuir para maravilhar quem visita Lisboa e para a definição dos alicerces culturais de Portugal.


Acessível ao público, mantém viva a memória dos Távoras, do ignominioso processo que quase os extinguiu definitivamente e, sobretudo, das maningâncias que o poder político utiliza para pôr e dispor do destino dos Portugueses… No Século XVIII, no XIX, no XX, exactamente da mesma forma como acontece neste nosso Século XXI.






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publicado às 15:56

O Palácio dos Condes de Óbidos em Lisboa

por cascalenses, em 05.11.13

 

 

 

Situado de frente para o Rio Tejo, junto ao Jardim 9 de Abril e ao Museu Nacional de Arte Antiga, mais conhecido por Palácio das Janelas Verdes, em Santos, o Palácio dos Condes de Óbidos é mais uma das preciosidades pouco conhecidas da cidade de Lisboa.

 

Datado do Século XVII, quando Dom Vasco de Mascarenhas o construiu, o Palácio dos Condes de Óbidos apresenta uma fachada marcada pela sobriedade das suas linhas, pontuadas com grandes torreões quadrangulares ao sabor dos velhos solares medievais Portugueses. Virado o Sul, um grande terraço com vista para o rio, é decorado com um dos muitos e extraordinários painéis de azulejos que acrescentam uma nota de interesse ao edifício.

 

Para além de um conjunto azulejar da autoria do Mestre Vitória Pereira, autor do conjunto de azulejos que dão forma à Igreja de Santo António do Estoril, ainda se pode ver um painel maravilhoso da autoria de Jorge Colaço (1868-1942) que, durante algum tempo, também viveu no palácio.

 

Adquirido pela Cruz Vermelha Portuguesa em 1919 aos Condes de Óbidos, o edifício conheceu vários usos e teve enorme importância na assistência social de Lisboa durante vários períodos conturbados da nossa História.

 

 

Inacessível ao público, que fica impedido de o conhecer de forma cabal, o Palácio dos Condes de Óbidos é mais um dos segredos desta cidade que espera ainda pela oportunidade de se mostrar e de partilhar com os lisboetas as maravilhas do seu encanto tão especial. 

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publicado às 17:59

Piódão: Um Segredo Bem Guardado de Portugal

por cascalenses, em 12.08.13

 

por João Aníbal Henriques

 

Apesar de não ser muito antiga, a aldeia de Piódão, no Concelho de Arganil, é um dos mais preciosos e extraordinários segredos que esconde Portugal, dando forma a um encantamento que não se alheia da cor escura do xisto, misturado com a brancura da cal e com o azul das portas…

 

Dedicada a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da pequena Igreja Matriz muito branca, construída no Século XVII em estilo neobarroco que contrasta de forma evidente com a cor escura do resto do povoado, a aldeia assume a sua dependência relativamente aos constrangimentos da natureza que a moldaram.

 

O isolamento extremo em que se encontra, que ainda hoje marca de forma brutal o dia-a-dia de quem ali vive, condicionou de forma evidente a sua História, já que o povoado actual, de origem bastante recente, resultou do abandono, provavelmente devido ao muito calor que se fazia sentir no local original, da antiquíssima aldeia de “Casall de Piódam” onde tudo começou.

 

Dizem os locais que esse calor que fazia aumentar o número de colónias de formigas o que punha em causa a produção de mel, facto que surge associado à inacessibilidade da aldeia original e que determinou o abandono do povoado inicial e a reinstalação da comunidade no ponto onde hoje a encontramos.

  

Ligada também à instalação de uma Abadia da Ordem de São Bernardo, Piódão foi local sempre escolhido para refúgio e introspecção, tal como o denota o facto de ter sido ali que se esconderam os assassinos de D. Inês de Castro, que deram origem às mais importantes famílias do local.

 

Depois do caminho difícil que ali nos leva, é impossível conter uma expressão de admiração quando nos deparamos  com a beleza extraordinária deste recanto encantado de Portugal!




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publicado às 17:06

Religiosidade e Sacralidade em Cascais

por cascalenses, em 25.07.13

por João Aníbal Henriques

A vida religiosa de Cascais, profundamente marcada pela dicotomia existente entre um litoral vincado pela actividade piscatória e um interior onde a agricultura se afigura como a principal actividade dos munícipes, caracteriza-se por uma incomparável riqueza em termos patrimoniais e, sobretudo, em termos dos usos e costumes centenários que se mantêm vivos nos arquétipos culturais da população.

A ligação sempre perene que Cascais estabelece com o passado, determinante em algumas das suas mais importantes áreas de intervenção, permite às diferentes gerações que ocuparam este espaço a partilha de rituais e de cultos, os quais se vão misturando, num processo serôdio e complicado, até renasceram numa forma nova, que obriga à criação de estruturas próprias para os abrigar.

Da pré-história até à actualidade, muitos são os vestígios desta ritualidade cascalense, visível não só através dos monumentos e edifícios Cristãos, como também na expressão artística e cultural daqueles que aqui habitam. Em grande parte dos casos, mesmo nas expressões mais recentes dessa religiosidade, é fácil sentir no que hoje se constrói, a marca omnipresente do que já ali havia existido, facto que garante a Cascais uma posição única no vasto emaranhado de cultos e crenças saloias e piscatórias que caracterizam desde sempre a ecuménica e recentemente cosmopolita Península de Lisboa.

Iniciando-se na Vila de Cascais, onde podemos encontrar alguns dos mais representativos exemplares da arquitectura religiosa do Concelho, o presente roteiro sugere uma passagem demorada pelas formulações mais humildes da construção religiosa de bases rurais. A Capela de São Brás, na Areia, construído num espaço muito próximo da Capela de São José, na Quinta da Bicuda, define a sua orientação em função do passado, recriando uma ponte de ligação cultualística que o presente se encarregou de fomentar.

A viagem continua, mantendo em permanência o rumo rural do Concelho, através das antigas aldeias de Murches, Malveira-da-Serra, Manique e Alcoitão, onde o visitante encontra alguns dos exemplares mais interessantes nos quais a arquitectura de base chã se vai misturando com expressões mais eruditas e conservadoras.

A religiosidade de cariz particular, com o culto privado a marcar presença nas vetustas quintas dos grandes produtores de outrora, é caracterizada pela sua permanente abertura à sociedade. De facto, e ao contrário do que é normal acontecer noutras regiões do País, as capelas privadas de Cascais foram sempre espaços de partilha, nos quais a condição social ou a profissão se esbatia em prol de uma mistura na qual a Igreja desempenhava papel fundamental e preponderante.

Antes de terminar, o visitante deverá observar com atenção os importantíssimos exemplares de artes sacra contidos em alguns destes espaços, os quais se combinam com interessantes e milenares  lendas populares, nas quais o imaginário cultual de outrora se mistura com a expressão tradicionalista do catolicismo actual.

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publicado às 10:58

Stand TOW - Eventos, Incentivos e Experiências na BTL - Bolsa de Turismo de Lisboa

por cascalenses, em 18.10.08

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publicado às 12:09


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