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A Igreja de Nossa Senhora da Graça em Évora

por cascalenses, em 20.10.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
 
Os “Meninos da Graça” como é conhecida em Évora a Igreja Renascentista de Nossa Senhora da Graça, são míticas figuras Atlantes. E, cumprindo o desígnio maior de zelar pela memória de Portugal, estão ali na qualidade de guardiões das quatro partes do Mundo descobertas pelos Portugueses. Todo o templo, resquício inesperado do substracto místico e mítico de Portugal, transparece em lendas e em mistério, rendendo homenagem maior aos feitos enormes que noutras eras e noutros tempos caracterizaram este País tão especial…
 
 
Considerada por muitos como o mais antigo templo renascentista do Alentejo, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, situada no coração da egrégia cidade de Évora, é um dos mais interessantes monumentos de Portugal.
 
Integrando o antigo Convento dos Frades Eremitas Calçados de Santo Agostinho, a igreja que agora conhecemos foi construída depois da instalação da Ordem em Portugal, no ano de 1511, com traço de Miguel de Arruda e esculturas de Nicolau de Chanterene.  Terá vindo ocupar o lugar de um templo de menores dimensões e de pouca exigência arquitectónica que os frades construíram naquele lugar logo depois da sua chegada a Évora, sendo provavelmente sido na década de 1520 que se iniciaram as obras que lhe conferem o aspecto actual.
 
 
 
 
Integrando de forma sublime todos os detalhes que definem o período renascentista em Portugal, a Igreja da Graça leva quase ao extremo a sua inquietante demanda pelos símbolos maiores da nacionalidade, apelando de forma directa ao alicerce raramente assumido do inconsciente colectivo de Portugal. A temática marítima, em voga na época em que a igreja foi edificada, cruza-se com as lendas maiores do Globo Terrestre, espécie de brinquedo temático que se consagra por inteiro a Portugal, como se o Universo todo conspirasse de uma forma global para canalizar para este recanto encantado os destinos maiores da humanidade em geral. Resultam daí as escapadelas ao ideário Atlante, numa sede quase mística do desconhecido e do inexplorado, um pouco em linha com a mítica demanda do Santo Graal e, em Portugal, com a espera eterna pelo Rei Desejado.
 
Este caminho, feito nas sombras visíveis de uma sociedade ainda maioritariamente dependente dos equilíbrios e das certezas medievais, assume especial relevo se nos reportarmos ao Alentejo de então. A região, marcada de forma telúrica por uma dependência extrema relativamente às agruras da natureza, sustenta o seu edifício simbólico no tronco maior que dá relevo à inovação da Senhora da Graça, ou seja, àquela que contra tudo e contra todos, se materializa na miraculosa capacidade de tudo fazer.
 
 
 
 
A Atlântida, continente mítico elevada de forma eterna à plenitude maior do saber e da sabedoria, consubstancia-se na Igreja da Graça através de toda a simbologia que dá forma ao edifício. Mas também, porque o Céu e a Terra são ambos necessários para a compreensão integral de Deus, nas práticas seguidas e cumpridas de forma sentida pelos frades que ocuparam este convento durante muitas gerações. É a eternidade, composta pela mistura integral entre o finito e o infinito, que nos surpreende quando nos deparamos com a fachada granítica e imponente desta igreja. Uma eternidade que é sustentada pelo conhecimento superior e pela sabedoria daqueles que regressaram de um lugar diferente. O ideal celeste, condicionado pelas necessidades próprias da vida terrena, resulta aqui numa amálgama de símbolos que se interligam num plano de consciência que tem necessariamente de estar alterada para ser verdadeiramente entendida e compreendida.
 
 
 
 
O ímpeto cenográfico da Igreja da Graça, de carácter fortemente impactante na pujante vida cultural eborense da época renascentista, dá corpo ao reforço deste movimento arquitectónico e artístico em Portugal. Na sua evolução para o maneirismo, o templo congrega o carácter humanista profundo que enforma a acção dos seus mecenas originais, El-Rei Dom João III e o seu primo o Bispo Dom Afonso de Portugal.  São eles, mercê da formação que tiveram no contexto da Europa em que viveram, que canalizam para este espaço de Évora os meios que permitem a construção de um tão vetusto templo. E com esse acto, aparentemente singular, dão um contributo extraordinário para a viragem cultural que definirá Portugal ao longo dos séculos seguintes.
 
A importância da Igreja da Graça é, por isso, muito superior ao seu valor patrimonial. Ela é o testemunho mais evidente da forma como Portugal, assente num conjunto de valores espirituais profundamente difundidos por todo o território, foi capaz que os plasmar na sua realidade física, social e política e, dessa maneira, concretizar o sonho imenso dos descobrimentos. Atesta, numa linha de continuidade que nos carrega até à actualidade, que o espírito transcende de facto a matéria, tornando possíveis os milagres e enfatizando que as fronteiras são pouco mais do que meros obstáculos que se interpõem durante a vida de cada um.
 
 
 
 
Única na sua formulação física e patrimonial, mas também na mensagem que carrega, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora, é pilar axial essencial para compreender a Portugalidade.

 

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publicado às 18:00

A Igreja Paroquial de Santiago (ou de São Tiago) em Évora

por cascalenses, em 05.10.19

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Situada no coração da cidade e envolvida de perto pelas principais atracções turísticas de Évora, a Igreja de Santiago passa normalmente despercebida a quem por ali deambula. Mas não deveria ser assim… o templo, de origens ancestrais, é um dos mais interessantes repositórios das memórias e das histórias desta urbe alentejana, sendo bem demonstrativo da forma como as eras, as culturas e as gentes aqui confluíram numa amálgama de vida que não pode deixar ninguém indiferente.
 
A documentação histórica aponta o ano de 1302 como o da fundação do primeiro templo Cristão no local onde hoje se ergue a Igreja de Santiago. Cercada pelas antigas muralhas da cidade, bem perto do antigo fórum romano e da principal via estruturante da economia da região é provável, no entanto, que naquele espaço tenham existido outras construções que a precederam e que são responsáveis pelos muitos vestígios que se podem ver no local.
 
 
 
 
Desde a colunata de origem romana até à própria formulação espacial ao templo, que denota claramente uma influência de origem islâmica, são muitas as pistas que nos permitem suspeitar da ancestralidade maior da origem sacra deste espaço tão especial, marcado de forma impactante pela profusão de estilos decorativos e de cores que se cruzam e se sobrepõem em camadas bem ilustrativas daquilo que foram os seus mais de 800 anos de História que se sobrepõem em camadas sucessivas de memórias.
 
Na sua componente Cristã, Católica, Apostólica e Romana, a Igreja de Santiago de Évora nasce por isso no Século XIV, permanecendo sem grande história durante cerca de 200 anos. Durante esse período foi, muito provavelmente, somente um dos muitos templos que servia a prática religiosa dos eborenses, num plano de discrição que resulta naturalmente do recato que a sua localização impõe. Apesar disso, enquanto espaço de morte, foi permanentemente destino privilegiado de vários habitantes ilustres da cidade, nomeadamente ligados ao Clero, tal como o atestam as muitas lápides sepulcrais que subsistem no seu interior, em linha com a ligação sempre perene à cúpula organizativa da própria Ordem de Santiago da Espada.
 

 

 
 
Mas o principal foco de interesse para quem visita esta igreja, marcante do ponto de vista estético e fulcral na definição daquilo que foram as principais intervenções efectuadas no seu interior, são as paredes repletas de pinturas murais polícromas, que fecham uma intervenção maior que reformatou o espaço interior e dotou o templo de uma cabeceira estrutural de grandes dimensões e que define hoje o monumento.
 
São desta época também os painéis de azulejos que cobrem as laterais do Altar-Mor e da nave principal da igreja, da autoria de Gabriel del Barco e de Oliveira Bernardes, que ajudam a enquadrar o mote barroco que passou a caracterizar a essência decorativa do espaço. Importa destacar, pela implicação de enquadramento cénico que tem, sublinhado pelo carácter de província da igreja, a talha dourada dos altares, que se mistura com o esplendor das evocações artísticas de âmbito semi-profano que dão corpo à estrutura decorativa da mesma, num apelo quase herético a realidades que aparentemente se supõem longínquas do Alentejo da época em questão.
 
 
 
 
O apelo à Força, simbolicamente associada à exaltação do Altíssimo, surge misturado numa verdadeira amálgama figurativa onde as figuras Atlantes assumem papel de destaque enquadratório. Talvez seja por isso, na senda da já referida tradição maior que transparece da evolução das épocas e das gentes que fruíram daquele espaço, que o epitome maior que desde sempre surge como uma espécie de sina desta igreja, seja o da ritualidade da morte, ainda hoje marcante para quem habita em Évora, e que ali se consubstancia num conjunto bastante vasto de referências culturais, religiosas e simbólicas numa simbiose que se próxima de sobremaneira da estrutura de pensamento do Alentejo de todos os tempos.
 
 
 
 
O balcão fronteiro ao templo, num varandim de pequenas dimensões que compacta a sacralidade do lugar ao pouco espaço existente naquele recanto da cidade, contribui também ele para reforçar esse ideia inicial, sendo maioritariamente um apelo à visita ao espaço interior, ao mesmo tempo que faz prevalecer o absurdo deleite pelo contraste e pelo oposto. Esta dualidade, também ela visível na estrutura pétrea do templo, associa a ideia do equilíbrio como parte essencial da preservação do carácter sagrado da vida, aqui se espelhando na forma como o crescimento comunitário de quem por ali cumpriu os seus ritos de Fé, se foi construindo a partir de uma continuidade que obrigava a cedências de princípio na dogmática que dá forma a cada uma das épocas em que o templo existiu.
 
A Igreja de Santiago, mais do que mais um mero templo desta mítica Cidade Alentejana, é acima de tudo um monumento que estabelece pontes entre as várias eras e os tempos que a sua História atravessou. Acolhe no seu seio a singularidade de um espaço de características intrinsecamente chãs mas, por outro lado (e até em antagonia) de um local onde a complexidade da vida se espraia em cada elemento.
 
 
 
 
O seu estado de conservação muito precário também ele contradiz a importância  e o interesse desta igreja. Urge uma intervenção prévia de consildação e interpretação do espaço, antes da definição de uma intervenção de fundo que garanta a recuperação dos seus elementos estruturantes mais importes.
 
Até lá, tal como vem acontecendo ao longo de (pelo menos) o último milénio, acolhe diariamente as naves que transportam os eborenses à sua última morada e que ali recolhem os últimos raios de uma luz que certamente foi ensejo daqueles que a foram construindo ao longo do tempo!...  

 

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publicado às 18:22

A Porta da Ravessa no Redondo

por cascalenses, em 25.05.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Parte integrante do antigo Castelo do Redondo, no Alentejo, a Porta da Ravessa é, mercê de uma acção de marketing associada a uma marca de vinhos, um dos mais conhecidos e procurados monumentos históricos daquela região.
 
Marcando inicialmente a linha da frente na defesa das fronteira nacionais, num sistema complexo que integrava ainda os castelos de Estremoz, Monsaraz e Portel, o Castelo do Redondo apresenta uma formulação espacial simples, promovendo a integração do núcleo urbano mais antigo da localidade. Tendo feito parte do conjunto de fortalezas recuperadas pelo Rei Dom Dinis no Século XIV, terá tido a sua origem em período muito mais recuado, provavelmente durante o domínio muçulmano , aproveitando uma possível estrutura defensiva de carácter mais precário que ali havia sido construída pelos romanos.
 
 
 
 
A estrutura actual, no entanto, mantendo basicamente inalterada a traça original, deverá bastante mais recente, reforçando a convicção generalizada de que a povoação que hoje temos resulta de um processo histórico marcado pela consolidação da nacionalidade já no final da Idade Média.
 
A Porta da Ravessa, localizada a Norte do recinto amuralhado, também é conhecida como Porta do Sol, definindo a protecção do eixo viário que ligava Évora a Badajoz. Nela se centrava, pelo enquadramento urbano de que é peça central, a estrutura administrativa da localidade, facto ainda hoje visível na presença das marcas da vara e do côvado que fomentam a celebridade deste monumento.
 
Expressão maior das potencialidades do Alentejo, a Porta da Ravessa é um bom exemplo da forma como o património histórico se afigura essencial na determinação da Identidade e da Cidadania, num processo mais amplo e pragmático que determina a condição essencial da própria democracia. 

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publicado às 16:03

O Castelo de Noudar em Barrancos

por cascalenses, em 12.05.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Existem poucos monumentos em Portugal como o Castelo de Noudar, situado no Concelho de Barrancos, no Alentejo profundo. A sua situação geográfica, situada estrategicamente junto à raia Espanhola, associada a um cenário paisagístico profundamente impressivo e impactante, fazem deste recanto um dos mais encantados monumentos de Portugal.
 
Com uma história muito longa, que os vestígios arqueológicos comprovam ter-se iniciado ainda durante a Pré-História e durante o período da primeira ocupação humana no actual território português, o Castelo de Noudar que hoje vemos é o resultado de sucessivas campanhas de construção e reconstrução que remontam à ocupação romana e que os Visigodos e mais tarde os Muçulmanos, vieram a adaptar às suas necessidades.
 
 
 
 
Situado na confluência da ribeira de Múrtega e do Rio Ardila, numa elevação do terreno que lhe confere enorme visibilidade sobre o território envolventes, o castelo é uma espécie de sentinela avançada de Portugal, representando um papel essencial na definição do controle territorial nacional perante as constantes investidas do país vizinho.
 
Constantemente alvo de ataques e de contra-ataques, numa luta permanente pela independência, nunca foi fácil a via em Noudar. A vila nascida dentro das suas muralhas, detentora de um poder civil amplamente reconhecido pela Coroa Nacional, foi sempre reforçando a sua importância política, facto que explica a elevada taxa populacional que foi sempre apresentando ao longo dos seus muitos séculos de história.
 
 
 
 
Em termos urbanísticos, com a sua estrutura simples, Noudar configura-se em torno da sua torre de menagem e dos edifícios de cariz oficial que governavam o seu território. A cadeia, ainda hoje um ex-libris da velha povoação, assume especial importância sobre tudo num espaço no qual a força da Lei era imperativo maior na manutenção da qualidade de vida dos cidadãos, apesar da distância quase absurda que medeia entre aquele lugar e os principais pontos do poder administrativo Nacional.
 
A antiga alcáçova, aberta na zona mais central da antiga localidade, compõe um quadro romântico que se acentua pelo cenário de ruínas que actualmente caracteriza o povoado.
 
Quando Gonçalo Mendes da Maia, conhecido historicamente como o “lidador”, a conquistou em 1167, Noudar era uma povoação essencial para o reforço da autonomia nacional. O controle da estrada que ligava a sede episcopal em Beja com a centralidade política espanhola, fazia da povoação um dos pontos-chave na estratégia de definição territorial Cristã, recriando em seu torno um complexo sistema de rentabilização económica do espaço que não deixa indiferentes os principais poderes políticos daquela época. É, por isso, apetecível a ocupação de Noudar, assim se mantendo durante muitos séculos.
 
Em 1644, por ocasião da Guerra da Independência, o usurpador Espanhol manteve Noudar sobre a sua tutela. E a libertação da localidade, acontecida somente em 1715 no âmbito do Tratado de Utrecht, concretiza-se depois de uma acção de destruição massiva das principais estruturas da povoação. Este facto, aliado a uma pretensa epidemia de natureza desconhecida que afectou simultaneamente a população, terá determinado a extinção oficial da vetusta vila, facto que dará origem a um processo paulatino de despovoamento que se prolongará durante algumas décadas e do qual, por exclusão de partes, resulta o florescimento da vizinha Vila de Barrancos da qual este território faz actualmente parte.
 
 
 
 
Noudar é actualmente uma espécie de Castelo Encantado perdido nos alvores da modernidade Portuguesa. Desde o Século XVIII, quando a sua extinção administrativa aconteceu, não mais foi alvo de intervenções que ali tenham construído novas edificações. Mantém, por isso, os traços antigos de um espaço perdido no tempo, assumindo-se como ruína romântica de uma era longínqua cuja memória se foi perdendo ao longo dos tempos…
 
Da sua memória mais ancestral, provavelmente reforçada com a aura misteriosa que o seu abandono configurou, faz parte uma lenda maior do Alentejo marcante e profunda onde a mesma sua desenvolve. Ainda hoje, tantos séculos depois de se ter transformado numa imensa ruína perdida no tempo, há quem afirme convictamente que em certas noites do ano, quando o calor do estio se prolonga noite adentro, é possível ver, no topo da sua torre de menagem, a figura esbelta de uma cobra altiva que, com um toutiço na cabeça, vai dançando fantasmagoricamente à luz do luar!
 
E essa cobra, que a sabedoria popular diz que é uma princesa moura encantada, encaixa de forma perfeita na estória da lendária moura Salouquia cuja vida terminou de forma abrupta quando, no calor imenso das guerras da reconquista, se terá suicidado atirando-se para a morte do alto da torre do Castelo de Moura. A princesa encantada, maravilhosa na formulação que dela faz o imaginário popular, não morreu como era a sua vontade a fugir dos atacantes Cristãos que se preparavam para tomar a sua cidade. Por artes mágicas, ter-se-á transformado numa cobra ao tocar no chão e, dessa maneira, contornando a perniciosa forma da morte, fugiu rastejando através dos plainos férteis do Alentejo até Noudar, onde ainda hoje se prepara todas as noites para receber o seu noivo oriundo do território do Islão!
 
 
 
 
Qualquer que seja a verdade associada a esta história lendária, o certo é que o Castelo de Noudar, classificado como Monumento Nacional desde 1910, carrega consigo o encantamento que o deslumbre da sua monumentalidade deixa transparecer. As suas muralhas velhas, gemendo ano após ano as agruras terríveis do frio do Inverno e o calor insuportável do Verão alentejano, ainda ecoam de forma sublime as vozes avoengas dos que nos precederam, toldando com a sua aura de mistério alguma razão de que pudéssemos fazer uso quando as visitamos. A impressão causada pela antiga vila abandonada de Noudar é de tal forma grande, com o peso ancestral da sua História e das suas estórias, que se torna difícil (senão impossível) manter o discernimento do que é real naquela amálgama de emoções que o espaço transparece.
 
 
 
 
Visitar Noudar, agora que as intempéries determinaram um triste fim para as ruínas que subsistiram ao longo de tantos séculos, é recuar muitas centenas de anos no tempo, pisando de forma sensível as mesmas pedras tal como outrora outros fizeram e recuperando memórias de outras eras.
 
É, enfim, uma autêntica máquina do tempo que, com a magia própria que emana das coisas verdadeiras, representa uma experiência sensorial irrepetível, prenhe daquilo que enche a Alma de qualquer Português.

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publicado às 16:53

A Igreja de Safara e a Assunção de Nossa Senhora

por cascalenses, em 08.02.17

 

 

por João Aníbal Henriques
 
Em 1950, depois de muitos séculos de polémicas discutidas de forma aguerrida no seio da Igreja, o Papa Pio XII decreta oficialmente o dogma da Assunção de Nossa Senhora aos Céus. Pondo fim à problemática Dormição da Virgem, cujo entendimento mais antigo inferia que Nossa Senhora havia morrido naturalmente sendo posteriormente elevada para os céus, o Papa contraria a ortodoxia vigente e assume mais um dos ancestrais mistérios da Cristandade.
 
Nossa Senhora, denominada Teotóco na tradição primeva dos primeiros anos do cristianismo, numa ambígua significação que identifica simultaneamente a mulher Maria e a “portadora de Deus”, é figura maior na definição arquétipa do pensamento Português, dela emanando grande parte do “sopro divino” que orienta a Fé e a identidade do povo de Portugal. De facto, da cultualidade antiga que desemboca nos cultos marianos Cristãos, derivam grande parte das práticas rituais da Igreja Lusitana, representando tantas vezes (quase sempre em momentos cruciais da vivência religiosa Cristã) posicionamentos profundamente heréticos face àquelas que são as directrizes principais da Igreja Romana.
 
Muitos anos antes do decreto papal que determina a Assunção de Nossa Senhora, comemorada de forma simbólica no dia 15 de Agosto de cada ano, já em Portugal existia uma Fé profunda neste mistério ancestral, concretizada em obras, práticas e intenções que, mais do que fruto das desventuras do quotidiano, representavam um sólido alicerce para o corpo divino de sabedoria que sempre acompanhou a existência do País. Proliferando em todo o território nacional, em capelas, ermidas e igrejas que condicionam de forma eficaz as dinâmicas de Fé de Portugal, são muitos os vestígios arcaizantes da presença deste culto, representando a manutenção adaptada de ancestrais cultos relacionados com a fertilidade.
 
 
 
Num dos mais profundos recantos do Alentejo, ali onde a brancura do casario se assume como única arma na luta incansável contra o calor do Estio, ergue-se de forma sublime e inesperada um das mais impactantes igrejas dedicas à Senhora da Assunção. Na localidade de Safara, a poucos quilómetros de distância de Moura e de Barrancos, a pequenez cálida da pequena povoação contrasta de forma evidente com a imensidão monumental da sua igreja Matriz, num plaino de abandono da lógica que não permite perceber de imediato a razão de ser da existência de tão estranho monumento.
 
Construída de raiz algures entre 1500 e 1604, aprofundando o conceito de igreja-salão, a Igreja Matriz de Safara tem inovação de Nossa Senhora da Assunção e utiliza na sua decoração a substância primordial do Manuelino tardio Português. Austera no assumir dos valores patentes na tratadística Serliana, na qual o espaço para a humildade se compõe a partir dos valores tradicionais da arquitectura envolvente, a igreja assume o contraste entre a sua eminente monumentalidade e a pequenez antiga da povoação onde se insere.
 
Com três naves com cinco tramos que estendem o espaço de oração reservado aos fiéis, conjuga a simplicidade da sua planta com a qualidade extrema da decoração. De facto, associada à azulejaria, as paredes laterais cobrem-se de frescos polícromos pintados directamente na argamassa, em composições estranhas que lembram aos fiéis as chamas eternas do inferno final…
 
 
 
 
Submissa aos cânones de Roma, facto evidente na formulação canónica do seu espaço principal, a Igreja de Safara desenvolve abordagem de cunho onírico em várias das suas componentes. Na fachada principal, por exemplo, cruzam-se as notícias do pecado original, associado à presença da cobra que enche o imaginário colectivo da região, com o carácter arredio da simbólica da cruz quase taoista que dá forma ao corpo principal. Tendo sido constituída como Priorado da Ordem de Avis, logo no início da segunda metade do Século XII, mais se estranha esta imagética que delega no povo a responsabilidade ancestral pelo pecado e pelo apelo à sua expiação.
 
Será provavelmente essa a explicação para a incomensurável amálgama de contradições que o templo ostenta, relevando para um segundo plano a temporalidade associada a cada concretização. Tendo sido edificada sobre uma provável ermida antiquíssima que por ali já havia existido, é natural que o edifício incorpore valores estéticos e decorativos que resumem essa sobreposição, relevando assim os traços associados a uma continuidade vivencial da Fé, ao invés da sempre desagradável crispação que resulta da quebra na estrutura local de crenças e costumes. E será também essa a razão, porque a presença árabe na zona de Safara é muito evidente, que explicará alguns traços de uma anterior mesquita que terá partilhado o cunho sagrado deste importante lugar.
 
Certo é, pela observação directa daquilo que hoje vemos em Safara, que a Igreja Matriz dedicada a Nossa Senhora da Assunção parece não caber naquela localidade. Não só pela dimensão excessiva do seu corpo principal, cuja notoriedade se espraia por todo este trecho do Alentejo Interior, como pela formulação da sua composição decorativa. Assumindo a teatralidade da sua fachada recuada, como se se tratasse de um novo começo (ou de um recomeço) ao nível da nossa capacidade de interpretar a realidade que ali somente transparece, é Nossa Senhora da Assunção que, da dormição sagrada que lhe aconchegou os sentidos depois dos anos difíceis da sua travessia terrestre, se prepara para se elevar aos céus…
 
 
 
 
Da mesma forma que a morte se apresenta como o castigo latente para o pecado de todos os dias, a concepção imaculada de Nossa Senhora livram-na do flagelo da morte física, num plano de transmutação da matéria que se afigura profundamente alquímico. A Mãe de Jesus, venerada no actual território Português desde muitos milénios antes do seu próprio nascimento (?) concebeu de forma miraculosa, transformando espírito em carne e permitindo (e aceitando) que essa mesma carne se transmutasse também ela em espírito. Por isso, nada mais natural do que a elevada concepção da subida aos céus em corpo e Alma, num exercício de fruição da sacralidade extrema associada à própria existência de Nossa Senhora.
 
A Senhora da Conceição, padroeira e Rainha de Portugal, que foi concebida e concebeu sem a mácula do pecado original, contorna as leis da física e da vida para assumir a sua divindade através da capacidade de controlar de forma consciente o acto da criação com o qual a humanidade cresceu. Mas, ao contrário do que é mote na devoção popular, nunca Nossa Senhora se multiplicou nas devoções imensas que o seu povo lhe ofereceu. Pelo contrário. A evolução natural do seu estado superior, numa entrega que alcança a sublimidade maior por ser ela própria maior do que a vida e do que o próprio universo no seio do qual foi erigida, concretização pela transmutação dos seus estados de consciência, num exercício no qual Ela é sujeito passivo e totalmente entregue nas mãos e à vontade de Deus.
 
Nossa Senhora da Assunção de Safara é assim enorme. Basicamente porque só assim se pode entender a dimensão incomensurável do milagre sagrado da sua Assunção dos céus, numa prática ancestral que ficou como herética até praticamente à segunda metade do Século XX... 
 
É este o mistério maior de Portugal. E em Safara, no coração do Alentejo, ele vê-se, vive-se e sente-se. 

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publicado às 15:04

O Castelo de Arraiolos no Alentejo

por cascalenses, em 15.11.16

 

 
por João Aníbal Henriques
 
Quando se chegada à Vila de Arraiolos, num qualquer final de tarde estival, é impossível ficar imune à beleza do recorte extraordinário do horizonte que envolve a sua paisagem. Por detrás do casario, que parece ouvir-se chiar mercê do calor imenso que a inclemência do Sol teima em provocar, vislumbram-se as sombras inquietas do velho castelo medieval, erguido numa época longínqua quando Portugal ainda não sabia o quanto iria durar.
 
O Castelo de Arraiolos, prenhe de História e de histórias, ocupa o alto da colina de São Pedro que estrategicamente serve de miradouro à localidade. Ali, desde tempos imemoriais que se acoutaram homens procurando discernir e prevenir ao longe os ataques e investidas dos inimigos que a sua condição os havia feito ganhar. Foi dali, em assentamentos que a arqueologia já provou que se prolongam desde a Pré-História, que os primeiros homens se dedicaram a estudar a natureza, fermentando as ideias que hão-de gerar o sedentarismo que hoje vivemos.
 
 
 
 
As muralhas velhas que hoje ali vemos, e que testemunham os últimos anos desta história extraordinária, são originárias do Século XIII, quando o Rei Dom Afonso II efectua a doação da chamada ‘Herdade de Arraiolos’ ao Bispo de Évora. Nesse documento, provavelmente motivado pelo clima de crescente animosidade vivida com os vizinhos Castelhanos, surge pela primeira vez a menção à necessidade de ali ser construído um castelo.
 
Não se sabendo se esta ordem de construção foi cumprida, ou pelo menos em termos parciais, mas sabe-se, no entanto, que durante o reinado de Dom Dinis o monarca determina a construção de novas muralhas com o intuito de reforçar a segurança do lugar e, dessa maneira, de motivar a instalação de novos habitantes que o viessem povoar. Em 1306, o Rei concedeu à povoação uma verba de 2000 libras para o início dos trabalhos, tendo escolhido o Mestre João Simão para as planificar.
 
A confirmação do Foral de Arraiolos, no ano de 1310, veio encontrar o novo castelo já terminado, fazendo menção à existência da Igreja Matriz do Salvador, pitorescamente colocada no ponto mais alto do lugar.
 
 
 
 
No tempo de Dom João I, depois da grave crise de 1383-85, o novo Rei oferece Arraiolos ao seu braço-direito, D. Nun’Álvares Pereira, a quem é entregue o título de Conde de Arraiolos. O Condestável, firmemente decidido em contribuir para o sucesso do projectado Portugal, entrega-se ali aos desígnios do céu e será a partir da Igreja do Salvador, num acto profundamente vincado pela Fé que corporiza a sua intervenção militar, que prepara as muitas incursões que chefiará contra Castela que virão a traduzir-se de forma cabal nos mais importantes argumentos a apoiar a causa Nacional.
 
O Santo Condestável, mais tarde convertido por completo à regra do claustro, preparará em Arraiolos o seu percurso de iniciação religiosa, ali bebendo, provavelmente das fontes árabes que se foram conservando, os ensinamentos e a sabedoria que culminará na sua entrada no Convento do Carmo, em Lisboa, e na completa e total abdicação da materialidade.
 
No que concerne ao castelo, a principal nota da sua longa história prende-se com a reiterada queixa por parte dos moradores de diversas eras relativamente ao desconforto dos ventos que o fustigavam. Ainda no esplendor da Idade Média, quando as paredes estavam novas e ofereciam a segurança que a população desejava, foram muitas as queixas daqueles que alegavam ser difícil passar as noites no cimo do monte. Mesmo depois de se fecharem as portas, correndo o risco de desagradar aos moradores do espaço situado fora das muralhas que ficavam à mercê dos acontecimentos, a generalidade da população acordava em que era impossível ficar lá dentro.
 
 
 
 
Terá sido esse o motivo, aliás que terá determinado um progressivo abandono do espaço amuralhado em prol do assentamento nas imediações do castelo, formando aquilo que é a Vila de Arraiolos que hoje conhecemos. A população, transportando consigo as pedras das suas casas antigas, desce da colina em direcção à planície circundante, fazendo da nova povoação uma espécie de cópia directa do povoamento original.
 
Dentro das muralhas, no perímetro mais antigo, subsistem actualmente a Igreja de São Salvador e os restos do Paço dos Alcaides que o terramoto de 1755 acabou por arruinar definitivamente.
 
 
 
 
No início do Século XX, quando o Rei Dom Carlos visitou Arraiolos, eram já as ruínas muito destruídas do velho castelo que ele vai encontrar, não se conhecendo desde essas altura campanhas de obras dignas desse nome que tivessem o objectivo de o recuperar.
 
Arraiolos, com o seu castelo altaneiro, é hoje um dos quadros mais impressivos do Alentejo. A beleza do seu horizonte, mesclado com o colorido das casas, tem o condão de nos transportar para outras eras e para outro tempos, se sair do mesmo lugar.
 
Vale mesmo a pena passar um dia inteiro por lá!

 

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publicado às 13:51

A Ermida de São Sebastião e as Grutas Mouras do Alvito

por cascalenses, em 13.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
A origem mourisca da cultura Portuguesa, assente na recuperação de valores estéticos, artísticos e mesmo religiosos dos ocupantes maometanos que estiveram na Península Ibérica a partir do ano de 711, é ainda hoje visível em usos e costumes um pouco por todo o País.
 
No Alentejo, que durante mais tempo sentiu a influência árabe, grande parte das localidades, na sua vertente de distribuição urbanística e também na componente estética das suas casas, apresenta características desse período, integrando elementos que foram criados nessa época e fazendo o aproveitamento de técnicas de construção que os mouros delinearam.
 
No Alvito, no coração da província Alentejana, é precisamente a memória moura que determina o carácter extraordinário da povoação. Ele vive-se e sente-se em cada canto e recanto, numa profusa amálgama de pequenos detalhes que deslumbram quem ali chega.
 
No Rossio de São Sebastião, aproveitando o topónimo que o consagra, ergue-se a velha ermida com o mesmo nome e, para espanto de todos aqueles que questionam os locais sobre o que é a porta enorme que existe nas suas traseiras, uma autêntica “fábrica de mós”.
 
 
 
 
A ermida de cunho mudéjar bem definido, foi construída algures no Século XVI, sendo dessa data as primeiras referências documentais que se conhecem, provavelmente aproveitando quaisquer vestígios mais antigos que tenham subsistido do período de domínio muçulmano. Inserida no gótico final alentejano, que procura o deslumbramento de quem a visita, a ermida é um edifício simples, como o são quase todos aqueles que a pobreza que se vivia no Alentejo nessa época determinava, mas possui no seu interior um conjunto de inestimável valor de pintura mural, em forma de frescos, pintados provavelmente por José Escobar em 1611.
 
A dedicação a São Sebastião, cruzada com a localização na entrada da localidade, dever-se-á ao carácter protector deste santo relativamente às pestes. Com a colocação neste local, os seus construtores terão pensado que conseguiriam travar a entrada da peste no Alvito, ao mesmo tempo que recriavam uma barreira perante possíveis invasões que pudessem chegar daquele lado.
 
Mas o mais interessante, ainda para mais com uma datação que precede bastante a construção da própria ermida, é a existência, nas traseiras da mesma, de um conjunto vastíssimo de grutas artificiais, denominadas oficialmente como “Grutas do Rossio”. Estas galerias, escavadas na rocha-mãe que suporta os alicerces da própria ermida, surgem na documentação como sendo antigas minas de exploração de calcário no Século XIII. Mas notas documentais indirectas, que foram encontradas recentemente, apontam para a utilização dos túneis como saídas alternativas do velho castelo mouro e dos demais edifícios importantes existentes na velha vila alentejana.
 
A tradição popular, ainda hoje transmitida pelos habitantes do local a quem os visita, é que aquele é um espaço assombrado pelos mouros, sendo autênticos viveiros onde cresciam mós!
 
 
 
 
Mas nas crónicas templárias medievais, cujo conteúdo se dedica sobretudo à reconquista das terras alentejanas, o sistema de túneis do Alvito é explicado como sendo um conjunto de pedreiras onde os mouros exploravam a pedra calcária, tendo sido escavadas por mão-de-obra escravizada durante as muitas batalhas que aconteceram na região. 
 
O certo é que entre 1190 e 1191, depois de o Rei Dom Sancho I ter chegado a Silves, no Algarve, o contra-ataque mouro redobrou a sua força. Sob a liderança de Ya’qub Al-Mansur, o exército árabe terá retomado o controle de vastas áreas na região do Alentejo interior, das quais fazia parte a actual Vila de Alvito, transformando o seu castelo no ponto de referência na defesa das suas fronteiras. Em virtude dessa decisão, terão sido canalizados para ali os muitos escravos Cristãos capturados durante as batalhas, tendo-lhes sido dada a incumbência de escavar as minas e de criar os túneis que hoje conhecemos.
 
D. Frei Pedro Álvares, oitavo Mestre do Templo em Portugal, terá então liderado um ataque às posições mouras sediadas no Alvito, tendo conseguido ludibriar o inimigo e libertado a totalidade da população escrava que estava encerrada naqueles espaços subterrâneos.
 
Por isso, é ainda hoje cognominado como o “Herói do Alvito”, mantendo aquele espaço o cunho indestrutível de bastião templário de Portugal!

 

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publicado às 15:53

O Castelo de Mourão no Alentejo

por cascalenses, em 08.09.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
É extremamente impactante a impressão que produz uma primeira visita ao Castelo de Mourão. Por um lado, a inexplicável linha de horizonte, misturando os resquícios antigos da paisagem seca do Alentejo de outros tempos com os panos de água do Grande Lago, que lhe conferem a singeleza subtil de uma frescura imaginária que o corpo não sente. Por outro, o estado de imensa degradação, num laivo que roça os travos amargos do abandono  e da ruína, dando conta do enorme desprezo pelas mais importantes peças da memória e da História de Portugal…
 
O Castelo de Mourão, cuja actual construção se iniciou em 1343 com traço de Mestre João Afonso e por ordem d’El-Rei Dom Afonso IV, é uma fortificação de cariz militar situada a poucos minutos da raia fronteiriça. É, aliás, esta condição, que representa a sujeição ao clima de permanente instabilidade que resulta da sua inclusão numa zona de fronteira, que determina a sua importância, bem como muitos dos rocambolescos episódios que a constrangeram ao longo do tempo.
 
 
 
 
Essa proximidade, é também ela determinante para definir os antecedentes da história do local, uma vez que dificilmente se concebe a conflituosidade permanente que existiu neste local desde (pelo menos) a fundação da Nacionalidade, sem que nela tenha existido uma fortificação condigna. Muitas das informações existentes sobre este espaço apontam para a existência de vários momentos de construção anteriores à data apontada, sendo certo que, pela sua localização geograficamente relevante e profundamente simbólica em termos estratégicos, seja razoável aceitar que terá existido por ali alguma construção defensiva pelo menos desde a ocupação muçulmana.
 
Na primeira Carta de Foral atribuída à vila alentejana, datada de 1226, O Rei Dom Sancho II doa Mourão aos Cavaleiros da Ordem dos Hospitalários precisamente com o intuito expresso de “incentivar o seu povoamento e defesa”. Em linha com esta indicação, fácil se torna perceber a importância militar que o local possuía e a natural decisão de ali construir ou reconstruir um baluarte defensivo que pudesse contribuir para a consolidação da Causa Nacional.
 
 
 
 
De qualquer forma, existe uma lápide epigrafada colocada na Torre de Menagem, que indica expressamente a data de 1343 para a construção desta estrutura: "ERA DE MIL CCC OITENTA E 1 ANOS PRIMO DIA DE MARÇO DOM AFONSO O QUARTO REI DE PORTUGAL MANDOU COMEÇAR E FAZER ESTE CASTELO DE MOURÃO E O MESTRE QUE O FAZIA HAVIA NOME JOÃO AFONSO QUAL REI FOI FILHO DO MUI NOBRE REI DOM DENIS E DA RAINHA DONA ISABEL AOS QUAIS DEUS PERDOE O QUAL REI É CASADO COM A RAINHA DONA BEATRIZ E HAVIA POR FILHO HERDEIRO O INFANTE DOM PEDRO”.
 
Uma das histórias mais interessantes, acontecida pouco tempo antes do início das obras do castelo, decorreu em 1313, quando o Rei Dom Diniz, num esforço hercúleo para consolidar as fronteiras, entrega a Vila de Mourão a Dom Raimundo de Cardona com a indicação expressa de este não construir ali uma fortificação. Terá tal decisão resultado do facto de já existir por lá uma estrutura defensiva suficiente para os projectos reais? Ou terá somente resultado de um pensamento estratégico por parte do Rei, percebendo que era ainda volátil a linha de fronteira e que não convinha estar a construir estruturas que posteriormente pudessem vir a ser utilizadas contra Portugal? Não se sabe ao certo. Mas, como o inesperado quase sempre impera nestas terras de deslumbramento, falta dinheiro ao novo Senhor de Mourão e a opção que este toma, em claro desobedecimento à vontade do Rei, passa pela venda em leilão da vetusta vila raiana. O comprador, um tal Martim Silvestre, natural de Monsaraz, adquire Mourão pela singela importância de 11.000 Libras em 19 de Abril de 1317. Mas poucos dias depois, a 15 de Maio desse mesmo ano, o feliz comprador recebe ordem Real para que lhe revenda a vila pelo mesmo valor pela qual a comprou, determinando que Mourão tem uma importância definitiva na determinação da linha de fronteira da qual dependia a própria independência de Portugal.
 
Depois de vicissitudes diversas que dão forma ao devir histórico de Mourão, e de diversas intervenções que vão actualizando a componente militar da estrutura defensiva, o castelo vai conhecendo uma progressiva perda da sua importância estratégica, facto que se reforça depois da consolidação da restauração da independência Nacional em 1640. São dessa época a adaptação dos seus panos de muralha às novas exigência da moderna artilharia, e pouco tempo depois, a destruição visível causada pelo grande terramoto de 1755.
 
 
 
 
Daí até agora, e apesar de continuar a existir um conjunto de vestígios que vale a pena visitar, como a antiga Casa dos Guardas e os antigos Paços do Concelho, para além da velha cisterna que resiste sob os pés dos visitantes, a marca maior do Castelo de Mourão é o abandono e a ruína.
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público em Julho de 1957, só vinte anos depois, em 21 de Junho de 1977, é o castelo doado por escritura pública ao Município de Mourão pelo seu então proprietário Marcos Lopes de Vasconcelos Rosado.
 
Mas apesar disso, e de obras pontuais efectuadas para reforçar a estrutura e impedir a sua completa ruína, o Castelo de Mourão é hoje pouco mais do que um espectro semi-derruído daquilo que foi noutros tempos. Ressalva especial para o enquadramento cénico que a Barragem do Alqueva lhe trouxe e para a maravilhosa e mística paisagem que o que dele resta impõe a quem o visita.
 
Que pena Portugal não perceber a importância de um património riquíssimo como este! 

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publicado às 12:27

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Cercal do Alentejo

por cascalenses, em 01.08.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Sendo provável que o actual edifício tenha substituído um anterior espaço de culto, nada se saber sobre o que existia no local onde agora se ergue a Igreja Matriz do Cercal do Alentejo, com dedicação a Nossa Senhora da Conceição, antes do Século XVIII.
 
De facto, o templo apresenta características vincadas ao período em questão e cumpre integralmente o normativo imposto pela Ordem de Santiago da Espada para a construção deste tipo de estruturas.
Com uma tipologia assente nos princípios basilares da arquitectura vernácula Portuguesa, onde a simplicidade das linhas contrasta com a efusiva decoração rococó, a igreja prima pela sua funcionalidade bem integrada na existência eminentemente rural do Cercal do Alentejo.
 
 
 
 
Na sua fachada, marca presença a espada da Ordem de Santiago, como sempre envolvida pela sugestiva inclusão da flor-de-lis, simbolizando a pureza original e também a singeleza da existência, num ímpeto de criatividade que vem ajudar a distorcer o quotidiano agrícola da população que a frequenta.
 
Localizada no centro da povoação, reformatando a planta geral da localidade a partir do seu eixo devocional, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Cercal do Alentejo, recupera um dos mais ancestrais arquétipos da Portugalidade, assumindo a Conceição de Nossa Senhora como ponto de partir para a viagem simbólica em direcção às origens primordiais da própria humanidade. A senhora que concebe, imaculada por intervenção divina, sendo um dogma recente do Catolicismo, foi desde sempre o principal elemento propulsor da religiosidade Portuguesa, recriando mitos antigos, bem visíveis, por exemplo, na generalidade dos sítios arqueológicos megalíticos, e dando forma a uma noção do sagrado que transcende o próprio real.
 
 
 
 
Na sua origem profunda, o culto à Senhora da Conceição, rainha e senhora de Portugal, transporta-nos para as origens desconhecidas dos antigos cultos pagãos (e mesmo pré-históricos), nos quais a senhora prenha, responsável pela fertilidade das terras e das gentes, se associa sempre á dependência profunda dos ciclos agrícolas e dos desmandos da própria natureza.
 
Singela e simples, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Cercal é monumento angular que nos oferece as pistas necessárias para conhecer e compreender Portugal.

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publicado às 16:02

O Castelo e Milfontes ou Forte de São Clemente

por cascalenses, em 28.07.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Há lugares assim… únicos, especiais e irrepetíveis! É o que acontece com o conhecido Castelo de Milfontes, situado na foz do Rio Mira, em pleno centro histórico de Vila Nova de Milfontes, no Alentejo.
 
Construído a partir de um conjunto de ruínas já na segunda metade do Século XX, o edifício, com uma posição privilegiada sobre um dos mais bonitos recantos de Portugal, deslumbra quem dele se acerca há já muitos séculos. De facto, está comprovada a sua origem Fenícia, tendo sido também identificados vestígios arqueológicos dos períodos Grego, Cartaginês e Romano, durante os quais a posição estratégica do edifício era essencial para a defesa da barra do Rio Mira.
 
 
 
 
De facto, foi precisamente nos períodos de maior instabilidade marítima, quando o corso e a pirataria mais se desenvolveram, que o antigo castelo conheceu as suas principais benfeitorias. No final do Século XVI, depois de um ataque cerrado à zona costeira alentejana então sob domínio filipino, Filipe II de Portugal decide construir ali um forte de características modernas que fosse capaz de resolver o problema imenso de insegurança criado pelo fácil acesso marítimo à povoação. As obras arrancam desde logo, assim que o monarca solicita a Alexandre Massai, que nessa altura se encontrava a reconstruir o Forte de Porto Côvo, junto à Ilha do Pessegueiro, os planos para a criação de um baluarte marítimo em Milfontes.
 
O posterior assoreamento do rio e a perda da importância estratégica e comercial daquela região, complementada com a restauração da independência de Portugal e pela falta de meios humanos e técnicos para garantirem a manutenção do edifício, conduzem, como aliás aconteceu com muitos espaços de índole semelhante colocados um pouco por toda a costa Portuguesa, a um processo de progressivo abandono e desleixo. A ruína foi-se instalando e o Forte de São Clemente sobreviveu quase por milagre depois de ter sido envolvido num processo rocambolesco de vendas sucessivas quando no Século XX a república se instalou em Portugal.
 
 
 
 
Depois de ter sido vendido em hasta pública, rendendo menos de 500000 Reis ao Estado, foi novamente revendido a um novo proprietário particular que, dado o estado avançado de degradação no qual o edifício se encontrava, acabou por não ter os recursos suficientes para o recuperar.
 
Já na década de 30, mediante o perigo de desmoronamento do forte, a Câmara Municipal de Odemira ponderou a sua expropriação para posterior demolição e somente a falta de recursos por parte daquela depauperada autarquia garantiu o insucesso dessa funesta intenção. Novamente vendido a um particular em 1939, que recuperou integralmente o espaço e o adaptou a residência pessoal, foi possível devolver ao Castelo de Milfontes a dignidade que ele merece.
 
Residente em Lisboa, o novo proprietário resolve transformar o forte numa espécie de pousada turística, fazendo assim com que o Forte de São Clemente tenha sido um dos primeiros projectos de turismo rural existentes em Portugal!
 
 
 
 
Mais tarde, já em 2009, voltou a ser vendido a particulares, facto que se repetiu já em 2016, tendo estado o edifício anunciado para venda por 3.500.000,00 €! Substancialmente mais do que os 464.000 Reis de 1903…
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público e 1978, o Forte de São Clemente é hoje uma peça fulcral na identidade de Vila Nova de Milfontes, carregando uma mística que transporta consigo as emoções, os sonhos e os anseios de mais de mil anos de uma histórica muito atribulada.

 

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publicado às 17:35

A Moura Salúquia do Alentejo

por cascalenses, em 11.11.15

 

 
por João Aníbal Henriques
 
As memórias da Cidade de Moura, no Alentejo, guardam consigo o ensejo antigo da beleza e da formosura da Princesa Salúquia, filha de Abu-Hassan e noiva eterna de Bráfama, alcaide de Aroche.
 
Aos seus pés, perdido algures na brancura singela da planície, sob um manto de restolho inchado pelas águas úberes deste Outono ameno, está o tesouro antigo que os tempos fizeram questão de olvidar.
 
Quando Moura se chamava ainda Al-Manijah, Salúquia estava apaixonada por Bráfama e aguardava nervosamente no cimo da torre de menagem do castelo a chegada do seu noivo. Mas, ao contrário daquilo que deveria ter sido, os exércitos mouros foram derrotados numa breve peleja pelos audazes seguidores de Dom Afonso Henriques. E a princesa, puríssima e com o colo alvíssimo preparado para receber o seu amado, assiste perplexa à entrada encapuçada dos cristãos no recinto amuralhado onde o seu pai a havia deixado à guarda dos seus mais sérios soldados.
 
Consciente do carácter sórdido dos maus-tratos que a esperavam assim que os invasores subissem ao castelo e ciente da morte prematura de Bráfama e do seu pai, Salúquia prescindiu da vida e atirou-se do cimo da torre de menagem para o chão duro do castelo.
 
Morreu. Levando consigo o tesouro de virtude que a acompanhava e a paixão que lhe enchia a alma.
Salúquia está hoje presente no Brasão de Moura, deitada eternamente aos pés da cidade onde nasceu, onde viveu e onde se entregou de corpo e alma ao seu destino. Com ela seguem os sons ocos de uma vida radicalmente diferente daquela que hoje temos e simultaneamente igual ao devir que ainda agora constrange o dia-a-dia de todos os Portugueses.
 
Decidiu morrer ao invés de se entregar nas mãos dos Cristãos recém-chegados, impedindo-os de deleitosamente gozarem os prazeres intocados da sua imaculada existência. Mas fê-lo às mãos daqueles que a tornaram imortal, entregando-lhe muitas centúrias de vidas e sucessivas gerações de Portugueses.
 
Dizem que ainda hoje Salúquia circula por ali. Não já no corpo que entregou por amor, mas com o espírito que continua a guardar o seu segredo.
 
E nas manhãs de nevoeiro, quando toda a paisagem se cobre com a película diáfana do mistério, não são poucos aqueles que a conseguem discernir, com os seus olhos fixos no horizonte, numa espera eterna pelo amor que nunca há-de chegar a ser. Dizem também, sobretudo aqueles que vêem com os olhos da sua própria alma, que Salúquia já não é uma mulher, tendo assumido um corpo de cobra que deambula sinistramente pelo meio daqueles que a pressentem… 
 
A cobra encantada de Moura. No Alentejo.
 
 
 
 

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publicado às 12:57

A Igreja de Nossa Senhora da Soledade em Porto Côvo

por cascalenses, em 12.08.15

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Num Alentejo muito singular, no qual as planícies quase eternas se adornam com as arribas frenéticas de mar e de sal, encontramos o sítio de Porto Côvo, marcado pela brancura quase inebriante das suas casas e pelos tons fortes do azul-cobalto que dá corpo às barras que decoram as suas fachadas singelas.
 
E é de singularidade que tratamos quando entramos no Largo Marquês de Pombal, coração deste recanto único de Portugal, desenhado no Século XVIII à imagem e à semelhança da Baixa Pombalina na tão longínqua capital. Situado no coração do lugar de Porto Côvo, o largo mistura a arquitectura típica do Alentejo com os laivos de opulência de uma Lisboa de cujos ecos aqui chegam somente as inconsistências próprios da distância… Grandeza simples e uma pequenez grandiosa, recriam um cenário quase mágico a que não fica indiferente, pela sua forma, pela localização e pelas características do seu culto, a Igreja de Nossa Senhora da Soledade (ou de Porto Côvo), pontuando com a monumentalidade das grandes cidades o lugarejo de praia em que o povoado se transformou.
 
Na frontaria estão os sinais indiscutíveis da sua nascença alentejana. Os traços simples que aqui se misturam com laivos tradicionalistas do estilo neoclássico, surgem em contraponto com a grandiosidade do retábulo de talha dourada que lhe confere um toque barroco que não deixa indiferente quem a visita. 
 
A imagem de Nossa Senhora da Soledade, também ela singela na voluptuosidade das suas vestes roxas, é assim o corolário de um templo projectado no Século XVIII por Joaquim Guilherme d'Oliveira, que justifica a visita e que compõe as magníficas paisagens marítimas do lugar.
 
 

 

 
 
 

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publicado às 13:07

O Milagre Alquímico de Estremoz

por cascalenses, em 01.12.14

 

 

Existem cidades que são mais do que uma mera cidade. Estremoz, assente na brancura imaculada do seu mármore de qualidade conhecida e reconhecida internacionalmente, é um desses espaços especiais. Conjuga uma história milenar com um vastíssimo rol de histórias e lendas que, oferecendo-lhe a grandiosidade das grandes capitais, a envolvem num laivo de glamour que envolve quem tem a sorte de nela se perder.
 
por João Aníbal Henriques
 
Estremoz é uma cidade especial. Dividida em duas partes que se conjugam operando como dois pólos de atracção junto daqueles que a visitam, a cidade comporta um intrincado e emaranhado conjunto de ruelas antigas que dão forma ao seu espaço medieval, compartimentado dentro das muralhas do seu ancestral castelo, e o amplo espaço moderno, que se espraia ao longo da planície, com as suas praças bem delineadas e os monumentos que valorizam cada esquina.


 
 
Quem entra em Estremoz pela primeira vez, fica imediatamente marcado pelo impacto que resulta da sua torre medieval. Do alto da colina onde assenta o núcleo mais antigo do burgo, a torre é possivelmente o mais antigo monumento da cidade, uma vez que o palácio real, bem como todo o quarteirão envolvente, foi completamente destruído por uma misteriosa explosão acontecida durante uma noite de Inverno no Século XVII.  À sua volta, com aquele tom intimista que a cidade ainda tem, tudo o resto são reconstruções mais recentes, sendo que a grande maioria foi construída durante o reinado de Dom João V e com o apoio da Casa Real.
 
Apesar de aparentemente não fazer qualquer sentido, pois sendo cidade pequena quando comparada com as capitais de Évora, Portalegre e Beja que a envolvem, a monumentalidade e a grandeza de Estremoz prende-se com o carácter simbólico que subjaz da sua história muito especial.
 
O primeiro personagem grande da História de Estremoz, depois de uma longa ocupação humana que se pressupõe ter começado ainda na Pré-História mas que teve momentos de grande fulgor durante o período Romano e, mais tarde, sob domínio Muçulmano, é Geraldo o Sem Pavor, herói mítico do Alentejo que, sob ordens de Dom Afonso Henriques, terá reconquistado para a Cristandade grande parte das cidades do Sul de Portugal. Sabe-se que Geraldo conquistou Estremoz em 1185 e que, mercê do período conturbado que então se vivia, ela foi perdida e reconquistada muitas vezes até ter entrado em definitivo na posse dos Reis de Portugal. Em 1258, pela mão de Dom Afonso III, recebeu o seu primeiro foral, facto que sustenta e comprova a importância que tinha no contexto da consolidação política nacional.
 
De entre outros, foi Dom Dinis um dos principais impulsionadores dessa importância relativamente à cidade. Foi ele quem, possivelmente por gosto pessoal relativamente ao espaço e à paisagem, mandou edificar o Paço Real e a torre de menagem atrás mencionada, que passaram a funcionar como baluarte da defensão do reino nas paragens longínquas do Alentejo.


 
 
O seu topónimo – Estremoz – é, aliás, um repositório importante dessa situação extrema em que se encontra a cidade, localizada numa zona de fronteira e sempre sujeita às vicissitudes e às pressões que dela derivavam.
 
A Rainha Santa Isabel, ligada de forma indelével e permanente aos destinos de Estremoz, onde aliás morreu em 1336, vê reforçados os seus laços com a urbe como consequência desse facto. A sua santidade, mais do que ao milagre das rosas, que lhe dá fama, fica a dever-se ao trabalho que efectivamente fez pela paz no reino de Portugal e que, por vicissitudes diversas, a traz amiúde até estas paragens.
 
Filha do Rei de Aragão e de uma princesa Italiana, Isabel casou com Dom Dinis e sofreu em vida as amarguras de um casamento do qual parece que resultou pouca afeição. O rei, conhecido admirador do belo sexo, dedicava-se pouco à sua santa esposa e procurava amiúde o folguedo junto das damas da região. Conhecida pela sua bonomia, a rainha terá sido conivente com tal situação, recebendo no paço, onde lhes facultava condições de vida e uma educação semelhante à que dava aos seus filhos naturais, os vários bastardos reais.


 
 
O futuro Dom Afonso IV, seu filho primogénito e legítimo herdeiro do trono, foi ele próprio alvo dessa situação, dado que o seu pai, tendo preferência por um dos seus filhos bastardos, teimou em deixar-lhe por herança o reino de Portugal. O príncipe, defendendo os seus direitos, terá dado início à primeira guerra civil da nossa história, que teria sido muito mais sangrenta se não fosse a intervenção permanente da sua mãe a Rainha Santa Isabel.
 
Em 1336, a antiga rainha que havia professado em Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, onde desejava passar os seus últimos dias ajudando os pobres, vê-se obrigada a nova e derradeira viagem a Estremoz para evitar uma nova guerra do seu filho agora já rei com o seu cunhado Rei de Castela. Deixando Coimbra carregada de peste, a rainha sucumbe em Estremoz, não sem antes evitar novo derramamento de sangue e de ter deixado expressa a sua vontade de ser sepultada em Coimbra conforme havia planeado fazer.
 
O cortejo fúnebre, que se alongou durante vários dias sob o calor tórrido do Julho no Alentejo, transportou os restos mortais da rainha de Estremoz até Coimbra. O caixão, levado em ombros pelas principais personagens do reino, acabou por rebentar durante o percurso, deixando sair um líquido viscoso que se ia espalhando ao longo do trajecto. Mas, para surpresa e gáudio dos que tiveram a sorte de participar neste triste evento, o líquido que saia deixava no ar um forte aroma a flores que reforçou a aura de santidade que já se atribuía à rainha. Não se sabendo com exactidão quanto haverá de lenda e de realidade nesta história, o certo é que, muitos séculos depois, quando o caixão voltou a ser aberto quando se procedeu à transladação do corpo de Santa Clara-a-Velha para Santa Clara-a-Nova, se encontrou incorrupto o corpo da rainha, sendo que ainda hoje, quase setecentos anos depois da sua morte, se expõe a sua mão à devoção dos Portugueses.


 
 
Mas para além de Geraldo – o sem pavor, de Dom Dinis – o plantador de naus a haver, e da rainha Santa Isabel, também por Estremoz passaram outras ilustres figuras que ajudam a perceber a real importância desta cidade única de Portugal. Em 1367 morreu em Estremoz o Rei Dom Pedro I, muitos anos depois dos míticos e românticos amores com a sua eterna apaixonada Inês; Em 1385, foi Estremoz das poucas praças que sem vacilar apoiou a Causa Nacional durante a crise que levou ao trono o Mestre de Avis e que deu forma à Ínclita Geração, tendo sido dali que Dom Nuno Álvares Pereira, o Condestável Santo que fez nascer a Casa de Bragança e aquela que virá a ser a última das dinastias no trono de Portugal, saiu para as batalhas dos Atoleiros e de Aljubarrota, dando corpo a uma defesa total e intransigente do interesse Nacional. Da mesma maneira, alguns anos depois, é a Estremoz que o rei Dom Manuel I se dirige para entregar a Vasco da Gama a importante tarefa de descobrir o caminho marítimo para a Índia e de estabelecer o contacto com o Prestes João…
 
Não se percebendo bem de onde vêm tão ilustres pergaminhos, perdidos no sem-sentido que dá forma à história local, o certo é que Estremoz conjuga em si própria os encantos maiores do Sul de Portugal. Tal como o País vai sobrevivendo quase incólume às muitas desgraças que dão forma à sua história maior, também Estremoz reafirma a sua Portugalidade em torno de feitos e acontecimentos que se conjugam no plano das ideias ara dar forma ao desígnio maior da nação.
 
 
Visitar Estremoz, subindo ao amplo terraço que se encontra no topo da Torre de Menagem, é ser capaz de reviver os passos difíceis que por ali deram os nossos ancestrais avós, abarcando com a vista a amplitude infinita da paisagem alentejana. Deslumbrante e avassaladora, a brancura de Estremoz acompanha a beleza extraordinária do seu mármore que, depois de um processo alquímico associado à purificação maior das impurezas que o compõem, se transforma na pedra maior que dá forma ao que de melhor se construiu em Portugal. Está por todo o lado, nas asas, nas ruas e nos lambris dos passeios. Mostra-nos a altivez, o charme e a riqueza deste recanto mágico de Portugal.  








 

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publicado às 16:36

O Castelo de Montemor-o-Novo e a Vergonha de Portugal...

por cascalenses, em 15.01.14
 
 
 
por João Aníbal Henriques
 
Ligado, de forma perene, às memórias de Vasco da Gama e à preparação da viagem marítima para a Índia, o Castelo de Montemor-o-Novo é um dos mais emblemáticos e maiores castelos de Portugal.
 
Situado no alto e um morro sobranceiro à planície alentejana, o castelo tem uma História antiga que provavelmente se perde nas brumas antigas da pré-História. Ali terá existido um castro que foi mais tarde romanizado, transformando-se então no centro de uma das mais importantes malhas viárias do império. Nele convergiam as Estradas de Évora e Mérida e, por outro lado, as que levavam a Olissippo e ao estuário do Rio Tejo, chamando-se nessa época Castrum Malianum. É esse facto, aliás, que explica o reforço do amuralhamento primitivo da cidade, reforçando a importância estratégica da sua localização.

 
 
 
O carácter de Montemor-o-Novo reforçou-se ainda nos inícios da Idade Média quando o território foi conquistado pelos Muçulmanos. É neste período que  a cidade conhece a presença de Almansor que, mais tarde, acabaria por ficar definitivamente marcado na toponímia do local, dando nome ao ribeiro que ainda hoje corre no local.

 
 
 
Em termos de desenvolvimento urbano, a importância de Montemor-o-Novo é bem patente no rápido e fulgurante aumento da população que, extravasando as muralhas do seu castelo, rapidamente de estende pelas colinas que o envolvem. Desde meados do Século XIX, com a pacificação do território e a progressiva degradação das condições de salubridade dentro das muralhas, foi a povoação medieval quase completamente abandonada em prol da afirmação da nova cidade extra-muros.
 
No seu regresso à Portugalidade, Montemor-o-Novo  foi reconquistado definitivamente pelo Rei Dom Sancho , em 1201, depois de Dom Afonso Henriques a ter reconquistado uma primeira vez em 1160. Trinta anos depois, em 1190, a cidade foi novamente tomada pelos Árabes que aí se mantiveram até à sua expulsão definitiva.
 
Para assegurar o seu repovoamento e defesa, o rei conquistador concedeu-lhe o primeiro Foral em 1203, documento esse que foi reconfirmado pelo Rei Dom Manuel I já no Século XVI (1503).
 
 
 
 
Palco de cortes por diversas vezes, foi em Montemor-o-Novo que o Rei Dom Manuel I tomou a decisão de enviar Vasco da Gama na sua viagem marítima até à Índia, sendo, por isso, aí que reside aquela que será porventura uma das decisões mais importantes para o devir histórico da própria humanidade. Como se diria mais tarde “de Montemor-o-Novo se mudou o Mundo e as suas gentes”…
 
Foi também em Montemor-o-Novo que nasceu São João de Deus (1495-1550), fundador da Ordem dos Hospitalários que ainda hoje se encontra espalhada por todo o Mundo.
 
 
 
 
Em termos de património, foi a cidade alvo de diversas campanhas de recuperação e actualização que, para além de alterarem de forma profunda a sua paisagem, acabaram por determinar o galopante estado de degradação que o terramoto de 1755 acabaria por acentuar.
 
Apesar disso, a Praça de Montemor-o-Novo resistiu ao ataque de Junot, durante as Invasões Francesas, tendo sido quartel-general das hostes liberais durante a Guerra Civil que opôs Portugueses contra Portugueses em pleno Século XIX.
 
Classificado como Monumento Nacional desde 1951, e apesar da sua extraordinária importância na percepção de Portugal e da sua História, o Castelo de Montemor-o-Novo continua num estado de degradação que é, de todo, incompatível com as potencialidades que apresenta.
 
 
 
 
Continuamente apresentado como palco de grandes campanhas de estudo e de intervenções arqueológicas, quase sempre acompanhadas de projectos para recuperação e musealização do espaço, o certo é que as muralhas continuam a apresentar um estado de ruína e de abandono que representam uma autêntica vergonha Nacional.
 


Dentro do recinto, e para além da recuperada Igreja de Santiago, faz dó visitar as ruínas do Paço Real, da Igreja de São João Baptista ou da Igreja de Santa Maria do Bispo… Uma verdadeira tristeza… 
 
 
 

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