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A Aldeia Nova de Cascais no Alto da Bela Vista

João Aníbal Henriques, 21.03.20
 

 

 
O Cascais que conhecemos e em que hoje vivemos, resultante das grandes alterações havidas na vila a partir do último quartel do Século XIX quando o Rei Dom Luís escolheu este espaço como destino privilegiado de veraneio, esconde de forma literal todo um enquadramento histórico que deriva do processo natural de nascimento, crescimento e afirmação da urbe no contexto nacional. O Alto da Bela Vista é exemplo paradigmático desta situação, pois reúne em si mesmo um conjunto de memórias consubstanciadas em património urbano de primeira importância para Cascais, que ficou encoberto pela assimilação daquele espaço pelo perímetro histórico consolidado da vila que agora temos. Conhecer a génese histórico/urbanística do Alto da Bela Vista é, desta forma, um importante contributo para a recuperação da Memória Histórica e, por extensão, da Identidade Municipal de Cascais, reafirmando a capacidade de enquadramento dos projectos que surjam para aquele local e potenciando o seu valor enquanto factores consolidadores da cidadania local.

 

 
por João Aníbal Henriques 
 
 
 
 
A Génese do Espaço e as Memórias de Cascais
 
Ninguém sabe, de forma efectiva, onde Cascais nasceu. A urbe que hoje temos, tradicionalmente marcada pelo epíteto de “Vila de Reis e de Pescadores”, é o resultado efectivo de um enorme conjunto de acontecimentos que por aqui se desenvolveram ao longo dos séculos.
 
Sabendo-se que a ligação de Cascais ao mar é realidade inata à própria existência de aglomerados habitacionais neste espaço, o certo é que a ligação da vila aos seus ilustres pescadores nem sempre se desenhou a partir dos cenários que hoje conhecemos.
 
Nos primórdios da existência humana em Cascais, quando as primeiras comunidades deambulavam em busca de segurança e alimento, o espaço agora ocupado pela vila oferecia condições excepcionais de habitabilidade.
 
O mar, fonte praticamente inesgotável de alimentos, assegurava praticamente ao longo de todo o ano, o sustento necessário à sobrevivência humana. E, se o clima e a paisagem eram (e são cada vez mais) paradisíacos, faltava assegurar somente uma dessas componentes básicas que dão sustento a existência de comunidades humanas: o abrigo e a segurança perante ataques e intempéries.
 
Mas neste campo, possivelmente diferenciando Cascais das demais enseadas arenosas e desérticas que abundavam na região, possui no seu subsolo um conjunto de grutas e cavidades que, furando a pedra calcária que dá forma ao nosso solo, formam um vasto complexo de cavernas que apresentavam excelentes condições de acesso e habitabilidade.
 
 
 
 
Torna-se fácil perceber, desta maneira, a razão de ser de ter sido provavelmente nas actuais Grutas do Poço Velho, situadas no sopé do morro da Bela Vista, que Cascais nasceu efectivamente. E de, nesses tempos imemoriais do Paleolítico, terem sido ocupadas por caçadores-recolectores que naturalmente utilizavam o mar como sua fonte principal de alimentos.
 
Cascais nasceu ali, há dezenas de milhares de anos atrás, a partir do binómio que ainda corporiza o inconsciente colectivo da grande maioria dos Cascalenses: o Sol e o Mar, definindo na sua lógica de desenvolvimento urbano uma componente que vincula ambas as realidades perante a necessidade maior de oferecer qualidade de vida a todos os seres humanos que ali se instalaram e que escolheram este como o local ideal para viver.
 
Suficientemente afastadas do mar para poderem salvaguardar a segurança desejada mas, ao mesmo tempo, próximas o suficiente para serem acessíveis no labor quotidiano, foi no espaço das Grutas do Poço Velho que nasceram as primeiras comunidades piscatórias locais. Foi também ali, a partir dos pressupostos atrás elencados, que nasceram e se criaram as técnicas, as práticas e os conhecimentos que aproximam Cascais do mar até à actualidade.
 
A consolidação e a sedentarização destas primeiras comunidades humanas na génese do território Cascalense inicia então um processo de paulatina aproximação física ao mar e às praias. O desenvolvimento de conhecimentos na área das construções e a pacificação que resultou do processo de Neolitização, tornou possível virar costas aos abrigos naturais proporcionados pelas grutas e optar por formas de abrigo mais precárias e melhor posicionadas relativamente ao mar. Nascem assim os primeiro aglomerados pré-urbanos, possivelmente localizados em torno da Baía de Cascais, a partir da construção de casas feitas com materiais perecíveis e cujos vestígios não chegaram naturalmente até à actualidade.
 
Na época Romana, na qual a urbanidade já tinha atingido outros níveis de conhecimento, já encontramos vestígios arqueológicos de ocupação humana na actual zona do castelo, de cara voltada para o mar mas ainda assim aproveitando o desnível do terreno para assegurar alguma segurança suplementar (ver as Cetárias Romanas situadas na Rua Marques Leal Pancada), ao mesmo tempo que o espaço antigo das velhas grutas de outros tempos vai ficando olvidado.
 
 
 
 
 
Durante muitos séculos a vida de Cascais recentrou-se em volta da Baía. Era ali que se situavam as velhas cabanas abarracadas onde pernoitavam os pescadores que aqui chegavam, era também ali que se situavam as indústrias de salga e conserva de peixe que tornaram próspero o lugar.
 
Utilização e Usufruto
 
Mas como nada é linear na História de Cascais, importa perceber que a concentração de esforços e o assentamento das primeiras comunidades na actual zona junto ao mar, não representou necessariamente o abandono dos velhos espaços. Pelo contrário.
 
Nas Grutas do Poço Velho e, de forma muito progressiva nas encostas do morro da Bela Vista, foram ficando pequenas comunidades humanas que trabalhavam e rentabilizavam esses espaços.
 
A primeira notícia que temos desta realidade situa-se precisamente junto à entrada nas Grutas do Poço Velho numa das ruas que dá acesso às mesmas para quem vinha da zona saloia situada no triângulo verdejante e próspero que liga a Serra de Sintra ao mar. Na pequeníssima e quase desconhecida Capela de Nossa da Conceição de Porto Seguro, está ainda hoje uma placa votiva que refere que o templo e o hospício que lhe estava anexo foi construído em 1691por Paschoal Dias e Maria da Costa, originários de Oeiras e que ofereceram esse espaço aos Frades Capuchos  de Santa Cruz da Serra de Sintra.
 
E por ali, contrariamente ao que hoje se sabe, consolidou-se um núcleo de povoamento dependente do apoio social proporcionado pelo hospício e, concomitantemente, pelo amparo espiritual da invocação maior que Nossa Senhora da Conceição represente em Cascais e em Portugal…
 
 
 
 
De tal forma foi importante esse povoamento do local, demonstrando a documentação existente que houve efectivamente um afastamento real entre esse espaço e o da consolidação urbanística da Vila de Cascais e seus arrabaldes, que já no Século XIX, quando a Corte escolhe a vila como estância de veraneio, Francisco Marques Leal Pancada, um benemérito Cascalense também relacionado profissionalmente com a conservação do peixe, adquire a capela e o hospício e efectua amplas obras de conservação e restauro.
 
É importante não esquecer que foi precisamente Leal Pancada que, tempos depois, oferece à população de Cascais o terreno onde virá a ser construído o Hospital dos Condes de Castro Guimarães, situado mesmo em frente ao local onde se situava o Campo Santo e o cemitério principal da localidade.


 
 

A Vila Nova de Cascais, por ironia do destino localizada precisamente sobre o local onde Cascais nasceu, cresceu assim com uma dinâmica própria e a pujança de um local que detinha meios próprios de subsistência. Sendo um arrabalde da vila propriamente dita, preservou a sua identidade e consolidou a sua importância no crescimento e consolidação geral da vida Cascalense.
 
Memórias e Identidade
 
Na caracterização da unidade urbanística que resulta do devir histórico da Aldeia Nova de Cascais e do próprio Alto da Bela Vista, importa recuperar muita da informação presente no “Levantamento Exaustivo do Património Cascalense” (Fundação Cascais: 2000) onde se elencavam cada casa e cada detalhe com relevância para a compreensão deste importante núcleo Cascalense.


 
 
As peças que hoje restam, para além do aglomerado habitacional que foi sendo construído a partir da criação do velho hospício e da Capela de Porto Seguro, ambos peças-chave para compreender e contextualizar eventuais intervenções futuras a realizar naquele espaço, cingem-se tão somente aos detalhes arquitectónicos que sobreviveram às agruras impostas pelos novos tempos e pelas novas necessidades. As cantarias das portas e das janelas, muitas delas com decoração singela em memória de realidades que não existem já, foram reutilizadas em processos de demolição e reconstrução sucessivas que por ali se foram fazendo. E na divisão dos lotes, mesmo com as contrariedades impostas pelo emparcelamento, ainda é possível encontrar os vestígios daquele que foi o Cascais primordial de outros tempos, com as suas courelas e pequenas quintas, os velhos currais de gado e até as actividades de apoio à vida quotidiana no coração da vila.


 
 
Esta vertente “saloia” da Aldeia Nova, o local onde se produzia muito daquilo que se consumia na vila de então, foi-se consolidando com o desenvolvimento industrial. Em primeiro lugar, logo ali ao lado, a Real Fábrica de Lanifícios de Cascais e, mais adiante, a Fábrica de Conservas de Peixe que ajudou a definir a margem direita da ribeira. O hospício, que entretanto foi evoluindo para um verdadeiro hospital (e cujo edifício ainda lá se encontra transformado em espaço residencial), era destino eminente para os mais pobres e desfavorecidos da sociedade de então. Convergiriam para ali os que tinham menos posses e meios, sendo certo que pescadores e mareantes ali encontravam o consolo físico e espiritual para os males que os afectavam.
 
Será eventualmente por isso que, a título de explicação, se mantém a ligação perene entre o mar e este arrabalde “longínquo” do centro de Cascais onde, aliás, se situava o cemitério onde encontravam os pescadores o seu eterno descanso. Possivelmente por isso igualmente, e parecendo pôr em causa toda a lógica e discernimento, ali é construído em época mais recente o “Bairro de Nossa Senhora dos Navegantes” (vulgo Bairro dos Pescadores) que, até há muito pouco tempo era cenário de velhos barcos esventrados ou em operações de reconstrução, pousados em pequenos terrenos cheios de redes e apetrechos velhos de pesca.


 
 
Enquadramento Urbanístico
 
A apreciação de operações urbanísticas neste espaço, natural por sabermos que o envelhecimento do espaço determina necessariamente a sua recuperação, actualização e modernização, deveria ter em conta esta identidade própria do Alto da Bela Vista e a sua importância efectiva na definição daquilo que ainda hoje é Cascais.
 
O enquadramento dos futuros projectos nesta realidade, bem como a rentabilização das memórias patrimoniais que ali subsistem, ajuda a qualificar as intervenções e, desta forma, consolida a Identidade Municipal e promove a memória colectiva.
 
Interpretar desta maneira a realidade que temos em linha com as pré-existências dos diversos lugares, assegura aos que projectam nos mesmos condições ímpares para reforçarem igualmente a sua atractividade e, por extensão natural, o valor intrínseco dos empreendimentos e espaços.
 
Por esse motivo ganha redobrada importância a proposta de requalificação do edifício situado na Rua da Bela Vista, cuja Certidão Urbanística foi discutida na última reunião de Câmara. Toda e qualquer intervenção efectuada no âmbito do contexto urbanístico e patrimonial que seja sinónimo de melhoria da qualidade dos edifícios, e que o faça sem desvirtuar o seu enquadramento genérico na realidade local, é contributo decisivo para o reforço da vocação turística municipal, sendo que esta, conforme está plasmado no próprio Plano Director Municipal, deverá ser resultando de um acréscimo na identidade dos moradores e frequentadores do local.


 
 
O potencial educativo e pedagógico do Alto da Bela Vista, tal como acontece em tantos outros cantos e recantos de Cascais, é imenso. É ali que reside a possibilidade de as novas gerações criarem laços e vínculos perenes com quem os antecedeu na ocupação deste espaço. Só assim, com esses laços bem evidentes e com uma abordagem politicamente consciente desta importância, será possível fazer crescer Cascais com qualidade, motivando os equilíbrios sociais com as necessidades de prosperidade e empreendedorismo, e zelando por um reforço efectivo da Identidade Municipal, essencial para uma cidadania consciente e, em última instância, para uma democracia saudável.


 
 
Conclusão
 
A Aldeia Nova de Cascais é uma realidade desconhecida de quase toda a gente. E esse facto, associado aos naturais processos de rejuvenescimento dos nossos espaços habitacionais consolidados, acaba por fazer perder potencialidades que um conhecimento enquadratório daquela realidade almejaria alcançar.
 
Compreender a razão de ser daquele espaço, os motivos que levaram a que tivesse chegado até nós com as características que nele reconhecemos e as potencialidades imensas que possui para a definição da qualidade que todos desejemos para Cascais, ajuda os técnicos que formulam e apreciam os projectos para aquele lugar, os professores e educadores das escolas locais, os políticos que decidem os destinos da nossa terra, e até o cidadão comum que pretende construir ali (ou reconstruir) a sua casa, a tomar as decisões que melhor correspondem aos interesses de todos os Cascalenses.
 
Porque sem consciência de quem somos, de onde viemos e para onde vamos, as discussões acabam naturalmente por perder-se nos interesses mais mesquinhos e imediatos, delas resultando pouco mais do que uma pequena peça na engrenagem imensa com que o sistema político que temos nos constrange.
 
 
Porque como dizia Pedro Falcão no seu “Cascais Menino”, este é “o Cascais com que sonhamos”. 
 
 

O Forte das Velas na Praia do Abano em Cascais

João Aníbal Henriques, 17.12.18

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Só existe um adjectivo com a abrangência suficiente para descrever de forma capaz o popularmente designado Forte do Abano, situado a Norte da Praia do Guincho, em pleno Parque Natural Sintra-Cascais: incrível!
 
Sendo um momento singelo de raiz militar, semelhante tipologicamente a tantos outros existentes ao longo da nossa linha de costa e construído especificamente para garantir a segurança do território Nacional perante eventuais investidas marítimas dos nossos muitos inimigos, é único na sua relação com o espaço e com o enquadramento cénico que lhe dá forma.
 
 

 

 
 
A sua localização, num promontório rochoso entre as Praias do Guincho e do Abano, plena e permanentemente fustigado pela fúria das ondas do mar e pelo vento que chega agreste e forte vindo da Serra de Sintra, confere-lhe um impacto sem par na paisagem. À sua volta, no contraste permanente entre o azul do mar, o branco das nuvens e o verde forte das encostas que dali seguem até à Peninha, a vista alonga-se através de um dos mais inesquecíveis cenários do Concelho de Cascais, potenciando a sua presença e reforçando a sua importância estratégica na definição da vocação turística municipal.
 
Incrível também porque, até contextualizando o monumento na sua mera função figurativa enquanto esteio promocional do turismo desta região, o estado deplorável de abandono, vandalismo latente e degradação acentuada, representa um autêntico atentado ao património de Cascais, dos Cascalenses e mesmo de Portugal.
 
 
 
É totalmente inconcebível que num país como Portugal e num Concelho como o de Cascais, nos quais a projecção da importância do sector turístico é tão grande, seja possível deixar que desleixadamente este tipo de equipamentos se vá perdendo por incúria, desleixo e desinteresse das entidades públicas,  perdendo não só todo o valor cultural que a ele está inerente, como também todo o enorme conjunto de potencialidades económicas, empresariais, culturais, patrimoniais, educativas e outras que o mesmo apresenta. É inconcebível e intolerável que o Estado Português, responsável tutelar pela salvaguarda dos valores que os Portugueses lhe deram à guarda, permita que este tipo de peças patrimoniais chegue a este estado de abandono, não efectuando sequer o mínimo esforço para garantir que os mesmos estão fechados e inacessíveis aos vândalos que os vão degradando.
 
 
 
E infelizmente, este não é caso único, nem singular em Cascais e em Portugal! Intolerável e incrível!
O Forte das Velas, sendo peça integrante no esforço efectuado depois da Restauração da Independência Nacional em 1640, faz parte de um complexo de vários fortes que cruzavam fogo sobre as principais enseadas marítimas de Cascais, recriando uma cortina que visava impedir desembarques indesejados nas principais praias do concelho.
 
 

 

 

 
 
Com a volumetria tradicional da sua época, o também designado Forte do Abano foi construído em 1642 por ordem de D. António Luís de Castro, Conde de Cantanhede e Governador da Praça de Cascais, e inicialmente guarnecido por sete peças de artilharia pesada.
 
Classificado como Imóvel de Interesse Público através do Decreto 129/77, de Setembro de 1977, foi alvo de várias obras de requalificação e adaptação ao longo dos anos, que lhe conferiram o aspecto que hoje apresenta.
 
Na componente de alojamento, teria inicialmente três corpos cobertos virados a Este, protegidos da força do mar pelo terraço onde se instalava o grosso da artilharia, e terá sido reformado em meados do Século XIX, quando o desenvolvimento de novas técnicas militares possibilitou a libertação de algum do espaço de aquartelamento, perdendo o corpo central que foi substituído por um pequeno terraço a céu aberto e pela nova cisterna de captação de água corrente.
 
 
 
 
Da estrutura inicial são ainda de salientar as duas chaminés de aquecimento dos corpos de alojamento situados junto à entrada, vandalizadas possivelmente de forma irrecuperável em época recente, bem como a estrutura de transporte e captação das águas para o seu espaço de armazenamento.
 
Com o enquadramento cénico único propiciado pelo espaço onde se encontra, o Forte das Velas é uma das peças patrimoniais que mais interesse desperta junto dos muitos milhares de veraneantes e passeantes que frequentam a Praia do Guincho, que quase sempre sobem o espaço da encosta para o observar mais de perto.
 
 
 
 
Sobre a porta da entrada, praticamente ilegível debaixo do Escudo de Armas Português, a placa comemorativa da sua inauguração desperta o gracejo dos que o visitam. Em acentuada degradação e em estado de ruína eminente, é simultaneamente um tesouro precioso e um perigo imenso, com a acessibilidade privilegiada que tem cruzada com a falta de controle de quem por ali transita.
 
Resta pouco tempo de vida ao Forte das Velas. Até porque para além do vandalismo a que está sujeito quotidianamente, os próprios elementos se encarregam de o ir destruindo.
 
Com o seu desaparecimento e paulatina degradação perde Cascais, perdem os Cascalenses e todos os Portugueses. Incrível que seja assim!
 
 

A Via-Rápida de Cascais: Vícios Suburbanos numa vila (ainda) especial...

João Aníbal Henriques, 26.04.17

 

 
 
A inauguração do CascaisVilla, em Novembro de 2001, representou o culminar de uma verdadeira revolução urbanística em Cascais. A substituição da antiga Rua Padre Moysés da Silva, com os seus saudosos relvados sempre bem cuidados, pela nova Avenida Dom Pedro I, com o seu perfil de via rápida em pleno coração da vila, inverteu por completo a urbanidade de Cascais, transformando drasticamente a velha e charmosa urbe em mais um moderno e incaracterístico subúrbio de Lisboa.
 
A nova porta de Cascais, encabeçada pelo popularíssimo “Titanic”, foi projectada para facilitar a entrada de automóveis na vila, deixando para segundo plano as preocupações com os peões e com o carácter antigo desta vila tão especial. As quatro filas de trânsito paralelas, atravessadas somente por quatro míseras passadeiras de peões, promovem a velocidade automóvel e dividem literalmente a velha povoação em duas partes desiguais.
 
Os semáforos foram pensados para deixar os nervos em franja a qualquer incauto passeante. O intolerável tempo de espera para os peões, aliado à falta de sincronização entre as passagens, faz com que a travessia da avenida demore tanto tempo que a maior parte das pessoas acaba por corajosamente atravessar com sinal encarnado pelo meio dos carros. Quando colocados perante a morosidade dos semáforos, os estrangeiros que ali chegam pela primeira vez e todos aqueles que não conhecem este pesadelo suburbano de Cascais, concluem geralmente que estes estão avariados e também eles empreendem a perigosa passagem…
 
E como se tal não fosse suficiente, decidiu-se juntar à confusão uma espécie atabalhoada de central de camionagem que, localizada no piso inferior do centro comercial, usufrui de um acesso literalmente encaixado à força e de forma abastardada no projecto inicial, criando uma zona de trânsito semi-condicionado e muito inseguro que poucos percebem e que ajuda a fomentar a precariedade de todo o espaço.
 
 
 
 
Mas, não bastando o carácter inusitado de toda esta situação, o recém-aprovado PDM de Cascais, ainda promove o agravamento da situação (Ver AQUI). Os parâmetros urbanísticos previstos para este local, ao invés de reverterem a situação e de devolverem a Cascais a dignidade urbana própria que a vila merece, multiplicam este carácter suburbano, potenciando o aumento da construção.
 
Poder-se-ia dizer que toda esta situação poderia ser facilmente resolvida a bem de Cascais e da sua população. E é verdade. Mas, embora as críticas sejam muitas e o rebuliço partidário se acenda a cada 4 anos, o certo é que ninguém ousou fazer as coisas de maneira diferente.
 
A Vila de Cascais, que durante muitas décadas foi local de charme e de reconhecida qualidade urbana e comercial, vem-se transformando aos poucos em mais um subúrbio desinteressante e incaracterístico de Lisboa. Os danos colaterais, bem visíveis no paulatino desaparecimento do comércio tradicional e no aumento da insegurança urbana, afectam a qualidade de vida de todos os Cascalenses, comprometendo a vocação turística municipal.
 
Mas, ao que parece, é mesmo esta a infeliz opção…  
 
 
 
 
Passadeiras? Para peões?...
 
As quatro passagens de peões existentes nesta via-rápida são insuficientes e foram desenhadas para potenciar o tráfego automóvel. O tempo de espera para peões, agravado com a falta de sincronização das mesmas, faz com que para muitos a única opção seja o atravessamento com luz encarnada, pondo em risco a sua vida e a daqueles que circulam nos carros. É intolerável!

 

Dom Diogo de Menezes – Heróis & Traidores em Cascais

João Aníbal Henriques, 20.03.17

 

 
 
Entre 1580 e 1640, Portugal atravessou um dos mais negros períodos da sua História e Cascais desempenhou um papel essencial neste triste episódio. A traição do então Senhor de Cascais, que num acto hediondo vendeu a Nossa Terra à Coroa Espanhola, contrastou com a coragem heróica com a qual D. Diogo de Menezes defendeu Portugal. Pagou muito caro pela sua lealdade e foi indignamente executado na Cidadela de Cascais em 1580, deixando atrás de si uma lenda de glória que o tempo não vai conseguir destruir…
 
por João Aníbal Henriques
 
A perda da independência nacional, em 1580, foi um dos episódios mais negros da História de Portugal. Fruto da imberbe actuação do Rei Dom Sebastião no Norte de África, e dos muitos interesses que desde sempre corporizaram o poder político Português, o país mergulhou na sua maior crise de sempre, entregando o trono de Portugal ao usurpador Espanhol.
 
Apesar do então Senhor de Cascais ser traiçoeiramente partidário das pretensões de Filipe II de Espanha, o povo de Cascais não hesitou em apoiar a causa de Dom António, Prior do Crato, participando activamente na sua aclamação como Rei de Portugal. Até à implantação da república, em 1910, manteve-se na toponímia Cascalense uma homenagem sublime ao monarca Português, consubstanciada numa “Rua D. António I”, representando simbolicamente o leal apoio de Cascais à Causa Nacional.
 
 
 
 
Nessa altura crítica, quando o Rei Dom António escolhia os seus mais fiéis e bravos apoiantes para defender Portugal do avanço das tropas Espanholas, D. Diogo de Menezes, que tinha sido Governador de Ormuz e Vice-Rei da Índia, foi nomeado General e colocado como Comandante da Fortaleza de Cascais.
 
Soldado experiente e bem preparado, D. Diogo de Menezes organizou as suas parcas forças de forma a assegura a inexpugnabilidade da fortificação Cascalense perante o ataque Espanhol. E, quando no dia 27 de Julho, o Duque d’Alba desembarca em Sesimbra, Cascais estava a postos para defender Portugal.
 
Mas o Senhor de Cascais, acompanhado da sua cáfila de meia-dúzia de traidores, empenha-se em entregar aos invasores informações detalhadas sobre a defesa da terra, permitindo ao Duque d’Alba desembarcar inesperadamente na Lage do Ramil, junto ao Farol da Guia. E, não satisfeito com a sua traição, organiza a corja que o acompanha de forma a conseguir abrir as portas da fortaleza, onde D. Diogo de Menezes defendia activamente a Causa Portuguesa.
 
Derrotado pela diferença abissal de forças entre o seu pequeno contingente Cascalense e a enormidade do exército Espanhol, Diogo de Menezes é capturado depois de uma batalha renhida e terrível e invoca as leis da honra e da cavalaria para, em conformidade com a sua alta posição hierárquica dentro das tropas do Rei Dom António, o deixarem regressar a Lisboa para ajudar o monarca. Mas o invasor Espanhol, num acto que subverte a própria honra militar, manda executar o herói Português na própria parada da fortaleza…
 
 
 
 
Conta o historiador espanhol António de Herrera  y Tordesillas que “eram quatro da tarde e estava a praça apinhada de piques e arcabuzes alemães, e no meio dela via-se o cadafalso, onde o sangue nobre ia sujar os brasões de um dos maiores de Espanha, fazendo-o expiar as nódoas estampadas pela venialidade de haver esquecido quem era e o que devia aos seus antepassados e ao reino de Espanha”…
 
E na mesma linha, sublinhando a dignidade heróica de D. Diogo de Menezes na defesa corajosa da liberdade de Portugal, Ferreira de Andrade não hesita em indicar a traição do Senhor de Cascais como um dos actos mais ignóbeis da nossa História, em linha com a falta de dignidade e de honra que caracterizou a decisão brutal do Duque d’Alba: “Assim morreu nesta vila de Cascais um dos mais nobres e honrados fidalgos de então, pelo crime horrendo de ser Português. Uma mancha de sangue marcaria para sempre, como um estigma de ignomínia, os gloriosos feitos do grande general de Filipe II”.
 
D. Diogo de Menezes, heróico defensor da Portugalidade, morreu em Cascais a lutar ao lado dos Cascalenses pela defesa da independência de Portugal.  A sua memória, parte maior da Memória de Cidadania desta Nossa Terra, é pilar estrutural da Identidade Municipal.
 
Promover a memória dos seus feitos e a coragem que demonstrou ter na defesa de Portugal, é assim obrigação de Cascais, onde o seu sangue jorrou perante o desespero dos Cascalenses de então. Porque dos ecos da sua grandeza se retiram lições fundamentais para preparar o futuro das próximas gerações…

A Igreja de Nossa Senhora dos Remédios em Carcavelos

João Aníbal Henriques, 16.03.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
O orago de Nossa Senhora dos Remédios remete-nos para as memórias mais ancestrais da humanidade De facto, a Senhora que cura e cuida dos seus filhos, reminiscência simbólica das práticas de sociabilização que acompanham o nascimento do conceito de família, tem o seu apogeu nos primórdios do período Neolítico, quando os primeiros assentamentos humanos abandonam nomadismo e adoptam estilos de vida marcados pela sedentarização.
 
A Senhora dos Remédios, que o lendário Português associa directamente aos perigos e perseguições sofridas pelos primeiros Cristãos durante o descalabro que acompanhou a queda do Império Romano, é assim simultaneamente a histórica Mãe de Jesus e a figura épica da Senhora da Conceição, eixo primordial da Fé e da espiritualidade antiga naquele que é hoje o território de Portugal. A ligação estreita entre ambos os oragos, num displicente apelo à figura que centra em si a capacidade de apoiar o ser humano nesta sua aventura terrena, conjuga-se nas práticas Cristãs como repositório dos valores absolutos da bondade inequívoca e da entrega total à vontade de Deus, consubstanciado de forma completa no papel desempenhado por Nossa Senhora enquanto cadinho alquímico da transformação da divindade pura em carne e em sangue.
 
 
 
 
É, pois, o sofrimento geral que acompanha a vida humana neste recanto inóspito do fim-do-mundo romano, marcado pela angústia que resulta da dúvida sistemática em relação ao que o futuro nos reserva e à incerteza em relação à vontade de Deus, quem determina a devoção ancestral que liga a Senhora dos Remédios a Carcavelos, num pleito de harmonia profunda entre as vicissitudes próprias da antiga comunidade rural que subsistia neste local e os ventos mais recentes de um impulso regenerador e progressista que os tempos recentes vieram trazer. Remedia Nossa Senhora aqueles que são ais desafortunados…
 
A faceta saloia de Carcavelos, dependente em permanência da terra e das instáveis vontades da natureza, recria uma forma muito própria de viver a espiritualidade. Aqui, mais do que em qualquer outro local da periferia de Lisboa, sente-se no ar a dúvida permanente entre o valor da matéria e o bem geral da comunidade… Será isso, possivelmente, o que explica a decoração singela da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, na qual a nave única se enche da policromia própria dos painéis azulejares do Século XVI, prescindindo da opulência vistosa dos dourados barrocos que algum tempo depois hão-de transformar-se na principal marca dos templos e das igrejas de Portugal.
 
 
 
 
Mas, se no Século XVI, foi a génese saloia e rural da actual Freguesia de Carcavelos, quem determinou a estrutura do templo, obviamente enquadrado naquilo que eram as práticas arquitectónicas comuns na sua época, a partir daí foram muitos os problemas que vieram a afectar a igreja, condicionando a sua formulação e até a própria implantação no espaço, naquele que é o coração da localidade.
 
De facto, pouco tempo depois da sua construção, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios foi bastante danificada pelo terramoto de 1755. E se, noutros lugares, a recupeação foi possível e decorreu de forma célere, em Carcavelos o processo foi moroso e difícil, em linha com a pobreza que nessa altura caracteriza aquele espaço. Ao longo do Século XVIII e, mais tarde, durante todo o Século XIX, a situação financeira da Igreja e da Paróquia de Carcavelos foi-se agravando, ao ponto de, por ocasião da implantação da república, a igreja ter sido encerrada por falta de recursos. E daí por diante, mercê da laicização progressiva da sociedade e das influências republicanas sentidas nesta zona Nascente do Concelho de Cascais, a situação foi-se agravando ainda mais, ao ponto de a igreja ter sido mesmo transformada numa escola depois de ter sido desmantelado e vendido todo o seu recheio.
 
Mas a devoção a Nossa Senhora dos Remédios, a senhora que ajuda quem dela mais precisa, acabou por ser determinante na história da própria localidade. Logo depois da implantação da república, é o administrador do Concelho de Cascais quem toa a iniciativa de defender o património da igreja, proibindo a retirada e a venda dos seus painéis de azulejo. E é também ele quem, ao proteger os bens daquele importante templo, recria as condições essenciais para que mais tarde se recupere a paróquia e o culto seja devolvido a Carcavelos.
 
 
 
 
Em termos iconográficos, como consequência da história associada à Ordem Hospitalar da Santíssima Trindade, que foi a principal responsável pelo orago de Nossa Senhora dos Remédios, a imagem devocional da igreja apresenta uma Nossa Senhora com o menino no braço esquerdo e uma bolsa de dinheiro na mão direita. Cumpria-se, assim, a ajuda da Virgem aos seus devotos, numa entrega de bens que suprem as necessidades mais prementes daqueles que a Ela apelam. E a Senhora dos Remédios, remedei-a assim os mais necessitados, num desapego perante a materialidade que é essencial no percurso espiritual daqueles que seguem o seu exemplo.
 
Será certamente este valor potencial que determina a amplitude devocional em Carcavelos. Dentro da igreja, venerados pelos paroquianos, existe uma outra imagem de Nossa Senhora, esta feita do Carmo, que complementa em termos simbólicos a força que emana no órgão principal. Nossa Senhora do Carmo, possivelmente denotando a relação com o Convento do Carmo existente desde o Século XVI em Cascais, apresenta-se com o escapulário próprio da ordem e representa a total entrega à vontade de Deus.
 
 
 
 

 

A visita à Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, em Carcavelos, é pois o sinónimo desta entrega absoluta à divindade. A singeleza da sua formulação estética, marcante do estilo chão que sempre caracterizou a via em Carcavelos, impõe-lhe uma beleza sem par. Vale a pena, desta maneira, passar os antigos portões de Carcavelos e visitar esta igreja tão especial. 

Manuel Possolo e as Memórias Profundas de Outros Carnavais em Cascais

João Aníbal Henriques, 23.02.17

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Quando Manuel Possolo nasceu, em 1910, Cascais enfrentava um dos maiores desafios da sua história. A implantação da república, pondo fim à relação afectiva que a vila possuía com a Família Real, condicionou o desenvolvimento da localidade, exigindo imaginação e uma imensa capacidade de adaptação para que os novos tempos mantivessem incólume o registo de qualidade que até aí tinha sido apanágio de Cascais.
 
Mas a Nossa Terra esteve à altura do desafio. Marcando de forma extraordinária os novos tempos de Portugal, Cascais foi capaz de se reinventar, recriando uma nova geração de Cascalenses que souberam honrar a herança dos antepassados, ousando singrar um caminho novo ao qual dedicaram a sua vida e que foi essencial na definição da nossa nova identidade.
 
José Florindo de Oliveira, Boaventura Ferraz, Armando Vilar, Fausto Figueiredo e Abreu Nunes foram alguns dos vultos maiores desta época grandiosa. A vocação turística de Cascais, que a marca “Estoril” dignamente representou, assentava no carácter único desta terra especial e na dinâmica empresarial dos seus primeiros promotores. Mas entre eles, com uma capacidade visionária e um espírito empreendedor fora do usual, estava alguém que marcou definitivamente o futuro municipal…
 
Manuel Possolo foi um dos mais activos membros da sociedade civil Cascalense. Enquanto director da Sociedade Propaganda de Cascais, foi um dos fundadores do Clube Naval de Cascais e um dos entusiastas que deu corpo às inúmeras iniciativas de propaganda da vila, nomeadamente os concursos de montras, os bailes de angariação de fundos para construção do hospital e da praça de toiros e os corsos de Carnaval.
 
 
 
 
A sua paixão pelos cavalos, que começou com a transformação do fosso da Cidadela numa espécie de picadeiro que servia para treino hípico, culminou com a realização de muitas dezenas de concursos de saltos que transformaram os Estoris numa das referências hípicas mundiais.
 
Foi ele quem viabilizou a cedência de uns terrenos que pertenciam ao Visconde dos Olivais, para ali se construir um moderno e magnífico hipódromo onde decorreu, em 1937, o primeiro grande concurso hípico de Cascais. A qualidade do seu trabalho foi reconhecida em 1961, quando o Presidente da República o agraciou com a Medalha de Mérito Desportivo, assumindo a importância que teve na promoção internacional de Cascais através da fama de excelência e do prestígio que os concursos hípicos que organizava traziam para a Costa do Estoril.
 
Quase esquecido da generalidade dos Cascalenses, que recentemente viram uma parte substancial dos terrenos do hipódromo transformados num inusitado parque de estacionamento (!), a memória de Manuel Possolo perdura singelamente na designação oficial do equipamento que criou: “Hipódromo Municipal Manuel Possolo”.
 
Faleceu no Carnaval de 1979 e a sua memória cruza-se com a Memória Colectiva e com a própria Identidade Municipal.
 
A bem de Cascais!

Armando Vilar – A Força e a Determinação dos Grandes Cascalenses

João Aníbal Henriques, 21.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Cascais sempre foi uma terra especial e diferente. O seu charme resulta da sua inesquecível paisagem e dos extraordinários recantos que tem, mas também do carácter extraordinário das suas gentes. Mas esta diferença, visível nos grandes e nos pequenos acontecimentos que compõem o devir quotidiano da vila e do concelho, assenta na força, na determinação, na coragem e num amor inequívoco por Cascais por parte de alguns munícipes diferentes.
 
Desde 1364, quando Dom Pedro I a libertou do jugo administrativo de Sintra, que Cascais foi tendo figuras ímpares que, por amor a esta Nossa Terra, se entregaram totalmente à defesa das suas gentes. Alguns eram ricos, outros nem tanto; alguns eram politicamente poderosos, outros eram a antítese disso; alguns possuíam apelidos importantes, outros construíram-nos nestas terras; mas há algo que os define a todos de forma abrangente: a devoção por Cascais e pelos interesses dos Cascalenses.
 
Neste início de mais um Inverno, quando os dias de Natal já estão tão perto, dedicamos a nossa homenagem especial a um dos maiores Cascalenses de sempre. Armando Penin Gomes Vilar, nascido em Cascais em 1889, foi durante muitas décadas a pedra angular sobre a qual se construiu o Cascais em que vivemos.
 
Neto de João Gomes Vilar, o proprietário da conhecida Escola do Arco, que se situava na rua que acedia à Praia da Ribeira através de um arco ali existente, Armando Vila fez parte de uma as mais marcantes gerações de Cascalenses. Do seu grupo de colegas que frequentavam a escola do avô, faziam parte João de Avelar Lopes, que mais tarde fundaria o Registo Civil, Guilherme Cardim, fundador da tipografia com o mesmo nome que durante muitas décadas imprimiu quase tudo o que se produzia nesta terra, e Joaquim Nunes Ereira, fundador do Casino Estoril.
 
Foi aliás este último, que explorava uma casa de jogo situada junto ao mercado velho, quem desafiou Armando Vilar para uma sociedade que haveria de mudar radicalmente a face do velho burgo Cascalense. Depois de lhe ouvir contar os problemas que estava a ter na Câmara Municipal onde trabalhava como amanuense, Nunes Ereira propõe-lhe a criação de uma sociedade com o objectivo de explorarem o jogo nos casinos existentes no Monte Estoril. Juntamente com Guilherme Cardim, Joaquim Ereira e João Aranha, Armando Vilar reorganiza então o jogo no Casino Português, no Casino Internacional do Monte e, mais tarde, depois de arrendarem a Fausto Figueiredo o direito à exploração do jogo no Estoril, no primeiro casino construído no Parque Estoril.
 
A Sociedade Estoril Plage, ainda hoje existente e primeiro motor da actual Marina de Cascais, do Golfe do Estoril, das Termas do Estoril e de vários dos mais emblemáticos hotéis da região, nascia assim dando corpo ao desenvolvimento da marca internacional ‘Estoril’ e com ela ao nascimento da vocação turística municipal de Cascais.
 
Tendo sido dinamizador do Casino Estoril, Vilar foi um dos mais activos dirigentes da Junta de Turismo do Estoril, na qual, com Abreu Nunes, deu forma a várias décadas de propaganda que levaram a todo o Mundo o prestígio do Estoril e cujo sucesso marcou definitivamente o assumir de Cascais como principal gerador do turismo Português. Nesse âmbito, foi também fundador e Presidente da Sociedade Propaganda de Cascais, do Clube Naval de Cascais e de muitas outras instituições da sociedade civil.
 
 
 
 
Mas não foi só no jogo que Armando Vilar contribuiu para a construção da Nossa Terra. Depois de ter adquirido a Quinta das Patinhas e uma parte substancial dos terrenos situados no Vale da Ribeira das Vinhas, Armando Vilar recentrou as suas atenções no apoio aos mais desprotegidos e a todos os desfavorecidos pela sorte que abundavam nesta terra.
 
Conselheiro Municipal durante muitos anos, intervindo directamente na política de requalificação da habitação dos mais humildes cascalenses, foi um dos impulsionadores do movimento que levou à construção dos primeiros bairros sociais de Cascais que, com mote bem diferente do que hoje temos, pretendiam assegurar condições de vida condignas a todos os munícipes através de campanhas de sensibilização e recolha de fundos que envolviam todos os Cascalenses.
 
Na sua faceta social, foi um dos mais marcantes provedores da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, onde durante mais de duas décadas tudo fez para dotar a vila de toda a espécie de equipamentos. Foi a sua entrega à defesa intransigente de Cascais que permitiu a construção da Praça de Touros, do Hospital dos Condes de Castro Guimarães, e de muitas escolas, creches e equipamentos de apoio aos mais desfavorecidos que literalmente mudaram a face do Cascais do seu tempo.
 
Quando faleceu em 1989, já com cem anos feitos, Armando Vilar era ainda um dos mais activos defensores da Nossa Terra. Garboso no seu porte de grande senhor de Cascais, continuava a intervir amiúde na defesa dos interesses das suas gentes, mantendo a coragem e a força que tinha utilizado quando tinha vinte anos para orientar esta terra.
 
Armando Penin Gomes Vilar deixou-nos há já 27 anos mas, em cada canto e recanto de Cascais subsistem as memórias extraordinárias de quem ele foi e daquilo que fez. Apesar de ter sido agraciado com várias distinções importantes, como a Comenda da Benemerência, o grau de Oficial da Ordem de Cristo, a Medalha de Dedicação da Cruz Vermelha Portuguesa ou a Comenda de Mérito Civil de Espanha, importa relembrar às gerações vindouras a importância que teve na definição da Memória Colectiva e da Identidade Municipal dos Cascalenses.
 
No seu inultrapassável “Cascais Menino”, Pedro Falcão referia-se a Armando Vilar dizendo que “era de gente desta que nós precisávamos para orientar e defender a Nossa Terra…
 
E tinha razão. Cada vez mais à medida em que os anos vão passando.
 
A bem de Cascais!
 

A Capela de Murches na Lenda de Santa Iria

João Aníbal Henriques, 16.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Sendo certa que é ancestral a origem do culto devocional a Santa Iria, também conhecida como Santa Irene, na localidade de Murches, em Cascais, não se conhecem com exactidão os seus primeiros passos. Sabe-se, no entanto, que o culto se estende ao período pré-Cristão, profundamente marcado pelo devir agrícola e pastoril das comunidades antigas que viveram no actual território Cascalense, e paulatinamente adaptado às circunstâncias e à passagem do tempo.
 
A actual Capela de Murches, com o seu estilo chão e inserida na tipologia própria das construções de génese rural, será provavelmente do Século XVI ou XVII, tendo sofrido alterações menores a partir de meados do século seguinte. Mas, apesar disso, e tal como acontece com todos os pontos axiais da religiosidade municipal de Cascais, terá provavelmente reaproveitado o local sagrado onde foi construída, ocupando o espaço onde teria existido um templo anterior. Ainda é possível ver, no remate da fachada Norte do edifício actual, os vestígios desses reaproveitamentos e, embora sem a monumentalidade que a ruralidade local impede, serão resultado do isolamento em que Murches, desde tempos remotos, sempre sentiu em relação à sede e ao litoral do Concelho.
 
É, no entanto, a ruralidade agro-pastoril das terras de Murches, que marca de forma indelével a evolução social nesta localidade e a devoção religiosa das suas gentes a Santa Iria. A dependência dos ciclos da natureza, complementada com a pobreza dos solos e uma existência de base pastoril na qual a transumância assume especial importância, determinaram a ligação à Santa de Tomar, que protege o gado, garante os mananciais de água e defende aqueles que dependem dela.
 
 
 
 
De acordo com a lenda, Santa Iria terá nascido em Tomar, algures em tempo indeterminado, filha de um casal nobre da antiga Nabância. Com um rosto maravilhoso e uma beleza verdadeiramente incandescente, Iria desde cedo foi assediada por toda a espécie de homens da região, a todos tendo resistido estoicamente com a mesma perseverança. Questionada por seus pais acerca de quem iria escolher, a jovem responde que é sua intenção entregar-se totalmente a Deus e fazer votos num mosteiro ali existente, virando definitivamente as costas ao Mundo e às suas gentes. Mesmo duvidando das suas palavras, os pais da menina fizeram-na entrar no mosteiro de monjas beneditinas existe em Sélium, onde se cumpriu a sua suprema vontade.
 
Mas o Mundo, que Iria quis esquecer durante os dias e noites de mortificação passadas dentro das paredes frias do mosteiro, nunca esqueceu a beleza extraordinária da rapariga e, apesar dos seus votos, foram muitos os que continuaram a tentar conquistá-la, mesmo se para isso tivessem de assaltar o espaço e deturpar o odor de santidade que se sentia lá dentro.
 
O mais assíduo dos seus apaixonados terá sido um tal Britaldo, galante senhor da região de Tomar, que tudo terá feito para seduzir a jovem monja. Ela, no entanto, nunca cedeu à tentação e, reforçando a sua Fé, foi sempre afastando este e outros admiradores que permanentemente cercavam o mosteiro.
Farto de tanto assédio, e certo de que a paz interna só seria reposta com a saída da rapariga, o Monge Remígio, Director Espiritual de Iria, deu-lhe a beber um medicamento preparado com ervas que tinha como objectivo fazer-lhe inchar a barriga e, dessa maneira, criar o pretexto para a sua expulsão do mosteiro. E assim aconteceu. Iria adoeceu gravemente e, apesar da sua inocência, foi deitada porta fora e sujeita às inclemências do tempo e da natureza e, mais importante ainda, às investidas maldosas de todos aqueles que desejavam desposá-la a ela.
 
 
 
 
O nobre Britaldo, quando soube da expulsão de Iria e do seu estado de gravidez, não acreditou na sua inocência e, despeitado por ter sido preterido perante outro qualquer pretendente, mandou assassina-la e atirar o seu corpo às águas do Rio Nabão.
 
Muitos séculos depois, durante o reinado de Dom Dinis, terá sido a Rainha Santa Isabel, a alquimista, quem encontrou os restos mortais da pobre mártir nabantina. O corpo da menina, tendo sido transportado pela corrente até ao Rio Zêzere, e dali até ao grosso causal do Rio Tejo, foi encontrado pela Rainha Santa durante uma das suas estadias no Ribatejo.  E, para sua surpresa e gáudio de todos, o corpo de Santa Iria estava totalmente incorrupto, preservado pelas areias do rio e pela vontade de Deus. O local onde o corpo foi encontrado passou a chamar-se Santa Iria e a grande cidade que existia nas redondezas tomou o nome de Santarém (corruptela de Santa Iria – ou Santa Irene).
 
 
 
 
Profundamente ligada aos cultos pagãos da água e da fertilidade a ela associada, Santa Iria transforma-se na figura angular sobre a qual se procede à cristianização de grande parte das mais importantes zonas do actual território Português. Nabanus, a divindade pagã que dá nome à Nabância onde a santa nasceu, relaciona-se precisamente com o poder regenerador das águas e com a sua ligação espiritual à purificação da humanidade, factor que rapidamente se estende, por intervenção directa da Rainha Alquimista de Portugal, a outras zonas do País. Em Fátima, por exemplo, o local onde Nossa Senhora apareceu em 1917 chama-se Cova da Iria e, em Cascais, é nas margens da Ribeira da Marmeleira, principal veio de água que desce da Serra da Lua – Cynthia - para saciar Cascais, que a dita capela com dedicatória à santa acaba por ser erguida.
 
Santa Iria de Murches, a divindade antiquíssima cuja intercessão garante água e fertilidade aos Cascalenses, é assim motivação maior para uma visita a um dos recantos mais encantados do Concelho de Cascais, num preito de homenagem a uma Identidade cujas origens se perdem nas brumas do tempo.
 

O Forte de São Pedro da Poça no Estoril

João Aníbal Henriques, 15.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
Tal como acontece com os restantes fortes e fortificações construídos na linha defensiva da Costa do Estoril, o Forte de São Pedro da Poça, situado a Poente do Vale da Poça, junto ao edifício dos antigos banhos, apresenta uma localização privilegiada num ponto no qual a importância estratégica no cruzamento de fogo com os seus congéneres se alia a uma paisagem profundamente impactante e deslumbrante.
 
E, infelizmente, tal como acontece com os restantes, encontra-se num estado de ruína inaceitável, com a sua importância patrimonial posta em causa pela incúria das entidades ditas competentes.
 
 
 
 
Construído depois da Restauração da Independência Nacional em 1640, numa estratégia de refortificação da entrada marítima de Lisboa, o Forte de São Pedro foi projectado pelo Arquitecto Mateus do Couto, utilizando como planta o desenho geral utilizado noutras fortificações de características semelhantes. As obras, que decorreram entre o dia 5 de Abril de 1642 e o início de 1643, compuseram o espaço a partir do estabelecimento de uma cortina de artilharia que atravessava a praia e estabelecia a protecção cruzada necessária perante qualquer desembarque tentado pelas forças Espanholas em terras de Portugal.
 
O pátio central, que distribuía o espaço interno de forma muito simples, cumpria a dupla função de facilitar o acesso às diversas frentes do forte, ao mesmo tempo que assumia a sua componente residencial, oferecendo um espaço ao ar livre para usufruto de quem ali morava.
 
 
 
 
Depois de vários períodos de semi-abandono, que exigiam novas obras de remodelação, o forte atingiu uma situação de pré-ruína em meados do Século XIX. Mas, durante a Guerra Civil, readquiriu uma parte da sua importância estratégica e, nesse âmbito, foi novamente remodelado de forma a adaptar-se às modernas técnicas militares desse tempo. É desse período, numa obra que muitos consideram nunca ter sido acabada, o paiol que se localizava no piso subterrâneo e a linha de fuzilaria que ligava o forte ao seu congénere da Cadaveira, do outro lado da praia.
 
Depois de vicissitudes diversas, que passam pela sua entrega à Santa Casa da Misericórdia e o seu posterior arrendamento à sociedade que explorava os Banhos da Poça, foi o forte transformado em casa de chá, já em 1954, por iniciativa da Junta de Turismo de Cascais e, mais tarde, na primeira discoteca Portuguesa.
 
 
 
 
Congregando em torno da sua imagem, um dos recantos oníricos dos Estoris, que para ali convergiram de forma massiva durante os agitados anos 60 do Século XX, o Forte de São Pedro foi paulatinamente perdendo as suas características militares de que agora só restam as suas duas guaritas. Na fachada virada a nascente, completamente desvirtuada pela intervenção de adaptação às funções turísticas atrás mencionadas, a bateria que cobria a praia foi substituída por uma inestética parede de vidro que se encontra actualmente emparedada e totalmente destruída por actos de vandalismo. Aberto o interior, está também ele em avançado estado de degradação, sendo virtualmente impossível perceber se existe alguma possibilidade de ser recuperado na sua formulação espacial original.
 
O Forte de São Pedro da Poça, no Estoril, situa-se no coração da mais antiga e pujante região de turismo de Portugal. A evidência da sua localização, perto a praia, do paredão e da entrada nobre do Estoril, faz convergir na sua direcção o olhar de todos aqueles que por ali passeiam e, mais grave ainda, o dos milhares de turistas que procuram na Região do Estoril o charme de outros tempos.
 

 

Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1977, o seu abandono e estado de ruína eminente é, em termos da memória de Cascais e da Identidade Municipal dos Cascalenses, um autêntico crime que lesa os interesses deste concelho. Inadmissível nos tempos em que vivemos!
 
 
 

A Casa Sommer em Cascais

João Aníbal Henriques, 12.12.16

 

 
 
por João Aníbal Henriques
 
 
Parte integrante do imaginário urbano da Vila de Cascais, a Casa Sommer, no espaço da antiga Parada, é uma das peças mais importantes e significativas do património cascalense. Em estado avançado de degradação há demasiados anos, foi adquirida pela Autarquia e adaptada para instalar o Arquivo Histórico Municipal. Na sua futura função de guardiã das memórias municipais, mas também enquanto elemento singular na definição da Identidade Cascalense, a Casa Sommer é um excelente exemplo do que pode e deve fazer-se nesta Nossa Terra.
 
 
Romântica pelo seu enquadramento urbanístico nos terrenos fronteiros à antiga Parada de Cascais e neoclássica pela formulação arquitectónica que compõe a sua fachada e estrutura decorativa, a Casa Sommer, em Cascais, é um dos monumentos mais significantes na definição do que foi a Vila no período em que foi edificada.
 
Mandada construir por Henrique de Sommer, algures entre o final do Século XIX e o início do Século XX, o imóvel acompanha em termos estéticos a evolução dos modelos construtivos que caracterizaram a Vila de Cascais durante essa época. Apesar do seu cunho cenográfico, a casa repõe uma linha arquitectónica mais séria e funcional que vai esbatendo progressivamente os cunhos oníricos do romantismo de alguns anos atrás.
 
O apelo aos valores do classicismo, bem visíveis, por exemplo, no pórtico de entrada da moradia, traduz as alterações que estavam a acontecer no paradigma social do Cascais de então. Depois da instalação do Rei Dom Luís e da Corte, em 1870, que trouxe para Cascais aqueles que virão a ser os alicerces de uma nova sociedade em Portugal, as casas e os espaços públicos passam a desempenhar um papel importante enquanto elementos de afirmação e reconhecimento social. Com a chegada do novo século, associado à indefinição política que virá a servir de mote para a posterior implantação da república, cria-se um espaço alternativo no qual se encaixam os valores renovados de uma elite empreendedora para quem o sangue mais não é do que elemento que ajuda a reforçar o seu reconhecimento funcional.
 
O sucesso empresarial de Henrique Sommer, profundamente ligado à indústria do ferro e dos cimentos, enquadra-se já numa nova dinâmica de modernização do País, alheia aos valores antiquados que haviam servido de mola propulsora ao nascimento do Cascais Real. A casa que mandou construir num dos mais nobres locais da vila, cenograficamente impactante, é por isso um misto de testemunho e de prova, sustentando aquele que virá a ser o devir histórico que alterará profundamente a vida de Cascais, abrindo caminho para o despertar dos primeiros movimentos nacionalistas e para o nascimento da posterior vocação turística municipal.
 
A afirmação, num contexto em que a componente familiar assume primordial importância, surge associada de forma muito próxima aos critérios de construção utilizados na época, facto que explica a singularidade deste edifício no contexto patrimonial da vila de Cascais.
 
 
 
 
Numa época em que Cascais assiste impávido à destruição paulatina dos seus principais valores patrimoniais, com a desagregação dos núcleos urbanos identitariamente fundamentais, como é o caso do Monte Estoril e dos principais núcleos rurais que ainda subsistem no território municipal, a recuperação da Casa Sommer é uma excelente notícia que, contrariando a prática em curso, defende a memória local e promove a identidade municipal.
 
Resta esperar que este bom exemplo se transforme no cadinho que dará forma às muitas intervenções que num futuro próximo vão acontecer na Nossa Terra.